Por Luciana
Rodrigues (*)
O Brasil atravessa uma transformação
histórica na medicina. Pela primeira vez, as mulheres são maioria entre os
médicos em atividade no País: representam 50,9% do total, segundo a Demografia
Médica 2025. Em 2010, eram 41%, e a tendência é de crescimento contínuo — até
2035, devem alcançar 56% da força de trabalho médica.
O avanço numérico reflete maior
acesso a formação, ampliação de oportunidades e mudança cultural
importante. No entanto, os dados revelam um descompasso: a presença feminina
cresce, mas a igualdade de condições ainda não acompanha esse movimento.
Hoje, menos de 30% dos cargos de liderança
na medicina são ocupados por mulheres. Em hospitais, universidades e entidades
de classe, médicas ainda enfrentam barreiras para ascender profissionalmente.
Relatos de assédio moral e sexual persistem, assim como dificuldades para
conciliar carreira e responsabilidades familiares — desafio que continua
recaindo de forma desproporcional sobre elas.
A desigualdade de gênero impacta
diretamente a qualidade da medicina. Ambientes diversos são mais inovadores,
produzem decisões mais equilibradas e refletem melhor a sociedade. Ignorar esse
cenário é limitar o potencial do sistema de saúde.
Foi diante dessa realidade que a Associação
Médica Brasileira criou a Comissão Nacional em Defesa dos Direitos do Trabalho
da Mulher Médica (Conadem), voltada ao enfrentamento de questões como equidade
salarial, combate ao assédio, garantia de condições adequadas durante gestação
e amamentação e estímulo à presença feminina em cargos de liderança.
A mudança já era visível nas universidades.
As mulheres representam a maioria entre os estudantes de medicina desde a
década passada: eram 53,7% em 2010 e chegaram a 61,8% em 2023. O futuro da
profissão já tem rosto majoritariamente feminino.
O desafio agora é transformar presença em protagonismo,
influência e poder de decisão. Para isso, é fundamental ampliar a produção de
dados, fortalecer políticas de inclusão e construir ambientes mais justos.
Valorizar a mulher médica não é apenas atender a uma demanda da categoria, mas
fortalecer o sistema de saúde e melhorar a assistência prestada à população.
(*) Pediatra
e Vice-presidente da Associação Médica Brasileira.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 16/05/2026.
Opinião. p.22.

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