Por Carlos Roberto Martins
Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)
O arquipélago é longe, distante dos olhos e
da compreensão. Sua história, para muitos, permanece desconhecida. Atravessa o
tempo como um desconforto silencioso. Não se alcança facilmente a dimensão do
absurdo.
Os "Gulags" modernos já não
precisam de ilhas ou campos congelados. O medo tornou-se mais eficiente do que
as antigas grades. Hoje, aprisiona-se sem muros aparentes. A violência
contemporânea raramente se manifesta apenas pela força física; ela se instala
no medo e no constrangimento permanente, na sensação de impotência. Tem raízes
nas heranças familiares, tradições políticas e sociais que se reproduzem de
geração em geração.
A insistência contínua do poder cria a
impressão de mudança. Promessas são repetidas até adquirirem aparência de
verdade. E talvez plantar esperança também possa ser uma forma sofisticada de
ilusão. Do latim illudere: ludibriar, fazer troça de alguém.
Foi assim que comecei minha reflexão de
domingo. Talvez o único momento em que permito ao pensamento sem amarras,
conduzido por livros, músicas, memórias e antigos textos. Uma espécie de
reencontro com a infância, quando literatura, poesia e rebeldia conviviam
naturalmente.
Vivo no Ceará, terra que usa a ironia
contra si mesma como forma de suportar o sofrimento, que produz poesia mesmo na
escassez: "Sei que aí dentro ainda mora um pedacinho de mim; um grande
amor não se acaba assim". Mas também uma terra marcada por estruturas de
poder persistentes, que apenas trocam de roupa ao longo do tempo, sem jamais
abandonar os velhos acordos.
Aqui, o "mecanismo"
frequentemente encontra aceitação na subserviência secular imposta ao
nordestino. De tempos em tempos surgem novas narrativas salvadoras, novos
discursos, promessas que parecem convincentes no início — tudo dentro de uma
única existência humana.
Escutei atentamente cada uma delas. Ouvi
justificativas pragmáticas, discursos cuidadosamente construídos para explicar
a realidade. Não sou ingênuo. Não acredito em fadas. Sei que gente é gente,
submetida às circunstâncias, à sobrevivência e às conveniências. Nesse
processo, quase tudo se justifica.
Até a religião, por vezes, serve para
anestesiar consciências e acomodar meias verdades. Ainda assim, considero-me um
homem de fé. Creio no aperfeiçoamento espiritual como força capaz de construir
futuros melhores para as próximas gerações. Mas isso não me impede de
reconhecer a maldade, suas múltiplas formas e sua capacidade de retardar a
evolução humana.
Apesar de tudo, continuo sonhando. Não no
imediatismo, mas no tempo longo da natureza e da história.
Enquanto isso, que venham mais poesias,
mais críticas e mais coragem. Talvez assim ainda seja possível acreditar que o
nordestino continua sendo, antes de tudo, um forte.
(*) Médico. Professor da UFC.
Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.
Fonte:
Publicado In: O Povo, de 16/05/2026.
Opinião. p.23.

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