terça-feira, 16 de junho de 2026

Os nossos "Gulags" de cada dia

Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

O arquipélago é longe, distante dos olhos e da compreensão. Sua história, para muitos, permanece desconhecida. Atravessa o tempo como um desconforto silencioso. Não se alcança facilmente a dimensão do absurdo.

Os "Gulags" modernos já não precisam de ilhas ou campos congelados. O medo tornou-se mais eficiente do que as antigas grades. Hoje, aprisiona-se sem muros aparentes. A violência contemporânea raramente se manifesta apenas pela força física; ela se instala no medo e no constrangimento permanente, na sensação de impotência. Tem raízes nas heranças familiares, tradições políticas e sociais que se reproduzem de geração em geração.

A insistência contínua do poder cria a impressão de mudança. Promessas são repetidas até adquirirem aparência de verdade. E talvez plantar esperança também possa ser uma forma sofisticada de ilusão. Do latim illudere: ludibriar, fazer troça de alguém.

Foi assim que comecei minha reflexão de domingo. Talvez o único momento em que permito ao pensamento sem amarras, conduzido por livros, músicas, memórias e antigos textos. Uma espécie de reencontro com a infância, quando literatura, poesia e rebeldia conviviam naturalmente.

Vivo no Ceará, terra que usa a ironia contra si mesma como forma de suportar o sofrimento, que produz poesia mesmo na escassez: "Sei que aí dentro ainda mora um pedacinho de mim; um grande amor não se acaba assim". Mas também uma terra marcada por estruturas de poder persistentes, que apenas trocam de roupa ao longo do tempo, sem jamais abandonar os velhos acordos.

Aqui, o "mecanismo" frequentemente encontra aceitação na subserviência secular imposta ao nordestino. De tempos em tempos surgem novas narrativas salvadoras, novos discursos, promessas que parecem convincentes no início — tudo dentro de uma única existência humana.

Escutei atentamente cada uma delas. Ouvi justificativas pragmáticas, discursos cuidadosamente construídos para explicar a realidade. Não sou ingênuo. Não acredito em fadas. Sei que gente é gente, submetida às circunstâncias, à sobrevivência e às conveniências. Nesse processo, quase tudo se justifica.

Até a religião, por vezes, serve para anestesiar consciências e acomodar meias verdades. Ainda assim, considero-me um homem de fé. Creio no aperfeiçoamento espiritual como força capaz de construir futuros melhores para as próximas gerações. Mas isso não me impede de reconhecer a maldade, suas múltiplas formas e sua capacidade de retardar a evolução humana.

Apesar de tudo, continuo sonhando. Não no imediatismo, mas no tempo longo da natureza e da história.

Enquanto isso, que venham mais poesias, mais críticas e mais coragem. Talvez assim ainda seja possível acreditar que o nordestino continua sendo, antes de tudo, um forte.

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 16/05/2026. Opinião. p.23.


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