domingo, 21 de junho de 2026

Amar em Comunhão: a força dos primeiros passos

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

Em um tempo marcado por relações frágeis e vínculos muitas vezes efêmeros, a proposta do movimento Amare, idealizado por mim, surge como um convite profundo à solidez do amor vivido a dois.

Há dez anos no Ceará, o movimento acolhe casais nos primeiros anos de união — até sete anos — reconhecendo nesse período um dos mais desafiadores da vida conjugal. É justamente nesse tempo inaugural que se moldam as bases do diálogo, da escuta, do perdão e da perseverança, elementos indispensáveis para que o amor não se desgaste diante das inevitáveis provas da convivência, nem se perca diante das pressões externas do mundo contemporâneo.

A inspiração encontra eco no magistério da Igreja, especialmente na Amoris Laetitia, na qual o Papa Francisco ressalta que o amor no matrimônio é um caminho de construção contínua, feito de pequenas escolhas diárias. Ele recorda que os primeiros anos exigem paciência, maturidade e, sobretudo, enraizamento espiritual — um tempo em que o casal aprende a sair de si para acolher o outro, a transformar diferenças em aprendizado e a cultivar a unidade sem anular a individualidade, construindo assim uma comunhão verdadeira.

Caminhar com a Igreja, nesse contexto, não é apenas frequentar celebrações, mas permitir que a graça divina permeie as realidades concretas da vida a dois: os conflitos silenciosos, os sonhos partilhados, as limitações humanas e as conquistas que se tornam testemunho. Ao viver em comunidade, os casais descobrem que não estão sós — há outros que também enfrentam dúvidas, crises e recomeços. E é justamente nesse espelho do outro que Deus se revela, sustentando, curando e orientando cada passo, fortalecendo o vínculo conjugal com esperança renovada.

Mais do que um movimento, o Amare se configura como um verdadeiro itinerário espiritual e humano, no qual o amor conjugal é educado, amadurecido e fortalecido. Em tempos de dispersão e imediatismo, ele resgata a beleza de permanecer, de reconstruir quantas vezes forem necessárias e de compreender que o matrimônio, quando vivido à luz do Evangelho, torna-se não apenas um compromisso, mas uma vocação viva, fiel e renovada todos os dias, sustentada pela graça e pela presença constante de Deus. 

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.

Fonte: O Povo, de 2/05/2026. Opinião. p.22.


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