Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)
Em um tempo marcado por relações frágeis
e vínculos muitas vezes efêmeros, a proposta do movimento Amare, idealizado por
mim, surge como um convite profundo à solidez do amor vivido a dois.
Há dez anos no Ceará, o movimento acolhe
casais nos primeiros anos de união — até sete anos — reconhecendo nesse período
um dos mais desafiadores da vida conjugal. É justamente nesse tempo inaugural
que se moldam as bases do diálogo, da escuta, do perdão e da perseverança,
elementos indispensáveis para que o amor não se desgaste diante das inevitáveis
provas da convivência, nem se perca diante das pressões externas do mundo
contemporâneo.
A inspiração encontra eco no magistério
da Igreja, especialmente na Amoris Laetitia, na qual o Papa Francisco ressalta
que o amor no matrimônio é um caminho de construção contínua, feito de pequenas
escolhas diárias. Ele recorda que os primeiros anos exigem paciência,
maturidade e, sobretudo, enraizamento espiritual — um tempo em que o casal
aprende a sair de si para acolher o outro, a transformar diferenças em
aprendizado e a cultivar a unidade sem anular a individualidade, construindo
assim uma comunhão verdadeira.
Caminhar com a Igreja, nesse contexto,
não é apenas frequentar celebrações, mas permitir que a graça divina permeie as
realidades concretas da vida a dois: os conflitos silenciosos, os sonhos
partilhados, as limitações humanas e as conquistas que se tornam testemunho. Ao
viver em comunidade, os casais descobrem que não estão sós — há outros que
também enfrentam dúvidas, crises e recomeços. E é justamente nesse espelho do
outro que Deus se revela, sustentando, curando e orientando cada passo,
fortalecendo o vínculo conjugal com esperança renovada.
Mais do que um movimento, o Amare se
configura como um verdadeiro itinerário espiritual e humano, no qual o amor
conjugal é educado, amadurecido e fortalecido. Em tempos de dispersão e
imediatismo, ele resgata a beleza de permanecer, de reconstruir quantas vezes
forem necessárias e de compreender que o matrimônio, quando vivido à luz do
Evangelho, torna-se não apenas um compromisso, mas uma vocação viva, fiel e
renovada todos os dias, sustentada pela graça e pela presença constante de
Deus.
(*) Sacerdote jesuíta e
mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do
Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.
Fonte: O Povo, de 2/05/2026.
Opinião. p.22.

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