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terça-feira, 21 de abril de 2026

TJA MAIS BONITO PRA CHOVER

Por Izabel Gurgel (*)

O espetáculo nos altos. No térreo, o público de pé olha em direção ao primeiro andar da edificação que, ao lado do Theatro José de Alencar, sediava, então, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Vizinhos, TJA e Iphan.

Ambas em movimento, cena e plateia aqui citadas se realizaram há pouco mais de dez, doze anos. Era programação do Zé de Alencar. O Theatro havia completado cem anos em 2010. Há décadas já existia com uma dimensão para além do desenho do Theatro que Fortaleza inaugurou em 1910. A peça teatral acolhida pelo vizinho Iphan foi um dos modos que o Zé de Alencar fez uso, sobretudo pós-segundo restauro, finalizado em 1991, para estar em interlocução com o pensamento, a imaginação, a necessidade dos dias atuais.

Como tudo que é vivo, que se quer vivo, o que chamamos TJA não cessa de mudar.

Até o comecinho da década de 1970, o Theatro era "só" a edificação histórica, os dois blocos mediados por um pátio. O da fachada, todo em alvenaria, e o da sala de espetáculo com estrutura metálica. Sai de cena o vizinho do outro lado, instituição pública ligada à saúde. A área recebe o que se tornou a primeira versão do jardim, já um projeto do escritório do paisagista Burle Marx.

Em janeiro de 1991, reabre restaurado, com um outro desenho de jardim, a caixa cênica tinindo de nova, com mais amplitude e equipada, bastidores com qualidade de uso para trabalhadoras, trabalhadores. O campo das artes é canteiro de obra. Chão de muito serviço. A inserção da "cortina de vidro" talvez seja uma das mudanças melhor sentidas pelo público. Tornou possível o fechamento que permite a climatização da sala de espetáculos sem comprometer a visualização do monumento.

O TJA aguarda um restauro integral. Será o seu terceiro. Quando do segundo, existia a ideia de desapropriar a quadra onde está o TJA, deixando-o abraçado por jardins, áreas livres, com passagem direta para a Casa Juvenal Galeno; contemplado com espaços de estudo, pesquisa, guarda de acervos etc., espaços passíveis de oxigenar o tanto de vida que ali pode e precisa florescer. O prédio anexo, com entrada também pela rua 24 de Maio, foi um primeiro suspiro.

Dá gosto pensar que um novo caminho se abre com a incorporação, pelo TJA, da antiga sede do Iphan. É uma conversa entre Governo do Estado e UFC, que já conversaram quando do destino da área onde está o atual "anexo". Uma instituição de ensino, pesquisa e extensão como a UFC, desde o início ela própria campo para as artes, pode tocar melhor ainda o modo singularmente bonito de expansão do TJA para abrigar e abraçar o que não pode nem deve ser contido.

Os pés de jasmim e castanhola do antigo Iphan estão em festa. E não só pela chuva. Viva São José. E Viva o Zé.

P.S.: E bora ver outro nome para o terminal de transporte ali vizinho. Antes que toque o terceiro sinal e comece o espetáculo.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 15/03/26. Vida & Arte, p.2.

domingo, 21 de setembro de 2025

RICARDO GUILHERME: ator e jornalista cearense celebra 70 anos

Por Sofia Herrero, jornalista de O Povo

"O teatro se concretiza no ato e no tempo", afirma o ator Ricardo Guilherme, em entrevista ao O POVO, na semana em que comemora seus 70 anos. Destas sete décadas, com 55 anos dedicados às artes, a história de Guilherme se confunde com a do teatro cearense e com a de inúmeros palcos em que o dramaturgo encenou.

Aos 14 anos, subiu ao tablado do Teatro São José para estrear "O Mártir do Gólgota", espetáculo interpretado na Semana Santa, que retrata a Paixão de Cristo e a crucificação de Jesus.

Hoje, 55 anos depois, o historiador observa as paredes do anfiteatro no qual estreou, enquanto planeja o lançamento do livro Teatro São José, ficção e alguma história", que biografa o local. A obra integra a Coleção Pajeú, realizada pela Coordenadoria de Patrimônio Histórico e Cultural (CPHC), mas, para o ator, inaugura também o rol de celebrações de seus 70 anos, celebrados neste domingo,

Na quinta-feira, 18, as festividades foram abertas na Teatraula "No Ato", ministrada no Teatro Morro do Ouro, com foco nos alunos do Curso Princípios Básicos de Teatro (CPBT) do Theatro José de Alencar. "Se trata de uma aula-espetáculo que combina diversos campos do saber e da expressão: história, ficção, depoimento, reflexão. É como uma espécie de conferência teatralizada de um professor ator", explica.

O evento mostra a conexão de Ricardo com a nova geração de jovens que experimentam as artes cênicas. Aposentado pelo curso de Licenciatura em Teatro da Universidade Federal do Ceará (UFC), mas de espírito rejuvenescente, ele segue orientando diversos alunos em seus trabalhos de conclusão, pelo simples prazer de pensar o teatro.

Ele ingressou como professor na UFC, no curso de Arte Dramática, em 1979, e foi um dos proponentes do anteprojeto da Licenciatura em Teatro da instituição. Além da UFC, foi reconhecido como Notório Saber em cursos de pós-graduação da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e da Universidade Nacional de Brasília (UnB).

Na UFC, a trajetória de Ricardo se materializa no Acervo Doc. Teatro Ricardo Guilherme. Composto por mais de 13 mil itens de documentos arquivísticos e bibliográficos reunidos ao longo de seus 50 anos de carreira nas artes, a coleção de fotografias, textos dramatúrgicos e livros foi doada por ele à instituição, no ano de 2010.

"Eu já doei 60% do meu acervo, falta 40%. Existe um apego, não tenho um desprendimento e, por isso, fui doando de pouco em pouco nesses 15 anos. Mas este ano faz parte das comemorações me desprender de todo o restante e doar para os meus alunos", diz.

Sempre vinculado ao ensino e à pesquisa, Ricardo também foi a primeira voz a ser transmitida pela TV Educativa (TVE), que anos mais tarde viraria a TV Ceará do canal 5. Com o propósito da educomunicação, a TVE proporcionou a Ricardo Guilherme, de 1974 a 1992, um espaço de criação de programas e novelas integrado ao currículo escolar do Ceará.

"Era um canal feito para educação pública e foi criado para poder chegar a diversos lugares que os professores não chegavam, nos rincões do sertão. Criamos, inclusive, um gênero pedagógico, a aula integrada, que era uma forma de integrar os conteúdos das matérias e contextualizá-los no sentido prático e no aprendizado", relata o jornalista, antevendo o papel que a teleducação teria na modernidade.

Na TV, contudo, sua história começou um pouco antes, junto com a disseminação do sistema eletrônico de transmissão e recepção de imagens no Estado. No dia 26 de novembro de 1973, o primeiro programa em cores exibido pela TV no Ceará, intitulado "O Som, A Luz, as Cores e os Muitos Amores de Fortaleza", foi transmitido. Nele, Ricardo interpretava poemas sobre a capital cearense, ao lado de Ivete Pereira e Cleide Holanda.

Ao longo dos anos, a bagagem acumulada em cargos de direção, sonoplastia e produção culminou na criação do programa "Diálogos", em 2007. Há 16 anos no ar, na atração, os entrevistados levam sete objetos que compõem sua história pessoal e que devem nortear a conversa.

"Não considero que seja um programa de entrevista. É um diálogo, em que, ao invés de perguntas, as pautas surgem a partir do que é levado pelo entrevistado. O diálogo não tem hierarquia, é horizontal e vai caminhando de acordo com a interpenetração dos temas. É um programa para filosofar sobre questões atemporais e fazer uma espécie de cartografia do pensamento daquela pessoa que está ali", conta.

A assinatura de um dos patrimônios da TV cearense continua presente todas as sextas-feiras, às 22 horas, e com reprises aos sábados, às 18 horas. Apesar de ser frequentemente associado à TV e ao teatro, aos 70 anos, Ricardo celebra uma vida partilhada pela palavra, através de suas dramaturgias, contos e crônicas.

Como presente, sua contribuição para a literatura cearense foi referendada em abril de 2025, quando tomou posse da cadeira 33 na Academia Cearense de Letras (ACL), que tem o autor cearense Rodolfo Teófilo como patrono.

Como um profissional multifacetado, que registrou a história da cidade em personagens, imagens e escritos, Ricardo trabalhou nos bastidores do programa "Porque hoje é sábado", que, com a apresentação de Gonzaga Vasconcelos, anunciava os primórdios do que viria a ser o Pessoal do Ceará.

"Era 1969 e eu era aquele cara que levava microfone, mandava prancheta para assinar os cachês. Vi, de certa forma, o nascimento de Fagner, Ednardo, Belchior, Téti, Rodger Rogério e de tantos outros, e lembro-me de músicas que nunca foram gravadas. Eles deveriam ter mais de 20 (anos) e eu era aquele menino brincando de ser assistente, que queria aprender", relembra.

Ao refletir sobre a passagem do tempo e as mudanças na capital, ele pensa nos diferentes nomes que deixaram o Ceará na tentativa de reverberar sua arte no âmbito nacional. Com a permanência em Fortaleza, Ricardo diz ter adquirido o privilégio de olhar o mundo a partir de um outro prisma, que posteriormente lhe permitiu representar o Brasil em festivais.

"Me apresentei em diversos países, mas sempre que estava no Rio ou em São Paulo, me sentia não pertencente. Realmente eu fui me tornando fortalezense demais, atravessado pelas referências da cidade e, com o tempo, fui desenvolvendo um senso de responsabilidade histórica com o teatro cearense. Comecei a ter muitos lastros artísticos e talvez isso tenha me dado, inconscientemente, um laço muito forte", finaliza.

"Um artista plástico cria uma obra e consegue contemplá-la. Já o ator nunca vê seu espetáculo enquanto o interpreta, por isso existe uma espécie de orfandade no teatro".

O que diz Ricardo Guilherme?

"O teatro se concretiza no ato e no tempo"

"Todo teatro é meu, mesmo que não seja o meu'"

"Avoquei a mim uma responsabilidade de guardar a história do teatro cearense"

"O teatro radical é dialético, sintético e minimalista"

"Não vejo o teatro como arte multidisciplinar. No teatro radical, entende-se que ele é uma arte transdisciplinar"

"Quais são os conflitos centrais de uma peça que derivam em todo o restante?"

"Estamos à procura do átomo conflitual, a raiz conflitiva de uma peça, a célula-máter de uma cena"

Fonte: Publicado In: O Povo, de 21/09/25. Vida & Arte, p.4-5.


quarta-feira, 17 de setembro de 2025

UM LIVRO PARA LER E RUA

Por Izabel Gurgel (*)

Hoje às 17h, única sessão do espetáculo "Alie e as estrelas", do grupo Teatro Máquina, no Theatro José de Alencar. Grátis. Para todas as idades. Acontece no Teatro Morro do Ouro, um teatro de bolso de 90 lugares que faz parte do Cena, o Centro de Artes Cênicas do Ceará Padaria Espiritual, prédio anexo ao TJA de 1910.

Hoje às 19h30min, última sessão de "Medalha de Ouro" no teatro do Centro Dragão do Mar, com as atrizes Larissa Góes e Sol Moufer. Com a praça em obra, entra-se no Dragão pelas ruas José Avelino ou Boris.

Você nunca viu teatro feito no Ceará? "Alie e as estrelas" e "Medalha de Ouro" podem ser uma ótima primeira vez.

Ator, diretor, professor, um pensador do teatro, Ricardo Guilherme faz 70 anos dia 21 de setembro próximo, um domingo. Tomara tenha RG em cena para você ver, pra gente ver.

Em aula-espetáculo (sobre mestres de teatro como Waldemar Garcia e Clóvis Matias, sobre Belchior, sobre teatros como o São José e o Zé de Alencar, dentre outros 'temas') ou espetáculos como bonitas lições magistrais de teatro (A Divina Comédia de Danta e Moacir, Flor de Obsessão, Apareceu a Margarida etc.), Ricardo Guilherme é sumo da flor da cena.

Um domingo, escrevi sobre a roupa criada por Lino Villaventura algo como 'na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma', pensando na citação que aprendíamos no colégio, aula de ciências.

Muitos domingos depois, tão logo o Museu da Fotografia abriu, fomos ver ao meio-dia as roupas Villaventura na exposição ainda em cartaz. Hoje, museu aberto das 12h às 17h. Acesso gratuito.

Adoraria fazer uma visita guiada por Lino e Inez Villaventura, para quem ele fez a primeira peça, (o colete está na exposição), e com quem partilha toda invenção.

Um encontro com Lino e Inez para nos contarem, por exemplo, dos bastidores do vestido-sol, o que me lembrou oferendas à divindade Sol. Um sol peitoral, a nos fazer lembrar dos saberes do manejo do ouro dos mundos de cá pré-colombianos. Obsessiva artesania, as manualidades em cada peça são aulas magnas de bordado, de corte, costura, de dobradura.

O que seria de nós, público, sem essa gente obsessiva?

Na exposição Villaventura, pensei em rendeiras e ceramistas com quem aprendo a prestar atenção. Desejei também que estivessem ali comigo a gente apaixonada pela flora, conhecedora do que forra o chão, da arquitetura de plantas e árvores. Me ajudariam a ver melhor, além do que está à vista, de onde Villaventura olha.

Gente que estuda diz que é um dos sentidos primeiros da palavra teatro. O lugar de onde se olha.

E o livro do título? Vou abrir dois hoje: o livro dos mestres, organizado por Dora Freitas e Silvia Moura, com fotos do Jarbas Oliveira; e o das coleções de renda do Museu Arthur Ramos, da professora Valdelice Carneiro Girão. Publicações da Fundação Waldemar Alcântara e UFC. Feitos no Ceará.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 17/08/25. Vida & Arte, p.2.


quinta-feira, 22 de maio de 2025

Tem velhinho novo na Academia Cearense de Letras

Por Majela Lima (*)

Cacá, de berço, Ricardo Guilherme, dos programas e cartazes, R.G, como ele prefere, ou simplesmente o velhinho, como eu prefiro, de agora até sempre, tem assento na cadeira de número 33 da celebrada Academia Cearense de Letras (ACL). Ele passa a ocupar a vaga deixada pela morte da professora Noemi Elisa Soriano Aderaldo, membro da ACL por 36 anos, que tem como patrono o mais cearense de todos os baianos, Rodolfo Teófilo. Homem de teatro, o ator, dramaturgo e diretor chega à casa centenária trazendo olhares para outros textos e formas de expressão.

Fundada em 1894, nossa academia, a primeira do gênero no Brasil, nunca foi tacanha em seu recorte. Embora reúna sobretudo escritores em seu quadro, há ali um encontro de inteligências do mundo acadêmico, jurídico, político, artístico e empresarial. É o fórum mais simbólico que o Ceará dispõe para, no precioso campo do sensível, pensar suas grandes e pequenas questões. Pela força e tradição, a ACL funciona quase que como um parlamento informal a iluminar nossos desejos e ideias de futuro enquanto preserva o passado.

Pouco diverso, é verdade, composto em sua esmagadora maioria por homens brancos, o colegiado passa a dialogar com outros segmentos da vida social e cultural do Ceará a partir do ingresso de Ricardo Guilherme. Apesar de homem branco, como o poeta Geraldo Amancio, eleito para a Academia em 2022, ele oxigena, entretanto, os corredores do Palácio da Luz com uma força popular muito particular. À primeira vista um artista hermético, autor de uma poética central para o pensamento da teatralidade contemporânea, Ricardo se enxerga e reconhece como um palhaço, naquilo que o tipo tem de mais potente e sofisticado.

Referência para o teatro no Ceará há 50 anos, Ricardo Guilherme não é propriamente um novato na Academia Cearense de Letras. Ilustre representante daquela categoria que, como se diz, já nasce velho, ele construiu sua vanguarda dialogando com as nossas tradições. Onde o Ceará conseguiu preservar suas memórias, lá tem estado Ricardo Guilherme fazendo seu teatro. Do acervo da ACL, por exemplo, ele pinçou os originais do grande Carlos Câmara, publicados em coletânea em 1979 em parceria com Marcelo Costa. Por isso e por tudo, enfim, a atuação de Ricardo Guilherme há de ser das mais expressivas na nossa Academia. 

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 21/04/25. Opinião. p.17

segunda-feira, 19 de maio de 2025

“EU DE VOCÊ”

Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)

Fui assistir, no Teatro José de Alencar, à peça Eu de Você, com Denise Fraga. A obra é inspirada em histórias reais. Denise vai migrando de uma narrativa a outra e, em certo momento, é difícil perceber a quem ela está dando voz. Mas isso não importa. As histórias parecem se entrelaçar como se fossem uma só. Havia uma grande atriz no palco, interpretando as angústias de todos nós.

A mãe de Denise está indo nadar. Põe a touca e segue, transversalmente, rumo ao horizonte. Denise, ainda menina, sozinha na areia, desesperada, grita: "Volta, mããeeee!!!" Meu peito apertou. Me vi perdida na praia, por volta dos cinco anos, sem conseguir gritar. Ela - Denise - gritou por mim. As nossas mães voltaram. Ganhei um sorvete da mamãe. A mãe de Denise lhe ensinou a boiar. Boiar. Agora estou com minha avó, numa piscina oval, em Messejana, aprendendo a boiar. Ela vestia um maiô preto. Ela, que teve uma vida difícil, descobriu o prazer de flutuar. Às vezes, ficar suspensa, olhando o céu - ou de olhos fechados - é muito bom.

Iolanda está distante, seus olhos não brilham, estão opacos. Seu filho, tentando "encontrá-la", clama por Chico. "Minha solidão se sente acompanhada. Por isso, às vezes, sei que necessito teu colo... eternamente, Iolanda." Os olhos de Iolanda ganham vida. Eles cantam juntos. Ela, mesmo que por frações de segundo, lembra.

Volto à minha avó. Papai pergunta: "Mamãe, sabe quem é ela?"

"Sou seu filho, e ela é minha filha."

"Então ela é o quê sua?"

Silêncio. "Vovô... Ô jardineira, por que estás tão triste?" Cantava tão alegre quanto uma criança... "Não fiques triste (vovó), que esse mundo é todo teu..." Ela não sabia dizer que eu era sua neta, mas sorria com intimidade para mim.

O público estava comovido, cada pessoa tocada de uma forma íntima e particular. Permeando as histórias, uma citação de Simone de Beauvoir traduz lindamente aquela emoção coletiva:

"Toda dor dilacera. Mas o que a torna intolerável é que quem a sente tem sempre a impressão de estar separada do resto do mundo. Partilhada, a dor, ao menos, deixa de ser um exílio. Essa é uma das funções essenciais da arte: superar a solidão, que é comum a todos nós."

A arte salva.

(*) Médica psiquiatra.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 22/04/2025. Opinião. p.14.


quinta-feira, 12 de setembro de 2024

O QUE VOCÊ CONTA DO JARDIM DO TJA?

Por Izabel Gurgel (*)

Hoje às 15 horas tem visita guiada pela arquiteta Fernanda Rocha ao jardim do Theatro José de Alencar, projeto do escritório Burle Marx. É aniversário de nascimento do poeta dos jardins (1909-1994), que não vai morrer nunca.

José Cassiano da Silva (2014-2003), o estimado Muriçoca que a partir de 1991 se torna porteiro do TJA, contava da roça ali cultivada. Plantou e colheu milho e feijão. Ele conheceu o teatro na década de 1930, quando de sua primeira vez em Fortaleza. Vinha do Crato, para onde retornou. Trinta anos depois, começaria a fazer parte do dia-a-dia do teatro como contrarregra.

No processo de criação do espetáculo "Felipe, Brasil", o bailarino e produtor cultural Felipe Araújo nos faz ver passar pelo jardim onde tanto dança (em cena e em festas) a história de amor dos pais dele, Ana e Marcos.

Cada participante do Curso Princípios Básicos de Teatro 1980 ensaiou pelo menos uma vez no palco ao ar livre ou no espaço interno entre as palmeiras leque de Fidji e os velhos oitizeiros. Não? Então passou antes ou depois da aula do curso existente desde a década de 1980, uma criação dos atores João Andrade Joca e Paulo Ess.

Artistas da cia francesa La Belle Zanka se aqueceram ali antes do passeio em gigantes pernas de pau (na verdade, metálicas) pela Praça José de Alencar e adjacências quando do Zona de Transição. No mesmo encontro festivo, o Grupo Garajal, de Maracanaú, fez Shakespeare no modo brincante: "Romeu e Julieta".

Ouvi mais de um relato de sonho tendo o jardim se desdobrando como espaço onírico: a folharada a migrar durante uma ventania que fazia os pés de jucá e pau-ferro se curvarem, o palhaço Trepinha (1927-2012), da dimensão onde se encontra, veio e sentou para olhar dali o teatro onde viveu mais de quarenta anos e ao qual chegou pelas mãos de outro mestre do riso dito popular, Clóvis Matias (1913 - 1998).

O artista visual Solon Ribeiro projetou imagens de cinema na vegetação do jardim. Foi no jardim, a abertura da conferência Vozes da América, da latina América e Caribe de tantos idiomas.

Jardim cena e cenário de casamentos, aniversários e bailes como o dos 90 anos do TJA, quando Chico Veloso dançou com a bailarina fantasma. Arquiteto da equipe do Instituto Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Veloso conhecia o teatro, literalmente, de cima a baixo, e de cotidianos. A moça lhe disse que há anos vivia ali. Ele nunca a viu. Nem antes, nem depois. E pasmou quando se deu conta de que ninguém mais a viu no baile. Nem com ele, nem só, nem com outras pessoas.

Gente que trabalha no Centro vai ao jardim para tirar um cochilo com sapatos fazendo de travesseiro. Crianças fazem o que gente grande talvez tenha vontade de fazer e se contém: dão uma carreira, percorrem o espaço para inscrevê-lo nos próprios corpos.

Uma vez, um menino, de pé em um dos bancos de concreto, olhos fechados e braços abertos sob o sol, rosto iluminado pelo que lhe acontecia e pelo frescor da água dos aspersores, pergunta para a guia Vilani Moreira Barbosa, querendo saber de si: "Tia, o que é isso que eu tô sentindo?". Tão Clarice a pergunta, não é, Noandro Menezes? A fantasia do Noandro para o baile de Carnaval este ano no jardim reproduzia uma foto de Burle Marx, aquela da viçosa folha de filodendro com o jardineiro vivendo o que a pergunta do menino tenta alcançar.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 4/08/24. Vida & Arte, p.2.

quarta-feira, 1 de maio de 2024

O CORRER INFINITO DE OSWALD BARROSO

Por Mailson Furtado (*)

Entre as tantas pernas que colecionava, corria o menino Raimundo, amarelo de inquietação, nas ruas da Fortaleza dos anos 1960. Na correria, driblava a cidade que crescia, a fazer, numa esquina, cestas pelo time de basquete do América, noutra, gols pelo time de futebol de salão do Iracema, noutra, gols pelo time de futebol juvenil do Fortaleza, noutra, pontos pelo time de voleibol do Náutico. Nas carreiras, seguia. Corria. Tinha 16. Há pouco fora convocado para a seleção cearense de voleibol. Até que.

Há um mês o Brasil se emborcava. Era instituída a ditadura civil-militar em 1º de abril de 1964, sem se saber o que se daria dali por diante. Mal sabia o menino que aquilo seria o motivo pra tantas outras pernas. Mas até ali seguia a correr, a fazer cestas, pontos e gols, até que na manhã de 1º de maio, de frente ao Clube dos Diários, embriagada, uma camionete rural invade a calçada da Monsenhor Tabosa, e encontra as zilhões de pernas de Raimundo, que, pela primeira vez, talvez tenha ficado quieto.

Acamado por um ano em um difícil tratamento no Rio de Janeiro, seguiu a vasculhar o mundo e ali, sem pernas, embrenhou-se em ser feliz noutras quatro linhas, os livros.

Nunca correu tanto. Viajou mundos e seguiu em traquinagens através da poesia, não aceitando a prisão que lhe era imposta. Sem exceção, nenhuma prisão. De volta a Fortaleza, retornou a correr, agora contra quem cerceava liberdades, por longos anos o sempre menino Raimundo foi perseguido e quatro vezes preso pelo regime, que não o venceu. Ali tomaram suas pernas, que só impulsionaram a outras tantas viagens por tantos mundos da arte.

Vinda a esperança e a liberdade, nômade, foi brincar por sertões, praias e serras de todo o Ceará com caretas, bois, burrinhas, jaraguás, e dançar cocos e maracatus, prometendo a si mesmo que só sairia daqueles lugares se os pudesse levar junto. Cumprindo a promessa, trouxe-os em um balaio só a outras quatro linhas, dessa vez para os palcos do teatro.

E assim, com a mesma energia da busca da bola rumo a um gol, a um ponto, a uma cesta, que aprendeu e fez até os 16, seguiu o menino Raimundo, até os 76, em busca de histórias que pudessem eleger um grito, um entalo ou qualquer emoção para cristalizar o presente, dentro de quatro ou mais linhas. Conduziu tantos mundos a poemas, contos, danças, cenas ou mesmo conversas de pé-de-calçada que nem mesmo a lembrança daquela rural embriagada conseguiu afastá-lo delas.

No último dia 22 de março, o menino Raimundo, também chamado Raimundo Oswald Cavalcante Barroso, ou apenas Oswald Barroso, pesquisador, professor, poeta, romancista, dramaturgo, letrista, diretor teatral, gestor cultural, historiador, antropólogo, jornalista, pai, esposo, avô, amigo e atleta até os 16 anos, a seguir nômade, fez sua última viagem, mas como sempre inquieto, e estando em sabe-lá-quantos lugares ao mesmo tempo, aqui segue, intimando a gente a brincar de ser feliz.

(*) Cirurgião-dentista. Escritor e professor.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 4/04/24. Online.

quarta-feira, 17 de abril de 2024

BEM-VINDA SEJA A ACADEMIA CEARENSE DE TEATRO

Por Majela Lima (*)

Dia 27/03 próximo, nasce uma garotinha com nome de senhora. A Academia Cearense de Teatro inaugura suas atividades como mais uma voz coletiva na defesa da preservação do passado, na articulação e reflexão do presente e no sonho de um futuro fértil para o pensamento e a criação dos nossos artistas da cena. Nomes com Humberto Cunha e Carri Costa, Jane Azeredo e Rejane Reinaldo, Fernanda Quinderé e Ricardo Guilherme, somam-se a outros 44 primeiros imortais com o desafio de consolidar a entidade, que surge tarde, considerado o pioneirismo do Ceará em associações do gênero.

A nossa Academia Cearense, hoje Academia Cearense de Letras, de 1894, a exemplo, é a instituição literária mais antiga do Brasil, se antecipando, inclusive, à fundação da Academia Brasileira de Letras. Sob a liderança do veterano Marcelo Costa, a estreante Academia Cearense de Teatro tem pretensões modestas, mas, como ponto de encontro e interlocução de gerações e perfis os mais distintos, pode repercutir em diferentes setores. Da reflexão ao fomento, da poética aos mecanismos de salvaguarda, a agremiação tem muito a contribuir, sobretudo diante do histórico importante de ouros coletivos ligados a nossa produção teatral.

A entidade entra em cena num momento em que o panorama teatral cearense, apesar das dificuldades regulares de produção e financiamento, é marcado por uma pujança e uma capilaridade sem precedentes. O Ceará conta hoje com cursos de formação em nível superior funcionamento na capital e no interior, o que tem se refletido nos movimentos de criação. É evidente uma renovação poética e geracional nos nossos palcos, cada vez mais conectada com o circuito nacional e internacional. É resiliente o teatro do Ceará.

Espaço plural, por excelência, a Academia Cearense de Teatro agrega atores, tempos e lugares tão diversos quanto o próprio teatro. Técnicos, artistas e pesquisadores, todos, diga-se, também público, têm agora o desafio de estar junto, permanecer junto e produzir junto. Há muito a ser feito, particularmente na seara da memória, objeto raro e de luxo nos últimos tempos. Nosso teatro tem um passado lindo, que precisa e merece ser avivado. Eu estarei lá, de posse da cadeira de número 40, em reverência ao eterno José Carlos Matos. Que chegue e diga a que veio a Academia Cearense de Teatro.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 25/03/24. Opinião. p.22.

sábado, 23 de março de 2024

Nota de pesar pelo falecimento do professor Raimundo Oswald Cavalcante Barroso

A Reitoria da Universidade Estadual do Ceará (Uece) manifesta profundo pesar pelo falecimento do professor Raimundo Oswald Cavalcante Barroso, ocorrido nesta sexta-feira (22), em Fortaleza.

O professor Oswald Barroso foi uma grande referência na cultura cearense. Ao longo de mais de 50 anos de carreira, foi ator, diretor e produtor teatral, além de atuar em outros cenários da cultura e do jornalismo. Como pesquisador, contribuiu de forma muito significativa para a cultura popular, principalmente com uma produção que soma mais de 20 títulos. Oswald Barroso também teve um relevante histórico de engajamento social durante toda a sua vida, inclusive no combate direto à Ditadura Militar.

Na Uece, Oswald Barroso foi professor do curso de Música por 31 anos, atuando nas disciplinas de Folclore, Antropologia da Arte, História da Arte, Estética, Estética Musical, Cultura Brasileira, Cultura Cearense, Teatro, História e Análise do Canto Popular Brasileiro e Música nas Tradições Populares. O docente também lecionou a disciplina de Sociologia no curso de Filosofia da Universidade.

O Ceará perde um de seus maiores expoentes da cultura, que dedicou uma vida à produção do conhecimento e ao fortalecimento do cenário cultural cearense.

A Reitoria da Uece, em nome de toda a sua comunidade acadêmica, se solidariza com familiares e amigos do professor Oswald Barroso neste difícil momento de dor.

Fonte: Uece. Assessoria de Comunicação, postado em 22/03/24.

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

CAMINHOS DO CEARÁ: escolas a céu aberto

Por Izabel Gurgel (*)

A transparência da sala de espetáculo alonga o Theatro José de Alencar de 1910. Dá para ver a rua estando no palco principal, como costumamos repetir. Ao longo de suas múltiplas vidas, o TJA se expandiu também para os lados. Incorpora o primeiro projeto de jardim na década de 1970; o segundo, conhecemos desde a reabertura do teatro, em janeiro de 1991, depois de um processo de restauro (tão necessário e urgente à época quanto hoje). É quando vai surgir também o Centro de Artes Cênicas do Ceará Padaria Espiritual, o Cena, o 'anexo'.

Em Porto Alegre, o Teatro São Pedro foi crescendo nas laterais e fundos, ganhando área de lazer e convívio, com restaurante e um serviço de estacionamento integrados à vida da cidade, e não só do teatro. O Municipal do Rio de Janeiro incorporou uma plataforma móvel para facilitar entrada e saída de material de cena. A porta de acesso à plataforma dá para uma rua estreita. Atualizações do Municipal do Rio levaram o serviço de bilheteria para um prédio vizinho, integrado às rotinas administrativas da casa por uma passarela aérea. Bilheterias ficam no térreo. A elas se chega pela rua dos fundos do teatro, a mesma rua estreita para entrada e saída de carga. Detalhes quase invisíveis ao público dizem respeito aos usos e ocupações dos espaços.

A necessidade de criar 'anexos' cruza a história recentes desses teatrões. Teatrões também modificaram suas áreas de bastidores. A caixa cênica do Zé de Alencar era outra ao final do segundo e último restauro. São modificações com tempo de uso limitado, sabemos. Novas práticas, novos modos de pensar e fazer requerem uma maior plasticidade desses teatros para funcionamento à altura da potência que têm.

Quando o TJA entra em obra em 1913, por exemplo, para receber a iluminação através da energia elétrica, não era só o sistema de iluminação a gás que estava sendo trocado. O que chamamos TJA talvez seja uma série - não no sentido de sucessão, mas de multiplicidade, de variedade - de experiências de vida em comum que dão densidade e robustez, mas também fragilidade e vulnerabilidade à vida da edificação e da instituição. Ou que nela se expressam. O mundo social manifesto em força, vigor e graça, mas também penúria e desmantelo.

Vigor e graça como no passeio pelo jardim, quinta última, mediado pela educadora Vilani Moreira Barbosa, que já atuou como guia verde no TJA. Vila gosta de repetir uma história. Bando aceso de crianças em visita ao teatro, programa escolar. Além do microclima que áreas vegetais nos oferecem, havia aspersores ligados no jardim. No calor da tarde, um menino de pé sobre o banco de concreto abre os braços, levanta a cabeça em direção ao céu, fecha os olhos e usufrui da água-sereno-sobre-si, perguntando, com sorriso até os joelhos: "Tia, o que é isso que estou sentindo?".

Bonito pensar na potência de vida de lugares públicos como o TJA, não é? Podem ser lugares extraordinários para visitantes, mas estão cheios de cotidiano. E cotidiano requer sustentação, sabemos, todos os dias. 

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 20/08/23. Vida & Arte, p.2.

quarta-feira, 3 de maio de 2023

CAMINHOS DO CEARÁ: chão e céu na Praça e no TJA

Por Izabel Gurgel (*)

Março de 2007. A praça fervilhava naquele sábado à tarde. À degradação do espaço físico, impunha-se uma vitalidade atordoante. À desordem da ocupação pela feira, cujas centenas de barracas com estrutura de ferro haviam destruído o piso, ainda era possível se contrapor à ordenação da agenda comum de artistas de rua. Nos anos anteriores, artistas recriavam ali um tempo em que as artes da cena não tinham espaço fixo para acontecer.

Estávamos ali para vê-los em sua maestria de sedução, conquista de público, sustentação de uma roda-plateia. O palhaço Colorau, o ventríloquo Rodrigo do Boneco, Quebra Côco, repentistas e cantadores se alternavam em apresentações cujos horários e espaços eram por eles definidos conjuntamente. Só isso tornava possível o uso comum do espaço, progressiva e aceleradamente sendo desfeito.

O espaço passível de partilha há muito estava ameaçado. Uma degradação que comprometia os calçadões e as calçadas da região central, além das praças, paradas e terminais de ônibus. A potência de som dos pregadores de um deus que nos parece surdo ainda subiria mais e mais. As fontes distintas de música amplificada para uma escuta anestesiada, proveniente dos bares e restaurantes instalados na praça, não se elevavam aos céus, que há muito já não nos protegia. Com um espaço aéreo tão poluído, nem era preciso olhar o volume de lixo no chão.

Era uma travessia de alto risco chegar ao Zé de Alencar, o teatro, aberto para visitação e com rotinas próprias de trabalho em torno de uma programação artística a oscilar entre frágil, impotente e potente para contracenar com o seu entorno, para convocar a cidade.

Tratada por profissionais sobretudo a partir da atuação de órgãos designados para tal, de há muito sabemos que a chamada questão do patrimônio não tem sustentação sem a participação da comunidade à qual esteja diretamente ligada.

Vamos pensar aqui a Praça José de Alencar em caráter afirmativo, puxando pela abundância de vida lá ancorada na praça dos anos 1990, por exemplo. Perguntar como cuidar da "base física" tendo em vista o patrimônio imaterial do lugar. Refiro-me a artistas que ali se apresentavam como portadores de saberes e práticas ancestrais.

Lembro da lona de circo armada na praça, como ação do TJA. O Circo do Palhaço Trepinha, no mês de aniversário do teatro, em junho. No segundo dia de circo, trabalhadoras e trabalhadores da praça, moradores das áreas mais próximas e passantes já traziam as crianças. Flores na erosão da paisagem.

Praça e Theatro José de Alencar são experiências de vida pública em Fortaleza. Pensar, intervir, agir em um sem pensar no outro é política de necas de pitibiriba. Foi uma conquista contar com a Praça como praça e não terminal de ônibus, que comprometia, sabemos, o dia-a-dia da instituição.

Você sabia que até o maior palco do TJA - o teatro tem vários espaços cênicos e não só o palco de 1910 - sofre com trepidação por efeito do forte fluxo de veículos ao redor? Sabia que foi um alívio para as gentes e o lugar a redução de fuligem sobre todas as superfícies quando da diminuição de ônibus no entorno? Sabia que a alta voltagem da poluição sonora comprometia o andamento de atividades do TJA?

Pois o futuro nos aguarda no pior dos passados do entorno. A área que foi do Beco da Poeira ganha nova edição: o elogio da fuligem. Vai ser terminal de ônibus, anos depois de minimamente se iniciar a elaboração de um entorno melhor para as vidas do Zé de Alencar. Acredita? Parece mentira, não é? Primeiro de abril foi ontem. O que podemos fazer?

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 2/04/23. Vida & Arte, p.2.

terça-feira, 4 de abril de 2023

CAMINHOS DO CEARÁ: arquiteturas da vida em comum

Por Izabel Gurgel (*)

Os bailarinos cearenses Felipe Araújo e Henrique Castro dançam "É carona..." no pátio do Theatro José de Alencar. Estamos em junho de 2012, aniversário de 102 anos da instituição. Acontece a II Virada do TJA, programação nos quatro cantos do teatro, dia, noite, madrugada. Lugar de passagem, a dança da dupla torna o pátio um lugar de permanência.

Dois anos antes, em 2010, uma trapezista da companhia francesa La Belle Zanka fazia lá suas evoluções, suspensa no gradil de uma das passarelas. Em 2008, a palhaça de rua Maku Jarrak, argentina, armou no pátio a roda para uma sessão de maravilhas: vimos, então, a estrutura de ferro do TJA replicada na esfera de vidro que a artista fazia dançar em seus braços.

No pátio, cem pessoas sentadas em grande círculo tomam champanhe e fazem um brinde à aniversariante, Nastássias Filíppovnas. A festa vai sair do tom de comemoração antes de se findar a primeira taça. O fogo que fará arder uma casa - em miniatura - não é a única força de destruição e renovação acionada. A sordidez de que somos capazes, nós os humanos, encontrou na arquitetura a céu aberto do Zé de Alencar um campo para emergir como surge na literatura de Dostoiévski: capaz de florescer em qualquer lugar, como a poesia; artifício possível de chegar a requintes de elaboração que, como disse um artesão de Pernambuco sobre a maravilha que ia fazer brotar da matéria-prima em suas mãos, ao final vai parecer "nascida" e não "feita".

A cena ocorre depois das nove da noite, parte do espetáculo "O Idiota", que começou três horas antes, às 18h. Seguiria até a madrugada. Passamos pela encenação da Mundana Cia de Teatro. As descrições aqui iniciadas talvez possam operar como imagens a compor novas memórias sobre e do TJA.

"O Idiota", apresentado como uma novela teatral, tinha duração de mais de 7h, com intervalos. Da calçada ao porão, com cenas também no jardim, Teatro Morro do Ouro e Praça Mestre Pedro Boca Rica, fazia uma travessia pelos espaços da edificação de 1910 conduzindo a plateia por um TJA que se atualiza, sabemos sentindo, a cada uso, a cada ocupação.

Talvez possamos dizer que haja um momento na vida dos teatros-monumentos em que seja preciso fazer escolhas. Ou épocas distintas, colocando novas questões, exigem um reposicionamento de instituições dedicadas às artes. Se não uma resposta, uma acolhida às novas perguntas.

Desde a reabertura do TJA em janeiro de 1991, depois do restauro, pratica-se mais e mais ocupar cenicamente espaços que não foram criados para isso. Experimentar usos. O citado restauro ampliou não só a geografia do Zé de Alencar. Deu passagem, mais ou menos referendada pelas gestões que se seguiram, a usos talvez pouco ou até então não praticados na edificação de 1910 e na sua expansão física.

O baile à fantasia do Zé de Alencar tem precedentes. Outros carnavais passaram pelo TJA. Bailes e desfiles como práticas de teatros, acontecimentos em teatros. Bonito é ver uma Vandinha Adams cantando|dançando "Não deixe o samba morrer" com seu companheiro Zorro ao tempo que circula, no jardim-salão, um ônibus de papelão 'vestido' por um bando e outro e movido por uma desclassificada música-chiclete. Em meio ao pé de jasmim, o pau-ferro, o jucá, as palmeiras leque de Fidji. É também sobre isso o brincar junto e misturado. Arquiteturas da vida em comum, para a vida em comum, realizando-se ali: no frigir dos corpos. Seres viventes = tudo que vive. E morre. Não só nós, humanos.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 27/02/23. Crônica, p.16.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

NO TEATRO, O TE ATO E O TRANSE


Por José Jackson Coelho Sampaio (*)
A experiência teatral tornou-se quadrado esquema de galãs de novela e rala densidade crítica, assim perdi paixão. Mas, neste mês fui ao teatro, provocado pelo nome, "Para frente, o pior", e o registro de teatro laboratório do Porto Iracema das Artes, pela Companhia Inquieta. Foi insólito o vivido.
Agrupamo-nos por trás do prédio, para entrada pelo palco, com a plateia vazia. Teatro do Absurdo, Living Theater e oficina propunham estas fusões palco/plateia, porém, trilhei mais os Teatros de Protesto, do oprimido e marginal, pois a ideia de arte engajada em transformar a realidade me seduzia. Entretanto, não esqueci a arte-prazer, denúncia e convocação, sem bula.
No tempo da cena, a percepção inicial foi de que, embora a pesquisa original fosse "um corpo em final de festa", não havia festa, só repetição, ida-vinda, recusa ao significado, expressão caricata da "vida como ela é" e do processo de alienação, articulando leituras da antipsiquiatria e do marxismo.
Pela lateral da plateia os atores sobem ao palco e o jogral indica a busca da vida sem certo/errado, metáfora, ideologia, só fluxo de coisas entre coisas. Pela lateral da plateia os atores somem do palco, deixando órfãos os assistentes. No ínterim, seis personas, ligadas por braços e mãos, contorcem-se para fugir da liga, arfantes. Uma assume a liderança, para logo ser arrastada, exausta.
Os jovens atores se entregam plenamente, com disciplina e paixão, para explicitar o vazio e a impotência, mas demonstram as impossibilidades disso. Militância, talvez cega, e força, talvez bruta, transformam-se em massa de drama, e se há drama, há sentimento. No fundo da alienação emerge o espasmo de um sentido. O abandono dos assistentes no palco vazio induz reflexão sobre aparências e ritos. A liga do grupo impede que cada indivíduo desabe. Mas, grupo fetichizado, sem gestão democrática das perdas, parece produzir apenas o fascismo da sobrevivência.
Numa terça-feira de julho, no Brasil da corrupção por si mesma e dela usada para justificar golpes, violenta perda de direitos após breve primavera e ódios ideológico-culturais por sobre exploração econômica e luta de classes, aconteceu esta excruciante vivência da dor mais profunda.
(*) Professor titular de Saúde Coletiva e Reitor da Uece.
Publicado. In: O Povo, Opinião, de 28/07/18. p.17.

sábado, 14 de julho de 2018

NOTA PÚBLICA:“O Evangelho segundo Jesus, rainha dos céus”


Nota pública de Dom Paulo Jackson, Bispo da Diocese de Garanhuns, acerca da peça teatral “O Evangelho segundo Jesus, rainha dos céus”
1. Nesses dois últimos dias, a cidade de Garanhuns foi tomada por uma discussão em torno de uma peça teatral que está na programação do Festival de Inverno de Garanhuns 2018.
Trata-se da peça "O Evangelho segundo Jesus, rainha dos céus" (IIE GOSFI according to Jesus, queen of heaven) escrita pela atriz transexual escocesa Jo ClifTord; dirigida, no Brasil, por Natália Mallo; e encenada pela atriz transexual Renata Carvalho.
2. Estão em jogo dois grandes valores presentes na Constituição Federal da República do Brasil: l) a liberdade de expressão intelectual, artística, científica e de comunicação, conteúdo do Art. 50, IX; 2) e a inviolabilidade da fé e da crença, estabelecida no mesmo artigo quinto, inciso VI, e ratificada no Código Penal Art. 208, quando trata dos crimes contra o sentimento e contra o desrespeito aos mortos. O Art. 208, do Código Penal, normatiza claramente o crime de vilipêndio público às religiões e especificamente contra um ato religioso. Isso acontece, na peça, em relação à imagem de Jesus Cristo e à Eucaristia. Compreendemos que a liberdade de expressão artística não pode ferir o sentimento religioso e a identidade cristã de uma inteira população.
3. O título da peça apresenta dois evidentes equívocos, que nem a liberdade artística poderia permitir:
1) o Evangelho nunca é "segundo" Jesus, pois Jesus mesmo é o Evangelho e o mensageiro dessa boa e esperançosa noticia a humanidade;
2) apresentar Jesus como rainha dos céus. Ora, Jesus era homem. Em nenhuma fonte bíblica ou historiográfica jamais se ousou apresentá-lo como mulher, e muito menos como transexual. Não seria razoável, por exemplo, apresentar a rainha Cleópatra como homem, vivendo um caso homossexual com Júlio César ou Marco Antônio. A pergunta que se deve fazer é: até onde a arte tem a liberdade para ressignificar papéis? Escrever palavrões em hóstias é arte? Está ressignificando alguma coisa? Um homem nu que rala uma imagem de Nossa Senhora Aparecida com um ralo de cozinha e recolhe os fragmentos numa gamela, isso é arte? O que estaria ressignificando? O que seria razoável para a arte na tarefa da ressignificação e, ao mesmo tempo, no respeito às pessoas e às suas sensibilidades?
4. Creio que tanto o Governo do Estado de Pernambuco por meio da Secretaria de Cultura e da Fundarpe, quanto o Governo Municipal de Garanhuns perdem a oportunidade de impostar a discussão sobre outra perspectiva. O nosso país é o que mais mata homossexuais, travestis e transexuais no mundo. Ao mesmo tempo, é o país que mais consome sexo e pornografia. O Município de Garanhuns está entre os campeões no quesito "violência contra a mulher". A nossa terra é uma terra que covardemente mata mulheres. O que o Governo Estadual e o Governo Municipal podem fazer pra amenizar e, em médio e longo prazos, resolver essa triste realidade? Trazer peça teatral que fere a sensibilidade das pessoas simples da nossa terra? É isso que vocês podem fazer? É respeitoso pra com a Cidade de Garanhuns o discurso do Secretário de Cultura? Isso constrói uma cultura de paz e diálogo? E respeitoso o modo como a Fundarpe trata a preparação do Festival de Inverno e o diálogo com as instituições parceiras, inclusive com a Diocese de Garanhuns por meio da Paróquia da Catedral, onde o Palco de Música Clássica Instrumental?
5. Lamentamos também profundamente que essa discussão possa ser utilizada para fins eleitoreiros. Já basta! O conflito entre o Governo Estadual e o Governo Municipal de Garanhuns, e vice-versa, só vem diminuindo a nossa terra, só tem nos prejudicado, só tem inviabilizado investimentos e a resolução dos graves problemas do nosso povo que tanto sofre. É hora de serem estadistas! Olhem para o nosso povo sofrido, humilhado, vivendo uma das piores crises sociais, econômicas e éticas de todas as épocas. Não olhem para as situações com os mesquinhos de uma sigla partidária e de uma campanha eleitoral. E vou até adiante: é a hora de pensar Garanhuns. E razoável, por exemplo, que uma cidade de 140 mil habitantes não tenha um Deputado Estadual e um Deputado Federal? É hora de pensar o Município de Garanhuns e as redondezas. Paramos no tempo. Temos perdido oportunidades.
6. Por tudo isso, não concordamos de nenhum modo que a peça seja apresentada em Garanhuns no Festival de Inverno. Não é disso que necessitamos. Ao mesmo tempo, já afirmo: não entraremos em nenhuma frente para impedir que a peça seja apresentada. Se for, Senhor Governador, o senhor está ferindo profundamente a nossa gente. Duas únicas coisas, eu posso fazer como bispo da Diocese de Garanhuns: conclamar o povo católico a não tomar parte nesse acinte e proibir que a Igreja Catedral seja utilizada como um dos palcos do Festival de Inverno 2018.
7. Que o Espírito Santo de Deus nos ilumine para encontrarmos soluções dialogadas e que gerem verdadeiramente uma cultura de paz.
Dom Paulo Jackson Nóbrega de Souza
Bispo da Diocese de Garanhuns
Fonte: Internet (circulando por e-mail e i-phones).

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Colbert e Mazarino: o diabo vermelho


Vejam este diálogo de quase 400 anos.
O diálogo, da peça teatral "Le Diable Rouge", de Antoine Rault, entre os personagens Colbert e Mazarino, durante o reinado de Luís XIV, século XVIII que, apesar do tempo decorrido, é bem atual.
Atentem principalmente ao último trecho:
Colbert: Para arranjar dinheiro, há um momento em que enganar o contribuinte já não é possível. Eu gostaria, Senhor Superintendente, que me explicasse como é possível continuar a gastar quando já se está endividado até o pescoço.
Mazarino: Um simples mortal, claro, quando está coberto de dívidas e não consegue honra-las, vai parar na prisão. Mas o Estado é diferente! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se. Todos os Estados o fazem!
Colbert: Ah, sim? Mas como faremos isso, se já criamos todos os impostos imagináveis?
Mazarino: Criando outros.
Colbert: Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.
Mazarino: Sim, é impossível.
Colbert: E sobre os ricos?
Mazarino: E os ricos também não. Eles parariam de gastar. E um rico que gasta, faz viver centenas de pobres.
Colbert: Então, como faremos?
Mazarino: Colbert! Tu pensas como um queijo, um penico de doente! Há uma quantidade enorme de pessoas entre os ricos e os pobres: as que trabalham sonhando enriquecer e temendo empobrecer. É sobre essas que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais! Quanto mais lhes tirarmos, mais elas trabalharão para compensar o que lhes tiramos. Formam um reservatório inesgotável... É a classe média!
Nota do Editor do Blog: Este diálogo já foi postado neste blog, mas é deliberadamente oportuna a sua reprodução para que não o esqueçamos (M.G.C.S.).
Fonte: Internet (circulando por e-mails e i-phones sem autoria definida).
 

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