Por
Izabel Gurgel (*)
Brincamos, entre pessoas queridas, sobre
testes de vida que podem ser feitos antes de tocar nossos enterros.
No meu caso, os últimos a serem feitos são
simples como dizer até logo no dia-a-dia.
Pertinho do caixão, alguém comenta sobre um
livro que está lendo. Fala com o entusiasmo das criaturas doidas por livro e
leitura. Vislumbra o outro fruindo da graça de ler o dito cujo citado para, de
fato, saber, sentindo, o que um irmão de "A Casa" (Natércia Campos),
"Yuxin" (Ana Miranda), "Um defeito de cor" (Ana Maria
Gonçalves), "O infinito em um junco - A invenção dos livros no mundo
antigo" (Irene Vallejo) pode fazer nas veredas de alguém em estado de
leitura, vasto sertão. A pessoa falante arremata o comentário: "Será que a
Izabel leu? Não lembro de ter comentado com ela...".
Outra prova pode se dar com a mesma
criatura leitora, desde que tenha a fome de viver para quem a gula é promessa
de paraíso, uma biblioteca a ser incorporada. Aquela criatura que, saindo da
sorveteria do Juarez (a da Barão de Studart), ainda que reconhecendo as
mudanças no sorvete dos sorvetes de Fortaleza (e se não mudar, não há como
permanecer, sabemos), a tal criatura quer nem que seja só uma mordida do picolé
rosa choque avistado nas mãos de uma passante. Não importa se acabou de tomar
um ou dois sorvetes, e lembrou do Juarez, ampliando os sentidos do termo
presente, abrindo um freezer depois do outro e, de colherzinha na mão, vir
ensinar a fazer de cada prova de sabor uma festa no céu da boca. Cajarana,
capim santo, cajá tão felizes por encerrar a vida vegetal virando sorvete do
Juarez.
Cheia da fome de viver, ao pé do meu
caixão, a pessoa convida outra para um café com bolo da Walma Laena, tapioca da
Lalá, ou pão de chapa de rua, tão passado que afina e nos faz pensar em papel
manteiga. Se for amiga da onça, a pessoa falante vai saber cutucar diretamente
a finada, sem vara. Pode citar o bolo de caco cuja lembrança fez Seu Nery -
cozinheiro na casa de Arneiroz que ele transformou em pousada - inventar um
passeio com a hóspede até o Planalto, na zona rural. Ele dirigindo não só o
carro, mas dando ao deus do acaso a vez de manobrar o passeio para chegarem à
casa de uns conhecidos bem na hora de festejar o calor da tarde, na calçada
alta, com café que a gente precisa soprar antes de tomar. A mãos-de-fada dona
da morada na rodagem estava botando na janela a travessa de bruaca de farinha
de milho. Reluzia o açúcar com canela.
O outro teste de vida é tocar ou cantarolar
"Reconvexo" na voz da Maria Bethânia ou uma canção de Carnaval com
letra do Fausto Nilo. Pode ser baixinho.
Nas três provas, se a finada não levantar
do caixão, pode tocar o enterro. Está mortinha da silva. E talvez danada por
perder a volta do cemitério, entre pessoas muito queridas. Que sabem estar ao
redor de uma mesa, ao pé de um balcão, ou em alguma beirada do mundo, olhando o
tempo.
Mas tem gente que não sabe brincar.
(*) Jornalista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 24/05/26. Vida & Arte, p.2.

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