Mostrando postagens com marcador saúde. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador saúde. Mostrar todas as postagens

domingo, 12 de julho de 2026

Iprede completa 40 anos transformando a infância no Ceará II

 

Iprede completa 40 anos transformando a infância no Ceará II

Por Ana Rute Ramires, jornalista de O Povo

OP - Desde o início, vocês se preocuparam em cuidar não apenas das crianças, mas o contexto de cuidado de familiar...

Sulivan - Exatamente. Aí quando a gente passou a gerar esse vínculo, a gente viu que do outro lado passamos não é só uma mãe que é cuidadora, mas que essa cuidadora é uma mulher. O Iprede não enxergava a mulher, ele enxergava a mãe. O Iprede tem essa dívida imensa com a mulher. Foi quando nós passamos a criar, além da trajetória da criança, a trajetória feminina.

OP - Vocês mudaram esse olhar, como é hoje?

Sulivan - Esse olhar é fantástico, porque a gente passa a recuperar, não é só o peso da criança, a gente passa a recuperar um ser humano. A gente passa a garantir para aquela criança um futuro de qualidade e a gente passa a olhar para aquela mulher que chega ali, regra geral, a mulher que passa por maior privação de vida, que é não ter escolhas. Ela não tem escolha de absolutamente nada. Essa mulher, geralmente, recebe violência corporal do seu parceiro. Essa mulher não tem uma formação profissionalizada. Essa mulher vive de bico. Essa mulher não recebe elogios. Mas é essa figura mais sofrida da sociedade que supera, que dá volta por cima, que cresce, que sai da miséria, depois de gerar vínculo, levando seus filhos. É fantástico. Ela passa a ser provedora da sua família. Ela passa a dizer não para violência domiciliar e passa a ter uma outra estruturação organizada, saudável, garantindo qualidade de vida futura para os seus filhos.

OP - Quais projetos vocês desenvolvem com esse foco na mulher, na independência?

Sulivan - Apoio da forma mais ampla possível, a começar pela saúde. Nós temos a ginecologia que assiste a mulher em todos os seus sentidos, na prevenção, no tratamento da doença ginecológica, na implantação de DIU, retirada de DIU e biópsia, se for o caso fazer. Nós temos rodas de conversa com psicólogos, profissionais da área de saúde mental que assegura essa mulher uma escuta. E essa escuta direciona pro atendimento das suas necessidades e pro seu crescimento pessoal. Nós temos também para a mulher a formação profissionalizante. Hoje nós temos geralmente no Iprede mais de 30 tipos de curso que vai atender a mulher. Aquela que não pode sair de casa pro trabalho, exerce sua atividade profissional dentro da sua própria casa, seja ela na culinária, no corte de costura, na gastronomia ou na estética.

Além do impacto direto nas famílias assistidas, o centro, que completa quatro décadas no próximo dia 16, consolidou-se como um importante polo de pesquisa e intercâmbio acadêmico internacional. Ao O POVO, o médico pediatra Sulivan Mota, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) e presidente do Iprede, descreve metodologias inovadoras de baixo custo desenvolvidas no instituto, que utilizam a arte, cultura e esporte para promover a inclusão.

Fonte: O Povo, 7/06/26. Aguanambi 282. p.12.


Iprede completa 40 anos transformando a infância no Ceará I

 Iprede completa 40 anos transformando a infância no Ceará I

Por Ana Rute Ramires, jornalista de O Povo

Sulivan Mota, médico pediatra e presidente do Instituto da Primeira Infância (Iprede) em Fortaleza, fala sobre as mudanças nas demandas da entidade

O Instituto da Primeira Infância (Iprede) foi criado 1986 para combater a desnutrição grave. Ao longo de 40 anos, a instituição vem transformando a infância de milhares de crianças e famílias. Atualmente, a organização destaca-se também no suporte a crianças com transtorno do espectro autista (TEA) e no empoderamento de mulheres em situação de vulnerabilidade, oferecendo desde cuidados médicos até formação profissional.

Além do impacto direto nas famílias assistidas, o centro, que completa quatro décadas no próximo dia 16, consolidou-se como um importante polo de pesquisa e intercâmbio acadêmico internacional. Ao O POVO, o médico pediatra Sulivan Mota, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) e presidente do Iprede, descreve metodologias inovadoras de baixo custo desenvolvidas no instituto, que utilizam a arte, cultura e esporte para promover a inclusão.

O POVO - No início, o foco do atendimento era a desnutrição. Após 40 anos, isso mudou. Qual o foco do atendimento hoje em dia?

Sulivan Mota - A grande diferença vem através das demandas. Na época que o Iprede foi fundado, na década de 80 — precisamente em junho de 86 — a demanda era desnutrição. Nós tínhamos que combater a desnutrição. Nós tínhamos um pouquinho mais de um terço de nossa infância toda desnutrida. E não era a desnutrição do primeiro e segundo grau. A grande maioria era do terceiro grau. Era aquela sensação de quando se entrava dentro do Iprede que nós estávamos chegando na África. Porque eram crianças realmente em estágios que nos diziam: "Isso não pode existir". Tinha aquelas crianças que só tinha realmente, como a expressão popular diz, o couro e os ossos, né? Eu me liguei ao Iprede por ser professor de pediatria, por dar aula sobre desnutrição e eu levava os alunos lá. Eu não sou fundador do Iprede. O Iprede foi fundado de uma forma muito mais linda do que fosse por mim. Ele foi fundado por sete mulheres dentro do Hospital Infantil Albert Sabin (HIAS). Essas mulheres todas, algumas Ana, algumas Maria, algumas Ana Maria, realmente chamando a memória da presença da mãe e da avó de Jesus, né, Ana e Maria. E fundada a casa, eu passei a frequentar. Frequentei durante 20 anos como professor, levando aluno, como voluntário depois. E, depois, há 20 anos, nós assumimos a direção. Quando nós assumimos, era aquele conceito dentro do mundo que o ser humano ele se formata nos primeiros seis anos de vida, que é a chamada primeira infância, ou até mesmo dentro da primeira metade, que é a primeiríssima infância, três anos. E o Iprede passou a reconhecer que mesmo a criança que chegava lá em vulnerabilidade social extrema era uma criança até 6 anos, era a primeira infância. Então, não havia mais aquela urgência extrema da desnutrição, mas havia uma urgência de se investir no ser humano em termos de formação, em termos de capital humano. E esse capital humano, ele é formado principalmente através dos afetos. O afeto leva ao brincar, leva ao cuidar e isso estava ausente nessa criança que chegava ao Iprede. Essa criança só tinha algo em comum, que era a falta de vínculo entre ela e sua mãe. E o Iprede então passou a buscar no mundo algum método e encontramos uma metodologia muito rica que é chamada MISC, que trabalha formando e fortalecendo o vínculo mãe e filho. É uma metodologia antiga, mas que tem um resultado maravilhoso. Uma metodologia que foi usada após Segunda Guerra Mundial e nós aplicamos ainda hoje no Iprede entre mãe e filhos que vêm oriundos da miséria. A miséria é uma desorganização social absoluta, desorganização social, profissional, familiar. Você ter uma mãe que não tem vínculo com seu filho, você vê o nível de desorganização. Essa criança que crescer, no sentido de não ter um porto seguro, não ter uma mediação, porque você só é mediado se você tiver alguém que você tem vínculo. Nessa mediação é que se estimula uma criança pelo brincar, pelo afeto, pelo afago, pelo contato que nós temos. A mãe que não tem vínculo com a criança, ela nem sequer toca o olho no olho da criança.

Fonte: O Povo, 7/06/26. Aguanambi 282. p.12.

 

Free Blog Counter
Poker Blog