Piquenique no cemitério dos
outros...
Claudinha
- do Potengi contou-me e eu repasso sem medo de acreditar que não seja a mais
cristalina verdade o ocorrido. Primeiro, o contexto da arrumação:
—
Dizem que herança une a família. No meu caso, ela quase virou caso de polícia.
Tudo começou quando meu esposo e eu resolvemos convencer a mãe dele, também
minha tia e hoje com 94 anos, a fazer a partilha dos bens ainda em vida entre
os cinco filhos.
Um
"goipim d'água", o "fôrgo" recomposto e a amiga prossegue
na contação: a herança não era uma fazenda milionária, mas alguns alqueires no
interior do Ceará. E bastou tocar no assunto da partilha para ela descobrir
que, quanto menor a herança, maior o arranca-rabo. Claudinha expôs que a
primeira tentativa de realizar a dita divisão foi desastrosa - discussões,
desentendimentos e até ameaças de cacete.
—
A situação ficou tão séria que eu e meu marido chegamos a ter medo de andar na
rua. Tudo por causa de um pedacinho véi de terra. Nunca imaginei viver uma
história dessas.
—
Marrapaz! E aí?
—
E aí que, depois de muito diálogo, paciência, viagens e insistência, finalmente
conseguimos: minha tia fez a partilha. Recebemos o nosso tão esperado quinhão
de chão. Respiramos aliviados, pensando que a novela havia acabado. Só
pensamos. Dias mais tarde surgiu nova surpresa.
A
surpresa? Uma outra tia, dona do terreno vizinho ao da querela citada, decidiu
doar parte da área para a construção de um... cemitério!
—
Como o terreno do meu marido faz divisa com o dela, pediu justamente a
assinatura dele para autorizar o projeto. Na mesma hora, tratei de avisar: — Já
que a coisa tomou outro rumo, evite ir praquelas bandas. Conheço bem essas
histórias.
—
Por que não o Potengi ir ao interior, peitar a realidade? — indaguei com
ingênua sinceridade.
—
Porque daqui a pouco aparece alguém oferecendo uma cachacinha com nambu assada,
ele se anima, assina esse papel e, quando eu der fé, em vez de um sítio cheio
de vida, vou encontrar um cemitério nos meus costados.
Entendi,
enfim, ouvindo a amiga querida finalizar:
—
Briguei muito para conseguir aquele pedacinho de terra por nutrir um sonho
simples: plantar algumas árvores, colocar uma rede e ouvir o canto dos
passarinhos. Nunca imaginei que precisaria começar uma batalha para tirar um
cemitério do alpendre de casa.
O golpista liso
Botaram
dinheiro na conta da Maria — tramoia manjada — e pediram que o devolvesse. Tudo
pelo zap. Com os dados dela em mão, colocados na tela do celular, a ideia era
meter-lhe medo e fazê-la expor dados bancários. Maria descolada imaginou: se eu
der cabimento, eles entram na minha conta e fazem a festa. Quanto foi o
"depósito deliberadamente indevido" na conta de Maria? 30 reais. A
resposta ao falsário foi ácida:
—
Ô, seu fulerage! Primeiramente vá se... segundamente: tu vai ficar mais liso 30
reais, porque eu não vou devolver a merreca, não! Inda vou te excluir e te
denunciar, abestado!
Aí dentro, my love!
Zezé
das Cabras e a mulher Linosa em festa dos patrões, na cozinha de casa
trabalhando. Recepção a um casal de ingleses. Patroa leva os gringos até onde
cheiro bom da feijoada partia forte. Dirigindo-se à cozinheira, a estrangeira
elogia o dicumê em preparo:
—
Wonderful, baby! It smells good!
Diante
de uma funcionária que não sabia patavina o que estavam falando, Zezé — o
craque das Vila dos Industriários, já com duas na cabeça, instrui professoral:
—
Amor, manda ver um 'my love' e a galega vai entender direitinho!
—
Aí dentro, Zezé! — redarguiu Linosa, experimentando o caldo do feijão na mão.
Fonte: O POVO, de 11/09/2026. Coluna
“Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.

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