Por Lêda
Maria, jornalista de O Povo
Desde criança ele já manifestava o desejo
de ser médico. Aos 9 anos, conseguiu comprar o seu primeiro livro de pequenos
socorros e logo aprendeu a aplicar injeção, ganhando a confiança das pessoas e
entregando-se à prática de um "pequeno doutor", recebendo da família
orientação e motivação.
Após a formação em Medicina, pela UFC,
conheceu o Iprede, ali exercendo sua vocação de amor. São 40 anos de dedicação.
Aqui está Sulivan Mota, nosso entrevistado.
1. Quem é você?
Eu sou o Sulivan Mota. Ou melhor, eu fui o
Sulivan Mota até alguns anos atrás, quando assumi o Iprede. A partir dali,
passei a ser o Sulivan do Iprede.
É assim que a sociedade carinhosamente me
chama. E eu sou imensamente feliz por isso — por estar nesta casa e ouvir
"o Sulivan do Iprede" e não o inverso, "o Iprede do
Sulivan", o que me deixaria profundamente triste. Sou pediatra de alma.
Professor aposentado da Universidade
Federal do Ceará, onde exerci a docência por escolha de vida durante 44 anos.
2. Por que optou pela profissão de médico?
É difícil dizer, porque me falta a
lembrança de ter pensado em qualquer outra profissão. Sempre tive a certeza
absoluta de que seria médico.
O que me levou a isso, realmente, não sei.
Não tive um pai ou um irmão mais velho médico para me influenciar.
Aos 10 anos de idade, depois de insistir
muito, meu pai comprou para mim um livro que ensinava a aplicar injeção
intramuscular.
Li e reli aquele livro e, depois de meu pai
tomar a lição repetidamente, abri meu pequeno ambulatório para fazer curativos
e aplicar injeções.
Tinha uma maletinha que eu carregava para
cima e para baixo, atendendo a vizinhança ou alguém da família que
necessitasse. Assim, ainda menino, eu já me projetava médico.
3. E o Iprede, como chegou à sua vida?
O Iprede chegou de forma muito suave, muito
terna. Não sou fundador, mas, logo depois de fundado, cheguei ao Iprede como
professor da UFC, levando meus alunos da disciplina de Desnutrição para aulas
práticas.
Naquela época, a desnutrição atingia um
pouco mais de um terço de nossas crianças. Logo me encantei com o Iprede, pela
sua capacidade de estudar e por suas articulações com entidades do mundo
inteiro, como o Instituto de Nutrição de Londres, onde Waterlow era o maior pesquisador
em desnutrição da época.
Depois passamos a ser plantonista e médico
do ambulatório, sempre nos comprometendo com aquele trabalho lindo, que
transforma vidas. Falo no plural porque essa caminhada tem a companhia
inseparável do pediatra João Nelson.
Nos encantamos tanto que, quando o Iprede
esteve ameaçado de fechar as portas, decidimos assumir a entidade, mesmo em
meio a grandes dificuldades. Chegamos com o coração aberto, com muita fé em
Deus, que se faz manifestar aqui a todo instante.
4. Hoje quais são os seus dois principais desejos nessa caminhada no
Iprede?
Alimentamos um dos maiores sonhos: a
autossustentabilidade. No início nos pareceu utopia, mas a cada dia nos
aproximamos mais dela. O primeiro desejo foi honrar e pagar as dívidas.
O segundo, o sonho que hoje nos move, é
alcançar escala no atendimento das crianças neurodivergentes. Hoje temos uma
demanda que jamais o Estado brasileiro terá condições de atender sozinho.
Mesmo havendo recursos, não teremos
profissionais suficientes para assistir todas as crianças necessitadas.
A metodologia que se tem hoje para a
intervenção no autismo exige um contingente de especialistas que o Brasil não
dispõe.
O Iprede estudou e desenvolveu uma
metodologia 10 a 12 vezes mais barata que a tradicional e que pode ser
implantada tanto no pequeno quanto no grande município do Brasil.
Meu sonho é vê-la implantada, atendendo à
demanda por inteiro. Só em Fortaleza, esta demanda ultrapassa 55.000 crianças
buscando uma vaga para atendimento que, certamente, não terão se nada mudar.
5. Devoto de Irmã Dulce, como se relaciona com ela e qual uma graça
alcançada?
Irmã Dulce tem sido a nossa mentora, a
nossa santa milagrosa fazendo com que aqui dentro hoje possamos atender 4 mil
crianças, 4 mil famílias.
A gente conseguir fazer a transformação
dessas realidades confirma a cada momento a verdadeira realização de um milagre
dela.
Fonte:
Publicado In: O Povo, de 19/09/2026. V&A.
Lêda Maria. p.3.

Nenhum comentário:
Postar um comentário