domingo, 20 de setembro de 2026

SULIVAN MOTA

Por Lêda Maria, jornalista de O Povo

Desde criança ele já manifestava o desejo de ser médico. Aos 9 anos, conseguiu comprar o seu primeiro livro de pequenos socorros e logo aprendeu a aplicar injeção, ganhando a confiança das pessoas e entregando-se à prática de um "pequeno doutor", recebendo da família orientação e motivação.

Após a formação em Medicina, pela UFC, conheceu o Iprede, ali exercendo sua vocação de amor. São 40 anos de dedicação. Aqui está Sulivan Mota, nosso entrevistado.

1. Quem é você?

Eu sou o Sulivan Mota. Ou melhor, eu fui o Sulivan Mota até alguns anos atrás, quando assumi o Iprede. A partir dali, passei a ser o Sulivan do Iprede.

É assim que a sociedade carinhosamente me chama. E eu sou imensamente feliz por isso — por estar nesta casa e ouvir "o Sulivan do Iprede" e não o inverso, "o Iprede do Sulivan", o que me deixaria profundamente triste. Sou pediatra de alma.

Professor aposentado da Universidade Federal do Ceará, onde exerci a docência por escolha de vida durante 44 anos.

2. Por que optou pela profissão de médico?

É difícil dizer, porque me falta a lembrança de ter pensado em qualquer outra profissão. Sempre tive a certeza absoluta de que seria médico.

O que me levou a isso, realmente, não sei. Não tive um pai ou um irmão mais velho médico para me influenciar.

Aos 10 anos de idade, depois de insistir muito, meu pai comprou para mim um livro que ensinava a aplicar injeção intramuscular.

Li e reli aquele livro e, depois de meu pai tomar a lição repetidamente, abri meu pequeno ambulatório para fazer curativos e aplicar injeções.

Tinha uma maletinha que eu carregava para cima e para baixo, atendendo a vizinhança ou alguém da família que necessitasse. Assim, ainda menino, eu já me projetava médico.

3. E o Iprede, como chegou à sua vida?

O Iprede chegou de forma muito suave, muito terna. Não sou fundador, mas, logo depois de fundado, cheguei ao Iprede como professor da UFC, levando meus alunos da disciplina de Desnutrição para aulas práticas.

Naquela época, a desnutrição atingia um pouco mais de um terço de nossas crianças. Logo me encantei com o Iprede, pela sua capacidade de estudar e por suas articulações com entidades do mundo inteiro, como o Instituto de Nutrição de Londres, onde Waterlow era o maior pesquisador em desnutrição da época.

Depois passamos a ser plantonista e médico do ambulatório, sempre nos comprometendo com aquele trabalho lindo, que transforma vidas. Falo no plural porque essa caminhada tem a companhia inseparável do pediatra João Nelson.

Nos encantamos tanto que, quando o Iprede esteve ameaçado de fechar as portas, decidimos assumir a entidade, mesmo em meio a grandes dificuldades. Chegamos com o coração aberto, com muita fé em Deus, que se faz manifestar aqui a todo instante.

4. Hoje quais são os seus dois principais desejos nessa caminhada no Iprede?

Alimentamos um dos maiores sonhos: a autossustentabilidade. No início nos pareceu utopia, mas a cada dia nos aproximamos mais dela. O primeiro desejo foi honrar e pagar as dívidas.

O segundo, o sonho que hoje nos move, é alcançar escala no atendimento das crianças neurodivergentes. Hoje temos uma demanda que jamais o Estado brasileiro terá condições de atender sozinho.

Mesmo havendo recursos, não teremos profissionais suficientes para assistir todas as crianças necessitadas.

A metodologia que se tem hoje para a intervenção no autismo exige um contingente de especialistas que o Brasil não dispõe.

O Iprede estudou e desenvolveu uma metodologia 10 a 12 vezes mais barata que a tradicional e que pode ser implantada tanto no pequeno quanto no grande município do Brasil.

Meu sonho é vê-la implantada, atendendo à demanda por inteiro. Só em Fortaleza, esta demanda ultrapassa 55.000 crianças buscando uma vaga para atendimento que, certamente, não terão se nada mudar.

5. Devoto de Irmã Dulce, como se relaciona com ela e qual uma graça alcançada?

Irmã Dulce tem sido a nossa mentora, a nossa santa milagrosa fazendo com que aqui dentro hoje possamos atender 4 mil crianças, 4 mil famílias.

A gente conseguir fazer a transformação dessas realidades confirma a cada momento a verdadeira realização de um milagre dela.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/09/2026. V&A. Lêda Maria. p.3.


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