Por Magda Almeida
(*)
De um lado do Espigão do Náutico, a
Prefeitura de Fortaleza anunciou uma nova piscina de raias no mar, celebrando o
esporte e a valorização da orla. Do outro, uma galeria pluvial despeja um
líquido escuro e espumoso que atravessa a faixa de areia e chega diretamente ao
mar. As duas cenas, separadas por poucos metros, revelam uma contradição da
cidade da Luz.
Investir em espaços para esportes aquáticos
é uma iniciativa importante. Temos uma relação histórica, econômica e afetiva
com o mar. Incentivar a atividade física, o turismo e a ocupação qualificada
dos espaços públicos merece reconhecimento.
O próprio boletim de balneabilidade
considera o lado esquerdo próprio para banho e o lado direito, impróprio. O
espigão pode alterar a circulação da água e dificulta a dispersão do que é
lançado do outro lado, mas não elimina o problema
A questão central permanece sem resposta. A
galeria é destinada ao escoamento de águas pluviais, mas existem ligações
clandestinas de esgoto na rede de drenagem? Há contaminação fecal,
microrganismos patogênicos ou substâncias químicas? Água, areia e sedimentos
próximos ao ponto de lançamento estão sendo monitorados de forma sistemática?
Quais análises foram realizadas e quais os resultados? Sem essas respostas, a
população permanece exposta e privada do direito de decidir, com segurança, se
deve entrar no mar.
Os impactos vão muito além dos banhistas. A
área é utilizada diariamente por nadadores, praticantes de canoa havaiana,
caiaque, stand up paddle, pescadores, turistas, comerciantes e trabalhadores.
Também podem atingir a fauna marinha, comprometendo peixes, crustáceos,
moluscos, algas e outros organismos que sustentam o equilíbrio do ecossistema
costeiro.
A segurança alimentar também merece
atenção. Não se pode afirmar, sem evidências, que os pescados daquela região
estejam contaminados, mas também não é aceitável presumir que estejam seguros
sem monitoramento e divulgação dos resultados.
Caso seja confirmada alguma fonte de
poluição, a população precisa saber quais providências estão sendo adotadas.
Transparência significa investigar, divulgar os achados de forma acessível e
sinalizar adequadamente os riscos quando eles existirem.
Saúde ambiental não é pauta ideológica. É
uma responsabilidade compartilhada entre Prefeitura, órgãos ambientais e
sanitários, concessionária de esgotamento e órgãos de controle.
A piscina de raias pode se tornar um
importante legado para Fortaleza. Mas, antes de convidar a população a nadar, é
indispensável garantir água limpa e banho seguro para quem frequenta
diariamente o outro lado da muralha de pedras. Um mesmo espigão não pode
separar a cidade da propaganda, da cidade que vive o mar todos os dias.
(*) Médica de
Família e Comunidade. Professora da Famed/UFC. Gestora pública.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 25/09/2026.
Opinião. p.19.

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