quinta-feira, 29 de outubro de 2026

DUAS FACES DO MESMO ESPIGÃO

Por Magda Almeida (*)

De um lado do Espigão do Náutico, a Prefeitura de Fortaleza anunciou uma nova piscina de raias no mar, celebrando o esporte e a valorização da orla. Do outro, uma galeria pluvial despeja um líquido escuro e espumoso que atravessa a faixa de areia e chega diretamente ao mar. As duas cenas, separadas por poucos metros, revelam uma contradição da cidade da Luz.

Investir em espaços para esportes aquáticos é uma iniciativa importante. Temos uma relação histórica, econômica e afetiva com o mar. Incentivar a atividade física, o turismo e a ocupação qualificada dos espaços públicos merece reconhecimento.

O próprio boletim de balneabilidade considera o lado esquerdo próprio para banho e o lado direito, impróprio. O espigão pode alterar a circulação da água e dificulta a dispersão do que é lançado do outro lado, mas não elimina o problema

A questão central permanece sem resposta. A galeria é destinada ao escoamento de águas pluviais, mas existem ligações clandestinas de esgoto na rede de drenagem? Há contaminação fecal, microrganismos patogênicos ou substâncias químicas? Água, areia e sedimentos próximos ao ponto de lançamento estão sendo monitorados de forma sistemática? Quais análises foram realizadas e quais os resultados? Sem essas respostas, a população permanece exposta e privada do direito de decidir, com segurança, se deve entrar no mar.

Os impactos vão muito além dos banhistas. A área é utilizada diariamente por nadadores, praticantes de canoa havaiana, caiaque, stand up paddle, pescadores, turistas, comerciantes e trabalhadores. Também podem atingir a fauna marinha, comprometendo peixes, crustáceos, moluscos, algas e outros organismos que sustentam o equilíbrio do ecossistema costeiro.

A segurança alimentar também merece atenção. Não se pode afirmar, sem evidências, que os pescados daquela região estejam contaminados, mas também não é aceitável presumir que estejam seguros sem monitoramento e divulgação dos resultados.

Caso seja confirmada alguma fonte de poluição, a população precisa saber quais providências estão sendo adotadas. Transparência significa investigar, divulgar os achados de forma acessível e sinalizar adequadamente os riscos quando eles existirem.

Saúde ambiental não é pauta ideológica. É uma responsabilidade compartilhada entre Prefeitura, órgãos ambientais e sanitários, concessionária de esgotamento e órgãos de controle.

A piscina de raias pode se tornar um importante legado para Fortaleza. Mas, antes de convidar a população a nadar, é indispensável garantir água limpa e banho seguro para quem frequenta diariamente o outro lado da muralha de pedras. Um mesmo espigão não pode separar a cidade da propaganda, da cidade que vive o mar todos os dias.

(*) Médica de Família e Comunidade. Professora da Famed/UFC. Gestora pública.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 25/09/2026. Opinião. p.19.


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