Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)
Setembro nos apresenta duas
convocações distintas. A Igreja no Brasil celebra o Mês da Bíblia, iluminado em
2026 pelo Livro de Daniel; a sociedade vive o Setembro Amarelo, dedicado à
prevenção do suicídio e à saúde mental. Ambas, porém, nos levam à mesma
pergunta: como permanecer ao lado de quem atravessa a noite?
Daniel nasce da experiência
de um povo no exílio, sob poderes aparentemente invencíveis. Seu anúncio —
"Seu reino jamais será destruído" — não foge da realidade. Afirma que
nenhuma circunstância possui a palavra definitiva sobre a vida. A esperança
bíblica não ignora o medo nem encobre a dor; abre espaço para atravessá-los em
companhia.
Precisamos compreender que
a fé não exige de ninguém uma aparência de fortaleza. Há sofrimentos que pedem
oração; há outros que necessitam de acompanhamento psicológico ou médico;
muitas vezes, precisam de tudo isso junto. Procurar ajuda não revela falta de
fé. Pode ser, ao contrário, um gesto de lucidez, humildade e coragem.
A espiritualidade inaciana
ensina a reconhecer os movimentos interiores: aquilo que amplia a vida e aquilo
que nos fecha na solidão, na desesperança e no silêncio. Discernir não é
observar a vida à distância, mas escutar com honestidade o que se passa em nós
e permitir que alguém se aproxime. Deus também cuida pela ciência, pelos
profissionais da saúde, pelos amigos e pelas comunidades capazes de acolher sem
julgar.
Neste Setembro Amarelo, a
Igreja é chamada não apenas a falar sobre a vida, mas a se tornar presença que
a protege. Isso exige comunidades atentas, o abandono de respostas simplistas e
a compreensão de que frases religiosas, quando usadas para apressar a dor do
outro, podem aumentar seu isolamento. Muitas vezes, o cuidado começa quando
deixamos de explicar e escolhemos permanecer.
O Livro de Daniel recorda
que os impérios passam e que o Reino de Deus se manifesta onde a dignidade
resiste. Talvez uma das expressões mais concretas desse Reino, hoje, seja uma
pessoa dizendo a outra: "Você não precisa enfrentar isso sozinho".
Pedir ajuda é abrir uma fresta para a esperança. Oferecê-la é fazer da fé uma
companhia viva.
(*) Sacerdote jesuíta e
mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do
Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.
Fonte: O Povo, de 24/09/2026.
Opinião. p.14.

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