sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Quando a esperança precisa de companhia

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

Setembro nos apresenta duas convocações distintas. A Igreja no Brasil celebra o Mês da Bíblia, iluminado em 2026 pelo Livro de Daniel; a sociedade vive o Setembro Amarelo, dedicado à prevenção do suicídio e à saúde mental. Ambas, porém, nos levam à mesma pergunta: como permanecer ao lado de quem atravessa a noite?

Daniel nasce da experiência de um povo no exílio, sob poderes aparentemente invencíveis. Seu anúncio — "Seu reino jamais será destruído" — não foge da realidade. Afirma que nenhuma circunstância possui a palavra definitiva sobre a vida. A esperança bíblica não ignora o medo nem encobre a dor; abre espaço para atravessá-los em companhia.

Precisamos compreender que a fé não exige de ninguém uma aparência de fortaleza. Há sofrimentos que pedem oração; há outros que necessitam de acompanhamento psicológico ou médico; muitas vezes, precisam de tudo isso junto. Procurar ajuda não revela falta de fé. Pode ser, ao contrário, um gesto de lucidez, humildade e coragem.

A espiritualidade inaciana ensina a reconhecer os movimentos interiores: aquilo que amplia a vida e aquilo que nos fecha na solidão, na desesperança e no silêncio. Discernir não é observar a vida à distância, mas escutar com honestidade o que se passa em nós e permitir que alguém se aproxime. Deus também cuida pela ciência, pelos profissionais da saúde, pelos amigos e pelas comunidades capazes de acolher sem julgar.

Neste Setembro Amarelo, a Igreja é chamada não apenas a falar sobre a vida, mas a se tornar presença que a protege. Isso exige comunidades atentas, o abandono de respostas simplistas e a compreensão de que frases religiosas, quando usadas para apressar a dor do outro, podem aumentar seu isolamento. Muitas vezes, o cuidado começa quando deixamos de explicar e escolhemos permanecer.

O Livro de Daniel recorda que os impérios passam e que o Reino de Deus se manifesta onde a dignidade resiste. Talvez uma das expressões mais concretas desse Reino, hoje, seja uma pessoa dizendo a outra: "Você não precisa enfrentar isso sozinho". Pedir ajuda é abrir uma fresta para a esperança. Oferecê-la é fazer da fé uma companhia viva.

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.

Fonte: O Povo, de 24/09/2026. Opinião. p.14.


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