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quinta-feira, 9 de maio de 2024

O FUTEBOL NORDESTINO E A LATINIDADE

Por Mailson Furtado (*)

Belchior inicia o verso de sua música de maior sucesso dizendo “Eu sou um rapaz latino-americano”, assumindo-se, antes de se dizer brasileiro ou cearense, que também foi, um latino. Contrapondo uma grande lacuna à grande parte da população brasileira, que é o assumir-se ou mesmo saber-se como latino-americano.

Tal fato traz experiências das distintas colonizações na América Latina. Enquanto todos os demais países foram colonizados pela Espanha, apenas o Brasil foi por Portugal, com idiomas diferentes que impõem uma barreira na comunicação.

As formas de independências influem também no sentimento do povo por sua terra. Os países hispânicos se “fizeram” através de lutas sangrentas, enquanto o Brasil, no cerne, por um acordo político dentro da própria corte portuguesa. Assim, diante da magnitude geográfica e da disparidade econômica que se firmou, o Brasil consolidou um olhar hegemônico diante dos vizinhos, descolando-se e garimpando outras referências para comparar-se, geralmente advindas da Europa ou América Inglesa.

Isso reflete muito na história do futebol brasileiro, onde, até os anos 1990, a Libertadores não era o campeonato mais importante para os clubes daqui, sendo desdenhado inclusive em prol dos Estaduais.

De lá pra cá, muita coisa mudou, e mesmo que haja ainda uma grande barreira invisível em relação à América hispânica, ficamos mais próximos, tanto pela globalização inerente desses dias, como pela firmação de acordos como o Mercosul. No entanto, é o futebol, paixão comum de todos, uma das experiências de latinidade que dia a dia prova-se, permitindo conhecer-nos.

Acompanhamos com entusiasmo, nos últimos anos, a consolidação dos clubes cearenses dentro das competições sul-americanas, inclusive como protagonistas. Desde 2020 temos pelo menos um representante seja na Libertadores ou Sul-Americana, fato inédito a qualquer outro estado do Nordeste. E pensando sobre o futebol ser esse mote para encurtamento de distâncias e experiência in loco sobre a própria latinidade, dos tantos Brasis possíveis a encontro, onde estava o Nordeste antes neste processo?

É uma pergunta que a sua não-resposta diz muito. Não estava. Acabando por aumentar as barreiras já tão cristalizadas, principalmente ao Nordeste, que é a única região do Brasil a não ter fronteiras com nenhum outro país.

Dessa forma, ter um clube cearense pelo quinto ano seguido em uma competição continental, para além de um marco esportivo e histórico, é também político, potencializando a nordestinidade como símbolo de brasilidade e de latinidade. Seguindo esse trilhar, não demorará a dizer-nos aqui pelo Ceará, tal qual Belchior, que antes de tudo (também) somos latino-americanos.

(*) Cirurgião-dentista. Escritor e professor.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 18/04/24. Online.

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

NORDESTE PIGMEU – Uma geração ameaçada

Meraldo Zisman (*)

Médico-Psicoterapeuta

Ficha Técnica

Autor: Meraldo Zisman
Gênero: Saúde / Políticas Públicas
Lançamento: agosto 2022
Páginas: 286
ISBN: 978-65-87012-35-3 (e-book) ISBN: 978-65-87012-36-0 (papel)

Resumo:

Nordeste Pigmeu é um marco da literatura científica do Brasil. Publicado originalmente em 1987, o livro de Meraldo Zisman é referência internacional nos estudos relacionados à fome e nutrição. Depois de 35 anos fora de circulação, esta segunda edição (2022) chega ao mercado editorial trazendo todo o conteúdo original digitalizado, incluindo os brilhantes desenhos de William George Thomson-Jack. Além de uma nova diagramação, esta nova edição também está disponível em formato digital (e-book), no acervo da Amazon Brasil, sendo de grande serventia a estudantes, médicos e pesquisadores do mundo inteiro.

A pesquisa de Meraldo Zisman, apresentada em 1985 na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), expõe os efeitos dramáticos provocados pela fome e a subalimentação na Região Nordeste. A partir de um universo de 30 mil crianças, pesquisadas em duas maternidades do Recife, o autor tenta determinar, do ponto de vista científico, até que ponto o peso ao nascimento estaria condicionado ao estado nutricional e à saúde materna. Previstas desde os anos 1960 como ‘possibilidades para o futuro’, a fome e o nanismo nutricional nas grandes cidades ultrapassaram rapidamente os limites da zona rural. Logo se tornaram uma variável constante nos centros urbanos durante as décadas a seguir.

(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE), da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES) e da Academia Recifense de Letras. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

CHEIRO DE PRECONCEITO

Meraldo Zisman (*)

Médico-Psicoterapeuta

… O preconceito é uma catinga. Péssimo odor exalado pelo corpo suado; inhaca; catinga de roupa usada; um tecido com fedor de comida estragada…

Em se tratando de discriminação, tenho mais de cinco mil anos de experiência, e observo, com apreensão, a mídia tornar-se – mais uma vez – preconceituosa contra o nordestino.

Contrariamente aos da minha região, sou alto, possuo olhos azuis e o que restou da minha vasta cabeleira se apresenta mais próximo do castanho. Quando fiz a residência médica no Rio de Janeiro (em 1959), as pessoas achavam engraçado um sujeito alto e louro falar como um nordestino. Duas primas minhas cariocas, inclusive, estranhavam aquele sotaque. Uma delas dizia: “Se não abrir a boca, vão até pensar que você é daqui do Rio ou de São Paulo. Credo! Você fala arrastado… Parece até com o porteiro do edifício, o cearense”.

Também aturei “brincadeiras” dos colegas do hospital, das primeiras namoradas cariocas e durante minhas poucas noitadas no Rio. Vez por outra, ouvia alguns frequentadores do bairro boêmio da Lapa dizerem uns para os outros: Lá vem aquele doutorzinho galego que fala nordestino!

Eu trabalhava com afinco e o Chefe da Especialidade demonstrava interesse para que eu permanecesse como seu assistente. Quando estava tudo acertado, veio visitar o Serviço de Pediatria o Professor Antônio Figueira, Catedrático de Puericultura no Recife. Reconhecendo-me, falou baixinho: “Volte para Pernambuco, lá é sua terra! O Recife precisa de gente como você, gente nova e bem treinada!” E eu voltei!

Quando saiu publicada na revista Veja uma matéria sobre o Homem Guabiru (o nanico nutricional), que versava sobre o livro Nordeste Pigmeu, de minha autoria, fui convidado por Jô Soares para ser entrevistado em seu programa. No entanto, recusei o convite: não me apetecia fazer gracinhas com a região em que nasci. No presente, requentando um assunto já tão antigo, quando a mídia volta a culpar o nordestino pelos males do país, como judeu que sou, além de ser ainda nordestino, volto aos meus cinco mil anos de experiência em discriminação e advirto os leitores: basta, somente, um pouquinho de cheiro de fumaça, para eu sentir a presença de preconceito.

E como o preconceito cheira mal!

O preconceito é uma catinga. Péssimo odor exalado pelo corpo suado; inhaca; catinga de roupa usada; um tecido com fedor de comida estragada.

(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE), da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES) e da Academia Recifense de Letras. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).

segunda-feira, 28 de junho de 2021

O ROMANCE DO NORDESTE

Por Luiz Gonzaga Fonseca Mota (*)

Segundo o escritor Adonias Filho, não houve no Nordeste brasileiro romance modernista, mas sim o ciclo pré-modernista e o pós-modernista. O primeiro, de Franklin Távora e Domingos Olympio, colocava em plano secundário os elementos sociais e na fase principal da cena, de forma invulgar, a chamada ação episódica. O segundo, com destaque, entre outros, para a querida e incomparável Rachel de Queiroz e José Américo de Almeida, onde os elementos sociais superam a ação episódica, traduzindo com rigor o documentário. “Mas, ao fechar-se o segundo ciclo, Graciliano Ramos abre a terceira fase: acrescenta ao documentário, sem anular a irradiação social, as indagações psicológicas”. Por trás das obras dos autores mencionados, existem componentes políticos, econômicos, sociais e religiosos compatíveis com os momentos em que foram escritas. A literatura nordestina, com certeza é a que apresenta com maior realismo as características de um povo que mata e reza para não morrer. A visão do intelectual, além de ser abrangente, é caracterizada por conter, na maioria das vezes, sentimentos sociais, diferentemente, daquilo que pensam muitos tecnocratas. A produção literária do Nordeste precisa ser levada em consideração pelos formuladores de políticas econômicas. Talvez, seja mais importante a leitura de “O Quinze”, “A Bagaceira”, “Vidas Secas” e tantos outros livros do que de compêndios estrangeiros de economia política, mesmo de alguns mestres famosos como Friedman, Hansen, Acley, Leftwich etc. O Nordeste tem suas peculiaridades e também suas vantagens comparativas que precisamos transformá-las em vantagens competitivas. Da maneira como não tivemos no romance a fase modernista, segundo Adonias Filho, podemos mediante prioridades concretas para a educação e a tecnologia, entrarmos mais rapidamente na fase pós-informática. Necessitamos dar um salto de informação e de conhecimento. Por sua vez, não basta a educação formal, mas também a educação comportamental. Esta só se adquire através do saudável “vício” da leitura diversificada. Somente assim a cultura nordestina poderá ser considerada na análise da problemática regional.

(*) Economista. Professor aposentado da UFC. Ex-governador do Ceará.

Fonte: Diário do Nordeste, Ideias. 4/6/2021.

quarta-feira, 16 de junho de 2021

A GEOGRAFIA DA FOME, O QUE MUDOU 60 ANOS DEPOIS?

Por Cláudia Leitão (*)

“Os países ricos conhecem a poluição direta, física, material, a do ambiente natural. Os países subdesenvolvidos são presas da fome, da miséria, das doenças de massa, do analfabetismo. O homem do Terceiro Mundo conhece essa forma de poluição chamada 'subdesenvolvimento'".

A reflexão, lamentavelmente tão atual, é de Josué de Castro, um pernambucano cidadão do mundo, indicado três vezes ao Prêmio Nobel, deputado, professor, embaixador e presidente da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação).

Castro era um humanista. Sua visão ética e abstrata de justiça não se descolava das suas atitudes. Atravessou a vida enfrentando poderosos para transformar a realidade das populações famintas do planeta.

A publicação, em 1946, do magistral "Geografia da Fome" inaugura uma extensa produção intelectual que denuncia a conspiração silenciosa em torno da insegurança alimentar no Brasil e no mundo, só explicável, segundo ele, por interesses e preconceitos de ordem moral, política e econômica.

Afinal, as tecnologias, presentes desde a primeira metade do século XX, já seriam capazes de produzir alimentos para todo o planeta.

Para Castro, o subdesenvolvimento não passava de uma dimensão do próprio modelo de desenvolvimento capitalista.

Não será por acaso que terá seus direitos políticos caçados pelo golpe militar de 1964 (golpe sim!) e morrerá no exílio, em Paris, sempre afetado pelos problemas sociais brasileiros.

Segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares, 2017-2018, divulgada pelo IBGE, a insegurança alimentar grave esteve presente entre 10,3 milhões de brasileiros, trazendo o Brasil de volta ao mapa mundial da fome. Com o advento da covid-19, em 2021 são mais 116 milhões de pessoas que sofrem algum tipo de privação alimentar.

Se Josué de Castro fosse vivo, continuaria contribuindo sobre a fome, a biodiversidade, a poluição, o desenvolvimento sustentável, a concentração de renda, entre outros temas urgentes sobre os quais o Brasil vem silenciando. Que falta faz Josué de Castro e seu compromisso com a dignidade humana! 

(*) Professora da Uece. Diretora do Observatório de Governança Municipal do Iplanfor.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/4/21. Opinião, p.22.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

“NORDESTINIDADE”

Já ouvimos e lemos algumas vezes que a cultura brasileira, numa análise mais recente e no seu sentido amplo, está consolidada em seis ensaios antológicos: Os Sertões, de Euclides da Cunha; Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda; Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre; Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado; História Econômica do Brasil, de Caio Prado Júnior e Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Estas obras mostram, a partir da estrutura cultural e organizacional do País, os elementos sociais, econômicos e políticos formadores do processo histórico brasileiro. São livros indispensáveis para qualquer estudioso de temas nacionais, principalmente na Universidade. Ficamos às vezes imaginando quanto tempo é perdido, sem generalizar, na leitura de verdadeiros “enlatados” estrangeiros desvinculados e incompatíveis com a realidade brasileira, portanto prejudiciais ao nosso povo. Em outras palavras, precisamos valorizar o que é genuinamente nosso, com vistas ao desenvolvimento de ideias e pensamentos relevantes para a nossa formação cultural, não desprezando, todavia, as manifestações importadas que se apresentam significativas. Na análise da cultura brasileira, destaca-se a participação de temas relacionados com o Nordeste. É o entusiasmo da “nordestinidade”. Revelado em obras famosas de Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Juvenal Galeno, Patativa do Assaré, Augusto dos Anjos, Câmara Cascudo, Moreira Campos, dentre vários. O Nordeste, há décadas, apesar de ter aproximadamente 30% da população do Brasil só participa com cerca de 14% do Produto Interno Bruto. Relativamente, ao País, todos os indicadores socioeconômicos são desfavoráveis. Situação inaceitável. Não mais podemos admitir as injustas desigualdades regionais.

(*) Economista. Professor aposentado da UFC. Ex-governador do Ceará.

Fonte: Diário do Nordeste, Ideias. 18/9/2020.

sábado, 18 de abril de 2020

COMUNICADO AOS NORDESTINOS!!!


O Ministério da Saúde observou que os nordestinos não estavam entendendo expressões como "aglomeração", "isolamento e distanciamento social" etc., contidas nas recomendações de cuidados e precauções contra a COVID 19. Por isso resolveu realizar a tradução para o dialeto nordestinês:
1) Num se aprochegue quando vir um magote de gente amontuada;
2) Se num tivé outro jeito, e tiver de entrá no mei de uma cabroeira incarriada, fique na lonjura de pelo menos meia braça de cada cabra;
3) Use alquingel;
4) Deixe de aresia e de cê atuleimado, num se avexe não, discanse na sua tipoia e pare de batê perna;
5) Use um tapa oio na cara, tapando a venta e os beiço.  Quando ficá preguento, rebole no mato ou escalde pra usar novamente de novo;
6) Si algum herege achá qui você ta pareceno uma marmota, num se aperrei não; o mais arretado é qui você num vai pegá e nem passá esse troço pru zoto.
6) Com fé em Padim Ciço, Frei Damião e Padre João Maria, essa doença cachorra da mulesta, vinda lá da cacha bozó, loguin loguin vai simbora.
Fonte: Internet (circulando por e-mail e i-phones). Sem autoria explícita.

segunda-feira, 25 de março de 2019

ILUSÃO RETÓRICA


Por Luiz Gonzaga Fonseca Mota (*)
Já ouvimos e lemos algumas vezes que a cultura brasileira, numa análise mais recente e no seu sentido amplo, está consolidada em cinco ensaios antológicos: Os Sertões, de Euclides da Cunha; Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda; Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre; Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado e História Econômica do Brasil, de Caio Prado Júnior. Estas obras mostram, a partir da estrutura cultural e organizacional do País, os elementos sociais, econômicos e políticos formadores do processo histórico brasileiro. São livros indispensáveis para qualquer estudioso de temas nacionais. Em cursos de política, direito, economia, história, letras, sociologia etc., os mencionados textos não podem ficar fora das listas de leitura obrigatória, principalmente, quando se tratar do ensino universitário. Na análise da cultura brasileira, destaca-se a participação de temas relacionados com o Nordeste. É o sentimento da “nordestinidade”, até mesmo entre aqueles que não nasceram na Região. Fidelidade, força e dignidade são sentimentos inerentes aos nordestinos, vítimas, ao longo do tempo, de políticas públicas inadequadas e de promessas não cumpridas. Não podemos nos perder e tampouco nos iludir com manifestações retóricas. Só haverá Brasil desenvolvido com Nordeste desenvolvido. Possuímos, vale repetir, os sentimentos de fidelidade, de força e de dignidade e não mais podemos admitir as injustas desigualdades regionais, bem como os perversos movimentos migratórios. Lugar de nordestino é no Nordeste, trabalhando para o desenvolvimento da Região e não sendo muitas e muitas vezes explorado em outras áreas do País e até mesmo no exterior. Meditemos sobre um verso do maior poeta brasileiro, nordestino de Pernambuco: “Ah! Como dói viver quando falta a esperança”. (M. Bandeira).
(*) Economista. Professor aposentado da UFC. Ex-governador do Ceará.
Fonte: Diário do Nordeste, Ideias. 15/3/2019.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

CIENTISTAS GIGOLÔS E MÃES CANGURUS

Meraldo Zisman (*)
Médico-Psicoterapeuta
Até hoje não sei o porquê de querer comparar as vítimas da fome com animais em vias de extinção. Parece com os dermatologistas que quando encontram alguma doença de péssima aparência costumam batizá-la como framboesa, limão, laranja, frutas saborosas ou belas. Hemorroidas, também quando se exteriorizam, recebem o nome de couve-flor e até os proctologistas entram nessa taxinomia macabra. E assim vai.
Perguntaram certa feita ao escritor Ernest Hemingway sobre a sua perspectiva para o ano seguinte. Ele respondeu: “Como vou saber do que vai acontecer daqui a um ano se não posso dizer o que vai acontecer no próximo segundo?” Não me perguntem a causa dessas comparações dos leigos, cientistas, clérigos e militares. Como Hemingway, direi: Não sei.
Não conformado com os bichos, me volto para os Pigmeus, negrinhos pequenos da África que não crescem por problemas ou caracteres genéticos. Comparei-os ao nordestino que não cresce por falta de comida. Até escrevi um livro, de relativo sucesso editorial. Tive a petulância, ou inocência, de apelidar o livro de “Nordeste Pigmeu”. Soube depois que os Pigmeus já estão se acabando porque não cresceram. Contam-se aos mil, enquanto a raça de nanicos nordestina aumenta cada vez mais.
Depois, veio o homem gabiru. Imaginem comparar um filho de Deus, com alma e tudo, aos nojentos ratões somente por estarem com fome, por não terem o que comer. Agora, surge essa história pré-histórica de mãe canguru. O canguru é um mamífero retrógrado e atrasado na escala zoológica e que aborta os canguruzinhos antes do tempo. Arrependidos, e para compensar a maldade, guardam os filhotes numa enorme bolsa de pele agarrada à própria barriga. Dentro dessa bolsa cheia de mamilos, as mães cangurus guardam os filhotes precocemente expulsos do útero para que não morram de fome e frio.
Mães que assim procedem devem ser castigadas. Acho que Deus já está procurando solucionar o problema com a extinção dessas mães desalmadas, que doutores cientistas que pensam tudo saber chamam de marsupiais. É bom lembrar que os cangurus não passam de ratos gigantes que andam aos pulos. São os gabirus da Austrália.
Vamos a outro fato: o nosso mais antigo jornal em circulação na América Latina noticiou outro dia a realização de um Encontro Nacional de Assistência à Mãe Canguru. O evento pretende analisar o modelo de assistência ao recém-nascido. Fiquei meio confuso ao ler tal anúncio e gostaria de saber se é bebé de gente ou de canguru. Se for de canguru, tudo bem, estarei lá, pois devo, como homem do terceiro milênio, a obrigação de ser um engajado em todos os movimentos de preservação da natureza.
Outra coisa mais insólita são também os programas de aproveitamento de restos alimentícios – casca de fruta, bagaço de cana e outros lixos. Sei que o lixo da Avenida Boa Viagem, dos prédios que dão para Navegantes, é disputadíssimo pelos cata-lixo ou homens e mulheres gabirus. Não quero chamá-los de urubus na carniça. Pra azar meu, isso poderia virar samba e até frevo-canção. Espero que não adotem esse nome, pois tenho uma sorte danada para apelidar essas desgraças. Como se o pobre que passa fome – adultos, velhos e crianças – fossem uns porcos, para comer resto de comida ou mais sutilmente denominado de Lixivia. Ou restos de sobras que não sobram.
Assim já é demais. Espero que não apelidem, estes doutores da fome, de rato branco, pois são, esses médicos que fazem ciência com a fome dos outros que assim deveriam ser denominados por castigo. Acho que estão criando um novo jogo de bicho, mas espero que um dia descubram que não se faz ciência com a miséria alheia. São muito folclóricos esses “brasilianistas brasileiros”.
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Nota 1: Este artigo foi publicado no ano de 1999.
Nota 2: Ao folhearmos jornais antigos já não nos interessamos pelas notícias, pois são velhas e datadas. Já as crônicas da época, sem a contaminação do factual, acabam por se mostrar mais duradouras, e podem ser lidas, com interesse, décadas depois. “É curioso que sendo ‘soft news’ ou ‘no news’, a crônica tenha mais sobrevivência que o ‘hard news’”. (Ruy Castro)
(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE) e da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES). Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Foi um dos primeiros neonatologistas brasileiros.

 

segunda-feira, 3 de julho de 2017

O ROMANCE DO NORDESTE


Por Luiz Gonzaga Fonseca Mota (*)
Não houve no Nordeste brasileiro o romance modernista, mas sim o ciclo pré-modernista e o pós-modernista. O primeiro, de Franklin Távora e Domingos Olympio, colocava em plano secundário os elementos sociais e na fase principal da cena, de forma invulgar, a chamada ação episódica. No segundo, com destaque, entre outros, para a incomparável Rachel de Queiroz e para José Américo de Almeida, os elementos sociais superam a ação episódica, traduzindo com rigor o documentário. Mas, ao fechar-se o segundo ciclo, Graciliano Ramos abre a terceira fase: acrescenta ao documentário, sem anular a irradiação social, as indagações psicológicas. Por trás das obras dos autores mencionados, existem componentes políticos, econômicos e religiosos compatíveis com os momentos em que foram escritas. A literatura nordestina, com certeza, é a que apresenta com maior realismo as características de um povo que mata e reza para não morrer. A visão do intelectual, além de ser abrangente, é caracterizada por conter, na maioria das vezes, sentimentos sociais, diferentemente daquilo que pensam muitos tecnocratas. A produção literária do Nordeste precisa ser levada em consideração pelos formuladores de politicas econômicas globais. Talvez seja mais importante a leitura de "O Quinze", "A Bagaceira", "Vidas Secas" e tantos outros livros do que de compêndios estrangeiros de economia politica, mesmo de alguns mestres famosos, como Friedman, Samuelson, etc. É importante a conexão entre a realidade cultural e o desenvolvimento. O Nordeste tem suas peculiaridades e também suas vantagens comparativas que precisamos transformá-las em vantagens competitivas.
(*) Economista. Professor aposentado da UFC. Ex-governador do Ceará.
Fonte: Diário do Nordeste, Ideias. 3/3/2017.
 

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