sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Crônica: “Tirando sabugo da boca de jumento” ... e outros causos

Tirando sabugo da boca de jumento

Sabe o que é isso, o estado modorrento do homem socialmente lascado, com interferências diretas e robustas no tecido sutil do espírito? LISEIRA pra mais de metro, dessas que pegam pelo telefone, chegando ao ponto de subtrair a “espiga de milho sem os grãos” da boca de um irmão nosso da família dos equídeos. É assim o estado de ânimo frequente de Joãozinho de Marilaque, sujeito articulado, simpático, bem-intencionado, mas muito sem noção e devedor de quase todo o bairro. Quase.

A Zé de Lima ele ainda não pediu dinheiro emprestado. Então vamos à casa do futuro “agiota amigo”. A indicação para ir pessoalmente lá foi de um compadre de Joãozinho, aparentado do tal “Zé cheio da pila”, que deu um toque, antecipadamente, preparando terreno: “Receba esse póbi cristão, gente fina, não ofende um pinto. Só é liso”. Frente a frente com o ricaço, de poucas palavras, mas alargado entendimento acerca da alma humana padecente de recursos...

- É seu Zé de Lima, caba bom de quem ouvi falar maravilhas?

- Diga!

- Me deram seu contato, aqui estou.

- Diiiiga!

- Foi um familiar seu, cumpade meu, que contou da alma boa do colega abonado.

- Diiiiiiiiga!

- Curto e grosso: preciso de 1.000 reais emprestados! Rola?

Zé de Lima, sabedor de quem se tratava e realmente compadecido e querendo ajudar de alguma maneira, contrapropôs:

- Vou lhe dar 200!

A resposta de Joãozinho de Marilaque, muito sem noção:

- Não, meu amigo! Posso perder 800 não!

Se prestar, serve!

Gutemberg é “corretor particular de imóveis”. O escritório, um celular potente. Focado, mas ainda analógico, pediu a um sobrinho bom de tecnologia dicas de como se dar bem na modernidade, e assim facilitar-lhe os negócios. O menino, um danado.

- Tio, o lance é IA – Inteligência Artificial!

- Diabedez?

- Um campo de estudo multidisciplinar super abrangente!

- Vai me servir na venda de casas e apartamentos?

- Serve pra tudo que é área do conhecimento! Quer ela pra ajudar nas suas vendas?

- Se quero!?! Até um burro eu quero, se for inteligente!

Pelamô!

João Gago terminantemente proibido pelo médico de tocar em álcool, por um ano, lascado do fígado. Mas acabou cedendo ao convite insistente do padre Bira, que, por fina força pediu a companhia dele pra tomarem umas bicadas no Bar do Ganso, antes da missa das 19 horas. Para tanto, liberou João após 12 Pai Nossos e 12 Ave Marias rezados. Passava das 18h30 e o religioso já bem “bonitinho”, contando piada, olhou pro relógio de algibeira e pediu mais uma rodada.

Com o figueiredo pedindo penico, sem, no entanto, querer constranger o santo sacerdote, o jeito foi Joãozinho telefonar pra mulher à busca de providência.

- Socorro, venha me buscar ligeiro pra gente ir à missa, antes que padre Bira me convide prum forró!

Fonte: O POVO, de 12/01/2024. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

AS ROSAS: Uma poesia de dom Edmilson da Cruz, o atravessador de tempos II

Por Cláudio Ribeiro (*)

A poesia abaixo é uma das que estarão no novo livro:

"AS ROSAS"

Contempla o mundo com amor. As rosas.
Vê como são. Sente o seu ser. Tão belas!
Sépalas verdes e apagadas. Nelas
Pousa a corola as pétalas ditosas.

O seu perfume é natural. Vistosas,
Variegadas suas cores. Pelas
Graças tão puras que apresentam, vê-las
Faz bem à gente, pois são tão mimosas!

Sustenta-as o pedúnculo. Apertadas,
Jamais se atritam. Expandem-se irmanadas
Da corola no abraço doce e forte.

Imagens da eternal Comunidade:
Três pessoas divinas na Unidade
De comunhão do Amor que vence a morte!

(D. Edmilson da Cruz)

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: O Povo, de 30/12/2023. Cidades. p.21.


A poesia de dom Edmilson da Cruz, o atravessador de tempos

Por Cláudio Ribeiro (*)

Ele é decano da Igreja Católica no Brasil, o bispo mais idoso no País. Na sua inquietude, segue tocando projetos. No dia do seu aniversário de 100 anos, em 3 de outubro de 2024, pretende lançar mais um livro. De poesias

Aos 99 anos de idade, dom Manuel Edmilson da Cruz é serelepe. Não há pecado em chamar assim um sacerdote quase centenário. Ele se antecipa: “É Manuel com U. E é 'Da Cruz', não esqueça o Da”. Não é um detalhe, é o nome. Quando estendo a mão e lhe peço a bênção, me corrige com seu carisma e pede que eu lhe abençoe antes. Fui surpreendido. Digo que não ousaria, ele insiste: “Você que me abençoe”. Tomo o gesto como um acolhimento, transparência. Beijo-lhe a mão respeitosamente.

A linha desta coluna se propõe a falar sempre de personagens desconhecidos ou histórias anônimas, escondidas entre as nossas rotinas, nossas cegueiras imperdoáveis sobre todas as importâncias. Mas aqui cabe dom Edmilson e sua grandiosidade. Por toda a obra. Principalmente por estarmos atualizando a linha de nosso tempo, novo ciclo. É alguém que nos faz refletir.

Bispo emérito de Limoeiro do Norte, dom Edmilson é o decano da Igreja Católica no Brasil. É hoje o bispo mais idoso no País. Diz já ter sido informado sobre isso, a partir dos registros da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). “Sou eu”, balança a cabeça confirmando, dentro da modéstia.

Em 5 de dezembro, completou 75 anos de sua ordenação presbiteral. Suas lembranças ainda trançam alguns momentos daquele jovem que saiu de casa cedo, do distrito de Aranaú, município de Acaraú, para ir estudar no seminário em Sobral. De lá deu sequência à sua vocação. Ou missão: “Sempre vou ser padre”.

Dom Edmilson é um atravessador de tempos. Dos sete arcebispos da história da Arquidiocese de Fortaleza, foi contemporâneo de seis deles. Desde dom Antônio de Almeida Lustosa (1941–1963), hoje alçado ao posto de venerável — etapa que antecede uma possível beatificação ou canonização —, até dom Gregório Paixão, recém-chegado. Compareceu à missa de posse do novo no início deste mês, na Catedral Metropolitana. Por sua relevância, foi citado três vezes no discurso.

Mesmo 25 anos depois de ter deixado a titularidade da diocese (1994–1998), dom Edmilson não para. Nunca parou. É um inquieto sem perder a ternura e a serenidade jamais.

A disposição impressiona. Diariamente, lê “todas as páginas” do jornal — faz questão da edição impressa. Antes disso, já tem feito as orações, pessoais e silenciosas. Preserva sua devoção. Os livros, procura ler “em mais de um idioma, para não perder a prática e aprender”. Latim, italiano, espanhol, inglês, “podia ler em grego, mas perdi o hábito”. Está estudando alemão.

Às 18 horas, fora situação muito excepcional, celebra missas na capelinha da casa da Congregação das Irmãs Josefinas, onde mora, no bairro de Fátima. Uma delas diz sem confidência: “Ele não para mesmo”.

E agora tem mais um feito pronto para apresentar em 2024: pretende publicar mais um livro. Só de poesias. São mais de 90 inéditas. É mais uma das frentes do seu repertório de delicadezas e lucidez, duas das palavras que ajudam a descrever seu perfil. Também lhe cabem o ousado, o forte, o justo, o corajoso, o vocacionado, homem de fé. E generoso. Gosta de repetir: “Diga-me o que sabes e te direi quem és”.

O livro se chamará “Ritmo Pascal”. Ainda não sabe se usará todos os versos, se dividirá em mais de uma edição. Sem lamuriar, busca os apoios financeiros e editoriais necessários. Tem uma impressão “caseira” já feita, mas merece acabamento melhorado. São escritos que vem lapidando de muito tempo. A ideia é lançar no dia do seu aniversário de 100 anos, 3 de outubro. A data merece celebração digna e condizente com a dimensão de dom Edmilson.

O corpo franzino, envergado pela escoliose, e a voz baixinha, não silente, são sua armadura — mas não para guerras, ele é contra qualquer uma delas. Seu lema na Igreja é "verbum caro factum" ("palavra feito carne", em latim). Mesmo quando o físico já lhe é mais frágil que o mental, segue com planos para a vida. Não há por que esperar, ora! “Me sinto privilegiado”. Ao me despedir, voltei a beijar sua mão. Em agradecimento.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: O Povo, de 30/12/2023. Cidades. p.21.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

PRA DIZER ADEUS

Por Ana Miranda (*)

Andamos dizendo adeus aqui, ali, um adeus a cada dia, cada instante, cada coisa. Adeus dia, adeus noite! Adeus fim de semana, adeus domingo! Adeus lua cheia, adeus chuva, adeus florzinha murchando. Adeus, amor! Adeus é uma palavra perturbadora, complexa, sutil; quer dizer na nossa língua uma separação longa, ou para sempre, encomendando algo a Deus, entregando algo em Suas mãos. Tão diferente de tchau, Até mais, Até breve, Até amanhã! Fique com Deus, que Deus te acompanhe, significa a palavra adeus; mas também pode ser uma expressão de lamento numa perda, numa lembrança, Adeus juventude! Adeus férias! Adeus paraíso! Ou alívio: Adeus sapato apertado, Adeus solidão!

Dizer adeus pode ser um recomeço. Pode ser um gesto de coragem, ou de generosidade, ou mesmo um gesto de amor. Se digo adeus a algo bom, a algo que amo, a algo que desejo, é um adeus triste; mas se digo adeus a uma tristeza, o adeus é não apenas bom, como precioso. Há adeuses e adeuses.

A primeira música que aprendi ao violão, eu tinha uns doze anos, foi "Adeus, amor, eu vou partir"... E uma das minhas preferidas canções na adolescência, "Adeus, vou pra não voltar e onde quer que eu vá sei que vou sozinho" (Torquato e Edu); eu a ouvia como uma música de amor perdido, Vem! Nem que seja só pra dizer adeus. Dizem que Torquato estava se despedindo da vida.

Sei que é muito difícil dizer adeus ao que amamos. Minhas despedidas dos netos que moram lá no fim do mundo sempre foram emocionais. Vovó I love you! Gritaram do outro lado do aeroporto e ainda escuto, até hoje, tantos anos depois. Queremos ter todos conosco, mas o mundo e nossos corações andam a cada dia mais repartidos em pedaços. Adeus, Amsterdã, estou voltando para o Brasil.

Tão bom quando um amigo nos abraça e diz que nunca vai nos dizer adeus, Se depender de mim, nunca vamos nos separar. Muito bom imaginar algo perene, invertendo o sentido da natureza, da vida. Acreditar que nada muda, nada passa. Mas também é bom ir adiante, renovar, recomeçar, reencontrar... Tem gente que vai logo dizendo adeus, com medo de ouvir alguém lhe dizer adeus. Tem gente que diz adeus e repete, adeus, uma vez apenas não basta.

Na hora do adeus, você pode dizer: Este adeus é pelos últimos dez mil anos. Do mundo nada se leva. Para onde for, levarei teu olhar, levarás minha saudade. Este é um adeus ou uma curva do caminho? Não se preocupe comigo, adoro ficar só. Não saberei nunca dizer adeus. Nada resta de mim que seja meu. Viajo com o meu coração. Minhas velas ao mar. Adeus.

Diga adeus, se não quiser mais ver a pessoa. Ou diga, Até logo, na esperança de um reencontro. Deixar nossa casinha, deixar nossa vidinha, nossa rotina, enfrentar uma viagem, uma mudança de rua, bairro, de amor, desejo, emprego, de um vestido velho confortável, de praia, livro, todo adeus é difícil. Estou aqui dando adeus a meus leitores, meus colegas de jornal, meu ilustrador, vou parar de escrever crônicas por um tempo, não sei quanto. Aproveitarei os novos dias para desenhar ou escrever um livro, pode ser romance, poesia, memórias... um caderno de sonhos... Abraços a todos.

(*) Escritora. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 27/01/24. Vida & Arte, p.2.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

CAMINHOS DO CEARÁ: Aurora tem um queijo-manteiga...

Por Izabel Gurgel (*)

Tenho em casa uma caneca com uma linha de Carlos Drummond de Andrade no rodapé. O poeta, um desenho em preto, anda sobre seus próprios versos em vermelho: No meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho/ tinha uma pedra/ no meio do caminho tinha uma pedra... Ao final do poema, a logo IMS - Instituto Moreira Salles, o traço simples, preto, fazendo uma casa sobre o fundo branco. Da casa, da caneca, do café, do mais cotidiano, vamos para a rua, a estrada. Como um lápis a escrever salta para a linha seguinte.

Somos a Rádio Estrada. A viagem é caminho e destino. De Fortaleza, uns 175 km em direção à barra do Rio Mundaú, fizemos mais de uma vez em até nove horas de carro. As garças desfilam sobre as águas também às segundas. Para uma lagoa, parece que é melhor quando a gente não está por perto.

A Rádio Estrada tem muitas vozes. Se juntos em ramalhete, seus pontos de emissão seriam tipo vazão de açude, a do Orós, uma vez que estamos a caminho de Icó, entrando no sul do Ceará como as boiadas um dia passaram, passo a passo. Cada viajante, uma conversa com a estrada. Três em um automóvel, congresso com o cinema ao redor. Não é sobre, é de dentro do filme.

Caju-ameixa da agricultura familiar do Sítio Boa Água, Cascavel. Prateleiras de churrascaria em Chorozinho. Você também lê rótulos? Cafezinho leva açúcar, como o doce. É cortesia da casa.

A proximidade de Quixadá, de onde quer que se venha e veja, é longa-metragem em tempo onírico. Tão concreta não quer dizer real. Um espanto sempre aquele céu sobre nossas cabeças. Vai na bolsa de mão um livro de bolso com três contos. Mário de Andrade, Guimarães Rosa e Garcia Márquez. Encontro que só um livro, ou a leitura, torna possível. Abro em "São Marcos", depois de querer contá-lo, como se falasse de um sequilho antes de oferecê-lo. Leio, então, as últimas linhas, Guimarães Rosa dizendo algo como "sobre as prateleiras do monte cintilam três qualidades de azul". São Marcos começa no tempo em que o narrador não acreditava em feitiço.

Havíamos passado da entrada de Guassussê. Siga as placas, não siga a lógica me ocorre sempre quando anoitecemos na estrada. Já era Lima Campos? Ouvimos, via rádio de Icó, a procissão do Senhor do Bonfim. O carro-andor se aproximando da igreja. Eu havia contado mil e uma vezes e outra mais sobre as bombas do primeiro dia do ano em Icó, milhares, feitas a mão, dias e dias, para queimarem em efeito dominó, quando o Santo chega de volta ao patamar do santuário. Aquilo ali não é nuvem, Izabel, será a fumaça das bombas? Abro a janela para ouvir o que icoenses mais velhos chamam de bombardeio. O vento zum zum vruum sobre nosso susto. A rádio sai do ar. Não fosse a viagem como destino, jamais veríamos dali as bombas, um conhecimento centenário trazido até nós pelo mestre Bonfim e mulheres e homens de sua família. Entrar na cidade depois do maior dia dela fica para sempre. Pegamos as últimas porções de paçoca do Deca.

O queijo de Aurora fica para a próxima. Só uma linha aqui para anunciar Dona Maria Leonor e Seu Germano Gonçalves fazendo no Sítio Cabôco, há mais de 45 anos, o queijo-garça que transforma qualquer dia em domingo. Provei depois de uma procissão em Juazeiro do Norte, quando nas despedidas, romeiros fazem refulgir a cidade, como na chegada. Imagine a Rádio Estrada da Nação Romeira.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 21/01/24. Vida & Arte, p.2.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

NOSSAS BIBLIOTECAS

Por Ana Miranda (*)

Muita gente há de se lembrar do Carlos Castello Branco, o maior jornalista político da nossa história. Um dos sujeitos mais inteligentes deste mundo, excelente pessoa, piauiense. Tive a sorte de ser sua amiga, apesar da diferença de idade. Ele morava em Brasília, e numa das vezes em que foi ao Rio me fez uma visita. Entrou no meu apartamento com as mãos para trás e aquele ar de perspicácia, captando detalhe por detalhe. Logo estava em meu escritório, onde se localizava a minha biblioteca.

Eu tinha tanto orgulho daquela biblioteca! Ocupava uma parede inteira, com uns dois mil livros arrumados em ordem alfabética. Era uma biblioteca reunida com sacrifício - um vestido que deixei de comprar, um batom, uma peça de teatro perdida... Tardes e tardes vasculhando livrarias... Escolhas difíceis... Aqueles livros tinham sido lidos por mim, marcados com anotações. Eram amados como mestres. O Castello olhou tudo em volta, e perguntou: Onde está a sua biblioteca?

Muita gente ri quando eu conto essa história. Claro que era o comentário de um homem pelos oitenta anos que colecionara uns trinta mil livros, acho que era essa a média de livros dos intelectuais amigos do Castello. Mas a pergunta que ele fez é eterna. Todos devem se fazer a si mesmos: Onde está a minha biblioteca? Eu tenho uma biblioteca? E uma biblioteca interior? Quantos livros eu li, como eu os li, o que guardo dentro de mim? O quanto ainda posso aprender com os livros?

Está na moda doar bibliotecas. Eu mesma andei doando mais de mil livros para a associação dos pescadores, na Peroba. Muitos dizem que é melhor ver os livros sendo lidos, do que feito múmias em uma catacumba. Sei que dá trabalho guardar livros. Além da sabedoria, juntam poeira. É preciso limpar, arejar de vez em quando as páginas, vigiar mofo, traças, cupins, formigas... Mas eles são uma companhia valiosa!

E lindamente decorativos, dão uma sensação de aconchego a qualquer ambiente. Tenho um livro, At home with books, sobre como certos amantes de livros convivem com suas bibliotecas. Ambientes fantásticos, inesperados, repletos de livros. Uma sala de jantar com as paredes cobertas de livros; um sótão revestido de livros; um jardim de inverno com uma poltrona florida e uma cesta de livros; uma cozinha com a presença saborosa de livros entre bules e xícaras.

Nesse livro vemos bibliotecas de escritores, poetas, lordes, arquitetos, comerciantes... Uma delas é a do Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones. Ele diz que nada lhe dá mais satisfação do que deitar no sofá da sua biblioteca agarrado com um livro. Ninguém entra ali. É seu refúgio, onde ele se encontra consigo mesmo. Pela biblioteca, você pode saber muito sobre a pessoa. A maioria dos livros de Keith Richards é de romances do século 19. Quem poderia imaginar! E livros de espionagem, história e arte.

Uma antiga lareira repleta de livros. Uma escada sobre prateleiras aproveitadas para guardar livros. Um corredor que é biblioteca. Uma pequena estante com livros no banheiro... Todo lugar pode ser bom para livros. Uma casa sem livros me dá a sensação de um deserto.

(*) Escritora. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 20/01/24. Vida & Arte, p.2.Bibl

domingo, 18 de fevereiro de 2024

Faculdade de Medicina da UFC. Funcionários dos Níveis Médio e Elementar

Por Paulo Gurgel Carlos da Silva (*)

PERÍODO DE 1966 A 1971

Além das inesquecíveis recordações que ainda temos de nossos mestres na Faculdade de Medicina, convém nos lembrarmos também de seus funcionários dos níveis médio e elementar. Não poucos, no exercício de suas atividades-meio, muito contribuíram para que as missões de ensino e pesquisa da Universidade pudessem ser adequadamente conduzidas.

Seu Joaquim (Anatomia)

Um profundo conhecedor das estruturas anatômicas, que tirava as nossas inquietantes dúvidas, especialmente quando se aproximavam as datas de aplicação das gincanas.

Irilinda (Cirurgia)

A ingênua e prestativa Irilinda, responsável pela arrumação das salas de alguns mestres. Quando ouvia o Prof. Newton Gonçalves se queixar de uma bursite que recorrentemente o afligia, Irilinda já vinha com uma solução na ponta da língua: "Desligue este ar-condicionado, Dr. Newton. Só assim o senhor melhora."

Gerôncio (Diretório Acadêmico XII de Maio)

Um rapaz de nome Gerôncio era quem cuidava dos bens do Diretório. Ele tocava um violão meio "quadrado", aplicando vigorosas batidas em suas cordas de aço. 

Isabel (Maternidade Escola Assis Chateaubriand)

Uma técnica de enfermagem e experiente parteira, da qual se dizia ser a segunda pessoa em mando na MEAC (apenas subordinada ao Diretor Galba Araújo). Lembro-me de seus “freios de arrumação” na sala de espera dos ambulatórios, quando a balbúrdia estava passando da conta.

Milton (Fotografia)

Na Faculdade de Medicina, o Sr. Milton Nascimento, cujo laboratório fotográfico ficava incrustado junto à entrada da Biblioteca, fazia as fotografias dos eventos científicos e sociais ocorridos na instituição e os slides para as aulas e palestras dos professores. E que, quando precisávamos apresentar nossos temas livres em jornadas e congressos, também o contratávamos para a feitura de nossos diapositivos.

PERÍODO DE 1972 A 1977

Tendo participado do corpo discente da instituição, no período de 1972 a 1977 (quando já não estávamos mais na Faculdade de Medicina), Marcelo Gurgel nos ajudou com a lembrança dos nomes de outros funcionários que possivelmente estivessem trabalhando em nosso tempo:

"Seu Damasceno", apelidado de "Bronco" por sua semelhança física com o personagem do ator Ronaldo Golias, no Programa de TV "Família Trapo". Detentor de um "sorriso do tipo 1001", decorrente das exodontias de seus incisivos mediais e laterais, "Bronco" era a alegria dos alunos, que um dia choraram rios ao vê-lo transferido para o campus do Pici.

Marcelo também cita Seu João, Seu Duarte, Seu Francisco "Melanoma", a histotécnica D. Hercília e o funcionário "Mosquito" (MEAC), entre outros. Não deixando de lembrar os barbeiros do Hospital das Clínicas, Antenor e Lauro, e os livreiros José Valdo e Girão que, embora não pertencessem ao quadro de funcionários da UFC, "facilitavam a aquisição dos livros didáticos pelos estudantes que não tinham folga de dinheiro".

Fontes

Silva, Marcelo Gurgel Carlos da. MEDICINA DA UFC 1977 - 2022: 45 anos de formatura da Turma Prof. José Carlos Ribeiro. Fortaleza: Edição do Autor, 2022 (p. 64-73). ISBN 978-65-996963-2-9
http://gurgel-carlos.blogspot.com/2022/11/movimentos-apendiculares.html
http://gurgel-carlos.blogspot.com/2017/07/o-diretorio-academico-xii-de-maio.html
http://gurgel-carlos.blogspot.com/2021/07/nos-tempos-heroicos-das-apresentacoes.html

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(*) Médico pneumologista, escritor e blogueiro.

Postado por Paulo Gurgel em 18/02/2024 e postado no Blog Linha do Tempo em 18/02/2024.

https://gurgel-carlos.blogspot.com/2024/02/faculdade-de-medicina-da-ufc.html


 

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