Por Alexandre Sobreira Cialdini (*)
Entre receber R$
1.000 hoje ou R$ 1.200 daqui a um mês, a maioria das pessoas escolherá a
primeira opção. O benefício imediato parece ter muito mais valor do que os R$
200 adicionais no futuro, ainda que não esteja tão distante.
Se a escolha
passar a ser entre receber R$ 1.000 daqui a um ano ou R$ 1.200 um mês depois, a
lógica se inverte: a maior parte das pessoas prefere esperar um pouco mais para
receber a recompensa maior. Afinal, quando a espera já é longa, o intervalo de
um mês tende a fazer pouca diferença.
Essas duas
situações ilustram o chamado desconto hiperbólico, um viés cognitivo explorado
pelos jogos de azar e pelas bets. O valor atribuído aos
ganhos futuros cai rapidamente em comparação ao das recompensas imediatas, mas
essa queda desacelera à medida que a espera se prolonga.
O conceito de
desconto hiperbólico foi formalizado pelo psiquiatra americano George Ainslie,
em 1975. Mais tarde, o economista David Laibson adaptou esse modelo para uma
versão mais aplicável à economia.
Na prática, o
pesquisador Vincent Berthet propõe três ferramentas para reduzir os efeitos do
desconto hiperbólico.
A primeira
consiste na utilização de "dispositivos de compromisso", como planos
automáticos de poupança e metas que evitem decisões impulsivas.
Outra estratégia
é o "compromisso prévio", que envolve criar barreiras ao comportamento
impulsivo. Um exemplo é o agendamento automático de investimentos regulares.
A terceira
ferramenta consiste no uso de lembretes (visuais, escritos ou em conversas) que
reforcem decisões de longo prazo.
Nesse contexto, a
Secretaria do Planejamento e Gestão do Estado (Seplag-CE) e a Fundação
Demócrito Rocha lançaram, em junho deste ano, o Programa de Educação Financeira
do Estado do Ceará, cuja primeira iniciativa foi o Curso de Educação
Financeira para Cidadania Plena.
O projeto é
inovador em âmbito nacional e incorporou esse arcabouço teórico para orientar
pessoas e famílias sobre os riscos das bets. O curso alcançou 10.870
participantes, superando a meta inicial de 3 mil.
As inscrições já
foram encerradas, mas o Programa de Educação Financeira continuará com uma
série de atividades multidimensionais.
Portanto, a
análise da interação entre o viés do presente, os instrumentos de
comprometimento e o endividamento revela que o autocontrole pode manifestar-se
tanto na capacidade de evitar situações tentadoras quanto na habilidade de
resistir a elas.
Contudo, por mais
eficazes que sejam os mecanismos de autocontrole, as ações de educação
financeira devem considerar as diferenças entre os diversos públicos, como
servidores públicos, jovens, idosos e outros segmentos.
Além disso, o
fortalecimento da literacia financeira e o acesso ao aconselhamento profissional
deverão constituir recursos complementares.
(*) Mestre em
Economia e doutor em Administração Pública e Secretário de Finanças e
Planejamento do Eusébio-Ceará.
Fonte: O Povo, de 6/08/26. Opinião. p.15.

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