sábado, 31 de janeiro de 2026

Cidadãos de bem, vítimas do mal

Por Emanuel Freitas da Silva (*)

Passavam dois dias do Natal e faltavam quatro para a passagem de ano quando as redes sociais foram tomadas pelas imagens de dois turistas mato-grossenses, espancados por vendedores na praia de Porto de Galinhas, em Pernambuco, após recusarem-se a pagar taxas abusivas cobradas ali de quem senta-se para aproveitar a praia.

As cenas mostravam dois homens espancados, ensanguentados, por uma turba que parecia excitada pela ânsia de violentar. Vários contra dois.

Com a repercussão das imagens em veículos da mídia tradicional, o caso se nacionalizou e a solidariedade se ampliou ao se saber que se tratava de um casal. Nas redes sociais, revolta pelo ocorrido e relatos aos montes se juntaram para denunciar a prática abusiva que seria recorrente ali; com o avançar do tempo, outras barracas de praia também tinham a cobrança abusiva relatada por dezenas de brasileiros.

A revolta e o estupor foram gerais. A governadora do estado se pronunciou e cobrou diligências. A prefeitura de Ipojuca fez-se obrigar, somente depois disso, a fiscalizar o cumprimento de lei sancionada em 2019, emitindo novo decreto.

Pois bem, (quase) tudo mudou depois que se começou a desconfiar da identidade política do casal. A sunga usada por um deles despertou a desconfiança de que seriam “bolsonaristas”, “gays de direita”, que visariam reproduzir, através do caso, estereótipos sobre o Nordeste, o que só se agravaria com a informação de que passaram a virada de ano em Balneário Camboriú, a convite da prefeitura.

Politizou-se: o caso, a violência, a cobrança, o desfecho.

A realidade da extorsão abusiva, seguida de pancadas que os fizeram sangrar, instantaneamente passou a compor um repertório de menos gravidade ao se identificar os dois como do polo político oposto.

Não seriam vidas dignas, não pertenciam ao “lado de cá”. Era a versão, à esquerda, da ideia de “cidadão de bem” ou do “humano direito”; daí, “todo castigo é pouco”.

O tribunal das redes é implacável, e sua solidariedade é efêmera. Triste fim de nosso tempo. Não existem humanos em geral; a condição humanoide é dada pela filiação a um espectro político.

(*) Professor adjunto de teoria política da Uece/Facedi.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 7/01/26. Opinião. p.14.

A corrida pela monumentalização da fé católica no Ceará

Por Emanuel Freitas da Silva (*)

Depois da pomposa inauguração da imagem de Nossa Senhora de Fátima, na cidade do Crato, no mês passado (que contou com ampla divulgação da Prefeitura Municipal), seguida da inauguração, no entorno, de uma capela que funciona como réplica daquela que existe em Portugal, outras cidades cearenses parecem ter corrido, com a ajuda do governo estadual, para também inscreverem seus nomes na rota do turismo religioso no Ceará.

A cidade de Jucás, por exemplo, inaugurou um santuário à Nossa Senhora do Carmo, com uma imagem que repete as dimensões da do Crato - anunciada como "maior que o Cristo Redentor" -, em meio a um complexo com lojas, restaurante, lanchonetes e banheiros, além de uma capela e outros espaços para receber romeiros e visitantes. Num convênio entre a prefeitura e o governo estadual, o acesso ao local custou quase R$ 4 milhões aos cofres públicos.

Na região, existem ainda imagens de Nossa Senhora da Purificação (em Saboeiro) e de Nossa Senhora da Penha (em Campos Sales). Em Santana do Cariri, “novas imagens” da estátua de Benigna também foram divulgadas em dezembro, criando expectativa acerca de sua entrega, bem como do complexo religioso que deverá cercar o local.

Por sua vez, Caridade também correu para, depois de quase 40 anos, encabeçar o corpo de Santo Antônio. E tudo, reitere-se, com pretensões de construção de complexos que ponham as cidades na rota do turismo religioso.

Para não falar de Santo Antônio (Barbalha), Padre Cicero (Juazeiro e Maracanaú), São Francisco (Canindé), Menino Jesus de Praga (Chorozinho), Santa Edwiges (Caucaia) e tantas outras imagens espalhadas pela cidade de Fortaleza.

Expressão de fé do segundo maior estado católico do país (somos 70% de católicos)? Também. Mas, sobretudo, expressão da aliança, histórica e permanente, do poder público com o credo que nos constituiu como nação e que, por isso mesmo, ainda acumula, de modo legitimado, privilégios que outros credos buscam também usufruir.

Ao que parece, instaurou-se uma disputa acirrada pela monumentalização da fé em diversas cidades, que passam a ter seus territórios, do chão ao alto do firmamento, fincados e atravessados pelas representações do universo sagrado do catolicismo.

(*) Professor adjunto de teoria política da Uece/Facedi.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 24/12/25. Opinião. p.16.


sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Crônica: “Eu vi um menino correndo, e se chamava Népu” ... e outros causos

A história me foi repassada pelo amigo Neném Justino.

"Eu vi um menino correndo", e se chamava "Népu

- O desafio de mais um final de ano era correr os tradicionais 660 metros da "Maratona do Fiapo", realização da Paróquia local. Quem chegasse "premêro" à bodega do Oliveira Caetano, partindo da bodega do Rael da Gamboa, levaria a banda dum carneiro escalado, oferecimento do vereador De Touro Gomes.

Ligeiro à moda jumento inteiro - desembestado e estiloso, o menino mais velho do seu Zé Coriolano foi o campeão de 2025. Quem? "Népu", carinhosamente alcunhado aquele que, de batismo, se chama Nepomuceno. Dele pro segundo colocado, o mano Gaudioso, quase 120 metros de diferença um pro outro; terceiro e quarto colocados, os corriqueiros Thiago e Matheus. O quinto, contudo, irmão caçula dos dois primeiros, de nome igualmente estranho, foi ninguém menos que Epaminondas.

E eu, cá com meus botões, fiquei a pensar, caro jornalista: se tu te chamasse Conegundes ou Parsifal, acho que teria pernas pra ganhar a São Silvestre. Mas, esse Tarcísio...

Carlos Alberto Torres? Conversa é essa!?!

O lateral-direito é Potengi, rapaz! Fui inventar de trazer a lume histórias reais do futebol interiorano, sublinhando com afeto as escaramuças do ex-defensor do Quixadá, e o homem se empolgou. Agora, em vez da esposa Claudinha contar os causos, ele mesmo os escreve. O primeiro é "O nono desmaio do Salles". Assim:

- Fomos convidados a jogar na Aracoiaba, a seleção local se preparava para o Intermunicipal. Nosso time se tacou pra lá na carroceria dum caminhão velho. Ganhamos de 4 a 2. Ocorre que os torcedores da beira da estrada, insatisfeitos com o resultado, gritavam ofensas contra nós, na medida em que cruzávamos a vizinhança do estádio. E ainda diziam: "Ó! Tem volta, viu!?!"

Aquela foi a maior atuação do goleiro Salles, o dito cujo que tomou Calmocitan e levou 9 a 1, certa vez. Inclusive, em Aracoiaba, ele defendeu dois pênaltis. O bom é que, nesse amistoso, o time adversário tinha jogadores do Calouros do Ar, do América e do Tiradentes, que, de folga, foram escalados pra contenda em tela. E não bastassem as ofensas verbais - "magote de corno, ruma de caga pau, bando de pustema!", ainda jogaram pedras na gente.

Um desses "rebôlos" acertou a cabeça do Salles. Logo o Salles, sempre muito nervoso, ele que tinha a mania de dar agonia, desmaiar. Ao passar a mão na cabeça, que via o sangue escorrendo, caía durinho pra trás. E nós abanando ele dentro do carro. Pedimos pro motorista pisar no acelerador, que era pra chegar logo na Itapiúna, lá havia uma farmácia para o curativo. Nessa brincadeirinha, o placar foi de 9 desmaios pro Salles.

A gente pensou até que ele não ia tornar mais, já roncando numa rede.

Segunda: a profética banda dum bode

Outro jogo foi na Califórnia, interior de Quixadá, onde fomos fazer um amistoso (o placar final foi 3x3). Fomos obrigados a ir pela Itapiúna, naquele dia, pois chovia muito e a estrada estava ruim. Seguimos pro vizinho município em três carros pequenos. No caminho, paramos numa bodega para beber refresco e comer bolacha, enquanto os mais velhos tomavam cachaça com rapadura.

Um dos nossos atletas, Chico Mago, reparou a banda dum bode 'dipindurado' num armador da bodega e maquinou surrupiar a peça. Bodegueiro 'intirtido' com o pessoal, Chico desatou o nó da corda, botou a banda do caprino nas costas e saiu voado dali. Foi esperar a gente na beira do gramado. Por desculpa para o furto, falou que o bicho era o tira-gosto pela comemoração do empate em 3 a 3...

- Mas, como? Se o jogo nem havia começado?

Adivinha quem comeu a banda desse bode, sozinho e Deus?

Fonte: O POVO, de 2/01/2026. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

PARTILHANDO UMA REFLEXÃO

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie (*)

Ler é uma conquista da civilização, nos seus pródromos, alçada ao poder e dirigida ao domínio dos senhorios, ainda hoje sem o alcance de muitas populações, instrumento tanto de sanas informações, como de manipulação de mentes e espíritos.

Ler conjuga-se com o escrever, sem o que não há o que se ler.

Rochas, pergaminhos e monumentos trazem a maneira de expressão de suas gentes, de seus costumes, de suas guerras, de suas conquistas.

Aprender a ler suas memórias traz-nos experiências, as mais diversas e disparatadas, de concepções de vida, desde o tempo das cavernas.

Todavia, não basta saber ler, é preciso saber compreender, palmilhando a história, na sua real origem, cujos rastros não se podem apagar: pode-se destorcer fatos ocorridos, prendendo-os numa visão parcial, totalmente subjetiva e ideológica ou dar-se conta de boas lições para veredas e ou caminhos de nossa jornada.

Há os que se fazem cegos e outros, 'imunes cognitivos', não conseguem ver um palmo à frente do nariz, tampouco fazer uma crítica isenta dos passos da humanidade, suas consequências e suas "sequelas". Nesse caso, não cabe a exortação, referente ao historiador Heródoto de que ‘a história é mestra da vida’.

O bom entendedor não nasce, faz-se, aprendendo a ver, a ouvir e escutar a realidade da miséria e da riqueza, da manipulação e da alienação, da escravidão e da liberdade, do desenvolvimento e da estagnação, do genocídio e do bem-estar dos povos, considerando, imparcialmente, avanços, excessos, limites e frustrações.

E, assim, a história continua 'mestra da vida' para quem a vida mostra a história real: erros para não se repetirem, novas limitações surgirem e a humanidade prosseguindo na sua ânsia de liberdade, de felicidade e de amor, diante de desafios novos e velhos.

E nada melhor do que refletir sobre esse anexim, sempre tão real: 'In medio virtus'. Ou seja, nas diferenças e diversidades dos séculos, o caminho mais sensato é o meio da estrada, sem tombar para nenhum lado, mas, enriquecendo-se de suas lições.

A história revive nas leituras dos acontecimentos, narrados na inteireza dos fatos já ocorrido. Sua memória oportuniza-nos novos horizontes ou embrenha-nos em situações mais incômodas, insalubres e, até mesmo macabras, se não sabemos lê-la ou a vemos com vieses suspeitos.

Somos construtores de nosso bem-estar ou de nossa escravidão.

A alienação é o outro lado da medalha da vida, lado sombrio e aterrador. A manipulação, a única linguagem do ditador.

É, nesses casos, que a leitura mergulha no caos, onde tanto faz mentira quanto verdade, não se sabendo mais o que é certo e o que é errado.

Desaparece história, vêm narrativas.

Culpa não cabe aos olhos, senão à mente que os decifra.

Tenhamos uma boa segunda-feira,  com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 19/01/26.


quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

PROFESSOR TRABALHA? II

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Em 13 de setembro de 2021 fiz a interrogação irônica sobre o profissional responsável pela formação de todos os outros profissionais e sobre o qual sempre parece estar a dúvida quanto a se exercer o magistério é um trabalho de verdade.

Ali convidei a desconstruirmos a visão deturpada da realidade do professor que, para além da chamada sala de aula, precisa estar atualizado do mundo como um todo e não apenas na sua área de ensino. Precisa planejar adequadamente a próxima aula e, depois, precisa corrigir trabalhos, provas, atribuir notas e registrá-las, propor pesquisas e estudos, dentre outras atividades ligadas diretamente à profissão.

Assim, o professor precisa ser reconhecido diariamente, por essas atividades e pelo que proporciona de aprendizagem, desde as primeiras letras até os projetos de pós-doutoramento, em que os níveis mudam, mas não a função básica de construir conhecimentos.

Neste cenário, surge a PEC 169/2019, promulgada como Emenda Constitucional 138, de 2025, que altera as regras para que professores da rede pública possam exercer outras atividades, acumulando licitamente outro cargo público com o magistério.

Ao reconhecer que a EC 138/2025 torna mais ampla a possibilidade da acumulação e mais claras as regras vigentes, com maior segurança jurídica, considero que a Lei é mais bem-vinda para os servidores que exercem cargos no serviço público e resolvam levar suas qualificações para o magistério.

Do lado do professor, o que continuo a enxergar é, não apenas a sua quase invisibilidade no mundo real, como uma remuneração inadequada para o seu precioso papel, obrigando-o a estender horários, acumular tarefas, dedicar-se a mais de uma instituição. Enfim, uma perda de condições ideais de exercício da nobre missão.

Assim, para além de clarear regras de acumulação, o Estado precisa debruçar-se sobre uma política pública para o ensino, de forma a que a acumulação de cargos seja uma escolha de expansão profissional, e não de sobrevivência ante a remuneração insuficiente.

Ao fim, repetimos os parabéns aos que se dedicam ao ensino, doando um pouco de si para que os saberes se propaguem!

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 29/12/25. Opinião. p.16.


ERA UMA VEZ UM VIOLINO

Por Sofia Lerche Vieira (*)

Era uma vez um violino que viajou por muitos lugares devido às constantes mudanças da família de um oficial do Exército. Quando menino, o Pai havia estudado o instrumento que, então, fazia parte da educação musical de crianças. Aos nove anos, as aulas cessaram. O aspirante a violinista foi matriculado no Colégio Militar de Fortaleza, onde a instrução militar prevalecia. Adulto, vez por outra, ele evocava com certa melancolia suas lembranças de tocar: "Taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim" ... O violino silencioso permaneceu na família.

Nenhum dos filhos expressou qualquer vocação musical. A mãe até que tentou, introduzindo as crianças a sessões de piano e acordeom. Apesar do esforço, não funcionou.

Para encurtar uma história longa, o violino bolou por aí uma vida. Quando o Pai faleceu aos 101 anos e sua casa foi desfeita, o violino foi achado quebrado, sem cordas e com o arco em pedaços. Os filhos decidiram que quem herdaria o instrumento seria a filha caçula por ter uma neta que começou a aprender violino muito pequena. Entre optar por fazer do violino um enfeite ou devolver-lhe vida, a decisão dela foi por tentar restaurar.

Depois de muito perguntar por Fortaleza e muita gente se envolver na procura, foi localizado um luthier, em Aquiraz, segundo as indicações, o único capaz de restaurar o violino sem vida. Depois de idas e vindas, a opinião predominante era de que o esforço financeiro e de tempo de restauro (4-5 meses) talvez não compensasse. Mas, convencida do contrário, a filha mais nova optou por um ato de preservação da memória do Pai e de aposta no futuro.

O processo de restauro é lento e meticuloso. O luthier se revelou a pessoa certa na hora certa. Passados meses de trabalho incansável, eis que o violino foi transmutado em presente de Natal para a neta aprendiz de violino, hoje com oito anos. Se ela vai, ou não, praticar no instrumento do bisavô, ainda é cedo para afirmar. Certo é que recuperar o velho violino comoveu a família. Se nossos amores se vão, de algum modo, o legado das coisas que ficam é um talismã para os dias que virão. Feliz Ano Novo!

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 29/12/25. Opinião. p.16.


terça-feira, 27 de janeiro de 2026

O LONGO CAMINHO DE VOLTA

Por Romeu Duarte Junior (*)

A Robson Menezes

Mais de duas semanas já se passaram do acontecido e eu ainda estou triste. Ainda não digeri o rebaixamento do Ceará para a Série B do Campeonato Brasileiro. Aliás, digestão difícil, pois o Fortaleza também caiu para o mesmo grupo naquele fatídico 7 de dezembro de 2025. "Quer dizer então que o fofinho lamenta também a sorte do Láion (argh, tudo menos isso!)?!", perguntarão os nelsonrodrigueanos idiotas da objetividade. Respondo na lata: claro, o futebol não se restringe apenas à disputa do campeonato local. O ano começa logo com o tal "manjadinho", que não motiva mais ninguém a não ser quando da realização do Clássico-Rei e, logo após, começa a pedreira de um certame traiçoeiro com times sem muita expressão. Aliás, como os nossos, que nisto se transformaram.

O futebol cearense é hoje um muro de lamentações. O Vozão, com seu time de operários bonzinhos e esforçados, fracassou nos últimos jogos, quando teve 15 pontos ao seu dispor e só ganhou um, degringolando na única vez que entrou no Z4. O Fortaleza, depois de uma campanha horrorosa, construída com três técnicos, na qual passou quase toda na rabeira, teve uma melhora grande na reta final sob Palermo, mas os vacilos foram fatais. Faltou às duas equipes o que é fundamental no futebol: fazer o dever de casa bem feito, ou seja, vencer as partidas aqui. Uma outra grande lição que ficou é que não existe mais lugar para treinador medroso, covarde e retranqueiro. Quem não tem a ousadia de ganhar merece perder. Agora, é refazer cálculos, diminuir orçamentos, apequenar-se...

Numa frase: ludopédio alencarino, teu nome é incompetência. É o tempo de reconstruir equipes, mandar jogadores caros embora, contratar outros baratos (que podem custar caro), misturar maracujina com calmantes e aguentar as finas e as grossas das torcidas, ambas decepcionadas. Vale dizer que as hinchadas cumpriram à risca o seu papel. As galeras alvinegra e tricolor ficaram no Top-4 em média de público no campeonato passado, só perdendo mesmo para a do Flamengo e a do Corinthians, as duas maiores do Brasil. Ou seja, não faltou apoio, faltou foi aplicação e vontade. No bar, um amigo, entre um gole de uísque e outro, vaticina: "o campeonato será longo, muito longo". Muito mais longo, penso eu, será o caminho de volta à elite do pebol nacional. Alguém tem dúvida?

No final da tarde do dia da dupla queda, no botequim, os semblantes dos fregueses se pareciam com aqueles dos personagens do filme "O sétimo selo" de Ingmar Bergman. Em transe depressivo, não acreditavam no que estavam vendo. Tanto tempo perdido defronte à televisão para assistir dolorosamente ao aviltamento, que se deu de forma abraçada e na triste e infausta companhia de Juventude e Sport. É hora também de mudar de hábitos, reinventar-se. De engolir o choro e aceitar que a vida segue o seu rumo inexorável. Às vezes, uma boa chapuletada obra milagres. Já estou me organizando para comprar pacotes televisivos da Série B. Consultei um amigo torcedor do Leão, que não perdeu a piada: "É boa, um kanal atrás de um canal!", caindo na risada. Vamos em frente.

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 22/12/25. Vida & Arte. p.2.

A cabeça do Santo e o potencial religioso do Ceará

 

Quase quatro décadas depois, moradores da cidade de Caridade, a 95 km de Fortaleza, e devotos de Santo Antônio, terão um monumento para visitar, pedir, agradecer e rezar. Expectativa de mais demonstrações de fé e também de impulsionamento da economia local. Parte do crescimento do turismo religioso que o Ceará exibe.

São manifestações culturais e religiosas que concentram milhares de pessoas em um mesmo espaço, o que demanda uma logística operacional que se torna potencial para gerar emprego e renda em municípios grandes, como Juazeiro do Norte, com mais de 200 mil habitantes, e pequenos, como em Caridade, com 16 mil.

A Rota das romarias, dos grandes templos, das estátuas e dos eventos promove desenvolvimento e incentiva a criação de políticas públicas que trabalhem a economia e a preservação da identidade cultural das comunidades.

Em Caridade, ter a cabeça de Santo Antônio colocada, além de todo o seu clamor religioso e logístico, é sinônimo também de esperança de uma vida melhor para a população. Hotéis, restaurantes, comércio de artigos religiosos e transporte são alguns dos setores mais impactados.No Brasil, o turismo religioso movimenta R$ 15 milhões por ano e os municípios pequenos e médios são os mais beneficiados. No Ceará, o Cariri desponta no segmento, apesar de o turismo religioso já ser realidade em diferentes regiões do Estado.

Neste ano, no Crato, o Santuário de Nossa Senhora foi reconhecido oficialmente como Santuário Diocesano e construiu a maior estátua de Nossa Senhora de Fátima do mundo, com 54 metros de altura.

É também no Cariri que a devoção a Padre Cícero leva milhões de pessoas por ano a Juazeiro do Norte, onde acontecem ainda as Romarias de Nossa Senhora das Dores e Nossa Senhora das Candeias. De acordo com a Prefeitura, a região é considerada o segundo maior destino religioso do País.

Em Barbalha, a festa do Pau da Bandeira virou atração turística nacional, com hotéis cheios e visitantes de diferentes locais. Em Santana do Cariri, a construção do Santuário da Menina Benigna já provocou crescimento econômico com a abertura de hospedagens, restaurantes e comércios.

Em Canindé, é São Francisco quem chama milhões de romeiros a pé, de ônibus, carro ou moto. A Rota do turismo voltado para a religião inclui ainda o Santuário Mariano de Nossa Senhora Imaculada Rainha do Sertão, em Quixadá; o Alto de Santa Rita e a Igreja Matriz da Imaculada Conceição, em Redenção; o Mosteiro dos Jesuítas, em Baturité; bem como Santuário de Fátima, o Seminário da Prainha e a Catedral da Sé, na Capital.

O investimento no segmento religioso se concretiza no Ceará e demanda mais políticas que incentivem os potenciais dos municípios, ricos em cultura e fé. Logística, estradas, segurança e apoio de diferentes setores da sociedade, públicos e privados. As manifestações religiosas cearenses são bonitas, fortes e históricas, e nunca tiveram tanto potencial para serem ainda mais.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 22/12/25. Editorial, p.18.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Flor de cipó-uva, sequilho e presépio

Por Izabel Gurgel (*)

"Sequilho é um segundo. Assa tão rápido. Não dá tempo fechar o forno". Silvanir conta pela idade do filho mais velho o tempo que faz sequilho para venda. Vinte e seis anos. No sítio Peixotos, distrito de Dom Leme, em Santana do Cariri, mantém o forno a lenha. "Faz uma diferença enorme" no "sequilho de três gerações".

Aprendeu "só olhando a mãe fazer". Zuila Josefa de Araújo (1939-2024) tinha restaurante. Um saber ancorado na avó Glória Alves de Araújo (1904-1989), parteira do lugar. O trabalho das mulheres, chão e céu do mundo nosso de cada dia. Silvanir criou assim Jeferson Pablo e Daniel. O filho mais novo tem vinte anos. Sabores da Serra é o nome dos doces e bolos feitos em casa. A antiga Serra do Rogério se chama Dom Leme há quarenta anos.

De batismo Cícera Alves de Araújo, Silvanir apresenta Dom Leme pela fartura. Diz das casas de farinha e apiários, da safra recente, do trabalho de abelhas e apicultores, de mais mulheres que vivem de fazer sequilho e pão-de-ló. Além dela própria, uma vizinha contemplada no projeto São José melhorou as condições do beneficiamento da puba e derivados. Cita a feitura de balaios e cestas de cipó-uva.

O mel de cipó-uva é das transparências douradas de histórias do Oriente. Conheci primeiro o mel. Depois vi a floração, o exalar do cheiro na mata, fazendo da caminhada um modo de acolher o espanto com tudo o que nasce. Por maior que seja o tempo de duração, é curta qualquer existência comparada à dança da vida se tornando outra coisa para seguir. Mandioca, goma, sequilho, céu da boca.

No Cariri, o sequilho faz parte dos comes e bebes da devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Faz-se a entronização do sagrado coração, ou dos sagrados corações, do filho e da mãe, dando-lhes um lugar fixo na casa. Na mesma data, a cada ano, faz-se a Renovação do ato. Falei com Silvanir um dia depois da Renovação na casa dela. "Tinha umas setenta pessoas aqui ontem". Reza esperada, festejada.

Silvanir não pila a goma no pilão de madeira, outrora incontornável. Usa processador. "A goma seca tem uns carocinhos." Peneira. Bate as claras à parte. Tira a pele da gema antes de misturá-la à goma, à gordura derretida, ao açúcar. Amassa bem antes de cortar. Usa untadas formas de pizza, mais finas que as de tabuleiro. Faz sequilhos também de sabor amendoim, castanha, gergelim, laranja e maracujá. No calor das brasas, cheiram logo. "Não tem fumaça. A lenha já queimou toda."

Fui à serra por meio do presépio que Sandro Cidrão monta no museu por ele criado, o Museu da Memória Histórica Santanaense, no centro de Santana. Perguntei sobre a cesta em miniatura com sementinhas, ouvi "é de cipó de croapé". Ficamos sem saber que planta era aquela. Um ano depois, de volta da feira da agricultura familiar em Dom Leme, uma das feiras onde Silvanir expõe, o professor me diz "é o mesmo cipó-uva". Prestar atenção às pequenas coisas com as quais se compõe um presépio nos instala em uma conversa infinita. Rendilhado cipoal.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 21/12/25. Vida & Arte, p.2.

EDUCAÇÃO FINANCEIRA: caminho para o bem-estar

Por Adriana Queiroz (*)

A organização financeira é um dos pilares de uma vida equilibrada. Quando o dinheiro está sob controle, a mente se torna mais leve, o sono melhora e a ansiedade provocada por dívidas e incertezas diminui. No entanto, muitas pessoas ainda tomam decisões financeiras impulsivas, movidas pela emoção, sem considerar os impactos de longo prazo. Esse comportamento pode levar a um ciclo de endividamento que compromete não apenas o presente, mas também o futuro.

Para evitar armadilhas financeiras e construir um caminho mais seguro, é essencial compreender a trilogia do consumo: necessidade, utilidade e luxo. Essa reflexão permite avaliar melhor cada compra, diferenciando o que realmente é essencial do que é supérfluo. Por exemplo, ao adquirir um carro, a necessidade está na locomoção eficiente, a utilidade pode estar em um modelo automático que facilita a direção, enquanto o luxo reside na compra de um veículo de alto padrão apenas para ostentar status.

O problema surge quando as decisões de compra ultrapassam a utilidade e a necessidade, sendo motivadas por desejos imediatistas, sem planejamento financeiro adequado. Quando não há controle, o consumo desmedido pode resultar em dívidas que impactam a qualidade de vida e geram estresse. Por isso, a educação financeira é um fator essencial para garantir um futuro mais estável e evitar armadilhas comuns no endividamento.

Criar o hábito de poupar não significa abrir mão dos sonhos, mas sim planejá-los com consciência. Pequenos ajustes nos gastos diários, o hábito de reservar parte da renda para investimentos e a disciplina para evitar compras impulsivas fazem toda a diferença. Ter uma visão clara sobre onde o dinheiro está sendo empregado e os impactos disso no longo prazo é a chave para uma vida financeira saudável.

A verdadeira qualidade de vida não está no acúmulo de bens, mas na tranquilidade de saber que suas escolhas financeiras sustentam um futuro seguro. O verdadeiro luxo não está em carros caros ou itens de grife, mas na paz de espírito que vem de uma vida sem dívidas e bem planejada. Afinal, não há riqueza maior do que dormir tranquilo sabendo que o amanhã está protegido.

(*) Contadora e CEO da West Consultoria,

Fonte: O Povo, de 14/12/25. Opinião. p.18.

domingo, 25 de janeiro de 2026

UMA TROCA DE IDEIAS ENTRE HORTICULTORES

Certa senhora tinha uma próspera horta com uma variedade de belos vegetais.

Só uma coisa a incomodava: os tomates da horta ainda estavam verdes e não amadureciam.

Depois de fazer várias tentativas e nada adiantar, resolveu consultar o vizinho que também tinha horta: "Diga-me, como é que seus tomates amadurecem tão rápido e os meus ainda estão verdes?"

"Em outros tempos eles também não amadureciam na minha horta", respondeu o vizinho, "mas então descobri um método que pode parecer estranho para você, mas funciona: todas as noites eu ando completamente nu perto dos tomates. Assim eles ficam envergonhados e coram e ficam vermelhos!"

A mulher resolveu seguir o conselho do vizinho e à noite caminhou nua pela horta.

No dia seguinte, o vizinho perguntou se o conselho dele a ajudou e se os tomates estavam maduros?"

A verdade é que os tomates ainda estão verdes", respondeu a mulher, "mas os pepinos... cresceram cinco centímetros em uma noite!!!"

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.


A ÚLTIMA VONTADE DO MARIDO

Um homem idoso, já bastante doente, fez o último pedido à esposa:

"Querida, meu tempo está quase acabando e há algo que eu gostaria que você fizesse por mim quando eu partir."

Ela acenou com a cabeça e disse: "Você pode contar comigo. Qualquer coisa que você pedir, eu farei com que seja atendido."

"Quero que você se case com meu amigo Zé Carlos", disse ele, com a voz carregada de emoção. Espantada, sua esposa respondeu: "Com o Zé Carlos? Mas eu pensei que você não o suportava!"

Ele sorriu e olhou nos olhos dela enquanto respondia: "Exatamente por isso..."

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.

sábado, 24 de janeiro de 2026

UMA ESCOLHA ACERTADA

André e Eric, dois gênios da computação com pouca experiência com mulheres, se encontraram na entrada da universidade.

"Nossa, você tem uma ótima máquina! Como você conseguiu comprá-la?" Eric perguntou a André. André desceu da moto, tirou o capacete e respondeu:

"Eu não comprei, a Mariana me deu".

"Como um presente?!" Eric exclamou surpreso, "Eu sempre soube que ela estava afim de você, mas isso já é levar as coisas a um nível totalmente novo!"

André sorriu e disse a ele: "Ontem eu estava andando no parque e vi Mariana nesta moto. Ela veio até mim sem dizer nada, jogou a moto para o lado, depois tirou toda a roupa e disse 'Pegue o que quiser!"

Eric ficou sem palavras com o que André estava dizendo.

“Então, peguei a moto”, finalizou André.

Eric acenou com a cabeça e disse: "Você fez bem, André. As roupas dela não serviriam em você, mesmo.

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.

SAIAM JÁ DO CARRO!

(Esta é uma história tida como real, registrada na Polícia de Sarasota, Flórida, EUA)

Uma senhora idosa, na Flórida, fez as suas compras e, ao retornar ao seu carro, encontrou quatro homens saindo com o seu veículo. Largando as compras, ela sacou sua arma, gritando a plenos pulmões: "Eu tenho uma arma, e sei usá-la! Saiam já do meu carro!" Os quatro homens não esperaram por uma segunda ordem e saíram correndo como doidos.

A senhora, bastante agitada, começou a colocar as compras no banco de trás e, feito isto, sentou-se ao volante. Estava tão nervosa que não conseguia colocar a chave na ignição. Tentou várias vezes sem sucesso, até que ela entendeu por quê não conseguia. Era pelo mesmo motivo que havia uma bola de futebol, um taco de beisebol e uma embalagem com 12 latas de cerveja no assento da frente.

Minutos mais tarde, ela encontrou o seu carro estacionado uns 5 espaços adiante. Ela colocou suas compras no carro e dirigiu-se até a Delegacia de Polícia para registrar o seu engano. O sargento a quem ela relatou sua história não conseguia parar de rir. Ele apontou para a outra ponta do balcão, onde quatro homens pálidos estavam registrando um roubo de carro feito por uma anciã maluca, com menos de 1,55, cabelos brancos e encaracolados, usando óculos e portando um enorme revólver. A queixa foi retirada.

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.


CONVITE: Celebração Eucarística da SMSL - Janeiro/2026

 

A Diretoria da SOCIEDADE MÉDICA SÃO LUCAS (SMSL) convida a todos para participarem da Celebração Eucarística do mês de janeiro/2026, que será realizada HOJE (24/01/2026), às 19h, na Igreja de N. Sra. das Graças, do Hospital Geral do Exército, situado na Av. Des. Moreira, 1.500 – Aldeota, Fortaleza-CE.

CONTAMOS COM A PRESENÇA DE TODOS!

MUITO OBRIGADO!

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Da Sociedade Médica São Lucas


sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Formação médica no Brasil preocupa ministérios e entidades

Por Ana Ruth Ramires, jornalista de O Povo.

Com resultado do Enamed, entidades reiteram riscos de cursos com desempenho insuficiente. Entidades particulares contestam exame.

O desempenho insatisfatório de parcela significativa dos cursos de medicina no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) 2025, especialmente em instituições privadas, preocupa Governo Federal e entidades médicas. Cerca de 30% das 351 instituições que participaram obtiveram conceitos 1 e 2, considerado insatisfatório, e passarão por medidas de supervisão do Ministério da Educação (MEC).

Os resultados foram divulgados na segunda-feira passada, 19. "Há uma grande preocupação nos ministérios da Educação e da Saúde em assegurar que os cursos oferecidos aos alunos brasileiros possam garantir a qualidade da formação médica nesse País, até porque são profissionais que cuidam da vida das pessoas", disse Camilo Santana, ministro da Educação.

Marcelo Gurgel, professor titular e decano do curso de Medicina da Universidade Estadual do Ceará (Uece), argumenta que o aumento de escolas médicas no País, que supera numericamente nações muito mais populosas, compromete a formação acadêmica e exige mecanismos de avaliação mais rigorosos.

Para ele, os resultados do Enamed são reflexo de uma expansão desordenada e de um modelo de "formação em massa". Para solucionar essas deficiências, ele propõe a adoção de um modelo de avaliação por etapas, que permitiria identificar falhas específicas em diferentes ciclos da graduação.

"A formação básica de disciplina básica, de anatomia, de fisiologia tá muito boa, mas o ciclo clínico tá ruim. Aí serve para orientar o que a instituição precisa melhorar", exemplifica.

Ele acredita que, a despeito de sanções imediatas, o mercado servirá de balizador, pois as pessoas evitarão se matricular em cursos com notas mais baixas, o que pode levar ao esgotamento e fechamento natural de cursos deficientes.

Diante do resultado divulgado na segunda, o Conselho Federal de Medicina (CFM) quer impedir que os estudantes do último semestre de Medicina que não atingirem a nota mínima no exame recebam o registro profissional.

Segundo Estevam Rivello Alves, diretor de Comunicação do CFM, "o Enamed é um extrato daquilo que as entidades médicas já vêm falando há cerca de duas décadas". O médico elogia a realização do Enamed, mas considera que o exame precisa ser melhor implementado.

"Essa é uma avaliação que foi feita só de forma objetiva, uma prova de múltipla escolha, com 100 questões, é necessário que se tenha uma avaliação em estações práticas, que é o que é feito também no mundo, né, pra que a gente tenha a noção exata se esse estudante tá bem avaliado", pormenoriza.

O CFM também defende a criação de um exame de proficiência médica para regular a atuação na área (PL 2.294/2024). "No Senado Federal, nós já fomos aprovados, esse projeto já foi aprovado na Comissão de Educação, está na Comissão de Assuntos Sociais em última votação e em terminando ela pode ser remetida já diretamente para a Câmara", diz sobre o PL.

Nessa quinta-feira, 22, o ministro da Saúde Alexandre Padilha, contudo, afirmou que o Governo Federal vai propor ao Congresso Nacional que o Enamed se torne também um exame de proficiência.

"Primeiro porque ele [o exame] vai ser feito no segundo, no quarto e no sexto ano (de faculdade), ou seja, ele avalia o progresso. E ele é feito pelo Ministério da Educação, que tem como interesse principal a formação médica, e não por outra entidade que possa ter qualquer outro interesse com relação a isso", declarou o ministro em coletiva de imprensa no Rio de Janeiro.

Padilha esclareceu que a proposta só pode entrar em vigor após uma mudança na legislação brasileira, portanto, valeria para edições futuras do Enamed e não para a edição de 2025. (com Agência Brasil)

Entidades criticam metodologia e "falta de transparência"

De outro lado, associações de ensino como a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes) e a Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) criticam a metodologia do exame, alegando falta de transparência e critérios definidos tardiamente.

Questionada sobre os resultados das universidades privadas no Enamed, a Anup responde ao O POVO que a avaliação da formação médica "não pode se apoiar em um único dado ou em um único instrumento, sobretudo quando esse instrumento ainda está em processo de consolidação". A entidade se preocupa com "a forma como esses dados foram produzidos, tratados e comunicados".

A Anup cita "inconsistências nos dados utilizados, critérios divulgados apenas após a aplicação da prova, problemas de representatividade da amostra - incluindo a participação de estudantes do 11º período - e a utilização de um exame inaugural para sanções regulatórias".

Para se consolidar como ferramenta essencial de avaliação, conforme a entidade, é necessária "definição prévia de critérios, um regime de transição adequado, integração com os demais instrumentos do sistema regulatório e engajamento efetivo dos estudantes".

A Abmes publicou nota afirmando que o Enamed "não demonstrou que a saúde da população brasileira esteja em risco, tampouco que a criação de uma prova de proficiência para egressos seja a solução para o aprimoramento da formação médica no País".

Associação cita que "os estudantes realizaram a prova sem o devido comprometimento, uma vez que não foram previamente informados de que o exame serviria como parâmetro de proficiência, nem de que haveria um corte mínimo de 60 pontos".

Ainda em nota pública, a entidade critica o que chama de "interesses corporativistas" das entidades médicas e reforça que "as instituições privadas mantêm firme compromisso com a qualidade da formação médica e apoiaram a criação do Enamed como instrumento de avaliação educacional".

"No entanto, a primeira edição do exame foi marcada por inconsistências (erros), ausência de critérios previamente definidos, falta de diálogo com a comunidade acadêmica e descumprimento do cronograma, o que comprometeu a previsibilidade, a transparência e a segurança jurídica do processo", acrescenta.

81% dos resultados insatisfatórios são de instituições privadas

Conforme o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) 2025, dos 107 cursos com resultados insatisfatórios, 81% (87) são de instituições privadas. Quase metade (49,4%) dos cursos privados registraram notas 1 e 2, resultado considerado insuficiente e passível de sanções.

César Eduardo Fernandes, presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), por meio de comunicado, defende que os dados do Exame "evidenciam uma forte assimetria na formação médica no Brasil". "Universidades públicas federais e estaduais concentram mais de 84% de seus cursos nas faixas de excelência, enquanto os piores resultados ocorrem principalmente em instituições municipais e privadas com fins lucrativos", analisa.

Ele cita os riscos da expansão desordenada de escolas médicas. Segundo o presidente da AMB, muitas vezes, as instituições são abertas "sem infraestrutura adequada, corpo docente qualificado ou condições mínimas para a formação segura de novos médicos, nem residência médica".

"Não se trata de formar mais médicos, mas de formar bons médicos, preparados para atuar no SUS e para responder às necessidades da população brasileira", acrescenta César Eduardo Fernandes.

Conforme Marcelo Gurgel, professor titular e decano do curso de Medicina da Universidade Estadual do Ceará (Uece), muitas faculdades privadas não possuem hospitais próprios e utilizam a rede pública para o internato. Ele cita também a oferta de vagas para residência.

"A melhor formação de um médico é na residência. Nós tínhamos vaga para residência médica que alcançava 70% dentro dos egressos. De cada 10 formados, sete deles iam para a residência médica. E, atualmente, com a grande oferta de vagas em Medicina, nós vamos ter menos de 30% de vagas em residência para os que estão se formando", relaciona.

Ele cita também que muitas instituições aumentam a oferta de vagas sem ampliar a estrutura proporcionalmente. "Quando o curso é reconhecido e consegue um upgrade para Centro Universitário ou para Universidade, ela tem autonomia para expandir as vagas sem dar satisfação ao MEC. Então, ela tem uma autorização inicial para receber 50 alunos e quando menos espera tá com 200 alunos", afirma o médico Marcelo Gurgel.

Conforme o Ministério da Educação, os cursos que obtiveram conceito Enade nas faixas 1 e 2 — menos de 60% dos seus estudantes apresentaram desempenho considerado adequado no Enamed — e passarão por ações de supervisão da Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior (Seres) do MEC.

Medidas incluem a suspensão total de ingresso de novos alunos; redução do número de vagas autorizadas; restrição de acesso a programas federais, como o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies).

Sobre as medidas aplicadas aos cursos que não atingiram o nível mínimo de aprendizagem, o ministro Camilo Santana destacou que o objetivo "não é aplicar sanções ou penalidades intencionais a qualquer instituição, mas assegurar a formação de médicos de qualidade no Brasil".

Os 99 cursos que não obtiveram resultado satisfatório, terão 30 dias para apresentar a defesa ao MEC após a publicação dos resultados no Diário Oficial da União, antes que as sanções entrem em vigor. Após o prazo, as medidas valerão até a próxima aplicação do Enamed, prevista para outubro de 2026.

Fonte: O Povo, 23/01/2026. Reportagem. p.4-5.


ANTISSEMITISMO DESPUDORADO

Por Maximiliano Ponte (*)

Nós, judeus de todo o mundo, estamos celebrando Chamucá, uma festividade que celebra a resistência à assimilação forçada e o direito de manter a própria identidade religiosa e cultural e que, neste ano, ocorre entre 14 e 22 de dezembro. Entre suas tradições centrais está o acendimento público de velas. Famílias as colocam à janela, voltadas para fora, e comunidades reúnem-se para acendê-las publicamente, mundo afora, como uma afirmação visível de existência, memória e continuidade.

Neste Chanucá de 5786 (2025), no pogrom de Bondi Beach, na Austrália, o antissemitismo, como tantas vezes ao longo da história, também acendeu suas velas publicamente. Fez isso de forma aberta, tanto por meio da violência explícita - com a morte de pessoas pelo simples fato de serem judias - quanto, de modo mais insidioso, pela justificativa despudorada que responsabiliza as próprias vítimas, enquanto grupo, transformando a agressão sofrida em culpa.

Em vez de uma condenação inequívoca dos agressores, multiplicaram-se explicações: o governo israelense, a guerra em Gaza, a complexa geopolítica do Oriente Médio. Essa lógica é eticamente insustentável. Judeus australianos não são o governo de Israel, não são suas forças armadas, nem extensões simbólicas de disputas geopolíticas. São cidadãos exercendo, de forma pacífica, um direito elementar: viver e expressar publicamente sua identidade religiosa e cultural.

Isso ocorre em um momento da história humana em que, ao menos em tese, já não há abrigo na civilidade para discursos que justificam a violência contra minorias, responsabilizando-as pela agressão sofrida. Não se aceita - pelo menos não publicamente - o discurso de que mulheres sejam violentadas por estarem sozinhas à noite ou por usarem determinadas roupas.

Tampouco se admite, no espaço público legítimo, o discurso de que pessoas LGBTQIA+ devam ser agredidas por demonstrarem afeto em público ou por expressarem sua identidade. Pessoas podem pensar dessa forma e até defendê-la em ambientes privados, mas sabem que sua enunciação pública tende a ser recebida com descontentamento tácito ou com oposição firme e imediata. Não é correto, não é ético, não é justo, não é intelectualmente válido responsabilizar a vítima pela agressão sofrida. Nunca. Ou melhor, quase nunca.

No caso do antissemitismo, esse constrangimento frequentemente desaparece. Torna-se socialmente tolerável - e até intelectualmente aceitável - sugerir que a violência contra judeus se explica por seu comportamento coletivo, por sua identidade ou por uma associação imaginada com um Estado, um governo ou um conflito. Quando se trata de judeus, pode.

Essa é mais uma vela acesa publicamente pelo antissemitismo, neste Chanucá.

(*) Médico psiquiatra.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 18/12/2025. Opinião. p.17.


 

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