quarta-feira, 24 de junho de 2026

ÁGUA TAMBÉM SANGRA

Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)

Eu choro fácil. De alegria, de tristeza, de emoção, de cansaço. E, por vezes, choro sem saber por quê. Certo dia, veio-me um pensamento nebuloso e persistente: chorar seria como sangrar. Guardei-o.

Na manhã seguinte, ao ver uma fotorreportagem sobre a sangria do açude Orós, no interior do Ceará, fiquei tocada com o título: água também sangra.

Na matéria, o repórter Arthur Gadelha dizia que quase todo fortalezense tem o seu "interior", uma cidade ligada à sua história, às suas raízes.

Eu sou de Fortaleza, mas já trabalhei no interior, justamente em Capistrano, a cidade do repórter. Atendia na zona rural, visitava casas de taipa distantes umas das outras, separadas por estradas de barro. Eu me impressionava com a solidão do lugar. E há algo ainda mais antigo: nas histórias ouvidas, no sotaque, na oralidade que passa de geração em geração, algo que me faz sentir a seca por dentro, mesmo sem jamais tê-la vivido.

A memória da privação me fez lembrar Vidas Secas. Corri para pegar meu exemplar. Lembrei o quanto chorei com Fabiano, com os filhos sem nome e com a inesquecível Baleia, a cachorra. Tinha começado a leitura em 2019; estava lá, anotado na contracapa.

A obra me marcou tanto que, certa vez, no Masp, parei diante de uma pintura e lembrei daquela família. Comentei: só faltou a Baleia. Fui conferir a legenda do quadro; era Cândido Portinari, e a obra se chamava Os Retirantes, que dialoga com Graciliano Ramos.

"Chegaria, naturalmente. Sempre tinha sido assim, desde que ele se entendera. E, antes de se entender, antes de nascer, sucedera o mesmo — anos bons misturados com anos ruins. A desgraça estava a caminho."

Cada um de nós carrega um sertão. Onde a terra racha. Onde a vegetação cresce com espinhos e aprende a guardar água para a hora da escassez.

Meu pai diz que o maduro é aquele que sabe que, quando tudo está bom, vai piorar, e que, quando tudo está ruim, vai melhorar.

A água pode tardar, mas chega. E, quando chega, jorra, sangra o passado da falta.

(*) Médica psiquiatra.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/05/2026. Opinião. p.18.

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