Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)
Eu choro fácil. De alegria, de tristeza, de
emoção, de cansaço. E, por vezes, choro sem saber por quê. Certo dia, veio-me
um pensamento nebuloso e persistente: chorar seria como sangrar. Guardei-o.
Na manhã seguinte, ao ver uma
fotorreportagem sobre a sangria do açude Orós, no interior do Ceará, fiquei
tocada com o título: água também sangra.
Na matéria, o repórter Arthur Gadelha dizia
que quase todo fortalezense tem o seu "interior", uma cidade ligada à
sua história, às suas raízes.
Eu sou de Fortaleza, mas já trabalhei no
interior, justamente em Capistrano, a cidade do repórter. Atendia na zona
rural, visitava casas de taipa distantes umas das outras, separadas por
estradas de barro. Eu me impressionava com a solidão do lugar. E há algo ainda
mais antigo: nas histórias ouvidas, no sotaque, na oralidade que passa de
geração em geração, algo que me faz sentir a seca por dentro, mesmo sem jamais
tê-la vivido.
A memória da privação me fez lembrar Vidas
Secas. Corri para pegar meu exemplar. Lembrei o quanto chorei com Fabiano, com
os filhos sem nome e com a inesquecível Baleia, a cachorra. Tinha começado a
leitura em 2019; estava lá, anotado na contracapa.
A obra me marcou tanto que, certa vez, no
Masp, parei diante de uma pintura e lembrei daquela família. Comentei: só
faltou a Baleia. Fui conferir a legenda do quadro; era Cândido Portinari, e a
obra se chamava Os Retirantes, que dialoga com Graciliano Ramos.
"Chegaria, naturalmente. Sempre tinha
sido assim, desde que ele se entendera. E, antes de se entender, antes de
nascer, sucedera o mesmo — anos bons misturados com anos ruins. A desgraça
estava a caminho."
Cada um de nós carrega um sertão. Onde a terra
racha. Onde a vegetação cresce com espinhos e aprende a guardar água para a
hora da escassez.
Meu pai diz que o maduro é aquele que sabe
que, quando tudo está bom, vai piorar, e que, quando tudo está ruim, vai
melhorar.
A água pode tardar, mas chega. E, quando
chega, jorra, sangra o passado da falta.
(*) Médica
psiquiatra.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/05/2026. Opinião. p.18.

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