Por Lauro Chaves Neto (*)
A recente perda
de valor de mercado dos grandes bancos brasileiros não é um evento isolado — é
sintoma de um problema mais profundo: o avanço do endividamento das famílias e
seus efeitos sobre toda a economia. Não se trata de prejuízo direto, mas de
algo talvez mais relevante: perda de confiança no futuro gerando perda no valor
de mercado.
À primeira vista,
os números dos balanços não justificariam esse movimento. Receitas em alta e
lucros robustos indicam um presente sólido. Mas o mercado não opera olhando
para o retrovisor. O que preocupa investidores são os sinais de deterioração à
frente. O aumento das provisões e a piora na qualidade dos ativos revelam uma
leitura clara: os bancos esperam mais inadimplência.
Esse cenário
reflete uma realidade incômoda. O endividamento das famílias, especialmente das
camadas de menor renda, maior parte da população brasileira, já não é apenas um
problema social — tornou-se um risco sistêmico. Quando consumidores perdem
capacidade de pagamento, toda a engrenagem econômica desacelera. O crédito
encarece, o consumo retrai e o ciclo de crescimento perde força.
A taxa básica de
juros, ainda em patamar muito elevado, agrava esse quadro. Com o Banco Central
do Brasil ainda cauteloso diante das incertezas inflacionárias, o alívio
monetário avança lentamente. E o cenário externo, marcado por tensões
geopolíticas e volatilidade nos preços do petróleo, adiciona mais
imprevisibilidade.
Programas como o
Desenrola Brasil surgem como tentativa legítima de aliviar o endividamento. Mas
carregam um dilema: ao mesmo tempo em que reabilitam consumidores, podem
estimular novo ciclo de crédito sem a devida sustentabilidade. A dúvida não é
apenas sobre a eficácia imediata, mas sobre os efeitos no médio prazo. O
movimento dos bancos ao reforçar reservas contra calotes é, nesse contexto, um
termômetro relevante.
O Brasil enfrenta
um desafio recorrente: equilibrar crédito, consumo e estabilidade. Sem
enfrentar as causas estruturais do endividamento — renda baixa, juros altos e
educação financeira limitada —, qualquer solução tende a ser apenas
paliativa.
(*)
Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de
Economia.
Fonte: O Povo, de 25/05/26. Opinião. p.20.

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