quinta-feira, 25 de junho de 2026

Endividamento, inadimplência e soluções paliativas

Por Lauro Chaves Neto (*)

A recente perda de valor de mercado dos grandes bancos brasileiros não é um evento isolado — é sintoma de um problema mais profundo: o avanço do endividamento das famílias e seus efeitos sobre toda a economia. Não se trata de prejuízo direto, mas de algo talvez mais relevante: perda de confiança no futuro gerando perda no valor de mercado.

À primeira vista, os números dos balanços não justificariam esse movimento. Receitas em alta e lucros robustos indicam um presente sólido. Mas o mercado não opera olhando para o retrovisor. O que preocupa investidores são os sinais de deterioração à frente. O aumento das provisões e a piora na qualidade dos ativos revelam uma leitura clara: os bancos esperam mais inadimplência.

Esse cenário reflete uma realidade incômoda. O endividamento das famílias, especialmente das camadas de menor renda, maior parte da população brasileira, já não é apenas um problema social — tornou-se um risco sistêmico. Quando consumidores perdem capacidade de pagamento, toda a engrenagem econômica desacelera. O crédito encarece, o consumo retrai e o ciclo de crescimento perde força.

A taxa básica de juros, ainda em patamar muito elevado, agrava esse quadro. Com o Banco Central do Brasil ainda cauteloso diante das incertezas inflacionárias, o alívio monetário avança lentamente. E o cenário externo, marcado por tensões geopolíticas e volatilidade nos preços do petróleo, adiciona mais imprevisibilidade.

Programas como o Desenrola Brasil surgem como tentativa legítima de aliviar o endividamento. Mas carregam um dilema: ao mesmo tempo em que reabilitam consumidores, podem estimular novo ciclo de crédito sem a devida sustentabilidade. A dúvida não é apenas sobre a eficácia imediata, mas sobre os efeitos no médio prazo. O movimento dos bancos ao reforçar reservas contra calotes é, nesse contexto, um termômetro relevante.

O Brasil enfrenta um desafio recorrente: equilibrar crédito, consumo e estabilidade. Sem enfrentar as causas estruturais do endividamento — renda baixa, juros altos e educação financeira limitada —, qualquer solução tende a ser apenas paliativa. 

(*) Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de Economia.

Fonte: O Povo, de 25/05/26. Opinião. p.20.


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