sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Solenidade comemorativa dos 132 anos da Academia Cearense de Letras

Na noite de ontem, 20 de agosto de 2026, no Palácio da Luz, participei, pela quinta vez como imortal das letras cearenses, da solenidade celebrativa dos 132 anos de instalação da Academia Cearense de Letras (ACL), reconhecida por ser a primeira do gênero no Brasil, que se mantém em funcionamento, dado que foi criada em 1894, três anos antes da fundação da Casa de Machado de Assis, a Academia Brasileira de Letras (ABL).

A sessão solene, iniciada às 19h, com a apresentação do maestro Adelson Viana, que a todos encantou com a execução musical, ao acordeon, de um repertório genuinamente cearense, teve a Sra. Jerietza Gurgel, como cerimonialista, e foi liderada pelo Presidente da confraria, o Acad. Tales de Sá Cavalcante, que fez o discurso de saudação de aniversário da ACL e anunciou a celebração de festejos alusivos aos 300 anos de Fortaleza, fruto de projeto sob a coordenação do Acad. Pio Rodrigues Neto.

Na sequência, o Acad. Pio Rodrigues Neto exibiu as linhas gerais do projeto e convidou a Acada. Selma Prata, para efetuar o lançamento do Edital do Prêmio Artur Eduardo Benevides, destinado a premiar e publicar poesias temáticas sobre a capital cearense.

O ponto alto da noite foi a palestra intitulada “Fortaleza Hilária”, proferida pelo Acad. Juarez Leitão que, com a sua notória e reconhecida eloquência, mesmerizou a platéia, durante mais de uma hora, narrando episódios burlescos e causos acontecidos em Fortaleza, plenos de humor, além de muito bem-contados, conferindo ao ambiente um tom de animação e de contagiante deleite.

A efeméride foi consagrada pelo grande público presente, composto principalmente de membros participantes de confrarias e entidades literárias e culturais cearenses, bem como por formadores de opinião da sociedade local.

Ao final da solenidade, acadêmicos e seus convidados se confraternizaram em um coquetel ofertado pela ACL nas aprazíveis dependências do Café Java.

Acad. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Da Academia Cearense de Letras – Cad. 25


FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 727

Abro a coluna com uma historinha de Pernambuco.

Perspectivas e características

Quais as perspectivas que se apresentam ao Brasil nesse contexto de crise entre os Poderes? Confesso que não sei responder. Mas uma historinha de Pernambuco pode nos apresentar as perspectivas.

Luís Pereira, pintor de parede, dormiu com 200 votos e acordou como deputado Federal. Era suplente de Francisco Julião, líder das Ligas Camponesas, em Pernambuco, cassado pela ditadura. Chegou a Brasília de roupa nova e coração vibrando de alegria. Murilo Melo Filho melou o jogo, logo no aeroporto, com a pergunta abrupta:

– Deputado, como vai a situação?

Confuso, nervoso, surpreso, sem saber o que dizer, querendo causar boa impressão tascou:

– As perspectivas são piores do que as características.

Pois é, a esta altura, tem muito deputado imitando Luís Pereira e traçando o panorama do amanhã.

Começo minha análise política com o poema do beco, de Manuel Bandeira.

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?

-O que vejo é o beco.

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/349574/porandubas-n-727


quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A QUE PONTO CHEGAMOS

Por Rev. Munguba Jr. (*)

De quatro em quatro anos o Brasil se reúne para viver a magia de uma Copa do Mundo. Pais sacrificam parte da poupança para realizar o sonho dos filhos com os álbuns de figurinhas, e milhões de brasileiros alimentam a esperança de ver mais uma estrela estampada na camisa da nossa seleção.

Lembro-me da Copa de 1970. Eu era apenas um menino, comendo rocambole de goiaba e correndo pelas ruas atrás do Colégio Batista, onde morávamos, comemorando cada vitória da seleção brasileira. Depois daquela conquista vieram outras duas inesquecíveis, consolidando o Brasil como a única seleção pentacampeã do mundo.

Entretanto, neste ano chegamos a um ponto diferente. O debate deixou de ser sobre futebol.

Assistimos a campanhas favoráveis e contrárias ao nosso camisa 10 não por sua condição física, seu talento, sua capacidade técnica ou sua recuperação das lesões, mas por causa de suas preferências políticas e declarações públicas.

Todo cidadão tem o direito de manifestar suas convicções e fazer suas escolhas. Somos contrários a qualquer forma de discriminação. Seja na política, na religião, na vida familiar ou na esfera da sexualidade, cada pessoa deve ser livre para expressar suas convicções. Respeitar uma decisão não significa, necessariamente, concordar com ela.

Quando escolhemos um médico para realizar uma cirurgia, observamos sua formação, sua experiência e seus resultados. Quando buscamos um salão de beleza, avaliamos a qualidade do atendimento e o resultado do serviço. Raramente perguntamos qual é a preferência política ou a orientação ideológica dessas pessoas.

Talvez estejamos perdendo a capacidade de distinguir o que é essencial do que é secundário. Precisamos aprender novamente a separar as estações da vida e evitar transformar diferenças de opinião em critérios absolutos para julgar pessoas.

Quando confundimos competência com preferência, perdemos muito mais do que um jogo. Perdemos a capacidade de conviver.

Vai lá, Neymar! Faça no campo aquilo que você sabe fazer. Honre a camisa da seleção com dedicação, entrega e excelência. E, se Deus permitir, ajude a trazer para o Brasil mais uma estrela.

(*) Pastor Munguba Jr. Embaixador Cristão da Oração da Madrugada e Erradicação da Pobreza no Brasil e presidente da Igreja Batista Seven Church.

Fonte: O Povo, 4/07/2026. Opinião. p.24.


quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Cearense Melissa Gurgel alçada ao cargo de professor titular da Unicamp

Ontem (18/08/2026) foi dia de alegria para a família Gurgel Adeodato. A Melissa Gurgel Adeodato Vieira, filha dos jornalistas aposentados Márcia Gurgel e Adeodato Junior, foi aprovada em primeiro lugar como professora titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Melissa já desempenha o cargo de professora desde 2010 na própria universidade.

Aos 47 anos de idade, atinge o ápice da carreira acadêmica, tendo em seu robusto currículo mestrado e doutorado em Engenharia Química e três pós-doutorados, sendo um em Stuttgart, na Alemanha.

Melissa teve uma sólida base estudantil no Colégio Christus e na Universidade Federal do Ceará (UFC), por onde se graduou em Engenharia Química com diploma de Magna Cum Lauda, tendo sido, até então, o concludente com o maior IRA (Índice de Rendimento Acadêmico) da história desse curso da UFC. Fez parte do curso de Engenharia Química na École Centrale de Paris.

Desde 2023, ela compõe a lista de pesquisadores cientistas mais influentes no Mundo segundo ranking elaborado pela editora científica Elsevier e liderado por uma equipe de especialistas da Universidade de Stanford.

Nota do Blog do Marcelo Gurgel: Melissa Gurgel é uma querida sobrinha minha que obteve o primeiro lugar, disputando esse concurso público da Faculdade de Engenharia Química da Unicamp, com cinco concorrentes, sendo três da própria Unicamp e dois outros de fora. Ela está seguindo os brilhantes passos da minha irmã Meuris Gurgel, professora titular atualmente aposentada da Unicamp.


terça-feira, 18 de agosto de 2026

"A escolinha do Professor Vorcaro"

Por Raimundo Padilha (*)

Parodiando a Escolinha do Professor Raimundo, do maior humorista brasileiro, o cearense Chico Anysio, estamos assistindo à Escolinha do Professor Vorcaro. Na Escolinha do Chico, os alunos eram humoristas famosos, que interpretavam papéis que os colocaram no patamar da fama. Chico era o titular da cátedra.

Na Escolinha do Professor Vorcaro, os seus alunos são corruptos, que ocupam, com raras exceções, o cardinalato da nossa República. Todos de maneira direta ou indireta, por meio de familiares são personagens de tramas golpistas. Enquanto na Escolinha do Chico o objetivo era fazer rir, na Escolinha do Professor Vorcaro é de fazer chorar. Quanta tristeza está no rastro deste drama, onde o seu professor é um pegajoso bandido, que atrai alunos mediante fartas propinas.

No Chico, o jogo era limpo. No Vorcaro, o jogo é sujo. Em matéria de corrupção é a maior em volume e em número de participantes. Três togados se tem notícia que tiveram participações, um senador apresentou projeto ampliando vantagens para o Banco Master do Sr. Vorcaro, além de outros cardeais que intermediaram operações para aplicações de Fundos de Pensões no mesmo Master.

O banco oferecia taxas aos seus investidores bem acima das praticadas pelo mercado e não apresentando liquidez, levando os seus investidores a recorrer ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC), o qual chegou cobrir mais de R$ 50 milhões. Este é o maior rombo da história do Sistema Financeiro Nacional.

É vergonhosa a máscara dos seus participantes. E os seus poderes/cargos vão para lata do lixo. Uns mais, outros menos, mas de modo geral os 3 poderes foram atingidos.

A pretexto de produzir um filme de personagem que se tem dúvidas das suas virtudes, foi orçado em mais de R$ 130 milhões e abocanhados mais de R$ 60 milhões, quando o filme "O Agente Secreto", que concorreu ao Oscar, custou pouco mais de R$ 26 milhões.

E a história ainda está incompleta ou mal contada, pois se desconhece a estrada percorrida pelo dinheiro, nem o seu real orçamento e muito menos a comprovação da sua aplicação. Tudo muito obscuro e com historiadores falseando as suas narrativas.

Banquetes luxuosos na Europa, com cardápios de finíssimo trato e bebidas do mais requintado paladar foram promovidos pela Escolinha do Sr. Vorcaro.

Enquanto na Escolinha do Chico o final era o aplauso, com o Sr. Vorcaro o final será o xadrez. Aliás, o seu professor já estava vendo o sol quadrado e empulseirado. Triste fim, triste drama.

Duas escolas com objetivos bastante distintos. Vorcaro, professor esperto. Chico, professor engraçado. Grande diferença.

(*) Economista, professor aposentado da UFC e membro da Academia Cearense de Economia.

Fonte: O Povo, de 8/07/26. Opinião. p.15.


MEU AMADO PAI

Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)

Como seguirei sem ouvir a sua voz, sem ouvir a sua risada maravilhosa, sem ouvir o senhor dizer que a casa estava mais bonita quando eu dormia com vocês? Como será não ouvir o senhor perguntar: "Cadê os meninos, minha filha?"? Como será escrever sem ter o meu maior admirador para fazer os comentários amorosos, hiperbólicos e suspeitíssimos - afinal, eram seus, papai? Como seguirei sem o meu melhor amigo, que segurou a minha mão quando eu não tive condições de me sustentar? Como será viver sem o seu olhar e o seu sorriso apaixonados por mim, pai? Como será não ouvir o senhor dizer: "O vovô é axaponado pela Maína"?

Pai, me falta um pedaço. Já não sou mais a mesma. Ao mesmo tempo, algo se expande. Suas raízes se aprofundam em mim. É algo inominável, mas talvez as palavras de Drummond se aproximem do que eu sinto: "A ausência é um estar em mim, e essa ausência assimilada ninguém a rouba mais de mim".

Pai, agradeço a Deus por ter dormido na sua casa na sua última noite. Quando cheguei, conversamos sobre o meu aniversário, que se aproxima, e eu lhe disse: "Vou fazer 45 anos, pai". E o senhor me respondeu: "É muito tempo, minha filha. Mais que o dobro da idade que eu tinha quando perdi o papai".

Ao acordar, dei-lhe um beijo de bom-dia, e o senhor me disse, pela última vez: "A casa está mais bonita!" Depois, voltou-se para a mamãe e perguntou: "Guidinha, quer casar comigo?" Sorri e perguntei: "Quer renovar os votos, pai?" E o senhor respondeu, brincando: "Não. Quero casar de novo com ela".

Lembra do passarinho que vi de longe e mostrei ao senhor, pai? Outro dia, enviei-lhe um vídeo de um bem-te-vi cantando na minha casa, e o senhor me escreveu: "Ele deve estar falando uma coisa muito boa, minha filha". Agora, pai, sempre que um passarinho cantar, vou sentir que é o senhor me falando coisas boas.

Lembra que eu lhe contei que o meu dia anterior tinha sido muito bonito? Que eu tinha ido à Praia de Iracema ver o pôr do sol e senti tanta vontade de tomar banho de mar - porque foi o senhor, pai, quem me ensinou a amar o mar - que entrei de roupa e tudo, e o senhor sorriu? Mostrei também ao senhor a foto de uma criança brincando, e o senhor repetiu uma frase que dizia tantas vezes: "Criança é uma maravilha!"

No seu último dia, pai, o vento soprava forte. Lembra que o senhor dizia: "Dizem que, quando a gente sente o vento no rosto, é Deus nos acariciando." Ele o acariciou, papai.

Lembra que ouvimos juntos "Todo Sentimento", do Chico?

O senhor descansou nos meus braços, papai, que tenham sido o colo do amor mais profundo que uma filha pode oferecer a um pai.

Depois de te perder

Te encontro, com certeza

Talvez num tempo da delicadeza

Onde não diremos nada

Nada aconteceu

Apenas seguirei, como encantada ao lado teu

Da sua sempre, Ticinha

(*) Médica psiquiatra.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 15/07/2026. Opinião. p.17.


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Parte de vila militar é demolida para construção de nova praça em Fortaleza

Por Victor Marvo, jornalista de O Povo

Conjunto de residências da Base Aérea de Fortaleza estava desocupado há mais de uma década. Obra com investimento de R$ 3,25 milhões deve ser concluída em 2027

Resumo

“Oito residências da antiga vila militar da Força Aérea Brasileira (FAB), no bairro Aeroporto, em Fortaleza, foram demolidas como parte das intervenções para a implantação de uma praça integrada ao projeto do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) Ceará. A demolição foi iniciada no fim de junho. Agora, no local restam árvores em um terreno cercado por tapumes e uma placa que indica a construção do novo pátio.”

Historicamente, as vilas militares eram construídas para abrigar militares da ativa e suas famílias nas proximidades das unidades onde serviam. Esse modelo foi adotado em praticamente todas as bases da FAB criadas entre as décadas de 1940 e 1950.

Em Fortaleza, o conjunto de residências pertencia à Base Aérea de Fortaleza (BAFZ), localizada entre as avenidas Borges de Melo e Aguanambi, e começou a ser desocupado em meados de 2013, quando o 1º Esquadrão do Quinto Grupo de Aviação foi transferido para a Base Aérea de Natal (RN).

Praça terá nome do criador do ITA

O projeto da praça foi anunciado pelo governador Elmano de Freitas (PT) em abril deste ano, durante a cerimônia de entrega da primeira etapa das obras do campus do ITA Ceará.

Com investimento de R$ 3,25 milhões, a praça será construída em frente à Base Aérea de Fortaleza e deverá ser entregue no início de 2027, conforme informou a Superintendência de Obras Públicas (SOP).

O equipamento será denominado Praça Marechal do Ar Casimiro Montenegro Filho, em homenagem ao cearense considerado patrono da Engenharia da Aeronáutica e idealizador do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).

Conforme registros da FAB, Casimiro Montenegro Filho nasceu em Fortaleza em 28 de outubro de 1904 e ingressou na Escola Militar do Realengo em 1923, sendo declarado aspirante a oficial do Exército em dezembro de 1928.

Como será a nova praça?

Em resposta ao O POVO, a SOP confirmou que as próximas etapas da obra incluem serviços de pavimentação, urbanização e paisagismo, além da revitalização das áreas verdes e da instalação de um busto em homenagem ao marechal.

Com área aproximada de 4,5 mil metros quadrados, a praça contará com quadra poliesportiva, pista de skate, bicicletário, brinquedopraça, academia ao ar livre e espaços destinados ao lazer e à convivência da população, além de intervenções de urbanização e paisagismo.

A iniciativa segue a linha de outros projetos recentes do Governo do Ceará, como o Parque Dom Aloísio Lorscheider e o Polo Esportivo e Cultural do VLT Aeroporto, voltados à promoção da qualidade de vida por meio da requalificação dos espaços urbanos.

Transformação da área começou em 2020

A transformação da antiga vila militar da Força Aérea Brasileira (FAB), na avenida Borges de Melo, não é recente.

Em novembro de 2020, O POVO noticiou o início da demolição de parte do conjunto de residências de oficiais da Aeronáutica, após a cessão da área pela União ao Governo do Ceará para a implantação do Centro Integrado de Segurança Pública (Cisp).

Na época, os imóveis já estavam desocupados havia cerca de oito meses em razão da redução do contingente da Base Aérea de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 13/07/26. Cidades. p.15


Doa a quem Doer... Cid Carvalho

Por Raymundo Netto (*)

"Alô, amigos. Aqui, Cid Carvalho."

Assim começava por numerosos anos, no pingo do meio-dia, um dos quadros de maior audiência e credibilidade do rádio cearense. O radialista, jornalista, advogado, ex-senador da República, professor e poeta Cid Saboia de Carvalho veio à luz em Fortaleza, em 25 de agosto de 1935, despedindo-se desse mundo com grande pesar e repercussão em 10 de julho de 2026, prestes a completar bem vividos 91 anos.

Começou muito cedo, aos 12, a trabalhar em comunicação, como um dos redatores do jornal de seu pai, o combativo "Diário do Povo", resistência aos arbítrios do Estado Novo. É preciso dizer: no sangue, o jornalismo gritava, sendo filho de um casal brilhante de jornalistas, Jáder de Carvalho e Margarida Saboia de Carvalho, e neto de Eduardo Saboia, o "Brás Tubiba" da Padaria Espiritual, que, como Cid, foi jornalista, escritor, professor da Faculdade de Direito e político.

Mas não se deteve a jornais, adotando desde a juventude outra tribuna, a mais legítima de sua vida: o microfone de rádio. Aos poucos desenvolveu estilo próprio de narração e expunha o seu ponto de vista sobre os mais diversos assuntos e denunciava, primeiramente nas rádios Uirapuru e Assunção, e depois na Dragão do Mar, atuando como comentarista político e esportivo - era torcedor do Fortaleza. Mais tarde, em emissoras de televisão, quando inaugurada a TV Uirapuru, canal 8, em 1978, e a TV Cidade, em 1981.

Graduou-se em Direito pela UFC, em 1966, onde atuaria no magistério, assim como ministrou aulas nas Ciências Econômicas, na Filosofia e na Comunicação Social.

Como senador, eleito em 1986, participou ativamente na Assembleia Nacional Constituinte, que originou a "Constituição-Cidadã" de 1988. Outro orgulho seu: a cocriação da Advocacia-Geral da União (AGU).

Em sua trajetória, desde sempre se orgulhou de dizer ser independente, honesto e defender os princípios e valores humanos, entre eles, espírita que era, a caridade.

Outro grande amor na sua vida, além da família - e de seus almoços de domingo -, era o livro. Adorava viver, ouvir música, dar aula e ler livros. Tanto os amava, que até aprendera com artesãos a encadernar e a restaurá-los. Lia e escrevia. Entre suas obras, publicou ensaios, discursos e textos jurídicos, mas também inventava tempo, no meio de inúmeras atividades, para encontrar as musas de sua poética. Daí, ingressou na cadeira nº 20 da Academia Cearense de Letras, assim como no Instituto do Ceará, na Academia Cearense de Retórica, Academia Cearense da Língua Portuguesa, Associação Brasileira de Bibliófilos e na Academia Fortalezense de Letras, na qual foi o seu primeiro presidente. Durante uma homenagem da "Feira do Sebo" na praça do Ferreira, o assisti dizer que ainda haveria de escrever uma biografia de seu pai, Jáder de Carvalho. Ouvir aquele homem, popularmente reconhecido, em seus 70 anos, embargar a voz entre lágrimas ao proferir essa "promessa" de admiração foi tocante. Era absoluta e justificadamente fascinado pela figura paterna, seguindo-a em seus passos. Assim, também se comoveu ao receber "O Canto Novo da Raça" (1928), marco do modernismo cearense, do qual o pai foi coautor, editado por mim durante minha passagem pela Secult. Hoje, com a sua partida, imensa lacuna foi aberta no Ceará. Porém, nas palavras do seu "Pássaro de Fogo", o alento: "[...] se no teu morrer diário/ na tua angústia noturna/ pensares que ele se foi/ ele ainda restará no coração".

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 13/07/26. Vida & Arte, p.2.


domingo, 16 de agosto de 2026

Florence Nightingale: Legado que perdura

Por Ana Rute Ramires e Ana Sá, jornalistas de O Povo.

Florence Nightingale fundou a primeira escola laica de formação de enfermeiras do mundo. No artigo "De Florence Nightingale à pandemia Covid-19: o legado que queremos", publicado na revista científica Texto & Contexto - Enfermagem, Maria Itayra Padilha, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pós-doutora em História da Enfermagem e Saúde, fala sobre esse legado na formação.

"A iniciativa serviu como semente de um novo status para a Enfermagem como profissão, e para a criação de inúmeras outras instituições de ensino espalhadas pelo mundo, fundadas por ex-alunas, implantando o chamado Sistema Nightingaleano de Ensino de Enfermagem, inclusive no Brasil."

A Escola de Enfermagem Anna Nery, fundada em 1920, no Rio de Janeiro, foi a primeira instituição estruturada sob os pilares do sistema de Florence Nightingale no Brasil.

A professora Maria Itayra explica que Anna Justina Ferreira Nery, que deu nome à escola, foi outro exemplo de atuação na linha de frente em guerras. A brasileira prestou cuidados aos feridos na Guerra do Paraguai, em 1860, e posteriormente recebeu o título de "primeira enfermeira brasileira".

A fundação da escola se deu pela atuação do Departamento Nacional de Saúde Pública, liderado pelo médico Carlos Chagas, e pela Fundação Rockfeller, que se aliou ao governo brasileiro e trouxe enfermeiras norte-americanas ao Brasil numa missão para implantar a enfermagem moderna no País.

A professora Maria Angélica de Almeida Peres, da UFRJ, destaca que é preciso considerar o contexto histórico para entender as características da enfermagem natingueliana.

A historiadora observa que uma aparente "submissão" de Florence aos médicos era, na verdade, uma estratégia política consciente. Ela sabia que, para a profissão vingar, precisava primeiro se estabelecer dentro das condições possíveis para mulheres no século XIX.

Florence faleceu aos 90 anos, em 13 de agosto de 1910, e foi sepultada ao lado dos túmulos de outros membros da família em East Wellow, Hampshire.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/07/26. Caderno Ciência & Saúde. Etc. p. 19.


Florence Nightingale: Pioneirismo na ciência de dados

Por Ana Rute Ramires e Ana Sá, jornalistas de O Povo.

Conforme os registros do projeto da Universidade de Guelph, em março de 1854, chegaram relatos sobre as condições terríveis e a falta de suprimentos médicos sofridas pelos soldados feridos que lutavam na Guerra da Crimeia. O Ministro da Guerra convidou Florence para supervisionar a introdução de enfermeiras nos hospitais militares na Turquia.

Com um grupo de 38 enfermeiras, Florence chegou a Scutari e começou a organizar os hospitais para melhorar o fornecimento de alimentos, cobertores e camas, bem como as condições gerais e a higiene.

O conflito registrou mortalidade alarmante, mas a grande maioria ia a óbito por doenças evitáveis (como tifo e cólera) e não por ferimentos de combate.

A metodologia que ela desenvolveu para analisar o que deu errado fundamentaria suas campanhas por reformas sociais e de saúde. Quando retornou a Londres, Nightingale contou com a colaboração de William Farr, superintendente de Estatísticas do Registro Geral e o mais renomado estatístico médico da época.

Com ele, ela analisou os dados oficiais e publicou seus icônicos diagramas de área polar. Seus gráficos (como o famoso Diagrama da Rosa) demonstraram que as mortes disparavam devido às péssimas condições sanitárias.

Após uma força-tarefa higienizar os esgotos e a ventilação, a mortalidade britânica despencou de 23% para apenas 2,5%. Em contraste, a taxa francesa, que não adotou as reformas a tempo, subiu.

A teoria ambientalista de Florence Nightingale é o que ela descreve como cuidado necessário a recuperação do doente, destacando que o ambiente tem que ser favorável a esse processo, focando em questões sanitárias como controle de excrementos, oferta de água limpa, luz solar e ventilação, como detalha Maria Angélica de Almeida Peres, professora da Escola de Enfermagem Anna Nery (UFRJ).

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/07/26. Caderno Ciência & Saúde. Etc. p. 19.


sábado, 15 de agosto de 2026

Florence Nightingale: Origens e formação da "Dama da Lâmpada"

Por Ana Rute Ramires e Ana Sá, jornalistas de O Povo.

Florence Nightingale nasceu em Florença, na Itália, no dia 12 de maio de 1820, na época em que seus pais, aristocratas britânicos, residiam no país. Na infância, ela era estudiosa e se interessava especialmente por matemática.

Ela teria sentido um "chamado" de Deus e acreditava estar destinada a fazer algo maior, conforme registros do Florence Nightingale Museum, localizado no St Thomas' Hospital, em Londres, Inglaterra, onde ela fundou sua escola de enfermagem.

Na Inglaterra vitoriana, esperava-se que mulheres de sua posição se dedicassem ao casamento e à vida doméstica, papéis que ela ativamente rejeitou.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/07/26. Caderno Ciência & Saúde. Etc. p. 19.


O legado de Florence Nightingale, a precursora da enfermagem moderna

Por Ana Rute Ramires e Ana Sá, jornalistas de O Povo.

Além da "Dama da Lâmpada", Florence Nightingale foi uma estatística, estrategista e cientista brilhante, cujas contribuições perduram até hoje

Durante as noites, ela percorria os corredores do Hospital de Scutari (Istambul, Turquia) carregando uma lâmpada para vigiar e prestar cuidados aos soldados feridos. Enquanto o exército britânico lutava na Guerra da Crimeia (1854-1856), Florence Nightingale travava uma guerra interna contra a sujeira, o ar estagnado e a negligência que tiravam mais vidas do que as próprias armas.

Foi esse ritual de cuidado e vigilância que cristalizou a figura da "Dama da Lâmpada", transformando uma voluntária obstinada na precursora da enfermagem científica moderna. Florence foi pioneira em formular políticas de saúde pública integradas ao bem-estar social, defendendo que a saúde dependia de habitação, saneamento e nutrição.

Sua maior conquista foi transformar a enfermagem em uma profissão "respeitável" para as mulheres e, em 1860, ela fundou a primeira escola de formação profissional para enfermeiras, a Nightingale Training School, no St Thomas' Hospital, em Londres.

De acordo com Maria Angélica de Almeida Peres, professora e pesquisadora em História da Enfermagem da Escola de Enfermagem Anna Nery, da Universidade Federal do Rio de Jeneiro (UFRJ), a principal contribuição de Florence Nightingale foi a profissionalização da enfermagem, transformando uma prática que antes era puramente caritativa ou leiga em uma ciência com conhecimento próprio e autônomo.

O projeto The Collected Works of Florence Nightingale (CFN), da Universidade de Guelph, Canadá, reúne um acervo massivo de cartas, livros e artigos de jornais da época (The Times, The Lancet) sobre ela.

Conforme informações disponíveis no site do projeto, ela foi uma cientista social empírica e introduziu a saúde baseada em evidências, usando estatísticas e dados para monitorar reformas, priorizar a prevenção e evitar danos hospitalares.

A imagem da mulher verificando se tudo estava bem à noite lhe rendeu o apelido de "Dama da Lâmpada", além do respeito dos soldados britânicos.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/07/26. Caderno Ciência & Saúde. p. 19.


sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Lançamento do livro "Pediatria no Ceará: História e Pediatras"

Por Paulo Gurgel Carlos da Silva (*)

Realizado no dia 30 de julho de 2026, às 19h, na sede da Sociedade Cearense de Pediatria (Socep), à Rua Maria Tomásia, 701 – Aldeota, em Fortaleza-CE, o lançamento do livro "Pediatria no Ceará: História e Pediatras".

A obra é uma edição comemorativa aos 80 anos da Sociedade Cearense de Pediatria, a qual se uniu nesta iniciativa à Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Regional do Ceará, no compromisso comum de preservar a memória daqueles que dedicaram suas vidas aos cuidados das crianças e dos adolescentes em nosso Estado.

Apresentação, por Maria Sidneuma Melo Ventura

Prefácio, por João Cândido de Souza Borges

Autores: (Maria Sidneuma, João Borges e Marcelo Gurgel) e Coautores: (15)

Parte I - História e Evolução da Pediatria no Ceará 

Parte II - A Pediatria do Ceará em Livros

Parte III - Pediatras Atuantes no Ceará

Parte IV - Entrevistas com Pediatras Cearenses, conduzidas por Clara Studart e revisadas por Mirna Gurgel

Parte V - Apêndices e Anexos

Pósfacio, por Marcelo Gurgel Carlos da Silva 

Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2026

260p. Capa dura

ISBN: 978-85-420-1973-5

Obs.: Preço: R$ 100, 00 (cem reais), à venda na Socep.

(*) Médico pneumologista, escritor e blogueiro.

Postado por Paulo Gurgel no Blog Nova’Acts em 13/08/2026.

https://airblog-pg.blogspot.com/2026/08/1480-lancamento-do-livro-pediatria-no.html


Crônica: O lambedor ... e outros causos

O lambedor

A amiga Baixinha é conhecida internacionalmente no Jardim das Oliveiras por preparar o mais potente lambedor que se tem notícia no Ceará, de verdade. Orgulhosa de seu lambedor caseiro (xarope à base de agrião, malva-santa, "pepaconha", mastruz e demais ervas medicinais cozidas com mel, em alquimia que só ela sabe a receita), a querida Baixinha se gaba de já haver curado muita alergia e coqueluche pelaí.

- Meu lambedor já chegou à Inglaterra! Curou tosse braba de muito gringo! Sem falar de gente daqui do Brasil! Nada de gororoba de farmácia, meu lambedor é naturalmente milagrento!

Essa notícia maravilhosa me remeteu a um tio segundo - tio Manezinho, de meu pai, morador da Barra do Ceará. Ele tinha um cachorro pé duro com esse nome - "Lambedor". Estivemos na casa dele, ao lado do campo do Ferrim, num sábado à tarde, e enfim entendemos o porquê de tão doce e curativo nome - do cachorro. Lá estava o tio de papai refestelado na cadeira de palhinha e, deitado aos seus pés, o dito cachorro, diligente. Lambia-lhe solene, com gosto de gás, a ferida braba de sua canela, ao tempo em que espantava tudo que era mosquito em redor. Papai, horrorizado, deu um pulo e gritou:

- Tí Manezim, o Lambedor!!!!!!

- Peça uma colherada na cozinha à sua tia!

Português nós sabe...

Das Chagas, me confidenciou Paulo Marcelo (O Bigode), queria porque queria estudar Espanhol nas Casas de Cultura Estrangeira da UFC. E fez uma redação à direção, explicando os motivos da escolha do idioma castelhano de Cervantes. Passada uma semana, pegou o Campus do Pici/Unifor e foi bater no Benfica, pra saber o resultado de seu requerimento. Lá chegando, guiando-se pelo waze, a placa dizia em letras garrafais: "Casa de Cultura Hispânica".

Lendo aquilo, deu meia volta, decepcionado. Em casa, já, a mulher indaga de um marido claramente chateado com o que houve. Ele...

- Cacei, cacei e cacei hispanha e hispanhol e num vi nada disso por lá. Nããã!

O querido amigo é o mesmo que, certa vez, perguntado sobre a árvore "seringueira", respondeu que era a que dava "seringuela'.

Para admissão imediata

O empreendedor Jota Crocodilo (exportador de dindin light) está precisando dos seguintes profissionais - levar referências:

- Secador de cueca na base do assopro.

- Caçador de cururu escovado em beira de lagoa.

- Narrador de enterro de sogro enjoado.

- Descamador de peixe com as unhas.

- Animador de briga de galo.

- Comentarista de enterro.

- Analista de cururu enfezado.

- Instrutor de fie duma égua.

- Professor de natação em bacia.

- Decorador de cerca de arame farpado.

- Manicure de quiromante...

Novo cearensês

Água quebrada a frieza - Água tépida, no ponto exato de dar um banho - em criança.

Precisa só dum pezinho... - Basta um empurrão pruma briga, carece de pouca coisa para começar - a confusão, a briga...

Tirar a suja - Dar uma desculpa esfarrapada.

De testa - Frente a frente, misturando os bigodes.

Fonte: O POVO, de 17/07/2026. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.


quinta-feira, 13 de agosto de 2026

A ILUSÃO NO CLIQUE: o custo social das bets

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

No Brasil de hoje, bares, calçadas ou pontos de ônibus exibem o brilho de telas de celulares com gráficos coloridos, foguetes que sobem, promessas de multiplicação instantânea de dinheiro das chamadas "bets". Elas passaram de entretenimento para um problema de urgência social, econômica e de saúde pública, ocupando, com uma velocidade impressionante, espaço no cotidiano de uma população já endividada e pouco alertada para os riscos sobre o orçamento doméstico.

Dados recentes de pesquisa realizada pela CNC, estimam em 81,6% o número de famílias endividadas, 29,7% com atraso e 12,3% sem condições de quitação. Esse recorde histórico, não admitindo mais protelações.

A demora já favoreceu o caminho para aquele clique, que cria um momento lúdico, mas, na realidade, torna o cidadão um possível viciado, com a ilusão do ganho fácil, desde que persevere. "Insista, persista, não desista. O seu dia chegará", já dizia velho bordão da Loteria Cearense.

Contudo, o problema não é o jogo em si, mas o dinheiro da bodega, da conta de luz ou do mercantil do mês, canalizado para a ilusão do ganho fácil. Números do Banco Central indicam que os recursos transferidos via Pix para plataformas de apostas - hoje na casa das 200 legalmente estabelecidas -, podem chegar a R$ 30 bilhões mensais e, mais grave, análises amostrais apontam para que 5 milhões de  teriam destinado, em um mês, cerca de R$ 3,0 bilhões para essas plataformas.

Não é de estranhar que os varejistas cearenses já se ressintam da perda de fôlego do consumo básico, porquanto a renda que circularia no comércio do bairro, por exemplo, está sendo desviada para essas plataformas e distribuída não se sabe exatamente para onde.

O debate sobre a regulamentação, com regras de publicidade, tributação e mecanismos de identificação de perfis de risco, já tardio, da burocracia estatal, em ritmo de tartaruga versus a velocidade do clique. Devemos tratar o superendividamento por apostas não como um desvio de caráter, mas como um problema de saúde coletiva— a ludopatia.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 13/07/26. Opinião. p.18.


QUANDO O GLOBAL ENCONTRA O LOCAL

Por Sofia Lerche Vieira (*)

Para além dos territórios nacionais, as políticas educacionais contemporâneas circulam globalmente. Neste cenário orientações de organismos internacionais com foco em direitos, inclusão, equidade e sustentabilidade convivem com políticas de avaliação externa e controle de resultados, fenômeno que alguns estudiosos têm denominado de "datificação". Essas ideias, nem sempre convergentes, atravessam fronteiras e chegam às mais diferentes realidades, incluindo as escolas.

Ao aportar no Brasil, tais iniciativas ganham relevo. O país, entretanto, nunca foi um terreno de simples reprodução de políticas. Nosso sistema federativo constitui uma realidade complexa onde União, Estados e Municípios compartilham responsabilidades e preservam margens de autonomia.

Assim, no âmbito local, as políticas globais são apropriadas, negociadas e recriadas. A homogeneidade de formulações globais perde terreno para a heterogeneidade de políticas locais em ambientes marcados por tensões e contradições.

Seus avanços educacionais resultam de políticas locais consistentes de cooperação, avaliação e fortalecimento das redes municipais. As iniciativas, contudo, não chegam a todos os municípios da mesma forma. Embora compartilhem diretrizes comuns, estes constroem caminhos próprios, definem prioridades distintas e inventam diferentes formas de governar a educação.

Em alguns casos, traços do velho clientelismo persistem e imprimem marcas a políticas supostamente novas. Pesquisa recente sobre o tema, cujos resultados estão reunidos no livro "Desafios da Educação na Região Metropolitana de Fortaleza", permitiu perceber que não existe uma única experiência metropolitana, mas múltiplas formas de traduzir orientações comuns em políticas concretas.

A heterogeneidade é, pois, incorporando sentidos tanto das políticas globais quanto da singularidade de suas invenções. A experiência do Programa Alfabetização na Idade Certa (Paic), que o Ceará vem exportando para o mundo, é uma evidência virtuosa do encontro entre o global e o local

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 13/07/26. Opinião. p.18.


quarta-feira, 12 de agosto de 2026

INFORMAÇÃO NÃO É SABEDORIA

Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

Uma leitura recente do economista e escritor americano Thomas Sowell levou-me a uma reflexão que parece cada vez mais atual. Vivemos a era da inteligência artificial, da informação instantânea e da abundância de dados. Nunca foi tão fácil saber. Paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão difícil compreender.

Em Os Intelectuais e a Sociedade, Sowell distingue conhecimento de sabedoria. Os intelectuais - os chamados "ungidos" - acumulam informações, formulam teorias e influenciam o debate público. Mas isso não os torna, necessariamente, sábios. A sabedoria nasce quando o conhecimento é temperado pela experiência, pela humildade e pelo compromisso com o bem comum. Seu oposto não é a ignorância, mas a insensatez. Da mesma forma, a inteligência pode sucumbir à estupidez quando perde a capacidade de reconhecer os próprios limites.

A história é pródiga em teorias defendidas com fervor, muitas delas apresentadas como verdades definitivas que acabaram desmentidas pelo tempo. Ainda assim, seus formuladores permanecem reverenciados, como se a eloquência pudesse substituir a evidência. O progresso do conhecimento nunca foi linear; sempre dependeu da disposição de revisar certezas.

A questão que se impõe é outra: a revolução tecnológica tornará o debate público mais racional? Seremos mais capazes de ouvir, ponderar e mudar de opinião diante dos fatos? Ou caminharemos para uma sociedade dividida entre certezas absolutas, onde qualquer discordância é tratada como ameaça?

A informação é indispensável ao desenvolvimento humano. Contudo, isolada do contexto e da reflexão crítica, ela pode produzir exatamente o efeito contrário. Em vez de aproximar, separa; em vez de esclarecer, confunde. Narrativas simplificadas encontram terreno fértil quando oferecem respostas fáceis para problemas complexos. E, na velocidade das redes, emoções costumam viajar mais rápido que evidências.

Enquanto continuarmos a rotular pessoas antes de examinar argumentos, pouco avançaremos. Crenças não são artigos de fé imutáveis. Diferentemente dos gostos pessoais, elas devem estar abertas à revisão sempre que novas evidências surgirem, sobretudo quando dizem respeito aos fatos e às relações de causa e efeito.

Decidir bem exige mais do que informação. Exige método, espírito crítico, capacidade de verificar, responsabilidade intelectual e, sobretudo, humildade para admitir o erro.

Lembro-me, então, de uma frase de um antigo professor: "O céu é longe", assim como a caminhada rumo à sabedoria. Ainda habitamos um mundo de opiniões apressadas e certezas frágeis, frequentemente sustentadas mais pela convicção do que pela razão.

Talvez por isso permaneça tão atual a observação de Bertrand Russell: "O problema do mundo é que os estúpidos têm plena convicção, enquanto os inteligentes são cheios de dúvidas." Em tempos de excesso de informação, talvez a virtude esteja em cultivar a dúvida honesta, aquela que não enfraquece o pensamento, mas o torna mais livre e mais próximo da verdade.

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 11/07/2026. Opinião. p.23.


terça-feira, 11 de agosto de 2026

Defesa de Memorial de Lucilane Maria Sales da Silva para Professora Titular da Enfermagem da Uece

Ocorreu na tarde de ontem, segunda-feira (10/08/26), no Auditório do Núcleo de Tecnologia e Empreendedorismo em Enfermagem da Universidade Estadual do Ceará - NUTEE/Uece, a Defesa de Memorial, seguida da avaliação de desempenho, para a promoção funcional da referência “O” de professor associado para referência “P” da classe Titular do Grupo Ocupacional Magistério Superior-MAS, da professora Lucilane Maria Sales da Silva, docente do Curso de Enfermagem da Uece.

A Comissão Especial Julgadora, composta pelos Profs. Drs. José Jackson Coelho Sampaio (efetivo Uece), Ana Karina Bezerra Pinheiro (efetivo UFC), Patrícia Neyva da Costa Pinheiro (efetivo UFC), Marcelo Gurgel Carlos da Silva (suplente interno) e Joselany Afio Caetano (suplente externo), tendo por secretária a Profa. Dra. Dafne Paiva Rodrigues, aprovou o Memorial apresentado pela professora doutora LUCILANE MARIA SALES DA SILVA.

Congratulações à professora Lucilane da Silva, por alcançar o topo da carreira universitária, acadêmica em seu exitoso caminhar, pontuado por marcos pessoais e profissionais expressivos, que revelam o seu vigor científico e a sua valorosa contribuição ao ensino superior.

Também dignos de parabéns estão a graduação em Enfermagem e os programas de pós-graduação da área da Saúde Coletiva da Uece, por terem a professora Lucilane da Silva em seus quadros docentes.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Professor do PPSAC-UECE


CLÃDESTINOS

Por Pedro Salgueiro, cronista de O Povo

Uma novíssima publicação de literatura e artes foi lançada em nossa "Loirinha-descabelada-pelo-sol": Contos, crônicas, ensaios, poemas, décimas, aldravias, canções, fotos e encARTEs de 23 convidados integram a edição inaugural da Clãdestinos (A revista oficial da Academia Cearense de Médicos Escritores - Acemes - foi lançada dia 13 de maio, no Palácio da Luz - Academia Cearense de Letras, com apresentação do escritor Juarez Leitão).

A publicação que chega tem periodicidade prevista para ser anual, e, segundo o editor, médico e escritor Fernando Siqueira Pinheiro, a ideia da Clãdestinos é ser um espaço para divulgação "de nossa rica e pungente produção artística e literária, destacando nomes consagrados e revelando novos talentos dessa nossa gloriosa província de Alencar".

A revista tem 84 páginas e seis encARTEs. São produções literárias de Pedro Salgueiro, Carlos Augusto Viana, Fernando Siqueira Pinheiro, Sérgio Telles, Daniel Mazza, Ana Márcia Diógenes, Dimas Macedo, Paulo Elpídio de Menezes Neto, Lia Leite, José Leite Jr, Romeu Duarte, João Macedo, Assis Ximenes, Karla Cavalcante e Geraldo Bezerra.

Algumas obras artísticas estão dentro da revista, como as de José Guedes, que tem participação especial com a tela Lúcio; e as fotos intituladas Descaminhos, de Leopoldo Kaswiner. Os demais encARTEs têm a base picotada para facilitar a retirada, caso o leitor queira emoldurar. E trazem produções artísticas de Virgílio Maia, Elberty Oliveira, Isaac Furtado e Sônia Figueiró.

O número 1 da revista traz ainda uma entrevista com o cantor e compositor Raimundo Fagner e a seção "A biblioteca dos Acadêmicos", que contemplou a biblioteca Labirinto, do médico e ex-governador Lúcio Alcântara. A cada edição outros espaços irão se somar.

A revista, com capa em verniz e papel couchê, tem projeto gráfico, ilustrações e a maioria das fotos de Glauco Sobreira. A foto da capa é de Leontino Eugênio. O conselho editorial da revista é formado por: Carlos Augusto Viana, Fernando Melo, Glauco Sobreira, Isaac Furtado, João Macedo, Luiz Moura e Walter Miranda.

O editor, Fernando Siqueira Pinheiro, esclarece:

"A proposta de uma publicação anual na forma de uma revista tradicional de literatura sob os auspícios da Acemes me foi feita pelo amigo médico, escritor e artista plástico Glauco Sobreira. A ideia seria produzir algo livre abrangendo todas as formas de expressão literária, com os participantes escolhidos a convite pelo conselho editorial e sempre procurando imprimir um modelo arrojado e transformador. Não sei dizer ao certo como cheguei ao título Clãdestinos. É sempre complicado tentar mapear os caminhos da nossa imaginação. Talvez tenha vindo desta natureza indisciplinada que há em todo artista, algo que nasce assim sem explicação e à margem das normas. Neste sentido, posso dizer, portanto, que toda arte é clandestina, surge antes de ser aceita, incomoda antes de ser celebrada e diz quase sempre o que o discurso oficial silencia. Claro que há também aqui uma explicita homenagem ao Grupo CLÃ, que em meados do século passado reuniu o que tínhamos de melhor do ponto de vista intelectual e que foi responsável por um dos mais importantes movimentos culturais do nosso estado".

Fonte: O POVO, de 10/07/2026. Coluna “Crônicas”, de Pedro Salgueiro. p.2.


 

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