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sábado, 12 de setembro de 2026

Medicina: 9 entidades defendem o Enamed. CFM discorda III

Por Gabriele Félix, jornalista de O Povo.

Leia a nota do Conselho Federal de Medicina na íntegra:

O Conselho Federal de Medicina (CFM) reafirma a necessidade de mecanismos que assegurem a qualidade da formação médica no Brasil, mas alerta que a Medida Provisória (MP) nº 1.370/2026, que estabelece a aprovação no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) como pré-requisito para o registro profissional do médico nos Conselhos Regionais de Medicina (CRMs), não responde à principal pergunta de interesse da sociedade: quem garante que uma prova com 100 questões de múltipla escolha, como prevê a MP, vai avaliar se um médico está efetivamente preparado para atender pacientes?

Avaliar escolas médicas é importante e necessário. No entanto, avaliar se um médico está apto para exercer a profissão exige muito mais do que uma prova voltada à aferição da qualidade dos cursos de graduação. O Enamed foi concebido como instrumento de avaliação educacional, destinado a medir o desempenho dos cursos de medicina e subsidiar políticas de supervisão e regulação do ensino superior. Trata-se de uma finalidade distinta daquela necessária para certificar a capacidade profissional de um futuro médico.

Aspectos fundamentais para a prática médica não são adequadamente avaliados pelo modelo proposto na MP nº 1.370/2026, entre eles habilidades clínicas, comunicação com pacientes, realização de procedimentos médicos, competências éticas e avaliação prática. São justamente esses elementos que fazem diferença no atendimento real e impactam diretamente a segurança dos pacientes.

Outro ponto de preocupação é a concentração de atribuições no mesmo sistema estatal responsável por autorizar, reconhecer, supervisionar e fiscalizar escolas médicas, que agora também vai aplicar o exame utilizado para avaliar os resultados desse próprio modelo. Essa sobreposição compromete a independência necessária aos processos de aferição da qualidade da formação médica.

As nove entidades que integram o movimento são: Associação Brasileira de Educação Médica (Abem), Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup),  Associação Brasileira das Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes), Associação Brasileira das Faculdades (Abrafi),  Associação Nacional dos Centros Universitários (Anaceu), Associação Nacional de Educação Católica do Brasil (Anec), Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino (Confenen), Sindicato das Entidades Mantenedoras de Ensino Superior de São Paulo (Semesp) e Sindicato das Entidades Mantenedoras de Ensino Superior do Rio de Janeiro (Semerj).

Conceito

O Enamed é uma prova aplicada a estudantes de medicina, nos últimos períodos do curso, para medir conhecimentos e competências desenvolvidos ao longo da graduação

Fonte: Publicado In: O Povo, de 3/08/2026. Cidades. p.15.

Medicina: 9 entidades defendem o Enamed. CFM discorda II

Por Gabriele Félix, jornalista de O Povo.

Medida Provisória propõe ampliação do Enamed; conselhos e entidades são contra

A Medida Provisória (MP) nº 1.370, de 19 de junho de 2026, também em tramitação, prevê a aplicação do Enamed em duas etapas da graduação e a aferição da proficiência médica. O Movimento "Uma Só Régua" destaca que a iniciativa aproxima-se da segunda etapa do exame da fase teórica do Revalida.

Com isso, permite o uso da nota no acesso direto a programas de Residência Médica e cria o Sistema Nacional de Avaliação da Residência Médica, passando a integrar, em uma mesma referência nacional, a graduação, a proficiência, a residência e a validação de diplomas.

Procurado pelo O POVO, o Conselho Federal de Medicina (CFM) reafirmou, em nota, que a necessidade de mecanismos que assegurem a qualidade da formação médica no Brasil.

Segundo o órgão, a medida provisória “não responde à principal pergunta de interesse da sociedade: quem garante que uma prova com 100 questões de múltipla escolha, como prevê a MP, vai avaliar se um médico está efetivamente preparado para atender pacientes?”.

O conselho destacou ainda que o Enamed foi concebido como instrumento de avaliação educacional, destinado a medir o desempenho dos cursos de medicina e subsidiar políticas de supervisão e regulação do ensino superior. Trata-se de uma finalidade distinta daquela necessária para certificar a capacidade profissional de um futuro médico.

“(...) avaliar se um médico está apto para exercer a profissão exige muito mais do que uma prova voltada à aferição da qualidade dos cursos de graduação”, diz o texto.

A entidade afirma ainda que “aspectos fundamentais para a prática médica não são adequadamente avaliados pelo modelo proposto na MP nº 1.370/2026, entre eles habilidades clínicas, comunicação com pacientes, realização de procedimentos médicos, competências éticas e avaliação prática”.

O CFM também destaca preocupação com o que chamou de “concentração de atribuições no mesmo sistema estatal responsável por autorizar, reconhecer, supervisionar e fiscalizar escolas médicas, que agora também vai aplicar o exame utilizado para avaliar os resultados desse próprio modelo”.

Por fim, o Conselho Federal defende o modelo previsto no Projeto de Lei nº 2.294/2024, que contempla o Exame Nacional de Proficiência em Medicina.

Presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará (Cremec), a conselheira Inês Tavares Vale e Melo reforçou o posicionamento da entidade nacional. “A nossa posição está alinhada com a do CFM. A segurança dos pacientes é uma prioridade para o Conselho Federal de Medicina e todos os Regionais. Por isso, o CFM e o Cremec apoiam a aprovação do Projeto de Lei nº 2.294/2024”, afirmou.

De acordo com o conselho regional, “toda a população ganha com o ProfiMed, que é mais uma medida para fortalecer a segurança da assistência médica. Entendemos que quem fiscaliza o exercício da Medicina deve coordenar o ProfiMed. O Conselho Federal de Medicina é a autarquia responsável por fiscalizar e disciplinar o exercício profissional da Medicina no Brasil”.

O Cremec defende que o ProfiMed busca verificar a proficiência dos médicos recém-formados, “contribuindo para um exercício profissional cada vez mais seguro e responsável”.

Sobre o assunto, o presidente da Sociedade Brasileira de Direito Médico e Bioética (Anadem), Raul Canal, argumenta que a medida tende a gerar efeitos positivos para todo o sistema de saúde.

A criação do Profimed representa um avanço relevante para a qualificação da prática médica. Um exame de proficiência amplia a segurança da população e também protege o profissional ao estimular padrões técnicos mais elevados. Com médicos mais preparados, a tendência é reduzir a judicialização relacionada a falhas assistenciais”, pontuou.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 3/08/2026. Cidades. p.15.


Medicina: 9 entidades defendem o Enamed. CFM discorda I

Por Gabriele Félix, jornalista de O Povo.

RESUMO: Em tramitação no Congresso Nacional, o Projeto de Lei n° 2294, de 2024, propõe instituir o Exame Nacional de Proficiência em Medicina. A iniciativa motivou a criação, em julho passado, do Movimento "Uma Só Régua", que reúne nove entidades representativas do ensino superior particular e da educação médica no Brasil e defende a existência de uma avaliação unificada.

Para os representantes do “Uma Só Régua”, a institucionalização do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) é a solução ideal para assegurar a avaliação dos cursos de medicina como uma política de estado.

As nove entidades que integram o movimento são: Associação Brasileira de Educação Médica (Abem), Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup), Associação Brasileira das Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes), Associação Brasileira das Faculdades (Abrafi), Associação Nacional dos Centros Universitários (Anaceu), Associação Nacional de Educação Católica do Brasil (Anec), Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino (Confenen), Sindicato das Entidades Mantenedoras de Ensino Superior de Sao Paulo (Semesp) e Sindicato das Entidades Mantenedoras de Ensino Superior do Rio de Janeiro (Semerj).

O projeto, de autoria do senador Astronauta Marcos Pontes (PL-SP), condiciona a inscrição no Conselho Regional de Medicina à aprovação do Exame Nacional de Proficiência em Medicina (Profimed).

De acordo com o documento inicial, a prova seria oferecida pelo menos duas vezes ao ano em todos os Estados e no Distrito Federal, cabendo ao Conselho Federal de Medicina (CFM) a regulamentação e a coordenação nacional do exame, e aos Conselhos Regionais de Medicina a aplicação da avaliação.

A justificativa para a criação do PL destaca os “maus resultados na prova do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp)”. “Os resultados da prova, aplicada no Estado mais rico da Federação, evidenciaram um cenário temerário no que tange à qualidade dos recém-graduados em Medicina”, afirma o texto.

E acrescenta: “Temos hoje no País um quadro de proliferação indiscriminada de cursos de Medicina, realidade que aponta para o provável agravamento das deficiências verificadas no ensino médico”.

Em 2025, os resultados do Enamed preocuparam ministérios e entidades. Cerca de 30% das 351 instituições que participaram do exame obtiveram conceitos 1 e 2, considerado insatisfatório. No Ceará, três cursos de Medicina obtiveram nota máxima e um foi punido por nota baixa.

Em entrevista ao O POVO, o presidente da Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) e representante do “Uma Só Régua”, Juliano Griebeler, argumenta que não faz sentido a existência de duas provas distintas, o Enamed e o Profimed, com objetivos semelhantes, o que geraria redundância, custos extras para o aluno e perda de sinergia no processo avaliativo.

Quando você coloca os dois dentro da mesma prova, o Enamed tem um peso grande para a instituição, mas é importante para o aluno também, você acaba tendo uma sinergia maior”, explica.

Juliano Griebeler destaca ainda a importância do exame ser aplicado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), justificando que o órgão possui estrutura e experiência em avaliações nacionais.

Porque fazer uma outra prova que um outro ente teria que se dispor a fazer organização e todo esse processo? Então vai muito nesse sentido. O Conselho Federal de Medicina é um conselho importante que tem a sua atuação, mas a gente entende que a principal atuação dele é muito no exercício da profissão em si”, detalha.

Ao O POVO, o Ministério da Educação (MEC), afirmou que o exame busca garantir parâmetros para a formação médica objetivando assegurar que a população seja atendida por profissionais qualificados, formados em cursos devidamente avaliados pelo órgão.

"A Medida Provisória nº 1.370/2026 ampliou o papel do exame, que passa agora a funcionar também como certificação de proficiência para o exercício legal da profissão, para os médicos que ingressam nas instituições de ensino após a publicação da MP. O normativo também permite subsidiar a criação de um sistema nacional de avaliação da residência médica e reforçar as contrapartidas dos cursos de Medicina junto à rede pública de saúde", complementa a nota do MEC.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 3/08/2026. Cidades. p.15.

domingo, 16 de agosto de 2026

Florence Nightingale: Legado que perdura

Por Ana Rute Ramires e Ana Sá, jornalistas de O Povo.

Florence Nightingale fundou a primeira escola laica de formação de enfermeiras do mundo. No artigo "De Florence Nightingale à pandemia Covid-19: o legado que queremos", publicado na revista científica Texto & Contexto - Enfermagem, Maria Itayra Padilha, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pós-doutora em História da Enfermagem e Saúde, fala sobre esse legado na formação.

"A iniciativa serviu como semente de um novo status para a Enfermagem como profissão, e para a criação de inúmeras outras instituições de ensino espalhadas pelo mundo, fundadas por ex-alunas, implantando o chamado Sistema Nightingaleano de Ensino de Enfermagem, inclusive no Brasil."

A Escola de Enfermagem Anna Nery, fundada em 1920, no Rio de Janeiro, foi a primeira instituição estruturada sob os pilares do sistema de Florence Nightingale no Brasil.

A professora Maria Itayra explica que Anna Justina Ferreira Nery, que deu nome à escola, foi outro exemplo de atuação na linha de frente em guerras. A brasileira prestou cuidados aos feridos na Guerra do Paraguai, em 1860, e posteriormente recebeu o título de "primeira enfermeira brasileira".

A fundação da escola se deu pela atuação do Departamento Nacional de Saúde Pública, liderado pelo médico Carlos Chagas, e pela Fundação Rockfeller, que se aliou ao governo brasileiro e trouxe enfermeiras norte-americanas ao Brasil numa missão para implantar a enfermagem moderna no País.

A professora Maria Angélica de Almeida Peres, da UFRJ, destaca que é preciso considerar o contexto histórico para entender as características da enfermagem natingueliana.

A historiadora observa que uma aparente "submissão" de Florence aos médicos era, na verdade, uma estratégia política consciente. Ela sabia que, para a profissão vingar, precisava primeiro se estabelecer dentro das condições possíveis para mulheres no século XIX.

Florence faleceu aos 90 anos, em 13 de agosto de 1910, e foi sepultada ao lado dos túmulos de outros membros da família em East Wellow, Hampshire.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/07/26. Caderno Ciência & Saúde. Etc. p. 19.


Florence Nightingale: Pioneirismo na ciência de dados

Por Ana Rute Ramires e Ana Sá, jornalistas de O Povo.

Conforme os registros do projeto da Universidade de Guelph, em março de 1854, chegaram relatos sobre as condições terríveis e a falta de suprimentos médicos sofridas pelos soldados feridos que lutavam na Guerra da Crimeia. O Ministro da Guerra convidou Florence para supervisionar a introdução de enfermeiras nos hospitais militares na Turquia.

Com um grupo de 38 enfermeiras, Florence chegou a Scutari e começou a organizar os hospitais para melhorar o fornecimento de alimentos, cobertores e camas, bem como as condições gerais e a higiene.

O conflito registrou mortalidade alarmante, mas a grande maioria ia a óbito por doenças evitáveis (como tifo e cólera) e não por ferimentos de combate.

A metodologia que ela desenvolveu para analisar o que deu errado fundamentaria suas campanhas por reformas sociais e de saúde. Quando retornou a Londres, Nightingale contou com a colaboração de William Farr, superintendente de Estatísticas do Registro Geral e o mais renomado estatístico médico da época.

Com ele, ela analisou os dados oficiais e publicou seus icônicos diagramas de área polar. Seus gráficos (como o famoso Diagrama da Rosa) demonstraram que as mortes disparavam devido às péssimas condições sanitárias.

Após uma força-tarefa higienizar os esgotos e a ventilação, a mortalidade britânica despencou de 23% para apenas 2,5%. Em contraste, a taxa francesa, que não adotou as reformas a tempo, subiu.

A teoria ambientalista de Florence Nightingale é o que ela descreve como cuidado necessário a recuperação do doente, destacando que o ambiente tem que ser favorável a esse processo, focando em questões sanitárias como controle de excrementos, oferta de água limpa, luz solar e ventilação, como detalha Maria Angélica de Almeida Peres, professora da Escola de Enfermagem Anna Nery (UFRJ).

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/07/26. Caderno Ciência & Saúde. Etc. p. 19.


sábado, 15 de agosto de 2026

Florence Nightingale: Origens e formação da "Dama da Lâmpada"

Por Ana Rute Ramires e Ana Sá, jornalistas de O Povo.

Florence Nightingale nasceu em Florença, na Itália, no dia 12 de maio de 1820, na época em que seus pais, aristocratas britânicos, residiam no país. Na infância, ela era estudiosa e se interessava especialmente por matemática.

Ela teria sentido um "chamado" de Deus e acreditava estar destinada a fazer algo maior, conforme registros do Florence Nightingale Museum, localizado no St Thomas' Hospital, em Londres, Inglaterra, onde ela fundou sua escola de enfermagem.

Na Inglaterra vitoriana, esperava-se que mulheres de sua posição se dedicassem ao casamento e à vida doméstica, papéis que ela ativamente rejeitou.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/07/26. Caderno Ciência & Saúde. Etc. p. 19.


O legado de Florence Nightingale, a precursora da enfermagem moderna

Por Ana Rute Ramires e Ana Sá, jornalistas de O Povo.

Além da "Dama da Lâmpada", Florence Nightingale foi uma estatística, estrategista e cientista brilhante, cujas contribuições perduram até hoje

Durante as noites, ela percorria os corredores do Hospital de Scutari (Istambul, Turquia) carregando uma lâmpada para vigiar e prestar cuidados aos soldados feridos. Enquanto o exército britânico lutava na Guerra da Crimeia (1854-1856), Florence Nightingale travava uma guerra interna contra a sujeira, o ar estagnado e a negligência que tiravam mais vidas do que as próprias armas.

Foi esse ritual de cuidado e vigilância que cristalizou a figura da "Dama da Lâmpada", transformando uma voluntária obstinada na precursora da enfermagem científica moderna. Florence foi pioneira em formular políticas de saúde pública integradas ao bem-estar social, defendendo que a saúde dependia de habitação, saneamento e nutrição.

Sua maior conquista foi transformar a enfermagem em uma profissão "respeitável" para as mulheres e, em 1860, ela fundou a primeira escola de formação profissional para enfermeiras, a Nightingale Training School, no St Thomas' Hospital, em Londres.

De acordo com Maria Angélica de Almeida Peres, professora e pesquisadora em História da Enfermagem da Escola de Enfermagem Anna Nery, da Universidade Federal do Rio de Jeneiro (UFRJ), a principal contribuição de Florence Nightingale foi a profissionalização da enfermagem, transformando uma prática que antes era puramente caritativa ou leiga em uma ciência com conhecimento próprio e autônomo.

O projeto The Collected Works of Florence Nightingale (CFN), da Universidade de Guelph, Canadá, reúne um acervo massivo de cartas, livros e artigos de jornais da época (The Times, The Lancet) sobre ela.

Conforme informações disponíveis no site do projeto, ela foi uma cientista social empírica e introduziu a saúde baseada em evidências, usando estatísticas e dados para monitorar reformas, priorizar a prevenção e evitar danos hospitalares.

A imagem da mulher verificando se tudo estava bem à noite lhe rendeu o apelido de "Dama da Lâmpada", além do respeito dos soldados britânicos.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/07/26. Caderno Ciência & Saúde. p. 19.


domingo, 9 de agosto de 2026

ENFERMAGEM: mudanças na formação e luta pela valorização III

Por Ana Rute Ramires, Ana Sá e Samuel Setúbal

As Novas Diretrizes da formação em Enfermagem no Brasil

O Brasil possui uma tradição importante na formação em Enfermagem, com forte conexão com as necessidades do Sistema Único de Saúde (SUS). O relatório “Demografia e mercado de trabalho em enfermagem no Brasil”, divulgado pelo Ministério da Saúde no fim de 2026, analisa dados do setor entre 2017 e 2022.

Documento aponta o enorme crescimento dos cursos de bacharelado na rede privada (impulsionados pelo EaD) e destaca que a grande maioria dos profissionais busca especializações lato sensu (pós-graduações e especializações tradicionais) para se diferenciar no mercado.

Os técnicos de enfermagem formam a maior força de trabalho quantitativa da enfermagem no País e sua formação ocorre massivamente em escolas técnicas e redes estaduais. No caso dos auxiliares, há uma tendência de "extinção gradual" ou declínio da categoria, já que o mercado exige cada vez mais o nível técnico, levando muitos antigos auxiliares a fazerem a complementação para se tornarem técnicos.

Em maio, houve a homologação das novas Diretrizes Curriculares Nacionais da Graduação em Enfermagem (DCNs/Enf). Segundo Jacinta Fátima Sena da Silva, presidenta da Associação Brasileira de Enfermagem (Aben), a homologação "representa uma conquista histórica para a Enfermagem brasileira e para a sociedade".

Nas últimas décadas, segundo ela, "observou-se uma expansão acelerada e, muitas vezes, desordenada da oferta de cursos, especialmente no setor privado, nem sempre acompanhada das condições pedagógicas, estruturais e práticas necessárias para garantir uma formação de qualidade".

A defesa do ensino presencial é o pilar central das novas DCNs. Jacinta Sena destaca que "a formação em Enfermagem exige experiências presenciais, supervisão qualificada, vivência nos serviços de saúde e desenvolvimento de competências técnicas, científicas, éticas e relacionais complexas". O que seria dificilmente suprido por modelos totalmente remotos.

Além da técnica, a formação qualificada é considerada uma estratégia de valorização profissional a longo prazo. Para as entidades de classe, o ensino de qualidade é indissociável de uma remuneração digna e de condições de trabalho adequadas.

"Ao mesmo tempo, a homologação não encerra a luta. Será fundamental apoiar e acompanhar sua implementação e defender permanentemente a qualidade da formação frente a interesses mercadológicos que historicamente pressionam pela flexibilização dos processos formativos", acrescenta.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/07/26. Caderno Ciência & Saúde. p. 16-18.

ENFERMAGEM: mudanças na formação e luta pela valorização II

Por Ana Rute Ramires, Ana Sá e Samuel Setúbal

Categoria sente maior valorização simbólica, mas não financeira

Durante a pandemia de Covid-19, a população reconheceu de forma mais clara o papel de enfermeiras, enfermeiros, técnicas, técnicos e auxiliares de enfermagem na sustentação dos sistemas de saúde. A categoria foi elevada ao status de heroísmo por atuar sob risco constante.

Contudo, o reconhecimento social não se traduziu em estabilidade financeira. Para uma parcela da categoria, a sobrevivência exige a manutenção de múltiplos vínculos de trabalho, realidade que prejudica a qualidade de vida e a saúde mental.

De acordo com a pesquisa Perfil da Enfermagem no Brasil 2017 (Fiocruz/Cofen), 66% dos entrevistados relatam desgaste profissional, cansaço físico e mental. Pesquisa também aponta a multiplicidade de vínculos como um dos principais fatores para o desgaste da categoria.

O POVO conversou com três técnicos de enfermagem sobre a rotina de dedicação e sobrecarga e optou por não divulgar os nomes das fontes.

Um deles, com 26 anos, exemplifica o dilema da dupla jornada. O profissional se divide no trabalho em uma empresa privada e um organização filantrópica, além da graduação em Enfermagem. Relata que a recente conquista financeira do piso veio acompanhada de um aumento na carga horária.

Eu abro mão da minha saúde para poder conseguir pagar minhas contas”. Para ele, o aumento das horas trabalhadas, que em alguns setores passou de 30 para 40 horas, resultou em uma sobrecarga que abala tanto o esforço físico quanto o equilíbrio emocional.

Outra técnica de enfermagem, de 32 anos, relata os "plantões exaustivos, muitas vezes, com setores com redução de funcionários". Ela conta que alguns colegas precisam de afastamento por problemas de saúde mental, como ansiedade, e burnout.

"No setor público e em organizações contratualizadas, o pagamento do piso muitas vezes é feito de forma fragmentada por meio de complementos que não atingem o valor real devido", compartilha outra técnica de enfermagem de 40 anos que atua em uma associação filantrópica.

"O principal desafio da nossa profissão é justamente ter que lidar com isso, a desvalorização profissional, porque a gente trabalha com amor, com carinho. Eu, pelo menos, amo o que eu faço, amo minha profissão. Porém, o que entristece a gente e está adoecendo — muitos profissionais que estão de licença e afastados por problemas psiquiátricos — é justamente essa desvalorização", compartilha.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/07/26. Caderno Ciência & Saúde. p. 16-18.

ENFERMAGEM: mudanças na formação e luta pela valorização I

Por Ana Rute Ramires, Ana Sá e Samuel Setúbal

Categoria hegemônica na Saúde, enfermagem ainda luta por valorização plena. Enfermeiros, técnicos e auxiliares enfrentam sobrecarga física e mental

Maior força de trabalho da Saúde no Brasil, os profissionais de enfermagem ainda lutam por valorização. O Piso Salarial Nacional da categoria, estabelecido pela Lei nº 14.434 apenas em 2022, após três décadas de mobilização, foi uma conquista importante para corrigir distorções históricas e garantir dignidade aos trabalhadores. Mas ainda não é realidade para todos.

A conquista do piso da categoria deveria ter sido o ponto de virada. No entanto, a implementação integral da lei tornou-se uma batalha judicial e administrativa.

"Observam-se tentativas de reduzir o impacto financeiro da medida com flexibilização de vínculos, da pejotização, da terceirização excessiva, da contratação intermitente ou da fragmentação das jornadas de trabalho, sobretudo no setor privado", afirma Jacinta Fátima Sena da Silva, presidenta da Associação Brasileira de Enfermagem (Aben).

Quintino Neto, presidente Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Serviços de Saúde do Ceará (Sindsaúde/CE), afirma que, após a aprovação da Lei, a decisão do STF acabou "desconfigurando" diversos aspectos da conquista. "Ao permitir condicionantes para sua implementação, abriu espaço para interpretações que vêm sendo utilizadas por parte dos empregadores para reduzir o alcance da própria lei", critica.

O Sindsaúde representa os trabalhadores e trabalhadoras de nível médio e técnico que atuam na Saúde, como os técnicos e auxiliares de enfermagem.

Nesse contexto, outro ponto crítico é a ascensão das chamadas "falsas cooperativas". Entidades que, segundo Quintino, são utilizadas para "mascarar vínculos empregatícios e retirar direitos fundamentais".

De acordo com Natana Pacheco, presidente do Conselho Regional de Enfermagem do Ceará (Coren-CE), essa prática também é prejudicial quando ocorre dentro de espaços públicos por meio de contratos de terceirização, pois impede que o profissional receba a assistência financeira complementar da União.

Além dessas estratégias, a categoria enfrenta disputa jurídica no Supremo Tribunal Federal. O setor privado ingressou com Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 7222 que questiona a constitucionalidade da Lei do Piso Salarial Nacional da Enfermagem (Lei nº 14.434/2022).

A presidenta da Aben, Jacinta Fátima Sena da Silva, defende que "não pode haver dois pesos e duas medidas". "Trabalhadoras (es) dos setores públicos e privados realizam o mesmo trabalho e devem ter os mesmos direitos. Não é coerente que trabalhadoras (es) celetistas precisem negociar com seus patrões para ter seus direitos garantidos. A Lei deve ser cumprida", pontua. Ela considera "inaceitável" que o setor privado alegue não ter condições de pagar salários justos.

Para mudar este cenário de precarização, as entidades de classe apostam em novos avanços legislativos. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 19 surge como uma solução para corrigir distorções, garantindo que o reajuste do piso seja anual e vinculado a uma jornada de 36 horas semanais, evitando que a inflação corroa o poder de compra.

Natana Pacheco, presidente do Coren-CE, reforça que a aprovação dessa PEC, somada à histórica luta pelas 30 horas semanais, traria a segurança jurídica necessária para que o profissional possa optar por menos vínculos sem comprometer sua renda. No setor público, segundo ela, a urgência é o reajuste da assistência financeira complementar da União, que está congelada há quase quatro anos.

O POVO buscou entidades que representam hospitais e planos de saúde para resposta sobre os pontos levantados por conselhos e sindicados da enfermagem. A Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge) respondeu que não iria se pronunciar nesta pauta. A Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde) indicou buscar "representantes das redes hospitalares".

A Associação Nacional de Hospitais Privados (Anap) não deu retorno após tentativa de contato por e-mail e WhatsApp. A Federação Brasileira de Hospitais (FBH) e a Associação de Hospitais do Estado do Ceará (AHECE) não responderam após tentativas de contato por e-mail e ligação.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/07/26. Caderno Ciência & Saúde. p. 16-18.


sábado, 8 de agosto de 2026

CIÊNCIA DO CUIDAR: A enfermagem na alta complexidade III

Por Ana Rute Ramires, Ana Sá e Samuel Setúbal

De Nightingale ao piso salarial: uma trajetória centenária

1853-1856. Durante a Guerra da Crimeia, a britânica Florence Nightingale institui regras sanitárias e estatísticas, criando o marco fundante da enfermagem moderna. À ela é outorgada o título de fundadora da enfermagem mundial.

1860. Nightingale fundou a primeira escola de enfermagem do mundo, em Londres, transformando a enfermagem em ciência.

1890. No Brasil, é fundada a primeira Escola de Enfermagem, chamada Alfredo Pinto,
no Rio de Janeiro.

1923. É criada a Escola de Enfermagem Anna Nery — figura emblemática na história da enfermagem brasileira, principalmente pela atuação na Guerra do Paraguai.

1926. A Associação Brasileira de Enfermagem (Aben) é criada, denominada anteriormente denominada de Associação Nacional de Enfermeiras Diplomadas (Aned).

1955. A profissão da enfermagem é regulamentada (Lei nº 604), assegurando território profissional, exclusividade do exercício para a categoria no País, o que exigirá diploma e registro profissional para o exercício legal da profissão.

1973. É criado o Conselho Federal de Enfermagem.

1986. Lei do Exercício Profissional (1986) e seu decreto regulamentador (1987) atualizam a norma de 1955, traz modernização e divide a categoria formalmente em níveis de formação.

1987. É fundada a entidade sindical nacional: Federação Nacional dos Enfermeiros.

2022. Lei n.º 14.434, institui o Piso Salarial Nacional para enfermeiros, técnicos, auxiliares de enfermagem e parteiras.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 5/07/26. Caderno Ciência & Saúde. p. 13-14.

CIÊNCIA DO CUIDAR: A enfermagem na alta complexidade II

Por Ana Rute Ramires, Ana Sá e Samuel Setúbal

Força de trabalho no Brasil é feminina

Segundo o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), 87% da força de trabalho na enfermagem brasileira é de mulheres.

"Enfermagem é feminina, com traços de uma força de trabalho jovem em sua maioria, hegemônica na Saúde e que se constitui como equipe profissional que atua em harmonia e competência em todo o território nacional", analisa Maria Helena Machado, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/Fiocruz).

Cientista social e doutora em Sociologia, ela coordenou a pesquisa nacional intitulada "O perfil da Enfermagem no Brasil" (Fiocruz-Cofen, 2017).

A maioria feminina na enfermagem se mantém seja na categoria de enfermeira(o), seja entre os técnicos e auxiliares de enfermagem, chegando a mais de 80%, já constatado na pesquisa.

A pesquisadora acrescenta que a categoria está presente em todas as regiões geográficas do País, com mais de três milhões de profissionais.

A ciência do cuidado: humanismo, observação, protocolos rígidos e decisões rápidas

Em meio à explosão na demanda por profissionais especializados durante a pandemia de Covid-19, a missão chamou a enfermeira Ana Lívia Girão, que à época atuava em sala de aula, de volta para as UTIs. Em um momento de incertezas e medos, ela retornou à linha de frente da terapia intensiva.

"Eu me sentia muito mal de estar ensinando para os meus alunos uma coisa que eu não estava mais colocando em prática. E estava tendo a demanda de profissionais especializados na área", relata Ana Lívia, doutora em Cuidados Clínicos em Saúde e coordenadora de enfermagem de terapia intensiva do Instituto Dr. José Frota (IJF), em Fortaleza.

No cenário de caos vivenciado durante a pandemia, a enfermagem liderou a montagem de leitos, o dimensionamento de pessoal e a gestão de equipamentos vitais nas unidades de saúde, provando ser um pilar de sustentação.

O diagnóstico de enfermagem foca nos cuidados necessários para o restabelecimento do paciente. Jéssica Benevides, doutora em Enfermagem e coordenadora de enfermagem de terapia intensiva no IJF, detalha que a autonomia da enfermagem no processo de saúde manifesta-se através do Processo de Enfermagem.

O método científico, conforme a profissional, é dividido em cinco etapas: histórico (coleta de dados para entender o estado do paciente), diagnóstico (identificação das necessidades de cuidado), planejamento (elaboração do que será feito com base nas prioridades elencadas), implementação (execução das ações planejadas) e reavaliação (análise contínua dos resultados para ajustar o ciclo de cuidado conforme a evolução do paciente).

Enquanto outras categorias passam pelo leito em momentos específicos, a equipe de enfermagem permanece 24 horas ao lado do paciente, o que permite identificar precocemente alterações clínicas. Jéssica e Ana Lívia explicam que a equipe de enfermagem é treinada para perceber alterações clínicas (como desorientação ou queda de débito urinário) antes que uma parada cardiorrespiratória ocorra, agindo preventivamente.

Também cabe à enfermagem decidir prioridades clínicas, gerenciar recursos escassos e tomar decisões autônomas, como definir qual paciente necessita de monitoramento mais intensivo em um cenário de alta demanda.

Jéssica Benevides frisa que a atuação da enfermagem é feita em parceria e diálogo com as demais profissões, sempre com o intuito de atingir o mesmo objetivo: o bem-estar e a evolução clínica do paciente.

As coordenadoras destacam que essa atuação científica é aliada a um olhar humanizado, que enxerga o paciente não apenas como um diagnóstico de trauma, por exemplo, mas como o pai ou filho de alguém, integrando a técnica à sensibilidade necessária para cuidar de quem está em vulnerabilidade.

Para as profissionais, o momento de fechar unidades de terapia intensiva após passado o período crítico da Covid-19 foi marcante. "No dia que a gente foi fechar mesmo [a unidade], que olhou um pro outro assim mesmo sem nem a gente se conhecer direito. A gente não conhecia as pessoas direito porque era todo mundo todo coberto... Olhou um pro outro como se dissesse assim: 'Obrigada, a gente conseguiu'", compartilha.

A segunda reportagem da série "Enfermagem: a espinha dorsal da saúde" abordará a formação profissional e a luta por valorização da categoria.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 5/07/26. Caderno Ciência & Saúde. p. 13-14.


CIÊNCIA DO CUIDAR: A enfermagem na alta complexidade I

Por Ana Rute Ramires, Ana Sá e Samuel Setúbal

|CARTOLA | A ciência do cuidado é a espinha dorsal da saúde, com mais de 3 milhões de profissionais no Brasil. Na alta complexidade, a atuação é estratégica

Uma linha de frente por muito tempo invisibilizada, mas cuja atuação no suporte à saúde sempre definiu a diferença entre a vida e a morte. Ainda no século XIX, a fundadora da enfermagem moderna, Florence Nightingale (1820-1910), ensinou: "Existe cuidado sem cura, mas não existe cura sem cuidado".

A ciência do cuidado guia a atuação de mais de três milhões de profissionais atualmente no Brasil, entre enfermeiros (837.636), técnicos (1.935.341) e auxiliares (264.283), conforme dados do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen). A categoria hegemônica é a espinha dorsal do Sistema Único de Saúde (SUS), coordenando fluxos e garantindo a segurança assistencial.

Tudo começou no século XIX, na Guerra da Crimeia, quando Florence Nightingale, considerada fundadora da enfermagem mundial, aplicou práticas de higiene que salvaram milhares de vidas. De lá pra cá, a categoria se organizou e, baseada em evidências científicas, definiu protocolos rígidos, se consolidando com uma atuação estratégica em áreas como a alta complexidade.

Helga Regina Bresciani, segunda-secretária do Cofen, detalha que a enfermagem atua como um pilar estratégico e de suporte à vida. Ela salienta que a autonomia profissional é baseada em evidências científicas e que o enfermeiro exerce funções de planejamento, gestão e tomada de decisão crítica.

"A enfermagem cuida das pessoas em suas necessidades. Então, nós estamos em todas as áreas da saúde, na atenção primária, na média complexidade, na alta complexidade, em consultórios de enfermagem, em trabalhos no pré-hospitalar, nas emergências", cita.

A secretária do Cofen destaca que, na alta complexidade, o enfermeiro é responsável por gerenciar tecnologias duras, como ventiladores mecânicos e sistemas de circulação extracorpórea, além de monitorar ininterruptamente os sinais vitais do paciente crítico.

"A ciência da saúde, a ciência de enfermagem, ela evolui muito rapidamente... a enfermagem ao longo dos anos acompanha essa evolução em suas capacitações, na educação permanente, na formação", afirma.

A prática da enfermagem é regida por normas rígidas e resoluções do Cofen, que garantem que procedimentos complexos, como o uso de ultrassom à beira leito para punções e a prescrição de medicamentos em protocolos institucionais, sejam realizados com segurança e respaldo legal.

Maria Helena Machado, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/Fiocruz), explica que a autonomia profissional da enfermagem "advém da base cognitiva de conhecimento (teórico e prático)" que os profissionais adquirem na sua formação profissional básica e é aprofundada na pós-formação.

Portanto, segundo ela, "a autonomia profissional advém fortemente na capacidade que cada profissão tem de responder às demandas e desafios que o processo de trabalho exige no cotidiano do mundo do trabalho".

"A enfermagem faz parte dessas profissões que adquiriu, ao longo de sua existência, essa base cognitiva que lhe assegura autonomia plena em suas ações, emanando para sua equipe técnica (técnicos e auxiliares de enfermagem) orientações e direcionamento para suas atividades no cotidiano do trabalho", afirma a pesquisadora.

A responsabilidade de salvar vidas diariamente, contudo, contrasta com a luta histórica pela efetivação do piso salarial e por condições dignas de trabalho. "Se você fosse perguntar a valorização financeira, a gente não é valorizada. Nós estamos vendo pela dificuldade que a gente tem de implantar o piso básico para a profissão", critica Helga Bresciani, do Cofen.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 5/07/26. Caderno Ciência & Saúde. p. 13-14.


quinta-feira, 13 de novembro de 2025

O economista e a inteligência artificial

Por Lauro Chaves Neto (*)

Historicamente, a relação entre economia e tecnologia foi pontuada por transformações capazes de redefinir modelos produtivos e estruturas sociais. Atualmente, a inteligência artificial (IA) ocupa um papel central, impondo ao economista novos desafios.

A IA não é apenas uma ferramenta de automação, mas um catalisador de mudanças que afeta mercados de trabalho, padrões de consumo, políticas públicas, como se pensa o desenvolvimento econômico, os ganhos de produtividade, a redução das desigualdades e a eliminação da pobreza extrema.

O economista, tradicionalmente, analisou fenômenos a partir de dados escassos, agora, encontra-se diante de bases de dados massivas, algoritmos preditivos e modelos capazes de gerar cenários complexos em tempo real. Essa abundância de informação não deve substituir o julgamento humano, e sim o fortalecer.

As ferramentas de machine learning permitem prever tendências de mercado com maior precisão, analisar comportamento de consumidores e simular cenários econômicos. O economista deixa de ser apenas um analista e passa a ser um estrategista, interpretando os resultados gerados por sistemas inteligentes e tomando decisões mais embasadas.

A ética no uso de dados, o viés algorítmico e a transparência nos modelos são questões críticas. O economista moderno precisa dominar tanto a teoria econômica, como também fundamentos de ciência de dados, programação e estatística avançada.

Outro ponto central é a formulação de políticas públicas. A IA permite modelos mais precisos para avaliar resultados e prever crises. Contudo, se mal utilizada, pode ampliar vieses, reforçar concentrações de poder e reduzir a transparência. O economista, então, deve atuar como mediador entre inovação tecnológica e justiça social.

Em síntese, a inteligência artificial não elimina o papel do economista. Pelo contrário, o torna ainda mais necessário. Cabe ao profissional unir capacidade analítica e visão humanista, garantindo que a tecnologia esteja a serviço do desenvolvimento sustentável. O futuro da economia, mediado pela IA, será não apenas quantitativo, mas essencialmente humano.

(*) Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de Economia.

Fonte: O Povo, de 13/10/25. Opinião. p.18.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

A ENFERMAGEM PEDE SOCORRO!

Por Natana Pacheco (*)

Estamos enfrentando, mais uma vez, um aumento alarmante no número de pacientes com problemas respiratórios, incluindo casos de Covid-19. As novas variantes ainda são pouco conhecidas, e os sintomas são variados, o que torna o diagnóstico rápido e preciso um desafio constante.

Nesse cenário, a Enfermagem está na linha de frente, sendo a porta de entrada das instituições de saúde e, infelizmente, a primeira a receber as consequências de um sistema sobrecarregado: a insatisfação da população, a escassez de insumos e medicamentos, o dimensionamento inadequado e o peso de uma demanda crescente. Enquanto a população deseja ser cuidada, os profissionais de Enfermagem desejam, acima de tudo, cuidar com dignidade e respeito.

A falta de estrutura não afeta apenas os pacientes; ela impacta diretamente o emocional e o físico dos profissionais. Muitos trabalham em condições insalubres, enfrentando jornadas exaustivas e sem o suporte necessário. A pressão psicológica é imensa, agravada pela falta de reconhecimento e por situações de violência, que têm se tornado cada vez mais frequentes.

O Conselho tem identificado um aumento preocupante nos casos de agressões contra profissionais de Enfermagem. A sensação é de que estamos recebendo uma conta que não nos pertence. Estamos lutando para salvar vidas e oferecer assistência de qualidade, mas precisamos de apoio e respeito.

O que queremos é que a sociedade compreenda que estamos pedindo socorro. Faltam equipamentos, medicamentos e, em muitos casos, até o pagamento salarial está em atraso. A Enfermagem não pode continuar sendo ignorada. Precisamos de investimentos em infraestrutura, melhores condições de trabalho e políticas públicas que valorizem verdadeiramente os profissionais.

A Enfermagem está comprometida em cuidar da população. Agora, mais do que nunca, precisamos que todos se unam para garantir que tenhamos condições dignas de trabalho. Somente assim poderemos continuar cuidando de quem precisa. A valorização da Enfermagem é um compromisso de toda a sociedade.

(*) Enfermeira. Presidente do Coren-CE.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 4/12/2024. Opinião. p.18.


quinta-feira, 10 de outubro de 2024

A IMPORTÂNCIA DO COOPERATIVISMO NA ORTOPEDIA

Por Leonardo Drumond (*)

No dia 19 de setembro, celebramos o Dia do Ortopedista, uma data que nos convida a refletir sobre o papel essencial dos profissionais de ortopedia na promoção da saúde musculoesquelética. No entanto, também é um momento oportuno para pensar sobre como podemos fortalecer a prática ortopédica e melhorar o atendimento à população. Como presidente da Cooperativa dos Médicos Traumatologistas e Ortopedistas do Ceará (Coomtoce), acredito que o caminho para esse fortalecimento passe pelo cooperativismo.

A ortopedia é uma área da medicina que exige uma abordagem multidisciplinar e coordenada para proporcionar o melhor cuidado aos pacientes. Precisamos de um sistema de saúde em que os ortopedistas tenham condições adequadas de trabalho, acesso a recursos atualizados, oportunidades de educação continuada e, sobretudo, uma estrutura que valorize o trabalho médico e permita que o foco seja sempre o paciente.

O cooperativismo, como modelo de gestão e organização, oferece uma alternativa valiosa em um cenário onde a saúde frequentemente é tratada como um negócio. A lógica cooperativa é baseada em valores como a solidariedade, a colaboração e a busca pelo bem comum. Em um contexto onde o setor privado visa o lucro e o setor público, muitas vezes, enfrenta dificuldades de financiamento e gestão, as cooperativas médicas se tornam um espaço de resistência e inovação na promoção de saúde de qualidade.

Na Coomtoce, temos trabalhado para criar um ambiente onde o ortopedista pode se desenvolver plenamente como profissional. Através do cooperativismo, promovemos a união de forças para negociar melhores condições de trabalho, assegurar um ambiente ético e transparente, e promover a constante atualização dos nossos cooperados. Ao trabalharmos juntos, conseguimos não apenas oferecer melhores condições para os ortopedistas, mas também impactar diretamente a qualidade do atendimento oferecido à população.

É fundamental reconhecer que o futuro da nossa especialidade depende da união de forças. Somente através da cooperação e do comprometimento com o bem comum podemos oferecer um atendimento de excelência, acessível e humanizado para toda a população. Este é o caminho que devemos seguir para fortalecer a ortopedia e garantir que ela continue evoluindo de forma sustentável e inclusiva.

(*) Médico. Presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) – Regional Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/09/2024. Opinião. p.28.

 

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