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sexta-feira, 13 de setembro de 2024

TABAGISMO TEM TRATAMENTO: em Fortaleza, Hospital de Messejana é referência

Por Karine Lane, jornalista de O Povo

Em entrevista ao O POVO+, a médica pneumologista Penha Uchoa, coordenadora do Programa de Controle ao Tabagismo do Hospital de Messejana, analisa o panorama no Brasil e explica como funciona esse acolhimento. Confira a seguir:

O POVO+ — O Hospital de Messejana Dr. Carlos Alberto Studart (HM) é referência no tratamento de fumantes. Existem números de quantos pacientes já passaram pelo Programa de Controle ao Tabagismo nessa unidade? Qual o perfil desse público?

Penha Uchoa — O Programa de Controle do Tabagismo do Hospital de Messejana (PCT/HM) atende cerca de 40 novos pacientes a cada mês. Destes, a maioria é do gênero feminino (65%), com idade média entre 47 a 50 anos, 90% iniciou tabagismo antes dos 15 anos, e fumavam em média 33 maços por ano.

OP+ — Quais são as principais dificuldades que essas pessoas apresentam ou enfrentam durante o processo de abandono do hábito e como o programa ajuda a lidar com elas?

PU — Uma série de fatores dificultadores do processo da cessação tabágica já está bem descrita na literatura e a nossa população não difere nesse aspecto; a síndrome de abstinência é o principal deles, representa um verdadeiro vilão que amedronta e desencoraja o fumante. Além disso, a elevada dependência à nicotina, em especial naquele indivíduo que fuma um número grande e frequente de cigarros na rotina diária. A motivação e auto eficácias baixas também são identificadas em portadores de distúrbios psiquiátricos, pessoas com baixos níveis socioeconômico e educacional para entender e aderir à nova proposta de vida, após tentativas frustradas de cessação prévia; e portadores de comorbidades pulmonares, câncer e cardiovasculares, que se sentem constantemente pressionados pela família e sociedade. Pessoas cujo tratamento intensivo e prolongado requer esforço adicional para a parada.

A equipe multiprofissional do Programa oferece a esses pacientes um atendimento em grupo em que se discute os aspectos gerais do tabagismo como doença, que se caracteriza por dependência física, comportamental e psicológica, além da dependência nicotínica, da síndrome de abstinência e do tratamento.

De posse do conhecimento a respeito da sua doença, o paciente é encaminhado para uma escuta individual, em que a equipe utiliza algumas ferramentas de motivação para que o fumante mantenha o foco no objetivo central e mantenha o enfrentamento dessas dificuldades; deixando bem claro que ele é o protagonista das ações necessárias da mudança de estilo de vida para se atingir o sucesso sustentável, ou seja, que se torne um ex-fumante.

OP+ — Nos últimos anos os cigarros eletrônicos protagonizaram as campanhas de combate ao tabagismo no Brasil e no mundo. Na prática do dia a dia você observa que há uma crescente no uso desses dispositivos ou o que prevalece é o cigarro comum? As redes sociais podem ter alguma influência nessa difusão dos cigarros eletrônicos entre os jovens ou é algo que pode ser apontado como geracional?

PU — Importante enfatizar que a comercialização, importação e propaganda de todos os tipos de dispositivos eletrônicos para fumar são proibidas no Brasil, por meio da resolução de diretoria colegiada da Anvisa (RDC) nº 46, de 28 de agosto de 2009, em nível local também há proibição através da Lei nº 17.760, de novembro de 2021.

Atualmente os cigarros eletrônicos (CE) são comercializados no mundo em versões modernas e atrativas, contendo alta concentração de sal de nicotina, para acelerar trânsito da nicotina ao SNC e potencializar a dependência, além de substâncias com potencial inflamatório e cancerígeno, como propileno glicol, glicerol; acetaldeído; formaldeído; metais; nitrosaminas; saborizantes e flavorizantes que estimulam a experimentação e iniciação ao fumo.

A possibilidade de manipular o cigarro com adição de várias outras substâncias aumenta o risco futuro para dependência a outras drogas.

Apesar da proibição da propaganda e venda dos cigarros eletrônicos no Brasil, ambas acontecem facilmente através de várias plataformas da internet, festas alusivas ao uso dos vapes são divulgadas e propagadas de forma avassaladora nas redes sociais, que contribuem para a disseminação rápida e crescente do uso desses dispositivos, especialmente entre o público jovem.

Dados do estudo Covitel mostraram aumento da experimentação no Brasil no primeiro trimestre de 2022, sendo 7% de uso ocasional e 2.2 % de uso diário; destes, 20% se encontrava na faixa etária de 18 a 24 anos. Isto revela que as pessoas estão fazendo uso ilegal, têm fácil acesso, mas ainda há dificuldade para o consumo diário.

Esse cenário pode estar atrelado à questão do modismo do cigarro eletrônico entre os mais jovens, curiosidade, sabor, cheiro e a percepção de menor perigo.
Forte atração pelo design arrojado, mudanças frequentes de modelos, cores, sabores e manipulação de componentes, reflexo das táticas da indústria para oferecer tabaco de forma mais atrativa para esse público.

Impacto na saúde a curto prazo: há evidência conclusiva de risco após exposição aguda: intoxicação; lesões de pele, queimaduras, inalação aguda com consequente irritação da garganta, náuseas e tontura.

Há relatos de caso de bronquiolite aguda grave, surto de EVALI (lesão pulmonar associada ao uso de cigarro eletrônico) caracterizada por sintomas respiratórios agudos como tosse, dor torácica e dispneia que pode evoluir para insuficiência respiratória aguda, associada ou não a dor abdominal, diarreia e vômitos.

Em longo prazo, há evidência de risco para doenças crônicas não transmissíveis como doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), doença arterial coronariana (DAC) e câncer de pulmão.

Até o momento, não há evidência conclusiva do uso para a cessação tabágica e risco maior de tabagismo dual. No meio ambiente os prejuízos estão relacionados à produção de lixo não biodegradável, incêndios e poluição tabágica ambiental, que é a principal causa de poluição intradomiciliar.

O impacto na saúde pública é bastante negativo, uma vez que o aumento da experimentação e uso no Brasil trouxe à tona uma amostra de fumantes com desenvolvimento de dependência mais rápida e mais elevada.

Esses dispositivos, em vez de aumentar a cessação tabágica, na realidade, representam uma ponte para tabagismo dual (tabagismo convencional adicionado ao eletrônico) ou, situação mais grave ainda, que é uso de múltiplas drogas, poliadições.

Isso representa um retrocesso para a saúde pública brasileira que, através de processos envolvendo o binômio educação e legislação, já conseguiu avanços como a redução da prevalência tabágica de 35% no final da década de 80 para 10% em registros mais atuais.

OP+ — Alguém que fuma há cerca de 10 anos e resolve abandonar o hábito ainda consegue restaurar a saúde do organismo ou diminuir as chances de desenvolver doenças mais sérias? Quais os principais malefícios que essa pessoa está evitando ao deixar o cigarro?

PU — Sempre é benéfico parar de fumar, em qualquer situação, independente da idade. Porém é necessário que se entenda que se o paciente, antes de parar de fumar, já apresenta alguma doença crônica associada ao tabagismo, obviamente essa doença não tem cura, mas terá melhor prognóstico e o paciente evolui com melhor qualidade de vida e sobrevida.

Por outro lado, se o indivíduo parar de fumar e não tiver contraído ainda nenhuma doença crônica associada ao tabagismo, ele poderá evitar uma série de doenças, especialmente do trato respiratório, sistema cardiovascular e cânceres variados. Além de outras vantagens como melhora da autoestima; redução ou cessação de crises de tosse, asma ou DPOC e redução de complicações pós-operatórias.

No caso específico, a proteção de um indivíduo que para de fumar há 10 anos engloba vários aspectos; de 5 a 15 anos, o risco de AVC é reduzido ao de um não fumante. Em 10 anos, a taxa de mortalidade por câncer de pulmão é cerca de metade da de um fumante. Além disso, entre 10-15 anos, o risco de doença cardíaca é igual ao de um não fumante.

O que ocorre no seu corpo se você parar de fumar?

OP+Como uma pessoa interessada em deixar de fumar pode buscar serviços de saúde para auxiliar nesse processo? No caso do HM, qual é o processo e que tratamento é oferecido a esses pacientes?

PU — As unidades básicas de saúde representam a principal porta de entrada para o tratamento dos fumantes e devem ser capacitadas para tal.

O Hospital de Messejana atende usualmente e prioriza pacientes que receberam alta das suas unidades de internação, aqueles com doenças pulmonares ou cardiovasculares definidas, em especial o grupo que se encontra em fase pré-operatória ou lista de transplante; e ainda oferece vagas para a população geral durante as campanhas alusivas à comemoração dos dias mundial e nacional de combate ao fumo.

O programa de controle do tabagismo do Hospital de Messejana segue o tratamento padrão recomendado pelas diretrizes internacionais e nacionais, que inclui a abordagem comportamental e a terapia medicamentosa.

Recomendações para quem deseja parar de fumar

Para tal, inicialmente, o paciente passa por uma avaliação médica em que se registra seus dados pessoais, sintomas e queixas clínicas atuais, presença de comorbidades, grau de dependência nicotínica, história tabágica (tentativas de parar de fumar e uso de medicamentos previamente) e estágio de motivação.

Caso esse paciente esteja preparado para a ação de parar de fumar, ele será admitido no grupo de apoio e acompanhado por profissionais de saúde habilitados para lidar com o processo da cessação tabágica.

O tratamento é dividido em dois módulos: o primeiro, com duração de 4 semanas, tem como objetivo principal a preparação para o dia D de parar de fumar.

15 motivos para deixar de fumar

A partir da escolha desse dia, estratégias são criadas para se afastar do comportamento habitual para fumar, como mudança do ambiente de casa e do trabalho, se possível.

Nos momentos de fissura, o fumante deve tomar bastante líquido, chupar gelo, mastigar algum alimento forte para combater a vontade de fumar (gengibre, cravo, canela, etc.).

Essas ações acontecem em conjunto com o uso dos medicamentos, que promovem o alívio da síndrome de abstinência e tornam possível o parar de fumar com o menor sofrimento possível.

Na sequência, acontece o segundo módulo, cujo objetivo é a prevenção da recaída e a percepção dos pequenos ganhos em curto prazo. Tem duração média de 3 meses, que é um tempo mínimo para manutenção do tratamento medicamentoso, utilizado para aliviar a abstinência.

Passado esse período, o paciente é revisto em momentos pontuais das datas comemorativas que acontecem no próprio hospital e recebe alta com 1 ano, quando se torna um ex-fumante.

OP+ — Existem estratégias específicas a depender do perfil de cada paciente? O vício pode estar associado a questões de saúde mental que demandem outras abordagens, por exemplo?

PU — O tabagismo é uma doença neuro comportamental e esse dado deve ser incorporado durante a história tabágica. Os indivíduos que fumam tendem a apresentar mais ansiedade, são mais impulsivos e apresentam mais traços de neuroticismo, psicoticismo e histórico de distúrbios depressivos.

O conhecimento desses fatores psicológicos e/ou psiquiátricos associados ao tabagismo são essenciais para uma melhor condução e individualização do tratamento do fumante.

A estratégia do plano de ação para o dia D de parar de fumar segue os mesmos passos de um paciente sem distúrbio psiquiátrico, porém é necessário se avaliar o estado atual do paciente através de contato prévio com o médico assistente, assim como também se avaliar as medicações em uso e possíveis reações cruzadas ou contra indicações dos medicamentos que são utilizados para a cessação tabágica.

Em virtude das peculiaridades dessa população, estudos mostram que a duração do tratamento pode ser prolongada, além dos três meses padronizados.

Todo paciente precisa entender como a dependência nicotínica afeta sua rotina e que mudanças a serem implementadas só acontecerão se houver a consciência da escolha de um novo estilo de vida, mais saudável.

A parceria com a equipe de tratamento psiquiátrico/psicológico é essencial para que se atinja o objetivo comum de parar de fumar.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 1/09/2024. Ciência & Saúde. p.14-15.


domingo, 8 de setembro de 2024

PROGRAMA REALIZA CAMINHADA PELA VIDA

Por Karine Lane, jornalista de O Povo

As sequelas deixadas pelo fumo e outras doenças às vezes são difíceis de lidar, mas existem vários tratamentos e ações. Com o intuito de motivar as pessoas com doenças pulmonares graves, crônicas e com limitações para as atividades diárias da vida, a pneumologista Márcia Alcântara promove nesta quarta, 4, o "Caminhando, Inspirando e Expirando pela Vida". O encontro está previsto para acontecer na Barraca Ponto do Guaraná, às 7h30, com 1,5 km a ser percorrido.

O evento já está em sua quarta edição e é exclusiva para idosos do Programa de Reabilitação Pulmonar do Pulmocenter (PRPP). "O nosso objetivo é o de congregar pessoas com as mesmas faixas etárias e com essas limitações para um encontro lúdico e de intenso relacionamento coletivo por uma vida melhor", afirma Márcia Alcântara, também coordenadora do PRPP.

A médica explica que o movimento da caminhada melhora a capacidade pulmonar e cardiovascular, ou seja, atividades ao ar livre, especialmente essa, promovem o fortalecimento dos músculos respiratórios, ajudando a aumentar a resistência física e melhorar a eficiência respiratória.

"Há também o contato com a natureza, estar ao ar livre, com efeitos comprovados na redução do estresse e na melhora do bem-estar mental, o que é crucial para idosos em um PRP. As caminhadas em grupo incentivam a socialização, combatendo a solidão e promovendo um senso de comunidade entre os participantes", pontua.

O PRP é um conjunto de intervenções terapêuticas baseadas em exercícios físicos supervisionados, educação e suporte psicológico destinados a pessoas com doenças pulmonares crônicas. Ele é realizado para melhorar a capacidade funcional, reduzir a dispneia — falta de ar — e melhorar a qualidade de vida dos pacientes.

O Programa de Reabilitação Pulmonar é indicado para pessoas com doenças pulmonares crônicas, como DPOC, fibrose pulmonar, asma grave, bronquiectasias e, para aqueles que sofreram com a COVID-19 e ficaram com sequelas respiratórias, como fibrose pulmonar e falta de ar persistente. Pacientes em idade avançada, entre 60 e 94 anos, também se beneficiam. (Rafael Santana)

Benefícios dos exercícios físicos dos PRPs Programa de Reabilitação Pulmonar

Aumento da Capacidade Pulmonar: O treinamento físico melhora a eficiência dos músculos respiratórios, permitindo que o paciente respire com mais facilidade e menos esforço. Isso ocorre porque o exercício fortalece o diafragma e outros músculos envolvidos na respiração, tornando-os mais eficientes.

Reversão do Descondicionamento: Pacientes com doenças pulmonares crônicas frequentemente desenvolvem descondicionamento físico devido à inatividade. O exercício reverte esse descondicionamento, melhorando a capacidade aeróbica e reduzindo a sensação de cansaço.

Melhora da Troca Gasosa: O exercício regular melhora a circulação sanguínea nos pulmões, facilitando a troca de oxigênio e dióxido de carbono, o que alivia a sensação de falta de ar.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 1/09/2024. Ciência & Saúde. p.14-15.

sábado, 7 de setembro de 2024

SUS OFERECE ASSISTÊNCIA INTEGRAL GRATUITA A FUMANTES

Por Karine Lane, jornalista de O Povo

Pelo Sistema Único de Saúde (SUS) são oferecidos tratamentos integrais e gratuitos às pessoas que desejam parar de fumar. O suporte se dá por meio de medicamentos como adesivos, pastilhas, gomas de mascar (terapia de reposição de nicotina) e bupropiona, além do acompanhamento médico necessário para cada caso e ações em grupo.

Em Fortaleza, esse serviço é oferecido pelas unidades básicas de saúde (UBSs). Se você tem vontade de abandonar o hábito, procure o posto de saúde que atende o seu bairro ou a sua comunidade e busque informações sobre locais e horários de tratamento.

Além disso, a Atenção Primária de Saúde (APS) possui um diferencial importante nesse processo, que é o acompanhamento dos pacientes a longo prazo — algo que faz toda diferença, já que é possível identificar, ainda no meio do caminho, quais condutas precisam ser ajustadas ou, ainda, se é necessário incluir abordagens específicas àqueles que tiveram alguma recaída.

A APS é o primeiro ponto de contato da população com o sistema de saúde e torna-se ideal para a oferta e abordagem de cessação ao tabagismo, mas não é a única possibilidade.

Na Capital, o Hospital de Messejana Dr. Carlos Alberto Studart (HM) é referência no tratamento de fumantes através do Programa de Controle ao Tabagismo (PCT).
Criado em 2001 por ocasião do Dia Mundial de Combate ao Fumo, celebrado em 29 de agosto, é o primeiro serviço público de Fortaleza voltado ao tratamento do fumante.

Uma vez inscrito, o paciente passa por uma triagem médica, onde são colhidas informações pessoais relativas ao estado psicológico e quanto à motivação para deixar o cigarro. Exames importantes são realizados para revelar como está a saúde e o grau de dependência.

Após a avaliação inicial, o usuário passa a fazer parte do grupo de apoio, no qual é realizado o tratamento padrão baseado na abordagem cognitivo-comportamental, no uso de medicamentos e na terapia de reposição nicotínica.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 1/09/2024. Ciência & Saúde. p.14-15.

O TABAGISMO COMO DOENÇA: como e onde buscar apoio para deixar de fumar?

Por Karine Lane, jornalista de O Povo

Do cigarro comum ao eletrônico, os malefícios do tabagismo geram preocupação em função dos riscos de doenças como câncer de pulmão e problemas cardiovasculares.

A decisão de parar de fumar é difícil e cercada de dúvidas. É melhor parar de uma vez ou reduzir aos poucos? Adianta parar agora se eu já fumo há tanto tempo? Quando começo a perceber os benefícios? Onde encontrar tratamento gratuito? Se precisar de apoio, tenho onde conseguir? Como vou lidar com os momentos de abstinência do vício?

Além de causar dependência, o fumo aumenta os riscos de enfermidades como as cardiovasculares e os cânceres — fato que já estampa desde as carteiras de cigarro até as campanhas de conscientização sobre o tema há bastante tempo.

Não faltam alertas sobre os riscos de doenças causadas pelo tabagismo: “Você sofre”, “você envelhece”, “você infarta”, “você adoece”, “você brocha”, “você morre”. Acompanhadas de imagens fortes, essas e outras mensagens advertem os fumantes a cada nova carteira adquirida e têm ajudado a diminuir a prevalência do tabagismo entre brasileiros desde 2017.

Com esforços em muitas frentes a partir de medidas de controle do tabaco, o Brasil conseguiu reduzir em 35% o consumo e se tornou um dos líderes mundiais na redução do tabagismo, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgados em janeiro de 2024.

O País também compartilha, junto aos demais países da América do Sul, a distinção de fazer parte da primeira região no planeta ‘livre de fumaça’: todas as nações da região possuem leis que proíbem o fumo em espaços fechados, locais de trabalho e no transporte público.

Na tentativa de desestimular essa iniciação ao uso do cigarro, o governo federal retomou a política de aumento de preço sobre cigarro. Com a decisão, publicada no Diário Oficial da União (DOU) em 1º de agosto, ficou estabelecida a alíquota específica de R$ 2,25 por vintena (20 unidades) e preço mínimo de venda de cigarros no varejo de R$ 6,50 por maço ou box (20 cigarros).

Nas regras atuais, a alíquota específica é de R$ 1,50 e o preço mínimo de R$ 5 por maço. Uma medida necessária, já que o tabaco ainda mata mais de 8 milhões de pessoas por ano, de acordo com a OMS.

Só no Brasil são mais de 161 mil mortes anuais atribuíveis ao uso de tabaco, o que representa 443 mortes por dia e leva o tabagismo a ser o terceiro fator de risco para anos de vida perdidos ajustados por incapacidade.

Em outras palavras, é a maior causa evitável isolada de adoecimento e mortes precoces em todo o mundo. Os males causados por cigarros comuns, cigarros eletrônicos, cigarrilhas, charutos, fumos de cachimbo, narguilé, rapé e outros são conhecidos, mas nem sempre isso é suficiente para a tomada de decisão mais importante: abandonar o hábito.

Isso porque o fumante não é o único que se debilita com a prática. Quem também sai prejudicado são os fumantes passivos, que inalam a fumaça de derivados do tabaco. As partículas contêm substâncias tóxicas como alcatrão e nicotina, que podem causar asma, alergias, bronquite, pneumonia, doenças cardíacas e câncer de pulmão. Mesmo que não haja contato direto com a fumaça, a fuligem que fica impregnada em peças de roupa, por exemplo, pode causar alergias, doenças pulmonares e cutâneas.

O meio ambiente está incluído entre os principais afetados, com danos que vão desde o cultivo de tabaco até o descarte de bitucas e dos dispositivos. Pesquisas apontam que fumantes jogam, em média, 10 bitucas de cigarro por dia em vias públicas.
Parar de fumar, portanto, reduz o risco de doenças pulmonares e cardiovasculares, prolonga a vida, melhora as capacidades sensoriais e a aparência, reduz gastos com cigarros e tratamentos e ainda ajuda o meio ambiente.

Políticas públicas, campanhas educativas, intervenção médica, terapias de substituição de nicotina, apoio psicológico e grupos de suporte são fundamentais nesse processo, que não precisa ser encarado sozinho.

Dificuldades, incertezas, insônia, estresse e pressões externas podem dificultar, mas não devem ser motivo para desistir do plano de parar de fumar. Abandonar a dependência é um desafio, mas é a melhor saída.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 1/09/2024. Ciência & Saúde. p.14-15.

terça-feira, 20 de agosto de 2024

AGOSTO BRANCO: o mês de prevenção ao câncer de pulmão

Por Marcus Amarante (*)

O Agosto Branco é uma campanha que tem o objetivo de alertar para a primeira causa de mortalidade por câncer no mundo: o câncer de pulmão. Segundo dados do Inca (Instituto Nacional do Câncer), em 2022, em nosso país, foram diagnosticados mais de 35 mil casos novos da doença. No ano anterior, o número de óbitos foi superior a 28 mil casos.

Os números muito próximos de incidência e mortalidade mostram que se trata de uma doença letal o que reforça a importância da prevenção e do diagnóstico precoce. Sabemos que o principal fator de risco associado é o tabagismo, seja ele ativo ou passivo. Cerca de 80 a 90% são provenientes do uso de cigarros. Sendo a interrupção do tabagismo a principal ação profilática para a redução da mortalidade com impactos consideráveis em termos de saúde pública. Fumantes têm risco até dez vezes maior de desenvolver câncer de pulmão que não-fumantes.

Entretanto, o tabagismo não é o único fator de risco. Outras agravantes devem ser levadas em conta e costumam ser negligenciados ou mesmo desconhecidos, são estes: antecedente familiar de câncer de pulmão aumenta o risco, especialmente se parente de primeiro grau; a exposição no ambiente de trabalho a substâncias cancerígenas como o asbesto, que já muito utilizado antigamente para a produção de telhas de amianto; gases como o radônio, um gás radioativo proveniente do urânio presente no solo. Quase um terço dos casos de câncer de pulmão em não-fumantes está relacionado à exposição a este gás.

Há ainda outros fatores como a Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), exposição à radiação ionizante, infecção pelos vírus HIV e HPV, o consumo excessivo de álcool e a obesidade.

Em termos de rastreamento, recomenda-se a realização de tomografia computadorizada de tórax em pacientes de 50-80 anos com alta carga tabágica e consequente investigação e tratamento precoce das lesões. No entanto, ainda carecemos de métodos mais eficazes. Quando detectado precocemente, o câncer de pulmão tem uma chance muito maior de cura. Infelizmente, a grande maioria dos casos chegam ao consultório em estágio mais avançado.

Agosto Branco é um chamado para toda a sociedade (profissionais de saúde, pacientes, governantes). Estar alerta para todos os fatores que podem contribuir para o desenvolvimento da doença e detectá-la precocemente pode contribuir para a redução da mortalidade por câncer de pulmão.

(*) Médico oncologista clínico e pesquisador do CRIO.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 1/08/2024. Opinião. p.17.

sábado, 14 de outubro de 2023

FATOS PITORESCOS DE UMA FORTALEZA ANTIGA!

Por Josias Cavalcante (*)

O Sr. José Baltazar Lopes Barreira, conhecido como Baltazar Barreira, foi um respeitado industrial, proprietário da Fundição Ceará, que funcionava na Rua Dom Luís s/n, com escritório na Rua Major Facundo nº 182, e diácono da Igreja Presbiteriana de Fortaleza. Isso por volta dos anos 20 a 60. Sempre levando uma vida talhada pela conduta sadia, combatia veementemente os vícios do tabagismo e alcoolismo. Tinha uma verdadeira obstinação para combater os vícios humanos, sendo considerado um apóstolo dos bons costumes. Frequentador assíduo da antiga Praça do Ferreira, Baltazar azucrinava a vida dos tabagistas que frequentavam e fumavam naquele logradouro. Para muitos era considerado um chato de galocha. Sua obstinação contra os vícios era tão grande que criou uma associação chamada BACOVI (Barreira Contra o Vício), uma sociedade fundada em 15 de novembro de 1946 que funcionava na Avenida Visconde do Rio Branco, nº 1605, composta por alguns intelectuais e pessoas de projeção da cidade. Ao mesmo tempo, ele escrevia crônicas sobre tabagismo nos jornais, “O Unitário” e “Correio de Ceará”, hoje, fora de circulação.

Em uma determinada tarde, pelos idos dos anos 50, um senhor fumava desesperadamente um cigarro atrás do outro, sentado em um dos bancos da Praça do Ferreira. Observando aquela cena do fumante inveterado, Baltazar não perdeu tempo, aproximou-se do cidadão e iniciou uma conversa: vejo que o senhor está sentado aí há algum tempo e fumando muito, e com toda certeza é um apreciador do tabagismo. Ao que o fumante respondeu, gosto muito de fumar, sim, e já o faço há muitos anos.

Baltazar então prolongou a conversa e perguntou: há quanto tempo o amigo fuma. A resposta veio imediata, não tenho certeza amigo, mas faz mais de 25 anos.

Acredito que o amigo sabe dos malefícios que a nicotina causa no organismo.

Ah, eu sei, sim!

Mas Baltazar não satisfeito e tentando convencer o cidadão a parar de fumar, disse: amigo estou falando no bolso, que é o lugar mais sensível do homem. O Sr. já pensou na economia que faria se tivesse economizado o dinheiro dos cigarros que fumou durante todos esses 25 anos?

E apontado para o Prédio do Cine São Luiz que acabara de ser inaugurado disse: o senhor poderia ter construído um prédio como esse!

É verdade amigo, respondeu o cidadão fumante que acrescentou. E o senhor nunca fumou? Qual é a sua idade?

Eu tenho 50 anos e nunca coloquei esse veneno na minha boca, disse o Baltazar.

Somos mais ou menos da mesma idade amigo, e como o senhor não fuma deve ser o proprietário deste prédio!

Não, não meu amigo, quem me dera ser dono deste prédio!

Pois eu sou amigo. Meu nome é Luiz Severiano Ribeiro, o dono deste cinema!

Para quem não sabe, Baltazar Barreira morreu no dia 04 de fevereiro de 1979, aos 95 anos de idade, de causas naturais.

Da mesma maneira o fumante Luiz Severiano, conhecido como o “Rei do Cinema” conseguiu chegar aos 88 anos de vida!

(*) Josias Cavalcante é um médico pneumologista cearense que integrou a Comissão Estadual de Controle do Tabagismo da SESA/Ceará. Hoje reside em Belém do Pará.

Fonte: Josias Cavalcante. In: Fatos pitorescos de uma Fortaleza antiga! Fortaleza – 293 anos!

UMA HISTÓRIA ENGRAÇADA DA PRAÇA DO FERREIRA

Por Juarez Leitão (*)

José Wagner Benevides, era empresário da construção civil e um especialista no anedotário da Praça do Ferreira. Costumava contar os casos do BARCOVI.

Barcovi era um desses moralistas empedernidos, apóstolo dos bons costumes, cuja vida é dedicada a combater os vícios do mundo e a encher o saco de quantos bebedores, fumantes e jogadores de baralho e roletas que encontra pela frente. Um chato com Certeza. BARCOVI relegou seu nome original e passou a se identificar por esta sigla: BARreira COntra o VIcio. Como se vê, o cara é demais.

Contava o José Wagner que, certa tarde, nos anos 50, num dos bancos da Praça do Ferreira, Barcovi (sempre à caça de um pecador), viu um homem que fumava um cigarro atrás do outro. Na verdade, o cidadão acendia o cigarro no cotoco do que estava acabando. Aproximando-se daquele verdadeiro turíbulo humano, o militante contra o vício, com muita cortesia, falou:

– Estou observando o senhor há algum tempo e constato que V. Sia. é um adepto do tabagismo.

– É. O senhor com certeza é um bom observador. Gosto de fumar, sim, e o faço há muito tempo.

– Há quanto tempo o senhor fuma? Poderia saber?

– Não estou bem certo, mais, acho que há uns 25 anos.

– O senhor sabe dos malefícios da nicotina, é claro. Mas, falemos do bolso que é o lugar mais sensível do homem. Já calculou que, se tivesse economizado o dinheiro do cigarro, poderia ter construído um edifício como este? (e apontou para o prédio do Cine São Luiz que acabara de ser inaugurado)

– Puxa, é mesmo? – Respondeu o fumante – E o senhor, naturalmente não fuma, não é? E qual a sua idade?

– Tenho 50 anos e nunca pus este veneno na boca!

– Somos da mesma idade. E, como o senhor não fuma, deve ser o proprietário deste prédio!

– Não. Não sou. Ah, quem me dera!

– Pois eu sou. Meu nome é Luiz Severiano Ribeiro, o dono deste cinema.

(*) Juarez Leitão é historiador e membro da Academia Cearense de Letras e do Instituto do Ceará.

Fonte: Juarez Leitão. In: A Praça do Ferreira: República do Ceará Moleque (2002).

BARCOVI x BACOVI: duas versões de um mesmo causo

Na Secretaria da Saúde do Estado do Ceará (SESA), como sanitarista, fui um profissional que ainda hoje tem prestado serviços de assessoramento e de consultoria a autoridades de saúde; participei da organização de vários concursos públicos e processos seletivos para a absorção de pessoal.

Vale reportar que desempenhei na SESA os mais diversos encargos em grupos especiais, a exemplo do exercido de Assessor Técnico da Comissão Estadual de Prevenção e Controle do Tabagismo da SESA, conforme Portaria Nº 1.139/96, de 29 de agosto de 1996, cujas funções exerci durante três anos.

Nessa atividade, sob a coordenação da Dra. Ana Margarida Arruda Rosemberg, tive uma participação proativa na luta antitabagismo e pude conviver com alguns colegas médicos que pugnavam contra os males do cigarro no Ceará, comportando citar o cardiologista Waldeney Rolim e o pneumologista Josias Cavalcante.

Trago a seguir duas postagens, bastante assemelhadas, de um mesmo causo, que diferem na grafia da sigla do personagem central. A primeira, publicada pelo nosso consócio e confrade Juarez Leitão em 2002, e a segunda, de autoria do nosso colega médico Dr. Josias Cavalcante, divulgada no site:

drjosiascavalcante.com.br/site/historia/fortaleza-293-anos

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Editor do Blog


quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

AS GRANDES EMPRESAS DE CIGARRO NÃO SE RENDEM

Por Alan Mattingly

Há tempos o cigarro está na berlinda. Até os franceses estão repensando seus hábitos, o que não significa que a nicotina tenha sido relegada, nem que as grandes empresas tenham se rendido.
Depois da entrada tardia no setor incipiente, mas promissor, da opção eletrônica, elas agora abrem caminho para se estabelecer no mercado de alternativos. Recentemente o Times mostrou um centro de pesquisas de última geração em Neuchatel, na Suíça, onde 300 cientistas da Philip Morris estão trabalhando para encontrar uma forma mais efetiva de oferecer nicotina ao consumidor que a versão eletrônica atual.
“Nossos esforços se baseiam em dois objetivos: desenvolver uma linha de produtos embasada em princípios científicos para reduzir os riscos e criar substitutos aceitáveis para os fumantes que não querem ou não podem parar”, explica o Dr. Patrick Picavet.
Os céticos, cientes do histórico enganoso do setor, duvidam das intenções das companhias – como os rótulos de alerta que algumas estão colocando, voluntariamente, nas embalagens da versão eletrônica, por exemplo, muito mais explícitos que os da opção tradicional. O Times registrou a seguinte explicação no cartucho da Altria: “A nicotina é uma substância viciante, muito tóxica quando inalada e/ou em contato com a pele”. E o texto contém mais cento e poucas palavras.
“Quase caí da cadeira quando vi. Será uma nobre iniciativa em nome do serviço público ou uma estratégia de negócios muito cínica? Desconfio que seja a segunda opção”, diz o Dr. Robert K. Jackler, da Escola de Medicina de Stanford na Califórnia.
Alguns observadores suspeitam que as empresas de cigarro queiram parecer mais responsáveis que os fabricantes menores da versão eletrônica e se proteger em termos jurídicos. Porém, William Phelps, porta-voz da Altria, disse que a medida reflete o objetivo de comunicar, aberta e honestamente, os efeitos do produto na saúde.
E Stephanie Cordisco, presidente da divisão eletrônica da RJ Reynolds, disse ao Times:
“Estamos aqui para garantir que o setor ficará do lado certo da história”.
Já a empresa europeia Swedish Match resolveu optar pela estratégia oposta, pedindo às agências reguladoras norte-americanas que amenizem os alertas em sua alternativa ao cigarro: o snus, muito semelhante ao fumo de mascar, mas sem as cusparadas.
Seu consumo é permitido apenas na Suécia, tendo sido proibido no resto da União Europeia e o fabricante não nega seus riscos – que são relativos, como alega, mas quer que o alerta reflita esse detalhe. O Times observou que o aviso atual nas embalagens de snus vendidas nos EUA diz que ele pode causar câncer de boca e não é uma alternativa segura ao cigarro. A versão desejada é: “Nenhum produto que contém fumo é seguro, mas este oferece riscos bem menores à saúde que o cigarro”.
Temendo a acusação de incentivo ao vício – e uma eventual volta aos cigarros normais – os defensores do setor da saúde pública não dizem que alguns produtos são menos perigosos que outros, mas os especialistas afirmam que essa é uma questão importante, principalmente pela tendência do ser humano a fazer coisas que lhe são prejudiciais.
“Fazemos coisas estranhas mesmo; casamos uns com os outros, temos religião, fazemos sexo sem fins reprodutivos, gostamos de teatro, cultura... damos uns goles de vez em quando e apreciamos nossa nicotina. É o que nos torna humanos”, constata Patrik Hildingsson, executivo da Swedish Match.

Fonte: The New York Times / O Povo, de 12/01/2015. p.1.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A PROPÓSITO DOS TRINTA ANOS DE LUTA ANTITABÁGICA NO BRASIL

Ana Margarida Furtado Arruda Rosemberg (*)
O vício de fumar cigarro (tabaco) expandiu-se no mundo a partir da I Guerra Mundial, entre os homens, e, a partir da II Guerra Mundial, entre as mulheres. Na década de 1960, os primeiros importantes trabalhos científicos desenvolvidos na Inglaterra e Estados Unidos evidenciaram graves malefícios do tabaco para a saúde dos fumantes e fumantes passivos. A partir de então, a atenção dos governantes, órgãos internacionais de saúde, instituições médicas e de educação, cada vez mais, foi voltada para o controle do tabagismo, pois as investigações experimentais, clínicas e epidemiológicas passaram a ser divulgadas através de milhares de publicações.
Até a década de 1970 as ações de combate ao tabagismo no Brasil foram incipientes, circunscritas e desencadeadas, em sua maioria, por médicos. Alguns pioneiros como: Mario Rigatto, do Rio Grande do Sul, José Rosemberg, de São Paulo, e Jaime Zlotnik, do Paraná, tornaram-se grandes líderes desta luta.
Em 1976, o Professor José Rosemberg publicou o livro “Tabagismo - Sério Problema de Saúde Pública” e realizou, no ano seguinte, a Primeira Semana Antitabagismo da PUC-SP. Como desdobramento da referida semana, o tema tabagismo foi incluido no currículo médico da Faculdade de Medicina daquela instituição. Também, em 1976, a Associação Médica do Rio Grande do Sul, através do Professor Mario Rigatto, instituiu o primeiro Programa Estadual de Combate ao Tabagismo do Brasil. Nos anos seguintes, as Sociedades Médicas criaram programas em diversos Estados da Federação e, somente, na década de 1990 os programas de combate ao fumo passaram para o âmbito dos governos estaduais.
Em janeiro de 1979, Antônio Carlos Campos Junqueira, Antonio Pedro Mirra, Almério de Souza Machado, Glacilda Telles Menezes Stewien, José Rosemberg, Luiz Carlos Calmon Teixeira, Mário Rigatto, Mozart Tavares de Lima, Roberto Bibas e Ruth Sandoval Marcondes lançaram a semente para a concretização de um Programa Nacional de Combate ao Fumo que foi oficializado, em 12 de agosto de 1979, pela Associação Médica Brasileira (Rosemberg, 1987. p.321).
Em março de 1979, sob a coordenação do Dr. José Silveira, da Bahia, o Instituto Brasileiro de Investigação Torácica – IBIT realizou um seminário sobre tabagismo que resultou na histórica “Carta de Salvador”. Documento de extrema importância, a carta alerta aos poderes públicos, às instituições médicas e à população sobre os malefícios do tabaco. Foram signatários da “Carta de Salvador” os seguintes doutores: Angelo Rizzo – Professor da Universidade Federal de Pernambuco, Antônio Carlos Peçanha Martins – Presidente da Associação Baiana de Medicina, Antônio Pedro Mirra – Diretor do Departamento de Cirurgia Torácica da Fundação Antonio Prudente de São Paulo, Edmundo Blundi – Professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Jaime Santos Neves – Professor de Pneumologia da Escola de Medicina do Espirito Santo, José Rosemberg – Professor Titular da Faculdade de Medicina da PUC-SP e Diretor Geral do Centro de Ciências Médicas e Biológicas da PUC-SP e José Silveira – Superintendente Técnico do IBIT (Rosemberg, 1987. p.320).
Em 29 de agosto de 1980, a Sociedade Médica do Paraná lançou a “Greve do Fumo”, sob a liderança do Dr. Jayme Zlotnik. Em homenagem ao evento, esta data passou a ser o “Dia Nacional de Combate ao Fumo”, comemorado em inúmeros municípios do Brasil com uma corrida rústica, cujo slogan, “Largue o Cigarro Correndo”, inspirou centenas de fumantes a abandonarem o vício (www.amb.org.br).
As comunidades religiosas participaram da luta, desde 1979, através da Igreja Adventista do Sétimo Dia, Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, Igreja Católica e Centros Espíritas. O Rotary Club, Lions Club e Associação Cristã de Moços abraçaram, também, a causa.
Em 1984, foi criado o Comitê Coordenador do Controle do Tabagismo no Brasil tendo a frente o Professor Mário Rigatto, que foi o seu primeiro presidente. O Comitê esteve durante muitos anos sob a presidência do Professor Rosemberg e desdobrou-se em vários capítulos, em inúmeros Estados da Federação, e em sub-capítulos nos municípios. Atuando em parceria com os órgãos governamentais, o Comitê teve relevante atuação na luta contra o fumo.
Finalmente, em 1985, o Ministério da Saúde assumiu oficialmente a luta criando um Grupo Assessor para o Controle do Tabagismo no Brasil. Grupo eclético composto por diversos representantes da sociedade atuou junto ao governo para a criação da primeira lei federal de combate ao fumo. A referida Lei de nº 7.488 instituiu o dia 29 de agosto como o Dia Nacional de Combate ao Fumo.
Este grupo foi composto pelo senador Lourival Baptista, José Rosemberg, Mario Rigatto, Antonio Pedro Mirra, Edmundo Blundi, Geniberto Paiva Campos, Germano Gerhardt Filho, Guaracy da Silva Freitas, Jayme Santos Neves, Luiz Carlos Romero, Maria Goretti Pereira Fonseca, Paulo Roberto Guimarães Moreira, Pedro Calheiros Bonfim, Regina Celi Nogueira, Roberto Azambuja, Thomas Szego, Vera Luíza da Costa e Silva e Vitor Manuel Martinez www.inca.org.br/tabagismo).
Em 1991, a ação do MS foi transferida para o INSTITUO NACIONAL DE CÂNCER-INCA sob a coordenação da Dra. Vera Luiza da Costa e Silva. Divisor de águas na luta contra o tabaco no Brasil, o INCA instalou uma ampla rede de ações com abrangência nacional, concretizando, finalmente, a fase vitoriosa da luta.
Com a municipalização das ações de controle do tabagismo, o programa penetrou nas Empresas, Escolas e Unidades de Saúde em mais de 80% dos municípios brasileiros. Além dessas ações o INCA realizou, em parceria com as Secretarias Estaduais de Saúde e o Comitê Coordenador de Controle do Tabagismo no Brasil, vários Congressos Brasileiros sobre Tabagismo, sendo o primeiro no Rio de Janeiro em maio de 1994, sob a presidência de José Rosemberg. Em junho de 1996, foi realizado em Fortaleza-CE, o II Congresso Brasileiro sobre Tabagismo e o I Congresso Latino-Americano sobre Tabagismo sob à nossa presidência. O III Congresso aconteceu em Porto Alegre-RG, em abril de 2000. O IV Congresso, em Brasília-DF, e o V Congresso, em Belo Horizonte-MG. Além desses congressos inúmeros eventos científicos e esportivos foram realizados, em todo o Brasil, para comemorar o Dia Mundial sem Tabaco (31 de maio) e do dia Nacional de Combate ao Fumo (29 de agosto).
A inserção do tabagismo na sociedade brasileira, consequência de um processo histórico e social associado a capacidade da nicotina de causar dependência, teve graves consequências para a saúde pública da população. As representações do tabagismo no imaginário social, sempre tiveram associadas, por um lado, as propagandas enganosas das multinacionais fumageiras e, por outro, pelas campanhas de saúde pública desencadeadas pelas ONGs e órgãos de saúde e educação do governo. Enquanto as multinacionais fumageiras associavam o vicio de fumar à saúde, beleza, sucesso, status etc., os órgãos de saúde pública mostravam outra realidade associando-o a doença e a morte. Como consequência deste embate houve uma acentuada mudança das representações do tabagismo no imaginário social evidenciada pela queda significativa da prevalência de fumantes no Brasil.
Os inquéritos sobre a referida prevalência que foram realizados pela Organização Panamericana de Saúde, Ministério da Saúde, IBGE e INCA ao longo de várias décadas nos mostram estas mudanças. Em 1989, segundo pesquisa realizada pelo IBGE, 33% da população adulta brasileira fumava. De 2006 a 2009 o percentual de fumantes caiu de 16,2% para 15,5%, segundo inquérito realizado pelo INCA.
O resultado deste inquérito nos mostra que a semente lançada pelos desbravadores desta luta não foi perdida em solo estéril. Custou a medrar. Foi lento o seu crescimento, porém floriu e frutificou para o bem e alivio das vítimas do tabaco. Abriu-se, finalmente, a perspectiva auspiciosa de dias mais promissores e de triunfos sobre a grande pandemia.
(*) Pneumologista e historiadora. Redigido em Fortaleza, em 30 de junho de 2010.

Referências
www.inca.gov.br/tabagismo acesso: 30 de junho de 2010
ROSEMBERG, José. Tabagismo – sério problema de saúde pública. São Paulo: Almed, 1987, p. 321.
 

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