quinta-feira, 28 de junho de 2018

CÂNCER (I)


Pedro Henrique Saraiva Leão (*)
Por que tal termo chama-se assim? Consoante papai Hipócrates, a aludida doença semelhava o caranguejo, movendo-se, anarquicamente em todas as direções. Eis o porquê. Releva notar outrossim, ser o câncer (7 milhões/óbitos/ano) caracteristicamente o 4º signo do zodíaco, implicando fatalismo e superstição, sentimentos sancionados pela história da humanidade. Poucos étimos (palavras) têm tamanha carga semântica (de sentido), quase nenhuma ostentando o mesmo instintivo tabu. Não é normalmente mencionada, mas apenas sugerida, com eufemismo (de maneira menos incisiva), como “aquela doença”, “pertinaz moléstia”. Referido vocábulo ainda enseja dó, compaixão, o asco quase do “pathós” social, equivalente da lepra, da peste, tuberculose, da sífilis, e hoje da AIDS, desde o surgimento desta no New York Hospital, dezembro, 1980 (vide “O POVO”, 27/05/2015). 
Os leitores mais atentos recordarão estas considerações iniciais, desde meu livro homônimo – edições UFC, 1984 – e de “Quem tem medo de caranguejo”, neste espaço, 26/10/2016. Contudo apraz-me subscrever Machado de Assis: “Há conceitos que se devem incutir na alma do leitor, à força de repetição” (In “Dom Casmurro”, 1900). Lê-se no “Talmude”, a bíblia dos judeus: quem vive estudando mas nunca repete o que aprendeu, se parece com quem vive a semear mas nunca ceifa (ceifar: segar, cortar). O câncer colorretal quanto mais estudado mais carece colhido antes de florescer.
Em artigo anterior (“Julho vermelho”, 03/01/2018), aqui inserido, referendei do meu livro acima o Prof. Daniel Fisk Jones, ao afirmar não haver diagnóstico mais preciso do que o desta lesão, contudo ainda não surpreendida com a frequência desejada. Malgrado meios mais acurados de reconhecimento a tempo, este nem sempre é oportuno, hábil. De frequência ascendente, o tumor representa cerca de 15% dos cânceres nos EUA; no Brasil, em 2010 ocorreram 29 mil casos, com + 11 mil óbitos. Temos ratificado a possível confusão com as hemorroidas iniciais, aliás, etimologicamente fontes maiores de sangramento. Essas derivam dos radicais gregos “haima” = sangue “rhoos” = fluxo. Portanto, sangramento retal pode ser por câncer do reto associado àquelas, ou de “per se”! Vale lembrar que o toque retal constata esta neoplasia até 10cm (80%) da margem anal.
(*) Professor Emérito da UFC. Titular das Academias Cearense de Letras, de Medicina e de Médicos Escritores.
Fonte: O Povo, 26/05/2018. Opinião, p.18.

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