Por Emanuel
Freitas da Silva (*)
Volto a um tema que discuti, aqui,
24/12/2-25: aquilo que nomeei como uma "corrida pela monumentalização da
fé católica" no Ceará; ou seja: a construção de diversas imagens
(gigantes) de santos católicos em cidades do interior, formatando um verdadeiro
"turismo religioso", e tudo com o apoio do governo estadual (do PT,
sempre acusado de "perseguir a fé") e dos governos municipais.
Citava, ali, os casos de Caridade,
Crato, Campos Sales, Santana do Cariri, Chorozinho, Barbalha, Canindé,
Maracanaú, Juazeiro do Norte e Caucaia.
Agora, mais uma cidade entra na
"corrida": Iguatu. Na semana que passou, uma comitiva dirigiu-se ao
Palácio da Abolição para demandar do governador Elmano de Freitas o apoio,
inclusive orçamentário, para a construção de um complexo em homenagem à Senhora
Sant'Ana, tida pela tradição católica (por causa de narrativas dos chamados
"evangelhos apócrifos") como mãe de Maria; portanto, a avó de Jesus.
Estiveram presentes empresários da
região, acompanhados do bispo de Iguatu, dom Geraldo Freire Soares, um
arquiteto e representantes do poder público municipal. Segundo noticiou-se, a
visita rendeu a promessa de auxílio do governo estadual, além de vultosos
recursos advindos de emendas parlamentares - daqueles com base eleitoral na
cidade, Agenor Neto e Marcos Sobreira, com todo o interesse de serem tidos como
patronos do empreendimento, inscrevendo para sempre seus nomes nas placas do
monumento - e, vejam só, uma doação bastante considerável de Roberto Pessoa
(como empresário ou como prefeito de Maracanaú?).
A promessa, das autoridades políticas e
religiosas, é de "mais um ponto de referência religioso",
potencializando o turismo religioso no município e no estado. Isso porque a
proposta prevê a criação de um espaço estruturado para acolher romeiros,
visitantes e fiéis, impulsionando o comércio local, gerando empregos e
colocando Iguatu em destaque no cenário estadual e nacional do turismo de fé.
Mais do que isso: em tempos de redução,
ano a ano, do número de fiéis, o catolicismo se engaja em estratégias de
visibilização pública como esta, como que expulsando-se do interior dos templos
para forjar novos contornos no espaço público, em diversas cidades.
(*) Professor adjunto
de teoria política da Uece/Facedi.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 4/03/26.
Opinião. p.14.

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