Por José Nelson Bessa Maia (*)
O planeta Terra
testemunha hoje o colapso da ordem liberal internacional do Pós-Segunda Guerra
Mundial, com o abandono das regras e princípios civilizacionais há muito
consagrados pela Carta da Organização das Nações Unidas (ONU) de respeito à
soberania dos estados, não interferência em assuntos internos das nações e a
integridade territorial dos países. Causa espanto a entrada em cena de uma
truculência às claras que não se registrava há muito na história.
O mais curioso é
que as ameaças e o descontrole da potência hegemônica decadente são recebidos
por muitos analistas como algo normalizado e até com regozijo em certos
círculos da política, das finanças e da mídia internacionais.
Os ataques em
curso dos EUA e Israel contra o Irã constituem grave ameaça à paz mundial e à
estabilidade da economia global. Repete-se a agressão a um país do Oriente
Médio sem nenhuma justificativa cabal. Um ataque bélico sem declaração formal e
sem aprovação legislativa, enquanto havia em curso conversações diplomáticas
entre ambos os lados.
Um ataque covarde
e cruel com vistas a eliminar fisicamente a elite dirigente iraniana e
festejado como grande feito sob a promessa de promover mudança de um regime e
voltar a entronizar a antiga elite monárquica iraniana subordinada aos
interesses do Ocidente e capaz de abrir mão do controle nacional sobre os seus
hidrocarbonetos.
Assiste-se,
portanto, a uma verdadeira releitura da "Geopolítica do Caos", termo
cunhado pelo jornalista franco-espanhol Ignacio Ramonet em seu ensaio de 1997
em que defende que o paradigma de comunicação global aferidor da lógica de
mercado, a qual tem como modelo central os mercados financeiros, valoriza a
teoria dos jogos e a teoria do caos sobre a mecânica newtoniana.
É então sob a
roupagem de numa nova mecânica, ou na ausência dela (a incerteza e
instabilidade), em que se assenta o atual sistema de relações internacionais.
As ações agressivas da atual administração norte-americana seriam justamente os
instrumentos dessa nova mecânica geopolítica.
Na verdade, o
ataque preventivo ao Irã faz parte de uma estratégia desesperada dos EUA de
retomar o controle sobre o Oriente Médio e de seus abundantes recursos
energéticos para enfraquecer a segurança da China e colocá-la mais dependente
de fornecimentos de petróleo do Oriente Médio administrados por empresas
americanas ou ocidentais, visto que a China importa da região cerca de 50 a 54%
do petróleo que consome.
Como os EUA já
controlam a Arábia, Saudita, o Iraque e os pequenos países do Golfo, onde
mantém bases militares (por isso que estão sendo bombardeados pelos mísseis
iranianos), falta só derrotar o atual regime do Irã para poder exercer o
controle total sobre o petróleo e gás da região. É simples assim.
(*)
Ex-secretário de Assuntos Internacionais do
Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela
Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.
Fonte:
O Povo,
de 15/03/26. Opinião. p.20.

Nenhum comentário:
Postar um comentário