quarta-feira, 15 de abril de 2026

O ataque ao Irã e a geopolítica do caos

Por José Nelson Bessa Maia (*)

O planeta Terra testemunha hoje o colapso da ordem liberal internacional do Pós-Segunda Guerra Mundial, com o abandono das regras e princípios civilizacionais há muito consagrados pela Carta da Organização das Nações Unidas (ONU) de respeito à soberania dos estados, não interferência em assuntos internos das nações e a integridade territorial dos países. Causa espanto a entrada em cena de uma truculência às claras que não se registrava há muito na história.

O mais curioso é que as ameaças e o descontrole da potência hegemônica decadente são recebidos por muitos analistas como algo normalizado e até com regozijo em certos círculos da política, das finanças e da mídia internacionais.

Os ataques em curso dos EUA e Israel contra o Irã constituem grave ameaça à paz mundial e à estabilidade da economia global. Repete-se a agressão a um país do Oriente Médio sem nenhuma justificativa cabal. Um ataque bélico sem declaração formal e sem aprovação legislativa, enquanto havia em curso conversações diplomáticas entre ambos os lados.

Um ataque covarde e cruel com vistas a eliminar fisicamente a elite dirigente iraniana e festejado como grande feito sob a promessa de promover mudança de um regime e voltar a entronizar a antiga elite monárquica iraniana subordinada aos interesses do Ocidente e capaz de abrir mão do controle nacional sobre os seus hidrocarbonetos.

Assiste-se, portanto, a uma verdadeira releitura da "Geopolítica do Caos", termo cunhado pelo jornalista franco-espanhol Ignacio Ramonet em seu ensaio de 1997 em que defende que o paradigma de comunicação global aferidor da lógica de mercado, a qual tem como modelo central os mercados financeiros, valoriza a teoria dos jogos e a teoria do caos sobre a mecânica newtoniana.

É então sob a roupagem de numa nova mecânica, ou na ausência dela (a incerteza e instabilidade), em que se assenta o atual sistema de relações internacionais. As ações agressivas da atual administração norte-americana seriam justamente os instrumentos dessa nova mecânica geopolítica.

Na verdade, o ataque preventivo ao Irã faz parte de uma estratégia desesperada dos EUA de retomar o controle sobre o Oriente Médio e de seus abundantes recursos energéticos para enfraquecer a segurança da China e colocá-la mais dependente de fornecimentos de petróleo do Oriente Médio administrados por empresas americanas ou ocidentais, visto que a China importa da região cerca de 50 a 54% do petróleo que consome.

Como os EUA já controlam a Arábia, Saudita, o Iraque e os pequenos países do Golfo, onde mantém bases militares (por isso que estão sendo bombardeados pelos mísseis iranianos), falta só derrotar o atual regime do Irã para poder exercer o controle total sobre o petróleo e gás da região. É simples assim.

(*) Ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.

Fonte: O Povo, de 15/03/26. Opinião. p.20.


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