Por
Saraiva Junior (*)
Como frequentador de livrarias e sebos de
rua, tenho observado uma cena que vem se repetindo e me causando
constrangimento: pessoas se dirigem aos vendedores, com pacotes, caixas e
malas, oferecendo grandes quantidades de livros à venda. O gerente, no seu
papel de comerciante, olha os livros com certo ar de desinteresse, às vezes
barganha tudo por um preço irrisório ou sugere comprar no quilo e faz uma
proposta humilhante.
A reação do outro é de espanto. O olhar
incrédulo e o sorriso amarelo deixam transparecer um sentimento conflitante.
Não me contenho e puxo conversa com empregados, gerentes e aqueles que
pretendem se desfazer dos livros. Os motivos são diversos: dificuldades
financeiras, separações, mudanças de casa e falecimentos.
Certa vez, uma viúva foi vender os livros e
deparou-se com um preço longe do esperado. Ela disse não ter imaginado que
livros tão importantes na formação do marido pudessem valer quase nada.
A situação me fez lembrar de quando resolvi
doar as coleções de Jorge Amado, Hélio Silva e Moreira Campos para uma escola
de ensino médio do interior do Ceará. Para minha surpresa, o diretor disse que
a escola não receberia aqueles livros, pois, segundo ele, os alunos não tinham
mesmo o hábito de ler e preferiam pesquisar no Google. Por fim, falou que esses
autores eram comunistas.
Sabemos que, na verdade, os livros não
apenas informam, mas ampliam o imaginário e transformam a experiência. Pensei
em minha pequena biblioteca, com algumas joias de Machado, Dostoiévski,
Tchekhov, Calvino, Saramago, García Marquez, Natalia Ginzburg, Clarice
Lispector, Lygia Fagundes Telles, Graciliano Ramos, Lira Neto, Pedro Salgueiro,
Deodato Aquino, Raymundo Netto, dentre outras.
A expressão de espanto no rosto da viúva
segue gravada na minha memória. O desrespeito ao livro pode marcar mais uma
etapa do nosso retrocesso como humanidade. Então resolvi conversar com minha
companheira e meus filhos. Pedi a eles que não vendessem meus livros, que os
dividissem entre si de acordo com o gosto de cada um. O restante deverá ser
doado à biblioteca pública do município, à espera do encontro amoroso com um
futuro leitor.
(*) Escritor e
ex-conselheiro do Conselho de Leitores de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 14/03/26. Opinião. p.19.

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