sábado, 24 de agosto de 2019

O MEDO QUE NOS HABITA


Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)
A vida é uma travessia. Viver é superar, renovar, se lançar. Nesta travessia há fantasmas que nos paralisam, impedem de assumir desafios e travam o coração na hora de tomar decisões. O que faríamos se não tivéssemos medo? O medo está na pauta do dia; tememos o tempo todo; um medo sem nome, um fantasma sem rosto; medo cruel que afeta corajosos e desafia ousados. Toda travessia implica correr riscos, e quem se instala, se perde, envolve-se na tormenta da paralisia de uma vida medíocre e superficial.
Há momentos em que daríamos tudo por uma chance de pedir a Deus para não corrermos riscos. As experiências obscuras, as tribulações e as tempestades são inerentes à fé cristã. O papa Francisco já nos ensina que "ter fé não significa estar livre de momentos difíceis, mas ter força para enfrentá-los, sabendo que não estamos sozinhos". Mas o risco é necessário. Sem a superação cotidiana desse medo, nossos sonhos e projetos estarão comprometidos.
Algumas pessoas fazem opção pelo porto seguro das falsas certezas e seguranças, mas outros preferem correr o risco do "mar agitado", "da escuridão da noite" e são capazes de construir o novo. Quando superamos nossos medos e tomamos decisões audazes diante de um futuro incerto, no nosso "eu profundo", recursos e capacidades que ignorávamos ter despertam a "alma guerreira em nós". A poetisa chilena, Isabel Allende, profetizava: "Todos temos dentro de nós uma insuspeita reserva de força que emerge quando a vida nos põe à prova". Assim, para desenvolver essa reserva de potencialidades, temos de enfrentar dilemas, encruzilhadas, perplexidades e responsabilidades. Isto nos faz mergulhar na vida, desenvolver nossas forças, ativar e despertar outras possibilidades escondidas no chão de nossa vida.
Na tradição inaciana "formar-se é provar-se". Só aquele que é posto à prova em sua vida, fé e em suas convicções, se forma, cresce e amadurece. O compromisso com a construção de um mundo melhor e mais justo requer de nós uma forte dose de coragem e uma alma ágil, animada e vivificada pelo sabor da aventura e da novidade. 
(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia.
Fonte: O Povo, de 5/7/2019. Opinião. p.16.

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