terça-feira, 10 de dezembro de 2019

SLOW MEDICINE, MEDICINA SEM PRESSA


Por Weiber Xavier (*)
Com o maior acesso às informações pela mídia e redes sociais além das novas tecnologias, somado à relação médico/paciente cada vez mais precária vemos uma progressiva desinformação em saúde pressionada por crescentes interesses econômicos e comerciais.
Várias pessoas vão ao médico no intuito de investigar um incômodo fugaz ou mesmo um check-up e demandam uma série de exames muitas vezes sem necessidade, recebendo também muitas vezes tratamentos inúteis e que podem criar ansiedade e efeitos mais danosos do que o incômodo inicial.
Exige-se do médico exames cada vez mais avançados e medicamentos cada vez mais novos e caros, e o médico muitas vezes refém de uma formação profissional insuficiente e para proteger-se de ocasionais denúncias e pedidos de indenização adota o que se chama atualmente de "medicina defensiva", passando a validar esse ciclo de desperdício e ansiedade.
A medicina viu nos últimos anos progressos fabulosos no diagnóstico e tratamento de doenças até bem pouco tempo incuráveis, porém, o bem-estar passa por diversos outros fatores como relações pessoais, a família, condições econômicas e o trabalho que não podem ser investigados com nenhum exame de imagem ou laboratorial, nem também são passíveis de cura com nenhum tratamento medicamentoso. Diante dessa sobreutilização e desperdícios em saúde, além da hegemonia tecnológica em detrimento da humanização surge no meio científico internacional o que se chama de slow medicine, ou como o professor Marco Bobbio explica em Medicina Demais!, sobre o uso excessivo de medicamentos e exames e as diferentes razões para esses excessos: o desconforto de viver com a incerteza, a necessidade de questionar a própria saúde, a confiança exagerada nos potenciais da medicina, a pressão da indústria para criar a necessidade de terapias e exames. "A ilusão de uma vida mais sadia nos faz viver como doentes crônicos entre exames e terapias". Uma medicina mais justa, sóbria e respeitosa, estimulando a reflexão crítica sobre a prática médica atual a fim de desperdiçar menos recursos e validar a real função social da arte médica é o que preconiza a medicina com calma e prudência, sem pressa. 
(*) Médico e professor de Medicina da UniChristus.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 14/10/2019. Opinião. p.20.

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