Esse fato
aconteceu em uma escola médica, no final dos anos sessenta do século XX. Para
acomodar um novo e improvisado professor, talvez admitido por injunções
corporativas, acabou o dito cujo por assumir um cargo, como auxiliar de
Bioquímica, cabendo-lhe, inicialmente, ministrar aulas práticas aos acadêmicos.
Em uma das
práticas, que consistia em demonstrar a presença de fenolftaleína, o professor
seguiu, passo a passo, os procedimentos estabelecidos, e pontificou:
– Agora, atentem
para o nosso tubo de ensaio. É só aguardar alguns segundos, que o líquido nele
contido ficará roxo, confirmando a presença da fenolftaleína.
Passado algum
tempo, a substância ficou vermelha, em franca discordância do que o médico
enunciara.
– Acho que cometi
algum equívoco nas reações. Vamos fazer de novo, e bem devagar, pra não errar.
Tá certo, turma!?
– Sim, professor –
responderam, em uníssono, os poucos alunos presentes.
A prática foi
reiniciada, observando, pausadamente, a sequência das reações, até o docente
sentenciar:
– Pronto, meninos!
Fizemos tudo direitinho! Esperem um pouquinho que vai ficar bem roxo.
Para decepção de
todos, o líquido tomou uma cor vermelha rutilante. O professor pôs uma mão na
cabeça, enquanto a outra sustentava o livro, e protesta:
– Não é possível!
Eu segui tudo o que estava escrito no livro. Era pra dar roxo. A não ser que eu
tenha falhado no manuseio dos produtos.
Os alunos
continuavam sem entender o que se passava, e um deles indagou:
– Professor será
que os produtos utilizados estão na validade?
– Sim, eles foram
comprados na semana passada. Esse kit é novinho! Vamos fazer de outro modo.
Dessa vez, eu cuidarei só da leitura e um de vocês vai fazer as reações. Alguém
se habilita?
De imediato, um
acadêmico apontou para uma colega e sugeriu:
– Professor, a
Terezinha tem curso de técnica laboratorial e trabalha em um laboratório de
análises clínicas. Acho que é a mais talhada para essa tarefa.
E assim foi feito:
o mestre ditava e a experiente técnica realizava os procedimentos. Conclusa a
operação, o tão esperado roxo não vingou; de novo, lá estava o vermelho das
vezes anteriores.
O docente, mais do
que intrigado com o resultado, ficou furioso e atacou:
– Este livro está
redondamente errado! Aqui diz claramente que o resultado é roxo! No próximo
semestre não vamos mais adotar essa porcaria!
Foi então que um
dos estudantes pediu para ver a obra, cuja página com a citada prática estava
marcada com um clip e o resultado final devidamente grifado pelo professor.
O aluno não se
conteve e caiu na gargalhada ao se deparar que a obra estava escrita em
castelhano e o desfecho grifado era: ROJO, um falso amigo para os
lusófonos, que se traduz por vermelho na nossa “última flor do Lácio, inculta e
bela”.
De fato, nunca o
resultado poderia ser roxo ou violeta. Quem ficou roxo de vergonha foi o
infeliz e desqualificado mestre, um desconhecedor do “falso amigo” do idioma mais
falado na Espanha e na América Latina.
Marcelo Gurgel Carlos da Silva
Da Sobrames/CE e da Academia Cearense de Médicos
Escritores
Fonte: SILVA, Marcelo Gurgel Carlos da. Medicina, meu humor! Contando causos médicos. 2.ed. Fortaleza:
Edição do Autor, 2022. 144p. p.29-30.
* Republicado. In: Revista
AMC (Associação Médica Cearense). Abril de 2025 - Edição n.43. p. 29-30 (online).

Nenhum comentário:
Postar um comentário