quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Várzea Alegre tem memória doce

Por Izabel Gurgel (*)

Dona Beta fez tijolo de leite por mais de meio século. O doce surgia à tarde na paisagem, vendido de porta em porta, Dona Beta anunciando o que levava sob a toalhinha. A passagem dela acontecia como uma diária inscrição sonora, visual, a deixar o céu da boca tão aceso quanto o céu da cidade. Voltava para casa depois de vender toda a produção do dia. Imagine comigo o reluzir do sol na bacia de alumínio vazia e, dia após dia, cheia outra vez, por mais de cinco décadas.

Elisabete Ferreira Pinto, a Dona Beta, vai fazer 95 anos em dezembro. Agora permanece em casa, bem cuidada como a feitura do doce, que continua por outras mãos. O tijolo circula, cria novas memórias e, como um livro que não cessa de encontrar leitores, leva Dona Beta a múltiplos destinos sem que ela saia da rede que a embala na sala, de zelo conventual, feito o papel de seda embalando cada um dos doces viajantes.

No mês que finda amanhã com a Festa de Agosto, o papel de seda é vermelho, a cor do santo padroeiro da cidade, São Raimundo Nonato. Várzea Alegre usa uma medida singular ao fazer as duas coisas, a festa e o leite com açúcar se demorando no fogo. O mundo é grande, o Ceará é maior, e Várzea Alegre em estado de Festa de Agosto é imensidão.

O tijolinho de Dona Beta é um festejo portátil, um banquete de brinquedo, uma oração bem doce. Uma mordida e você fica inteiramente presente. É o auge da concretude do saber fazer. A nos lembrar de sabor e saber tão próximos quanto humano e húmus. A fertilidade da terra se celebra de tantos modos quanto possa se manifestar a vida. A cidade às portas do Cariri, no centro-sul do Ceará, louva a fertilidade da várzea onde nasceu.

O nome do santo, No-nato, tem um não-nascido dentro. É protetor dos partos, das parteiras, guarda quem faz nascer, quem ajuda a nascer, tudo o que nasce, pois. Naquela várzea, juntou-se o santo Raimundo ao ímpeto da vida, feito a poesia, de brotar sempre.

Dona Beta vem do sítio Chico, conta Eniete, como é conhecida a filha caçula do casal. Aniete, de batismo, Eliete, Elizete. O pai, Joaquim Pinto, morreu aos 69 anos. Seu Joaquim Ota tocava a casa de jogos e a roça.

Aos 79 anos, na véspera da viagem para Fortaleza para tratamento de saúde, Dona Beta fez doce pela última vez. Por anos, Eniete caçou aquele gosto. "Comprava, comia e não encontrava o sabor do doce de mãe".

Passou a fazer. "Foi muito, muito difícil acertar, mesmo tendo visto mãe a vida inteira fazendo". O ponto de doce é quando se começa a ver o fundo da panela. O de tijolo, é mais apertado. Nos dois, o borbulhar pode causar queimaduras. Aniete usa luvas, manguita de mototaxista, tecido sob o queixo, óculos e, por vezes, máscara. Marcas da feitura, só as da memória da mãe a tirar do ofício o sustento da família. E ficar para sempre nas histórias daquela várzea como uma vida inventada com sabor.

p.s.: o tijolo é uma joia do Ceará: (88) 99908.5713. Embalagens de cerca de 500g e de 1kg. Na casa da antiga rua do Capim, guarda-se a grade para tijolinhos. Tia Eniete a usou para festejar José, único neto de Dona Beta. Se perder o telefone, grave Dona Isla Mônica. Tem nome de ilha e conhece cada ponto de Várzea Alegre que vale um desembarque. São incontáveis.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 30/08/26. Vida & Arte, p.2.


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