Por
Izabel Gurgel (*)
Dona Beta fez tijolo de leite por mais de
meio século. O doce surgia à tarde na paisagem, vendido de porta em porta, Dona
Beta anunciando o que levava sob a toalhinha. A passagem dela acontecia como
uma diária inscrição sonora, visual, a deixar o céu da boca tão aceso quanto o
céu da cidade. Voltava para casa depois de vender toda a produção do dia.
Imagine comigo o reluzir do sol na bacia de alumínio vazia e, dia após dia,
cheia outra vez, por mais de cinco décadas.
Elisabete Ferreira Pinto, a Dona Beta, vai
fazer 95 anos em dezembro. Agora permanece em casa, bem cuidada como a feitura
do doce, que continua por outras mãos. O tijolo circula, cria novas memórias e,
como um livro que não cessa de encontrar leitores, leva Dona Beta a múltiplos
destinos sem que ela saia da rede que a embala na sala, de zelo conventual,
feito o papel de seda embalando cada um dos doces viajantes.
No mês que finda amanhã com a Festa de
Agosto, o papel de seda é vermelho, a cor do santo padroeiro da cidade, São
Raimundo Nonato. Várzea Alegre usa uma medida singular ao fazer as duas coisas,
a festa e o leite com açúcar se demorando no fogo. O mundo é grande, o Ceará é
maior, e Várzea Alegre em estado de Festa de Agosto é imensidão.
O tijolinho de Dona Beta é um festejo
portátil, um banquete de brinquedo, uma oração bem doce. Uma mordida e você
fica inteiramente presente. É o auge da concretude do saber fazer. A nos
lembrar de sabor e saber tão próximos quanto humano e húmus. A fertilidade da
terra se celebra de tantos modos quanto possa se manifestar a vida. A cidade às
portas do Cariri, no centro-sul do Ceará, louva a fertilidade da várzea onde
nasceu.
O nome do santo, No-nato, tem um
não-nascido dentro. É protetor dos partos, das parteiras, guarda quem faz
nascer, quem ajuda a nascer, tudo o que nasce, pois. Naquela várzea, juntou-se
o santo Raimundo ao ímpeto da vida, feito a poesia, de brotar sempre.
Dona Beta vem do sítio Chico, conta Eniete,
como é conhecida a filha caçula do casal. Aniete, de batismo, Eliete, Elizete.
O pai, Joaquim Pinto, morreu aos 69 anos. Seu Joaquim Ota tocava a casa de
jogos e a roça.
Aos 79 anos, na véspera da viagem para
Fortaleza para tratamento de saúde, Dona Beta fez doce pela última vez. Por
anos, Eniete caçou aquele gosto. "Comprava, comia e não encontrava o sabor
do doce de mãe".
Passou a fazer. "Foi muito, muito
difícil acertar, mesmo tendo visto mãe a vida inteira fazendo". O ponto de
doce é quando se começa a ver o fundo da panela. O de tijolo, é mais apertado.
Nos dois, o borbulhar pode causar queimaduras. Aniete usa luvas, manguita de
mototaxista, tecido sob o queixo, óculos e, por vezes, máscara. Marcas da
feitura, só as da memória da mãe a tirar do ofício o sustento da família. E
ficar para sempre nas histórias daquela várzea como uma vida inventada com
sabor.
p.s.: o tijolo é uma joia do Ceará: (88)
99908.5713. Embalagens de cerca de 500g e de 1kg. Na casa da antiga rua do
Capim, guarda-se a grade para tijolinhos. Tia Eniete a usou para festejar José,
único neto de Dona Beta. Se perder o telefone, grave Dona Isla Mônica. Tem nome
de ilha e conhece cada ponto de Várzea Alegre que vale um desembarque. São
incontáveis.
(*) Jornalista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo,
de 30/08/26. Vida & Arte, p.2.

Nenhum comentário:
Postar um comentário