quinta-feira, 14 de novembro de 2019

CARROS E HUMANOS


Meraldo Zisman (*)
Médico-Psicoterapeuta
A Notícia:
A partir do segundo semestre, as operadoras de planos de saúde poderão cobrar dos clientes uma franquia, de valor equivalente ao da mensalidade, semelhante ao que acontece hoje com o seguro de carros… Por exemplo, se o valor total pago no ano for de R$ 6.000 (mensalidade de R$ 500), este será o limite para os gastos extras do cliente com franquia e coparticipação…
Veja mais detalhes em:
As operadoras dos planos de saúde querem comparar pessoas a automóveis. A proposta da poderosa ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) dita normas prejudicais aos seus segurados, aproveitando o momento conturbado para esbulhar-lhes com maiores encargos e menos direitos.
Os seus CEOS (sigla inglesa de Chief Executive Officer que significa Diretor Executivo em Português) são os responsáveis pelas estratégias e visão da empresa a que servem, esquecem que são humanos, vão envelhecer e a doença não tem hora ou momento para acontecer. A maneira como tratam os idosos, com argumentos enganadores, é criminosa. Os velhos pobres e até os de classe média (que também é Povo) vão sofrer ainda mais do que sofrem hoje.
Propostas ilegítimas como essa não passam do avanço cada vez maior do poder econômico sobre o cidadão, já precariamente atendido pelo Estado. Agora com a Lava Jato seria pertinente uma lavagem nas relações dos Planos de Saúde com os nossos parlamentares envolvidos em corrupção e lobbies, cuja fome por dinheiro cresce às vésperas de campanhas eleitorais tão dispendiosas.
Nas sociedades corruptas os mais sacrificados são as pessoas das camadas mais pobres, mais dependente dos serviços públicos (infraestrutura, saúde, educação, previdência, saneamento básico, etc.) …
O resultado prático da irresponsabilidade dos tais CEOs, ainda sem essas novas modificações, fazem com que as “empreiteiras da nossa saúde” sejam tricampeãs nas reclamações no Procon e no Judiciário.
O Diretor Executivo Técnico da Notre Dame Intermédica – Luiz Celso Dias Lopes – declara ser o cenário da saúde suplementar muito difícil, caminhando para ficar insustentável em razão de fatores como a contínua inovação tecnológica na medicina, o envelhecimento populacional e afirma:
Talvez fosse necessário criar um mundo novo, frente à insustentabilidade desse setor. É preciso buscar novas formas de produtos, de ofertas e de compartilhamento de riscos.”
O que se pode esperar das entidades de defesa do consumidor é que entendam que a franquia apregoada virá trazer prejuízo aos segurados, sobretudo aos que usam os planos de saúde com mais frequência, como os idosos, pessoas com doenças crônicas ou graves.
Diz o Professor Mario Scheffer do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (DMP/FM/USP) e vice-presidente da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Preventiva): - “Os planos de saúde nunca serão a saída para o atendimento à saúde porque dependem de emprego e renda. […] Em momentos de recessão e crise, então, é uma péssima solução”, referindo-se as propostas em entrevista à repórter Monique Oliveira.
Na Grã-Bretanha os políticos advertem: mexer com o Serviço Nacional de Saúde (National Health Sevice) é a única coisa que “dá revolução”.
Mesmo sendo pagos durante anos e anos, os Planos de Saúde não atendem àquilo que prometeram aos seus consumidores e, quando os consumidores se tornam idosos, fazem de tudo para botarem esses fregueses dispendiosos para fora. Até os bancos estão tratando de diminuir os juros dos bons clientes.
Os Planos de Saúde fazem o contrário.
O projeto de mudanças protecionistas ainda maiores corre acelerado no Congresso Nacional. Será um novo marco legal que favorecerá as empresas, ameaçando consumidores e, por tabela, sacrificando um SUS tão esquecido, sobrecarregado e subfinanciado e maior credor (sem pagamento) dessas empresas.
Advirto como médico e cidadão: desconheço país que tenha entregue a Saúde de seus habitantes a entidades particulares que não tenha agravado ou piorado o sistema oficial da saúde, faltando às determinações constitucionais.
Nem tudo pode ser regulado pelas Leis do Mercado.
Será que, se aprovada, essa privatização sanitária disfarçada virá a ser mais uma jabuticaba que vão empurrar pela nossa garganta abaixo? Somente tenho certeza que não se pode comparar seguro de carro com seguro de saúde.
Franquia, em doença, não existe.
(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE) e da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES). Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).

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