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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Níveis de relacionamento teológico da Igreja Católica

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie (*)

Uma foto traz memórias, ativa saudades, recorda exemplos, provoca emoções e revive pessoas, fatos e lembranças. Assim, a Igreja tem fotos e imagens, a relembrar aos fiéis, que, apesar das fragilidades humanas, houve e há pessoas que seguiram, com denodo e firmeza, as pegadas de Jesus Cristo. Estas merecem nosso apreço e nossa consideração. Eis, portanto, os níveis de relacionamento teológico da Igreja Católica.

1) Latria deriva do grego λατρεία (latreía), do verbo λατρεύω (latreúo) - “adorar” ou “servir em culto”. Indica honra suprema de adoração somente a Deus, exclusivamente à Trindade. - Pai, Filho e Espírito Santo.

2) Hiperdulia deriva do grego υπερδουλεια (hiperduleia) - «elevada veneração»), mas abaixo de Deus. É aplicado, desde o século XIII, em honra à Virgem Maria;

3) Protodulia deriva do grego πρωτοδούλεια - veneração especial. Aplica-se  a São José, pai nutrício de Jesus, em honra a sua paternidade, dignidade e santidade, abaixo de Maria Santíssima;

4) Dulia deriva do grego δουλεια (duleia) e refere-se à veneração aos demais santos, modelos de vida cristã.

ADORAÇÃO somente a Deus. Aos santos, VENERAÇÃO.

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 1/02/26.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

UMA SUMÁRIA REFLEXÃO

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie (*)

Conta-se que, certa vez, numa instituição, havia uma diretora muito sagaz. Era assaz comunicativa e seu sorriso constante cativava os seus funcionários. Costumava apaziguar os ânimos, quando os espíritos se inflamavam.

Havia, no entanto, algo de estranho, na sua postura, que intrigava. Isto chamou a atenção e um seu assessor percebeu que, no surgimento de qualquer diatribe, seu sorriso não era franco, senão matreiro, perdia aquela beleza que cativava as pessoas.

Como nada se mantém escondido por todo tempo, a verdade surgiu. Percebeu-se que ela provocava os mal-estares e as confusões, para, em seguida, aparecer como uma pessoa pacificadora, amante da paz e da harmonia. E, como tal, receber os apupos e os aplausos, navegando na crista da onda.

Essa história, história com h, inspira algumas reflexões no mundo polímata de opiniões e ideias, desde as mais simples até as mais estapafúrdias, passando pelas sábias e prudentes.

Refiro-me ao Sistema Perverso, que a criatura humana tem inventado e alimenta, na mediocridade de seu livre arbítrio.

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 22/01/26.

domingo, 1 de junho de 2025

Leão XIV e o sussurro de uma leve brisa

Por Pe. Antônio Edson Bantim Oliveira  SJ (*)

Sorriso tímido, olhar orvalhado pela emoção, ternura e delicadeza nos gestos encerrados numa voz tranquila que desce sobre uma praça repleta de fiéis atentos e outras pessoas ansiosas por ouvir as primeiras palavras do sucessor de São Pedro. Como no domingo da Ressurreição, também naquele 8 de maio, ouviu-se as paravas imperativas do Ressuscitado: "a paz esteja com todos vós".

As mesmas palavras de Cristo que ecoaram no coração dos primeiros discípulos fazendo-lhes transbordar os corações de alegria. Habemus Papam! A grei peregrina do Senhor é novamente provida de um pastor que se define como "um humilde servidor dos irmãos, não mais que isso", e acrescenta no seu primeiro discurso aos cardeais: "compete a nós sermos dóceis ouvintes da Sua voz e fiéis ministros dos seus desígnios de salvação".

O novo papa, já de início, imprime o seu modus operandi, recordando a fatídica cena do encontro de Elias com o Senhor: "Deus ama comunicar-se, mais que no fragor do trovão ou do terremoto, no sussurro de uma leve brisa" ou ainda, "na voz sutil do silêncio", afinal, "o amor não ostenta, não se vangloria e nada faz de inconveniente" (1Cor 13,4-5).

Mas, enfim, quantas surpresas nos pode trazer o silêncio? Quanta força esconde-se no sussurro de uma brisa suave? Um sussurro de paz que se faz ouvir na linha dos auspícios de Francisco que convidava à fraternidade universal. Uma paz que escorre "como óleo precioso e perfumado desde a cabeça até à orla da existência humana, (Sl 133,2); seu perfume de bálsamo espalhou-se por toda a "casa comum" (Jo 12,3). Assim se apresenta, do balcão da imponente Basílica vaticana, o novo Vigário de Cristo.

É, sobretudo, no discurso aos cardeais que delineia os elementos essenciais de seu pontificado, recorrendo a textos de seus predecessores e ao espírito do Concílio Vaticano II. Suas preocupações iniciais são condensadas no anseio de buscar, "com ânimo sincero, a verdade, a justiça, a paz e a fraternidade". Vejamos, pois, o quanto nos poderá surpreender positivamente o papa que nos chega como o sussurro de uma leve brisa trazendo paz ao coração de um mundo em chamas.

(*) Doutor em Teologia Moral, pároco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima de Crato-CE e diretor do Colégio Pequeno Príncipe de Crato-CE.

Fonte: O Povo, de 14/05/2025. Opinião. p.16.

SOBRE AS ENCÍCLICAS

Por Rômulo Conrado (*)

A eleição do norte-americano Robert Prevost como novo papa, líder da Igreja Católica que adotou o nome de Leão XIV, faz relembrar, em momento extremamente conturbado da história mundial, documento de extrema importância para a compreensão acerca da visão da igreja acerca da questão social e dos problemas enfrentados e cada vez mais agravados pela forte concentração de riquezas.

Com efeito, a encíclica Rerum Novarum, de autoria do papa Leão XIII, representa o primeiro documento oficial por meio do qual a Igreja Católica se volta ao enfrentamento da questão social, ao examinar a candente questão dos operários, em relação aos quais destacou a imposição de jugo servil pelos donos das riquezas, propondo formas de conciliação entre as forças do capital e do trabalho.

Sua análise se mostra bastante relevante sob os pontos de vista histórico e secular, assinalando ser a propriedade um direito protegido pelas leis humanas e divinas e a repudiar o comunismo tratando-o como um princípio de empobrecimento e discórdia sociais, propondo a superação da luta de classes pela cooperação entre as forças, como resposta às crescentes reivindicações sociais e aos movimentos revolucionários do século XIX.

Ao mesmo tempo, destaca a necessidade de se reconhecer a dignidade do valor do trabalho, com o pagamento de valor mínimo que assegure subsistência, cabendo ao Estado o exercício da justiça de forma redistributiva e propondo o fortalecimento das entidades associativas, bases sob as quais se desenvolveram as sociedades democráticas nos anos posteriores e agora fortemente atacadas, evidenciando a busca por solução de consenso entre os modelos do capitalismo ilimitado e o socialista revolucionário

Cabe ainda mencionar por sua atualidade e relevância a encíclica Laudato Si, de autoria do papa Francisco, na qual se volta a atenção à proteção do meio ambiente, propondo a superação do paradigma do consumo desenfreado e considerando o enfrentamento às mudanças climáticas como um imperativo moral, para um modelo de ecologia integral, na qual o homem e a natureza sejam vistos como partes de um todo unitário.

(*) Procurador Regional da República.

Fonte: O Povo, de 14/05/2025. Opinião. p.16.

sábado, 10 de maio de 2025

FRANCISCO: O Evangelho em movimento

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

O pontificado de Francisco tem sido uma convocação profunda à essência do Evangelho. Seu legado se desenha como um retorno às raízes da fé cristã, despojado de formalismos e erguido sobre a ternura, a justiça, a simplicidade e a escuta sincera. Ele não reformou apenas estruturas — reformou a linguagem, os gestos, os símbolos e a própria maneira de a Igreja estar no mundo.

A opção preferencial pelos pobres deixou de ser apenas discurso e tornou-se prática concreta e cotidiana. Francisco desceu do trono simbólico do papado e caminhou entre os que sofrem, acolhendo migrantes, visitando periferias, tocando feridas humanas com misericórdia e compaixão. Sob sua liderança, a Igreja passou a respirar o ar puro da ternura evangélica, reencontrando o centro vivo da fé: Deus é amor que se inclina, que cuida, que serve, que levanta.

Sua teologia pastoral é marcada pelo discernimento, pela escuta dos sinais dos tempos e pelo diálogo honesto com o mundo contemporâneo — elementos profundamente enraizados na espiritualidade inaciana. Francisco abriu as portas do Sínodo, fortaleceu a cultura da escuta, do encontro, da sinodalidade e da corresponsabilidade, desafiando a Igreja a abandonar toda autorreferência estéril. Como bom pastor, guia sem impor, inclui sem excluir, ama sem medida e sem reservas.

É também o Papa da ecologia integral, da fraternidade universal, do cuidado com a casa comum e com a vida em todas as suas expressões. Encíclicas como Laudate Si e Fratelli Tutti não apenas orientam a caminhada da fé, mas exigem uma profunda conversão do coração, da consciência e das estruturas sociais, aproximando a doutrina da carne concreta da existência humana.

Na história do papado, Francisco ocupa um lugar absolutamente singular: o primeiro jesuíta, o primeiro latino-americano, o primeiro a tomar o nome de Francisco — e talvez o primeiro, em séculos, a fazer do papado um espelho nítido da vida de Jesus. Seu legado é a memória viva de um Cristo que se fez próximo. E isso, na história da Igreja, é verdadeiramente revolucionário.

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.

Fonte: O Povo, de 26/04/2025. Opinião. p.18.

quarta-feira, 7 de maio de 2025

O tempo de Graça no pastoreio de Dom Gregório em Fortaleza

Por Pe. Tiago Geyrdenn de Oliveira Gomes  (*)

Ao longo dos últimos 12 meses e 3 dias, ou 369 dias, como se diria de forma literal, Dom Gregório tem exercido seu episcopado à frente da Arquidiocese de Fortaleza. Para uns, esse tempo pode parecer breve; para outros, talvez longo demais, dada a relatividade do tempo. Mas, para nós, cristãos, o tempo não é apenas uma medida cronológica. Ele é sentido e, principalmente, vivido como decurso kairológico: um tempo de graça, um tempo da ação de Deus no momento oportuno.

Como o Apóstolo Paulo nos lembra na Carta aos Romanos, “Agora, a salvação está mais perto de nós do que quando abraçamos a fé” (Rm 13,11). Este momento que vivemos na Arquidiocese de Fortaleza, com a chegada de Dom Gregório, é, sem dúvida, um desses tempos de graça. Sua missão e sua presença pastoral têm sido um verdadeiro sinal de renovação para a Igreja local, como um "gregório" enviado a nós pela providência divina.

O nome Gregório, tão querido ao monaquismo, nos remete a figuras históricas de grande importância: Gregório Magno, o Papa que uniu a Igreja em tempos de grandes desafios, Gregório VII, o Papa reformador, e Gregório Taumaturgo, o eremita que dedicou sua vida ao serviço de Deus e ao anúncio do Evangelho. Cada um deles, em sua época, foi um farol de fé e transformação. Dom Gregório, vindo de Petrópolis, carrega consigo o mesmo espírito de missão, com a mesma determinação de servir e guiar o rebanho de Cristo.

Em apenas um ano de pastoreio, Dom Gregório tem mostrado a que veio. Seu ministério tem sido marcado pela proximidade com o povo. De suas visitas aos doentes e aos encarcerados, até os momentos de oração e partilha com o povo de rua e nas paróquias, o Arcebispo tem deixado claro que sua missão vai além dos muros das igrejas. Ele é um pastor presente, que caminha com os fiéis, não apenas pregando, mas vivenciando a misericórdia e a solidariedade cristã.

Além disso, a dimensão do ensino e da santificação tem sido uma constante em seu trabalho. Suas homilias e catequeses nutrem os fiéis com uma doutrina sólida e uma espiritualidade que resgata a essência do cristianismo. Como bom monge, Dom Gregório segue à risca a regra de seu pai fundador: rezar e trabalhar. E é notável como essa disciplina tem se refletido no seu dia a dia como pastor.

Ao refletirmos sobre o ano que se passou, não podemos deixar de perceber que Dom Gregório tem sido mais do que um sucessor. Ele tem semeado uma nova visão para a Arquidiocese, transformando a herança recebida em novas oportunidades de evangelização e serviço ao próximo. Como encontra-se no Evangelho, "um é o que semeia, outro é o que ceifa" (Jo 4,37). E é claro que, sob sua liderança, a semeadura tem sido abundante.

Estamos, sem dúvida, vivendo um tempo de graça, um tempo que é também uma oportunidade para refletirmos sobre nossa caminhada de fé. Que o Bom Pastor continue a guiar Dom Gregório em sua missão, abençoando seus passos e fortalecendo-o com saúde e vigor para os anos que ainda virão. Que seu pastoreio seja sempre mais profícuo, segundo o coração de Deus.

(*) Sacerdote. Diretor acadêmico da Faculdade Católica de Fortaleza.

Fonte: O Povo, de 19/12/2024. Opinião. p.21.

sábado, 15 de março de 2025

PEREGRINOS DA ESPERANÇA - Ano Jubilar 2025

Por Pedro Ferreira de Lima Filho SJ (*)

Iniciado em 24 de dezembro de 2024 pelo Papa Francisco, o Jubileu de 2025 traz como tema “Peregrinos da Esperança”, convidando o mundo a refletir sobre o papel essencial da esperança em tempos de crises climáticas e de guerras sem precedentes. Mais do que um evento litúrgico, essa celebração é um convite à renovação espiritual e à prática de valores universais como justiça social, perdão e fraternidade. Em um cenário global de divisões e incertezas, o jubileu surge como um momento propício para reavaliar nossas escolhas e redescobrir caminhos de reconciliação e solidariedade.

Com raízes na tradição bíblica, o jubileu simboliza perdão e recomeço. Porém, o chamado de 2025 vai além da fé cristã, propondo uma peregrinação interior acessível a todos, independentemente de crença ou religião. A mensagem é clara: combater o individualismo e promover a solidariedade. Virtudes como esperança e misericórdia se tornam pilares para a construção de um futuro mais acolhedor e justo, em que a humanidade se reconecte com o essencial.

Além da reflexão, o jubileu nos desafia a agir. Para os católicos, é um momento de renovação da fé e do compromisso com a Igreja. Porém, sua essência é universal: como podemos transformar nosso entorno? Essa celebração nos provoca a traduzir crenças, ou seja, sejam religiosas ou humanistas em ações concretas que inspirem mudança e esperança.

O Ano Jubilar de 2025 é um convite a superar as divisões e a fortalecer laços de solidariedade. Sob a liderança do Papa Francisco, somos chamados a promover a paz, a justiça social e o cuidado com o meio ambiente, em um compromisso que une pessoas de todas as crenças e culturas.

Mais do que uma celebração religiosa, o jubileu inspira um movimento global de transformação, guiado pela esperança na construção de um mundo mais justo e harmonioso. Que, ao final deste jubileu, em 24 de dezembro de 2025, a humanidade esteja mais unida e confiante em um futuro de maior equilíbrio e cooperação.

(*) Filósofo, pedagogo e teólogo.

Fonte: O Povo, de 14/01/2025. Opinião. p.16.


sábado, 10 de agosto de 2024

Jürgen Moltmann é o teólogo do Deus crucificado

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

Em 3 de junho, aos 98 anos faleceu, em Tubingen, na Alemanha, o grande teólogo Jürgen Moltmann. Um dos mais influentes da 2ª metade do século XX, que realizou uma revolução na teologia cristã com repercussões nos campos da cultura, política, ecologia e diálogo.

Teólogo que transformou sua experiência pessoal em "existência teológica", uma vez que, a partir das experiências de vida e morte, buscou as respostas na fé. Sua teologia é biográfica, com fortes marcas autobiográficas. Uma teologia feita não apenas com a razão, mas com o coração e com a alma.

Tive a graça de aprofundar uma das suas obras mais significativas "O Deus crucificado", no mestrado que realizei na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), reflexão que depois foi publicada pelas edições Paulinas com o título: "Em Jesus, Deus assume o sofrimento humano". O que encanta em sua obra é a revolução que ele faz da imagem de Deus.

Moltmann faz da cruz de Cristo a chave de compreensão do mistério do Deus cristão e demonstra que os sofrimentos da humanidade, que parecem sem sentido, são abraçados a partir de dentro pelo Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo. O Deus dele é Aquele que, desde sempre, tem amado de forma apaixonada. Não se trata da teologia abstrata da cruz e do sofrimento, mas de uma teologia do Crucificado, a partir do sofrimento de tantos crucificados de ontem e hoje.

Deus não só se identifica com sofredores, mas se faz vítima na sua entrega na Cruz. "Um Deus vulnerável, com entranhas de misericórdia". Deus diferente do deus de Aristóteles, distante, insensível e incapaz de amar. Em suas palavras: "O Deus cristão sofre de amor. Não é um sofrimento imposto de fora - pois Deus é imutável - mas um sofrimento de amor, ativo. É um sofrimento aceito, livre". Assim, Moltmann mostra que Deus não se reconhece pelo seu poder e sua glória no mundo, mas pela sua impotência e morte na cruz de Jesus.

A cruz nos apresenta Deus em seu oposto: humilde, débil, sofrido e fraco. Precisamos purificar nossa imagem do Deus de Jesus, para não permanecermos indiferentes ante o sofrimento dos outros e não busquemos dar explicações dolorosas que levem à aceitação resignada do sofrimento.

Quem crê assim em Deus, não silencia diante da morte, mas proclama a sua vitória de Deus sobre o sofrimento, a injustiça e a morte. O Crucificado é o Ressuscitado. E o Ressuscitado é o Crucificado! Que Moltmann seja acolhido nos braços do Deus que ele nos ensinou a conhecer e a amar.

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.

Fonte: O Povo, de 29/06/2024. Opinião. p.18.


segunda-feira, 29 de março de 2021

DUAS TESES FILOSÓFICAS

Por Luiz Gonzaga Fonseca Mota (*)

René Descartes (1596-1650) nasceu na França e faleceu na Suécia. Considerado o pai da filosofia moderna, destacou-se como o primeiro grande representante do Racionalismo, seguido então por Leibniz. David Hume (1711-1776), nasceu e faleceu na Escócia, foi um dos mais célebres filósofos da Época Moderna, fundador da escola cética ou agnóstica, admirado por muitos amigos, inclusive membros da Igreja. Como Descartes, Hume possuía muitos seguidores, dentre os quais se destacou Locke. Os pensamentos de Descartes e Hume deram origem a duas correntes filosóficas, respectivamente: o Racionalismo e o Empirismo. A primeira diz que a razão é a fonte do conhecimento, a segunda mostra a importância dos sentimentos: audição, visão, olfato, tato e paladar. Kant iniciou suas observações filosóficas tentando conciliar as duas correntes, causando muita tensão, o que levou Hegel a conceber com profundidade o seu sistema dialético, desenvolvido por tese, antítese e síntese. A filosofia cartesiana tem por base dois pontos opostos: a coisa pensante (res cogitans), relacionada com o espírito, e a coisa extensa (res extensa) inerente à matéria. Espírito e a matéria seriam criações de Deus, cuja existência era essencial à filosofia de Descartes, embora seus seguidores, em épocas posteriores, procuraram omitir qualquer referência a Deus, porém mantendo a divisão entre o espírito e a matéria. Por sua vez, as relações matemáticas, segundo a teoria cartesiana, deveriam proporcionar uma descrição racional de todos os fenômenos naturais, objetivando descobrir a verdade. Defendeu que o início seria a dúvida e não a fé. Por outro lado, vale ressaltar que o argumento “Penso, logo existo” não foi original, pois fora dito, em outras palavras, por Santo Agostinho há mais de doze séculos. Já Hume desenvolveu suas teses tendo por base o Empirismo. No tocante à lógica, analisou a relação de causa e efeito, o que nos leva além de nossos sentidos. Todavia, Hume nega que não há conexão entre o que existe e o que não existe. Ademais, não obstante suas concepções céticas e agnósticas, a existência de Deus seria provada, mediante o argumento da causalidade.

(*) Economista. Professor aposentado da UFC. Ex-governador do Ceará.

Fonte: Diário do Nordeste, Ideias. 12/3/2021.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

CAPITAL SOCIAL

Por Luiz Gonzaga Fonseca Mota (*)

Os economistas quando se referem ao capital social ressaltam o volume de investimentos ou gastos nas áreas de educação, saúde e apoio às comunidades carentes, etc. São dispêndios importantes que, em última análise, têm por objetivo contribuir para a melhoria da qualidade de vida das pessoas, bem como para a redução do número de excluídos numa região. O conceito de capital social poderia ser examinado sob dois aspectos complementares e não dicotômicos: capital social tradicional e capital social comportamental. O primeiro, representado pelas ações mencionadas, teoricamente apoia-se na política. Já o segundo abrange conceitos mais amplos, envolvendo fundamentos filosóficos, religiosos, morais, éticos, dentre outros, além da política. O tradicional dificilmente se consolida sem alterações substanciais no comportamento das pessoas. Não adianta a adoção de teses liberais, socialistas e clássicas, os exemplos de “apartheid” social existiram e continuarão, caso não surjam modificações no pensamento da humanidade relacionadas, do ponto de vista coletivo, com a paz, a justiça e a liberdade como também, do individual, com o amor, a solidariedade e a humildade. Eis as atitudes integrantes do verdadeiro capital social. É difícil compreender as propostas de filósofos e teólogos, como também os pensamentos de ateus e agnósticos. Vale salientar nossa admiração às ideias e sentimentos de Santo Agostinho, na Escola Patrística, e de São Tomás de Aquino, na Escola Escolástica, em busca da conciliação da fé e da razão, ambos inspirados nas mensagens de Cristo e de São Paulo e nas filosofias de Platão (Santo Agostinho) e de Aristóteles (São Tomás de Aquino), mostrando a importância do Cristianismo em proporcionar uma resposta integral. Deus é a própria verdade. Conforme o Evangelho de São João (14.6): “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”.

(*) Economista. Professor aposentado da UFC. Ex-governador do Ceará.

Fonte: Diário do Nordeste, Ideias. 20/11/2020.

segunda-feira, 2 de março de 2020

PADRE CÍCERO: fé e razão


Por Luiz Gonzaga Fonseca Mota (*)
Padre Cícero, cearense do Cariri, religioso por convicção e sentimento, como também político em razão de fatores circunstanciais, nunca abandonou os princípios básicos da justiça social, da oração e do trabalho. Falar ou escrever sobre a vida e a obra do grande Padre Cícero Romão Batista- “Padim Ciço”- poderia ser mais um texto biográfico, dentre vários brilhantes, mostrando sua luta em favor dos mais humildes. Foi responsável pela expansão da fé não só no Nordeste do Brasil, mas no restante do País e com reflexos em outros. Como sua vida não foi analisada com a merecida ênfase, tomando-se por base aspectos teológicos e filosóficos, fez-se do ilustre patriarca uma figura polêmica, quando na verdade deveria ser uma unanimidade. Padre Cícero, a rigor, seguiu o tomismo, ou seja, o pensamento de Santo Tomás de Aquino, tendo por ponto fundamental a doutrina escolástica, buscando a harmonia entre o racionalismo aristotélico e os ensinamentos do cristianismo. A doutrina de Aristóteles caracterizou-se pela diversidade e complexidade temática, bem como pela sistematização e aperfeiçoamento de todos os saberes de seu tempo. Ademais, ninguém pode negar que Padre Cícero também se inspirou na filosofia metafísica cristã de Santo Agostinho (Escola patrística). Este tomou por base a doutrina de Platão, caracterizada por ideologias eternas e transcendentes, importantes para a consolidação do comportamento moral e da organização política. Pode-se dizer que Padre Cícero foi um discípulo de Santo Tomás de Aquino e de Santo Agostinho. Lamentavelmente, muitos não entenderam e não comentaram. Como católico praticante, acredito ser necessária uma análise mais profunda das atitudes e do pensamento do Padre Cícero, à luz das doutrinas básicas da igreja, envolvendo diretrizes filosóficas e teológicas. Salve nosso querido Padre Cícero.
(*) Economista. Professor aposentado da UFC. Ex-governador do Ceará.
Fonte: Diário do Nordeste, Ideias. 21/2/2020.

sábado, 1 de dezembro de 2018

A MÍSTICA DA AÇÃO E CONTEMPLAÇÃO

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ
Em tempos da "cultura do espetáculo, do descarte e da pressa" há necessidade de priorizar momentos para ouvir o silêncio e o encontro com a família e amigos. São momentos existenciais que nos remetem à transcendência. Momentos com sabor de eternidade. É bom parar e ir ao essencial, para evitar o pior: síndrome do pensamento acelerado, vazio existencial.
Em tempos de agitação necessitamos de mística. Afirmação profética já anunciada por Karl Rahner, maior teólogo católico do século XX: "O cristão de amanhã será místico ou já não será cristão". Quando dizia "será místico", não se referia ao mero sentimento, nem falava de mística com o sentido de fenômenos extraordinários: visões, estigmas, levitações etc. Queria dizer que o cristão ou faz uma experiência pessoal de Deus ou vive da ideia de Deus. Na "cultura da ausência de Deus" (J. Moingt), o que predomina é a experiência de não ter feito nenhuma experiência religiosa, isto é, não ter sido afetado, nem, muito menos, transformado por algo que possa ser denominado Deus". Muitos vivem da ideia de Deus e não da experiência com Deus. Inácio de Loyola já alertava que Deus não é um "saber", e sim, um "sabor". Deus se dá a si mesmo e se deixa saborear em ato de Presença. É esta Presença gratuita que encontramos o sentido último e a salvação. O essencial, de um modo ou outro, é em Deus que se encontra, mas numa experiência pessoal. Como no amor. Deus aparece nas experiências radicais e originárias da vida. Nosso drama é perder a memória de que somos parte do todo: ao distanciar-nos do Deus Criador rompemos a relação cordial com todos e caímos no vazio existencial.
O auto-centramento, sem levar em conta a rede de encontros que nos envolve, provocou a quebra da "re-ligação" com tudo e todos. O que nos corrói é a petrificação de nossa interioridade, a perda do gosto pela verdade, pelo bem, o extravio da ternura, o esvaziamento dos encontros. O que nos desumaniza e isola é a cultura da indiferença. Ela edifica a barreira instransponível entre nós e os outros. Aos poucos, nos recolhemos em nossos medos e começamos a acreditar que os diferentes são nossos inimigos. Da indiferença passamos às práticas fundamentalistas, à segregação. Nossa vocação é construir pontes e ser presença reconciliadora em situações de fronteira, colocando nossa energia, nossa formação, nossa vida a serviço para criar e sustentar os laços humanos, estruturas políticas e econômicas que tornem possível a solidariedade, o encontro entre todos os seres humanos e aponte para um mundo fraterno e justo.
(*) Padre jesuíta e mestre em Teologia.
Fonte: O Povo, de 3/11/2018. Opinião. p.16.

sábado, 25 de agosto de 2018

TEMPO DE RENOVAÇÃO


Por Pe. Eugênio Pacelli SJ
O filósofo pré-socrático Heráclito afirmava que ninguém toma banho no mesmo rio duas vezes, pois, na segunda vez o rio já não é o mesmo, tampouco a pessoa. Com isso, o grande Heráclito afirma que tudo flui e segue seu ciclo natural. Os momentos são sempre únicos e as águas da vida não mais retornarão, porquanto, já fluíram. Os momentos e as pessoas não mais se repetirão. Daí a necessidade de vivermos intensamente cada segundo da existência.
Esta reflexão é propícia para tempos de renovação. Sempre que iniciamos um novo ciclo, alimentamos nosso coração de sonhos, projetos e propósitos a serem realizados. Porém, na correria e na agitação diária, os sonhos dão espaço ao desânimo, e os propósitos às cobranças pessoais, que nos sufocam e tiram o foco do essencial. O que nos impede de viver cada momento intensamente é que, no presente, vivemos presos ao passado ou preocupados com o futuro. Quem vive preso ao passado, nem vive o presente e nem projeta o futuro, esperamos sempre pelo amanhã o que pode acontecer hoje. Vivemos e sofremos por antecipação. Jesus já nos advertia: a cada dia basta sua preocupação.
Santo Agostinho afirmava que nossa eternidade será a soma de momentos intensos vivenciados até aqui. Momentos vividos com intensidade que já deixaram marcas do eterno em nós. Momentos nos quais amamos e fomos amados, momentos que construímos e nos deixamos construir, momentos em que o coração amou, por isso, eternizou.
A segunda metade do ano já começou. Estamos mergulhados num contexto social, político e econômico que parece favorecer o desânimo e a tristeza. Deus é Pai do ânimo, o diabo do desânimo, que tira de nós todo sonho e toda ousadia. O desanimado é refém do seu próprio medo, já não ousa, não arrisca e nem sonha. Sempre é tempo de recomeçar, redefinir metas e "faxinar" o coração de tudo que é empecilho para pensar alto e alçar voos em direção à meta desejada.
(*) Padre jesuíta e mestre em Teologia.
Fonte: O Povo, de 28/7/2018. Opinião. p.16.

sábado, 14 de julho de 2018

A ARTE DE ESCUTAR-SE PARA ESCUTAR A DEUS


Por Pe. Eugênio Pacelli SJ
O homem pós-moderno desaprendeu a arte de rezar. “É oco”, pobre de interioridade, vive de “fora para dentro”, na superficialidade. Já chegou à Lua mas não sabe entrar no próprio coração para escutar a si e a Deus.
O ativismo da vida moderna o deixa descentrado e disperso. Agitado, vive voltado para fora. Perde a identidade, não sabe quem é e para onde vai.
Torna-se vazio, com subjetividades desintegradas. Daí a falta de paz interior, a angústia, o desânimo, a depressão e aos poucos perde o gosto de viver e de crescer. Tudo embalado pelo tédio e o vazio existencial.
Jesus Cristo já nos advertia que sem Ele não vamos a lugar nenhum. Quem reza adquire uma identidade mais sólida. Ganha em autoestima porque se vê como Deus o vê. Assim, encontra mais sentido nas coisas, percebe mais encanto em seu mundo. Sente-se mais sereno, equilibrado e mais feliz, crescendo assim a sensibilidade e o compromisso com os valores profundos da vida.
A oração, além do uso religioso, pode também ter uso terapêutico. Faz bem à alma, mas também ao corpo e à mente ou psique. Ela serve para prevenir doenças de fundo emocional. Justamente por esses benefícios a meditação está entrando na agenda das políticas públicas de saúde.
Se quisermos ter saúde física, psíquica e religiosa precisamos priorizar um tempo para a oração diária na nossa vida super-agitada. Não importa a quantidade do tempo, mas a qualidade que dispomos para um encontro pessoal conosco e com Ele, no silêncio e na paz.
Quem não tem tempo para se escutar jamais escutará “Deus em si”. Quanto mais interioridade mais profundidade, quanto mais exterioridade mais superficialidade. Corremos o risco de viver uma vida superficial, sem profundidade, fútil.
O nosso equilíbrio e o equilíbrio dos nossos relacionamentos passam pela oração, que é encontro com Aquele que nos ama e nos fortalece e que habita no mais íntimo do nosso ser.
(*) Padre jesuíta e mestre em Teologia.
Fonte: O Povo, de 30/6/2018. Opinião. p.18.

domingo, 21 de maio de 2017

A ESPIRITUALIDADE E A RELIGIÃO


Por Teilhard de Chardin (*)
A religião não é apenas uma, são centenas.
A espiritualidade é apenas uma.
A religião é para os que dormem.
A espiritualidade é para os que estão despertos.
A religião é para aqueles que necessitam que alguém lhes diga o que fazer e querem ser guiados.
A espiritualidade é para os que prestam atenção à sua Voz Interior.
A religião tem um conjunto de regras dogmáticas.
A espiritualidade te convida a raciocinar sobre tudo, a questionar tudo.
A religião ameaça e amedronta.
A espiritualidade lhe dá Paz Interior.
A religião fala de pecado e de culpa.
A espiritualidade lhe diz: "aprenda com o erro"...
A religião reprime tudo, te faz falso.
A espiritualidade transcende tudo, te faz verdadeiro!
A religião não é Deus.
A espiritualidade é Tudo e, portanto é Deus.
A religião inventa.
A espiritualidade descobre.
A religião não indaga nem questiona.
A espiritualidade questiona tudo.
A religião é humana, é uma organização com regras.
A espiritualidade é Divina, sem regras.
A religião é causa de divisões.
A espiritualidade é causa de União.
A religião lhe busca para que acredite.
A espiritualidade você tem que buscá-la.
A religião segue os preceitos de um livro sagrado.
A espiritualidade busca o sagrado em todos os livros.
A religião se alimenta do medo.
A espiritualidade se alimenta na Confiança e na Fé.
A religião faz viver no pensamento.
A espiritualidade faz Viver na Consciência.
A religião se ocupa com fazer.
A espiritualidade se ocupa com Ser.
A religião alimenta o ego.
A espiritualidade nos faz Transcender.
A religião nos faz renunciar ao mundo.
A espiritualidade nos faz viver em Deus, não renunciar a Ele.
A religião é adoração.
A espiritualidade é Meditação.
A religião sonha com a glória e com o paraíso.
A espiritualidade nos faz viver a glória e o paraíso aqui e agora.
A religião vive no passado e no futuro.
A espiritualidade vive no presente.
A religião enclausura nossa memória.
A espiritualidade liberta nossa Consciência.
A religião crê na vida eterna.
A espiritualidade nos faz consciente da vida eterna.
A religião promete para depois da morte.
A espiritualidade é encontrar Deus em Nosso Interior durante a vida. 

"Não somos seres humanos passando por uma experiência espiritual...
Somos seres espirituais passando por uma experiência humana... " 

(*) Pierre Teilhard de Chardin, (nascido em Orcines, 1 de maio de 1881 — falecido em Nova Iorque, 10 de abril de1955), foi um padre jesuíta, teólogo, filósofo e paleontólogo francês que tentou construir uma visão integradora entre ciência e teologia.
Fonte: Internet (circulando por e-mails e i-phones).

sábado, 23 de julho de 2016

RUBEM ALVES: O Poeta da educação se despede


Por Paulo Renato Abreu
Rubem Alves dedicou-se a estudar o humano, principalmente por meio da educação e da religião. Pesquisadores debatem a contribuição do intelectual para as ciências humanas.
Rubem Alves dedicou 80 anos de vida a pensar o homem em sua complexidade. O intelectual escreveu sobre educação, religião, infância, velhice, morte e outras tantas questões. “Quem sabe que está vivendo a despedida olha para a vida com olhos mais ternos”, ponderou no livro As cores do crepúsculo: a estética do envelhecer. O escritor mineiro, que passou toda a vida com “olhos ternos” ao humano, se despediu no último sábado, aos 80 anos, em Campinas (SP), após falência múltipla de órgãos.
Rubem Alves foi um pensador bastante abrangente. Ele mostrou que não é um pecado estudar muito, pensar muito. O grande legado dele é o desafio de pensar por si próprio”, afirma Rosendo Amorim, doutor em Sociologia e professor da Universidade de Fortaleza (Unifor). Amorim destaca: Rubem foi um “frescor” aos estudos das ciências humanas, pois desenvolveu seus estudos de modo “original e ousado”.
Mestre em Teologia, doutor em Filosofia e psicanalista, Rubem Alves devotou o tempo a refletir sobre a educação como busca constante à valorização do pensamento amplo em detrimento da educação “limitada” pela tecnologia. O intelectual se dizia contrário ao vestibular tradicional, que, segundo ele, não incentivava os alunos à sabedoria.
Antes de aprender fórmulas, ele defendeu que se devia aprender a pensar sobre o meio em que se vive e a considerar a dimensão poética da vida”, afirma Jacques Therrien, professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará (UFC). Jacques destaca que, ao pensar sobre educação, Rubem estava mais “preocupado com a formação de cidadãos, antes da formação de trabalhadores, de técnicos”.
Professor emérito da Unicamp, o escritor defendeu que a educação fosse um processo prazeroso para quem aprende. “Rubem pensou a formação de um ser humano mais flexível, que está no mundo não apenas para trabalhar e ganhar dinheiro, está para viver, para conviver”, pontua Jacques Therrien.
Ele defendeu uma educação por meio do saber e não somente do conhecimento, defendeu ser importante o desenvolvimento de uma sabedoria de vida”, complementa Rosendo Amorim.
Teólogo da libertação?
Entre as publicações de destaque do escritor, está a obra Da esperança – Teologia da esperança humana, considerada marco importante para os fundamentos da Teologia da Libertação, movimento que propõe interpretação politizada sobre os ensinamentos cristãos. O escritor lançou também outros livros que são marcantes para o movimento e para a religião, como O Suspiro dos Oprimidos.
 Rubem Alves corria por fora da teologia tradicional. Em O Suspiro dos Oprimidos, por exemplo, ele interpreta a religião enquanto discurso articulado dos desejos dos seres humanos”, destaca Carlos Tursi, doutor em Filosofia e Teologia. O professor assinala que Rubem encarava a religião como a “voz dos que nada têm”. “Para ele, a religião se nutria da ausência de plenitude e os pobres seriam os mais religiosos, pois são os mais carentes de tudo”.
Para Carlo Tursi, o autor mineiro foi um “defensor da religião e detrator da teologia”, pois, ao centrar-se no homem, tratou “Deus como uma projeção do ser humano”. Rubem foi pastor da Igreja Presbiteriana, mas, no final da vida, declarou-se ateu. “Apesar de ter acabado os dias como descrente, foi um crente no que é belo, no que é verdadeiro.”
O corpo de Rubem Alves foi cremado no último domingo (20/07/2014), no interior de São Paulo. Suas cinzas foram depositadas embaixo de um ipê amarelo.
PERFIL
Rubem Alves nasceu em 1933, na cidade de Boa Esperança, Minas Gerais. Escritor, psicanalista, educador e teólogo, Rubem foi autor de mais de 160 títulos e professor emérito da Universidade de Campinas (Unicamp). Morto no último sábado, 19, o escritor foi velado na Câmara Municipal de Campinas e teve o corpo cremado em Guarulhos (SP).
Fonte: O Povo, de 22/07/14. Cad. Vida & Arte. p.1.
Nota do Blog: Esta postagem é uma homenagem a Rubens Alves na passagem dos dois anos do falecimento do renomado escritor.
Marcelo Gurgel Carlos da Silva– Editor do Blog
 

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