Por
Izabel Gurgel (*)
O melhor bolo do nosso mundo é o da Walma,
a primeira Laena da família e a herdeira da forma de bolo da tia Meralda. Tia
Esmeralda fez durante anos nossos melhores bolos. O de cobertura de maracujá,
cortado em losangos, surgia feito um painel Athos Bulcão, daqueles que a gente
vê em Brasília e reconhece o jogo, a brincadeira com a geometria, e lambe com
os olhos, ao tempo que a obra nos olha, como a paisagem.
No caso do simples bolo fofo da Walma, dá
pra saber bonito, sentindo, por que chamamos de céu da boca um dos portais de
alegrias que levamos em nós.
Depois da Flora - que tem dois anos, dois
meses e três dias e já tem chão de apreciadora praticante do bolo da vó -, o
bolo da Walma é o ímã mais eficaz para nos aglutinar. Mal aparece no zap a
mensagem "tem bolo da Walma" e chega todo mundo antes que o bolo
esfrie. Velozes? Kms de distância parecem ficção.
Dobramos o espaço, e a mesa realiza seu
destino de encruzilhada. É o nosso simpósio. E cada bolo, a nos lembrar de que
nadica de nada sabemos sobre o milagre que é a vida, cada bolo atualiza a
cantada perfeição do anterior. E nos absurda. Como pode estar melhor que
aquele?
O cheiro do bolo é banda de bloco dobrando
a rua. O corpo escuta logo. Células no modo confete, coluna se desenrola feito
serpentina e os pés ensaiam rotas de cura. É tipo anúncio da farra, e me faz
pensar n'A Turma do Mamão, nascida e criada no Centro de Fortaleza.
A Turma do Mamão desfila amanhã, segunda,
na Domingos Olímpio, onde a vi passar anos atrás com aquela alegria em bando
que a rua amplia de um jeito que só é possível na rua. E a rua cresce com ela.
Não há Carnaval que não me ocorra Clarice,
adulta, recriando o Recife da infância em tempo de folia. Ela afirma que foi
quando se deu conta do destino para o qual as ruas da cidade haviam sido
feitas.
Um pedacinho do texto "Restos do
Carnaval" nos dá as boas-vindas, a nós visitantes, ao Paço do Frevo, museu
no Centro de Recife. Se der vontade de ler na íntegra, dá um google e vc acha
fácil. Prefere ler no papel? Está no livro "Felicidade Clandestina".
Tão nosso isso da escritora "complexa
e difícil" de abre-alas no velho prédio restaurado que abriga uma fonte
sobre um dos ímãs da vida em Pernambuco. Pernambuco do bolo de rolo e do bolo
de noiva, tão apreciada a parte comida na festa quanto a guardável para se
comer no ano seguinte.
Feito brincantes do Rei de Paus hoje,
depois do desfile na Domingos Olímpio, escutando, no gosto do recém-vivido à
flor da pele, os sinais do Carnaval que virá.
Pele de brincante é tipo casca de bolo:
está tudo ali. Tem mais maracatu na avenida. Mas eu sou tão fã do que Seu
Geraldo (Barbosa) fazia no Rei de Paus quanto da oferenda da Laena-Mãe.
O bolo da Walma é nosso Carnaval, nunca
fora de época, porque festa que é festa nos
instala no agora.
E quem não vai querer?
(*) Jornalista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 15/02/26. Vida & Arte, p.2.

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