terça-feira, 7 de abril de 2026

ÁRVORES FALAM?

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Hoje, ao levantar-me, corria uma suave brisa com um leve sereno dos céus, pingos miúdos a perpassarem um véu.

Abri a janela e ouvi a voz de uma árvore. Era uma velha mangueira, baloiçando seus galhos, num vai-e-vem rítmico de uma bela valsa portuguesa.

Velha, não decrépita.

E ouvi sua voz. Das pontas de seus galhos brotavam renovos, que saracoteavam alegres, ao toque da brisa. Seus rebentos, brotos tenros, delicados, tez de um verde-claro, irrepreensivelmente, charmoso, caiam uns sobre os outros, com peraltices de impúberes crianças. E os galhos, muitos gastos no tempo, com suas folhas verde-pardacentas de tantas refregas, acolhiam, calmamente, essa nova geração, acenando-lhe um bem-vindo aliviado e letante.

Quedei-me a sorver aqueles momentos, que, de tão alegres, saltaram dentro de mim, fizeram-me tanto bem, que minh’alma sorriu, extasiada com tamanha singela maravilha. Levantei os olhos e balbuciei uma prece de agradecimento e louvor ao Criador.

Dei-me conta de que idades podem se renovar, de que envelhecer pode rejuvenescer, basta deixar um renovo surgir para o velho voltar a sorrir dos cansaços de sua marcha irretornável, porém, sempre pronta ao renovável.

Lembrei-me também da máxima de Lavoisier. Nada de fato se perde, mas se não acontece transformação, ela se transforma em perda.

Nossas células renovam-se. Nossos princípios renovam nossos valores, nossas crenças remoçam nossa fé.

Como aquela mangueira, para caminhar com esbeltez e pujança, que venham novos rebentos, que a alma alenta e a vida alimenta.

Árvore fala, sim, senhor.

Não dá apenas flores ou frutos ou sombra, ela nos proporciona também lições de ‘ser’.

Tenhamos um nome sábado, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 21/03/26.


99 TOMS EM 99 TONS

Por Tales de Sá Cavalcante (*)

Estava eu sem Mindlin, mas entre livros, numa das poucas livrarias de hoje e "garimpei" notável dueto. A biografia de Tom Jobim por Ruy Castro, o mesmo que, na Folha, considerou que, se escrita pela própria pessoa, não é biografia, pois só o seria se fossem usadas as armas do biógrafo, entre elas ouvir um mínimo de 200 fontes. Para o escritor, a autobiografia é mais uma memória, em que o autor ouve apenas a si mesmo.

O livro era "O ouvidor do Brasil: 99 vezes Tom Jobim", considerado o melhor de 2025 no Prêmio Jabuti, onde o numeral do subtítulo explicita quantas são as crônicas ali reunidas. A descrever melodias, compositores, letristas, cantores e até filmes, o escritor revela: Jobim dizia que "acordar cedo, ver o sol, respirar fundo e achar que a vida é bonita era o que o estimulava a sentar e escrever música". E que "numa época que não se falava em ecologia, já denunciava a destruição das matas, a especulação imobiliária e a poluição das águas".

Segundo o autor, sempre que Jobim abria o piano, o mundo melhorava. E o músico afirmou: "o Japão é um país paupérrimo, com vocação para a riqueza. Nós somos um país riquíssimo com vocação para a pobreza".

Reza a lenda que linda garota, com o charme da carioca, a caminho da praia, passava em frente ao Bar Veloso, onde ficavam Tom e Vinicius a admirá-la pela "beleza que passa sozinha", sem saber que "o mundo inteirinho se enche de graça e fica mais lindo por causa do amor". A lenda também diz que Vinicius e Tom criaram "Garota de Ipanema" no próprio bar, que, por sinal, passou a ter o nome da canção.

O livro nos ensina que Tom compôs a música num apartamento e Vinicius escreveu a letra noutro. Para o autor, Tom Jobim compunha e Vinicius vestia com letras aquelas canções. Digo eu: que corpo, o do cliente! Que alfaiate! E que prova viva! O literato aponta no livro: "Tom não morreu. E, a qualquer hora dessas, vamos cruzar com ele, à sombra de alguma árvore que já não está mais lá". Indica o seu epitáfio como: "tu foste a única culpada". E indaga se era Ligia, Luiza, Gabriela ou Teresa da praia, de quem, a meu juízo, nem a praia conseguia ser sua dona...

(*) Reitor do FB UNI e Dir. Superintendente da Org. Educ. Farias Brito. Presidente da Academia Cearense de Letras.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 5/03/26. Opinião, p.18.


segunda-feira, 6 de abril de 2026

A EQUAÇÃO DA CASA

Por Romeu Duarte Junior (*)

Em muito boa hora, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) dedicou a Campanha da Fraternidade de 2026 ao debate sobre a habitação. Com o lema "Fraternidade e moradia" e com um cartaz que traz, além de um sem-teto dormindo num banco de praça, um trecho do evangelho de João ("Ele veio morar entre nós"), a instituição lança luz sobre um tema complexo que mexe com a minha categoria profissional desde que o mundo é mundo. Estima-se que o déficit habitacional brasileiro é da ordem de 6 milhões de residências, o que alcança, em média, entre 24 a 30 milhões de pessoas, isso sem que se fale no gasto excessivo com o aluguel urbano e as inadequações habitacionais fruto do improviso na construção das moradas. Como se vê, é um assunto oportuno e adequado a ser tratado num ano eleitoral.

Contudo, a questão habitacional não se restringe à casa, mas a um universo mais ampliado, que envolve as regiões e as cidades. Tomemos a nossa Fortaleza como estudo de caso: com mais de 2,7 milhões de habitantes, é a quarta capital do País em população e a mais populosa do semiárido no mundo. Caucaia é o município cearense que vem logo atrás, com quase 380 mil almas. Por esses números vê-se que a disparidade é flagrante. Por sua vez, a Região Metropolitana de Fortaleza conta hoje com 19 municípios e concentra 44% da população do Ceará. A isso se chama metropolização descapitalizada, um corpo com uma cabeça grande demais e membros atrofiados. Nosso grande desafio é trabalhar para reforçar as cidades médias e evitar o êxodo que nos constrange.

Fortaleza tem hoje algo em torno de 700 mil pessoas em favelas ou comunidades urbanas, sendo a terceira no Brasil, atrás apenas de São Paulo e Rio de Janeiro, sem que seja preciso dizer da ação de facções e milícias nessas áreas. Projetos de urbanização para esses setores da Cidade fazem-se mais que necessários, elaborados, contudo, com índices apropriados que não aqueles produzidos para a arquitetura convencional. Aliás, é fundamental compreender que, neste tema, se o número é importante, mais ainda é a qualidade do morar. Não podemos cair novamente na esparrela do Minha Casa Minha Vida (MCMV) priorizando a quantidade e esquecendo os valores e atributos espaciais. De outra parte, a casa carece de funções correlatas para ter sentido. Como fazer mil moradas no meio do nada?

Todo domingo, no caminho para o Raimundo do Queijo, encontro uma multidão de miseráveis na fila da sopa da Praça do Ferreira. Reflito de mim para comigo: Essas pessoas querem um lugar para morar ou desejam ter um espaço para guardar suas coisas, tomar banho e fazer as suas necessidades, dormir quando cansadas? Terão elas condições de bancar a moradia, pagar água, luz, IPTU? Lembro-me da experiência do Conjunto Santa Terezinha, no Vicente Pinzón, final dos anos de 1970. Cinco favelas foram eliminadas para a construção do tal conjunto. Pouco tempo depois, inadimplentes, as famílias voltaram para os seus barracos e as casas foram ocupadas por uma classe média empobrecida. É, pois, difícil a equação da casa, algo que envolve, além da casca, a gema do ovo.

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 2/03/26. Vida & Arte. p.2.


ESSES ERROS DE TODOS NÓS

Por Luiz Gonzaga Porto Pinheiro (*)

No nosso genoma estão os seres que cruzamos na evolução. Predadores carniceiros e rapineiros estão em alguns dos nossos genes. A expressão de uma ou a repressão de outra proteína pode se manifestar como ganância, inveja, preconceito, soberba ou crueldade. Uma paixão, uma frustração, álcool, alucinógenos ou uma injustiça explícita podem liberar formas bizarras de comportamento no homem. Veja-se a atitude de dois jovens ditos normais, no metrô de São Paulo: embriagados, espancaram até a morte um morador de rua que defendia um homossexual.

Acho que uma parte destes comportamentos atípicos se explica pela frustradora sociedade de consumo. Todos querem ter tudo que lhes agrada. Coletivamente também surgem comportamentos predatórios: países fortes se apropriam do poder, corrompem ou são corrompidos, perseguem minorias e expoliam Estados fracos.

Nações promovem guerras por interesses geopolíticos, religiosos, comerciais ou ideológicos. Impérios dominam extensas áreas do planeta e usam artefatos nucleares e químicos para manter seus privilégios. Nem o meio ambiente escapa dos homens. Espécies extintas, a natureza degradada, mostra a insensibilidade coletiva. Necessário que se exercite a ética, centrada na vida, embasada em coletivo justo, identifique desvios, controlando-os e punindo os culpados.

O Estado deve dar chances iguais a todos, corrigir as desigualdades e facilitar o crescimento dos cidadãos. Enquanto as respostas não chegam, evite-se soluções violentas, a criação de um estado policialesco, onde a ação policial é distorcida com mortes evitáveis pela ação violenta desnecessária.

O controle da criminalidade não pode ser usado como estímulo ao armamento da população que levara ao aumento da violência. Que em cada um de nós prevaleça o bom senso, o autoconhecimento, a observação dos modelos de honestidade, solidariedade e de generosidade; que a esperança vença o niilismo forjando o equilíbrio interior entre o Dionisíaco e o Apolíneo, sonho humanista do nosso animal interior com a sabedoria criada pelo córtex evoluído.

(*) Médico. Professor aposentado da UFC. Presidente da Sociedade Cearense de Cancerologia, presidente do GEEON e pesquisador CNPq.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 28/02/2026. Opinião. p.16.


domingo, 5 de abril de 2026

PÁSCOA: Esperança que ressuscita

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

A Páscoa é o grande coração da fé cristã. Mais do que recordar um acontecimento do passado, ela nos convida a atravessar, com Cristo, o caminho da morte para a vida, da escuridão para a luz, da desesperança para a esperança renovada.

A Ressurreição inaugura uma nova possibilidade para a existência humana: a certeza de que Deus continua agindo na história e conduzindo a vida para além de toda derrota, de toda dor e de toda aparente perda.

Na pedagogia espiritual de Santo Inácio de Loyola, aprendemos que Deus fala na trama concreta da vida. Ele se manifesta nos acontecimentos, nos movimentos do coração, nas alegrias e também nas dores que atravessamos. A espiritualidade inaciana nos ensina a contemplar a realidade com profundidade, percebendo que Deus trabalha silenciosamente em todas as coisas e conduz a história com uma sabedoria que muitas vezes só compreendemos com o passar do tempo.

A Páscoa, portanto, não é apenas uma celebração litúrgica; é uma experiência espiritual que nos transforma por dentro. É o convite a reconhecer que o Cristo ressuscitado continua caminhando ao nosso lado, mesmo quando os olhos da fé parecem obscurecidos pelas preocupações e pelas cruzes da vida. Assim como os discípulos de Emaús descobriram a presença de Jesus ao partir do pão, também nós somos chamados a abrir o coração para perceber sua presença no cotidiano.

A pedagogia inaciana também nos convida a olhar a Ressurreição como um movimento interior de libertação. Libertar-se do medo que paralisa, das culpas que aprisionam e das tristezas que roubam o sentido da caminhada. Cristo ressuscitado rompe as pedras dos nossos sepulcros interiores e nos devolve a coragem de viver, de recomeçar e de confiar novamente na força da graça.

Viver a Páscoa é permitir que a vida nova de Cristo transforme nosso olhar, nossas escolhas e nossa maneira de estar no mundo. Como recordava Santo Inácio, somos chamados a buscar e encontrar Deus em todas as coisas, reconhecendo sua presença também nos pequenos sinais da vida cotidiana.

Porque, para quem caminha com o Ressuscitado, nenhuma noite é definitiva. Sempre haverá uma aurora anunciando que a vida venceu.

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.

Fonte: O Povo, de 4/04/2026. Opinião. p.16.

300 ou 30?

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

O evangelista João nos apresenta o episódio de Maria de Betânia, que, durante um jantar, ungiu os pés de Jesus com nardo, um perfume nobre e de muito valor. (Jo 12, 1-11)

O nardo (Nardostachys jatamansi), também conhecido como espicanardo, é um perfume raro e caro, proveniente de uma planta nativa das regiões montanhosas do Himalaia. Extraído de suas raízes, desprendia um perfume exuberante e, ainda hoje, é usado no incenso, nos rituais religiosos.

Maria quebrou o vaso de alabastro, vertendo todo o óleo sobre os pés do Mestre e, depois, fez um gesto que era proibido à cultura judaica: desprendeu seus cabelos e, com eles, enxugou os pés de Jesus, enquanto o perfume exalado difundia-se por todo o ambiente.

Este episódio fala-me de amor, profundamente, de amor, envolto no carinho e no afeto da fé e da confiança em Jesus. Imagino, ainda que o evangelista não comente, o pulsar vibrante de seu coração e, de tanto ardor, lágrimas dançando no seu rosto.

Maria deu o melhor que tinha e, com a toalha de seus cabelos, expressou todo o amor de seu ser.

Foram os 300 denários do amor.

A invectiva de Judas transporta-nos ao seu encontro com os sacerdotes do Templo, dispostos a exterminar Jesus (Mt 26, 14-16).

Ainda que tenha convido com Jesus como os demais apóstolos, algo diferente se passava na mente de Judas, de tal modo que decidiu entregar o mestre por um punhado de 30 moedas de prata, preço de um escravo. E, ao aproximar-se de Jesus, no Getsêmani, com um beijo no rosto, ultimou sua ‘fidelidade’ à traição do Mestre.

Tanto o gesto de Maria, quanto a atitude de Judas Iscariotes merecem uma constante reflexão do mundo cristão. Um olhar rápido e superficial dá impressão de poucas Marias e mais Judas Iscariotes.

Na cidade de Fortaleza, havia, na sexta-feira da semana santa, um grande debate com excelentes juristas sobre o crime de Judas Iscariotes. Era uma aula e uma lição a todos os ouvintes.

Enfim, com 300 denários, uma cena de amor e com um beijo nos pés de Jesus, um gesto de humildade e fé, enquanto com 30 moedas de prata, um gesto de ‘ódio’ e, com um beijo no rosto de Jesus, um selo de traição.

Uma abençoada quinta-feira santa, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 2/04/26.

sábado, 4 de abril de 2026

Um senso de felicidade 3/3

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie (*)

A felicidade é um estado de plenitude, satisfação e equilíbrio físico e psíquico, em que o sofrimento e a inquietude são transformados em emoções ou sentimentos que vão desde o contentamento até a alegria intensa ou júbilo. A felicidade tem, ainda, o significado de bem-estar espiritual ou paz interior.

Para Aristóteles, a felicidade é o fim que todo ser humano busca, ou seja, o bem e o desejo maior que guia todas as ações humanas.

Em “Ética a Nicômaco”, Aristóteles defende que a felicidade é 1) o maior bem desejado pelos homens e 2) o fim das ações humanas. A felicidade é o objetivo final e mais alto da vida humana. Ele acredita que a felicidade não é um estado passageiro de prazer ou alegria, mas sim um estado duradouro e completo de realização e satisfação em todas as áreas da vida.

A excelência não é um ato, mas um hábito.” refere Aristóteles.

Sócrates (469 a.C./399 a.C.) deu novo rumo à compreensão da ideia de felicidade, postulando que ela não se relaciona apenas à satisfação dos desejos e necessidades do corpo, pois, para ele, o homem não é só o corpo, mas, principalmente, a alma.

Ele escreve que a verdadeira felicidade só pode ser alcançada, através da busca pela sabedoria e pela virtude. E postula que o autoconhecimento e a reflexão constante sobre nossas ações e princípios morais são essenciais para alcançar a verdadeira felicidade.

Segundo Tomás de Aquino, a felicidade é o fim último e o bem supremo que todos buscamos na vida, sendo a felicidade o bem próprio e perfeito do homem. Ela é regida por quatro princípios, que ele denomina critérios da felicidade, entre os quais, o primeiro é a internalidade – a felicidade é um “princípio interno” e o segundo é o valor intrínseco da felicidade.

Os bens corporais não atendem a esse requisito porque não incluem os bens da alma. As partes mais elevadas de nossa natureza – as capacidades que nos tornam humanos – são as faculdades racionais do intelecto e da vontade e as melhores atividades que podemos realizar são conhecer e amar. Não queremos apenas conhecer e amar a nós mesmos; queremos conhecer e amar coisas além de nós mesmos, especialmente outras pessoas.

Os bens correspondentes às nossas faculdades racionais (conhecimento, liberdade, amizade, virtude, beleza) são mais valiosos do que aqueles correspondentes às nossas faculdades corporais. Portanto, um bem corporal não pode ser o bem completo e supremo.

A felicidade aperfeiçoa a alma, e a alcançamos por meio de uma atividade da alma; mas o objeto da felicidade, aquilo que nos faz felizes, é algo externo à alma.

Tomás de Aquino compara o ser humano a um navio. O próprio navio (como o corpo humano) precisa ser conduzido pelo capitão (como a alma humana), e o capitão precisa conduzir o navio rumo a um destino. Embora um bom capitão conheça seu navio intimamente (autoconhecimento) e aprecie suas qualidades, ao mesmo tempo que aceita suas fraquezas (amor-próprio), o propósito de navegar não é meramente manter o navio à tona ou se deslocar sem rumo, apenas por se deslocar, mas sim chegar a algum lugar. Da mesma forma, o propósito da vida humana não é meramente permanecer vivo, pensar e escolher por pensar e escolher, ou mesmo ser virtuoso. É cumprir o próprio destino.

Santo Agostinho defende que a felicidade é algo supremo e inatingível sem a presença de Deus, e que, apenas através da fé e da busca espiritual, é possível alcançá-la.

Para Agostinho, O amor se passa como tema fundamental e ele deve caminhar em conjunto com a razão e uma boa vontade para chegar à verdadeira felicidade. O amor é o combustível da vontade, que está na alma humana, uma faculdade dada que permite agir em qualquer direção.

Como corolário desse sumário de ensaio, pode-se fazer uma analogia com o pássaro. Assim como ele voa livre sem que nada o prenda, a felicidade também não pode ser capturada, imposta ou forçada. Ela procede daquilo que, realmente, importa e, quando com ele nós nos conectamos: o amor, a paz e a serenidade, os quais implicam em dignidade, justiça, fé e fraternidade. No mais, tudo é qual uma carroça vazia – somente muito barulho e ou semelhante a uma diarreia mental.

Nossas redes de ligação dão-nos subsídios para dialogarmos com o sentido da vida e a transcendência de nossas limitações outorga-nos uma proximidade com Deus, imprimindo mais profundidade à vida.

É nas coisas simples e genuínas, onde alimentamos a alegria da felicidade.

Enfim, a felicidade é coach de nossa jornada épica sem retorno, mas com possibilidade de consertos e acertos, e onde a gratidão pelo que se é, pelo que se tem e pelo que se recebe nos reveste do equilíbrio e da serenidade da vida.

Pilares da felicidade: emoções positivas, engajamento, relacionamentos, sentido, propósito, significado, realizações, espiritualidade e Deus.

Sem propósito de vida e sem um sentido da vida dentro da vida, não há, oh! Não, não há lugar para a felicidade.

Tenhamos um bom sábado, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 28/02/26.


Um senso de felicidade 2/3

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie (*)

Há algumas teorias acerca da felicidade, que podem clarear nossa mente e impregnar-nos de questionamentos, em vista de um mergulho no que seja a felicidade, para compreender a realidade acontecendo, no contexto da geração atual:

 a) Influenciada pelo utilitarismo de Bentham (1978), esta teoria hedonista propõe que a felicidade é uma questão unicamente de subjetividade. Cria o protótipo de uma pessoa feliz: a que exalta o prazer e humilha e descanteia a dor, ou seja, a pessoa feliz caracteriza-se pela fuga do sofrimento e pela exuberância da busca do frenesi dos prazeres.

A trajetória do hedonista atinge um máximo de energia e depois declina, levando o indivíduo a uma miserabilidade de ânimo;

b) O desejo deriva de desiderium (de+ siderium) e reporta-se ao movimento dos astros e estrelas. É importante verificar-se que desejo não significa necessidade. 

Partindo, pois, desta noção de que o desejo é um anseio humano de busca de algo que preencha a incompletude ou satisfaça a carência, esta teoria apregoa que a satisfação de um desejo aponta para a felicidade. Dois de seus postuladores, Griffin e Wittgenstein escrevem que a felicidade consiste em obter o que se deseja. Wittgenstein vai mais longe, ao dizer que a realização do desejo deve ser buscada, independente, se causa prazer ou desprazer.

c) Nussbaum propôs uma teoria, segundo a qual, a felicidade está vinculada à obtenção de certos objetivos. A pessoa traça sua lista de objetivos, que lhe sejam aspirações valiosas, em todas as dimensões, sejam profissionais, afetivas, de saúde, de beleza, de conhecimento, amor e espiritualidade e outras, a sua realização é que traz a felicidade;

d) Seligman faz uma análise de três aspectos, aos quais se atribui a obtenção da felicidade. Não se vive sem usufruir de prazeres na vida, como bons filmes, boas viagens, boas companhias, nem sem o exercício saudável e o desenvolvimento de pontos fortes e virtudes, tampouco sem estabelecer um propósito maior do que nós mesmos. A estes três aspectos, denominou, respectivamente, Vida Agradável, Vida Boa e Vida Significativa. Conclui sua teoria, afirmando que a felicidade somente é uma felicidade autêntica, se contemplar estes três aspectos

Enfim, um olhar para a nossa geração atual e percebe-se um quadro nada compatível com o ‘sentir-se feliz’. O sinete da felicidade está cedendo lugar ao domínio da solidão e ao abraço da insensatez da vida.

Concorda-se que o prazer faz parte do viver, não há dúvida. Mas, ele não se basta e, cansado de si, pode perder-se no vazio de seu próprio eco.

À geração atual, mergulhada em tantas possibilidades de escolhas, com os avanços da tecnologia e, mais recentemente, da Inteligência Artificial, uma pesquisa da Harvard Graduate School of Education indica que os jovens se encontram sem rumo, nesse mar de oportunidades, pois, vazios estão do sentido e do propósito de vida. Essa carência busca preencher a vida de qualquer coisa, mesmo à busca de medicamentos para promover um ‘relax’, um momento de desestresso. Confusos na infobesidade, nas redes sociais, no excesso de consumo, a vida segue sem sentido e sem propósito, como diz a música ‘deixa a vida me levar, leva eu” de Serginho Meriti e Eri do Cais, consagrada pro Zeca Pagodinho. Conectada digitalmente, esta geração ‘gasta’ seus dias inteiros com telas, contatos digitais, porém, com quase nada de afeto e ainda menos d humanidade. Telas a extravasar solidão.

Os relacionamentos são efêmeros e superficiais, e, em geral, não chegam a gerar espaço para confiança e apoio, nas horas necessárias e quando problemas batem à porta.

A dimensão espiritual está, praticamente, diluindo-se, até mesmo em certos grupos religiosos, de tal modo que Deus torna-se uma figura quase mitológica, com assento na temporalidade, exorcizando-se a transcendência.

O impacto desta visão de mundo é iminente e, nalguns casos, já se espraia, desdobrando-se em outras e outras crises.

Toda a história que a civilização construiu, de repente, começa a ruir, apesar de tantos e tantos avanços.

Esta geração precisa aprender a sonhar, a descobrir o sentido da vida em si mesmo e a compreender que a verdade não se trata de uma escolha, mas de uma descoberta.

E a felicidade autêntica não existe sem o sentido e o propósito da vida.

E Deus não pode ficar fora do sentido da vida, porque Ele nunca abandonará Sua criatura, mas respeita-lhe a vontade e o querer.

Tenhamos uma boa sexta-feira, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 27/02/26.


Um senso de felicidade 1/3

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie (*)

A felicidade é como o sono, quanto mais a gente se inquieta em buscá-la, mais ela se distancia e foge.

É, na dinâmica da vida, que os nossos valores e crenças nos conduzem, seja em dias de sol a pino, seja em dias tempestuosos, seja nas vitórias, seja nas derrotas, seja nas lágrimas ou nos sorrisos.

A realidade interior reabastece a concretude de nossas energias, apresentando-nos os frutos do que plantamos.

A felicidade é uma semente muito especial, que nunca é cultivada sozinha. Não se dá bem com excesso de cuidados, nem frequenta ambientes sofisticados, movidos a usura, a luxúria, a soberba. Não tem cpf's, nem conta em bancos, nem assento em riquezas, nem em miséria. Seu 'habitat' é o terreno do amor, da paz, da fé, da serenidade. A ambição para possuí-la, a obsessão de persegui-la tornam-na eterna fugidia, nunca a ser encontrada.

O seu primeiro abraço é no coração e o seu primeiro beijo, nas sinapses mensageiras da mente. E o seu alimento ultrapassa as fragilidades humanas, mas respeita as limitações, sem por elas ser aliciadas e manipuladas.

Há fugacidades que sorriem escárnios para os que as chamam de felicidade. Passam, rapidamente, e deixam rastros de insaciedade, de dor, de sofrimento, de angústia, quando não provocam mágoas e feridas, talvez, invisíveis, mas, certamente, incômodas e, muitas vezes, desapontadoras e cruéis.

Há os que apostam no poder, outros há que a põem na riqueza, outros ainda no gozo de prazeres e, dentro de si, criam um vazio, melhor dizendo, um buraco negro de apetite devorador, que nunca se satisfaz. Tanto essa autofagia insana quanto a  serenidade d’alma sediam-se, como já explicitava Platão, nos seus diálogos, na interioridade humana, ‘locus’ quer seja da coerência de valores, crenças e ações, como de seu contraditório; aquela leva à harmonia e equilíbrio do espirito, gerando pensares, sentimentos e emoções pertinentes ao bem viver, enquanto esta promove desequilíbrios e frustra sonhos, com sensações  efêmeras de pseudo-felicidade, com repercussões extravagantes; aquela conduz à felicidade e esta, à manipulação de sentimentos e emoções.

A felicidade demanda a autonomia de cada pessoa construir sua harmonia interna consciente, e, somente, a partir desse círculo intransferível, espalha-se pelo entorno (con)vivencial).

A responsabilidade de cada pessoa, na construção de sua felicidade, exige um gerenciamento de pensamentos, emoções, atitudes e hábitos, em vista de seu bem-estar, sem fazer repousar seus agravos em quem quer que seja

A felicidade configura-se no aprender a amar-se para respeitar, acolher e amar o outro. A isso exorta Jesus: “amar o próximo ‘como a si mesmo’” (Mt 22,39; Lc 10, 27).

Tenhamos uma boa quarta-feira, com as bênçãos de Deus!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 25/02/26.


sexta-feira, 3 de abril de 2026

FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 863

Abro com uma historinha de Leonardo Mota.

Idôneo, o comandante

Em certa cidade fluminense, o chefe local era um monumento de ignorância. A política era feita de batalhas diárias. Um dia, o chefe político recebeu um telegrama de Feliciano Sodré, que presidia o Estado:

- Conforme seu pedido, segue força comandada por oficial idôneo. O coronelão relaxou e gritou para a galera que o ouvia:

- Agora, sim, quero ver a oposição não pagar imposto: a força que eu pedi vem aí. E quem vem com ela é o comandante Idôneo.

(Historinha contada por Leonardo Mota, em seu livro Sertão Alegre)

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/417723/porandubas-n-863

DO DESERTO À VIDA NOVA

Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)

A Quaresma já caminha há alguns dias. Este tempo santo não é feito apenas de começos, mas de continuidade, porque talvez tenhamos feito, na Quarta-feira de Cinzas, propósitos que já foram colocados à prova. É exatamente aqui que a Quaresma revela sua verdade mais profunda: ela nos ensina a perseverar, a permanecer. Perseverar quando a oração parece árida. Perseverar quando mudar exige renúncia. Quando amar custa mais do que gostaríamos. Se em algum momento falhamos nos propósitos assumidos no início dessa caminhada, não devemos desanimar. Sempre é tempo de recomeçar. O Senhor é rico em misericórdia e não se cansa de nos oferecer novas oportunidades. Cada dia é um novo chamado à conversão.

Esse é um tempo oportuno para rever o caminho. Não com culpa, mas com sinceridade. Como está nossa oração? Temos reservado um espaço para Deus em meio às preocupações diárias? O jejum que escolhemos está nos tornando mais livres ou apenas mais rígidos? E a caridade, tem se traduzido em gestos concretos de atenção, escuta e partilha?

Estamos nos preparando para a Páscoa, para a vitória da vida sobre a morte, da luz sobre as trevas. Mas não chegaremos à alegria pascal sem antes atravessar o deserto.

Dentro deste itinerário, a Igreja celebrou, no dia 19, a solenidade de São José, esposo de Maria. Poderia parecer estranho uma festa tão solene em meio à sobriedade da Quaresma, mas São José é o modelo perfeito para este tempo. Ele foi um mestre silencioso da conversão diária, um homem justo que soube ouvir Deus no silêncio e obedecer com prontidão, mesmo quando não compreendia plenamente os caminhos que lhe eram propostos.

São José simboliza virtudes como a humildade, a obediência e a fé. Sua vida de entrega e serviço, especialmente ao cuidar de Maria e Jesus, reflete o espírito de sacrifício e dedicação são centrais na Quaresma.

Que este mês de março nos ajude a viver uma Quaresma mais profunda, menos apressada e mais verdadeira. Que não caminhemos movidos apenas por sentimentos, mas sustentados pela confiança em Deus. Que São José interceda por nós, para que saibamos perseverar neste tempo de graça, guardando no coração a esperança da Ressurreição.

(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).

Fonte: O Povo, de 21/03/2026. Opinião. p.16.


quinta-feira, 2 de abril de 2026

Programação da Semana Santa na Paróquia São Vicente de Paulo – 2026

Ressuscitei, ó Pai, e sempre estou contigo:

pousaste sobre mim a tua mão, tua sabedoria é admirável".

“Mais que comum dos dias,

olhei o mais que pude os rostos

dos pobres, gastos pela fome,

esmagados pelas humilhações,

e neles descobri teu rosto,

Cristo Ressuscitado!”

Dom Hélder Câmara

PROGRAMAÇÃO

29/03/2026 (domingo): Procissão do Domingo de Ramos: às 8h.

• Solene Bênção dos Ramos – Logo em seguida, Procissão e Missa na Matriz de São Vicente.

•Outras Missas: 11h30min, 17h e 19h.

Todos devem levar ramos de palmeiras para a procissão.

30/03/2026 (segunda-feira santa): Celebração Penitencial: confissões individuais das 16h às 19h.

• Missas: 6h30min e 17h30min.

31/03/2026 (terça-feira santa): Celebração Penitencial: confissões individuais das 16h às 19h.

 • Missas – 6h30min e 17h30min.

1/04/2026 (quarta-feira santa): Celebração Penitencial: confissões individuais das 16h às 19h.

• Missas – 6h30min, 11h30min e 17h30min.

2/04/2026 (quinta-feira santa): Missa da Ceia do Senhor (Lava-pés). Transladação do Santíssimo Sacramento às 19h.

• Adoração até às 22h.

3/04/2026 (sexta-feira santa): Solene Comemoração da Paixão e Morte do Senhor, às 15h.

• Via Sacra – Conjunto São Vicente – 18h30 (Unijocc).

4/04/2026 (sábado): Sábado Santo: Solene Vigília Pascal às 18h.

• Celebração da luz; Bênção do Fogo, Procissão do Círio Pascal e Proclamação da Páscoa, Liturgia da Palavra, Bênção da Água Batismal e Eucaristia.

5/04/2026 (domingo): Missa do Cristo Ressuscitado.

Missa às 6h30min). 

Outras Missas: 9h, 11h30min (coral e orquestra), 17h e 19h.

Feliz Páscoa a todos!

Pároco: Pe. Sávio

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Paroquiano de São Vicente de Paulo


JOIAS DA FORTALEZA DE 300 ANOS

Por Izabel Gurgel (*)

Seu Miguel, minha melhor fonte de sapotis na Cidade. Tem banca à esquerda da porta da Leão do Sul, na Praça do Ferreira, de segunda a sábado.

Na praça, dar-se conta que o São Luiz não virou estacionamento, igreja ou loja de produtos cada vez mais desqualificados. Festejar o feito. Sentir a incidência de política pública sobre a vida da gente. Sentar no térreo e, antes de começar o programa da vez, voltar ao primeiro filme visto ali, nos altos: "Quando o coração bate mais forte". Cada qual guarda como pode uma caixinha de primeiras vezes.

No Centro, em direção à praça ou dela saindo, ir pelo antigo Beco, atual rua do Pocinho, só fruindo da brisa, Anarina. E apreciar o céu entre o Palácio Progresso de um lado e a coluna de cubos vermelhos do outro plantadinha pelo escultor Sérvulo Esmeraldo (1929-2017). "Olha pro céu, meu amor". O térreo externo do Palácio do Progresso é um elogio ao vento. Fica à beira do Pajeú, que um dia poderá voltar como referência de vida, feito o São Luiz. O projeto do prédio (1964-1969) é do prof. Liberal de Castro (1926-2022). Anos depois, a pedido de Cláudio Pereira, então presidente da Fundação Cultural de Fortaleza, o professor sugere 13 de abril para data de aniversário da Cidade. Ao contar por escrito sobre a sugestão, diz: "a cidade é uma dádiva do vento".

No Centro, no alto de ruas como a Senador Pompeu ou Barão do Rio Branco, ver o mar ao tempo da surpresa do vento. Pode-se ampliar a sensação saindo da capela da Santa Casa de Misericórdia, na calçada, conspirar por um segundo sobre ter mais árvores no meio do nosso mundo, como o pedaço sobrevivente do Passeio Público. Passa em frente ao Passeio o ônibus para a Floresta. É a linha 106.

Imenso Liberal de Castro, das iniciativas, nos anos de 1960, de tombamentos da Casa de José de Alencar e do Theatro José de Alencar. Integrada à UFC, a Casa guarda o nosso mais precioso acervo de rendas. Conspiração em curso: levar rendeiras dos quatro cantos do Ceará para conhecer as coleções que elas podem ampliar com suas histórias e trabalhos. Uma escola de apreciação do fio da vida feito poesia tátil. Conhece? Já esteve lá?

O TJA, flor do algodão em renda de ferro prêt-à-porter, tem uma singularidade no desenho. Do palco dá pra ver a rua, o lugar mais importante de uma cidade (repito Leminski). Um teatro banhado de sol, desde a reabertura em janeiro de 1991, depois do segundo restauro integral, tem quase todos os espaços experimentados com uso cênico, para apresentações artísticas. À espera de um restauro, é como as mais finas joias: só têm sentido se forem usadas. São nossos usos que o mantém. Assim como não é possível hoje pensar o TJA sem o jardim de um lado e o prédio anexo do outro, não dá para separar teatro e praça. Silêda Franklin chama de ciclorama verde a cascata de thumbergia no jardim. Natureza é cultura.

A graça das joias, penso eu, é o uso público. Como faz o maracatu Rei de Paus. Esplende. Na rua.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 1/03/26. Vida & Arte, p.2.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

O desenvolvimento industrial cearense e a infraestrutura

Por Lauro Chaves Neto (*)

O desenvolvimento sustentável pressupõe uma indústria forte. A atividade industrial é a que mais gera encadeamentos produtivos, inovação, empregos qualificados e renda. No Estado do Ceará, representa 18,3% da economia, 82% das exportações e sustenta 387 mil empregos formais - cerca de 28% do total do estado. Esses números, por si só, já justificam prioridade a uma agenda estratégica: infraestrutura moderna, integrada e orientada ao futuro.

Infraestrutura não é gasto; é investimento estruturante. É ela que reduz custos, amplia competitividade e transforma potencial em realidade econômica. A ampliação das redes de transporte, energia, segurança hídrica e telecomunicações não pode ser vista como opção, mas como condição para que o Estado consolide seu protagonismo industrial no Nordeste e no Brasil.

No campo logístico, a duplicação de corredores rodoviários, a melhoria da mobilidade urbana e a integração efetiva com o interior produtivo fortalecem a conexão com o Complexo Industrial e Portuário do Pecém.

A conclusão da Ferrovia Transnordestina, integrada ao sistema porto-rodovia, representa um divisor de águas para o escoamento de grandes volumes, reduzindo custos e elevando a competitividade das nossas cadeias produtivas.

No eixo energético, já demonstra vocação para liderar a transição. A expansão das energias renováveis, o avanço do hidrogênio verde, os projetos eólicos offshore e a atração de data centers posicionam o estado na fronteira da economia de baixo carbono. Trata-se de uma oportunidade histórica de industrializar com inovação, agregar valor e gerar empregos qualificados.

Segurança hídrica e infraestrutura digital completam esse ciclo virtuoso, ampliando a resiliência produtiva e interiorizando oportunidades. A digitalização e a adoção de tecnologias da Indústria 4.0 não são tendências, são exigências do presente.

O Estado do Ceará reúne condições únicas para consolidar-se como polo logístico, industrial e energético. Mas isso exige visão estratégica, continuidade de políticas e investimentos. O desenvolvimento industrial cearense está intimamente ligado à evolução da infraestrutura.

(*) Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de Economia.

Fonte: O Povo, de 2/03/26. Opinião. p.18.

O silêncio que antecede a Páscoa: porque a alma precisa da Quaresma

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

Março chega envolto em uma pedagogia silenciosa. Não traz ainda o júbilo da Páscoa nem a densidade da Semana Santa, mas carrega algo essencial: o convite à interioridade.

A liturgia parece sussurrar à pressa contemporânea uma verdade antiga — não há ressurreição sem travessia, nem luz duradoura sem que a alma atravesse suas próprias sombras.

A Quaresma, por vezes reduzida a renúncias externas, é, em sua essência, um tempo de realinhamento interior. Mais do que abdicar de hábitos, trata-se de reaprender a escutar: a própria consciência, tantas vezes soterrada pelo ruído; o outro, cuja dor raramente encontra espaço; e Deus, cuja voz não disputa volume, mas profundidade.

Vivemos sob a lógica da saturação. Informações, estímulos e opiniões se acumulam em ritmo vertiginoso. Nunca se falou tanto e, paradoxalmente, nunca foi tão difícil cultivar silêncio. No entanto, é no silêncio que a vida espiritual respira. É nele que emergem verdades incômodas, que feridas pedem cuidado, que intenções se purificam. Sem essa pausa, corre-se o risco de viver apenas na superfície de si mesmo.

Preparar-se para a Semana Santa é acolher o movimento de descida que o Evangelho propõe. Não há atalhos para a Páscoa. O Cristo ressuscitado é o mesmo que passou pelo deserto, pela incompreensão e pela cruz. A lógica quaresmal não é de tristeza, mas de lucidez. Recorda que a transformação exige coragem, que a conversão é menos emoção e mais decisão.

Talvez o maior desafio deste tempo não seja apenas "abrir mão", mas abrir espaço. Espaço para a oração que não cabe entre notificações, para a reflexão que não se acomoda em respostas rápidas, para encontros que não se medem em produtividade. A Quaresma educa para essa reorganização invisível, onde o essencial retoma o centro.

No fim, a pergunta é inevitável: que Páscoa pode florescer em uma alma que nunca silencia, nunca desacelera, nunca se revê? Março oferece a resposta na forma de convite. Não ao isolamento, mas à consciência. Não à rigidez, mas à conversão. Porque toda verdadeira ressurreição começa, inevitavelmente, dentro.

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.

Fonte: O Povo, de 7/03/2026. Opinião. p.18.

terça-feira, 31 de março de 2026

MISSA DE SÉTIMO DIA POR DRA. ALICEMARIA CIARLINI PINHEIRO

 

Hoje (31/03/2026), terça-feira, às 18h, na Igreja de N. Sra. das Graças, do Hospital Geral do Exército, situada na Av. Des. Moreira, 1.500 – Aldeota, Fortaleza-CE, será celebrada a Missa da Ressurreição em sufrágio da alma da médica Dra. Alicemaria Ciarlini Pinheiro.

Ela ingressou no Curso da Medicina da Universidade Federal do Ceará em 1975 e colou grau em 1980, integrando a Turma Samuel Pessoa.

Fez Residência Médica em Medicina Preventiva e Social do INAMPS-CE, nos anos de 1981 e 1982, concluído com a monografia “Casos de sarampo notificados no Ceará no período de 1976-82, executada em Fortaleza-CE, no período de março a dezembro de 1982, sob a nossa orientação.

Participou do I Curso de Especialização em Epidemiologia, promovido pela Universidade Estadual do Ceará, em convênio com a Secretaria de Saúde do Estado do Ceará, no período de 17 de fevereiro de 1986 a 17 de agosto de 1987, concluso com a monografia “Casos notificados de sarampo no Brasil, Nordeste e Ceará no período de 1976-86, realizada no período de 1º de agosto de 1986 a 17 de agosto de 1987, sob a nossa orientação.

Durante muitos anos, foi uma dedicada servidora da Secretaria da Saúde do Estado do Ceará e da Secretaria da Saúde de Fortaleza, desenvolvendo suas atividades funcionais na área da Epidemiologia.

A médica sanitarista Dra. Alicemaria Ciarlini faleceu na semana passada, depois de longo padecimento, contristando o seu ciclo de relacionamento, composto por familiares, amigos e colegas.

Descansa em paz, cara Alicemaria.

Prof. Marcelo Gurgel Carlos da Silva


 

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