Por Ana Rute Ramires, jornalista de O Povo.
OP - E o que se esperar de um bom médico?
Margareth - O
médico que eu digo não é o médico do futuro, é o médico de agora. Se exige grande
qualificação técnica, exige que ele seja formado com noções muito precisas e sólidas
de pesquisa, trabalhar em equipe, ninguém trabalha sozinho, ele tem que aprender
a trabalhar em equipe desde que entra na escola médica, ter uma noção de gestão,
ninguém pode ter de capacidade, desenvolver uma capacidade liderança. Então, ser
qualificado para líder, líder de equipe, líder de grupo, líder do seu laboratório.
Isso é uma exigência que se faz, ter noções de tecnologia de informação. Ninguém
hoje pode ser formado sem saber lidar com o programa de computador para interpretar,
para saber ler um artigo científico. Até para você ler um artigo científico, você
olha um gráfico para saber interpretar aquilo, né? E hoje nós vemos que até isso
é falho. Essas são qualificações que eu julgo indispensáveis na formação de um médico.
E por fim, e não menos importante, ser formado e receber sólidos conhecimentos de
humanidade. Isso vem muito da educação que ele recebe em casa, naturalmente. Não
é a faculdade que vai ensiná-lo, mas a faculdade vai resgatar o que ele recebeu.
E se ele não recebeu nada, vai ter tentar incorporar na sua formação conhecimento
de humanidade. Hoje, as grandes escolas médicas do mundo — e quem começou isso foi
a faculdade de medicina de Harvard, nos Estados Unidos — estabeleceram um curso
de humanidades. Humanidade significa um médico ler, ver arte, visitar museus, entender
que existe muito da obra de arte, muitas obras de arte que nós vemos nos museus
e que são lindas. Não adianta olhar e não saber o que tá vendo. (...) Então, assim,
eu acho que dar essa chance ao médico de sair um pouco daquele ambiente e pensar
um pouco sobre o livro, sobre literatura, tudo isso faz parte do da formação do
que eu julgo um bom médico.
Por Ana Rute Ramires, jornalista de O Povo.
OP - Doutora, para finalizar, eu queria que a senhora falasse um
pouquinho sobre a pesquisa sobre a qual a senhora tá se debruçando atualmente, que
é a paradigma TB. Queria que a senhora explicasse um pouquinho sobre esse ensaio
clínico.
Margareth
- Nos
últimos 30 anos, eu venho me dedicando à pesquisa na área da tuberculose, tentando
responder como nós podemos humanizar o tratamento e melhorar a eficácia dos tratamentos.
Isso junto com outros pesquisadores da Fiocruz e de outras instituições brasileiras,
o Brasil teve chance de participar dos principais ensaios clínicos desenvolvidos
nos últimos 25 anos. Eu participei da mudança de tratamento. O Brasil foi de novo
pioneiro ao assumir o tratamento de curta duração para formas graves e resistentes
de tuberculose. E nós participamos dos estudos que geraram essa informação que permitiram
essa tomada de decisão. E, nesse momento, agora, é de novo, através de quatro instituições
brasileiras, três da Fiocruz e a outra é da Universidade Federal do Rio de Janeiro,
nós estamos começando a participar de um novo estudo internacional cujo objetivo
é responder se será ou não possível. A tuberculose ainda tem um tratamento muito
longo que dura seis meses para as formas sensíveis e nós queremos responder se é
possível com a adição de dois fármacos novos, ainda em fase clínica, se será possível
ou não reduzir o tempo de seis para quatro meses. Tudo indica que sim, os resultados
dos estudos preliminares até agora mostram resultados muito favoráveis e nós seremos
protagonistas de uma resposta histórica mais uma vez e isso nos dá muita alegria.
Um fato que eu gostaria de registrar é que a comunidade acadêmica brasileira,
apesar do conservadorismo de alguns, manteve uma capacidade de compromisso público
muito grande. Temos vários exemplos. Com todas as adversidades, o Brasil, foi o
10º país que mais publicou em relação à Covid-19 e houve experiências brasileiras
que ficam pra a história. E uma delas se deu aqui no Ceará, que foi através de pesquisadores
do Ceará, a criação de um mecanismo que salvou muitas vidas. E uma das razões pelas
quais eu estou aqui é a Fundação Elmo. O Elmo é um equipamento que foi criado, como
eu disse, pelos pesquisadores cearenses, enquanto em São Paulo, grupos da USP participavam
de estudos clínicos, enquanto nós participávamos na Fiocruz de estudos da vacina.
Aqui, pesquisadores criaram um dispositivo que atendeu pacientes com grave insuficiência
respiratória e que, a meu juízo, não tem um número preciso, salvou milhares de vidas,
dezenas de milhares de vidas. Isso tem que ser registrado porque isso gerou uma
premiação, através do professor Marcelo Alcântara, daqui do Ceará, e gerou a Fundação
Elmo que hoje nós estamos aqui para prestigiar. Então, de certa maneira, eu quero
dizer que a despeito de todas as dificuldades pelas quais nós conversamos, a comunidade
científica e acadêmica brasileira demonstrou uma enorme capacidade de trabalho,
um compromisso público absolutamente inegável e uma criatividade que propiciou algo
que fica registrado pra história, não é pra história para ser esquecido, é para
ser usado. Então isso faz muita diferença e eu faço questão de registrar.
LIVRO
A pesquisadora
lançou o livro "Um tempo para não esquecer – A visão da ciência no enfrentamento
da pandemia do coronavírus e o futuro da saúde", em 2021. A obra compila artigos
que narram a batalha contra a Covid-19, analisando evidências científicas, vacinas
e o cenário da saúde.
ELMO
Dalcolmo
esteve em Fortaleza em maio e participou do lançamento da Fundação Elmo, instituição
de suporte à saúde respiratória. Ela foi uma das homenageadas na cerimônia, junto
da pneumologista Márcia Alcântara.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 8/06/26. Páginas Azuis. p.6-7.


