Em meados dos anos setenta do século XX, na
Faculdade de Medicina, da Universidade Federal do Ceará, a Comissão de
Formatura reunia-se na Sala C da Biblioteca, com os demais colegas da turma de
concludentes, para discutir o fechamento da programação oficial.
O Presidente da Comissão em epígrafe,
falando em nome dos componentes, anunciou:
– Bem, turma! Encerrada a fase de consultas
quando todos os interessados puderam se manifestar, estamos trazendo hoje as
propostas de datas e atividades que foram negociadas com as instituições e as
promotoras de eventos.
– Deixa de “leriado” e desembucha logo –
sapecou um colega muito dado à pilhéria.
– Calma turma! Já vou ler a relação. Depois
da leitura, esclarecemos as dúvidas.
Nisso, pegou o papel e começa a ler a
listagem:
– Aula da Saudade (dia 20 de dezembro, no
Anfiteatro da Anatomia); Solenidade de Formatura (dia 23 de dezembro, na Concha
Acústica da UFC); Missa em Ação de Graças (26 de dezembro, na Igreja do
Cristo-Rei); Baile da Esmeralda (dia 27 de dezembro, no Náutico Atlético
Cearense) e Churrasco da Despedida (dia 29 de dezembro, no Sítio Passárgada).
Após relacionar os eventos, o Presidente da
Comissão completa:
– Agora, vamos abrir o espaço para perguntas
e debates.
Nesse instante, vários internos tentam falar
ao mesmo tempo, criando uma certa balbúrdia no recinto.
O Presidente da Comissão, com a intenção de
controlar a situação, procura pôr ordem no auditório:
– Turma, assim não dá! Parece até o Mercado
São Sebastião. Vamos nos organizar. A secretária da Comissão de Formatura fará
as inscrições e estabelecerá a ordem das falas. Estão de acordo?
– Sim! – Respondeu a maioria dos presentes.
Conclusas as inscrições, e notando que eram
muitos os colegas que desejavam se manifestar, o Presidente da Comissão propõe:
– Como foram tantos os inscritos, para
ganhar celeridade nos esclarecimentos e nas discussões, vamos definir o tempo
máximo para cada colega. Ok?
– Sim! – Responderam alguns, com a tácita
concordância dos demais colegas.
– De quanto tempo?
– De três minutos – sugeriu a colega que
secretariava – se não, essa assembleia se prolongará por muito tempo.
– Como é? Podemos fechar com essa proposta?
Quem estiver de acordo com ela permaneça sentado.
Na ausência de quem se levantasse das
cadeiras, o fato traduziu-se na aprovação unânime da sugestão de tempo.
Depois de umas poucas manifestações, Anália,
uma colega, tida como avoada, tem a palavra da vez, e começa pronunciando:
– Eu estou de acordo com quase tudo da
programação, menos uma, com a qual eu não concordo, de forma alguma...
O auditório é tomado de expectativa em
decorrência de uma possível forte objeção da parte da colega, que assim
prosseguiu:
– Eu discordo do baile.
– Do baile? Como assim? É algo relacionado a
uma questão religiosa? – Indagou a secretária da assembleia.
– Não! Eu até gosto de dançar – explicou a
Anália.
– Mas por que você está contra o nosso
baile? – Indagou a colega que secretariava o encontro.
– Eu não sou contra o baile. Eu me posiciono
contrária à homenagem. Não acho que devamos homenagear alguém, sobretudo, se a
pessoa está viva.
– Mas de que homenagem você fala? –
Interveio o Presidente da Comissão.
– Ah, está no nome! Baile da Esmeralda!
Vocês estão rendendo honras a uma colega, em detrimento das demais integrantes
da turma.
– Desculpe-nos, Anália, mas você está
rotundamente enganada. Não há nenhuma Esmeralda entre os concludentes de nossa
turma – disparou o Presidente da Comissão, pondo uma pá de cal na conversa.
Daí, para frente, não deu mais para conter
os risos da audiência.
Pobre Anália, tão carente de conhecimento,
incapaz até de saber a diferença entre a pedra caçada pelo bandeirante Paes Leme
e a suposta homônima da personagem central do “Corcunda de Notre Dame”, de
Victor Hugo.
Ela precisava ir mesmo era para
Maracangalha.
Marcelo Gurgel
Carlos da Silva
Da Sobrames/CE e da Academia Cearense de Médicos
Escritores
Fonte: SILVA, Marcelo Gurgel Carlos da. Medicina, meu humor! Contando causos médicos. 2.ed. Fortaleza:
Edição do Autor, 2022. 144p. p.66-68.
* Republicado In: AMC. Causo médico: o baile da esmeralda. Revista AMC (Associação Médica
Cearense). Abril de
2024 - Edição n.32, p. 29-30 (online).

Um comentário:
E se Anália não quiser ir?
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