domingo, 14 de junho de 2026

MARGARETH DALCOLMO: entre a literatura e o compromisso com a ciência III

Por Ana Rute Ramires, jornalista de O Povo.

OP - Nesse período, também se acentuou a questão que o discurso de alguns profissionais se misturava com questões políticas e ficou muito evidente o caráter bem conservador da categoria médica. Como é que foi isso pra senhora? Como é que a senhora observa os impactos negativos disso durante esse período de crise?

Margareth - Olha, eu não acredito em inocência, digamos assim, como um princípio. Tudo tem um, o que eu chamaria um dolo. No sentido de que você tem que ter um propósito. Nada é inocente. Dizer que a ciência não pode ser politizada é uma ingenuidade. Ela pode ser para o mal, mas ela também pode ser para o bem. Houve uma coisa muito curiosa. Em 2020, nós não tínhamos vacina, nós tínhamos uma pandemia que crescia e se alastrava pelo Brasil de maneira muito dramática. E nós começamos a vacina sazonal pra gripe, pra influenza no meio do outono, no mês de abril, nós nunca vacinamos tanta gente porque as pessoas acorriam aos centros de saúde achando que vacinar para a gripe protegia contra Covid. Olha que coisa incrível. Isso, naquele momento, começou a ser contaminado, a partir daquele momento, por um discurso e por essa retórica nociva a qual eu me referi de que vacina não protegia. Desde as minhas primeiras entrevistas, eu disse uma frase… Qual é a arma mais preciosa que nós temos para viroses agudas de transmissão respiratória? Não é remédio. Remédio é para virose crônica. Então, hoje nós tratamos viroses crônicas como aids, infecção pelo HIV, hepatite C, para isso tem remédio. São viroses crônicas de outra evolução. Viroses de transmissão aguda respiratória, a grande arma é vacina. E nós sabíamos disso, aprendido há décadas pelo sarampo. Como é que nós conseguimos eliminar o sarampo? Porque é a virose que mais rapidamente se transmite, uma pessoa transmite para 15 outras. Nós sabíamos que a arma era essa. Mas, desde o início, médicos não necessariamente são conservadores por natureza. Mas existia naquele momento uma polarização no País que já era óbvia. Porque havia uma fratura, digamos assim, social que já se havia demarcado pelo processo eleitoral. E isso contamina. Médicos são pessoas e podem ser influenciados. Em geral, pertence a uma categoria que, pelo fato de se deter muito aquilo que faz, pode ficar muito conservadora, sem se abrir para uma crítica, digamos assim, mais ampla ou para o que eu chamo de uma consciência social mais ampla, baseada em fatos. Quando houve a questão que eu considero uma tragédia, que foi a questão da cloroquina, foi o pior exemplo. E não nasceu no Brasil. Na verdade, aquilo nasceu na França através de um pesquisador que hoje está no ostracismo. O seu CRM cassado, inclusive. O professor Didier Raoult que inventou isso. Naquele momento, junho, julho de 2020, estimadamente, havia no planeta mais de 3 bilhões de pessoas usando cloroquina. Não foi só no Brasil, houve uma contaminação feita pela irracionalidade. Alguém disse, todo mundo tinha medo. A Covid-19 gerava um temor imenso nas pessoas. Pessoas morriam, famílias perdiam, a dor estava estabelecida, ritos sociais estavam rompidos pelo isolamento. O isolamento social é algo que, digamos, corrompe toda a nossa cultura. Ainda mais nós, que somos latinos, somos gregários por natureza. Então, o isolamento era algo que violava muito a nossa cultura. Tudo isso gera medo e o medo nos torna muito frágeis. O medo pode nos encorajar em algumas situações muito particulares, mas o medo nos faz mais fáceis de sermos contaminados por uma informação. O exemplo da cloroquina é isso. Rapidamente alguém oportunista criou isso. Na verdade, todos os estudos, hoje, mais do que nunca, mostram que nunca houve nada que mostrasse que a cloroquina melhorasse, curasse ou impedisse alguém de morrer por Covid-19. Então, o exemplo mais paradigmático que eu acho é esse. Isso se juntou quando naquele momento todo mundo, o mundo desenvolvido todo, investia, as casas farmacêuticas investiam na produção rápida de uma vacina. Eu considero as plataformas vacinais, as novas e as recuperadas durante aquele período de 2020, 2021, talvez a descoberta mais sensacional das últimas décadas da saúde, que foi a elaboração das vacinas para Covid-19 que geraram essa coisa linda, que foi a plataforma de RNA mensageiro que deu o prêmio Nobel ao casal, a dra. Karikó. E que hoje gera a plataforma que vai fazer não apenas as novas vacinas para várias doenças, como remédios. Então, hoje na área da oncologia, por exemplo, são muitos fármacos que estão sendo fabricados sobre a plataforma de RNA mensageiro, que é algo espetacular pela sua plasticidade, pela maneira como ela permite ser adaptada para diversas produções numa mesma situação, no mesmo local. Então, eu acho que a Covid-19, a despeito desse excesso de luto, que nós não precisávamos… Eu quero deixar claro, o Brasil não precisaria ter tido esse excesso de mortes que comprovadamente teve, bem como esse excesso de cicatrizes e de luto que nós temos com 718 ou 720.000 mortes. E isso gerou uma consequência que eu considero muito grave. A Covid-19, o SARS COV 2 é um vírus que ele virou endêmico, ele vive entre nós, ele não vai nunca mais desaparecer, isso vai exigir que nós sejamos vacinados anualmente como fomos vacinados para a gripe. Hoje, o nosso desejo é que nós consigamos nos próximos anos ter uma vacina conjugada para a influenza e para Covid juntas. Isso já tem muitos locais de pesquisa nesse objetivo. Isso é o que nós desejamos nos próximos anos. Mas nós precisamos nos preparar para as próximas epidemias e esclarecer com esse propósito. Dizer a verdade, dar as boas notícias, mas, sobretudo, dar as más notícias quando necessário.

OP - Ainda falando sobre a categoria médica, a senhora é muito incisiva quando fala sobre os problemas da formação médica atual. O que mais preocupa a senhora quando a gente fala desse médico que tá se formando e tá chegando ali ao paciente?

Margareth - Eu sou membro titular da Academia Nacional de Medicina, uma das nossas grandes preocupações nesse momento é exatamente a formação do médico, hoje, no Brasil. Eu acho que nós vivemos algo muito grave que foi a liberação desse excesso de escolas médicas de péssima qualidade. E o resultado do Enamed que nós vimos recentemente prova isso que eu tô dizendo. O rendimento muito sofrível de muitas dessas escolas, ou seja, um país da complexidade do Brasil, da diversidade do Brasil, do tamanho continental do Brasil, exige que tenha um sistema de saúde com o SUS, exige a formação de médicos que efetivamente estejam preparados para tratar pessoas numa população, sobretudo, que envelhece. (...)

Tudo isso exige uma formação médica. O médico hoje formado exige uma qualificação técnica muito alta, os desafios são muito grandes. Então, eu não admito formar um médico hoje que não esteja qualificado para diagnosticar um caso de sarampo numa UPA, num centro municipal de saúde. E que também esteja qualificado para tratar uma pneumonia grave numa terapia intensiva num hospital público ou privado. Nós temos que saber isso. O médico tem que ter necessariamente esta formação. E para que ele possa tê-la, é preciso que ele receba uma formação adequada. É preciso que ele tenha instrutores, tutores, professores, que sejam devidamente qualificados para tal e que ele tenha vivência prática. Não pode ter aula online, não pode ter aula por EAD de Medicina. Isso não existe. Essas faculdades que não obtiveram nota, a meu juízo, tinham que ser fechadas, mas essa é uma posição individual minha. Elas tinham que ser impedidas de formar mais médicos. E hoje temos um drama estabelecido no Brasil. O que é que nós vamos fazer com esses médicos que não têm diploma? Isso se soma ainda a gravidade dos que são formados fora do Brasil também em péssimas faculdades na zona de fronteira ou países aqui vizinhos e que não passam no Revalida. A taxa de aprovação do Revalida não passa de 20%. E o que nós faremos com esses 80% de jovens que não vão ter CRM, não vão ter licença? Onde eles estão? Então, a minha posição é que não se pode punir esses jovens. Nós temos que dar uma chance a eles. E eu me dei o trabalho de fazer uma verificação e essas pessoas nunca tiveram nenhuma aula sobre tuberculose ao longo de 6 anos de formação. Talvez tenham visto caso e não tenham sabido diagnosticar, entende? Uma doença que é tão prevalente no Brasil para dar apenas um exemplo, poderia dar N outros. Como cânceres e doenças cardiovasculares, mas não pode formar um médico que não seja capaz pelo menos de pensar na hipótese diagnóstica atendendo alguém, que aquela pessoa esteja tendo um infarto agudo do miocárdio. Isso não é inadmissível. Ou fazer um diagnóstico de uma apendicite aguda e tomar as providências para mandar operar, que é uma coisa simples, mas alguém tem que ensinar isso durante o curso médico. Então, eu considero que é muito grave o que aconteceu no Brasil. Considero imperdoável a liberação dessas escolas sem nenhum critério e, agora, o MEC, vejo de maneira muito louvável que o MEC esteja conseguindo corrigir. Mas nós ainda não resolvemos o que que nós vamos fazer. Nós apenas resolvemos como nós vamos avaliar as escolas. A Academia Nacional de Medicina tem essa posição também, que o aluno tem que ser… Primeiro ele entra na escola, ao final do ciclo básico ele faz a primeira avaliação e, depois, antes de chegar ao final do curso, uma nova avaliação para saber se se ele tem condições de progredir ou se ele tem que repetir, como se repete ano na escola. (...)

Fonte: Publicado In: O Povo, de 8/06/26. Páginas Azuis. p.6-7.


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