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terça-feira, 20 de outubro de 2026

ENTREVISTAS PRESIDENCIAIS

Por Raimundo Padilha (*)

O sistema de comunicação da Rede Globo realizou um programa de entrevistas com candidatos à Presidência da República do Brasil, que apresentaram os maiores níveis de pontuação nas pesquisas de opinião.

Inegavelmente o sistema de comunicação da Globo detém o maior nível de audiência dentre todos os veículos.

Nos anúncios das entrevistas, a meu juízo, a estrutura do programa seria diferente. Mas quem sou eu para me atrever a sugerir modelo de programa para qualquer veículo de comunicação? Posso ser um crítico, mas não tenho talento suficiente para a sua elaboração.

Na minha visão, não obstante alguns candidatos tenham algumas restrições no seu passado político, o tempo dedicado a este assunto me pareceu exagerado, prejudicando aquilo que julgo essencial para o eleitor, notadamente, o indeciso.

Obviamente todos aqueles que têm o passado com algumas restrições, iam se colocar negando e os entrevistadores tinham que indagá-los. A minha crítica não está na indagação dos maus feitos, mas na persistência do assunto diante do tempo dedicado ao programa e a variedade de temas não tratados.

Numa análise fria e simplória, o último candidato entrevistado, o dr. Augusto Cury, por não ter passado político, foi o único que teve oportunidade de apresentar suas ideias de futuro com mais liberdade, embora se possa descordar de muitas delas.

Não quero dizer que o passado dos candidatos seja uma página virada, mas no tempo do programa a persistência nas falhas por eles cometidas avançou muito no tempo útil do programa, ficando o eleitor indeciso na mesma indecisão quanto ao futuro do País. Perdemos uma excelente oportunidade de uma discussão mais abrangente de um olhar mais objetivo para o futuro.

O sistema de entrevista foi uma inovação em substituição ao debate coletivo dos candidatos, já que os maiores pontuados nas pesquisas não se dispuseram a participar. Repito, a crítica está na persistência do passado, o que lembrou os discursos entre si, dos candidatos num processo entediante de xingamentos. O público que assistiu às entrevistas esperava os projetos dos candidatos e não as suas defesas de pecados cometidos, defesas, aliás, algumas vezes falseando a verdade.

Não critico os entrevistadores, mas o seu roteiro. Insisto, um longo tempo com perguntas sobre as feridas do passado, principalmente, de Lula e Flávio, que hoje são os mais prováveis a chegar ao segundo turno.

Temas de relevante importância foram omitidos e que seriam do vivo interesse dos telespectadores.

Aguardamos que, nas próximas eleições, melhorem os programas dos veículos e o perfil dos candidatos.

(*) Economista, professor aposentado da UFC e membro da Academia Cearense de Economia.

Fonte: O Povo, de 2/09/26. Opinião. p.19.


domingo, 20 de setembro de 2026

SULIVAN MOTA

Por Lêda Maria, jornalista de O Povo

Desde criança ele já manifestava o desejo de ser médico. Aos 9 anos, conseguiu comprar o seu primeiro livro de pequenos socorros e logo aprendeu a aplicar injeção, ganhando a confiança das pessoas e entregando-se à prática de um "pequeno doutor", recebendo da família orientação e motivação.

Após a formação em Medicina, pela UFC, conheceu o Iprede, ali exercendo sua vocação de amor. São 40 anos de dedicação. Aqui está Sulivan Mota, nosso entrevistado.

1. Quem é você?

Eu sou o Sulivan Mota. Ou melhor, eu fui o Sulivan Mota até alguns anos atrás, quando assumi o Iprede. A partir dali, passei a ser o Sulivan do Iprede.

É assim que a sociedade carinhosamente me chama. E eu sou imensamente feliz por isso — por estar nesta casa e ouvir "o Sulivan do Iprede" e não o inverso, "o Iprede do Sulivan", o que me deixaria profundamente triste. Sou pediatra de alma.

Professor aposentado da Universidade Federal do Ceará, onde exerci a docência por escolha de vida durante 44 anos.

2. Por que optou pela profissão de médico?

É difícil dizer, porque me falta a lembrança de ter pensado em qualquer outra profissão. Sempre tive a certeza absoluta de que seria médico.

O que me levou a isso, realmente, não sei. Não tive um pai ou um irmão mais velho médico para me influenciar.

Aos 10 anos de idade, depois de insistir muito, meu pai comprou para mim um livro que ensinava a aplicar injeção intramuscular.

Li e reli aquele livro e, depois de meu pai tomar a lição repetidamente, abri meu pequeno ambulatório para fazer curativos e aplicar injeções.

Tinha uma maletinha que eu carregava para cima e para baixo, atendendo a vizinhança ou alguém da família que necessitasse. Assim, ainda menino, eu já me projetava médico.

3. E o Iprede, como chegou à sua vida?

O Iprede chegou de forma muito suave, muito terna. Não sou fundador, mas, logo depois de fundado, cheguei ao Iprede como professor da UFC, levando meus alunos da disciplina de Desnutrição para aulas práticas.

Naquela época, a desnutrição atingia um pouco mais de um terço de nossas crianças. Logo me encantei com o Iprede, pela sua capacidade de estudar e por suas articulações com entidades do mundo inteiro, como o Instituto de Nutrição de Londres, onde Waterlow era o maior pesquisador em desnutrição da época.

Depois passamos a ser plantonista e médico do ambulatório, sempre nos comprometendo com aquele trabalho lindo, que transforma vidas. Falo no plural porque essa caminhada tem a companhia inseparável do pediatra João Nelson.

Nos encantamos tanto que, quando o Iprede esteve ameaçado de fechar as portas, decidimos assumir a entidade, mesmo em meio a grandes dificuldades. Chegamos com o coração aberto, com muita fé em Deus, que se faz manifestar aqui a todo instante.

4. Hoje quais são os seus dois principais desejos nessa caminhada no Iprede?

Alimentamos um dos maiores sonhos: a autossustentabilidade. No início nos pareceu utopia, mas a cada dia nos aproximamos mais dela. O primeiro desejo foi honrar e pagar as dívidas.

O segundo, o sonho que hoje nos move, é alcançar escala no atendimento das crianças neurodivergentes. Hoje temos uma demanda que jamais o Estado brasileiro terá condições de atender sozinho.

Mesmo havendo recursos, não teremos profissionais suficientes para assistir todas as crianças necessitadas.

A metodologia que se tem hoje para a intervenção no autismo exige um contingente de especialistas que o Brasil não dispõe.

O Iprede estudou e desenvolveu uma metodologia 10 a 12 vezes mais barata que a tradicional e que pode ser implantada tanto no pequeno quanto no grande município do Brasil.

Meu sonho é vê-la implantada, atendendo à demanda por inteiro. Só em Fortaleza, esta demanda ultrapassa 55.000 crianças buscando uma vaga para atendimento que, certamente, não terão se nada mudar.

5. Devoto de Irmã Dulce, como se relaciona com ela e qual uma graça alcançada?

Irmã Dulce tem sido a nossa mentora, a nossa santa milagrosa fazendo com que aqui dentro hoje possamos atender 4 mil crianças, 4 mil famílias.

A gente conseguir fazer a transformação dessas realidades confirma a cada momento a verdadeira realização de um milagre dela.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/09/2026. V&A. Lêda Maria. p.3.


domingo, 6 de setembro de 2026

Melissa Vieira: “A curiosidade é o mais importante para um futuro cientista”

Por Kaio Pimentel, jornalista especial para O Povo

Foto: Divulgação/ Igor Alisson Marques Roman | Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Natural de Fortaleza, a engenheira química Melissa Gurgel Adeodato Vieira passou em 1º lugar para ocupar cadeira de titularidade acadêmica após 16 anos de docência em Campinas.

Um professor-titular representa e exerce atividades nos extramuros do ensino superior. É assim que a fortalezense Melissa Gurgel Adeodato Vieira, 47, resume o cargo que deve assumir, em janeiro de 2027, após aprovação em 1º lugar na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Formada em Engenharia Química pela Universidade Federal do Ceará (UFC), ela mudou-se para realizar mestrado em São Paulo aos 22 anos, seguindo para doutorado e pós-doutorados. "Ninguém chega lá em cima sozinho", assegura.

O currículo da profissional inclui ainda intercâmbio acadêmico na École Centrale Paris (ECP), na França, e pós-doutorado pela Universität Stuttgart, na Alemanha. Não à toa, desde 2023, é citada na lista de cientistas mais influentes do mundo, segundo a editora internacional Elsevier.

Depois de 16 anos como associada com livre-docência na Unicamp, ela ocupará a nova responsabilidade institucional, enquanto já coordena dois laboratórios de pesquisas sobre saúde e meio ambiente e orienta quase 20 estudantes.

O POVO - Qual deve ser a melhor metodologia para aproveitar o campo da ciência desde a infância e promover futuros interessados na área?

Melissa Vieira - Acho que a curiosidade é o mais importante para um futuro cientista. Não aceitar porquês preestabelecidos, mas buscar sempre novas respostas, porque o conhecimento é dinâmico. A gente tem que sempre estar investigando. Coisas que antigamente estavam consolidadas, hoje já se descobre que não é mais dessa forma.

Eu diria que também a resiliência, nem sempre você tem os dados que está esperando. Ser ambicioso nas suas perguntas para procurar as respostas que, de fato, vão contribuir para os desafios que a gente tem hoje. Todo pesquisador tem que ser muito disciplinado naquilo que faz.

O POVO - O começo da sua vida acadêmica foi por meio de uma graduação em engenharia química na UFC. Por que esse curso?

Melissa Vieira - Porque é um curso muito interdisciplinar. É um curso que consegue, com a formação que a gente tem ao longo dos cinco anos, resolver problemas relevantes da sociedade em termos de produção de produtos químicos para fertilizantes, segurança alimentar, desenvolvimento de larga escala de medicamentos, área de energia limpa, produção de hidrogênio verde, produção de baterias, energia solar.

O POVO - A xenofobia contra nordestinos ainda persiste no Brasil. Precisou enfrentar isso na Unicamp?

Melissa Vieira - Eu não tive problemas de xenofobia [na Unicamp]. Eu senti um pouco disso quando eu fui fazer mobilidade na França. Eu fiz vários trabalhos acadêmicos sozinha, porque ninguém queria fazer grupo comigo lá. Iniciação científica era realizada em dupla. Ninguém quis fazer dupla comigo, eu fiz sozinha também.

Não me causou nenhum problema, porque eu já realizava iniciação científica desde o primeiro ano da graduação. Eu consegui desempenhar bem, trabalhando sozinha. Na França, eu senti não por ser cearense, mas por ser brasileira.

O POVO - A que passos o Brasil caminha se comparado à França e à Alemanha no que se refere aos estudos científicos e à engenharia química?

Melissa Vieira - Eu diria que a Unicamp tem uma infraestrutura muito mais avançada do que as duas universidades que eu presenciei. Poderia te dizer certamente que atualmente eu estou numa universidade de excelência, compatível com as melhores universidades do mundo. Pesquisadores altamente competentes que não seriam diminuídos em relação a nenhum outro pesquisador.

O POVO - Morando em Campinas, você ainda mantém vínculo afetivo com o Ceará? De que forma consegue fazê-lo?

Melissa Vieira - Sim. Todos os anos eu retorno ao Ceará. Eu tenho minha família, irmãs, meus pais, sobrinhos, tios, todos estão no Ceará, com exceção de uma tia que mora em Campinas. Tenho também convívio com professores da UFC, que foram inclusive meus colegas durante a graduação e pós-graduação aqui na Unicamp, meus antigos orientadores também são professores ainda da UFC.

O POVO - Você passou em primeiro lugar no concurso para professora-titular da Unicamp. Qual é a sensação?

Melissa Vieira - É uma sensação gratificante de reconhecimento pelos pares. Porque o professor-titular avalia toda a trajetória acadêmica do docente, as contribuições na área de ensino, pesquisa, extensão e gestão universitária. Ser indicada em primeiro lugar mostra que os meus pares me reconheceram, que eu tenho potencial de liderança, prevista para um titular.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 6/09/26. Farol. p.4.

Nota do Blog do Marcelo Gurgel: Melissa Gurgel é uma querida sobrinha minha que obteve o primeiro lugar, disputando esse concurso público da Faculdade de Engenharia Química da Unicamp, com cinco concorrentes, sendo três da própria Unicamp e dois outros de fora. Ela está seguindo os brilhantes passos da minha irmã Meuris Gurgel, professora titular atualmente aposentada da Unicamp.

domingo, 21 de junho de 2026

JOÃO MACEDO: a medicina como ciência e encontro humano

Por Lêda Maria, jornalista de O Povo

João Macedo Coelho Filho, casado com a pediatra Zilma, pai de Ênio, Iana e João Neto. Caminheiro animado da vida, boa-praça, sempre bem acolhido por onde passa e trabalha. Entusiasta da ideia de que "a beleza salvará o mundo", daí sua paixão pelas artes plásticas e pela literatura. Ama a ciência, o estudo, o contato com as pessoas e a possibilidade de ajudar alguém, sobretudo os que sofrem. Daí sua vocação para a medicina, que inspirou os três filhos, e sua devoção à docência, exercida "como quem reza", no dizer de Filgueiras Lima. Formou-se em Medicina pela UFC, em 1988, e, posteriormente, passou por São Paulo e pelo Reino Unido em sua formação acadêmica, obtendo mestrado, doutorado e especialização em geriatria, área que exerce ativamente em seu consultório. Na UFC, ingressou como docente em 1991, introduziu o ensino de geriatria e, atualmente, é diretor da Faculdade de Medicina, cargo em que cumpre a honrosa missão de contribuir para a formação de médicos de excelência.

Quando decidiu fazer Medicina?

Ainda no colégio, tive alguns professores que eram médicos e ensinavam disciplinas como Biologia e Química. Eles despertaram em mim grande interesse pelo conhecimento científico. Mais tarde, tive também aulas de análises clínicas em uma disciplina de caráter profissionalizante, experiência que igualmente me encantou. Ao mesmo tempo, a formação humanística e espiritual sempre exerceu forte atração sobre mim. Quando percebi que a Medicina reunia essas dimensões e representava um caminho privilegiado para ajudar as pessoas, não tive mais dúvidas: queria ser médico.

Quais foram as suas grandes influências na faculdade?

Foram muitos os professores, profissionais e amigos que me inspiraram ao longo da formação. Não ouso citar nomes, porque certamente cometeria a injustiça de esquecer alguns. Sempre admirei especialmente aqueles que exercem a Medicina aliando sólido conhecimento técnico à simplicidade, sem arrogância e longe da ribalta. Aqueles que estão sempre disponíveis para cuidar dos pacientes com zelo, respeito e genuína dedicação.

O que acha da medicina cada vez mais tecnológica?

Os avanços da ciência e da tecnologia melhoraram imensamente o diagnóstico, o tratamento e a prevenção das doenças. O desafio é garantir que todos tenham acesso a esses avanços e, ao mesmo tempo, que a tecnologia jamais substitua a natureza essencialmente humana da Medicina, na qual empatia, compaixão e ética permanecem insubstituíveis.

Sente-se realizado com a sua especialidade, a geriatria?

Absolutamente realizado. A geriatria é uma especialidade em que não há compartimentalização. A pessoa é vista em sua integralidade: nas dimensões clínica, funcional, social e existencial. Exercemos o cuidado em sua expressão mais ampla. Além disso, aprendemos muito com as pessoas longevas: suas histórias de vida, seus exemplos de resiliência e os desafios que enfrentaram. Refletir sobre a velhice e o envelhecimento é uma necessidade de todos no mundo contemporâneo, em que a expectativa de vida cresce continuamente.

E a literatura?

Desde o colégio, gosto de literatura, que defino como linguagem e interioridade. É um caminho que me permite encontrar leveza, contemplar a dimensão humana e refinar a forma de ver e de estar no mundo. É também uma maneira de visitar meu universo subjetivo, minhas paixões, encantamentos e memórias.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 20/06/2026. V&A. Lêda Maria. p.3.


domingo, 14 de junho de 2026

MARGARETH DALCOLMO: entre a literatura e o compromisso com a ciência IV

Por Ana Rute Ramires, jornalista de O Povo.

OP - E o que se esperar de um bom médico?

Margareth - O médico que eu digo não é o médico do futuro, é o médico de agora. Se exige grande qualificação técnica, exige que ele seja formado com noções muito precisas e sólidas de pesquisa, trabalhar em equipe, ninguém trabalha sozinho, ele tem que aprender a trabalhar em equipe desde que entra na escola médica, ter uma noção de gestão, ninguém pode ter de capacidade, desenvolver uma capacidade liderança. Então, ser qualificado para líder, líder de equipe, líder de grupo, líder do seu laboratório. Isso é uma exigência que se faz, ter noções de tecnologia de informação. Ninguém hoje pode ser formado sem saber lidar com o programa de computador para interpretar, para saber ler um artigo científico. Até para você ler um artigo científico, você olha um gráfico para saber interpretar aquilo, né? E hoje nós vemos que até isso é falho. Essas são qualificações que eu julgo indispensáveis na formação de um médico. E por fim, e não menos importante, ser formado e receber sólidos conhecimentos de humanidade. Isso vem muito da educação que ele recebe em casa, naturalmente. Não é a faculdade que vai ensiná-lo, mas a faculdade vai resgatar o que ele recebeu. E se ele não recebeu nada, vai ter tentar incorporar na sua formação conhecimento de humanidade. Hoje, as grandes escolas médicas do mundo — e quem começou isso foi a faculdade de medicina de Harvard, nos Estados Unidos — estabeleceram um curso de humanidades. Humanidade significa um médico ler, ver arte, visitar museus, entender que existe muito da obra de arte, muitas obras de arte que nós vemos nos museus e que são lindas. Não adianta olhar e não saber o que tá vendo. (...) Então, assim, eu acho que dar essa chance ao médico de sair um pouco daquele ambiente e pensar um pouco sobre o livro, sobre literatura, tudo isso faz parte do da formação do que eu julgo um bom médico.

Por Ana Rute Ramires, jornalista de O Povo.

OP - Doutora, para finalizar, eu queria que a senhora falasse um pouquinho sobre a pesquisa sobre a qual a senhora tá se debruçando atualmente, que é a paradigma TB. Queria que a senhora explicasse um pouquinho sobre esse ensaio clínico.

Margareth - Nos últimos 30 anos, eu venho me dedicando à pesquisa na área da tuberculose, tentando responder como nós podemos humanizar o tratamento e melhorar a eficácia dos tratamentos. Isso junto com outros pesquisadores da Fiocruz e de outras instituições brasileiras, o Brasil teve chance de participar dos principais ensaios clínicos desenvolvidos nos últimos 25 anos. Eu participei da mudança de tratamento. O Brasil foi de novo pioneiro ao assumir o tratamento de curta duração para formas graves e resistentes de tuberculose. E nós participamos dos estudos que geraram essa informação que permitiram essa tomada de decisão. E, nesse momento, agora, é de novo, através de quatro instituições brasileiras, três da Fiocruz e a outra é da Universidade Federal do Rio de Janeiro, nós estamos começando a participar de um novo estudo internacional cujo objetivo é responder se será ou não possível. A tuberculose ainda tem um tratamento muito longo que dura seis meses para as formas sensíveis e nós queremos responder se é possível com a adição de dois fármacos novos, ainda em fase clínica, se será possível ou não reduzir o tempo de seis para quatro meses. Tudo indica que sim, os resultados dos estudos preliminares até agora mostram resultados muito favoráveis e nós seremos protagonistas de uma resposta histórica mais uma vez e isso nos dá muita alegria.

Um fato que eu gostaria de registrar é que a comunidade acadêmica brasileira, apesar do conservadorismo de alguns, manteve uma capacidade de compromisso público muito grande. Temos vários exemplos. Com todas as adversidades, o Brasil, foi o 10º país que mais publicou em relação à Covid-19 e houve experiências brasileiras que ficam pra a história. E uma delas se deu aqui no Ceará, que foi através de pesquisadores do Ceará, a criação de um mecanismo que salvou muitas vidas. E uma das razões pelas quais eu estou aqui é a Fundação Elmo. O Elmo é um equipamento que foi criado, como eu disse, pelos pesquisadores cearenses, enquanto em São Paulo, grupos da USP participavam de estudos clínicos, enquanto nós participávamos na Fiocruz de estudos da vacina. Aqui, pesquisadores criaram um dispositivo que atendeu pacientes com grave insuficiência respiratória e que, a meu juízo, não tem um número preciso, salvou milhares de vidas, dezenas de milhares de vidas. Isso tem que ser registrado porque isso gerou uma premiação, através do professor Marcelo Alcântara, daqui do Ceará, e gerou a Fundação Elmo que hoje nós estamos aqui para prestigiar. Então, de certa maneira, eu quero dizer que a despeito de todas as dificuldades pelas quais nós conversamos, a comunidade científica e acadêmica brasileira demonstrou uma enorme capacidade de trabalho, um compromisso público absolutamente inegável e uma criatividade que propiciou algo que fica registrado pra história, não é pra história para ser esquecido, é para ser usado. Então isso faz muita diferença e eu faço questão de registrar.

LIVRO

A pesquisadora lançou o livro "Um tempo para não esquecer – A visão da ciência no enfrentamento da pandemia do coronavírus e o futuro da saúde", em 2021. A obra compila artigos que narram a batalha contra a Covid-19, analisando evidências científicas, vacinas e o cenário da saúde.

ELMO

Dalcolmo esteve em Fortaleza em maio e participou do lançamento da Fundação Elmo, instituição de suporte à saúde respiratória. Ela foi uma das homenageadas na cerimônia, junto da pneumologista Márcia Alcântara.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 8/06/26. Páginas Azuis. p.6-7.


MARGARETH DALCOLMO: entre a literatura e o compromisso com a ciência III

Por Ana Rute Ramires, jornalista de O Povo.

OP - Nesse período, também se acentuou a questão que o discurso de alguns profissionais se misturava com questões políticas e ficou muito evidente o caráter bem conservador da categoria médica. Como é que foi isso pra senhora? Como é que a senhora observa os impactos negativos disso durante esse período de crise?

Margareth - Olha, eu não acredito em inocência, digamos assim, como um princípio. Tudo tem um, o que eu chamaria um dolo. No sentido de que você tem que ter um propósito. Nada é inocente. Dizer que a ciência não pode ser politizada é uma ingenuidade. Ela pode ser para o mal, mas ela também pode ser para o bem. Houve uma coisa muito curiosa. Em 2020, nós não tínhamos vacina, nós tínhamos uma pandemia que crescia e se alastrava pelo Brasil de maneira muito dramática. E nós começamos a vacina sazonal pra gripe, pra influenza no meio do outono, no mês de abril, nós nunca vacinamos tanta gente porque as pessoas acorriam aos centros de saúde achando que vacinar para a gripe protegia contra Covid. Olha que coisa incrível. Isso, naquele momento, começou a ser contaminado, a partir daquele momento, por um discurso e por essa retórica nociva a qual eu me referi de que vacina não protegia. Desde as minhas primeiras entrevistas, eu disse uma frase… Qual é a arma mais preciosa que nós temos para viroses agudas de transmissão respiratória? Não é remédio. Remédio é para virose crônica. Então, hoje nós tratamos viroses crônicas como aids, infecção pelo HIV, hepatite C, para isso tem remédio. São viroses crônicas de outra evolução. Viroses de transmissão aguda respiratória, a grande arma é vacina. E nós sabíamos disso, aprendido há décadas pelo sarampo. Como é que nós conseguimos eliminar o sarampo? Porque é a virose que mais rapidamente se transmite, uma pessoa transmite para 15 outras. Nós sabíamos que a arma era essa. Mas, desde o início, médicos não necessariamente são conservadores por natureza. Mas existia naquele momento uma polarização no País que já era óbvia. Porque havia uma fratura, digamos assim, social que já se havia demarcado pelo processo eleitoral. E isso contamina. Médicos são pessoas e podem ser influenciados. Em geral, pertence a uma categoria que, pelo fato de se deter muito aquilo que faz, pode ficar muito conservadora, sem se abrir para uma crítica, digamos assim, mais ampla ou para o que eu chamo de uma consciência social mais ampla, baseada em fatos. Quando houve a questão que eu considero uma tragédia, que foi a questão da cloroquina, foi o pior exemplo. E não nasceu no Brasil. Na verdade, aquilo nasceu na França através de um pesquisador que hoje está no ostracismo. O seu CRM cassado, inclusive. O professor Didier Raoult que inventou isso. Naquele momento, junho, julho de 2020, estimadamente, havia no planeta mais de 3 bilhões de pessoas usando cloroquina. Não foi só no Brasil, houve uma contaminação feita pela irracionalidade. Alguém disse, todo mundo tinha medo. A Covid-19 gerava um temor imenso nas pessoas. Pessoas morriam, famílias perdiam, a dor estava estabelecida, ritos sociais estavam rompidos pelo isolamento. O isolamento social é algo que, digamos, corrompe toda a nossa cultura. Ainda mais nós, que somos latinos, somos gregários por natureza. Então, o isolamento era algo que violava muito a nossa cultura. Tudo isso gera medo e o medo nos torna muito frágeis. O medo pode nos encorajar em algumas situações muito particulares, mas o medo nos faz mais fáceis de sermos contaminados por uma informação. O exemplo da cloroquina é isso. Rapidamente alguém oportunista criou isso. Na verdade, todos os estudos, hoje, mais do que nunca, mostram que nunca houve nada que mostrasse que a cloroquina melhorasse, curasse ou impedisse alguém de morrer por Covid-19. Então, o exemplo mais paradigmático que eu acho é esse. Isso se juntou quando naquele momento todo mundo, o mundo desenvolvido todo, investia, as casas farmacêuticas investiam na produção rápida de uma vacina. Eu considero as plataformas vacinais, as novas e as recuperadas durante aquele período de 2020, 2021, talvez a descoberta mais sensacional das últimas décadas da saúde, que foi a elaboração das vacinas para Covid-19 que geraram essa coisa linda, que foi a plataforma de RNA mensageiro que deu o prêmio Nobel ao casal, a dra. Karikó. E que hoje gera a plataforma que vai fazer não apenas as novas vacinas para várias doenças, como remédios. Então, hoje na área da oncologia, por exemplo, são muitos fármacos que estão sendo fabricados sobre a plataforma de RNA mensageiro, que é algo espetacular pela sua plasticidade, pela maneira como ela permite ser adaptada para diversas produções numa mesma situação, no mesmo local. Então, eu acho que a Covid-19, a despeito desse excesso de luto, que nós não precisávamos… Eu quero deixar claro, o Brasil não precisaria ter tido esse excesso de mortes que comprovadamente teve, bem como esse excesso de cicatrizes e de luto que nós temos com 718 ou 720.000 mortes. E isso gerou uma consequência que eu considero muito grave. A Covid-19, o SARS COV 2 é um vírus que ele virou endêmico, ele vive entre nós, ele não vai nunca mais desaparecer, isso vai exigir que nós sejamos vacinados anualmente como fomos vacinados para a gripe. Hoje, o nosso desejo é que nós consigamos nos próximos anos ter uma vacina conjugada para a influenza e para Covid juntas. Isso já tem muitos locais de pesquisa nesse objetivo. Isso é o que nós desejamos nos próximos anos. Mas nós precisamos nos preparar para as próximas epidemias e esclarecer com esse propósito. Dizer a verdade, dar as boas notícias, mas, sobretudo, dar as más notícias quando necessário.

OP - Ainda falando sobre a categoria médica, a senhora é muito incisiva quando fala sobre os problemas da formação médica atual. O que mais preocupa a senhora quando a gente fala desse médico que tá se formando e tá chegando ali ao paciente?

Margareth - Eu sou membro titular da Academia Nacional de Medicina, uma das nossas grandes preocupações nesse momento é exatamente a formação do médico, hoje, no Brasil. Eu acho que nós vivemos algo muito grave que foi a liberação desse excesso de escolas médicas de péssima qualidade. E o resultado do Enamed que nós vimos recentemente prova isso que eu tô dizendo. O rendimento muito sofrível de muitas dessas escolas, ou seja, um país da complexidade do Brasil, da diversidade do Brasil, do tamanho continental do Brasil, exige que tenha um sistema de saúde com o SUS, exige a formação de médicos que efetivamente estejam preparados para tratar pessoas numa população, sobretudo, que envelhece. (...)

Tudo isso exige uma formação médica. O médico hoje formado exige uma qualificação técnica muito alta, os desafios são muito grandes. Então, eu não admito formar um médico hoje que não esteja qualificado para diagnosticar um caso de sarampo numa UPA, num centro municipal de saúde. E que também esteja qualificado para tratar uma pneumonia grave numa terapia intensiva num hospital público ou privado. Nós temos que saber isso. O médico tem que ter necessariamente esta formação. E para que ele possa tê-la, é preciso que ele receba uma formação adequada. É preciso que ele tenha instrutores, tutores, professores, que sejam devidamente qualificados para tal e que ele tenha vivência prática. Não pode ter aula online, não pode ter aula por EAD de Medicina. Isso não existe. Essas faculdades que não obtiveram nota, a meu juízo, tinham que ser fechadas, mas essa é uma posição individual minha. Elas tinham que ser impedidas de formar mais médicos. E hoje temos um drama estabelecido no Brasil. O que é que nós vamos fazer com esses médicos que não têm diploma? Isso se soma ainda a gravidade dos que são formados fora do Brasil também em péssimas faculdades na zona de fronteira ou países aqui vizinhos e que não passam no Revalida. A taxa de aprovação do Revalida não passa de 20%. E o que nós faremos com esses 80% de jovens que não vão ter CRM, não vão ter licença? Onde eles estão? Então, a minha posição é que não se pode punir esses jovens. Nós temos que dar uma chance a eles. E eu me dei o trabalho de fazer uma verificação e essas pessoas nunca tiveram nenhuma aula sobre tuberculose ao longo de 6 anos de formação. Talvez tenham visto caso e não tenham sabido diagnosticar, entende? Uma doença que é tão prevalente no Brasil para dar apenas um exemplo, poderia dar N outros. Como cânceres e doenças cardiovasculares, mas não pode formar um médico que não seja capaz pelo menos de pensar na hipótese diagnóstica atendendo alguém, que aquela pessoa esteja tendo um infarto agudo do miocárdio. Isso não é inadmissível. Ou fazer um diagnóstico de uma apendicite aguda e tomar as providências para mandar operar, que é uma coisa simples, mas alguém tem que ensinar isso durante o curso médico. Então, eu considero que é muito grave o que aconteceu no Brasil. Considero imperdoável a liberação dessas escolas sem nenhum critério e, agora, o MEC, vejo de maneira muito louvável que o MEC esteja conseguindo corrigir. Mas nós ainda não resolvemos o que que nós vamos fazer. Nós apenas resolvemos como nós vamos avaliar as escolas. A Academia Nacional de Medicina tem essa posição também, que o aluno tem que ser… Primeiro ele entra na escola, ao final do ciclo básico ele faz a primeira avaliação e, depois, antes de chegar ao final do curso, uma nova avaliação para saber se se ele tem condições de progredir ou se ele tem que repetir, como se repete ano na escola. (...)

Fonte: Publicado In: O Povo, de 8/06/26. Páginas Azuis. p.6-7.


sábado, 13 de junho de 2026

MARGARETH DALCOLMO: entre a literatura e o compromisso com a ciência II

Por Ana Rute Ramires, jornalista de O Povo.

OP - A senhora também menciona que, durante esse período da Covid-19, a gente teve um retrocesso de 10 anos no combate à tuberculose. Como é que o Brasil pode recuperar esse tempo perdido? A senhora acha que a gente vai conseguir recuperar?

Margareth - Vai. Mas, quer dizer, você não recupera um tempo perdido. Ele não é recuperável, né? O tempo perdido, ele é, eu diria, recomponível de uma outra maneira. Então, nós tivemos um retrocesso em todas as doenças, não foi só nas doenças transmissíveis, a tuberculose foi a que mais sofreu, mas nós tivemos um retrocesso muito grande em outras doenças, como as cardiovasculares, onde a mortalidade aumentou, mas sobretudo nos cânceres. Nos cânceres realmente foi devastador o retrocesso. Por quê? Porque pessoas que estavam em tratamento, muitas interromperam, pessoas não tiveram seus exames preventivos feitos, portanto, não tiveram seus diagnósticos de câncer de mama, de câncer de próstata e de outros cânceres e pessoas que não foram operadas, não foram tratadas numa temporalidade adequada. Então, sem dúvida, o impacto sobre o câncer foi devastador. Na tuberculose também, porque o Brasil tem um paradoxo, né? O Brasil tem uma carga de doença muito alta ainda. Nós tínhamos aproximadamente 90.000 casos por ano, passamos para 100.000 casos por ano. Uma mortalidade que também teve um impacto muito grande, porque as pessoas deixaram de se tratar, os serviços não funcionaram. Eu trabalho na Fiocruz, um serviço que nunca deixou de funcionar, porque como nós fazemos pesquisa, nós temos voluntários e não podíamos deixar de ser atendidos de modo algum. Tem muitas implicações de natureza ética e, além disso, nós desenvolvemos pesquisa, então, nós estávamos lá o tempo todo, mas isso não aconteceu com a maior parte do serviço. Então, o paradoxo ao qual eu me refiro é que o Brasil tem tratamento rápido molecular na rede pública, ou seja, um diagnóstico que pode ser feito em 24 horas. O Brasil tem tratamento gratuito, governamental, para todo mundo, inclusive com medicamentos de alto custo e que são oferecidos pelo SUS. Então, nada justifica a não ser uma ineficiência dos serviços e eu acho que isso é um exemplo bastante revelador das necessidades de melhoria do funcionamento do SUS. O SUS, você sabe, eu sou defensora absolutamente convicta do SUS, né? Eu acho que o SUS é o maior programa de inclusão social do mundo. Não há nenhum país que tenha mais de 100 milhões de habitantes que ofereça serviço para todo mundo de maneira equânime. Como SUS, com todos os seus problemas, com todas as suas falhas, com todo o seu subfinanciamento, nós ainda gastamos muito pouco com saúde, né? Nós gastamos menos de 5% do nosso PIB com saúde, quando outros países gastam muito mais, mais de 10%. Então, assim, nós precisamos aumentar o investimento do SUS, precisamos melhorar a qualificação das pessoas que lá trabalham. Então, essa questão de recursos humanos é muito importante e nós precisamos dar acesso maior, lembrando algo que eu considero muito importante que todo mundo tem que ter essa consciência. O Brasil é um país que envelheceu rapidamente. Nossa população aumentou a sua longevidade de maneira quase abrupta nos últimos 40 anos, né? Nós aumentamos a nossa expectativa de vida ao nascer de 54 para 78 anos em 40 anos. Isso se deve a uma ação de saúde pública chamada vacinas. E essa crença, essa confiabilidade, é muito importante que seja retomada para que nós consigamos manter não só a confiança da nossa população, como as medidas que estão ligadas a isso. Então, as doenças tiveram impacto com a Covid-19, sem dúvida nenhuma, mas isso levou a uma consciência e que hoje tá muito clara para nós. Essa não foi a última pandemia das nossas vidas. A Covid-19 não é a última pandemia, teremos outras. Então, o relatório global publicado no final de 2024, o Global Report publicado na revista Lancet agora em 2025, revela por estudos muito bem feitos que nós temos uma chance real de 48%, matematicamente calculada, de que nós teremos nos próximos 8 anos uma grande pandemia com muitas de mortes, por mais de 1 milhão de mortes. E isso é esperado. Então, o Brasil não pode mais ser apanhado tão desprevenido como foi quando a Covid a chegou, de modo algum. Então, o Brasil precisa de uma nova institucionalidade que cuide disso, que prepare o país para isso. Então, faço parte de um grupo criado pelo Ministro Padilha, assim que ele assumiu no ano passado, para a criação de uma nova institucionalidade que nesse momento tá aprovada e que depende apenas agora de um marco legal, né, um projeto de lei, uma medida provisória, algo que possa institucionalizar de maneira definitiva e nós possamos ter todas as providências rapidamente tomadas.

OP - E o que é que a gente faz enquanto espera a próxima pandemia? A senhora falou desse grupo de trabalho que está sendo institucionalizado. O que é que a gente precisa fazer para se preparar para outro evento como esse?

Margareth - Primeiro, nós temos que ter toda uma questão logística de entendimento institucional da relevância, da magnitude que o problema pode ter. Isso é muito importante. Segundo, qualquer pandemia ou qualquer epidemia daqui para a frente será sempre, ou uma maioria delas, de origem zoonótica. Ela virá do mundo animal. O homem tá fazendo tão mal ao planeta com esses desmatamentos e mudanças climáticas e tudo que de modo negacionista pode ser negado, mas nós sabemos que é verdade. Tudo isso está relacionado, nada disso é independente. Então, muito provavelmente, as próximas epidemias serão não só de origem zoonótica, ou seja, gripes aviárias, mas relacionadas a viroses, doenças virais de transmissão respiratória, isto é, uma pessoa contaminada pode transmitir para várias outras. Então, é preciso que esse entendimento seja público, que as pessoas saibam disso. Segundo, que a comunicação seja muito imediata, seja feito alerta e que as pessoas possam cumprir normas e recomendações sanitárias que protejam as pessoas. E terceiro, que o Brasil tenha a contingência necessária. Então, você se lembra que nós não tínhamos máscara, nós não tínhamos vidro para envasar vacinas. Nós precisamos de autonomia, autonomia da indústria, para que nós tenhamos estoque adequado de tudo que é necessário para controlar algo que é transmissível e que é é transmissível de um vetor ou que é transmissível de uma pessoa para outra. Essa logística, que eu chamo de contingência, é crucial pro Brasil nesse momento. Nós precisamos disso e nós precisamos de autoridade. É claro que uma institucionalidade nova não terá poder de polícia. Eu não posso chegar e fechar esse hotel onde nós estamos, ou escola, não. Mas eu posso dizer ao público: escolas devem ser fechadas, cinemas devem ser fechados, locais públicos, festas canceladas, porque há uma transmissão que é coletiva e que uma pessoa pode transmitir para várias outras. Alguém com essa autoridade, um grupo de pessoas com a chancela governamental. E isso não pode estar ligado a governos. Isso tem que ser uma institucionalidade de Estado que não sofra nenhuma interferência de natureza política. Nós estamos aqui para orientar, prover informações, gerar conhecimento e, sobretudo, dizer do que foi encontrado, seja isso uma resposta boa, uma informação ruim, preocupante ou alarmante, mas nós temos que dizer a verdade. Felizmente, a imprensa brasileira, eu sou particularmente muito grata à imprensa brasileira de modo geral, salvo raras exceções, a imprensa brasileira optou numa encruzilhada de opção, optou pelo caminho correto. Ouviu-nos e nos deu voz permanente, como você viu. Tinha dias que eu dava quatro, cinco entrevistas em canais diferentes de televisão, de rádio, de jornais. Eu passei a escrever em um jornal semanalmente, eu dei entrevista para muitos órgãos internacionais, porque a situação do Brasil preocupava o mundo todo, naturalmente. Nós convivemos desde o início com algo muito nocivo ao Brasil, faço questão de frisar isso. Nós convivemos com uma tensão entre a nossa voz e a retórica governamental que era extremamente danosa à nossa população. Então, nós vivemos nessa tensão desde o início e procuramos, digamos assim, diminuir isso dando informação precisa e verdadeira.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 8/06/26. Páginas Azuis. p.6-7.


MARGARETH DALCOLMO: entre a literatura e o compromisso com a ciência I

A médica pneumologista e pesquisadora da Fiocruz é uma defensora da ciência, do humanismo e do compromisso inegociável com a verdade

Por Ana Rute Ramires, jornalista de O Povo.

Nascida em uma família de juristas, por muitos anos ela quis ser diplomata. Mas o encontro com a Medicina foi sem volta. Entre o amor pela literatura e o empenho na pesquisa científica, forjou-se uma defensora da ciência, do humanismo e do compromisso inegociável com a verdade. De uma adolescente engajada nas causas sociais, que sempre gostou de cuidar de gente, Margareth Dalcolmo tornou-se médica pneumologista e pesquisadora com carreira exitosa.

Ao O POVO, a pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e membro titular da Academia Nacional de Medicina (ANM) alerta sobre a previsão de novas pandemias nos próximos anos e elogia a capacidade da comunidade científica nacional em gerar inovações mesmo sob adversidades. Dalcolmo também reflete sobre os desafios estruturais do Sistema Único de Saúde (SUS), o compartilhamento de desinformação durante a pandemia da Covid-19 e a precarização da formação médica no Brasil.

O POVO - A senhora vem de uma família de juristas e pensou em ser diplomata. Como foi esse encontro com a Medicina?

Margareth Dalcolmo - Realmente, a minha família é uma família que tem muito pouca tradição médica. Na verdade, eu só tenho dois primos médicos mais ou menos da mesma geração que eu, um pouquinho mais velhos, com quem eu tive muito pouco contato na vida. E eu venho do meio da justiça. Meu pai era advogado, meu avô era advogado, minhas tias eram uma juíza e outra promotora. Então, cresci nesse meio e, desde muito pequena, eu sempre li muito, sempre fui uma criança muito curiosa, muito aventureira, muito sonhadora, tinha um imaginário fertilíssimo e dizia que ia ser diplomata. E meu primeiro presente, além de uma boneca, naturalmente, que eu tinha e gostava muito, foi um grande quebra-cabeça de mapa-mundi que meu pai me deu. Então, eu me lembro que eu botava aqueles alfinetinhos coloridos nos lugares. Sempre escolhia nomes exóticos para os lugares. E, assim, meus pais levaram aquilo à sério e me puseram para estudar línguas muito cedo. Na Cultura Inglesa, na Aliança Francesa, onde eu entrei ainda adolescente. Mas eu sempre fui muito jeitosa para cuidar. Eu sempre gostei muito de estar com as pessoas mais velhas e sempre tive um jeito assim, uma curiosidade em relação a ouvir o outro, cuidar do outro, né? Eu lia muito e, aos 17 anos de idade, já no ano de fazer o cursinho pré-vestibular, eu tomei a decisão de que não seguiria a carreira de humanas e iria fazer vestibular para Medicina. Meus pais ficaram muito surpresos nessa ocasião e, enfim, eu tinha feito curso clássico, não tinha feito curso científico, que era a formação da minha geração. E eu disse aos meus pais que eu já tinha combinado tudo com os meus colegas, que eu ia dar aula de português, inglês, história, geografia para eles, eles iam me ensinar física e química para poder melhorar as minhas condições. E assim foi. E eu jamais tive qualquer minuto de hesitação. Era um momento do Brasil muito difícil. Nós estávamos na ditadura militar, no final da ditadura. E eu fiquei muito chocada vendo gente da minha geração sendo presa. Enfim, foi um momento muito difícil. Eu sempre fui uma adolescente profundamente consciente e muito engajada nas causas sociais. De modo que foi uma decisão muito madura para uma adolescente, da qual eu jamais tive qualquer arrependimento. Meus pais riram na minha primeira decisão, achando que na primeira aula de anatomia, com cheiro de formol, eu ia mudar de ideia e voltar para o meu desejo original. Isso nunca aconteceu. Então, foi uma decisão que me deu muito prazer ao longo da minha vida, de uma carreira bem sucedida, que me deu certamente muitas preocupações, cuidar de gente é algo muito desafiador, mas também é fascinante. Eu gosto de gente e, para ser médico, eu sempre digo aos meus alunos, têm que gostar de gente, né? E eu gosto de gente, gosto de cuidar, gosto de ouvir, gosto de estudar e continuo trabalhando, pesquisando. Eu sou pesquisadora clínica, trabalho com pesquisas, não de bancada, de laboratório, mas pesquisas com pessoas. Então, isso prova, na verdade, ao longo da minha carreira, essa consistência foi se fazendo trabalhando sempre com pessoas, procurando um propósito, digamos assim, de fazer alguma coisa que coletivamente pudesse ser útil. Essa foi a minha entrada na Medicina. Foi serena, surpreendente para os outros, mas enfim, sem volta.

OP - A senhora falou que, desde criança, gostava muito de ler, tinha muita criatividade e, até hoje, é uma leitora voraz, tem uma super biblioteca também, é escritora. Quais são os seus livros preferidos, autores? A senhora acha que esse arcabouço da leitura também influenciou a senhora como médica e como pesquisadora?

Margareth - Isso é importante ser dito, hoje, num momento em que nós estamos vivendo, em que as pessoas ficam muito tentadas a se dispersar ou ler de maneira muito superficial por algo que eu considero muito nocivo nos dias que nós vivemos, que chamam-se redes sociais. As redes sociais, se bem usadas, podem ser muito úteis, são úteis para o nosso trabalho, para uma informação imediata, a inteligência artificial chegou para nos ajudar nesse sentido. Eu tenho escritores que marcaram muito, desde cedo de ter lido, livros que marcaram muito a minha vida. Eu já escrevi um artigo sobre isso. O livro que marcou a minha vida, a minha carreira, a minha especialidade é a Montanha Mágica, de Thomas Mann, que é um livro absolutamente seminal na minha formação, como A Morte de Ivan Ilitch, do (Liev) Tolstói. Mas a minha autora querida, preferida é Marguerite Yourcenar, que escreveu livros maravilhosos, tem uma biografia maravilhosa, Simone de Beauvoir naturalmente, porque marcou a minha geração, né? Eu me lembro quando eu fiquei assim uma noite sem dormir, quando eu li o Segundo Sexo e aquela volúpia de entender o nosso papel de mulher no mundo. Então, ler Simone naquele momento fez muita diferença. Muitos outros autores, eu sempre li muito. Você acabou de mencionar que eu tenho uma bela biblioteca, né? Eu fui casada durante quase três décadas com um grande intelectual também (Cândido Mendes de Almeida, imortal da Academia Brasileira de Letras, falecido em 2022). Era uma casa que não tinha filhos, mas tinha duas bibliotecas, né? Hoje, tem uma só. Então, nós passávamos de uma para outra. Isso foi enriquecedor também porque propiciou um diálogo humano. Meu marido era um grande humanista, então, um diálogo de grande densidade e humana, né? Eu acho que um médico não pode ler só artigos. Existe uma frase dita ainda no século XIX por um médico português que dizia: "Um médico que só sabe medicina, nem medicina sabe." E eu considero essa frase absolutamente definitiva. Se nós não procurarmos entender onde nós estamos inseridos, sobretudo sendo brasileiros… E gostando do Brasil, como eu gosto, né? Eu gosto muito do Brasil, eu gosto muito de viver aqui. Viver no Brasil para mim é uma opção. Uma escolha deliberada. Foi aqui que eu fiz a minha carreira, foi aqui que eu conheci pessoas e encontrei os amores, tenho minha família, embora minha família seja de imigrantes. Eu sou de origem italiana. Então, eu sou como grande parte do Brasil, venho daqueles que vieram para construir esse país. Acho que isso reforça um compromisso muito forte.

OP - A senhora teve uma atuação muito conhecida pela população em geral por causa da Covid-19, muito por causa do seu quê de comunicação também, né? Como foi essa experiência de comunicar sobre a ciência em um período tão delicado com relação a fake news, tão eivado de desinformação?

Margareth - De novo, foi um compromisso público que eu assumi desde que percebi ainda no dia 14 de março de 2020, quando eu dei a primeira entrevista pública sobre a Covid-19 no Brasil numa grande rede de televisão que me convidou. Porque eu havia gravado um pequeno filminho, eu nem sabia naquela época usar esse termo que eu vou usar que chama-se viralizar. Havia viralizado, em 36 horas no ar tinha alcançado 25 milhões e meio de visualizações. Foi por essa razão que uma rede de televisão me telefonou. E eu tinha gravado esse pequeno videozinho porque eu havia saído de Brasília, onde estava assessorando o ministro (Luiz Henrique) Mandetta, na ocasião, para elaborar as primeiras recomendações para conduta, como nós deveríamos nos comportar na epidemia que tava chegando, que já estava se instalando no Brasil. Eu havia participado, 17 anos antes, do grupo que havia assessorado o ministério quando houve a epidemia de H1N1. Na época, era ministro (José Gomes) Temporão. Naquela ocasião, fizemos todas as providências necessárias, tínhamos estoque de remédio, tínhamos vacina comprada, ao contrário do que estava acontecendo naquele momento onde o Brasil não tinha nem sequer a continência necessária para enfrentar a tragédia que começava a se abater sobre o País. E eu anunciei ao público isso. Ao fazê-lo, eu percebi que havia tido um impacto muito grande nas televisões e nos órgãos de comunicação. Havia uma maneira de informar e eu tomei esse compromisso de dizer a verdade sempre, por pior que ela fosse. Há um exemplo muito paradigmático para mim que foi no Natal de 2020, quando o jornal me perguntou: “É verdade que a senhora vai dizer que não pode ter Natal no país mais católico do mundo?”. Eu disse “Vou dizer que não pode ter Natal”. Estavam morrendo 2.000 pessoas por dia, não tinha nem como enterrar, né? Nós estávamos abrindo cova rasa em São Paulo, Manaus, a tragédia instalada. Então, eu sempre disse que sim. Com todos os ônus e bônus que isso, evidentemente, encerrava. Essa forma de se comunicar é algo que acho que é uma característica, não diria que é um dom, mas uma característica, uma coisa de quem ensina. Uma maneira pedagógica, digamos assim, de dar as piores notícias, como nós damos as notícias más. Como nós damos a alguém que tem uma doença grave, que não há mais o que fazer ou comunicar a família, né? Há uma maneira de se saber fazer isso de modo a atenuar o sofrimento, seja ele individual, seja ele coletivo. E eu acho que, de certa maneira, eu consegui.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 8/06/26. Páginas Azuis. p.6-7.


domingo, 13 de julho de 2025

HIDELBRANDO DOS SANTOS V: do balcão da mercearia para a cadeira de reitor

Por Gabriela Almeida, texto, e Fernanda Barros, foto (Jornalistas, de O Povo)

OP- O senhor sentiu algum tipo de preconceito ou resistência em razão disso quando assumiu?

Hidelbrando - Olha, são dois preconceitos. Talvez meio velados. Um é da minha origem institucional, sou um professor de Interior. Então, (havia) a questão se eu tinha competência ou não, mesmo tendo uma experiência exitosa lá.

Eu não vim apadrinhado, eu não tinha um padrinho, eu não tinha um corpo político de gente importante me apoiando, nunca tive na verdade, nem para ser diretor.

A outra (questão) foi as minhas origens. Sou de uma família que é uma família simples, não tenho nenhum sobrenome que diga que eu sou de uma estrutura hierárquica, de uma família muito poderosa, muito importante.

A gente sabe o que é que pesa sobre a gente, por ser negro também. Acham que a gente tem menos competência porque a pele da gente é negra, escura, né? Preta. Parece que a cor tira de você algum tipo de brilho. Todo preconceito em relação a mim eu sempre recebi como preconceito velado.

Eu nunca fui assim, diretamente vítima de uma ação racista que você tá ali no confronto direto. (Mas) As pessoas avaliavam (a minha) capacidade a partir dessas subjetividades aí, de materialidades também, já que a negritude é uma materialidade também, tá estampado aqui na nossa cara.

OP- E que legado deseja deixar na Uece?

Hidelbrando - Nesse novo mandato eu disse para a comunidade: "Olha, eu tenho aqui alguns desafios que a gente já avançou, mas para mim são desafios que eu vou me medir quando eu terminar o mandato".

O primeiro deles é a gente dar continuidade a algo que eu considero extraordinário que aconteceu no Ceará, que é a política de expansão e interiorização. Para mim o caminho da Universidade Estadual é se interiorizar e se internacionalizar.

Então, eu tenho a percepção e a compreensão que inclusive as possibilidades que o Ceará tem de saltos do ponto de vista econômico, social, passa por uma extensão ainda maior, não só da Uece, logicamente, mas de você ter uma rede ainda mais ampla de educação superior pública gratuita em todo o território brasileiro, seja pela Federal, seja pelo IFCE, seja pelas estaduais.

Porque a gente leva não somente a formação, a gente leva pesquisa, a gente leva desenvolvimento, a gente leva inovação e a gente leva extensão universitária.

Para mim, essa chegada no Interior é uma condição do nosso desenvolvimento, do nosso salto do ponto de vista qualitativo. O que eu quero garantir é que essa interiorização não pare e não tenha interrupção. E esse é o meu debate, a minha luta hoje nesse exato momento.

Nós abrimos de uma vez só nove cursos, três deles da área médica, dois de medicina e um de medicina veterinária. Três no interior do Estado. Pode ir para qualquer estado da federação, nesse momento, ninguém fez isso. Só o Ceará fez isso, isso em pleno governo Bolsonaro ainda. Eu quero terminar meu mandato com esse processo de expansão consolidado.

OP- E olhando para sua trajetória agora, o que o senhor considera que foi seu maior ato político?

Hidelbrando - Se eu tiver falando da minha experiência como gestor, eu acho que hoje a coisa mais marcante na minha história é de estar tocando o que eu considero a maior e a mais qualificada política de expansão e interiorização da Universidade Estadual do Ceará. Isso para mim é a coisa mais marcante.

Apreço pela arte

A sala de trabalho de Hidelbrando, onde ocorreu a entrevista, estava repleta de quadros, entre obras que ganhou e aquelas que trouxe para dar vida ao espaço. Logo depois que paramos de gravar, ele revelou ser um apreciador da arte e disse pensar até em fazer uma galeria na instituição.

Fé em São Francisco

Hidelbrando tem uma forte ligação com São Francisco. Além de ter falado reiteradamente sobre a mesma, o reitor deixou claro a devoção nas imagens do santo que guarda em sua sala.

Ligação com a universidade

O reitor mostrou que carrega a universidade no peito, literalmente. É que ao nos receber ele chegou com um broche em alusão aos 50 anos da instituição cravado na camisa. Logo ao fim da entrevista, no momento de despedida, entregou acessórios do tipo para a nossa equipe de reportagem.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 7/07/25. Páginas Azuis. p.4-5.

HIDELBRANDO DOS SANTOS IV: do balcão da mercearia para a cadeira de reitor

Por Gabriela Almeida, texto, e Fernanda Barros, foto (Jornalistas, de O Povo)

OP- Metódico?

Hidelbrando - Metódico também. Resultado, eu ganhei fama de ser um bom gestor. Aí pronto, quando eu ganhei fama de ser um bom gestor, tomei gosto para esse negócio de ser diretor. Aí vamos pra segunda eleição. (Entre concorrentes) Tinha o pessoal da região e tinha o pessoal de Fortaleza. O pessoal da região era muito ligado ao poder local e esse pessoal perdeu a eleição para mim.

O nosso pessoal achava que se não fosse eu, podia ter uma chance de eles voltarem. E para não voltarem, eu fui novamente para a eleição. Ganhei, não teve nem concorrência. Eu concorri sozinho. Primeiro mandato a disputa acirrada, o segundo mandato ninguém se candidatou. Novamente, continuei fazendo aquilo que eu sabia fazer, deu tudo certo, as coisas caminhavam, melhoravam.

Quando chega ali por volta de 2008, eu vou para a reeleição e aí coincide com eleição para a reitoria daqui (de Fortaleza). Eu sou procurado pelo movimento sindical, (porque) o pessoal me identificava como uma pessoa da esquerda e do movimento sindical. Eles queriam um candidato do sindicato.

E tinha já uma candidata, que era a professora Leda, que tinha sido presidente do sindicato. Me convidaram para ser candidato a vice-reitor. Eu passei a gostar de fazer gestão, eu me encontrei com esse negócio, eu gosto de fazer isso.

Eu vou para essa eleição, assim mais para contribuir com o movimento sindical e tudo mais. E nós disputamos essa eleição, a Leda é a terceira colocada de uma disputa de cinco chapas. A nossa diferença do segundo lugar é de um voto.

Volto pra minha vida de diretor, quando dá ali por volta de 2012, eu sou procurado pelo Jackson Sampaio. Foi lá para conversar comigo. Ele chega para mim lá na sala, falou: "Professor, vim aqui para fazer o convite irrecusável". Está certo, professor Jackson.

Ele disse "rapaz, olha, eu faço parte de uma geração que tá se aposentando ou morrendo. A gente precisa de uma nova geração de gestores. E eu vejo você uma pessoa que pode ser uma dessas pessoas que vão fazer essa transição. Eu quero passar o bastão para você. Eu quero saber se você quer ser meu vice-reitor".

Como eu vinha de um movimento político, eu entendia que aquela decisão não era só minha, pessoal. Aí chamei o grupo.

Metade do grupo era contra, metade era a favor. Fomos para a assembleia e o resultado foi por um ou dois votos de diferença, a favor da coligação. Isso fez com que metade do pessoal que estava comigo até então me deixasse de mão, não continuaram com a gente. Porque achavam que era uma traição a toda a história política da gente e tudo mais. Mas parte do grupo disse: "Sim, vamos lá, tu tem que aprender".

Fomos para a eleição, ganhamos tranquilamente a primeira eleição, agora uma eleição muito concorrida. Vamos para a reeleição, eu como vice novamente. Lá no segundo mandato, eu já tinha tomado a decisão de que a gente ia se apresentar como candidato (a reitor).

Em 2021, nos apresentamos, uma eleição também muito disputada, mas ganhamos bem a eleição. Foi assim que eu cheguei a ser reitor. Ou seja, eu não entro na universidade com intenção de entrar na vida política, nunca pensei nisso...

OP- É algo que aconteceu?

Hidelbrando - Te digo com todo coração assim puro, que eu possa ter, a parte pura do meu coração. Quando eu entrei na universidade a única coisa que eu pensei na minha vida era ter uma vida acadêmica bacana. Uma boa produção acadêmica, ser um professor legal, bacana, reconhecido.

Tudo isso eu pensei, mas ser diretor de faculdade, nunca pensei. Fui pelas circunstâncias que acabaram me envolvendo. E como eu tenho na família um pai que foi político, embora um político mais de fazer as coisas do que de falar.

Talvez essa ideia de entrar na política, mesmo sendo a política universitária, tem a ver um pouquinho com essa minha experiência lá acompanhando ele também na vida partidária.

Meu pai nunca gostava de andar sozinho. Se ele ia fazer uma viagem, não gostava de ir sozinho. Levava alguém. Eu era o auxiliar ali dele. Eu acompanhei muito a vida política dele também, né?

Talvez isso possa ter sido um elemento que me influenciou a dizer: "Não, tudo bem, eu vou entrar nesse negócio. Eu vou me candidatar porque vocês estão me cobrando, estão me exigindo, vocês acham que eu tenho algum talento, eu vou lá e vou ver o que é que acontece".

Então, eu chego à reitoria por uma via que não é aquela em que você se projeta. É aquela que a vida te atropela. Então, eu fui atropelado por essa conjuntura que disse: "Não, você é a pessoa que deve assumir esse negócio". Aí depois você vai pegando gosto. Vai pegando o gosto pela gestão.

Eu sou o primeiro reitor do Interior. Primeiro reitor do interior da Universidade estadual. Sou o primeiro reitor que não vem do grupo originário de reitores ao longo de quase três décadas. (Havia uma) hegemonia muito forte aqui. Então eu apareço como uma novidade.

OP- O senhor também é o primeiro reitor negro da instituição, o que acredita que isso trouxe de representatividade?

Hidelbrando - Eu acho que a coisa mais significativa é a gente começar como comunidade a refletir sobre a questão mesmo racial na universidade.

A gente começa a fazer mudanças também do ponto de vista institucional dentro da universidade, ou provocada pela lei ou provocada pelos movimentos internos da própria universidade. Ou seja, a questão do estabelecimento dentro da universidade, de um núcleo que faz todo acompanhamento da política étnico-racial dentro da universidade.

A preocupação que a gente tem, de que a gente possa garantir para os meninos, para as meninas que efetivamente são beneficiadas pela política de cotas sociais, que possam de fato ter sua vaga garantida.

Mas eu acho que o grande impacto disso também é para nossa população negra dentro da universidade. Eu acho que isso também tem uma relação de dimensão política muito significativa.

A nossa relação com a guarda...a guarda sabendo que o menino negro que entra aqui, ele não pode ser barrado só porque ele é negro, porque o reitor é negro. Aí, tu vai fazer a mesma coisa com o cara, pô?

Fonte: Publicado In: O Povo, de 7/07/25. Páginas Azuis. p.4-5.

 

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