Por Alexandre Sobreira Cialdini (*)
O rendimento
médio recebido em todos os trabalhos - que corresponde à soma dos ganhos
brutos, como salários, comissões e horas extras - alcançou R$ 3.560 em 2025.
Esse foi o maior valor registrado desde o início da pesquisa realizada pelo
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), representando
crescimento de 5,7% em relação a 2024 e de 11,1% quando comparado a 2019, ano
que antecedeu a pandemia.
Outro indicador
que mostra a melhora da renda dos brasileiros é a massa de rendimento mensal
real de todos os trabalhos, que atingiu R$ 361,7 bilhões em 2025, também o
maior valor da série histórica. O crescimento real foi de 7,5% frente a 2024 e
de 23,5% em relação a 2019.
Paradoxalmente,
apesar da evolução da renda, o Brasil alcançou, em 2026, o maior índice de
endividamento das famílias desde o início da série histórica da Pesquisa de
Endividamento e Inadimplência do Consumidor. Em abril, 80,9% das famílias
brasileiras declararam possuir algum tipo de dívida, segundo levantamento da
Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), disponível
em: https://portaldocomercio.org.br/publicacoes_posts/pesquisa-de-endividamento-e-inadimplencia-do-consumidor-peic-agosto-de-2025/
Entre os fatores
que ajudam a explicar esse fenômeno está o endividamento com apostas online,
conhecidas como bets. O crescimento das apostas vem produzindo prejuízos
crescentes à saúde mental e à situação financeira das famílias, além de
contribuir para o aprofundamento da desigualdade.
Pesquisas apontam
que, em 56% das vezes, o jogador perde. Parece pouco? Não. Nos 44% restantes,
muitas vezes prevalece a ilusão criada pelo desconto hiperbólico. Esse conceito
explica por que as pessoas tendem a preferir recompensas imediatas, como um
ganho rápido nas apostas online, em vez de aguardar benefícios maiores no
futuro.
Outro conceito
importante é o da contabilidade mental. Muitos jogadores passam a separar o
dinheiro das apostas do restante de suas finanças, o que os impede de ver o
impacto total das perdas. Soma-se a isso a ilusão de controle: a crença de que
habilidades pessoais ou estratégias são capazes de influenciar resultados que,
na prática, são aleatórios.
As consequências
financeiras desse comportamento são evidentes. Estudos indicam que cerca de 19%
dos apostadores comprometem suas reservas financeiras e, aproximadamente, 10%
recorrem ao cartão de crédito para continuar jogando, o que pode resultar em
endividamento com taxas de juros de 428% ao ano. O cartão de crédito, por sua
vez, permanece como o principal fator de endividamento para 83,6% das famílias.
Por isso, reforço a frase do meu
amigo Preto Zezé: "Precisamos acreditar mais na aposta do conhecimento do
que na sorte". Aos leitores interessados em aprofundar o tema, recomendo o
webinário realizado pelo Programa de Educação Financeira do Ceará, disponível
em: https://www.youtube.com/live/a6e1MtLGEkE?is=a0xzNZBWolXmFouM
(*) Mestre em
Economia e doutor em Administração Pública e Secretário de Finanças e
Planejamento do Eusébio-Ceará.
Fonte:
O Povo,
de 25/06/26. Opinião. p.17.

Nenhum comentário:
Postar um comentário