segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Rendimento e endividamento com bets

Por Alexandre Sobreira Cialdini (*)

O rendimento médio recebido em todos os trabalhos - que corresponde à soma dos ganhos brutos, como salários, comissões e horas extras - alcançou R$ 3.560 em 2025. Esse foi o maior valor registrado desde o início da pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), representando crescimento de 5,7% em relação a 2024 e de 11,1% quando comparado a 2019, ano que antecedeu a pandemia.

Outro indicador que mostra a melhora da renda dos brasileiros é a massa de rendimento mensal real de todos os trabalhos, que atingiu R$ 361,7 bilhões em 2025, também o maior valor da série histórica. O crescimento real foi de 7,5% frente a 2024 e de 23,5% em relação a 2019.

Paradoxalmente, apesar da evolução da renda, o Brasil alcançou, em 2026, o maior índice de endividamento das famílias desde o início da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor. Em abril, 80,9% das famílias brasileiras declararam possuir algum tipo de dívida, segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), disponível em: https://portaldocomercio.org.br/publicacoes_posts/pesquisa-de-endividamento-e-inadimplencia-do-consumidor-peic-agosto-de-2025/

Entre os fatores que ajudam a explicar esse fenômeno está o endividamento com apostas online, conhecidas como bets. O crescimento das apostas vem produzindo prejuízos crescentes à saúde mental e à situação financeira das famílias, além de contribuir para o aprofundamento da desigualdade. 

Pesquisas apontam que, em 56% das vezes, o jogador perde. Parece pouco? Não. Nos 44% restantes, muitas vezes prevalece a ilusão criada pelo desconto hiperbólico. Esse conceito explica por que as pessoas tendem a preferir recompensas imediatas, como um ganho rápido nas apostas online, em vez de aguardar benefícios maiores no futuro. 

Outro conceito importante é o da contabilidade mental. Muitos jogadores passam a separar o dinheiro das apostas do restante de suas finanças, o que os impede de ver o impacto total das perdas. Soma-se a isso a ilusão de controle: a crença de que habilidades pessoais ou estratégias são capazes de influenciar resultados que, na prática, são aleatórios.

As consequências financeiras desse comportamento são evidentes. Estudos indicam que cerca de 19% dos apostadores comprometem suas reservas financeiras e, aproximadamente, 10% recorrem ao cartão de crédito para continuar jogando, o que pode resultar em endividamento com taxas de juros de 428% ao ano. O cartão de crédito, por sua vez, permanece como o principal fator de endividamento para 83,6% das famílias.

Por isso, reforço a frase do meu amigo Preto Zezé: "Precisamos acreditar mais na aposta do conhecimento do que na sorte". Aos leitores interessados em aprofundar o tema, recomendo o webinário realizado pelo Programa de Educação Financeira do Ceará, disponível em: https://www.youtube.com/live/a6e1MtLGEkE?is=a0xzNZBWolXmFouM

(*) Mestre em Economia e doutor em Administração Pública e Secretário de Finanças e Planejamento do Eusébio-Ceará.

Fonte: O Povo, de 25/06/26. Opinião. p.17.


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