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sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Crônica: Chico Pinto e a riqueza que vinha dos 'vazios'... e outros causos

Chico Pinto e a riqueza que vinha dos 'vazios'

Amiga Claudinha me mandou essa, contada pelo Nonato, ex-lateral direito do Quixadá dos tempos de Xavante e Jacaré na zaga. Jura pela "Cruz de Deus" como é verdade. Pretensão! Lá pelas bandas de Ibaretama, precisamente na localidade de Macacos, bem na extrema, explica, morava um cidadão conhecido por Chico Pinto.

Chico tomava conta de uma fazendinha pertencente a um senhor residente no Conjunto José Walter, aqui em Fortaleza. Era homem trabalhador, e tinha duas grandes habilidades: gostava duma cachaça (amuada) e era muito animado para fazer menino (reprodutor).

— E não era de meia que eu fazia menino, não, viu?

Naquele tempo, existia um benefício que garantia um dinheiro quando a mulher tinha filho. E Chico Pinto, que já era pai duma ruma, descobriu que aquilo também podia virar patrimônio, investimento, meio de vida. Toda vez que a mulher paria, Chico recebia o dinheiro e comprava uma novilha.

E assim foi: menino pra cá, novilha pra lá, novilha pra cá, menino pra lá... até que conseguiu juntar quatro vacas e uma novilha - esta última comprada depois do nascimento do filho mais recente, um tal Júnior Filho. Certo dia, no meio duma bebedeira, Chico na mesa de bar se gabando de sua riqueza...

— Eu já tenho é quatro vacas e uma novilha! Tá pôde?

No mesmo estabelecimento encontrava-se Manuel Vieira, o famoso Mané Mago. Que tinha um jeito peculiar de beber cachaça - não ficava rico, nem valente. Perdia era o medo de dizer a verdade na cara dos outros. Ao ouvir Chico se pabulando de novo...

— Eu estou ficando é rico, homem!

... Mané Mago olhou bem no fucim do outro, deu mais um gole e soltou essa:

— Rico coisa nenhuma, macho! Tu não tem é nada! Tudo que tu tem vem é dos vazios da tua mulher!

Para quem conhece a linguagem dos antigos, "os vazios" não precisavam de explicação: era por onde os filhos chegavam ao mundo. Naquele caso, também por onde o dinheiro das crias acabava virando vaca. Chico Pinto, porém, não achou graça nenhuma. Ficou enfurecido, puxou uma faca e partiu para cima de Mané Mago.

O problema é que Mané Mago era tão magro que, segundo a tradição oral da região, se tivesse corrido de frente para o vento, chegava do outro lado da estrada antes do próprio corpo. A discussão virou briga, e Mané Mago acabou levando a pior. Depois da confusão, Chico Pinto deixou a região. Vendeu as vacas que havia conseguido juntar e foi embora.

O resultado de toda aquela história: Chico Pinto ficou sem as vacas, Mané Mago deixou a história por contar e seu Pedro, lá do José Walter, ficou sem morador na fazenda.

Desde então, quando alguém em Macacos começa a se gabar de patrimônio, sempre existe o risco de aparecer um Mané Mago da vida e perguntar:

— Mas esse patrimônio veio de onde mesmo, macho?

Naquela época, em Ibaretama, gente fazia menino por amor, por gosto... Chico Pinto fazia pensando na cotação da novilha.

Pra inglês ouvir!

Mundico trabalhou por 10 anos na casa de seu Jorge e dona Candinha, que "traçavam" um inglesinho até mais ou menos. Um dia, interessado em Michael Jackson, perguntou a seu Jorge como era "começar" em inglês e o patrão respondeu: "Begin!" E recomeçar, seu Jorge? "Rebegin". Parar? "Stop".

- E reparar?

- Restop!!!

Fonte: O POVO, de 25/09/2026. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.


quinta-feira, 15 de outubro de 2026

MAIOR

Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)

Eu não conhecia "Maior", de Dani Black. Ouvi a música pela primeira vez com os integrantes do nosso coral Pedras que Cantam. A maioria também não a conhecia. Sabe aquela música que você escuta, imediatamente lhe causa um impacto e você já quer mostrar para alguém de quem gosta? Pois foi assim com "Maior". E foi maior por ter tido essa experiência de ouvir e depois cantar com o nosso grupo.

No último domingo, no teatro São José, entramos no palco a uma só voz. Em uníssono, cantamos: Eu sou maior do que era antes. Eu sou melhor do que era ontem. Eu sou filho do mistério e do silêncio. Somente o tempo vai me revelar quem sou.

Em seguida, o mesmo trecho foi cantado em perguntas e respostas. Os sopranos perguntavam, e os contraltos respondiam. Eu, no grupo dos contraltos, precisava ouvir para responder no tempo certo. Conter por alguns instantes a minha voz para que a voz do outro pudesse chegar inteira.

Finalmente, ainda repetindo o mesmo trecho, o coral se dividiu em vozes. Cada naipe assumiu uma linha melódica própria, mas todos permaneceram unidos pela mesma harmonia. A repetição não era desnecessária. Ao contrário: reforçava a ideia contida na letra de que precisamos estar atentos à voz do tempo para que o mistério de quem somos seja revelado.

Dividir vozes não é tarefa fácil. Mas o nosso querido maestro Tiago vem nos ensinando pacientemente. Passa um pequeno trecho de cada voz cantando e diz: "coloca no coração". A melodia dos sopranos, geralmente aquela que reconhecemos com mais facilidade, tende a nos atrair. A entrada de outro naipe pode nos confundir. Cada um precisa sustentar a própria linha, deixando que a diferença de sua voz participe da beleza do conjunto.

A letra fala da evolução do indivíduo com o passar do tempo. Cantamos esse crescimento em grupo. Um grupo ainda na sua segunda apresentação, que também cresce não apesar das diferenças, mas graças a elas.

A harmonia não nasce quando todos se tornam iguais. Ela nasce quando vozes diferentes soam como uma só, sem deixar de ser muitas.

(*) Médica psiquiatra.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 8/09/2026. Opinião. p.14.

domingo, 11 de outubro de 2026

O que fazer quando um cão está prestes a te atacar IV

Parte 4: Tomando Precauções Contra Ataques

1. Procure sinais de aviso

A maioria dos cães não são agressivos, mas são apenas curiosos ou tentam defender aquilo que eles acham que é o seu território. Portanto, para evitar conflitos desnecessários é vital que você saiba discernir se um cão está apenas brincando ou está sendo verdadeiramente agressivo. Aqui estão alguns sinais comuns de agressão que você deve ficara tento: • Rosnando, rangir os dentes e latir, são todos os sinais óbvios de agressão e devem ser tratados como tal. • Um cão irritado pode mostrar o branco de seus olhos. • As orelhas puxadas para trás, planas contra a cabeça, são um sinal revelador de agressão. • Um cão que parece tenso, reto e rígido (cabeça, ombros e quadris alinhados) pode estar querendo te atacar.

2. Situações que você deve evitar

A maioria de ataques dos cães não estão relacionados com um treinamento ruim, ou que são "bravos de natureza". Infelizmente, sempre haverá proprietários de cães que não são boas pessoas e também são agressivos com seus animais, tornando-os também agressivos. Situações que você deve evitar: • Nunca aborreça um cão que está comendo ou cuidando de seus filhotes, pois eles são extra protetores nesses momentos e você pode ser uma ameaça. • Evite sorrir para o cão. Você pode pensar que está sendo amigável, mas um cão agressivo vê seus dentes e associa ao rangir dos dentes, que é um sinal de ataque. • Os cães que ficam acorrentados por longos períodos de tempo são mais propensos a serem agressivos, por isso não se aproximem deles.

3. Suponha que todos os cães desconhecidos sejam ameaças

Em geral, a melhor política a seguir quando se trata de ataques de cães é fazer tudo o que você pode para evitá-los em primeiro lugar. Se você vir um cão que parece perigoso, apenas fique longe. • Denuncie qualquer cão de aparência perigosa às autoridades locais. • Ensine seus filhos a não se aproximarem de cães desconhecidos.   Lembre-se: os cães não são naturalmente ensinados a atacar os seres humanos, a menos que sintam que eles próprios, seu território ou seus filhotes estão sob ameaça. Nós não seremos sempre capazes de evitar cães agressivos, mas entender o que fazer e o que não fazer pode deixá-lo melhor preparado para evitar uma situação pior.

Extraído de: wikihow andcesarsway

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.


O que fazer quando um cão está prestes a te atacar III

Parte 3: Como lidar com as consequências

1.Cuide de qualquer ferida

Se você foi mordido, prontamente vá ao hospital! Não deixe para o outro dia! No entanto, se você não é capaz de ou precisa esperar por uma ambulância, cuide das feridas lavando-as com sabão em barra, porque mesmo mordidas menores podem causar infecções. • Aplique uma pressão suave para parar qualquer sangramento menor. Utilize um pano limpo ou uma gaze estéril. Se o sangramento é grave e você não pode fazê-lo parar, procure assistência médica imediatamente. • Lave bem a ferida com água morna e sabão. • Coloque um curativo esterilizado para pequenos cortes ou bandagens estéreis para lacerações maiores na ferida. • Mantenha um olhar atento para quaisquer sinais de infecções, tais como vermelhidão, sensibilidade, calor ou pus. Se tiver algum destes sintomas é melhor visitar seu médico.

2. Chamar as autoridades

É muito importante determinar se o cão que te atacou tem raiva ou um histórico de agressão. Chame as autoridades imediatamente após ser atacado para que esse animal esteja impedido de atacar qualquer outra pessoa, e possa ser testado para doenças. • Se o cão que atacou você era um animal de rua, ele pode atacar outros também. Removê-lo do ambiente irá proteger a si mesmo e aos outros. • Para cães com seus proprietários nas proximidades, como você lida com a situação após o ataque é inteiramente sua escolha. Por exemplo, se você foi ferido, pode se sentir no direito de tomar ações legais.

3. Consulte um médico imediatamente

Se você foi mordido por um cão desconhecido, um cão que mais tarde foi diagnosticado com raiva, ou um animal que parecia estar com a boca espumando, é crucial que você visite o seu médico imediatamente para obter algum tratamento preventivo para a doença da raiva. • A sequência de vacinas da raiva, se necessário, deve ser iniciada o mais rapidamente possível após a mordida. • Se você não tiver tomado uma vacinha contra o tétano em mais de 5 anos, você pode ser obrigado a tomar outra. • Qualquer ferimento significativo de um ataque de cão precisa ser examinado por um profissional médico.

Extraído de: wikihow andcesarsway

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.


sábado, 10 de outubro de 2026

O que fazer quando um cão está prestes a te atacar II

Parte 2: Defendendo e protegendo-se

1. Enfrente o cão e fale pra ele sair de perto com firmeza

Se o cão continua a ser agressivo, sua tentativa de pacificação não funcionou. Para enfrentá-lo e severamente ordená-lo a sair use uma voz forte, profunda e comandante, e mantenha contato com os olhos.

2. Lutar contra um cão em ataque

Se o cão lhe agarrar e começar a mordê-lo, obviamente você tem que se defender. Para fazer isso, tente chutar o cão no nariz, garganta e na parte de trás da cabeça. Isso vai atordoar o cão e provavelmente você terá alguns segundos para escapar. • Não há problema em levantar a voz neste ponto. Chame por ajuda, porque você está lutando para sair do ataque e outras pessoas podem escutá-lo e vir ao seu auxílio. No entanto, é melhor evitar gritar, pois isso pode deixar o cão ainda mais agressivo. • Se você tem uma vara ou algo mais que você pode usar como uma arma, você deve usá-lo para acertar o cão. Não bata sobre a parte superior da cabeça do animal, porque os cães têm crânios grossos, e isso apenas deixará o cão ainda mais irritado. • Lute com todas as forças que tiver, porque infelizmente alguns ataques do cão podem ser fatais.

3. Use seu peso em sua vantagem

Jogue seu peso corporal sobre o cão, empurrando-o para baixo com as partes duras de seus joelhos e cotovelos. Os cães têm uma mordida forte, mas eles não podem lutar, então tente entrar em uma posição vantajosa rapidamente para que você possa tentar quebrar alguns ossos do animal com seu peso. Se você quiser usar um método mais humano, tente derrubá-lo com seu peso na parte de trás do cão e aplique pressão para a frente para a parte de trás do pescoço. Isto manterá o cão imobilizado até que a ajuda chegue.

4. Proteja seu rosto, peito e garganta

Se você for derrubado no chão durante o ataque, não só será mais difícil lutar contra o cão agressivo, mas áreas vitais como o torso, pescoço e cabeça estarão mais abertas ao ataque. Estas são as partes mais importantes do seu corpo, que você precisa protegê-las para não causar danos graves, e até mesmo a morte. • Proteja seus órgãos vitais rolando em seu estômago, colocando seus joelhos para dentro, e traga suas mãos até seus ouvidos.

5. Saia da área devagar e cuidadosamente

Se o cão perde o interesse em você, deixe a área lentamente afastando-se sem movimentos repentinos. Ficar calmo em uma situação como esta é mais fácil falar do que fazer, mas é a melhor coisa que você pode fazer por si mesmo, desde que o cão desista de te atacar.

Extraído de: wikihow andcesarsway

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.


O que fazer quando um cão está prestes a te atacar I

Imagine que você está desfrutando de uma caminhada no parque tranquila ou um agradável passeio de bicicleta pelo bairro quando, de repente, um cão agressivo e desconhecido corre até você, rosna, e se prepara para atacar. O que você deve fazer? Há uma maneira correta e errada de lidar com um cão agressivo e vamos explicar isso em detalhes abaixo, pois é muito importante saber o que você deve fazer no caso de um ataque.

Parte 1: Proteção contra um ataque

1. Não entre em pânico

Há alguma verdade no ditado que afirma que cães e outros animais podem "sentir medo". Se você ficar agitado e correr ou gritar, pode dar ao cão mais confiança, ou pior, você pode parecer ameaçador para o animal.  

2. Fique rígido e imóvel

Se um cão agressivo se aproxima, fique parado com as mãos ao seu lado, como uma árvore, e não o olhe nos olhos do animal. Na maioria dos casos o cão vai perder o interesse e ir embora. • Não acene os braços ou chute-o com as pernas, pois o cão pode ver essas ações como ameaçadoras. • Não faça contato com os olhos, pois isso pode fazer com que o cão se sinta ameaçado. • Fique de lado para o cão e mantenha a sua visão periférica do animal. Isto irá sinalizar para o cão que você não é uma ameaça. • Não abra as mãos e os braços até uma mordida, estendendo-os. Mantenha seus dedos enrolados em punhos para evitar que sejam mordidos.

3. Não tente fugir

Tentando fugir pode despertar o instinto de caça do cão para perseguir e pegar outros animais. Portanto, ele pode persegui-lo, mesmo que sua intenção inicial era apenas brincar. Você não será capaz de correr mais rápido do que a maioria dos cães, por isso não necessariamente vale o esforço.

4. Distrair o cão com outro objeto

Se o cão continua mostrando um comportamento ameaçador em relação a você, ofereça-lhe algo para mastigar, como uma garrafa de água, sua mochila, uma vara próxima ou uma bola - melhor do que seu braço ou perna. Isso pode distraí-lo por tempo suficiente para permitir que você fuja: Você pode querer levar alguns brinquedos de cães ou objetos na bolsa, caso você viaje por áreas conhecidas por cães perigosos. Se você se aproximar de um animal desses querendo te atacar jogue o objeto para longe de você.

Extraído de: wikihow andcesarsway

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.


sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Crônica: Piquenique no cemitério dos outros... e outros causos

Piquenique no cemitério dos outros...

Claudinha - do Potengi contou-me e eu repasso sem medo de acreditar que não seja a mais cristalina verdade o ocorrido. Primeiro, o contexto da arrumação:

— Dizem que herança une a família. No meu caso, ela quase virou caso de polícia. Tudo começou quando meu esposo e eu resolvemos convencer a mãe dele, também minha tia e hoje com 94 anos, a fazer a partilha dos bens ainda em vida entre os cinco filhos.

Um "goipim d'água", o "fôrgo" recomposto e a amiga prossegue na contação: a herança não era uma fazenda milionária, mas alguns alqueires no interior do Ceará. E bastou tocar no assunto da partilha para ela descobrir que, quanto menor a herança, maior o arranca-rabo. Claudinha expôs que a primeira tentativa de realizar a dita divisão foi desastrosa - discussões, desentendimentos e até ameaças de cacete.

— A situação ficou tão séria que eu e meu marido chegamos a ter medo de andar na rua. Tudo por causa de um pedacinho véi de terra. Nunca imaginei viver uma história dessas.

— Marrapaz! E aí?

— E aí que, depois de muito diálogo, paciência, viagens e insistência, finalmente conseguimos: minha tia fez a partilha. Recebemos o nosso tão esperado quinhão de chão. Respiramos aliviados, pensando que a novela havia acabado. Só pensamos. Dias mais tarde surgiu nova surpresa.

A surpresa? Uma outra tia, dona do terreno vizinho ao da querela citada, decidiu doar parte da área para a construção de um... cemitério!

— Como o terreno do meu marido faz divisa com o dela, pediu justamente a assinatura dele para autorizar o projeto. Na mesma hora, tratei de avisar: — Já que a coisa tomou outro rumo, evite ir praquelas bandas. Conheço bem essas histórias.

— Por que não o Potengi ir ao interior, peitar a realidade? — indaguei com ingênua sinceridade.

— Porque daqui a pouco aparece alguém oferecendo uma cachacinha com nambu assada, ele se anima, assina esse papel e, quando eu der fé, em vez de um sítio cheio de vida, vou encontrar um cemitério nos meus costados.

Entendi, enfim, ouvindo a amiga querida finalizar:

— Briguei muito para conseguir aquele pedacinho de terra por nutrir um sonho simples: plantar algumas árvores, colocar uma rede e ouvir o canto dos passarinhos. Nunca imaginei que precisaria começar uma batalha para tirar um cemitério do alpendre de casa.

O golpista liso

Botaram dinheiro na conta da Maria — tramoia manjada — e pediram que o devolvesse. Tudo pelo zap. Com os dados dela em mão, colocados na tela do celular, a ideia era meter-lhe medo e fazê-la expor dados bancários. Maria descolada imaginou: se eu der cabimento, eles entram na minha conta e fazem a festa. Quanto foi o "depósito deliberadamente indevido" na conta de Maria? 30 reais. A resposta ao falsário foi ácida:

— Ô, seu fulerage! Primeiramente vá se... segundamente: tu vai ficar mais liso 30 reais, porque eu não vou devolver a merreca, não! Inda vou te excluir e te denunciar, abestado!

Aí dentro, my love!

Zezé das Cabras e a mulher Linosa em festa dos patrões, na cozinha de casa trabalhando. Recepção a um casal de ingleses. Patroa leva os gringos até onde cheiro bom da feijoada partia forte. Dirigindo-se à cozinheira, a estrangeira elogia o dicumê em preparo:

— Wonderful, baby! It smells good!

Diante de uma funcionária que não sabia patavina o que estavam falando, Zezé — o craque das Vila dos Industriários, já com duas na cabeça, instrui professoral:

— Amor, manda ver um 'my love' e a galega vai entender direitinho!

— Aí dentro, Zezé! — redarguiu Linosa, experimentando o caldo do feijão na mão.

Fonte: O POVO, de 11/09/2026. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.


terça-feira, 6 de outubro de 2026

A ESPERANÇA EQUILIBRISTA

Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

Alguém me perguntou, outro dia, o que espero do futuro. Ué! Eu e meu alter ego — essa outra identidade que teima em me acompanhar — esperamos muita poesia, alguma lucidez, uma dose necessária de loucura e, sobretudo, fantasia. Meus caros amigos, sobre esses desejos arrisco aqui alguns rabiscos. Aí vão.

Da lucidez, espero que finalmente compreendamos que nenhuma transformação verdadeira começa nos palácios, gabinetes ou tribunas. Ela começa no comportamento. Na maneira como enxergamos o outro, convivemos com as diferenças e decidimos participar da construção de uma sociedade menos egoísta e mais fraterna.

Por incrível que pareça, talvez este seja justamente o tempo de romper paradigmas. Há momentos em que o desencanto pode ser fértil. Quando velhas certezas desmoronam, abre-se espaço para desconfiar das verdades prontas e inverter a lógica de um passado que tantas vezes fabricou conveniências travestidas de certezas. Quem sabe estejamos assistindo ao início do fim dos falsos profetas?

Da fantasia, espero que o mundo ouse interromper o eterno déjà-vu. A história brasileira parece, às vezes, uma peça em permanente reprise: mudam os figurinos, as falas e os cenários, mas os personagens continuam por ali. Ora irreverentes, ora indignados, noutras ocasiões bonzinhos e convenientes. E há os autoproclamados "intelectuais", sempre preparados para explicar aos outros aquilo que eles próprios pouco compreendem.

Da loucura — porque alguma loucura é indispensável à sanidade — espero que consigamos manter a uma distância razoável os convenientes, os chatos de plantão, os protagonistas da tolice e, principalmente, os hipócritas. Estes atravessam governos, ideologias e gerações com impressionante capacidade de sobrevivência. Trocam de discurso com a mesma desenvoltura com que preservam seus interesses.

E deixo para a poesia aquilo que talvez seja o mais importante.

Que ela nos devolva um samba com bossa, emoção e paixão. Que nos permita acreditar novamente na delicadeza em tempos de brutalidade, na beleza em tempos de vulgaridade e na esperança em tempos de desencanto. Que possamos olhar para este país sem ingenuidade, mas também sem desistência.

Afinal, a esperança brasileira sempre teve algo de equilibrista. Caminha sobre o fio, tropeça, quase cai, recupera-se e continua. Talvez porque tenhamos aprendido, entre quedas e recomeços, que desistir também é uma forma de perder o equilíbrio.

E quem sabe ainda possamos sonhar, como naquela canção, com o Brasil que esperava a volta do irmão do Henfil.

Porque, enquanto houver poesia, ainda haverá um país possível.

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 8/08/2026. Opinião. p.15.


quinta-feira, 1 de outubro de 2026

QUEM AMA, CUIDA

Por Romeu Duarte Junior (*)

Parece letra de canção ou nome de novela, mas é, nada mais, nada menos, do que a pura verdade. Quem ama alguém, um bicho, uma planta, qualquer coisa, cuida dela com afinco. Observo da janela do meu escritório a moça, lata de coca-cola numa mão e um saco plástico na outra, passeando na calçada com seu lulu da Pomerânia, cachorrinho peludo e afetado. Chama-o de "docinho", toma-o nos braços, beija seu nariz e sua boca. De repente, o animal late e fica naquela posição do Napoleão quando perdeu a guerra. A moça se abaixa, recolhe com o saco plástico o 02 que o lulu depositou e joga a lata de refrigerante vazia (ou melhor, seca, como dizem os cearenses) no meu pobre jardim. "Poderia ser pior", alguém poderia dizer. Ah, Dusek, "troque seu cachorro por uma criança pobre"...

Todavia, divago um pouco. Usei todo esse introito para falar de uma situação que me preocupa e acabei fazendo piada de um instantâneo do existir. Se sobra afeto na relação da moça com seu cãozinho, falta a consideração dela para com os outros. Vivemos fechados nos nossos universos-bolhas e não damos sequer a mínima para quem está fora desses territórios. O chato foi o fato dela ver o meu sofrido garden como uma lixeira, indigna de receber os dejetos do seu doguinho de estimação. Esses problemas acontecem em escalas variadas e me têm tirado o sono. Egoístas e cheios de si, cuidamos com antolhos do nosso mundinho e esquecemos que a vida comunitária é toda composta por conexões e liames de todo tipo. Tudo junto e misturado, como dizem os cantores de forró.

Falo do grave descaso com que tratamos o planeta Terra. Um exemplo disso é que não estamos nem aí para o aquecimento global. Continuamos queimando gasolina, cortando árvores e lançando toneladas de gás carbônico na atmosfera. Os negacionistas da ciência parecem ter ganho a batalha final. Nossa nave-mãe já começa a dar mostras do seu aborrecimento e impaciência para conosco. São ou não são claros os indícios desse esgotamento os recentes terremotos havidos na Venezuela, no Japão e nos EUA (Califórnia), todos de elevadas magnitudes e causadores de milhares de mortes? Na semana passada, no miúdo Nepal, na fronteira que faz com a China e o Tibete, o derretimento de uma geleira causou uma avalanche que arrasou cidades inteiras e muitas famílias. Ninguém vê isso?

Do nosso Cearazinho de açúcar, ou de fel, como queiram, chegam-nos notícias, no mínimo, curiosas. Neste célere 2026, que corre a se perder de vista, foram registradas temperaturas de 13,3º C e 18,9º C, respectivamente, em Aiuaba e Poranga, duas urbes representantes do nosso mais que semiárido Inhamuns. É como diria, na sua sertaneja sabedoria, acocorado na rodagem, o nosso matuto: "É o fim das eras". E los niños, o garoto e a garota, virão aquecendo a água do Oceano Pacífico Equatorial a mais de mil neste ano, complicando ainda mais o quadro. Já, já entraremos nos b-r-o bros, tempo de quentura e chuva de caju, que já era para ter começado neste agosto/desgosto, antes da campanha política. Só me resta pedir que Deus nos salve. Muito antes da política e da seca.

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 31/08/26. Vida & Arte. p.2.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Crônica: Djalma Babau e o "waze ariado" no Acaracuzinho ... e outros causos

Djalma Babau e o "waze ariado" no Acaracuzinho

"Me chamam Djalma Babau e tenho um alerta a fazer. Se o amigo conhece o tal "aplicativo gratuito de navegação por GPS para celulares que usa informações em tempo real compartilhadas pelos próprios motoristas para mostrar o melhor caminho", coidado! Cumpade Zé Barbosa, pouco chegado ao modernismo tecnológico, quase se lasca pela falta de categoria na lida com esse negócio! Vou contar a besteira que sucedeu.

Pouco "uberista", Babau inventou de ensinar ao motorista "a rodagem mais curta" para chegar à casa da filha mais velha, no Acaracuzinho, saindo do Siqueira. Desde que entrou no carro, sem reparar - nas fuças dele - o celular do chofer indicando o caminho traçado pelo programa, pôs-se a narrar o trajeto, empolgado à moda Gomes Farias. Motorista aparente se enfezar com o bodejado. A moça da máquina dizia:

- A quinhentos metros, vire à direita na Rua 116...

- Uma ova que vai virar à direita na 116! 116 é do grupo do leão no jogo do bicho. Sou Ceará. Caminhe mais uma coisinha, minha senhora, e siga até o bar de Nozinho!

Ao invés de explodir com os pitacos de Zé Barbosa, o motorista sabiamente deixar correr frouxo, para ver como ia terminar tudo, onde (não) iam chegar, só pra fazer o mal. Quando Zé deu fé, já divisava uma placa que anunciava: "Bem-vindos a Itapebussu". Sem mais o que dizer, cumpade Zé Barbosa reconhece que melou a vara e, acabrunhado, falou no ouvido do aplicativo:

- Tu tá é ariado, waze véi fulerage!

O "bilôto" que mudou uma vida

Já vi crente ir de joelhos a Canindé pagar promessa pro filho que passou no exame de admissão; esposa que rezou novena e trezena em agradecimento pela cura de doença braba no marido arreado; político que deu quinhentos contos à instituição de caridade por ter sido sufragado nas urnas com 15 votos; moça velha grávida de agradecimento a Santo Antônio pelo namorado que arrumou.

Contudo, a colega Francisca foi muito, muito além em sua imensa gratidão: acendeu 10 velas e orou pra mãe da pessoa que inventou a máquina de lavar. Pela primeira vez alguém fez algo assim. Acostumada e "bater roupa", primeiramente, nas águas corrente do Ereré (córrego que corta Pacajus a oeste), passou, depois, a lavar redes e peças de cama e mesa na lavanderia de casa, com sabão em barra, tacando um cacete de jucá no "espinhaço dos panos".

Toinho, marido da Francisca me mandou vídeo da mulher ajoelhada diante do eletrodoméstico, rezando contrita, rodeada de velas de uma semana. Assim falando:

- Obrigado, seu inventor! Apertando um bilôto, o colega tirou das minhas costas e braços uma tonelada! Se tiver uma rede pra nós lavar, manda! Pro senhor é de grátis! Amém!

Olhos nos ovos

Joseph, bodegueiro famoso de São Romão. Pacato e gentil, dizia-se "remediado", mas que tinha uma riqueza: o filho Peter Joaquim Muller Gregório, seu assistente no sortido estabelecimento. Pra contrabalançar, uma mulher braba feito "siri na latra" - Candinha. E era dezembro, mercearia enfeitada de detalhes natalinos. Chega a vendedora de ovos caipira - Lica, a generosa. 75 unidades numa caixa escura, lacrada. Joseph, de calção num tamborete, deixando aparecer "as partes", derrama-se todo ante a senhora estupefata:

- Lilica! Sempre novona e bonita! E isso aí, na caixa?!?

- São seus ovos, são seus ovos! - responde ela, olhos grelados nas 'ovanças' de Joseph.

Candinha ouve a conversa, de dentro de casa, e grita com o cão nos couros:

- Que raparigagem é essa aí? Hein?

Fazendo valer a autoridade, ordena ao filho Peter Joaquim e ao marido Joseph:

- Almoço tá quase pronto, Quinca! E tu, Zé, traga a farinha do pirão com os meus ovos!!!

Fonte: O POVO, de 28/08/2026. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.


quarta-feira, 23 de setembro de 2026

A ARQUITETURA DO DESCONTO HIPERBÓLICO

Por Alexandre Sobreira Cialdini (*)

Entre receber R$ 1.000 hoje ou R$ 1.200 daqui a um mês, a maioria das pessoas escolherá a primeira opção. O benefício imediato parece ter muito mais valor do que os R$ 200 adicionais no futuro, ainda que não esteja tão distante.

Se a escolha passar a ser entre receber R$ 1.000 daqui a um ano ou R$ 1.200 um mês depois, a lógica se inverte: a maior parte das pessoas prefere esperar um pouco mais para receber a recompensa maior. Afinal, quando a espera já é longa, o intervalo de um mês tende a fazer pouca diferença.

Essas duas situações ilustram o chamado desconto hiperbólico, um viés cognitivo explorado pelos jogos de azar e pelas bets. O valor atribuído aos ganhos futuros cai rapidamente em comparação ao das recompensas imediatas, mas essa queda desacelera à medida que a espera se prolonga.

O conceito de desconto hiperbólico foi formalizado pelo psiquiatra americano George Ainslie, em 1975. Mais tarde, o economista David Laibson adaptou esse modelo para uma versão mais aplicável à economia.

Na prática, o pesquisador Vincent Berthet propõe três ferramentas para reduzir os efeitos do desconto hiperbólico.

A primeira consiste na utilização de "dispositivos de compromisso", como planos automáticos de poupança e metas que evitem decisões impulsivas.

Outra estratégia é o "compromisso prévio", que envolve criar barreiras ao comportamento impulsivo. Um exemplo é o agendamento automático de investimentos regulares.

A terceira ferramenta consiste no uso de lembretes (visuais, escritos ou em conversas) que reforcem decisões de longo prazo.

Nesse contexto, a Secretaria do Planejamento e Gestão do Estado (Seplag-CE) e a Fundação Demócrito Rocha lançaram, em junho deste ano, o Programa de Educação Financeira do Estado do Ceará, cuja primeira iniciativa foi o Curso de Educação Financeira para Cidadania Plena.

O projeto é inovador em âmbito nacional e incorporou esse arcabouço teórico para orientar pessoas e famílias sobre os riscos das bets. O curso alcançou 10.870 participantes, superando a meta inicial de 3 mil.

As inscrições já foram encerradas, mas o Programa de Educação Financeira continuará com uma série de atividades multidimensionais.

Portanto, a análise da interação entre o viés do presente, os instrumentos de comprometimento e o endividamento revela que o autocontrole pode manifestar-se tanto na capacidade de evitar situações tentadoras quanto na habilidade de resistir a elas.

Contudo, por mais eficazes que sejam os mecanismos de autocontrole, as ações de educação financeira devem considerar as diferenças entre os diversos públicos, como servidores públicos, jovens, idosos e outros segmentos.

Além disso, o fortalecimento da literacia financeira e o acesso ao aconselhamento profissional deverão constituir recursos complementares.

(*) Mestre em Economia e doutor em Administração Pública e Secretário de Finanças e Planejamento do Eusébio-Ceará.

Fonte: O Povo, de 6/08/26. Opinião. p.15.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Crônica: Quando um guaxinim era o perigo! ... e outros causos

Quando um guaxinim era o perigo!

O motorista se chamava João, rapaz simpático, boa conversa. Eu, no banco de trás do táxi, lia no celular coisas da modernidade intrigante.

A certo instante, espantado com recente episódio de violência no Rio de Janeiro, quebrei o silêncio, dizendo que nesses tempos difíceis "só a proteção divina para nos guardar".

E João, morador da Vila União do amigo Jair Moraes, conta, em contraponto, quão tranquilo era o ir e vir há mais de 40 anos.

- Morávamos na beirada da Lagoa do Opaia e, jovem ainda, íamos ao Vuac - Vila União Atlético Clube, festa animada pelo conjunto Os Morcegos. De casa pra lá, uns 300 metros.

- "Sem os ladrões atrás", perigo nenhum no caminho, nera?

- Nenhum! Ainda assim, mamãe pedia cautela: "Cuidado com cobra e guaxinim!"

A relação glúten/glúteo

Além da dificuldade de ler que prestasse, a vista não ajudava essas coisas todas; os ouvidos, contudo, alcançavam o que os ói não abarcavam.

Prestes a se aposentar, caladão, Dandão é sujeito atento, determinado a aprender. Entre outras, sabe o que é "glúteo", ouvira por vezes a palavra da boca do patrão, Dr. Osvaldo - "bem saidinho".

"Fazedor de mandado" de Dr. Osvaldo, tinha já 20 anos, era por ele "parido".

- Pense numa pessoa pra eu gostar! Um pai pra mim! Dou a vida por ele!

Em casa, certa feita, Dandão ouve da filha Diana, por primeira vez, uma palavrinha parecida com glúteo - aquela "proteína natural encontrada em cereais como trigo, cevada e centeio".

Que consumida por pessoas com condições específicas, é um perigo - provoca reações adversas, a exemplo da autoimune doença celíaca.

A filha, com considerada alergia ao trigo, toda se coçando, é indagada pelo pai sobre a mazela manifestada.

- É intolerância ao glúten!

- Ao quê, Diana?!?

- Glúten, pai! Não sei como ainda tem gente que gosta...

A filha nem bem pronunciou a frase completa ("Não sei como ainda tem gente que gosta de pão") e Dandão, pensando tratar-se do "grupo de três músculos na parte de trás do quadril", corre e arremata:

- Pois eu sei quem gosta! Dr. Osvaldo dá o maior valor!

Esquecendo o que não lembrava

Mal cheiro medonho - de cocô ultrapassado - no consultório. E o senhor, lá dentro, com pressa pra relatar ao médico uma "incapacidade de criar novas memórias, decorrido algum momento", conhecida por amnésia anterógrada.

Põe-se a contar ao geriatra, que se esforça para manter-se calmo, o que sentia. Profissional incomodado enquanto investiga do que sofria "seu Bené", e poder traçar o melhor plano de cuidados.

O octogenário paciente se faz acompanhar da filha Isaura, cuidadora monossilábica, acostumada já com os senões do pai. Começa Bené a discorrer.

- Doutor, eu como uma pratada de feijão, mas é como eu não tivesse comido nada...

- Isaura, ele comeu ou não essa pratada de feijão? - pergunta o doutor.

- Comeu... - responde seca a protetora.

- E aí, dotozim - prossegue Bené -, bebo uma garapa, mas é como se não tivesse bebido.

- E ele, Isaura, bebeu?

- Bebeu...

Agora, explodindo a catinga do "resto de tudo o que o corpo (de seu Bené) não aproveitara dos alimentos digeridos", é o próprio paciente que revela o que tem:

- Como eu ia dizendo, tá com três dias que eu defeco direto nas calças, mas é como se eu não tivesse obrado...

- Tá explicado! Agora tá explicado!

Fonte: O POVO, de 14/08/2026. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.


sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Crônica: A colega doutora ... e outros causos

A colega doutora

Gente boa o Neto, homem de bem com quem é bom estar. Servidor e simpático, sóbrio é esse sujeito maravilhoso; lasca quando toma umas pôde a mais, aí é boneco federal, o que não inibe em absoluto a percepção que dele temos acerca do reconhecido valor humano. Sucede que o amigo, de poucas letras, aprontou de novo e foi chamado a responder processo, aberto pela própria esposa em momento de justificável aperreio.

E já está ele diante da juíza - audiência remota. A competente advogada dá as devidas orientações, no sentido de seu cliente tratar com "respeito e educação a digníssima juíza". Que use termos condizentes, mantenha a calma e responda apenas o que for perguntado. Mas vemos um Neto tenso, em risco de baldear o juízo e botar a causa a perder.

A advogada, cautelosa, reforça:

— Ao dirigir-se à meritíssima juíza, chame-a de doutora! Ou de excelência! Ouviu, Neto?

— Na hora, dona Maria!

Final da audiência e a douta juíza prolata:

— Sr. Francisco Neto, pelo que vejo, o senhor, réu primário, não é pessoa má, apenas mais uma vítima do álcool. Por isso, sua pena será a prestação de serviços comunitários.

— Obrigado, colega!!! Maravilha, colega!!!

Juíza ouviu os "colegas" e se riu, entendendo o contexto. Pediu maternal:

— Aproveite (o serviço comunitário) que é numa escola e estude. Seja decente e brilhe!

— Eita, dotorinha! A senhora é só o mí disbuiado!

Ô, taria!

Clarice é esperta. Cinco aninhos e, ouvidos atentos, sabe muito bem o que dizem em derredor, escutando com perfeição a coisa proferida. Estamos na casa da avó Dijé que, na sala, assiste às arrumações do marido-vovô em brincadeiras ingênuas com a netinharada ("calango na parede", "João atrepa", "carrapicho"). Lá pelas tantas, Dijé solta a forma foneticamente reduzida da palavra que, em seu uso informal, é utilizada para descrever bagunça, injustiça, diversão, fulerage, cachorrada...

— Ô taria!!!

Clarice, vigilante, vai até onde está Dijé e, professoral, corrige.

— Vó!!! Não é "taria"! É putaria! Aprende!

Fé muita, fé demais!

Primeiro ano de namoro do casal e Leléo leva Madinha pra passar final de semana na casa dos pais. Domingo bem cedo, é praxe, o jovem sai para o grupo de oração. Madinha fica, entabulando boa conversa com a cunhada. 10 horas da manhã e a moça sente cólicas - vontade urgente e súbita de evacuar. Corre em busca do banheiro. De lá, liga encabulada pro namorado; ele, absorto no culto, "pedindo, agradecendo e louvando o Senhor", não ouve a chamada. Uma, duas, três tentativas... Até que deu certo.

— Oi, amor! Jesus contigo!

— Para, Leléo! O negócio aqui fedeu! Fala baixo! Não volte pra casa sem um...

— ... sem um bocado de louvores abençoados pra te embalar, nunquinha!!!

— Não, Leléo! Não volte sem um desentupidor, o sanitário entalou! Tô no banheiro da sala, traga sem fazer enxame!

Largando vexado o culto, ele compra o desentupidor e, provando que o Senhor lhe tocou o coração, um buquê de rosas. Em casa, Evangelho de João palpitando ainda, entrega a "ferramenta de limpeza de desobstruir vasos sanitários" e as flores, murmurando discreto, na porta entreaberta do banheiro.

— Madinha, na casa de meu Pai há muitas moradas!

— É? Então por que justamente na sua a privada enguiçou? Hein? Me fala!

Fonte: O POVO, de 17/07/2026. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.


quarta-feira, 26 de agosto de 2026

UMA NOVA DOENÇA

Por Romeu Duarte Junior (*)

Um novo e sinistro mal acomete os brasileiros e as brasileiras: as tais plataformas de apostas esportivas, também conhecidas como bets, nome derivado do verbo bet que em inglês significa apostar. Não que só agora o nosso povo descobriu essa mania; a população brazuca sempre se viu envolvida com algum tipo de jogo, seja o do bicho, seja o carteado, seja o turfe, seja a loteria, seja o bingo, seja qualquer atividade lúdica em que o azar, esta triste palavra, esteja envolvida.

Todavia, se no passado essas manias se davam com base no "vale o escrito", nestes tempos que correm, as bets operam na velocidade do algoritmo, gerando uma espécie de vício que faz adoecer as pessoas, estas cada vez mais incontroláveis em suas tentativas de ganhar dinheiro, cruéis fracassos.

Essa doença é alimentada por duas características da nossa sociedade: a aversão ao planejamento e a irresponsabilidade financeira. O gosto pelo lema "deixa a vida me levar, ao léu e ao deus-dará" é o leitmotiv de muita gente boa por aí. De outra parte, estourar cartão de crédito, esbanjar o que não se tem, comprar coisas desnecessárias ou fúteis são atos que desenham a cara da turma que costuma frequentar a fila do Serasa.

Há absurdos tais como muitos beneficiados pelo programa Bolsa Família apostarem tudo o que têm e o que não têm no jogo do tigrinho, virando reféns de uma roleta russa ignominiosa. Não são mais seres humanos, são zumbis, são drogados que precisam da heroína do jogo constante para seguir vivendo, se é que isso é vida. Nada fácil a situação.

O governo federal, preocupado com o endividamento dos apostadores e de suas famílias, criou regras para a publicidade das bets, tal como faz em relação ao cigarro. O Ministério da Fazenda tornou obrigatória a exibição de advertências relativas à jogatina, bem como ampliou as restrições quanto ao conteúdo das propagandas, principalmente aquelas que incentivam as apostas como forma de amealhar caraminguás ou que se utilizem de figuras populares para influenciar o respeitável público.

Realmente, dá raiva ver jogador de futebol que até bem pouco tempo tinha uma imagem sagrada, se revelar, na verdade, um santinho do pau oco vendendo enganosas facilidades na televisão e nas redes sociais. Quem sabe se não foi essa nova pandemia o que acabou com a nossa seleção?

Especialistas, por seu turno, informam que só o aviso repreensivo não basta. Há que se contar com fiscalização tecnológica, tratamento médico para dependentes, programas de educação financeira e mecanismos rigorosos de controle de gastos. O Desenrola está por aí, resolvendo o buraco das finanças pessoais arrasadas com dinheiro público, mais um gargalo administrativo.

Com certeza, esse assunto mais a segurança pública serão os temas mais abordados neste ano eleitoral. Com a cabeça zonza de tanto pensar no momentoso e angustiante problema, deixei a crônica de lado e fui respirar no jardim. Lá fora, dois sujeitos conversavam. "Aposto dez paus que nos próximos cinco minutos não passa nenhuma Topic 703 aqui na Antônio Sales". Ah, Brasil, tem jeito não...

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 20/07/26. Vida & Arte. p.2.


 

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