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terça-feira, 18 de agosto de 2026

"A escolinha do Professor Vorcaro"

Por Raimundo Padilha (*)

Parodiando a Escolinha do Professor Raimundo, do maior humorista brasileiro, o cearense Chico Anysio, estamos assistindo à Escolinha do Professor Vorcaro. Na Escolinha do Chico, os alunos eram humoristas famosos, que interpretavam papéis que os colocaram no patamar da fama. Chico era o titular da cátedra.

Na Escolinha do Professor Vorcaro, os seus alunos são corruptos, que ocupam, com raras exceções, o cardinalato da nossa República. Todos de maneira direta ou indireta, por meio de familiares são personagens de tramas golpistas. Enquanto na Escolinha do Chico o objetivo era fazer rir, na Escolinha do Professor Vorcaro é de fazer chorar. Quanta tristeza está no rastro deste drama, onde o seu professor é um pegajoso bandido, que atrai alunos mediante fartas propinas.

No Chico, o jogo era limpo. No Vorcaro, o jogo é sujo. Em matéria de corrupção é a maior em volume e em número de participantes. Três togados se tem notícia que tiveram participações, um senador apresentou projeto ampliando vantagens para o Banco Master do Sr. Vorcaro, além de outros cardeais que intermediaram operações para aplicações de Fundos de Pensões no mesmo Master.

O banco oferecia taxas aos seus investidores bem acima das praticadas pelo mercado e não apresentando liquidez, levando os seus investidores a recorrer ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC), o qual chegou cobrir mais de R$ 50 milhões. Este é o maior rombo da história do Sistema Financeiro Nacional.

É vergonhosa a máscara dos seus participantes. E os seus poderes/cargos vão para lata do lixo. Uns mais, outros menos, mas de modo geral os 3 poderes foram atingidos.

A pretexto de produzir um filme de personagem que se tem dúvidas das suas virtudes, foi orçado em mais de R$ 130 milhões e abocanhados mais de R$ 60 milhões, quando o filme "O Agente Secreto", que concorreu ao Oscar, custou pouco mais de R$ 26 milhões.

E a história ainda está incompleta ou mal contada, pois se desconhece a estrada percorrida pelo dinheiro, nem o seu real orçamento e muito menos a comprovação da sua aplicação. Tudo muito obscuro e com historiadores falseando as suas narrativas.

Banquetes luxuosos na Europa, com cardápios de finíssimo trato e bebidas do mais requintado paladar foram promovidos pela Escolinha do Sr. Vorcaro.

Enquanto na Escolinha do Chico o final era o aplauso, com o Sr. Vorcaro o final será o xadrez. Aliás, o seu professor já estava vendo o sol quadrado e empulseirado. Triste fim, triste drama.

Duas escolas com objetivos bastante distintos. Vorcaro, professor esperto. Chico, professor engraçado. Grande diferença.

(*) Economista, professor aposentado da UFC e membro da Academia Cearense de Economia.

Fonte: O Povo, de 8/07/26. Opinião. p.15.


domingo, 9 de agosto de 2026

ENFERMAGEM: mudanças na formação e luta pela valorização III

Por Ana Rute Ramires, Ana Sá e Samuel Setúbal

As Novas Diretrizes da formação em Enfermagem no Brasil

O Brasil possui uma tradição importante na formação em Enfermagem, com forte conexão com as necessidades do Sistema Único de Saúde (SUS). O relatório “Demografia e mercado de trabalho em enfermagem no Brasil”, divulgado pelo Ministério da Saúde no fim de 2026, analisa dados do setor entre 2017 e 2022.

Documento aponta o enorme crescimento dos cursos de bacharelado na rede privada (impulsionados pelo EaD) e destaca que a grande maioria dos profissionais busca especializações lato sensu (pós-graduações e especializações tradicionais) para se diferenciar no mercado.

Os técnicos de enfermagem formam a maior força de trabalho quantitativa da enfermagem no País e sua formação ocorre massivamente em escolas técnicas e redes estaduais. No caso dos auxiliares, há uma tendência de "extinção gradual" ou declínio da categoria, já que o mercado exige cada vez mais o nível técnico, levando muitos antigos auxiliares a fazerem a complementação para se tornarem técnicos.

Em maio, houve a homologação das novas Diretrizes Curriculares Nacionais da Graduação em Enfermagem (DCNs/Enf). Segundo Jacinta Fátima Sena da Silva, presidenta da Associação Brasileira de Enfermagem (Aben), a homologação "representa uma conquista histórica para a Enfermagem brasileira e para a sociedade".

Nas últimas décadas, segundo ela, "observou-se uma expansão acelerada e, muitas vezes, desordenada da oferta de cursos, especialmente no setor privado, nem sempre acompanhada das condições pedagógicas, estruturais e práticas necessárias para garantir uma formação de qualidade".

A defesa do ensino presencial é o pilar central das novas DCNs. Jacinta Sena destaca que "a formação em Enfermagem exige experiências presenciais, supervisão qualificada, vivência nos serviços de saúde e desenvolvimento de competências técnicas, científicas, éticas e relacionais complexas". O que seria dificilmente suprido por modelos totalmente remotos.

Além da técnica, a formação qualificada é considerada uma estratégia de valorização profissional a longo prazo. Para as entidades de classe, o ensino de qualidade é indissociável de uma remuneração digna e de condições de trabalho adequadas.

"Ao mesmo tempo, a homologação não encerra a luta. Será fundamental apoiar e acompanhar sua implementação e defender permanentemente a qualidade da formação frente a interesses mercadológicos que historicamente pressionam pela flexibilização dos processos formativos", acrescenta.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/07/26. Caderno Ciência & Saúde. p. 16-18.

ENFERMAGEM: mudanças na formação e luta pela valorização II

Por Ana Rute Ramires, Ana Sá e Samuel Setúbal

Categoria sente maior valorização simbólica, mas não financeira

Durante a pandemia de Covid-19, a população reconheceu de forma mais clara o papel de enfermeiras, enfermeiros, técnicas, técnicos e auxiliares de enfermagem na sustentação dos sistemas de saúde. A categoria foi elevada ao status de heroísmo por atuar sob risco constante.

Contudo, o reconhecimento social não se traduziu em estabilidade financeira. Para uma parcela da categoria, a sobrevivência exige a manutenção de múltiplos vínculos de trabalho, realidade que prejudica a qualidade de vida e a saúde mental.

De acordo com a pesquisa Perfil da Enfermagem no Brasil 2017 (Fiocruz/Cofen), 66% dos entrevistados relatam desgaste profissional, cansaço físico e mental. Pesquisa também aponta a multiplicidade de vínculos como um dos principais fatores para o desgaste da categoria.

O POVO conversou com três técnicos de enfermagem sobre a rotina de dedicação e sobrecarga e optou por não divulgar os nomes das fontes.

Um deles, com 26 anos, exemplifica o dilema da dupla jornada. O profissional se divide no trabalho em uma empresa privada e um organização filantrópica, além da graduação em Enfermagem. Relata que a recente conquista financeira do piso veio acompanhada de um aumento na carga horária.

Eu abro mão da minha saúde para poder conseguir pagar minhas contas”. Para ele, o aumento das horas trabalhadas, que em alguns setores passou de 30 para 40 horas, resultou em uma sobrecarga que abala tanto o esforço físico quanto o equilíbrio emocional.

Outra técnica de enfermagem, de 32 anos, relata os "plantões exaustivos, muitas vezes, com setores com redução de funcionários". Ela conta que alguns colegas precisam de afastamento por problemas de saúde mental, como ansiedade, e burnout.

"No setor público e em organizações contratualizadas, o pagamento do piso muitas vezes é feito de forma fragmentada por meio de complementos que não atingem o valor real devido", compartilha outra técnica de enfermagem de 40 anos que atua em uma associação filantrópica.

"O principal desafio da nossa profissão é justamente ter que lidar com isso, a desvalorização profissional, porque a gente trabalha com amor, com carinho. Eu, pelo menos, amo o que eu faço, amo minha profissão. Porém, o que entristece a gente e está adoecendo — muitos profissionais que estão de licença e afastados por problemas psiquiátricos — é justamente essa desvalorização", compartilha.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/07/26. Caderno Ciência & Saúde. p. 16-18.

ENFERMAGEM: mudanças na formação e luta pela valorização I

Por Ana Rute Ramires, Ana Sá e Samuel Setúbal

Categoria hegemônica na Saúde, enfermagem ainda luta por valorização plena. Enfermeiros, técnicos e auxiliares enfrentam sobrecarga física e mental

Maior força de trabalho da Saúde no Brasil, os profissionais de enfermagem ainda lutam por valorização. O Piso Salarial Nacional da categoria, estabelecido pela Lei nº 14.434 apenas em 2022, após três décadas de mobilização, foi uma conquista importante para corrigir distorções históricas e garantir dignidade aos trabalhadores. Mas ainda não é realidade para todos.

A conquista do piso da categoria deveria ter sido o ponto de virada. No entanto, a implementação integral da lei tornou-se uma batalha judicial e administrativa.

"Observam-se tentativas de reduzir o impacto financeiro da medida com flexibilização de vínculos, da pejotização, da terceirização excessiva, da contratação intermitente ou da fragmentação das jornadas de trabalho, sobretudo no setor privado", afirma Jacinta Fátima Sena da Silva, presidenta da Associação Brasileira de Enfermagem (Aben).

Quintino Neto, presidente Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Serviços de Saúde do Ceará (Sindsaúde/CE), afirma que, após a aprovação da Lei, a decisão do STF acabou "desconfigurando" diversos aspectos da conquista. "Ao permitir condicionantes para sua implementação, abriu espaço para interpretações que vêm sendo utilizadas por parte dos empregadores para reduzir o alcance da própria lei", critica.

O Sindsaúde representa os trabalhadores e trabalhadoras de nível médio e técnico que atuam na Saúde, como os técnicos e auxiliares de enfermagem.

Nesse contexto, outro ponto crítico é a ascensão das chamadas "falsas cooperativas". Entidades que, segundo Quintino, são utilizadas para "mascarar vínculos empregatícios e retirar direitos fundamentais".

De acordo com Natana Pacheco, presidente do Conselho Regional de Enfermagem do Ceará (Coren-CE), essa prática também é prejudicial quando ocorre dentro de espaços públicos por meio de contratos de terceirização, pois impede que o profissional receba a assistência financeira complementar da União.

Além dessas estratégias, a categoria enfrenta disputa jurídica no Supremo Tribunal Federal. O setor privado ingressou com Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 7222 que questiona a constitucionalidade da Lei do Piso Salarial Nacional da Enfermagem (Lei nº 14.434/2022).

A presidenta da Aben, Jacinta Fátima Sena da Silva, defende que "não pode haver dois pesos e duas medidas". "Trabalhadoras (es) dos setores públicos e privados realizam o mesmo trabalho e devem ter os mesmos direitos. Não é coerente que trabalhadoras (es) celetistas precisem negociar com seus patrões para ter seus direitos garantidos. A Lei deve ser cumprida", pontua. Ela considera "inaceitável" que o setor privado alegue não ter condições de pagar salários justos.

Para mudar este cenário de precarização, as entidades de classe apostam em novos avanços legislativos. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 19 surge como uma solução para corrigir distorções, garantindo que o reajuste do piso seja anual e vinculado a uma jornada de 36 horas semanais, evitando que a inflação corroa o poder de compra.

Natana Pacheco, presidente do Coren-CE, reforça que a aprovação dessa PEC, somada à histórica luta pelas 30 horas semanais, traria a segurança jurídica necessária para que o profissional possa optar por menos vínculos sem comprometer sua renda. No setor público, segundo ela, a urgência é o reajuste da assistência financeira complementar da União, que está congelada há quase quatro anos.

O POVO buscou entidades que representam hospitais e planos de saúde para resposta sobre os pontos levantados por conselhos e sindicados da enfermagem. A Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge) respondeu que não iria se pronunciar nesta pauta. A Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde) indicou buscar "representantes das redes hospitalares".

A Associação Nacional de Hospitais Privados (Anap) não deu retorno após tentativa de contato por e-mail e WhatsApp. A Federação Brasileira de Hospitais (FBH) e a Associação de Hospitais do Estado do Ceará (AHECE) não responderam após tentativas de contato por e-mail e ligação.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/07/26. Caderno Ciência & Saúde. p. 16-18.


terça-feira, 4 de agosto de 2026

Como superar a persistente lacuna de produtividade no Brasil

Por José Nelson Bessa Maia (*)

Tornou-se um lugar-comum afirmar que a baixa produtividade é um dos principais entraves ao crescimento econômico do Brasil, permanecendo praticamente estagnada há décadas. Por causa disso o país enfrenta uma "armadilha de baixo crescimento", com trabalhadores produzindo, em média, cerca de um quinto do que nos EUA, tido como referência nessa matéria.

A comparação internacional de produtividade costuma ser feita em PIB por trabalhador empregado em dólares internacionais ajustados por Paridade de Poder de Compra. Os dados mostram que o Brasil teve forte perda relativa entre 1980 e 2000 e depois ficou praticamente estagnado. Hoje, um trabalhador brasileiro produz 24% do que produz um trabalhador norte-americano médio.

Por outro lado, a China partiu de base extremamente baixa em 1980, mas teve o maior avanço da história econômica recente. Com isso, a produtividade chinesa passou de 4% da americana para 40% em pouco mais de quatro décadas.

O dado mais impressionante é que, em 1980, o Brasil possuía uma produtividade de oito vezes superior à da China. Hoje, a situação se inverteu: a produtividade média do trabalhador chinês já é 60% maior que a do trabalhador brasileiro. O Brasil permaneceu praticamente estagnado por quatro décadas, enquanto a China convergiu rapidamente para os níveis das economias avançadas.

Entre as principais causas estão a falta de concorrência, dificuldades de acesso a crédito, distorções tributárias e regulatórias e má alocação de recursos, que impedem empresas mais produtivas de crescer. Além disso, grande parte da força de trabalho está concentrada em setores de baixa produtividade, como agricultura e comércio.

Para resolver esse impasse e superar o desafio da baixa produtividade, diversos estudos apontam a necessidade de promover reformas estruturais, maior integração produtiva, maiores investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D), melhoria na educação básica, média e superior e maior abertura a investimentos estrangeiros. Esse pacote de medidas poderia impulsionar a produtividade do trabalho e alavancar o crescimento em bases sustentáveis. Além disso, muitos defendem a estímulos direcionados a setores intensivos em conhecimento, inserção planejada em cadeias globais de valor e modernização da agroindústria.

Em um país com tantas potencialidades, como recursos naturais abundantes, sistema financeiro sofisticado, grande mercado interno e boas universidades como o Brasil, conclui-se que, embora o problema seja estrutural, há uma janela de oportunidade para se evitar mais uma década perdida, desde que governos, empresas e universidades atuem de forma coordenada no bojo de uma Estratégia Nacional de Desenvolvimento para romper o circuito da baixa produtividade e superar a armadilha da renda média.

(*) Ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.

Fonte: O Povo, de 27/06/26. Opinião. p.25.


segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Rendimento e endividamento com bets

Por Alexandre Sobreira Cialdini (*)

O rendimento médio recebido em todos os trabalhos - que corresponde à soma dos ganhos brutos, como salários, comissões e horas extras - alcançou R$ 3.560 em 2025. Esse foi o maior valor registrado desde o início da pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), representando crescimento de 5,7% em relação a 2024 e de 11,1% quando comparado a 2019, ano que antecedeu a pandemia.

Outro indicador que mostra a melhora da renda dos brasileiros é a massa de rendimento mensal real de todos os trabalhos, que atingiu R$ 361,7 bilhões em 2025, também o maior valor da série histórica. O crescimento real foi de 7,5% frente a 2024 e de 23,5% em relação a 2019.

Paradoxalmente, apesar da evolução da renda, o Brasil alcançou, em 2026, o maior índice de endividamento das famílias desde o início da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor. Em abril, 80,9% das famílias brasileiras declararam possuir algum tipo de dívida, segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), disponível em: https://portaldocomercio.org.br/publicacoes_posts/pesquisa-de-endividamento-e-inadimplencia-do-consumidor-peic-agosto-de-2025/

Entre os fatores que ajudam a explicar esse fenômeno está o endividamento com apostas online, conhecidas como bets. O crescimento das apostas vem produzindo prejuízos crescentes à saúde mental e à situação financeira das famílias, além de contribuir para o aprofundamento da desigualdade. 

Pesquisas apontam que, em 56% das vezes, o jogador perde. Parece pouco? Não. Nos 44% restantes, muitas vezes prevalece a ilusão criada pelo desconto hiperbólico. Esse conceito explica por que as pessoas tendem a preferir recompensas imediatas, como um ganho rápido nas apostas online, em vez de aguardar benefícios maiores no futuro. 

Outro conceito importante é o da contabilidade mental. Muitos jogadores passam a separar o dinheiro das apostas do restante de suas finanças, o que os impede de ver o impacto total das perdas. Soma-se a isso a ilusão de controle: a crença de que habilidades pessoais ou estratégias são capazes de influenciar resultados que, na prática, são aleatórios.

As consequências financeiras desse comportamento são evidentes. Estudos indicam que cerca de 19% dos apostadores comprometem suas reservas financeiras e, aproximadamente, 10% recorrem ao cartão de crédito para continuar jogando, o que pode resultar em endividamento com taxas de juros de 428% ao ano. O cartão de crédito, por sua vez, permanece como o principal fator de endividamento para 83,6% das famílias.

Por isso, reforço a frase do meu amigo Preto Zezé: "Precisamos acreditar mais na aposta do conhecimento do que na sorte". Aos leitores interessados em aprofundar o tema, recomendo o webinário realizado pelo Programa de Educação Financeira do Ceará, disponível em: https://www.youtube.com/live/a6e1MtLGEkE?is=a0xzNZBWolXmFouM

(*) Mestre em Economia e doutor em Administração Pública e Secretário de Finanças e Planejamento do Eusébio-Ceará.

Fonte: O Povo, de 25/06/26. Opinião. p.17.


quarta-feira, 22 de julho de 2026

JUROS ALTOS, RISCOS PERSISTENTES

Por Lauro Chaves Neto (*)

O cenário econômico brasileiro volta a se deteriorar de forma evidente, frustrando a expectativa, ainda recente, de um ciclo mais consistente de queda da taxa Selec ao longo de 2026.   O que se desenhava como um processo gradual de afrouxamento monetário deu lugar a um ambiente de maior incerteza.

Parte dessa mudança vem do cenário externo. As tensões no Oriente Médio mantêm o petróleo em patamares elevados, pressionando custos logísticos e produtivos. Ao mesmo tempo, o El Niño já projeta impactos sobre a produção agrícola, com reflexos diretos sobre os preços dos alimentos.

Some-se a isso a resiliência da economia americana, que reduz o espaço para cortes de juros pelo Federal Reserve e pressiona o câmbio em países emergentes como o Brasil.

No plano doméstico a política econômica contribui para esse quadro. A ampliação de estímulos fiscais e creditícios, em um ambiente já pressionado, reforça expectativas inflacionárias. Não por acaso, as projeções para o IPCA seguem em trajetória ascendente, afastando-se do centro da meta e exigindo cautela do Banco Central.

Nesse contexto, a autoridade monetária se vê diante de um dilema clássico. Diante de uma inflação de 4,72% nos últimos 12 meses, portanto acima do teto da meta, reduzir juros prematuramente pode significar subestimar choques que se mostram persistentes. Por outro lado, manter a Selic em patamares elevados prolonga o custo financeiro para famílias, empresas e o próprio setor público.

Os sinais já são visíveis. A inadimplência cresce, os pedidos de recuperação judicial se multiplicam e o mercado financeiro reage com maior aversão ao risco. O otimismo que marcou o início do ano dá lugar a uma maior volatilidade da bolsa e do câmbio.

O risco não é apenas inflacionário, é também de um esgotamento gradual da capacidade de crescimento sustentado, caso a política econômica permaneça refém de estímulos de curto prazo. Em um ambiente global mais adverso, disciplina fiscal e previsibilidade deixam de ser opções e passam a ser condições necessárias para restaurar a confiança e abrir espaço para a redução sustentável dos juros.

(*) Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de Economia.

Fonte: O Povo, de 22/06/26. Opinião. p.16.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

SELEÇÃO, SAMBA E RAÇAS

 Por Raimundo Padilha (*)

Estamos entrando em clima de Copa do Mundo. O técnico da seleção brasileira já anunciou a convocação de 26 jogadores. Embora estejamos com um dos mais consagrados técnicos do mundo, não deixa de ser um momento difícil a escolha dos convocados. As torcidas vibram quando os seus ídolos são anunciados. O Brasil é penta

campeão, mas há mais de 20 anos não traz o troféu. Tivemos uma fase áurea do futebol e hoje, embora, com alguns valores individuais não temos conquistado a taça. No dia do anúncio o clima era de expectativa, principalmente, para se saber se Neymar seria ou não convocado. A sua convocação era defendida pela grande maioria dos torcedores.

Acho que um bom time precisa do binômio talento individual e espírito de equipe (entrosamento). E são 11 que precisam estar bem alinhados, Assim, não foi fácil a escolha do técnico Carlo Ancelotti. Pessoalmente, achei longo o período de observação dos jogadores e muito curto o período de treinos para ser criado o espírito de equipe.

Particularmente quanto à convocação do Neymar, talvez, tenha sido a maior dificuldade do Ancelotti. Neymar ainda é um craque, mas já não é o craque de ontem, embora o seu nome ainda pese. Historicamente, ele é muito marcado e recebe muitas faltas passando longos períodos fora de campo.

Acho que o técnico passou pelo seguinte dilema: se não convocar o Neymar e perder a copa, a culpa é dele (técnico), mas se escalar o Neymar e perder a taça a culpa será do jogador. Não desejo que Neymar assuma o peso desta responsabilidade que poderá comprometer o seu desempenho. Quero que entre em campo fazendo o que ele ainda pode fazer de melhor. Ele tem o apoio de toda a torcida brasileira e dos seus 10 companheiros, que ainda veem nele um talento.

E justiça lhe seja feita ele tem noção das quatro linhas, da bola redonda, das traves e dos seus companheiros de equipe. E isto ele vai levar para toda a sua vida, mas a idade vai limitando o seu desempenho. E isto é da natureza humana.

Mas, é bom lembrar que somos 26 e todos têm muito valor e responsabilidade pela camisa que vestem. Enfim, somos penta. E temos raça.

Aliás, a propósito de raça, no mundo temos várias raças: a branca, a negra, a parda, a amarela e a indígena.

No futebol brasileiro e na música, os melhores têm sido da raça negra. Pelo menos, esta é a minha observação pessoal. E isto se constitui num grande valor, que pode eliminar a má ideia dos preconceituosos. A nossa arte musical, principalmente, no samba, no baião, no chorinho e no rap, a predominância com talento e elegância é a raça negra que melhor nos representa.

No futebol/arte é da mesma forma. Basta lembrar de Zizinho, Didi, Pelé, Garrincha, Barbosa, Jairzinho, Djalma Santos e tantos outros, que para orgulho nosso vestiram a camisa canarinha. Sem demérito das demais, a raça negra é orgulho nacional.

(*) Economista, professor aposentado da UFC e membro da Academia Cearense de Economia.

Fonte: O Povo, de 10/06/26. Opinião. p.17.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

O que é preciso mudar no Brasil: políticos?

Por Pedro Jorge Ramos Vianna (*)

Há tempos venho defendendo que são quatro os fatores essenciais que determinam o grau de desenvolvimento de qualquer região do planeta. São os fatores naturais, os históricos, os aleatórios e os que eu denominei de institucionais, os produzidos pelo homem. Analisemos, agora, o "fenômeno", Brasil.

- Quanto aos fatores naturais, nosso País tem abundância de terra, a maioria muito produtiva; grandes bacias hidrográficas; climas normalmente amenos; não sofremos de grandes desastres ecológicos. O fator natural não foi problema para o nosso desenvolvimento;

- O fator histórico mais importante foi ter sido descoberto por Portugal, que nunca se preocupou em desenvolver a Colônia Brasil. O importante era extrair as riquezas e levar para Portugal;

- O fator aleatório digno de nota foi a revolução no Haiti em 1791-1804. Esta revolução ganha pelos escravos que trabalhavam nos canaviais do Haiti, à época o maior produtor de açúcar do mundo, teve consequências na produção açucareira do Brasil, atuando como um catalisador para o seu crescimento. O vácuo deixado pelo Haiti permitiu que o açúcar brasileiro supervalorizasse no mercado internacional.

- Quanto aos fatores institucionais, ah, esses são os maiores males deste País:

d.1) A Corrupção - É o mais importante fator institucional que impede um desenvolvimento socioeconômico em nosso País. E começou já no Brasil-Colônia: Pero Borges, que havia sido condenado em Portugal por ladroagem, foi nomeado como Ouvidor-Geral do Brasil, em 1549. Os escândalos do INSS e do Banco Master, atuais, comprovam esta tese. Somos um País de Corruptos, essencialmente, os políticos.

d.2) A Incompetência Político-Administrativa - Essa também é uma praga que sempre contaminou a administração pública no Brasil. Vou citar alguns fatos que demonstram esta tese. O primeiro plano de industrialização do Brasil, o do Presidente Juscelino Kubitschek, criou a indústria automobilística brasileira, mas cometeu erro terrível ao determinar que o nosso sistema de transporte de carga se desse via rodoviária. Outro plano de desenvolvimento, desta vez em relação ao Nordeste, foi o Plano da Sudene. Em Monografia de 1978, "Desenvolvimento do Nordeste e Alternativas" (1º lugar em Prêmio do BNB), demonstrei que o Plano de Desenvolvimento da Sudene para o Nordeste embutia alguns erros crassos: uns na concepção; outros na execução.

Dado o caráter teórico das demonstrações não cabe aqui repeti-las.

(*) Economista e professor titular aposentado da UFC,

Fonte: O Povo, de 31/05/26. Opinião. p.18.


terça-feira, 23 de junho de 2026

O PARADOXO DAS MÉDICAS NO BRASIL

Por Luciana Rodrigues (*)

O Brasil atravessa uma transformação histórica na medicina. Pela primeira vez, as mulheres são maioria entre os médicos em atividade no País: representam 50,9% do total, segundo a Demografia Médica 2025. Em 2010, eram 41%, e a tendência é de crescimento contínuo — até 2035, devem alcançar 56% da força de trabalho médica.

O avanço numérico reflete maior acesso a formação, ampliação de oportunidades e mudança cultural importante. No entanto, os dados revelam um descompasso: a presença feminina cresce, mas a igualdade de condições ainda não acompanha esse movimento.

Hoje, menos de 30% dos cargos de liderança na medicina são ocupados por mulheres. Em hospitais, universidades e entidades de classe, médicas ainda enfrentam barreiras para ascender profissionalmente. Relatos de assédio moral e sexual persistem, assim como dificuldades para conciliar carreira e responsabilidades familiares — desafio que continua recaindo de forma desproporcional sobre elas.

A desigualdade de gênero impacta diretamente a qualidade da medicina. Ambientes diversos são mais inovadores, produzem decisões mais equilibradas e refletem melhor a sociedade. Ignorar esse cenário é limitar o potencial do sistema de saúde.

Foi diante dessa realidade que a Associação Médica Brasileira criou a Comissão Nacional em Defesa dos Direitos do Trabalho da Mulher Médica (Conadem), voltada ao enfrentamento de questões como equidade salarial, combate ao assédio, garantia de condições adequadas durante gestação e amamentação e estímulo à presença feminina em cargos de liderança.

A mudança já era visível nas universidades. As mulheres representam a maioria entre os estudantes de medicina desde a década passada: eram 53,7% em 2010 e chegaram a 61,8% em 2023. O futuro da profissão já tem rosto majoritariamente feminino.

O desafio agora é transformar presença em protagonismo, influência e poder de decisão. Para isso, é fundamental ampliar a produção de dados, fortalecer políticas de inclusão e construir ambientes mais justos. Valorizar a mulher médica não é apenas atender a uma demanda da categoria, mas fortalecer o sistema de saúde e melhorar a assistência prestada à população.

(*) Pediatra e Vice-presidente da Associação Médica Brasileira.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 16/05/2026. Opinião. p.22.


quarta-feira, 17 de junho de 2026

Vorcaro e o seu crime quase perfeito

Por Raimundo Padilha (*)

Imaginar que o seu crime seria perfeito, foi um erro crasso. Ele esqueceu que a perfeição não está entre os humanos. Ela existe, mas está plano celestial e não no nosso.

Ao armar o golpe gigantesco de bilhões de reais, ele abriu portas, através da quais, encontrou caminhos para as mais diversas formas de captação de recursos de forma lícita e ilícita, comprando graúdos intermediários financeiros e encontrou caminhos escusos e aparentemente invisíveis, para escondê-los em mãos, também, sujas.

Depois de maquinar a captação dos recursos e os seus esconderijos, ele procurou se proteger através do auto poder nacional, inclusive das togas para a sua segurança pessoal. Por isso, o seu plano previa a sua prisão ou fuga. Mas, o risco de ser alcançado era iminente. Daí, ter pago, antecipadamente, e muito bem, os seus futuros defensores.

O compliance e a Auditoria Externa, foram acometidas de miopia ou cegueira absoluta, sem prestar qualquer informação aos órgãos reguladores. E, parece, que não serão apenados. O Brasil que queremos, grandioso e justo não pode, nem deve ser transformado em forno de pizza.

Até Ministros do STF tiveram alguma forma de participação, seja através de escritórios de advocacia de seus familiares ou negócios imobiliários sem visibilidade.

Como forma de alimentar o golpe do Master, que era baseado na cobertura do FGC, houve Senador, chegou a apresentar proposta ao senado para elevar o Fundo Garantidor de Crédito de 250 mil para 1 milhão de reais, o que seria uma forma de alavancar os negócios do Banco Master. Tudo adredemente projetado para cobrir o rombo, que no seu somatório vai próximo dos 60 bilhões. Este é o maior rombo já praticado no Sistema Financeiro Brasileiro.

Através dos Fundos de Pensão, que também foram envolvidos, não é fácil prever quantos investidores pessoas físicas, foram atingidas.

Também, comenta-se que houve Fundo de Pensão que aplicou recursos nos Fundos do Master por influência dos políticos.

Houve Ministro que viajou com a esposa para um Estado fora de Brasília em vôo pertencente ao Vorcaro. Se tudo que tem sido dito sobre as proezas deste cidadão, conclui-se, que se trata de homem perigoso e maquiavélico, que a tudo compra com o poder do dinheiro e absolutamente sem escrúpulos.

Até na prisão o Sr. Vorcaro teve o benefício de não ter o cabelo raspado à zero, mas, apenas rebaixado.

Depois de preso o Sr. Vorcaro, substituiu seus advogados, contratando outra banca e tomou a decisão de fazer uma delação. O assunto está tramitando no poder judiciário e o Sr. Vorcaro, possivelmente reunindo provas para dar validade à sua delação.

A dúvida é se ele nomina todos os envolvidos e qual será o tamanho da sua pena e dos seus comparsas. Um já pagou com a própria vida, sob a alegativa de suicídio com uma camisa de malha.

(*) Economista, professor aposentado da UFC e membro da Academia Cearense de Economia.

Fonte: O Povo, de 13/05/26. Opinião. p.19.


segunda-feira, 1 de junho de 2026

NOVO PNE — a renovação do esperançar

Por Cândido B.C. Neto (*)

Durante solenidade no Palácio do Planalto, neste dia 14 de abril, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou o novo Plano Nacional da Educação (PNE), Lei N° 15.388, com a presença de inúmeras autoridades políticas e educacionais do país. Essa política pública visa dar continuidade ao planejamento e estratégias para a educação brasileira nos próximos dez anos, 2026-2036, com base constitucional.

O novo PNE traz muitas evoluções a começar pelos seus 19 objetivos, 73 metas e 372 estratégias, com diretrizes claras e compromisso político com a aprendizagem, a inclusão e a equidade. Passa pela educação superior, direta ou indiretamente, diversos objetivos/metas e estratégias do PNE. O Ceará, conforme determina o cronograma, instituiu a Comissão Estadual para elaboração do seu Plano Estadual de Educação - PEE, de acordo com a política educacional estabelecida na Constituição Federal, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDB, contemplando, desta também uma articulação direta com o Sistema Nacional de Educação (SNE).

As Instituições de Educação Superior (IES) com os gestores educacionais deste país assumem a responsabilidades pelos 0bjetivos 14 - Acesso, Permanência e Conclusão na Graduação com 4 (quatro) Metas e 18 Estratégias, o 15 - Qualidade da Graduação com 4 (quatro) Metas e 16 Estratégias e o 16 - Pós-graduação Stricto Sensu com 1 Meta e 14 Estratégias. Entre as propostas, as ações visam ampliar o investimento público em educação. Vale ressaltar que o PEE está sendo elaborado em consonância com o PNE, levando em conta as características específicas dos objetivos, metas e preservando as estratégias e demandas estaduais que deverão ser cumpridas no prazo definido.

O novo modelo combina metas ambiciosas com instrumentos concretos e complementares e necessários para a educação brasileira no novo PNE 2026-2036. Neste cenário, o humanismo, em seu sentido amplo, deverá estar presente em todos os objetivos, metas e estratégias como pauta permanente grandes debates educacionais.

(*) Professor da Uece e coordenador da Educação Superior da Secitece.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 24/04/26. Opinião. p.16.


quinta-feira, 7 de maio de 2026

SELECINHA

Por Romeu Duarte Junior (*)

Mesmo não chegando a ser nem de longe um Sérgio Redes (também conhecido nos mundos da bola e do livro como Serginho Amizade), meu prezadíssimo amigo, gosto de dar meus pitacos quando o assunto é futebol. Não, hipócrita leitor(a), não falarei da tragédia em curso no futebol cearense, de times em baixa, lisos e abandonados pelos próprios torcedores. Reportar-me-ei a um problema muito maior: a péssima fase da nossa seleção, antes chamada carinhosamente de Canarinho e hoje por mim apelidada de selecinha, pelo péssimo futebol que ela apresenta. Fomos campeões do mundo pela última vez em 2002, já lá se vão 24 anos. De lá para cá, só fracasso e frustração. Lembro-me de que eu parava tudo o que estava fazendo para ver um jogo dela. Hoje prefiro mais ver o Chaves.

Sou do tempo em que um jogador, ao ser convocado para a seleção brasileira, levantava as mãos para o céu e agradecia a Deus pelo presente. Sua família o saudava como a um herói de guerra. Na convocação, o sorriso aberto, o peito estufado de orgulho, a postura de guerreiro. Nas copas a que assisti e que o Brasil ganhou (a primeira em 1970), os técnicos eram praticamente entregadores de camisas aos jogadores. Ora, como ensinar o esporte bretão a um Pelé, a um Tostão, a um Gérson, a um Carlos Alberto, a um Rivelino? Os caras resolviam as coisas no campo com a qualidade, a matreirice e o talento que tinham de sobra. Presentemente, parece-me que os nossos atletas veem qualquer jogo da seleção como uma partida a mais, a frio, sem tesão. Nelson Rodrigues vomitaria.

Senão, vejamos: no último prélio com a França, quando perdemos por 2 a 1, com a seleção gaulesa com um a menos, viu-se uma equipe com uma defesa fraca, um meio de campo sem qualquer criatividade e um ataque comandado por um jogador mais interessado em denunciar atos de racismo contra si (no que está certo) do que jogar futebol. O desempenho que os nossos players exibem nos seus clubes da Europa está muito distante daquele que apresentam na seleção. Quando são chamados de "jogadores de time" ficam bravos, vociferam, brigam. Mas, infelizmente, é o que acontece. Salvo uma ou duas exceções de praxe (que só confirmam a regra), são apenas atletas bonzinhos, daqueles que costumam tirar a canela de jogadas mais duras. Assim não passaremos da fase de grupos.

O morcego que mora no meu escritório, pendurado no varal da área de serviço, leu meus pensamentos e veio de lá com uma provocação: "O Brasil só ganha essa Copa se o Neymar for convocado". "Só se for a Copa de mau-caratismo, trambicagem e jogador mascarado", retruquei. Ele deu de ombros, bateu as asas e saiu voando por aí. "Ainda mais essa, aguentar praga de morcego", disse de mim para comigo. Saio do estúdio para tomar um ar sob a sombra do jasmim-manga do meu jardim, quando ouço a conversa de dois sujeitos: "O Brasil não vai ganhar essa Copa porque o treinador é italiano". Febeapá puro, o que tem a ver o traseiro com as calças? O que falta, na verdade, é futebol bem jogado, com raça, malícia e destreza, como alguém faminto que avança num prato de comida.

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 30/03/26. Vida & Arte. p.2.


quarta-feira, 6 de maio de 2026

PROPAGANDA DE GOVERNO VS. ELEITORAL

Por Pedro Jorge Ramos Vianna (*)

Tenho assistido na TV a uma série de textos publicitários do Governo do Estado do Ceará, sob o slogan "O governo não para". São vídeos tratando de várias situações, com vários participantes cada um, repetidos várias vezes durante o dia e até nos horários ditos nobres. Fico me perguntando, dado que estamos em ano eleitoral se isso não seria uma propaganda sub-reptícia de cunho eleitoreiro.

Para tirar minha dúvida, fui pesquisar na Constituição Federal do Brasil. Não existe verbete sobre o tema. O que existe é a Lei nº 9.504, de 30/09/1997. Mas nada que diga respeito aos tipos de propaganda do setor público.

Porém a literatura sobre o assunto define quatro (alguns autores descrevem três) tipos de propaganda, quais são: a propaganda interpartidária; a propaganda partidária, a eleitoral, e a institucional. Pelo que pesquisei as mais discutidas são as três últimas.

Antes de discutir por que vejo as atuais propagandas do governo do Ceará como propaganda eleitoral sub-reptícia, talvez seja importante definir o conceito básico envolvido no verbete "propaganda".

Este verbete, de acordo com o Dicionário Koogan Larousse, de Antônio Houaiss, significa "ação ou efeito de propagar ou difundir ideias, princípios, teorias etc./vulgarização/promoção."

Assim, o uso da frase "O governo não para", repetido às dezenas de vezes todos os dias em rede de televisão não está fazendo a promoção dos bens públicos oferecidos, pois estes não precisam de promoção, mas, sim, do governo (leia-se, governador). No ano eleitoral, isso é propaganda eleitoral!

Não nego que o governo pode (e deve) mostrar ao povo o que está fazendo, através de informes oficiais, digamos uma vez por mês, mostrando os dados fundamentais dessas obras, como, por exemplo: o tamanho; o que foi feito de novo; sua localização; o quanto foi gasto; o benefício que trará para a população beneficiada.

Isso não seria promoção do governador, mas, uma satisfação à população sobre o que o governo está fazendo.

Na linguagem comum, quando se faz uma "promoção" é por que se está querendo "vender" algo. No presente caso, o objeto da venda é a imagem do governador, um homem que "não para". Mas, como as outras "mercadorias"(os outros candidatos), podem ser "promovidas"? Dentro deste contexto não há como. Por que, então, permitir que isso aconteça? Por que a lei não trata desse assunto?

Para os políticos "da situação", isso é muito bom. E os políticos "da oposição", por que não se posicionam? Porque eles esperam um dia ser "da situação".

O que mais dizer?

Termino este artigo com as seguintes sentenças que, estou convicto, dizem muito sobre a nossa população: "O Brasil não tem povo, apenas público. Povo luta por seus direitos, público só assiste de camarote.", de Lima Barreto; "Você tem todo o direito de não gostar de política, mas sua vida terá influência e será governada por aqueles que gostam. Portanto, o castigo dos bons que não fazem política e ser governado pelos maus que a fazem.", de Platão; "Em geral, os homens julgam mais pelos olhos do que pela inteligência, pois todos podem ver, mas poucos entendem o que veem.", de Nicolau Maquiavel; "Que continuemos a nos omitir da política é tudo o que os malfeitores da vida pública mais querem", de Bertoldt Brecht.

(*) Economista e professor titular aposentado da UFC,

Fonte: O Povo, de 5/04/26. Opinião. p.18.

terça-feira, 14 de abril de 2026

CÂNCER COLORRETAL NÃO É INEVITÁVEL

Por Alessandrino Terceiro (*)

Todos os anos, no mês de março, a comunidade médica no Brasil se reúne em uma causa que deveria estar no centro das prioridades da saúde pública: a conscientização e a prevenção do câncer colorretal. A campanha Março Azul acontece com a intenção de alertar, sobretudo, que vivemos um problema de saúde coletiva, diretamente ligado a escolhas de estilo de vida, acesso à saúde e a cultura de prevenção.

Sim, o câncer colorretal pode ser evitado e é uma das formas de câncer que estão mais susceptíveis à prevenção e à cura principalmente quando é detectado em fases iniciais. Exames como colonoscopia permitem identificar pólipos e lesões em fases iniciais e que podem ser removidos antes de se transformarem em câncer, elevando as chances de cura para até 90% dos casos.

Infelizmente, muitos casos só são diagnosticados tardiamente por falta de rastreamento adequado ou por medo ou desconhecimento do paciente sobre a importância dos exames de prevenção ou até pela realidade nos serviços de saúde pública. Um estudo baseado no Registro Hospitalar de Câncer aponta que mais de 60% dos casos são identificados em fases avançadas, o que dificulta o tratamento, tornando-o mais complexo, doloroso e com chances de cura reduzidas.

O problema é preocupante principalmente pelas estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), que mostra que o câncer colorretal figura entre os três tumores mais incidentes no Brasil, com mais de 45 mil novos casos esperados anualmente e cerca de 20 mil mortes por ano por câncer de cólon, reto e ânus. Essa realidade evidencia não apenas a alta incidência, mas a letalidade desta neoplasia, que permanece muitas vezes silenciosa até estágios avançados.

Nesse contexto, a campanha Março Azul assume o papel de chamar a atenção da sociedade, gestores públicos e profissionais de saúde para que se repense a estratégia de prevenção, invista em rastreamento sistemático e amplie o acesso a exames fundamentais, além de conscientizar sobre fatores de risco modificáveis, como obesidade, sedentarismo, alimentação inadequada, tabagismo e consumo excessivo de álcool. Nunca é demais reverberar que a prevenção salva vidas.

(*) Presidente da Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva - Ceará (SOBED-CE)

Fonte: Publicado In: O Povo, de 11/03/26. Opinião. p.14.


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Acordo Mercosul-União Europeia: um anteparo ao protecionismo americano e à concorrência chinesa

Por José Nelson Bessa Maia (*)

Após 26 anos de negociações, o Conselho da União Europeia finalmente aprovou há pouco o Acordo de Parceria Mercosul-União Europeia cuja assinatura ocorrerá em breve. Após aprovação parlamentar pelos membros da Comunidade Europeia e do Mercosul, o Acordo integrará dois dos maiores blocos econômicos do mundo, reunindo cerca de 720 milhões de habitantes, um território de 16,8 milhões de km2 e um PIB conjunto superior a US$ 22 trilhões, sendo 13,4% do total referentes ao Mercosul. Trata-se do maior acordo de livre comércio do mundo, partindo de um intercâmbio bilateral de US$ 130 bilhões em 2024.

Embora celebrado por governos, o acordo ainda enfrenta reações de agricultores europeus e ecologistas, que criticam possíveis repercussões sobre o clima e a suposta concorrência desleal em produtos agrícolas. A implantação de seus dispositivos será gradual e os efeitos práticos só serão sentidos nos próximos anos. Mesmo assim, em um ambiente internacional assolado pelo protecionismo americano e sua truculência diplomática, esse Acordo indica que o multilateralismo ainda não acabou e que os países e blocos de nações podem negociar de forma civilizada seus interesses na busca de remover entraves ao comércio internacional e facilitar transações econômicas entre países.

O recém-anunciado acordo tem imperfeições e deixa de contemplar adequadamente as vantagens comparativas e competitivas associadas aos recursos naturais da região sul-americana. Mesmo assim, é o acordo possível nas circunstâncias que se impuseram ao longo de um quarto de século de negociação. Sua eventual aprovação final pelos parlamentos será uma vitória estratégica para ambas os lados. Os principais ganhos, contudo, não residem apenas nos dispositivos comerciais do acordo, mas especialmente em seus impactos positivos esperados sobre o ambiente econômico, os fluxos interblocos de investimento estrangeiro e o estreitamento das relações produtivas entre Mercosul e União Europeia.

Acuada pela suposta e temida ameaça da Rússia na frente oriental, a agressiva política comercial dos EUA e pela forte concorrência dos produtos chineses em seus mercados, as lideranças da União Europeia não tiveram senão a opção de buscar agilizar os trâmites para a aprovação do acordo e mostrar aos seus dois grandes concorrentes que a União Europeia tem condições de ganhar novos mercados na América do Sul e reduzir sua crônica dependência dos parceiros americanos e chineses. Uma forma de atestar sua capacidade competitiva e a relevância e atratividade de suas economias em um mundo imerso na desordem e crescentemente fragmentado, mas ainda assim marcado por cadeias globais de valor integradas e sujeito a intensas transformações tecnológicas e geopolíticas.

(*) Ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.

Fonte: O Povo, de 18/01/26. Opinião. p.22.


sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Formação médica no Brasil preocupa ministérios e entidades

Por Ana Ruth Ramires, jornalista de O Povo.

Com resultado do Enamed, entidades reiteram riscos de cursos com desempenho insuficiente. Entidades particulares contestam exame.

O desempenho insatisfatório de parcela significativa dos cursos de medicina no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) 2025, especialmente em instituições privadas, preocupa Governo Federal e entidades médicas. Cerca de 30% das 351 instituições que participaram obtiveram conceitos 1 e 2, considerado insatisfatório, e passarão por medidas de supervisão do Ministério da Educação (MEC).

Os resultados foram divulgados na segunda-feira passada, 19. "Há uma grande preocupação nos ministérios da Educação e da Saúde em assegurar que os cursos oferecidos aos alunos brasileiros possam garantir a qualidade da formação médica nesse País, até porque são profissionais que cuidam da vida das pessoas", disse Camilo Santana, ministro da Educação.

Marcelo Gurgel, professor titular e decano do curso de Medicina da Universidade Estadual do Ceará (Uece), argumenta que o aumento de escolas médicas no País, que supera numericamente nações muito mais populosas, compromete a formação acadêmica e exige mecanismos de avaliação mais rigorosos.

Para ele, os resultados do Enamed são reflexo de uma expansão desordenada e de um modelo de "formação em massa". Para solucionar essas deficiências, ele propõe a adoção de um modelo de avaliação por etapas, que permitiria identificar falhas específicas em diferentes ciclos da graduação.

"A formação básica de disciplina básica, de anatomia, de fisiologia tá muito boa, mas o ciclo clínico tá ruim. Aí serve para orientar o que a instituição precisa melhorar", exemplifica.

Ele acredita que, a despeito de sanções imediatas, o mercado servirá de balizador, pois as pessoas evitarão se matricular em cursos com notas mais baixas, o que pode levar ao esgotamento e fechamento natural de cursos deficientes.

Diante do resultado divulgado na segunda, o Conselho Federal de Medicina (CFM) quer impedir que os estudantes do último semestre de Medicina que não atingirem a nota mínima no exame recebam o registro profissional.

Segundo Estevam Rivello Alves, diretor de Comunicação do CFM, "o Enamed é um extrato daquilo que as entidades médicas já vêm falando há cerca de duas décadas". O médico elogia a realização do Enamed, mas considera que o exame precisa ser melhor implementado.

"Essa é uma avaliação que foi feita só de forma objetiva, uma prova de múltipla escolha, com 100 questões, é necessário que se tenha uma avaliação em estações práticas, que é o que é feito também no mundo, né, pra que a gente tenha a noção exata se esse estudante tá bem avaliado", pormenoriza.

O CFM também defende a criação de um exame de proficiência médica para regular a atuação na área (PL 2.294/2024). "No Senado Federal, nós já fomos aprovados, esse projeto já foi aprovado na Comissão de Educação, está na Comissão de Assuntos Sociais em última votação e em terminando ela pode ser remetida já diretamente para a Câmara", diz sobre o PL.

Nessa quinta-feira, 22, o ministro da Saúde Alexandre Padilha, contudo, afirmou que o Governo Federal vai propor ao Congresso Nacional que o Enamed se torne também um exame de proficiência.

"Primeiro porque ele [o exame] vai ser feito no segundo, no quarto e no sexto ano (de faculdade), ou seja, ele avalia o progresso. E ele é feito pelo Ministério da Educação, que tem como interesse principal a formação médica, e não por outra entidade que possa ter qualquer outro interesse com relação a isso", declarou o ministro em coletiva de imprensa no Rio de Janeiro.

Padilha esclareceu que a proposta só pode entrar em vigor após uma mudança na legislação brasileira, portanto, valeria para edições futuras do Enamed e não para a edição de 2025. (com Agência Brasil)

Entidades criticam metodologia e "falta de transparência"

De outro lado, associações de ensino como a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes) e a Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) criticam a metodologia do exame, alegando falta de transparência e critérios definidos tardiamente.

Questionada sobre os resultados das universidades privadas no Enamed, a Anup responde ao O POVO que a avaliação da formação médica "não pode se apoiar em um único dado ou em um único instrumento, sobretudo quando esse instrumento ainda está em processo de consolidação". A entidade se preocupa com "a forma como esses dados foram produzidos, tratados e comunicados".

A Anup cita "inconsistências nos dados utilizados, critérios divulgados apenas após a aplicação da prova, problemas de representatividade da amostra - incluindo a participação de estudantes do 11º período - e a utilização de um exame inaugural para sanções regulatórias".

Para se consolidar como ferramenta essencial de avaliação, conforme a entidade, é necessária "definição prévia de critérios, um regime de transição adequado, integração com os demais instrumentos do sistema regulatório e engajamento efetivo dos estudantes".

A Abmes publicou nota afirmando que o Enamed "não demonstrou que a saúde da população brasileira esteja em risco, tampouco que a criação de uma prova de proficiência para egressos seja a solução para o aprimoramento da formação médica no País".

Associação cita que "os estudantes realizaram a prova sem o devido comprometimento, uma vez que não foram previamente informados de que o exame serviria como parâmetro de proficiência, nem de que haveria um corte mínimo de 60 pontos".

Ainda em nota pública, a entidade critica o que chama de "interesses corporativistas" das entidades médicas e reforça que "as instituições privadas mantêm firme compromisso com a qualidade da formação médica e apoiaram a criação do Enamed como instrumento de avaliação educacional".

"No entanto, a primeira edição do exame foi marcada por inconsistências (erros), ausência de critérios previamente definidos, falta de diálogo com a comunidade acadêmica e descumprimento do cronograma, o que comprometeu a previsibilidade, a transparência e a segurança jurídica do processo", acrescenta.

81% dos resultados insatisfatórios são de instituições privadas

Conforme o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) 2025, dos 107 cursos com resultados insatisfatórios, 81% (87) são de instituições privadas. Quase metade (49,4%) dos cursos privados registraram notas 1 e 2, resultado considerado insuficiente e passível de sanções.

César Eduardo Fernandes, presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), por meio de comunicado, defende que os dados do Exame "evidenciam uma forte assimetria na formação médica no Brasil". "Universidades públicas federais e estaduais concentram mais de 84% de seus cursos nas faixas de excelência, enquanto os piores resultados ocorrem principalmente em instituições municipais e privadas com fins lucrativos", analisa.

Ele cita os riscos da expansão desordenada de escolas médicas. Segundo o presidente da AMB, muitas vezes, as instituições são abertas "sem infraestrutura adequada, corpo docente qualificado ou condições mínimas para a formação segura de novos médicos, nem residência médica".

"Não se trata de formar mais médicos, mas de formar bons médicos, preparados para atuar no SUS e para responder às necessidades da população brasileira", acrescenta César Eduardo Fernandes.

Conforme Marcelo Gurgel, professor titular e decano do curso de Medicina da Universidade Estadual do Ceará (Uece), muitas faculdades privadas não possuem hospitais próprios e utilizam a rede pública para o internato. Ele cita também a oferta de vagas para residência.

"A melhor formação de um médico é na residência. Nós tínhamos vaga para residência médica que alcançava 70% dentro dos egressos. De cada 10 formados, sete deles iam para a residência médica. E, atualmente, com a grande oferta de vagas em Medicina, nós vamos ter menos de 30% de vagas em residência para os que estão se formando", relaciona.

Ele cita também que muitas instituições aumentam a oferta de vagas sem ampliar a estrutura proporcionalmente. "Quando o curso é reconhecido e consegue um upgrade para Centro Universitário ou para Universidade, ela tem autonomia para expandir as vagas sem dar satisfação ao MEC. Então, ela tem uma autorização inicial para receber 50 alunos e quando menos espera tá com 200 alunos", afirma o médico Marcelo Gurgel.

Conforme o Ministério da Educação, os cursos que obtiveram conceito Enade nas faixas 1 e 2 — menos de 60% dos seus estudantes apresentaram desempenho considerado adequado no Enamed — e passarão por ações de supervisão da Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior (Seres) do MEC.

Medidas incluem a suspensão total de ingresso de novos alunos; redução do número de vagas autorizadas; restrição de acesso a programas federais, como o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies).

Sobre as medidas aplicadas aos cursos que não atingiram o nível mínimo de aprendizagem, o ministro Camilo Santana destacou que o objetivo "não é aplicar sanções ou penalidades intencionais a qualquer instituição, mas assegurar a formação de médicos de qualidade no Brasil".

Os 99 cursos que não obtiveram resultado satisfatório, terão 30 dias para apresentar a defesa ao MEC após a publicação dos resultados no Diário Oficial da União, antes que as sanções entrem em vigor. Após o prazo, as medidas valerão até a próxima aplicação do Enamed, prevista para outubro de 2026.

Fonte: O Povo, 23/01/2026. Reportagem. p.4-5.


 

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