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terça-feira, 27 de outubro de 2026

Cariri ultrapassa 60 mil empreendimentos ativos na economia

Por Rita Fabiana Arrais (*)

A Região do Cariri consolida-se como um dos principais pólos empresariais do interior do Ceará. Com um grande número de empresas ativas e forte expansão na abertura de novos negócios, Juazeiro do Norte ocupa posição central nesse processo e lidera a região na atração de novos empreendimentos, reforçando seu protagonismo no comércio, nos serviços e nos investimentos privados.

Dados do Observatório Sebrae Cariri (2026) revelam que a Região alcançou um expressivo número de 60.275 estabelecimentos ativos no final do primeiro semestre deste ano.

A cidade de Juazeiro do Norte é a líder nos tópicos de geração de emprego e de quantidade de negócios (27.900 estabelecimentos ativos), representando, isoladamente, 46,5% da totalidade regional, enquanto a cidade do Crato atinge o melhor quantitativo de estabelecimentos ativos com 7.125.

Convém salientar - dados da economia juazeirense - dessa totalidade 30,9% direciona-se ao comércio varejista que contabiliza 18.936 estabelecimentos ativos - e tal volume decorre das modificações a longo prazo que ocorreram neste setor - que não atende apenas ao mercado local, mas funciona como uma atividade econômica de alcance regional, capaz de atrair investimentos nos mais distintos setores comerciais.

O setor varejista juazeirense possui características bem definidas como: centralidade regional, grande fluxo de consumidores, potencialidade elevada do mercado, oferta de mão -de- obra qualificada e infraestrutura adequada.

Esse cenário permite ao investidor realizar análises concretas de viabilidade comercial, volume de capital a ser investido e a projeção de faturamento mensal/anual. Logo, impulsiona a credibilidade econômica da Região.

Fatores economicamente positivos podem ser percebidos através do avanço do setor varejista, como a concorrência, a inovação e o aumento da oferta de produtos e serviços. Por outro lado, é preciso a solidez da demanda dos consumidores, a constância do acesso ao crédito, uma infraestrutura e ambiente econômico desenvolvidos. Merece um ponto de reflexão perceber a necessidade do setor do varejo mais integrado ao restante do Cariri, proporcionando uma geração e distribuição de riqueza regional.

Isso mostra- se como um desafio para a Região Metropolitana do Cariri, já que envolve a descentralização e a conectividade urbana a uma infraestrutura logística que engloba mercados tradicionais, como as cidades de Crato e Barbalha, a um fluxo de consumo integrado ao polo diversificado como Juazeiro do Norte.

(*) Economista.

Fonte: O Povo, de 25/09/26. Opinião. p.15.


segunda-feira, 26 de outubro de 2026

UMA NAÇÃO DE MENDIGOS?

Por Pedro Jorge Ramos Vianna (*)

Uma pergunta que está martelando minha cabeça é: nós, brasileiros, principalmente os presidentes e os congressistas, estamos transformando o Brasil em um país de mendigos?

Esta preocupação nasceu da consulta que fiz sobre a situação econômica da população brasileira, dados a partir de 2020, em diversas publicações (Ver www.gov.br; Informes do PT; Portal do IFSC; CNN; Agência Brasil).

A seguir, mostro as estatísticas encontradas:

• 49,7 milhões de pessoas, em 8/2026, no Bolsa Família;

• 3,2 milhões de famílias no Auxílio Gás (Gás do Povo), 2023;

• 16,6 milhões de pessoas sem pagar energia (novo), em 4/2026;

• 2,6 milhões de pessoas no Fies (dívida de R$ 115 bilhões com 80% de inadimplência em alguns Estados), em 6/2025;

• 3,85 milhões de estudantes no programa Pé de Meia, 2024;

• 10 milhões no Bolsa Escola (estamos nos últimos lugares do índice Pisa, um ranking mundial de aprendizado na educação básica e temos 30% dos nossos adultos alfabetizados classificados como analfabetos funcionais);

• 2,4 milhões no Pronaf (programa para agricultura familiar) em 2026, aproximadamente, 30% de inadimplência;

• 1,6 milhão de famílias no Programa Minha Casa Minha Vida (2019-2022);

• 83,7 milhões de pessoas "negativadas", em 6/2026;

• 38,8 milhões de trabalhadores informais (7/2026);

• 7,5 milhões de MEIs são considerados precários, que não contribuem para o sistema previdenciário.;

• 42,3 milhões de pessoas penduradas na Previdência (em 7/2026);

• 12 milhões de funcionários públicos;

• 32% dos CNPJs do país estão "negativados" (R$ 170 bilhões de dívida);

Para completar o retrato do Brasil, vejamos a quanta monta a população brasileira, segundo o último Censo:

i. População Total = 203.080.756

ii. População de 15 a 59 anos = 130,7 milhões

iii. PEA = 109,1 milhões

Embora as estatísticas não permitam fazer o cálculo exato de qual o percentual total de pessoas que recebem doações do Governo, pois algumas podem receber mais de um benefício, pode-se inferir alguma estatística com alguns cálculos aproximados.

Por exemplo, vamos imaginar que alguns programas com nomes diferentes beneficiem mais de uma pessoa (caso de estudantes e que a família recebe o Bolsa Família), estes não entraram duas ou mais vezes em nossas estimativas. Mas existem programas, como o Fies ou o Pronaf, que não beneficiam pessoas, também, nos outros programas sociais.

Trabalhando com alguns deles, cheguei à estimativa de que 58,5 milhões de pessoas estão recebendo algum auxílio do Governo. Aproximadamente, 53,6% de nossa PEA. Se dividirmos pela população total, teremos um percentual de 28%. Percentuais bastante consideráveis.

Esse é o retrato do Brasil na atualidade. Estamos beneficiando a população de duas Argentinas.

(*) Economista e professor titular aposentado da UFC,

Fonte: O Povo, de 20/09/26. Opinião. p.22.


quarta-feira, 21 de outubro de 2026

A importância geopolítica e os desafios do BRICS

Por José Nelson Bessa Maia (*)

A 18ª Cúpula do Brics foi realizada em Nova Délhi, Índia, nos dias 12 e 13 de setembro de 2026. O encontro ocorreu sob a presidência rotativa da Índia. A agenda abordou temas como cooperação econômica e financeira, inovação, sustentabilidade, governança global e o fortalecimento da cooperação entre os países do Brics e do Sul Global.

Criado em 2009, o Brics consolidou-se como um dos mais importantes espaços diplomáticos de articulação entre países do chamado Sul Global. Originalmente formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, o grupo ampliou progressivamente sua influência internacional, tornando-se uma expressão relevante da busca por uma ordem mundial multipolar.

Sua principal importância geopolítica está na possibilidade de ampliar a representação dos países do Sul Global nas decisões internacionais. Durante décadas, instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e outros organismos multilaterais refletiram predominantemente o peso econômico e político das potências ocidentais.

O Brics procura criar mecanismos que permitam maior participação das economias emergentes na definição das regras da governança global.

Outro aspecto importante é a dimensão econômica do grupo. Os 11 países do BRICS reúnem uma parcela expressiva da população mundial, dos recursos naturais, da produção industrial e do crescimento econômico global. O PIB conjunto de US$ 70 trilhões (no conceito PPP) supera o PIB dos membros do G-7.

A criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) representa uma tentativa concreta de ampliar as fontes de financiamento para projetos de infraestrutura e desenvolvimento, reduzindo a dependência das instituições financeiras ocidentais.

O Brics enfrenta desafios. Seus membros têm diferentes sistemas políticos, interesses nacionais, estruturas econômicas e prioridades estratégicas. Há rivalidades e disputas geopolíticas regionais entre alguns de seus integrantes, o que dificulta o consenso.

Outro desafio é transformar o peso econômico do grupo em maior capacidade efetiva de coordenação geopolítica. A ampliação do número de membros aumenta a representatividade do Brics, mas também torna mais complexa a definição de acordos e prioridades.

A Declaração da 18ª Cúpula do Brics defendeu o multilateralismo, o crescimento econômico inclusivo e o fortalecimento do Sul Global e o consenso em torno da necessidade de "máxima contenção" nos conflitos no Oriente Médio.

Na ocasião, o Brasil colocou o seu sistema de pagamentos (o PIX), como um modelo tecnológico para discussões sobre a interligação de pagamentos e a redução da dependência do dólar, além de reiterar pleitos históricos, como a reforma do Conselho de Segurança da ONU, do FMI e da OMC. 

(*) Ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.

Fonte: O Povo, de 18/09/26. Opinião. p.19.


segunda-feira, 19 de outubro de 2026

A campanha eleitoral das ruas causa impacto na economia caririense

Por Rita Fabiana Arrais (*)

De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), há no Ceará 6.998.494 eleitoras e eleitores que estão aptas (os) a votar no pleito de 2026. Dessa totalidade a região do Cariri conta com mais de 800 mil eleitores aptos(as), e o Crajubar (Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha) são mais de 345 mil votantes, conforme dados do Tribunal Regional Eleitoral do Ceará.

É notória a importância da região para os candidatos que objetivam uma ascensão política, por isso a cada eleição o campo político caririense agrupa não somente os postulantes locais, mas é alvo de captação de eleitores por inúmeros candidatos radicados em outras regiões do estado.

Esse período eleitoral atua como um forte catalisador econômico sazonal para as empresas do setor gráfico, visto que as maiores despesas declaradas por candidatos estão relacionadas a publicidade de materiais impressos que no pleito de 2022 ultrapassou os R$ 321 milhões (TSE, 2026).

De acordo com a Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf, baseando-se no fato das eleições de 2026 serem nacionais a expectativa é que haja um aumento de 20% no faturamento das empresas envolvidas na cadeia produtiva.

O período de campanha política mostra a relevância das ruas e seus espaços estratégicos que são, literalmente, disputados no palmo a palmo por cada bandeira e wind banners dos concorrentes. Logo, se houver dúvidas que os meios de comunicação digitais de massa como os Podcasts, e as Mídias Sociais (Instagram, Facebook e TikTok) com engajamentos e likes reduziriam o protagonismo da campanha eleitoral das ruas, isso não ocorreu para o bem da economia local.

A Região Metropolitana do Cariri (RMC), em especial a cidade de Juazeiro do Norte possui um setor gráfico de referência no Nordeste, atuando de maneira sustentável, com portfólio direcionado aos produtos utilizados em campanhas de ruas como os tradicionais "santinhos", folhetos, preguinhas (adesivos), adesivos veiculares, bandeiras, wind banners e fôlderes.

Por se tratar de um setor competitivo em que o preço de bens e serviços são semelhantes, o setor busca o diferencial para obter um faturamento desejável a curto prazo. Percebe-se que na RMC os empreendedores do setor planejaram atender a demanda com alguns meses de antecedência, seguindo orientações que a experiência - na prestação de serviços - em eleições anteriores ajudaram a desenvolver, tais como: adiantar a reposição do estoque de matéria-prima projetando a demanda, negociação de preços e formas de pagamento, contratação de mão-de-obra especializada, manutenção preventiva do maquinário gráfico e investimento contínuo em tecnologia. (Pesquisa in loco).

Preparar-se para as eleições não é apenas obrigação dos candidatos!

(*) Economista.

Fonte: O Povo, de 28/08/26. Opinião. p.15.


sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Não vou assistir ao país crescer

Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

Não me refiro apenas aos números — ao PIB absoluto, à renda per capita ou a qualquer indicador que nos ofereça a ilusão de progresso. Falo de um crescimento mais profundo: aquele que se revela no bom senso, na responsabilidade social, na qualidade das escolhas, no respeito ao outro e na dignidade do trabalho.

É nesse terreno que continuamos pobres. Pobres nas atitudes e na compreensão de que nenhuma sociedade se sustenta quando o interesse individual se torna a única medida das coisas. Alguns dizem que nos faltam tempo e maturidade. Outros atribuem nossas fragilidades à herança colonial, a uma cultura dilacerada ou à ausência de identidade comum. Somos, afinal, uma mistura extraordinária e contraditória de povos, raças, crenças e costumes.

Cresci acreditando no país do futuro. Acreditava no esforço, no trabalho e na força do exemplo. Imaginava que a soma de condutas dignas construiria, pouco a pouco, um mundo melhor. Mas o tempo passou depressa. E a tecnologia, que nos libertou das barreiras de acesso à informação, também nos aprisionou em novas formas de manipulação.

Os algoritmos não ampliam necessariamente nossos horizontes; amiúde apenas repetem nossas preferências, confirmam preconceitos e alimentam certezas. Cercados por versões de nós mesmos, tornamo-nos cada vez menos capazes de mudar. É um paradoxo inquietante: nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento e talvez nunca tenhamos sido tão resistentes à dúvida.

O que mais me preocupa, porém, é a assimilação dos maus hábitos e sua transformação em herança. Comportamentos repetidos deixam de causar estranheza, tornam-se aceitáveis e são transmitidos às novas gerações como se fossem naturais. A desonestidade vira esperteza; a grosseria, sinceridade; a irresponsabilidade, liberdade; a indiferença, mecanismo de sobrevivência.

Quando perdemos o apego à dúvida, ao questionamento, à análise crítica, à leitura e ao conhecimento, corremos o risco de formar uma sociedade de autômatos: pessoas que repetem palavras de ordem, escolhem sem refletir e obedecem sem compreender. Talvez isso explique a escassez de verdadeiros líderes. Eles não nascem do ruído, da popularidade instantânea ou da submissão às multidões. Nascem da capacidade crítica, da coragem de sustentar convicções legítimas e da disposição de se doar por algo maior do que si mesmos.

Ainda existe uma escolha. Podemos interromper a reprodução dos vícios, recuperar o valor do exemplo e reaprender a pensar. Não há crescimento verdadeiro sem responsabilidade, conhecimento e respeito. Caso contrário, restará o salve-se quem puder: uma sociedade permissiva com os maus hábitos, indulgente com escolhas imprudentes e incapaz de construir um destino comum. Nesse ritmo, talvez eu veja o país enriquecer. Crescer, temo que não.

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 10/09/2026. Opinião. p.15.


quinta-feira, 15 de outubro de 2026

ESMOLA versus VÍCIO

Por Pedro Jorge Ramos Vianna (*)

Não sou contra a ação social do Governo. Ou seja, sou a favor das ações nas áreas de justiça e segurança, os chamados "bens públicos" e das ações nas áreas de saúde e educação públicas, os chamados "bens meritórios". Entretanto, advogo o que era defendido pelo Barão Mauá, em 1878:

O melhor programa econômico do governo é não atrapalhar aqueles que produzem, investem, poupam, empregam, trabalham e consomem.

Infelizmente, esta não é a prática dos últimos governos brasileiros. Não só a burocracia, a desonestidade, a política econômica sem rumo e o excesso de "esmolas" à população, distribuído quase que aleatoriamente, são óbices ao desenvolvimento.

E o que isso tem a ver com a frase do Barão de Mauá? Os programas de esmolas do Governo estão criando uma geração brasileira de viciados em não trabalhar.

Há muitas evidências sobre pessoas que recebem o Bolsa Família que só querem emprego com a não assinatura da Carteira de Trabalho. E isso tem atrapalhado o emprego e, portanto, a produção, porque os empresários, por força de lei, só podem ter empregados com carteira assinada.

Na realidade, isso já era previsto em uma canção do Luiz Gonzaga e Zé Dantas, de 1953, que dizia: "Mas, doutor, uma esmola para um homem que é são ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão".

Aqui, também, vale relembrar uma frase do filósofo e político romano Marco Túlio Cícero, escrita em 55, a.C.: "As pessoas devem novamente aprender a trabalhar. Em vez de viver às custas do Estado".

Outra frase, desta feita de Margareth Tatcher, merece reflexão: "Para cada pessoa que recebe sem trabalhar, uma outra deve trabalhar sem receber".

É esta a situação atual do emprego no Brasil.

Por que, no lugar do "Bolsa Família", não se cria o "Bolsa Emprego"? O que seria essa bolsa?

O "Bolsa Emprego" teria a seguinte característica: toda pessoa que fosse do Bolsa Família poderia se empregar recebendo o salário mínimo mais um percentual do que recebia pelo Bolsa Família. O salário seria pago pelo empregador e a outra parte, pelo Governo.

Como isso poderia acontecer? Todas as pessoas do "Bolsa Família" seriam cadastradas no "Bolsa Emprego", e haveria a oferta de emprego para essas pessoas.

Quem não pudesse, comprovadamente, trabalhar, seja por questão de saúde, seja por incapacidade física, continuaria no "Bolsa Família".

Para aquelas mulheres que não teriam com quem deixar seus filhos, os empregadores ofereceriam creches para cumprirem essa função. Mas quem pudesse trabalhar e não se empregasse perderia tal Bolsa.

Os salários de lei seriam pagos pelo empregador. As condições sociais fariam o resto.

É uma proposta. Cabe discussão.

(*) Economista e professor titular aposentado da UFC,

Fonte: O Povo, de 23/08/26. Opinião. p.18.


quarta-feira, 14 de outubro de 2026

O CEARÁ E A DINÂMICA DA TRANSFORMAÇÃO

Por José Nelson Bessa Maia (*)

O desenvolvimento consiste em mudança estrutural contínua em sistemas econômicos e sociais. Ele ocorre por meio da superação de desequilíbrios e integração entre inovação tecnológica, adaptação institucional e melhoria na qualidade de vida, exigindo ajustes coordenados entre Estado, mercado e sociedade. Uma combinação difícil de ocorrer conforme destaca a literatura econômica.

Dentre os fatores que geram esse processo virtuoso estão: i) a migração de atividades de baixa produtividade (como agricultura de subsistência e terciário informal) para setores de maior valor agregado (indústria e serviços avançados); ii) a acumulação de capital, com investimentos em infraestrutura física, máquinas e novas tecnologias produtivas e iii) a inovação, que reflete a capacidade local de gerar e absorver conhecimento para elevar a eficiência geral da economia.

Crucial para o desenvolvimento é a capacitação pela elevação dos níveis de educação, saúde e qualificação profissional da força de trabalho, além da melhoria na governança, dada pelo aprimoramento de leis, regulações e instituições que garantam segurança jurídica e transparência. De resto, mas não menos importante, a redistribuição de renda que reduz disparidades, reforça a coesão social, amplia o mercado interno e gera estabilidade política.

Em que pesem as notórias restrições ainda existentes após 40 anos de reformas modernizantes, no Ceará atual respira-se transição acelerada e protagonismo regional. O estado registra crescimento econômico acima da média nacional, impulsionado pela consolidação de uma matriz energética limpa, atração de investimentos globais de alta tecnologia e por descentralização econômica voltada para o interior, inclusive no Sertão Central.

Apesar do ciclo virtuoso atual no Ceará, a dinâmica da transformação enfrenta barreiras críticas, como o clima semiárido, que exige gestão hídrica de precisão para evitar que estiagens travem o avanço da agropecuária, da industrialização e do abastecimento urbano, e a persistente desigualdade, que impede que a riqueza gerada no Complexo do Pecém, na Região Metropolitana de Fortaleza e nos hubs tecnológicos em formação, resulte em rápida redução da pobreza e em melhorias diretas na segurança pública e na renda de toda a população.

O desafio atual que o Ceará enfrenta em sua dinâmica de transformação, além das limitações de unidade subnacional num país de baixo crescimento, é superar a armadilha do crescimento sem mudança de patamar, o que exige converter bons indicadores fiscais, educacionais e de energia renovável em alteração profunda na renda média e no bem-estar da população, com aumento de sua participação para muito além dos parcos 2,1% na economia brasileira. Um desafio que precisa ser de vez enfrentado e superado!

(*) Ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.

Fonte: O Povo, de 22/08/26. Opinião. p.15.


terça-feira, 13 de outubro de 2026

Precisamos reposicionar o debate nacional para além do fiscal

Por Alexandre Sobreira Cialdini (*)

A gestão da dívida pública e da política fiscal é essencial para compreender as necessidades de financiamento de um país e avaliar os impactos das decisões governamentais. Impulsionada pela rivalidade geopolítica, a dívida global continua alcançando níveis recordes.

Nesse contexto, formuladores de políticas públicas lutam para gerenciar altos níveis de endividamento em meio a pressões fiscais, custo de empréstimo mais alto, envelhecimento da população e necessidades de refinanciamento.

Sobre o tema, o Instituto de Finanças Internacionais (IIF) publicou o estudo "Reflexões sobre duas décadas de dívida global: Evidências do Monitor de Dívida Global (GDM) do IIF", disponível em: https://www.iif.com/Products/Global-Debt-Monitor. De acordo com o IIF, a dívida global total — incluindo títulos de dívida, empréstimos, moeda e depósitos — ultrapassou US$ 350 trilhões no início de 2026, o equivalente a cerca de 305% do PIB mundial.

No Brasil, o endividamento é relativamente elevado para os padrões de uma economia emergente. Há, contudo, uma característica que reduz sua vulnerabilidade externa: grande parte do problema fiscal é de natureza doméstica.

A dívida interna representa aproximadamente 96,25% do estoque total da Dívida Pública Federal, enquanto a parcela vinculada à moeda estrangeira é relativamente pequena.

Relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI), por exemplo, estima em cerca de 4% do PIB a parcela da dívida bruta vinculada a moedas estrangeiras. Os dados do IIF e do FMI indicam que o Brasil não se encontra diante de uma crise externa clássica.

Temos, sim, um grande problema: a rigidez orçamentária, decorrente do elevado peso das despesas obrigatórias e das vinculações. As despesas obrigatórias representam 92% das despesas primárias, restando apenas 8% para despesas discricionárias.

É justamente esse elevado grau de vinculação que o país precisa rever, sobretudo porque entramos em um ciclo de investimentos no chamado HEAD (da sigla em inglês: saúde, segurança nacional, resiliência climática e autonomia estratégica).

Como essas prioridades deverão permanecer no horizonte por muitos anos, as necessidades de financiamento tendem a assumir caráter cada vez mais estrutural.

Isso significa que a dinâmica da dívida pública vai além do ajuste fiscal de curto prazo. Ela deve integrar também estratégias fiscais, industriais e de segurança de longo prazo.

Esse "financiamento estratégico" já se reflete nos balanços governamentais, com maior participação da dívida pública no universo da dívida global.

Por isso, o debate nacional não pode se limitar à ótica do ajuste fiscal. Temos que pautar a discussão sobre o orçamento e o elevado volume de vinculações, que têm amarrado os gastos e investimentos do país, muitas vezes sem receitas correspondentes e sem uma avaliação adequada das políticas públicas.

(*) Mestre em Economia e doutor em Administração Pública e Secretário de Finanças e Planejamento do Eusébio-Ceará.

Fonte: O Povo, de 20/08/26. Opinião. p.19.


quarta-feira, 23 de setembro de 2026

A ARQUITETURA DO DESCONTO HIPERBÓLICO

Por Alexandre Sobreira Cialdini (*)

Entre receber R$ 1.000 hoje ou R$ 1.200 daqui a um mês, a maioria das pessoas escolherá a primeira opção. O benefício imediato parece ter muito mais valor do que os R$ 200 adicionais no futuro, ainda que não esteja tão distante.

Se a escolha passar a ser entre receber R$ 1.000 daqui a um ano ou R$ 1.200 um mês depois, a lógica se inverte: a maior parte das pessoas prefere esperar um pouco mais para receber a recompensa maior. Afinal, quando a espera já é longa, o intervalo de um mês tende a fazer pouca diferença.

Essas duas situações ilustram o chamado desconto hiperbólico, um viés cognitivo explorado pelos jogos de azar e pelas bets. O valor atribuído aos ganhos futuros cai rapidamente em comparação ao das recompensas imediatas, mas essa queda desacelera à medida que a espera se prolonga.

O conceito de desconto hiperbólico foi formalizado pelo psiquiatra americano George Ainslie, em 1975. Mais tarde, o economista David Laibson adaptou esse modelo para uma versão mais aplicável à economia.

Na prática, o pesquisador Vincent Berthet propõe três ferramentas para reduzir os efeitos do desconto hiperbólico.

A primeira consiste na utilização de "dispositivos de compromisso", como planos automáticos de poupança e metas que evitem decisões impulsivas.

Outra estratégia é o "compromisso prévio", que envolve criar barreiras ao comportamento impulsivo. Um exemplo é o agendamento automático de investimentos regulares.

A terceira ferramenta consiste no uso de lembretes (visuais, escritos ou em conversas) que reforcem decisões de longo prazo.

Nesse contexto, a Secretaria do Planejamento e Gestão do Estado (Seplag-CE) e a Fundação Demócrito Rocha lançaram, em junho deste ano, o Programa de Educação Financeira do Estado do Ceará, cuja primeira iniciativa foi o Curso de Educação Financeira para Cidadania Plena.

O projeto é inovador em âmbito nacional e incorporou esse arcabouço teórico para orientar pessoas e famílias sobre os riscos das bets. O curso alcançou 10.870 participantes, superando a meta inicial de 3 mil.

As inscrições já foram encerradas, mas o Programa de Educação Financeira continuará com uma série de atividades multidimensionais.

Portanto, a análise da interação entre o viés do presente, os instrumentos de comprometimento e o endividamento revela que o autocontrole pode manifestar-se tanto na capacidade de evitar situações tentadoras quanto na habilidade de resistir a elas.

Contudo, por mais eficazes que sejam os mecanismos de autocontrole, as ações de educação financeira devem considerar as diferenças entre os diversos públicos, como servidores públicos, jovens, idosos e outros segmentos.

Além disso, o fortalecimento da literacia financeira e o acesso ao aconselhamento profissional deverão constituir recursos complementares.

(*) Mestre em Economia e doutor em Administração Pública e Secretário de Finanças e Planejamento do Eusébio-Ceará.

Fonte: O Povo, de 6/08/26. Opinião. p.15.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

SETOR DE ATACAREJO IMPULSIONA A ECONOMIA CARIRIENSE

Por Rita Fabiana Arrais (*)

O ano de 2009 representa para a Região Metropolitana do Cariri (RMC) o início de uma nova relação econômica entre os ofertantes e os demandantes do setor varejista de alimentos.

O dinamismo urbano, a economia diversificada, a constante e elevada demanda, a localização estratégica e o suporte do poder público em proporcionar infraestrutura adequada foram condicionantes primordiais para que, nesse período, Juazeiro do Norte fosse a primeira cidade do Ceará a receber uma rede de atacarejo.

O modelo de larga escala de mercadorias e os preços competitivos modificaram a rotina das compras do dia a dia dos caririenses, ao mesmo tempo em que expandiu a concorrência de preços pressionando os médios e grandes varejistas, do mercado local, a redefinirem as suas margens de lucros.

É cabível de registro que esse formato utilizado na rede de atacarejo com características definidas (autosserviço, rede de distribuição local, preços distintos para o atacado e varejo, custos e preços reduzidos), impactou consideravelmente a economia local e o entorno.

Na prática ocorreram rearranjos comerciais entre os agentes econômicos (produtores locais e lojistas) impulsionando a capacidade produtiva regional do setor de hortifrúti, o que diretamente colaborou para o aumento da geração de empregos, assegurando um volume maior de vendas e encurtando a distância entre às grandes cadeias de consumo.

Informações disponíveis pela Associação Brasileira dos Atacarejos (Abaas) revelam que especialmente em Juazeiro do Norte houve uma expansão de filias de grandes redes de atacarejos (Atacadão, Mix Mateus, Brasil Atacarejo, Assaí Atacadão, R. Carvalho, entre outros). Se levarmos em consideração o período de 2009 a 2026 as redes como Atacadão, Mix Mateus e Assaí Atacadão, duplicaram suas lojas em Juazeiro, e ampliaram para outras cidades da região.

De acordo com a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) no ano de 2025 as redes de atacarejos cresceram 10,5% com faturamento recorde de mais de R$ 1 trilhão de reais, e dominando a fatia de 49,3% do mercado alimentício nacional.

A relação da renda com o consumo "explica" a expansão dessas redes na região. O cenário econômico instável com a disparada da inflação desacelera o consumo das famílias ao reduzir o poder de compra, deslocando a curva da demanda para locais (atacarejos) em que há possibilidade de fazer a feira (as compras) com preços mais acessíveis.

Nesses últimos dezessete anos a economia da RMC consolidou-se como uma das maiores, e mais importantes do Nordeste. Logo, permanece atraindo investimentos públicos e grandes volumes de capital privado.

(*) Economista.

Fonte: O Povo, de 30/07/26. Opinião. p.19.


segunda-feira, 24 de agosto de 2026

BREXIT: Dez anos depois, a economia avalia

Por Lauro Chaves Neto (*)

Dez anos após o referendo que retirou o Reino Unido da União Europeia, o Brexit passou do campo das promessas para o da avaliação empírica.

Antes do Brexit, quase metade das exportações britânicas destinava-se ao mercado europeu. A saída do bloco introduziu barreiras alfandegárias, custos regulatórios e maior burocracia, especialmente pequenas e médias empresas. O resultado foi uma perda de dinamismo comercial e uma redução da competitividade.

Estimativas do Office for Budget Responsibility (OBR) indicam que o Brexit deverá reduzir, no longo prazo, cerca de 4% do PIB potencial do Reino Unido em relação ao cenário de permanência na União Europeia. Estudos do Banco da Inglaterra apontam que o investimento empresarial permaneceu aproximadamente 15% abaixo do que seria esperado sem a ruptura, refletindo a elevada incerteza institucional. O comércio de bens com a União Europeia sofreu desaceleração, enquanto setores como agricultura, logística, hotelaria e saúde passaram a enfrentar escassez de mão de obra em razão das novas restrições migratórias.

É verdade que o Reino Unido firmou novos acordos comerciais, recuperou autonomia regulatória e fortaleceu o controle sobre sua política migratória. Entretanto, os ganhos econômicos decorrentes dessas medidas ficaram muito aquém das perdas provocadas pela redução da integração com seu principal parceiro.

A experiência britânica revela um aspecto preocupante: decisões econômicas estruturais podem ser fortemente influenciadas por agendas políticas e identitárias. O debate público privilegiou temas como imigração e nacionalismo, relegando a segundo plano questões centrais como produtividade, investimentos e crescimento de longo prazo.

O maior ensinamento do Brexit é que, na economia contemporânea, soberania e integração não são conceitos antagônicos!

Em um mundo organizado por cadeias globais de valor, inovação e fluxo internacional de capitais, competitividade depende da capacidade de cooperar, e não apenas de decidir de forma independente, independência só gera prosperidade quando é acompanhada de produtividade, inovação e competitividade.

(*) Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de Economia.

Fonte: O Povo, de 20/07/26. Opinião. p.18.


terça-feira, 18 de agosto de 2026

"A escolinha do Professor Vorcaro"

Por Raimundo Padilha (*)

Parodiando a Escolinha do Professor Raimundo, do maior humorista brasileiro, o cearense Chico Anysio, estamos assistindo à Escolinha do Professor Vorcaro. Na Escolinha do Chico, os alunos eram humoristas famosos, que interpretavam papéis que os colocaram no patamar da fama. Chico era o titular da cátedra.

Na Escolinha do Professor Vorcaro, os seus alunos são corruptos, que ocupam, com raras exceções, o cardinalato da nossa República. Todos de maneira direta ou indireta, por meio de familiares são personagens de tramas golpistas. Enquanto na Escolinha do Chico o objetivo era fazer rir, na Escolinha do Professor Vorcaro é de fazer chorar. Quanta tristeza está no rastro deste drama, onde o seu professor é um pegajoso bandido, que atrai alunos mediante fartas propinas.

No Chico, o jogo era limpo. No Vorcaro, o jogo é sujo. Em matéria de corrupção é a maior em volume e em número de participantes. Três togados se tem notícia que tiveram participações, um senador apresentou projeto ampliando vantagens para o Banco Master do Sr. Vorcaro, além de outros cardeais que intermediaram operações para aplicações de Fundos de Pensões no mesmo Master.

O banco oferecia taxas aos seus investidores bem acima das praticadas pelo mercado e não apresentando liquidez, levando os seus investidores a recorrer ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC), o qual chegou cobrir mais de R$ 50 milhões. Este é o maior rombo da história do Sistema Financeiro Nacional.

É vergonhosa a máscara dos seus participantes. E os seus poderes/cargos vão para lata do lixo. Uns mais, outros menos, mas de modo geral os 3 poderes foram atingidos.

A pretexto de produzir um filme de personagem que se tem dúvidas das suas virtudes, foi orçado em mais de R$ 130 milhões e abocanhados mais de R$ 60 milhões, quando o filme "O Agente Secreto", que concorreu ao Oscar, custou pouco mais de R$ 26 milhões.

E a história ainda está incompleta ou mal contada, pois se desconhece a estrada percorrida pelo dinheiro, nem o seu real orçamento e muito menos a comprovação da sua aplicação. Tudo muito obscuro e com historiadores falseando as suas narrativas.

Banquetes luxuosos na Europa, com cardápios de finíssimo trato e bebidas do mais requintado paladar foram promovidos pela Escolinha do Sr. Vorcaro.

Enquanto na Escolinha do Chico o final era o aplauso, com o Sr. Vorcaro o final será o xadrez. Aliás, o seu professor já estava vendo o sol quadrado e empulseirado. Triste fim, triste drama.

Duas escolas com objetivos bastante distintos. Vorcaro, professor esperto. Chico, professor engraçado. Grande diferença.

(*) Economista, professor aposentado da UFC e membro da Academia Cearense de Economia.

Fonte: O Povo, de 8/07/26. Opinião. p.15.


quinta-feira, 13 de agosto de 2026

A ILUSÃO NO CLIQUE: o custo social das bets

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

No Brasil de hoje, bares, calçadas ou pontos de ônibus exibem o brilho de telas de celulares com gráficos coloridos, foguetes que sobem, promessas de multiplicação instantânea de dinheiro das chamadas "bets". Elas passaram de entretenimento para um problema de urgência social, econômica e de saúde pública, ocupando, com uma velocidade impressionante, espaço no cotidiano de uma população já endividada e pouco alertada para os riscos sobre o orçamento doméstico.

Dados recentes de pesquisa realizada pela CNC, estimam em 81,6% o número de famílias endividadas, 29,7% com atraso e 12,3% sem condições de quitação. Esse recorde histórico, não admitindo mais protelações.

A demora já favoreceu o caminho para aquele clique, que cria um momento lúdico, mas, na realidade, torna o cidadão um possível viciado, com a ilusão do ganho fácil, desde que persevere. "Insista, persista, não desista. O seu dia chegará", já dizia velho bordão da Loteria Cearense.

Contudo, o problema não é o jogo em si, mas o dinheiro da bodega, da conta de luz ou do mercantil do mês, canalizado para a ilusão do ganho fácil. Números do Banco Central indicam que os recursos transferidos via Pix para plataformas de apostas - hoje na casa das 200 legalmente estabelecidas -, podem chegar a R$ 30 bilhões mensais e, mais grave, análises amostrais apontam para que 5 milhões de  teriam destinado, em um mês, cerca de R$ 3,0 bilhões para essas plataformas.

Não é de estranhar que os varejistas cearenses já se ressintam da perda de fôlego do consumo básico, porquanto a renda que circularia no comércio do bairro, por exemplo, está sendo desviada para essas plataformas e distribuída não se sabe exatamente para onde.

O debate sobre a regulamentação, com regras de publicidade, tributação e mecanismos de identificação de perfis de risco, já tardio, da burocracia estatal, em ritmo de tartaruga versus a velocidade do clique. Devemos tratar o superendividamento por apostas não como um desvio de caráter, mas como um problema de saúde coletiva— a ludopatia.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 13/07/26. Opinião. p.18.


terça-feira, 4 de agosto de 2026

Lugares sagrados e turismo religioso

Por Rita Fabiana Arrais (*)

No último dia 10 de junho - durante a 113ª Reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) - aprovou-se o registro de bem cultural aos Lugares Sagrados da cidade de Juazeiro do Norte.

De acordo com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Romaria (Sedetur) de Juazeiro do Norte o processo de solicitação do registro iniciou-se em 2018 com a juntada de um arcabouço documental, enfatizando a importância simbólica dos lugares às mais distintas manifestações religiosas dos fiéis que peregrinam na cidade desde 1889 quando impactados pelo milagre da hóstia e pela figura emergente do Padre Cícero Romão.

A comunidade do bem cultural demarca os seguintes lugares: a Basílica de Nossa Senhora das Dores, a Capela do Socorro, a Casa dos Milagres Padre Cícero, a Casa Museu Padre Cícero, o Santuário dos Franciscanos, o Rio Salgadinho, a Ladeira do Horto e o Complexo do Horto. São nestes espaços "no universo das devoções" onde o sagrado habita. O simbolismo destes lugares alcança seu ponto fulcral durante as romarias, momento em que os fiéis renovam sua fé, ao mesmo tempo em que ressignificam seus rituais.

Atualmente existem dez romarias por ano (Celebração em memória da morte da beata Maria de Araújo; Romaria de São Sebastião; Romaria de Nossa Senhora das Candeias; Romaria de nascimento do Padre Cícero; Romaria em memória da morte do Padre Cícero; Romaria de Nossa Senhora das Dores; Romaria de São Francisco; Romaria de Finados; Romaria de ordenação do Padre Cícero; Romaria do Ciclo Natalino). Estima-se que 2,5 a 3 milhões de romeiros participam destes eventos consolidando o turismo religioso como uma das principais atividades econômicas da Região Metropolitana do Cariri (RMC). Registre-se que com a lei federal nº 15.443 de 26 de junho de 2026 todas as romarias tiveram as datas inclusas no Calendário Turístico Oficial do Brasil.

É notório que estes eventos religiosos impulsionam o desenvolvimento e crescimento econômico da RMC, pois os setores do comércio, serviços e infraestrutura são positivamente impactados com a demanda constante, e consequentemente estimulam a geração de empregos, o aumento da renda e da arrecadação de tributos.

Quanto ao volume de dinheiro movimentado, estima-se que R$ 754 milhões são abarcados pela economia local e distribuídos em setores como o hoteleiro, restaurantes, mercado de artigos religiosos, transporte, entre outros. (Sedetur/2025)

Como dizia o Seu Luiz Gonzaga (1912-1989): "Olha lá no alto do horto, ele tá vivo o "padim" não tá morto!

(*) Economista.

Fonte: O Povo, de 3/07/26. Opinião. p.17.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Rendimento e endividamento com bets

Por Alexandre Sobreira Cialdini (*)

O rendimento médio recebido em todos os trabalhos - que corresponde à soma dos ganhos brutos, como salários, comissões e horas extras - alcançou R$ 3.560 em 2025. Esse foi o maior valor registrado desde o início da pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), representando crescimento de 5,7% em relação a 2024 e de 11,1% quando comparado a 2019, ano que antecedeu a pandemia.

Outro indicador que mostra a melhora da renda dos brasileiros é a massa de rendimento mensal real de todos os trabalhos, que atingiu R$ 361,7 bilhões em 2025, também o maior valor da série histórica. O crescimento real foi de 7,5% frente a 2024 e de 23,5% em relação a 2019.

Paradoxalmente, apesar da evolução da renda, o Brasil alcançou, em 2026, o maior índice de endividamento das famílias desde o início da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor. Em abril, 80,9% das famílias brasileiras declararam possuir algum tipo de dívida, segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), disponível em: https://portaldocomercio.org.br/publicacoes_posts/pesquisa-de-endividamento-e-inadimplencia-do-consumidor-peic-agosto-de-2025/

Entre os fatores que ajudam a explicar esse fenômeno está o endividamento com apostas online, conhecidas como bets. O crescimento das apostas vem produzindo prejuízos crescentes à saúde mental e à situação financeira das famílias, além de contribuir para o aprofundamento da desigualdade. 

Pesquisas apontam que, em 56% das vezes, o jogador perde. Parece pouco? Não. Nos 44% restantes, muitas vezes prevalece a ilusão criada pelo desconto hiperbólico. Esse conceito explica por que as pessoas tendem a preferir recompensas imediatas, como um ganho rápido nas apostas online, em vez de aguardar benefícios maiores no futuro. 

Outro conceito importante é o da contabilidade mental. Muitos jogadores passam a separar o dinheiro das apostas do restante de suas finanças, o que os impede de ver o impacto total das perdas. Soma-se a isso a ilusão de controle: a crença de que habilidades pessoais ou estratégias são capazes de influenciar resultados que, na prática, são aleatórios.

As consequências financeiras desse comportamento são evidentes. Estudos indicam que cerca de 19% dos apostadores comprometem suas reservas financeiras e, aproximadamente, 10% recorrem ao cartão de crédito para continuar jogando, o que pode resultar em endividamento com taxas de juros de 428% ao ano. O cartão de crédito, por sua vez, permanece como o principal fator de endividamento para 83,6% das famílias.

Por isso, reforço a frase do meu amigo Preto Zezé: "Precisamos acreditar mais na aposta do conhecimento do que na sorte". Aos leitores interessados em aprofundar o tema, recomendo o webinário realizado pelo Programa de Educação Financeira do Ceará, disponível em: https://www.youtube.com/live/a6e1MtLGEkE?is=a0xzNZBWolXmFouM

(*) Mestre em Economia e doutor em Administração Pública e Secretário de Finanças e Planejamento do Eusébio-Ceará.

Fonte: O Povo, de 25/06/26. Opinião. p.17.


quarta-feira, 22 de julho de 2026

JUROS ALTOS, RISCOS PERSISTENTES

Por Lauro Chaves Neto (*)

O cenário econômico brasileiro volta a se deteriorar de forma evidente, frustrando a expectativa, ainda recente, de um ciclo mais consistente de queda da taxa Selec ao longo de 2026.   O que se desenhava como um processo gradual de afrouxamento monetário deu lugar a um ambiente de maior incerteza.

Parte dessa mudança vem do cenário externo. As tensões no Oriente Médio mantêm o petróleo em patamares elevados, pressionando custos logísticos e produtivos. Ao mesmo tempo, o El Niño já projeta impactos sobre a produção agrícola, com reflexos diretos sobre os preços dos alimentos.

Some-se a isso a resiliência da economia americana, que reduz o espaço para cortes de juros pelo Federal Reserve e pressiona o câmbio em países emergentes como o Brasil.

No plano doméstico a política econômica contribui para esse quadro. A ampliação de estímulos fiscais e creditícios, em um ambiente já pressionado, reforça expectativas inflacionárias. Não por acaso, as projeções para o IPCA seguem em trajetória ascendente, afastando-se do centro da meta e exigindo cautela do Banco Central.

Nesse contexto, a autoridade monetária se vê diante de um dilema clássico. Diante de uma inflação de 4,72% nos últimos 12 meses, portanto acima do teto da meta, reduzir juros prematuramente pode significar subestimar choques que se mostram persistentes. Por outro lado, manter a Selic em patamares elevados prolonga o custo financeiro para famílias, empresas e o próprio setor público.

Os sinais já são visíveis. A inadimplência cresce, os pedidos de recuperação judicial se multiplicam e o mercado financeiro reage com maior aversão ao risco. O otimismo que marcou o início do ano dá lugar a uma maior volatilidade da bolsa e do câmbio.

O risco não é apenas inflacionário, é também de um esgotamento gradual da capacidade de crescimento sustentado, caso a política econômica permaneça refém de estímulos de curto prazo. Em um ambiente global mais adverso, disciplina fiscal e previsibilidade deixam de ser opções e passam a ser condições necessárias para restaurar a confiança e abrir espaço para a redução sustentável dos juros.

(*) Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de Economia.

Fonte: O Povo, de 22/06/26. Opinião. p.16.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

A ECONOMIA CHINESA É RESILIENTE MESMO COM CRISES GEOPOLÍTICAS

 Por José Nelson Bessa Maia (*)

O mundo passa por turbulência e incertezas devido a tensões geopolíticas levadas ao extremo pela agressão dos EUA e Israel ao Irã. Como consequência essa guerra levou a novo choque de energia, com forte elevação nos preços do petróleo e interrupções nos suprimentos. Os mercados financeiros oscilam devido a volatilidades nos preços dos ativos. Nesse contexto poucos países mantêm o crescimento e conseguem amortecer os choques externos.

A China tem sido capaz de preservar o crescimento a julgar pelos dados oficiais. O PIB da China cresceu 1,3% no 1º trimestre de 2026 ou 5% ano a ano, 0,5 ponto percentual mais rápido que o do quarto trimestre de 2025. A produção cresceu e a oferta acelerou-se, com a demanda em recuperação, o emprego se mantendo estável, com aumentos moderados nos preços e avanços nos segmentos da nova economia.

De fato, o produto industrial chinês cresceu 6,1% em base anual no 1º trimestre de 2026. Ritmo mais rápido do que no 4º trimestre de 2025. Em termos mensais, o produto industrial aumentou 0,28% em março. O produto da mineração subiu 6% em termos anuais entre janeiro e março, enquanto o da indústria de transformação cresceu 6,4%. O produto dos serviços de utilidade pública aumentou 4,3%. O produto da manufatura de alta tecnologia teve aumento de 12,5% no 1º trimestre, com participação no produto industrial atingindo 16,9%, e impulsionando o crescimento geral em dois pontos percentuais.

O investimento cresceu 1,7% no primeiro trimestre, revertendo queda de 3,8% em 2025, turbinado pelos gastos com infraestruturas e aceleração dos investimentos industriais, compensando a queda nos investimentos do setor imobiliário. No total, o consumo e o investimento responderam por 84,7% do crescimento do PIB no 1º trimestre, um aumento de quase 30 pontos em relação ao ano anterior, indicando mudança gradual, mas contínua no modelo de crescimento mais baseado no mercado interno e menos dependente do setor externo.

O desemprego urbano ficou em 5,3% no 1º trimestre de 2026, mantendo-se no nível do mesmo período do ano passado. Somente em março, o desemprego urbano ficou em 5,4%, 0,1 ponto percentual acima do mês anterior. A meta estabelecida para o desemprego urbano é de 5,5% em 2026 e projeta-se criar mais de 12 milhões de novos empregos urbanos em 2026.

Por fim, a China gera estabilidade num ambiente global de incerteza, apoiada em seu sistema estatal de planejamento central e a eficácia de suas políticas de longo prazo, sempre atentas às turbulências externas e à necessidade de ajustes a fatores adversos. A melhoria da confiança na China reflete-se nos fluxos de entrada de investimento direto estrangeiro, atraído pelo vigor de seu setor de Inteligência Artificial (IA) e o vasto e denso mercado interno como grandes atrativos. 

(*) Ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.

Fonte: O Povo, de 8/06/26. Opinião. p.19.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

FEIRANTES CARIRIENSES SOFREM COM PREÇOS DOS HORTIFRÚTIS

 Por Rita Fabiana Arrais (*)

A elevação dos preços dos alimentos ocupa a pauta da economia nacional em razão de pressionar o aumento da inflação, dificultando o cumprimento da meta central estipulada em 3% ao ano.

O grupo de hortifrúti encabeça os aumentos, desde o final de 2025, com a disparada dos preços da batata - inglesa (26,29%), tomate (12,97), cenoura (22.5%), pepino (48,60%), abobrinha (36,10%), alface (13,76%), cebola (27,47), brócolis (20,84) e a batata-doce (19,50%).

Dados compartilhados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) destacam a prévia da inflação oficial –medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) - sendo de 0,62% no mês de maio.

Os impactos socioeconômicos são diversos, porém o que de imediato se verifica é a redução do poder de compra das famílias, e o comprometimento de uma fatia maior do salário para alimentação.

No Cariri o hábito de ir as feiras-livres e ao mercado é uma tradição regional que permite o crescimento e o desenvolvimento sustentável da agricultura familiar, ao mesmo tempo em que fortalece a economia local.

É certo que o cenário apresentado afasta os demandantes destes espaços, como também reduz o volume das suas compras. Pelo lado dos ofertantes (permissionários e feirantes) os custos elevados- em razão da entressafra e das condições climáticas desfavoráveis - aquecem o mercado paralelo de atravessadores que inflam os preços para obterem uma margem de lucro maior.

Em visita in loco nas feiras-livres e mercados de Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha verificou-se um aumento entre 15% e 20% sobre o valor das caixas de 25 kg de hortaliças (Cx de 25 Kg do Tomate Cajá por R$ 255,00 Reais e a Cx de 25 Kg da batata-inglesa por R$ 260,00 Reais) que chegam nas bancas e boxes do mercado.

É importante destacar que no Ceasa Cariri (Barbalha) os preços estão com valores bem mais acessíveis. No entanto a demanda constante e crescente do Crajubar que é estimulada por um calendário festivo de 12 meses, e um polo gastronômico consolidado permitem que as oscilações de preços ocorram com mais frequência.

Inseridos neste mercado competitivo, os ofertantes buscam agregar qualidade aos produtos a fim de diferenciar-se dos demais. Quanto a composição do preço final que chegará ao bolso dos consumidores, o objetivo é a fidelização da clientela, mesmo que para isso tenha que reduzir sua margem de lucro.

E quanto aos consumidores? O cenário é de aperto no orçamento familiar e de muita disposição física para transitar nas feiras em busca de melhores preços.

(*) Economista.

Fonte: O Povo, de 5/06/26. Opinião. p.19.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Endividamento, inadimplência e soluções paliativas

Por Lauro Chaves Neto (*)

A recente perda de valor de mercado dos grandes bancos brasileiros não é um evento isolado — é sintoma de um problema mais profundo: o avanço do endividamento das famílias e seus efeitos sobre toda a economia. Não se trata de prejuízo direto, mas de algo talvez mais relevante: perda de confiança no futuro gerando perda no valor de mercado.

À primeira vista, os números dos balanços não justificariam esse movimento. Receitas em alta e lucros robustos indicam um presente sólido. Mas o mercado não opera olhando para o retrovisor. O que preocupa investidores são os sinais de deterioração à frente. O aumento das provisões e a piora na qualidade dos ativos revelam uma leitura clara: os bancos esperam mais inadimplência.

Esse cenário reflete uma realidade incômoda. O endividamento das famílias, especialmente das camadas de menor renda, maior parte da população brasileira, já não é apenas um problema social — tornou-se um risco sistêmico. Quando consumidores perdem capacidade de pagamento, toda a engrenagem econômica desacelera. O crédito encarece, o consumo retrai e o ciclo de crescimento perde força.

A taxa básica de juros, ainda em patamar muito elevado, agrava esse quadro. Com o Banco Central do Brasil ainda cauteloso diante das incertezas inflacionárias, o alívio monetário avança lentamente. E o cenário externo, marcado por tensões geopolíticas e volatilidade nos preços do petróleo, adiciona mais imprevisibilidade.

Programas como o Desenrola Brasil surgem como tentativa legítima de aliviar o endividamento. Mas carregam um dilema: ao mesmo tempo em que reabilitam consumidores, podem estimular novo ciclo de crédito sem a devida sustentabilidade. A dúvida não é apenas sobre a eficácia imediata, mas sobre os efeitos no médio prazo. O movimento dos bancos ao reforçar reservas contra calotes é, nesse contexto, um termômetro relevante.

O Brasil enfrenta um desafio recorrente: equilibrar crédito, consumo e estabilidade. Sem enfrentar as causas estruturais do endividamento — renda baixa, juros altos e educação financeira limitada —, qualquer solução tende a ser apenas paliativa. 

(*) Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de Economia.

Fonte: O Povo, de 25/05/26. Opinião. p.20.


 

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