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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

BREXIT: Dez anos depois, a economia avalia

Por Lauro Chaves Neto (*)

Dez anos após o referendo que retirou o Reino Unido da União Europeia, o Brexit passou do campo das promessas para o da avaliação empírica.

Antes do Brexit, quase metade das exportações britânicas destinava-se ao mercado europeu. A saída do bloco introduziu barreiras alfandegárias, custos regulatórios e maior burocracia, especialmente pequenas e médias empresas. O resultado foi uma perda de dinamismo comercial e uma redução da competitividade.

Estimativas do Office for Budget Responsibility (OBR) indicam que o Brexit deverá reduzir, no longo prazo, cerca de 4% do PIB potencial do Reino Unido em relação ao cenário de permanência na União Europeia. Estudos do Banco da Inglaterra apontam que o investimento empresarial permaneceu aproximadamente 15% abaixo do que seria esperado sem a ruptura, refletindo a elevada incerteza institucional. O comércio de bens com a União Europeia sofreu desaceleração, enquanto setores como agricultura, logística, hotelaria e saúde passaram a enfrentar escassez de mão de obra em razão das novas restrições migratórias.

É verdade que o Reino Unido firmou novos acordos comerciais, recuperou autonomia regulatória e fortaleceu o controle sobre sua política migratória. Entretanto, os ganhos econômicos decorrentes dessas medidas ficaram muito aquém das perdas provocadas pela redução da integração com seu principal parceiro.

A experiência britânica revela um aspecto preocupante: decisões econômicas estruturais podem ser fortemente influenciadas por agendas políticas e identitárias. O debate público privilegiou temas como imigração e nacionalismo, relegando a segundo plano questões centrais como produtividade, investimentos e crescimento de longo prazo.

O maior ensinamento do Brexit é que, na economia contemporânea, soberania e integração não são conceitos antagônicos!

Em um mundo organizado por cadeias globais de valor, inovação e fluxo internacional de capitais, competitividade depende da capacidade de cooperar, e não apenas de decidir de forma independente, independência só gera prosperidade quando é acompanhada de produtividade, inovação e competitividade.

(*) Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de Economia.

Fonte: O Povo, de 20/07/26. Opinião. p.18.


terça-feira, 18 de agosto de 2026

"A escolinha do Professor Vorcaro"

Por Raimundo Padilha (*)

Parodiando a Escolinha do Professor Raimundo, do maior humorista brasileiro, o cearense Chico Anysio, estamos assistindo à Escolinha do Professor Vorcaro. Na Escolinha do Chico, os alunos eram humoristas famosos, que interpretavam papéis que os colocaram no patamar da fama. Chico era o titular da cátedra.

Na Escolinha do Professor Vorcaro, os seus alunos são corruptos, que ocupam, com raras exceções, o cardinalato da nossa República. Todos de maneira direta ou indireta, por meio de familiares são personagens de tramas golpistas. Enquanto na Escolinha do Chico o objetivo era fazer rir, na Escolinha do Professor Vorcaro é de fazer chorar. Quanta tristeza está no rastro deste drama, onde o seu professor é um pegajoso bandido, que atrai alunos mediante fartas propinas.

No Chico, o jogo era limpo. No Vorcaro, o jogo é sujo. Em matéria de corrupção é a maior em volume e em número de participantes. Três togados se tem notícia que tiveram participações, um senador apresentou projeto ampliando vantagens para o Banco Master do Sr. Vorcaro, além de outros cardeais que intermediaram operações para aplicações de Fundos de Pensões no mesmo Master.

O banco oferecia taxas aos seus investidores bem acima das praticadas pelo mercado e não apresentando liquidez, levando os seus investidores a recorrer ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC), o qual chegou cobrir mais de R$ 50 milhões. Este é o maior rombo da história do Sistema Financeiro Nacional.

É vergonhosa a máscara dos seus participantes. E os seus poderes/cargos vão para lata do lixo. Uns mais, outros menos, mas de modo geral os 3 poderes foram atingidos.

A pretexto de produzir um filme de personagem que se tem dúvidas das suas virtudes, foi orçado em mais de R$ 130 milhões e abocanhados mais de R$ 60 milhões, quando o filme "O Agente Secreto", que concorreu ao Oscar, custou pouco mais de R$ 26 milhões.

E a história ainda está incompleta ou mal contada, pois se desconhece a estrada percorrida pelo dinheiro, nem o seu real orçamento e muito menos a comprovação da sua aplicação. Tudo muito obscuro e com historiadores falseando as suas narrativas.

Banquetes luxuosos na Europa, com cardápios de finíssimo trato e bebidas do mais requintado paladar foram promovidos pela Escolinha do Sr. Vorcaro.

Enquanto na Escolinha do Chico o final era o aplauso, com o Sr. Vorcaro o final será o xadrez. Aliás, o seu professor já estava vendo o sol quadrado e empulseirado. Triste fim, triste drama.

Duas escolas com objetivos bastante distintos. Vorcaro, professor esperto. Chico, professor engraçado. Grande diferença.

(*) Economista, professor aposentado da UFC e membro da Academia Cearense de Economia.

Fonte: O Povo, de 8/07/26. Opinião. p.15.


quinta-feira, 13 de agosto de 2026

A ILUSÃO NO CLIQUE: o custo social das bets

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

No Brasil de hoje, bares, calçadas ou pontos de ônibus exibem o brilho de telas de celulares com gráficos coloridos, foguetes que sobem, promessas de multiplicação instantânea de dinheiro das chamadas "bets". Elas passaram de entretenimento para um problema de urgência social, econômica e de saúde pública, ocupando, com uma velocidade impressionante, espaço no cotidiano de uma população já endividada e pouco alertada para os riscos sobre o orçamento doméstico.

Dados recentes de pesquisa realizada pela CNC, estimam em 81,6% o número de famílias endividadas, 29,7% com atraso e 12,3% sem condições de quitação. Esse recorde histórico, não admitindo mais protelações.

A demora já favoreceu o caminho para aquele clique, que cria um momento lúdico, mas, na realidade, torna o cidadão um possível viciado, com a ilusão do ganho fácil, desde que persevere. "Insista, persista, não desista. O seu dia chegará", já dizia velho bordão da Loteria Cearense.

Contudo, o problema não é o jogo em si, mas o dinheiro da bodega, da conta de luz ou do mercantil do mês, canalizado para a ilusão do ganho fácil. Números do Banco Central indicam que os recursos transferidos via Pix para plataformas de apostas - hoje na casa das 200 legalmente estabelecidas -, podem chegar a R$ 30 bilhões mensais e, mais grave, análises amostrais apontam para que 5 milhões de  teriam destinado, em um mês, cerca de R$ 3,0 bilhões para essas plataformas.

Não é de estranhar que os varejistas cearenses já se ressintam da perda de fôlego do consumo básico, porquanto a renda que circularia no comércio do bairro, por exemplo, está sendo desviada para essas plataformas e distribuída não se sabe exatamente para onde.

O debate sobre a regulamentação, com regras de publicidade, tributação e mecanismos de identificação de perfis de risco, já tardio, da burocracia estatal, em ritmo de tartaruga versus a velocidade do clique. Devemos tratar o superendividamento por apostas não como um desvio de caráter, mas como um problema de saúde coletiva— a ludopatia.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 13/07/26. Opinião. p.18.


terça-feira, 4 de agosto de 2026

Lugares sagrados e turismo religioso

Por Rita Fabiana Arrais (*)

No último dia 10 de junho - durante a 113ª Reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) - aprovou-se o registro de bem cultural aos Lugares Sagrados da cidade de Juazeiro do Norte.

De acordo com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Romaria (Sedetur) de Juazeiro do Norte o processo de solicitação do registro iniciou-se em 2018 com a juntada de um arcabouço documental, enfatizando a importância simbólica dos lugares às mais distintas manifestações religiosas dos fiéis que peregrinam na cidade desde 1889 quando impactados pelo milagre da hóstia e pela figura emergente do Padre Cícero Romão.

A comunidade do bem cultural demarca os seguintes lugares: a Basílica de Nossa Senhora das Dores, a Capela do Socorro, a Casa dos Milagres Padre Cícero, a Casa Museu Padre Cícero, o Santuário dos Franciscanos, o Rio Salgadinho, a Ladeira do Horto e o Complexo do Horto. São nestes espaços "no universo das devoções" onde o sagrado habita. O simbolismo destes lugares alcança seu ponto fulcral durante as romarias, momento em que os fiéis renovam sua fé, ao mesmo tempo em que ressignificam seus rituais.

Atualmente existem dez romarias por ano (Celebração em memória da morte da beata Maria de Araújo; Romaria de São Sebastião; Romaria de Nossa Senhora das Candeias; Romaria de nascimento do Padre Cícero; Romaria em memória da morte do Padre Cícero; Romaria de Nossa Senhora das Dores; Romaria de São Francisco; Romaria de Finados; Romaria de ordenação do Padre Cícero; Romaria do Ciclo Natalino). Estima-se que 2,5 a 3 milhões de romeiros participam destes eventos consolidando o turismo religioso como uma das principais atividades econômicas da Região Metropolitana do Cariri (RMC). Registre-se que com a lei federal nº 15.443 de 26 de junho de 2026 todas as romarias tiveram as datas inclusas no Calendário Turístico Oficial do Brasil.

É notório que estes eventos religiosos impulsionam o desenvolvimento e crescimento econômico da RMC, pois os setores do comércio, serviços e infraestrutura são positivamente impactados com a demanda constante, e consequentemente estimulam a geração de empregos, o aumento da renda e da arrecadação de tributos.

Quanto ao volume de dinheiro movimentado, estima-se que R$ 754 milhões são abarcados pela economia local e distribuídos em setores como o hoteleiro, restaurantes, mercado de artigos religiosos, transporte, entre outros. (Sedetur/2025)

Como dizia o Seu Luiz Gonzaga (1912-1989): "Olha lá no alto do horto, ele tá vivo o "padim" não tá morto!

(*) Economista.

Fonte: O Povo, de 3/07/26. Opinião. p.17.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Rendimento e endividamento com bets

Por Alexandre Sobreira Cialdini (*)

O rendimento médio recebido em todos os trabalhos - que corresponde à soma dos ganhos brutos, como salários, comissões e horas extras - alcançou R$ 3.560 em 2025. Esse foi o maior valor registrado desde o início da pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), representando crescimento de 5,7% em relação a 2024 e de 11,1% quando comparado a 2019, ano que antecedeu a pandemia.

Outro indicador que mostra a melhora da renda dos brasileiros é a massa de rendimento mensal real de todos os trabalhos, que atingiu R$ 361,7 bilhões em 2025, também o maior valor da série histórica. O crescimento real foi de 7,5% frente a 2024 e de 23,5% em relação a 2019.

Paradoxalmente, apesar da evolução da renda, o Brasil alcançou, em 2026, o maior índice de endividamento das famílias desde o início da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor. Em abril, 80,9% das famílias brasileiras declararam possuir algum tipo de dívida, segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), disponível em: https://portaldocomercio.org.br/publicacoes_posts/pesquisa-de-endividamento-e-inadimplencia-do-consumidor-peic-agosto-de-2025/

Entre os fatores que ajudam a explicar esse fenômeno está o endividamento com apostas online, conhecidas como bets. O crescimento das apostas vem produzindo prejuízos crescentes à saúde mental e à situação financeira das famílias, além de contribuir para o aprofundamento da desigualdade. 

Pesquisas apontam que, em 56% das vezes, o jogador perde. Parece pouco? Não. Nos 44% restantes, muitas vezes prevalece a ilusão criada pelo desconto hiperbólico. Esse conceito explica por que as pessoas tendem a preferir recompensas imediatas, como um ganho rápido nas apostas online, em vez de aguardar benefícios maiores no futuro. 

Outro conceito importante é o da contabilidade mental. Muitos jogadores passam a separar o dinheiro das apostas do restante de suas finanças, o que os impede de ver o impacto total das perdas. Soma-se a isso a ilusão de controle: a crença de que habilidades pessoais ou estratégias são capazes de influenciar resultados que, na prática, são aleatórios.

As consequências financeiras desse comportamento são evidentes. Estudos indicam que cerca de 19% dos apostadores comprometem suas reservas financeiras e, aproximadamente, 10% recorrem ao cartão de crédito para continuar jogando, o que pode resultar em endividamento com taxas de juros de 428% ao ano. O cartão de crédito, por sua vez, permanece como o principal fator de endividamento para 83,6% das famílias.

Por isso, reforço a frase do meu amigo Preto Zezé: "Precisamos acreditar mais na aposta do conhecimento do que na sorte". Aos leitores interessados em aprofundar o tema, recomendo o webinário realizado pelo Programa de Educação Financeira do Ceará, disponível em: https://www.youtube.com/live/a6e1MtLGEkE?is=a0xzNZBWolXmFouM

(*) Mestre em Economia e doutor em Administração Pública e Secretário de Finanças e Planejamento do Eusébio-Ceará.

Fonte: O Povo, de 25/06/26. Opinião. p.17.


quarta-feira, 22 de julho de 2026

JUROS ALTOS, RISCOS PERSISTENTES

Por Lauro Chaves Neto (*)

O cenário econômico brasileiro volta a se deteriorar de forma evidente, frustrando a expectativa, ainda recente, de um ciclo mais consistente de queda da taxa Selec ao longo de 2026.   O que se desenhava como um processo gradual de afrouxamento monetário deu lugar a um ambiente de maior incerteza.

Parte dessa mudança vem do cenário externo. As tensões no Oriente Médio mantêm o petróleo em patamares elevados, pressionando custos logísticos e produtivos. Ao mesmo tempo, o El Niño já projeta impactos sobre a produção agrícola, com reflexos diretos sobre os preços dos alimentos.

Some-se a isso a resiliência da economia americana, que reduz o espaço para cortes de juros pelo Federal Reserve e pressiona o câmbio em países emergentes como o Brasil.

No plano doméstico a política econômica contribui para esse quadro. A ampliação de estímulos fiscais e creditícios, em um ambiente já pressionado, reforça expectativas inflacionárias. Não por acaso, as projeções para o IPCA seguem em trajetória ascendente, afastando-se do centro da meta e exigindo cautela do Banco Central.

Nesse contexto, a autoridade monetária se vê diante de um dilema clássico. Diante de uma inflação de 4,72% nos últimos 12 meses, portanto acima do teto da meta, reduzir juros prematuramente pode significar subestimar choques que se mostram persistentes. Por outro lado, manter a Selic em patamares elevados prolonga o custo financeiro para famílias, empresas e o próprio setor público.

Os sinais já são visíveis. A inadimplência cresce, os pedidos de recuperação judicial se multiplicam e o mercado financeiro reage com maior aversão ao risco. O otimismo que marcou o início do ano dá lugar a uma maior volatilidade da bolsa e do câmbio.

O risco não é apenas inflacionário, é também de um esgotamento gradual da capacidade de crescimento sustentado, caso a política econômica permaneça refém de estímulos de curto prazo. Em um ambiente global mais adverso, disciplina fiscal e previsibilidade deixam de ser opções e passam a ser condições necessárias para restaurar a confiança e abrir espaço para a redução sustentável dos juros.

(*) Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de Economia.

Fonte: O Povo, de 22/06/26. Opinião. p.16.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

A ECONOMIA CHINESA É RESILIENTE MESMO COM CRISES GEOPOLÍTICAS

 Por José Nelson Bessa Maia (*)

O mundo passa por turbulência e incertezas devido a tensões geopolíticas levadas ao extremo pela agressão dos EUA e Israel ao Irã. Como consequência essa guerra levou a novo choque de energia, com forte elevação nos preços do petróleo e interrupções nos suprimentos. Os mercados financeiros oscilam devido a volatilidades nos preços dos ativos. Nesse contexto poucos países mantêm o crescimento e conseguem amortecer os choques externos.

A China tem sido capaz de preservar o crescimento a julgar pelos dados oficiais. O PIB da China cresceu 1,3% no 1º trimestre de 2026 ou 5% ano a ano, 0,5 ponto percentual mais rápido que o do quarto trimestre de 2025. A produção cresceu e a oferta acelerou-se, com a demanda em recuperação, o emprego se mantendo estável, com aumentos moderados nos preços e avanços nos segmentos da nova economia.

De fato, o produto industrial chinês cresceu 6,1% em base anual no 1º trimestre de 2026. Ritmo mais rápido do que no 4º trimestre de 2025. Em termos mensais, o produto industrial aumentou 0,28% em março. O produto da mineração subiu 6% em termos anuais entre janeiro e março, enquanto o da indústria de transformação cresceu 6,4%. O produto dos serviços de utilidade pública aumentou 4,3%. O produto da manufatura de alta tecnologia teve aumento de 12,5% no 1º trimestre, com participação no produto industrial atingindo 16,9%, e impulsionando o crescimento geral em dois pontos percentuais.

O investimento cresceu 1,7% no primeiro trimestre, revertendo queda de 3,8% em 2025, turbinado pelos gastos com infraestruturas e aceleração dos investimentos industriais, compensando a queda nos investimentos do setor imobiliário. No total, o consumo e o investimento responderam por 84,7% do crescimento do PIB no 1º trimestre, um aumento de quase 30 pontos em relação ao ano anterior, indicando mudança gradual, mas contínua no modelo de crescimento mais baseado no mercado interno e menos dependente do setor externo.

O desemprego urbano ficou em 5,3% no 1º trimestre de 2026, mantendo-se no nível do mesmo período do ano passado. Somente em março, o desemprego urbano ficou em 5,4%, 0,1 ponto percentual acima do mês anterior. A meta estabelecida para o desemprego urbano é de 5,5% em 2026 e projeta-se criar mais de 12 milhões de novos empregos urbanos em 2026.

Por fim, a China gera estabilidade num ambiente global de incerteza, apoiada em seu sistema estatal de planejamento central e a eficácia de suas políticas de longo prazo, sempre atentas às turbulências externas e à necessidade de ajustes a fatores adversos. A melhoria da confiança na China reflete-se nos fluxos de entrada de investimento direto estrangeiro, atraído pelo vigor de seu setor de Inteligência Artificial (IA) e o vasto e denso mercado interno como grandes atrativos. 

(*) Ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.

Fonte: O Povo, de 8/06/26. Opinião. p.19.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

FEIRANTES CARIRIENSES SOFREM COM PREÇOS DOS HORTIFRÚTIS

 Por Rita Fabiana Arrais (*)

A elevação dos preços dos alimentos ocupa a pauta da economia nacional em razão de pressionar o aumento da inflação, dificultando o cumprimento da meta central estipulada em 3% ao ano.

O grupo de hortifrúti encabeça os aumentos, desde o final de 2025, com a disparada dos preços da batata - inglesa (26,29%), tomate (12,97), cenoura (22.5%), pepino (48,60%), abobrinha (36,10%), alface (13,76%), cebola (27,47), brócolis (20,84) e a batata-doce (19,50%).

Dados compartilhados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) destacam a prévia da inflação oficial –medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) - sendo de 0,62% no mês de maio.

Os impactos socioeconômicos são diversos, porém o que de imediato se verifica é a redução do poder de compra das famílias, e o comprometimento de uma fatia maior do salário para alimentação.

No Cariri o hábito de ir as feiras-livres e ao mercado é uma tradição regional que permite o crescimento e o desenvolvimento sustentável da agricultura familiar, ao mesmo tempo em que fortalece a economia local.

É certo que o cenário apresentado afasta os demandantes destes espaços, como também reduz o volume das suas compras. Pelo lado dos ofertantes (permissionários e feirantes) os custos elevados- em razão da entressafra e das condições climáticas desfavoráveis - aquecem o mercado paralelo de atravessadores que inflam os preços para obterem uma margem de lucro maior.

Em visita in loco nas feiras-livres e mercados de Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha verificou-se um aumento entre 15% e 20% sobre o valor das caixas de 25 kg de hortaliças (Cx de 25 Kg do Tomate Cajá por R$ 255,00 Reais e a Cx de 25 Kg da batata-inglesa por R$ 260,00 Reais) que chegam nas bancas e boxes do mercado.

É importante destacar que no Ceasa Cariri (Barbalha) os preços estão com valores bem mais acessíveis. No entanto a demanda constante e crescente do Crajubar que é estimulada por um calendário festivo de 12 meses, e um polo gastronômico consolidado permitem que as oscilações de preços ocorram com mais frequência.

Inseridos neste mercado competitivo, os ofertantes buscam agregar qualidade aos produtos a fim de diferenciar-se dos demais. Quanto a composição do preço final que chegará ao bolso dos consumidores, o objetivo é a fidelização da clientela, mesmo que para isso tenha que reduzir sua margem de lucro.

E quanto aos consumidores? O cenário é de aperto no orçamento familiar e de muita disposição física para transitar nas feiras em busca de melhores preços.

(*) Economista.

Fonte: O Povo, de 5/06/26. Opinião. p.19.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Endividamento, inadimplência e soluções paliativas

Por Lauro Chaves Neto (*)

A recente perda de valor de mercado dos grandes bancos brasileiros não é um evento isolado — é sintoma de um problema mais profundo: o avanço do endividamento das famílias e seus efeitos sobre toda a economia. Não se trata de prejuízo direto, mas de algo talvez mais relevante: perda de confiança no futuro gerando perda no valor de mercado.

À primeira vista, os números dos balanços não justificariam esse movimento. Receitas em alta e lucros robustos indicam um presente sólido. Mas o mercado não opera olhando para o retrovisor. O que preocupa investidores são os sinais de deterioração à frente. O aumento das provisões e a piora na qualidade dos ativos revelam uma leitura clara: os bancos esperam mais inadimplência.

Esse cenário reflete uma realidade incômoda. O endividamento das famílias, especialmente das camadas de menor renda, maior parte da população brasileira, já não é apenas um problema social — tornou-se um risco sistêmico. Quando consumidores perdem capacidade de pagamento, toda a engrenagem econômica desacelera. O crédito encarece, o consumo retrai e o ciclo de crescimento perde força.

A taxa básica de juros, ainda em patamar muito elevado, agrava esse quadro. Com o Banco Central do Brasil ainda cauteloso diante das incertezas inflacionárias, o alívio monetário avança lentamente. E o cenário externo, marcado por tensões geopolíticas e volatilidade nos preços do petróleo, adiciona mais imprevisibilidade.

Programas como o Desenrola Brasil surgem como tentativa legítima de aliviar o endividamento. Mas carregam um dilema: ao mesmo tempo em que reabilitam consumidores, podem estimular novo ciclo de crédito sem a devida sustentabilidade. A dúvida não é apenas sobre a eficácia imediata, mas sobre os efeitos no médio prazo. O movimento dos bancos ao reforçar reservas contra calotes é, nesse contexto, um termômetro relevante.

O Brasil enfrenta um desafio recorrente: equilibrar crédito, consumo e estabilidade. Sem enfrentar as causas estruturais do endividamento — renda baixa, juros altos e educação financeira limitada —, qualquer solução tende a ser apenas paliativa. 

(*) Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de Economia.

Fonte: O Povo, de 25/05/26. Opinião. p.20.


quinta-feira, 11 de junho de 2026

Defesa de Memorial de Neto Cisne para Professor Titular da Administração da Uece

Flagrante da Comissão Especial Julgadora, logo depois da defesa do Memorial do economista JOSÉ JOAQUIM NETO CISNE. O Prof. Neto Cisne está ladeado pelo professor Almir Bittencourt da Silva, à direita, e por Profs. Jair do Amaral Filho, Marcelo Gurgel Carlos da Silva e Ana Augusta Ferreira de Freitas, à esquerda. (Foto cedida por Prof. Neto Cisne).

Ocoeeeu na tarde de ontem, quarta-feira (10/06/26), no Miniauditório Áurea Bessa do Centro de Estudos Sociais Aplicados da Universidade Estadual do Ceará - CESA/Uece, a Defesa de Memorial, seguida da avaliação de desempenho, para a promoção funcional da referência “O” de professor associado para referência “P” da classe Titular do Grupo Ocupacional Magistério Superior-MAS, da Professor Titular do docente do Curso de Administração da Uece.

A Comissão Especial Julgadora, formada pelos Profs. Drs. Ana Augusta Ferreira de Freitas (efetivo Uece), Jair do Amaral Filho (efetivo UFC), Almir Bittencourt da Silva (efetivo UFC), Marcelo Gurgel Carlos da Silva (suplente interno) e Krishnamurti de Morais Carvalho (suplente interno), tendo por secretária a Profa. Dra. Thiciane Mary Carvalho Teixeira, aprovou o Memorial apresentado pelo professor doutor JOSÉ JOAQUIM NETO CISNE.

Congratulações efusivas ao professor Neto Cisne, por atingir o topo da carreira univsersitária, consolidada em sua decação à vida acadêmica, com substantivos feitos profissionais e pessoais, que sacramenam o seu pendor científico e a sua dedicação valioosa ao ensino superior.

Também dignos de encômios estão a graduação em Administração e os programas de pós-graduação em Administração da Uece, por contarem com o professor Neto Cisne em os seus quadros docentes.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Professor do PPSAC-Uece


quarta-feira, 10 de junho de 2026

A economia chinesa é resiliente mesmo com crises geopolíticas

Por José Nelson Bessa Maia (*)

O mundo passa por turbulência e incertezas devido a tensões geopolíticas levadas ao extremo pela agressão dos EUA e Israel ao Irã. Como consequência, essa guerra levou a novo choque de energia, com forte elevação nos preços do petróleo e interrupções nos suprimentos. Os mercados financeiros oscilam devido a volatilidades nos preços dos ativos. Nesse contexto poucos países mantêm o crescimento e conseguem amortecer os choques externos.

A China tem sido capaz de preservar o crescimento a julgar pelos dados oficiais. O PIB da China cresceu 1,3% no 1º trimestre de 2026 ou 5% ano a ano, 0,5 ponto percentual mais rápido que o do quarto trimestre de 2025. A produção cresceu e a oferta acelerou-se, com a demanda em recuperação, o emprego se mantendo estável, com aumentos moderados nos preços e avanços nos segmentos da nova economia.

De fato, o produto industrial chinês cresceu 6,1% em base anual no 1º trimestre de 2026. Ritmo mais rápido do que no 4º trimestre de 2025. Em termos mensais, o produto industrial aumentou 0,28% em março. O produto da mineração subiu 6% em termos anuais entre janeiro e março, enquanto o da indústria de transformação cresceu 6,4%. O produto dos serviços de utilidade pública aumentou 4,3%. O produto da manufatura de alta tecnologia teve aumento de 12,5% no 1º trimestre, com participação no produto industrial atingindo 16,9%, e impulsionando o crescimento geral em dois pontos percentuais.

O investimento cresceu 1,7% no primeiro trimestre, revertendo queda de 3,8% em 2025, turbinado pelos gastos com infraestruturas e aceleração dos investimentos industriais, compensando a queda nos investimentos do setor imobiliário. No total, o consumo e o investimento responderam por 84,7% do crescimento do PIB no 1º trimestre, um aumento de quase 30 pontos em relação ao ano anterior, indicando mudança gradual, mas contínua no modelo de crescimento mais baseado no mercado interno e menos dependente do setor externo.

O desemprego urbano ficou em 5,3% no 1º trimestre de 2026, mantendo-se no nível do mesmo período do ano passado. Somente em março, o desemprego urbano ficou em 5,4%, 0,1 ponto percentual acima do mês anterior. A meta estabelecida para o desemprego urbano é de 5,5% em 2026 e projeta-se criar mais de 12 milhões de novos empregos urbanos em 2026.

Por fim, a China gera estabilidade num ambiente global de incerteza, apoiada em seu sistema estatal de planejamento central e a eficácia de suas políticas de longo prazo, sempre atentas às turbulências externas e à necessidade de ajustes a fatores adversos. A melhoria da confiança na China reflete-se nos fluxos de entrada de investimento direto estrangeiro, atraído pelo vigor de seu setor de Inteligência Artificial (IA) e o vasto e denso mercado interno como grandes atrativos.

(*) Ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.

Fonte: O Povo, de 10/05/26. Opinião. p.23.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Polo de Saúde impulsiona o hub logístico juazeirense

Por Rita Fabiana Arrais (*)

A consolidação da economia caririense como um dos principais eixos de crescimento econômico do interior do Nordeste, apoia-se estrategicamente na eficiência do polo de saúde - Hospital Regional do Cariri, Hospital São Vicente, Hospital do Coração e Hospital Santo Antônio - que concentra uma gama de especialidades médicas, bem como ofertas de serviços capazes de suprirem os atendimentos da Região Metropolitana do Cariri (RMC) pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e pelo setor privado.

O dinamismo do setor de saúde é um atrativo para o aumento dos investimentos privados, pois há segurança de retorno do capital mediante a demanda crescente e consistente do mercado, e o aumento das Parcerias Público - Privadas (PPPs) em que o setor público investe na aquisição de serviços do setor privado para preencher a oferta insuficiente da rede pública.

É importante pontuar os impactos socioeconômicos para a RMC, tais como: geração de emprego, inovação tecnológica, aumento da oferta de serviços em saúde, melhorias na infraestrutura das cidades, construção de hospitais públicos e privados, e a elevação na exigência de qualificação profissional, que vieram por meio de volumosos investimentos tanto públicos, quanto privados.

Economicamente, esses pontos descritos juntam-se a outros setores (indústria, serviços, educação) permitindo a diversificação do mercado, ao mesmo tempo que impulsiona o crescimento e o desenvolvimento da região com a abertura de novos empreendimentos visando suprir a cadeia produtiva regional. É cabível de registro que a região faz fronteira com os estados do Pernambuco, Paraíba e Piauí, favorecendo a integração dos mercados e o aumento da demanda por bens e serviços.

Neste cenário, um conjunto de fatores infraestruturais faz da cidade de Juazeiro do Norte um hub logístico estratégico, que funciona otimizando o custo de distribuição de mercadorias, proporcionando eficiência nos prazos de entregas, principalmente aqueles relacionados ao mercado de suprimentos hospitalares, medicações e insumos de alta sensibilidade.

Para a Secretaria de Desenvolvimento Econômico do município, a existência de uma malha rodoviária eficiente e o transporte aéreo garantem uma conectividade regional, em que na prática significa vincular fornecedores, transportadores e consumidores.

A necessidade de promover saúde para 1,5 milhão de pessoas em 45 municípios trouxe mudanças significativas na infraestrutura das cidades polo através da mobilidade urbana, e também na captação de novas empresas para atuar no ramo de operador logístico especializado no mercado de saúde e hospitalar.

(*) Economista.

Fonte: O Povo, de 8/05/26. Opinião. p.21.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Aos bilionários do Ceará - sugestões II

Por Pedro Jorge Ramos Vianna (*)

Em artigo publicado neste conceituado Jornal, em 10/4/2022, fiz uma sugestão aos bilionários do Ceará. A ideia nasceu de uma reportagem sobre a compra de um iate feita pelo homem mais rico do mundo: o iate custou US$ 500 milhões e isso tinha representado, apenas, 0,03% de sua riqueza.

Àquela época, os bilionários cearenses eram 16 ou 17, segundo os jornais. A diferença talvez seja porque um deles não mora em Fortaleza. Sugeri que usassem 0,03% de suas fortunas para doarem casas populares para os sem-teto de Fortaleza. Em 2025 estes números mudaram: passou de 18 ou 19 e suas fortunas somaram R$ 58 bilhões, conforme os dados publicados na imprensa.

Por que voltei ao tema? Este ano a Campanha da Fraternidade da Igreja Católica tem como tema “Fraternidade e Moradia” e o lema "Ele veio morar entre nós". O que significa o vocábulo "Fraternidade"? Antigamente era a expressão de um valor fundamental de união entre as pessoas. Hoje, seu sentido é de um ideal de que todos os seres humanos devem ser tratados com igual dignidade e afeto.

Temos aqui dois dos temas fundamentais do artigo já publicado: o poder econômico e o problema da moradia para os "sem-teto". O que, na minha opinião, justifica este artigo.

Primeiro, ser bilionário não é ser um "Tio Patinhas". Suas fortunas são constituídas mais de bens valiosos do que de moedas. Por outro lado, os bens físicos têm a propriedade de envolver o sentimento de pertencimento, do apego, o que às vezes prejudica seu comércio.

Também se deve ter em conta que regras do IR permitem que um percentual do Imposto de Renda devido pelo contribuinte seja utilizado para doações. E isso é muito usado pelas pessoas que têm posse. Entretanto, neste caso, a doação é do Governo Federal, e não do contribuinte, pois esse recurso não mais lhe pertencia. Mas, em termos monetários, de quanto estamos falando?

Para responder, utilizarei os dados do artigo de 10/4/2024: àquela época, conforme dados fornecidos por um construtor: o custo da construção de uma casa popular seria em torno de R$ 80 mil. Como a inflação no período 2022-2025 foi de, aproximadamente, 5,63%, a construção de uma casa popular passou para algo em torno de R$ 83 mil. Dessa forma, 0,03% da fortuna de R$ 58 bilhões corresponderia a um valor em torno de R$ 17,4 milhões. O que equivaleria ao valor de, aproximadamente, 209 casas ao preço de R$ 83 mil cada uma,

Considerando que as estatísticas indicam um déficit de 2.863 casas necessárias para abrigar a população de rua de Fortaleza, isso representaria, apenas, 7% do déficit habitacional da cidade.

São dados aproximados, pois poder-se-ia construir casas mais baratas, em bairros distantes. Mas já seria uma grande ajuda para a Campanha da Fraternidade! Que Deus ilumine nossos bilionários!

(*) Economista e professor titular aposentado da UFC,

Fonte: O Povo, de 3/05/26. Opinião. p.18.


segunda-feira, 1 de junho de 2026

FORTALEZA: a evolução e os desafios

Por Lauro Chaves Neto (*)

Fortaleza chega aos 300 anos reafirmando uma característica central de sua trajetória: a capacidade de transformar posição geográfica em protagonismo econômico.   Hoje, responde por quase 40% do PIB estadual, esse dado revela não apenas liderança, mas uma forte concentração econômica que molda o desenvolvimento do estado.

Quando o Ceará tinha sua capital em Aquiraz, o dinamismo econômico estava em polos como Aracati. Fortaleza surgiu mais como uma escolha estratégica e administrativa do que como centro econômico. Sua ascensão veio com o tempo, consolidada pelo comércio, pelo ciclo do algodão e pela centralização política.

Hoje, é uma das principais economias urbanas do país, com destaque crescente na economia de serviços e, mais recentemente, na conectividade digital. A cidade deixou de ser apenas um entreposto para se tornar um hub estratégico, conectando o Brasil a mercados internacionais por meio de infraestrutura logística e tecnológica.

Entretanto, a estrutura econômica da cidade ainda revela fragilidades importantes. A elevada dependência do setor de serviços, muitas vezes de baixa produtividade, limita ganhos mais robustos de renda e competitividade. A indústria perdeu participação relativa nas últimas décadas, reduzindo o potencial de encadeamentos produtivos mais complexos. Soma-se a isso a informalidade persistente, a baixa qualificação de parte da força de trabalho e os gargalos em infraestrutura urbana, que impactam diretamente a eficiência econômica.

A elevada concentração econômica exige políticas que ampliem a inclusão e reduzam as desigualdades. A transição para uma economia mais sofisticada demanda investimentos em educação, inovação e produtividade. Além disso, questões urbanas e ambientais ganham centralidade.

Fortaleza precisa qualificar seu crescimento, elevar o padrão de produtividade e sofisticação da economia local. Se conseguir alinhar conectividade, capital humano e estratégia de longo prazo, poderá transformar sua posição privilegiada em desenvolvimento sustentável e inclusivo, consolidando-se como uma das cidades mais dinâmicas do país.

(*) Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de Economia.

Fonte: O Povo, de 27/04/26. Opinião. p.16.


quarta-feira, 13 de maio de 2026

Prosperidade compartilhada versus barbárie bélica

Por José Nelson Bessa Maia (*)

Em meio a absurda guerra em curso dos EUA e Israel contra o Irã e seus efeitos caóticos sobre a economia global, o mundo assiste a uma reconfiguração da ordem internacional, gerando uma verdadeira época dos monstros em que, segundo o falecido pensador italiano Antonio Gramsci (1891-1937), "o velho mundo está morrendo e o novo mundo luta para surgir." Diante disso duas abordagens civilizacionais diametralmente opostas saltam aos nossos olhos.

De um lado, a potência hegemônica por 80 anos luta belicosamente para manter sua supremacia em um contexto crescentemente multipolar e de claro esgotamento do financiamento de sua estrutura imperial pelo planeta afora. Por outro, a China, em sua ascensão pacífica, avança com vigor em termos econômicos, tecnológicos e de bem-estar rumo à posição de maior e mais desenvolvida economia do mundo.

Enquanto as manchetes da mídia estavam centradas na guerra no Oriente Médico e suas implicações sobre os mercados financeiros, o Parlamento da China aprovava no início de março de 2026 o seu 15º plano quinquenal (2026-2030), que traça por meio de planejamento de médio e longo prazo a direção das políticas, objetivos de desenvolvimento e reformas a serem executadas nos próximos cinco anos, revelando uma previsibilidade que contrasta com governos obcecados por ciclos eleitorais curtos e/ou intervenções em assuntos de outros países.

O esboço do 15º Plano Quinquenal estabelece uma série de metas, tendo o "desenvolvimento de alta qualidade" no topo da agenda. Apesar dos desafios estruturais, como o envelhecimento populacional, desequilíbrios setoriais e a transição energética, a China propõe um modelo de desenvolvimento próprio que prioriza o bem-estar social e a autonomia tecnológica, servindo como um farol alternativo para o Sul Global.

Os principais vetores do Plano são a inovação tecnológica, a expansão do mercado interno com bem-estar social, a transição para a economia verde e o fortalecimento da segurança nacional. A ênfase do 15º Plano Quinquenal no citado "desenvolvimento de alta qualidade" oferece uma fonte de certeza em meio a uma crescente incerteza global, e ajudará a escrever um novo capítulo na trajetória chinesa de rápido crescimento e estabilidade social de longo prazo.

Em um momento em que alguns países recorrem ao protecionismo, a China abre seu vasto mercado, compartilhando sua prosperidade como fonte de oportunidade e cooperação globais. O crescimento equilibrado de seu imenso comércio externo permitirá mais estabilidade e dinamismo na economia global. Com determinação estratégica o país avança para ocupar o lugar que lhe cabe, mas compartilhando com os seus parceiros os frutos de seu desenvolvimento acelerado e de seus avanços tecnológicos.

(*) Ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.

Fonte: O Povo, de 12/04/26. Opinião. p.20.


terça-feira, 5 de maio de 2026

A GOVERNANÇA DE DADOS E A PRODUTIVIDADE

Por Alexandre Sobreira Cialdini (*)

O economista Paul Krugman afirmou: "A produtividade não é tudo, mas, a longo prazo, é quase tudo". Aumentar a produtividade é essencial para alcançar empresas sustentáveis e criar empregos qualificados. Elementos fundamentais para qualquer estratégia de desenvolvimento que tenha como principal objetivo a melhoria da vida das pessoas e passam, necessariamente, por uma boa governança de dados, com cadastros confiáveis e interoperáveis. Embora a produtividade não signifique apenas trabalhar mais, mas sim criar mais valor com eficiência, ela é crucial para o crescimento sustentável e competitivo.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) demonstrou, em estudos disponíveis, que os dados dos setores público e privado têm o potencial de gerar benefícios sociais e econômicos equivalentes a um intervalo entre 1% e 2,5% do PIB. No entanto, esse resultado ainda não foi atingido devido a desafios como a falta de confiança, os interesses conflitantes entre diferentes partes interessadas e a fragilidade cadastral.

Nesse contexto, o Governo do Ceará, por meio da Secretaria do Planejamento e Gestão do Ceará (Seplag-CE), firmou um acordo de cooperação técnica com a Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil para fortalecer o apoio institucional aos municípios cearenses no cumprimento de obrigações fiscais, previdenciárias e trabalhistas.

O acordo tem como objetivo auxiliar as administrações municipais, durante as edições da Caravana Ceará um Só 2026, na correta prestação de informações ao Sistema de Escrituração Digital das Obrigações Fiscais, Previdenciárias e Trabalhista (eSocial), além de orientar sobre procedimentos de regularização no âmbito do Programa Receita Social – Autorregularização. 

A iniciativa é mais uma conquista que pode ser creditada à importância do Programa de Governança Interfederativa Ceará um Só, realizado na gestão do governador Elmano de Freitas. O delegado da Receita Federal, Paulo Régis Paulino, ressaltou a participação do Fisco na jornada interfederativa deste ano e valorizou o ineditismo da experiência conduzida pela Secretaria.

Pelo documento, a Seplag-CE e a Escola de Gestão Pública do Ceará serão responsáveis pela articulação com os municípios, pela organização das atividades e pela disponibilização de materiais de apoio. Já a Receita Federal atuará compartilhando orientações técnicas e participando das ações conforme sua disponibilidade, sendo cada órgão responsável pelo custeio das atividades relacionadas à execução das ações. 

Trata-se de mais uma boa prática da Secretaria do Planejamento e Gestão, reconhecida por um órgão federal e disseminada para os municípios cearenses. O trabalho já teve início nas regiões do Maciço de Baturité e do Sertão de Canindé, evidenciando a importância da governança de dados para a melhoria da produtividade em todos os municípios cearenses.

(*) Mestre em Economia e doutor em Administração Pública e Secretário de Finanças e Planejamento do Eusébio-Ceará.

Fonte: O Povo, de 2/04/26. Opinião. p.19.


segunda-feira, 4 de maio de 2026

250 ANOS DA RIQUEZA DAS NAÇÕES

Por Lauro Chaves Neto (*)

Publicado em 1776, em meio às transformações que antecederam a Revolução Industrial, A Riqueza das Nações, de Adam Smith, marcou o nascimento da economia como campo de análise. Junto com o Capital, de Karl Marx, e a Teoria Geral, de Keynes, são três das mais importantes influências para a Economia Política.

Ao romper com o pensamento mercantilista, a obra introduziu conceitos fundamentais como divisão do trabalho, livre concorrência e o papel dos incentivos na organização dos mercados. Mais do que um tratado econômico, tratou-se de um marco intelectual que buscava compreender as fontes da prosperidade das nações.

Adam Smith não escreveu apenas sobre mercados - escreveu contra privilégios. E é justamente aí que sua obra permanece atual.

Ao proteger ineficiências, transfere-se o custo para a sociedade - seja por meio de preços mais altos, menor produtividade ou oportunidades limitadas. Trata-se de um modelo que concentra ganhos e socializa perdas, ampliando as desigualdades sociais e territoriais, contrariando frontalmente a lógica defendida por Smith.

O problema não é a existência de regras, mas a sua assimetria. Regras que deveriam nivelar o jogo acabam sendo moldadas para favorecer poucos. O resultado é um sistema que penaliza quem produz, inova e compete de fato. A competitividade, hoje, exige sustentabilidade, inovação e capacidade de adaptação.

No pensamento de Adam Smith, a atuação do Estado não é descartada, mas deve ser orientada ao interesse público!

Há uma "boa intervenção", associada à provisão de bens públicos, à garantia da justiça, da segurança e de regras claras que assegurem a concorrência. Em contraste, a "má intervenção" ocorre quando políticas públicas passam a favorecer grupos específicos, por meio de privilégios, comprometendo a livre concorrência e a alocação eficiente de recursos.

Segundo Smith, quando o Estado se afasta do seu papel de garantidor do jogo e passa a interferir de forma desigual, a mão invisível deixa de promover eficiência e passa a conviver com distorções, reduzindo produtividade e inovação, e, em última instância, o bem-estar da sociedade.

(*) Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de Economia.

Fonte: O Povo, de 30/03/26. Opinião. p.20.


quarta-feira, 15 de abril de 2026

O ataque ao Irã e a geopolítica do caos

Por José Nelson Bessa Maia (*)

O planeta Terra testemunha hoje o colapso da ordem liberal internacional do Pós-Segunda Guerra Mundial, com o abandono das regras e princípios civilizacionais há muito consagrados pela Carta da Organização das Nações Unidas (ONU) de respeito à soberania dos estados, não interferência em assuntos internos das nações e a integridade territorial dos países. Causa espanto a entrada em cena de uma truculência às claras que não se registrava há muito na história.

O mais curioso é que as ameaças e o descontrole da potência hegemônica decadente são recebidos por muitos analistas como algo normalizado e até com regozijo em certos círculos da política, das finanças e da mídia internacionais.

Os ataques em curso dos EUA e Israel contra o Irã constituem grave ameaça à paz mundial e à estabilidade da economia global. Repete-se a agressão a um país do Oriente Médio sem nenhuma justificativa cabal. Um ataque bélico sem declaração formal e sem aprovação legislativa, enquanto havia em curso conversações diplomáticas entre ambos os lados.

Um ataque covarde e cruel com vistas a eliminar fisicamente a elite dirigente iraniana e festejado como grande feito sob a promessa de promover mudança de um regime e voltar a entronizar a antiga elite monárquica iraniana subordinada aos interesses do Ocidente e capaz de abrir mão do controle nacional sobre os seus hidrocarbonetos.

Assiste-se, portanto, a uma verdadeira releitura da "Geopolítica do Caos", termo cunhado pelo jornalista franco-espanhol Ignacio Ramonet em seu ensaio de 1997 em que defende que o paradigma de comunicação global aferidor da lógica de mercado, a qual tem como modelo central os mercados financeiros, valoriza a teoria dos jogos e a teoria do caos sobre a mecânica newtoniana.

É então sob a roupagem de numa nova mecânica, ou na ausência dela (a incerteza e instabilidade), em que se assenta o atual sistema de relações internacionais. As ações agressivas da atual administração norte-americana seriam justamente os instrumentos dessa nova mecânica geopolítica.

Na verdade, o ataque preventivo ao Irã faz parte de uma estratégia desesperada dos EUA de retomar o controle sobre o Oriente Médio e de seus abundantes recursos energéticos para enfraquecer a segurança da China e colocá-la mais dependente de fornecimentos de petróleo do Oriente Médio administrados por empresas americanas ou ocidentais, visto que a China importa da região cerca de 50 a 54% do petróleo que consome.

Como os EUA já controlam a Arábia, Saudita, o Iraque e os pequenos países do Golfo, onde mantém bases militares (por isso que estão sendo bombardeados pelos mísseis iranianos), falta só derrotar o atual regime do Irã para poder exercer o controle total sobre o petróleo e gás da região. É simples assim.

(*) Ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.

Fonte: O Povo, de 15/03/26. Opinião. p.20.


segunda-feira, 13 de abril de 2026

Os impedimentos institucionais ao desenvolvimento

Por Pedro Jorge Ramos Vianna (*)

Em 1981, quando da defesa de minha Tese de Professor Catedrático, na UFC, defendi que quatro são os fatores determinantes do nível de desenvolvimento econômico em qualquer época e em qualquer país. São eles, os fatores institucionais, os fatores históricos, os fatores naturais e os fatores aleatórios. E que o mais importante deles, em qualquer situação, é o fator institucional.

Em 2024 os economistas que defenderam essa tese receberam o Nobel de Economia.

Em muitos trabalhos em que analisei o sistema econômico brasileiro e nordestino, utilizei essa tese.

Hoje volto ao tema. O "leit motiv" foi uma reportagem publicada no O POVO em 6/1/2026, sobre a logística de transporte no Estado, um dos fatores mais importantes para explicar o péssimo desenvolvimento econômico do Brasil.

Apenas para tratar dos aspectos mais recentes, cito como o primeiro grande erro, no Brasil, em termos de desenvolvimento econômico, a decisão do presidente do Brasil em estabelecer, nos anos 1950 um modelo de crescimento baseado no transporte rodoviário, o tipo de transporte terrestre mais caro que existe.

O transporte marítimo é o tipo de transporte mais barato que existe, e como temos uma costa medindo entre 7.491 km a 10.900 km, dependendo da estimativa, não se compreende como até hoje essa dádiva não é bem aproveitada.

Mas poderíamos ter escolhido o transporte ferroviário, o segundo mais barato. E também não o fizemos. Por isso estamos pagando até hoje.

Dado este quadro, o que nos cabe discutir no que diz respeito à situação atual do Ceará?

O trabalho publicado no O POVO, acima citado, mostra que o desenvolvimento do Ceará é prejudicado pela falta de equipamentos adequados para o escoamento de produtos.

Os eixos, dentro deste contexto, mais importantes são: a) as rodovias federais: BR 116, 222 e 020, estradas que não são duplicadas (a BR 116 apresenta, apenas, pouca quilometragem de duplicação); elas também apresentam índices apenas razoáveis de adequação para o transporte o que é seguido pelas CEs que apresentam um percentual de 62,5% como condição regular, ruim ou péssima; b) o Anel Viário, que deveria ligar as três rodovias federais (110, 222 e 020) e as rodovias estaduais (CEs 010, 040, 060 e 065), cujo projeto começou em 2010 e com extensão prevista de 32km. Estamos em 2026 e não sabemos quando ele estará pronto; c) a Ferrovia Transnordestina.

Sobre esta já escrevi um pouco neste mesmo Jornal. Não vale aqui repetir minhas críticas.

Para terminar, lembro o trabalho do Dr. Marcos Holanda "Qualidade x Quantidade", publicado no Blog do Eliomar, no dia 6/1/2026. Ali, o autor escreve textualmente que o Estado investiu R$ 121,0 milhões para gerar um acréscimo de R$ 1,00 na renda das famílias cearenses. E para mostrar o descalabro desses investimentos, ele assegura que o VLT que vai ser expandido até o Castelão transportará em um mês apenas 60% dos passageiros que o sistema de ônibus transporta em um dia.

Será possível se imaginar investimentos mais dispendiosos, em termos per capita, do que esses?

Tendo em vista que é a ação do homem o fator que mais influencia a trajetória do desenvolvimento econômico de uma sociedade, não é de se admirar o atual estágio de subdesenvolvimento do Ceará.

(*) Economista e professor titular aposentado da UFC,

Fonte: O Povo, de 8/03/26. Opinião. p.18.


quarta-feira, 8 de abril de 2026

A ORIGEM DA CIÊNCIA ECONÔMICA

Por Alexandre Sobreira Cialdini (*)

Há 250 anos, exatamente em 9 de março de 1776, o escocês Adam Smith publicava a obra A Riqueza das Nações: Investigação sobre sua Natureza e suas Causas. O livro marcou o nascimento da economia como ciência. Nele, Smith argumenta que a verdadeira riqueza de um país não é o ouro acumulado – como sustentava a doutrina mercantilista –, mas sim a capacidade produtiva de seu trabalho, ou seja, sua produtividade.

O crescimento econômico é impulsionado pela divisão do trabalho, pelo livre mercado, pela livre concorrência e pelo interesse próprio, que, por meio da chamada “mão invisível”, pode gerar benefícios para toda a sociedade.

O autor elaborou uma teoria sobre o funcionamento do sistema econômico, que reformulou completamente o paradigma vigente à época, quando a riqueza nacional era medida pelas reservas de ouro e prata de um país. Importar mercadorias do exterior era considerado prejudicial, pois significava abrir mão dessa riqueza para pagá-las. Exportar, por sua vez, era visto como benéfico, já que os metais preciosos retornavam à nação.

Assim, os países mantinham uma vasta rede de controles para impedir que essa riqueza metálica se dissipasse, por meio de impostos sobre importações, subsídios a exportadores e proteção às indústrias nacionais.

Esse mesmo protecionismo vigorava também internamente. As cidades impediam que artesãos de outras localidades se estabelecessem em seus territórios para exercer suas atividades. Fabricantes e comerciantes solicitavam ao rei monopólios protecionistas, e dispositivos que economizavam mão de obra eram proibidos por representarem uma ameaça aos produtores existentes.

O pensador escocês demonstrou que A Riqueza das Nações não constitui um endosso à ganância econômica, como às vezes ainda é caricaturada. O interesse próprio pode impulsionar a economia, mas essa força só gera benefícios quando há competição genuinamente aberta e livre de coerção. Ele destaca que o crescimento econômico não pode ser avaliado apenas pelo aumento da riqueza total de um país.

Uma sociedade só pode ser considerada verdadeiramente próspera quando a maioria da população tem acesso a condições dignas de vida, como renda suficiente, emprego de qualidade, educação e saúde.

O clássico do filósofo escocês sintetiza os princípios centrais de seu pensamento econômico: a defesa do livre comércio, da divisão do trabalho, da livre concorrência, da eficiência produtiva e da cooperação entre as nações, sempre baseada na liberdade econômica – base do comércio internacional. O trabalho busca apresentar ao mundo uma ciência econômica descritiva, baseada em evidências, sem deixar de lado as questões morais fundamentais para o ser humano.

Em 1759, muito antes de A Riqueza das Nações, Smith havia publicado a obra que o consagrou no campo da filosofia: A Teoria dos Sentimentos Morais. Em síntese, a natureza humana é complexa. Somos egoístas, mas também gostamos de ajudar os outros.

Os dois livros são, portanto, complementares: mostram como indivíduos podem conviver pacificamente na esfera moral e, ao mesmo tempo, cooperar de forma produtiva no plano econômico. Como afirmou o próprio autor: “Nenhuma sociedade pode ser florescente e feliz se a grande maioria de seus membros for pobre e miserável”.

(*) Mestre em Economia e doutor em Administração Pública e Secretário de Finanças e Planejamento do Eusébio-Ceará.

Fonte: O Povo, de 5/03/26. Opinião. p.18.


 

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