sábado, 4 de abril de 2026

Um senso de felicidade 2/3

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie (*)

Há algumas teorias acerca da felicidade, que podem clarear nossa mente e impregnar-nos de questionamentos, em vista de um mergulho no que seja a felicidade, para compreender a realidade acontecendo, no contexto da geração atual:

 a) Influenciada pelo utilitarismo de Bentham (1978), esta teoria hedonista propõe que a felicidade é uma questão unicamente de subjetividade. Cria o protótipo de uma pessoa feliz: a que exalta o prazer e humilha e descanteia a dor, ou seja, a pessoa feliz caracteriza-se pela fuga do sofrimento e pela exuberância da busca do frenesi dos prazeres.

A trajetória do hedonista atinge um máximo de energia e depois declina, levando o indivíduo a uma miserabilidade de ânimo;

b) O desejo deriva de desiderium (de+ siderium) e reporta-se ao movimento dos astros e estrelas. É importante verificar-se que desejo não significa necessidade. 

Partindo, pois, desta noção de que o desejo é um anseio humano de busca de algo que preencha a incompletude ou satisfaça a carência, esta teoria apregoa que a satisfação de um desejo aponta para a felicidade. Dois de seus postuladores, Griffin e Wittgenstein escrevem que a felicidade consiste em obter o que se deseja. Wittgenstein vai mais longe, ao dizer que a realização do desejo deve ser buscada, independente, se causa prazer ou desprazer.

c) Nussbaum propôs uma teoria, segundo a qual, a felicidade está vinculada à obtenção de certos objetivos. A pessoa traça sua lista de objetivos, que lhe sejam aspirações valiosas, em todas as dimensões, sejam profissionais, afetivas, de saúde, de beleza, de conhecimento, amor e espiritualidade e outras, a sua realização é que traz a felicidade;

d) Seligman faz uma análise de três aspectos, aos quais se atribui a obtenção da felicidade. Não se vive sem usufruir de prazeres na vida, como bons filmes, boas viagens, boas companhias, nem sem o exercício saudável e o desenvolvimento de pontos fortes e virtudes, tampouco sem estabelecer um propósito maior do que nós mesmos. A estes três aspectos, denominou, respectivamente, Vida Agradável, Vida Boa e Vida Significativa. Conclui sua teoria, afirmando que a felicidade somente é uma felicidade autêntica, se contemplar estes três aspectos

Enfim, um olhar para a nossa geração atual e percebe-se um quadro nada compatível com o ‘sentir-se feliz’. O sinete da felicidade está cedendo lugar ao domínio da solidão e ao abraço da insensatez da vida.

Concorda-se que o prazer faz parte do viver, não há dúvida. Mas, ele não se basta e, cansado de si, pode perder-se no vazio de seu próprio eco.

À geração atual, mergulhada em tantas possibilidades de escolhas, com os avanços da tecnologia e, mais recentemente, da Inteligência Artificial, uma pesquisa da Harvard Graduate School of Education indica que os jovens se encontram sem rumo, nesse mar de oportunidades, pois, vazios estão do sentido e do propósito de vida. Essa carência busca preencher a vida de qualquer coisa, mesmo à busca de medicamentos para promover um ‘relax’, um momento de desestresso. Confusos na infobesidade, nas redes sociais, no excesso de consumo, a vida segue sem sentido e sem propósito, como diz a música ‘deixa a vida me levar, leva eu” de Serginho Meriti e Eri do Cais, consagrada pro Zeca Pagodinho. Conectada digitalmente, esta geração ‘gasta’ seus dias inteiros com telas, contatos digitais, porém, com quase nada de afeto e ainda menos d humanidade. Telas a extravasar solidão.

Os relacionamentos são efêmeros e superficiais, e, em geral, não chegam a gerar espaço para confiança e apoio, nas horas necessárias e quando problemas batem à porta.

A dimensão espiritual está, praticamente, diluindo-se, até mesmo em certos grupos religiosos, de tal modo que Deus torna-se uma figura quase mitológica, com assento na temporalidade, exorcizando-se a transcendência.

O impacto desta visão de mundo é iminente e, nalguns casos, já se espraia, desdobrando-se em outras e outras crises.

Toda a história que a civilização construiu, de repente, começa a ruir, apesar de tantos e tantos avanços.

Esta geração precisa aprender a sonhar, a descobrir o sentido da vida em si mesmo e a compreender que a verdade não se trata de uma escolha, mas de uma descoberta.

E a felicidade autêntica não existe sem o sentido e o propósito da vida.

E Deus não pode ficar fora do sentido da vida, porque Ele nunca abandonará Sua criatura, mas respeita-lhe a vontade e o querer.

Tenhamos uma boa sexta-feira, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 27/02/26.


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