quinta-feira, 30 de abril de 2026

VOLTAR PODE SER IR

Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)

Peguei a mesma estrada, aquela que me fez descobrir que prefiro curvas às retas. Saí no mesmo horário, ao entardecer, mas nessa viagem me afastava de Fortaleza. Iria encontrar amigas muito queridas de um clube do livro. Lá, o que lemos nos conduz ao que temos de mais íntimo. Ansiava por nossa tertúlia; dessa vez, seria na praia.

A playlist para a estrada era a do show da Marisa Monte, que aconteceria na semana seguinte. Iria com a Marina, minha filha, já com 14 anos. Um dia desses, comovia-me, a cada mamada, com os seus pezinhos apressados se afastando da minha barriga.

Ela já curte ouvir a Marisa com as amigas, mas fiquei a imaginar como seria vê-la ali, cantando comigo. Era a estreia dela. Eu voltaria, depois de tantas vezes. Lembro-me com nitidez da emoção que senti na juventude, quando a vi começar "Bem que se quis", já no final do show, e depois, ao apagar das luzes, retirar-se, deixando o público cantar o resto da música. O público cantava alto, como se pedisse um bis, mas ela não retornou.

Entre uma canção e outra da Marisa, surgiu "Oração ao tempo", na voz de Djavan. Prefiro a versão do Bituca, mas me impactou a percussão ao fundo - por um instante, lembrou batidas de um relógio. Ou do coração. No final da música, a batida vai ficando mais lenta até parar por completo.

No silêncio que me atravessou, comecei a observar, com atenção, a paisagem. Na outra viagem, o sol se punha à minha frente, a revoada cruzou o meu caminho e seguiu adiante. Agora, tudo ficava para trás. Pouco a pouco o entardecer, a revoada, iam.

O caminho sou eu. Voltar pode ser ir. A revoada foi. A música se calou. O céu alaranjado, com seus últimos raios de luz, escrevia: desistir pode ser uma das escolhas mais bonitas de uma vida.

Anoiteceu, mas ainda era dia em mim.

Na semana seguinte, estive lá. Era noite, clara pela Lua quase cheia. O show foi belíssimo, inesquecível. Foi a primeira vez que a vi cantar com uma orquestra. Foi o primeiro da Marina - e o meu com ela. Neste ano, ela já faz 15.

(*) Médica psiquiatra.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 24/03/2026. Opinião. p.18.

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