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sexta-feira, 23 de outubro de 2026

O PÓ NÃO É O FIM

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Quando ao túmulo baixar,

E meu corpo ao pó retornar,

Corpo, dádiva de meus pais

Órfão de mim não vou ficar.

 

Tampouco virarei alma penada,

Pois ser humano é que nasci.

E outro ser não poderei ser,

Alma e corpo sempre serei.

 

Quando ao túmulo baixar,

Meu eu vai perdurar,

Sopro vital de meu corpo,

Não ficará a vagar.

 

É corpo vindo de Deus,

No seu poder eternal,

Não é retorno ao mundo,

Rasgar meu eu Deus não faz, é mau.

 

Memórias que levarei,

Sejam boas ou más,

Com o perdão que ganhei,

Em mim ficarão guardadas.

 

De meu nome lembrarei,

De amores e amigos também,

Porém, no meu acervo eterno,

Ficarão as que me fazem bem.

 

No meu afã de ver Jesus Cristo,

A Maria pedirei levar-me a Ele.

Depois, com familiares e amigos,

A todo povo de fé me unirei.

 

Banhados aos pés do Criador,

Cantos de júbilo, de adoração,

No sangue imaculado do Cordeiro,

Entoaremos juntos, eterno encanto.

 

E as criaturas todas

Prostrar-se-ão ao Senhor.

Túmulos ficarão vazios

De seres plenos de amor

 

Quando a primavera chegar,

E a ressurreição final brilhar,

Então, grandiosa alegria pulsará

Momento eterno sem fim selará.

 

Uma boa sexta-feira, com as bênçãos de Deus.

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 21/08/26.


terça-feira, 20 de outubro de 2026

TEMPO

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Não é apenas espaço de recordações, mas espaço de proposições.

O tempo não passa.

Ele finca pé, teimoso, que é e sempre será, enquanto marcamos nossos passos na trilha, que, no seu espaço, vamos abrindo.

O tempo nunca passa.

Mas, nós caminhamos nele entre passado e futuro, curtindo sabores que nos damos, na força da resiliência de nossas fragilidades.

Há um tempo dentro de mim.

Outro tempo fora de mim.

É bom saboreá-lo – qual? –, pois para todos há um umbral e, ao atravessá-lo, renascemos com a morte do tempo, no qual nosso ser vai sendo e crescendo, estando em cada gesto do amar, em cada fluir do fazer, em cada sorriso do contemplar e em cada beijo do abraço. 

O tempo de fora me permite e oportuniza.

O tempo de dentro é lerdo, temeroso e, às vezes, algoz a me vitimizar.

E, assim, vamos nós e o tempo no tempo do tempo, sempre com o tempo, na trilha do espaço que nele criamos.

O tempo de fora é suave

O tempo de dentro é barulho.

O tempo de fora oferece

O tempo de dentro esquadrinha.

O tempo de fora é curto

O tempo de dentro é mendaz

O tempo de fora, impávido, segue

O tempo de dentro um dia desmorona

E, noutro, morre, consumindo o seu espaço.

E, então, nunca mais daremos de cara com o tempo, pois, o nosso tempo passou e numa curva da eternidade, desaparece para sempre, enquanto continua a transportar mais e mais outros e desaparecer em cada curva de suas vidas.

O que haverá depois, se o tempo morreu e o espaço sumiu?

Ora, o que deles fizeste, será o teu guia eterno.

Perscruta-te!

Tempus fugit!

Uma boa sexta-feira, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 14/08/26.

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Não vou assistir ao país crescer

Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

Não me refiro apenas aos números — ao PIB absoluto, à renda per capita ou a qualquer indicador que nos ofereça a ilusão de progresso. Falo de um crescimento mais profundo: aquele que se revela no bom senso, na responsabilidade social, na qualidade das escolhas, no respeito ao outro e na dignidade do trabalho.

É nesse terreno que continuamos pobres. Pobres nas atitudes e na compreensão de que nenhuma sociedade se sustenta quando o interesse individual se torna a única medida das coisas. Alguns dizem que nos faltam tempo e maturidade. Outros atribuem nossas fragilidades à herança colonial, a uma cultura dilacerada ou à ausência de identidade comum. Somos, afinal, uma mistura extraordinária e contraditória de povos, raças, crenças e costumes.

Cresci acreditando no país do futuro. Acreditava no esforço, no trabalho e na força do exemplo. Imaginava que a soma de condutas dignas construiria, pouco a pouco, um mundo melhor. Mas o tempo passou depressa. E a tecnologia, que nos libertou das barreiras de acesso à informação, também nos aprisionou em novas formas de manipulação.

Os algoritmos não ampliam necessariamente nossos horizontes; amiúde apenas repetem nossas preferências, confirmam preconceitos e alimentam certezas. Cercados por versões de nós mesmos, tornamo-nos cada vez menos capazes de mudar. É um paradoxo inquietante: nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento e talvez nunca tenhamos sido tão resistentes à dúvida.

O que mais me preocupa, porém, é a assimilação dos maus hábitos e sua transformação em herança. Comportamentos repetidos deixam de causar estranheza, tornam-se aceitáveis e são transmitidos às novas gerações como se fossem naturais. A desonestidade vira esperteza; a grosseria, sinceridade; a irresponsabilidade, liberdade; a indiferença, mecanismo de sobrevivência.

Quando perdemos o apego à dúvida, ao questionamento, à análise crítica, à leitura e ao conhecimento, corremos o risco de formar uma sociedade de autômatos: pessoas que repetem palavras de ordem, escolhem sem refletir e obedecem sem compreender. Talvez isso explique a escassez de verdadeiros líderes. Eles não nascem do ruído, da popularidade instantânea ou da submissão às multidões. Nascem da capacidade crítica, da coragem de sustentar convicções legítimas e da disposição de se doar por algo maior do que si mesmos.

Ainda existe uma escolha. Podemos interromper a reprodução dos vícios, recuperar o valor do exemplo e reaprender a pensar. Não há crescimento verdadeiro sem responsabilidade, conhecimento e respeito. Caso contrário, restará o salve-se quem puder: uma sociedade permissiva com os maus hábitos, indulgente com escolhas imprudentes e incapaz de construir um destino comum. Nesse ritmo, talvez eu veja o país enriquecer. Crescer, temo que não.

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 10/09/2026. Opinião. p.15.


quarta-feira, 7 de outubro de 2026

SORRISO DO ABRAÇO

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

O abraço do peito

Desperta emoção,

Sentimento de acolhida,

Sem impor condição.

 

O sorriso da mente

Alegra o diálogo,

Emite sinais candente

De tolerância e paz.

 

O beijo do coração

Aquece boa amizade,

Para ser capaz

De ecoar ao mundo

 

Que a fé existe,

Nunca se omite,

Nem o afeto sincero

Do amor trovador.

 

O abraço sorri

Colhendo amores

Sabendo quais flores

Não sucumbem a dores.

 

E o cuidado aparece,

No imo sagrado do peito,

A Deus eleva uma prece,

Ajoelhado, sorri e agradece.

 

Uma boa segunda-feira, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 4/08/26.


terça-feira, 6 de outubro de 2026

ONDE ESTÁ O PROBLEMA?

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

- A gente é um bando de miseráveis.

- As coisas podem ser caras, mas há quem as compre; a gente é que é miserável mesmo.

- Ah! Vida do inferno. Não estou mais me aguentando.

Estas queixas não são tão incomuns de se ouvir.

Nas minhas palestras e cursos, tenho ouvido semelhantes depoimentos, que margeiam o abismo da depressão.

Muitas vezes, são almas pequenas com grandes dons. Almas que se fazem pequenas pela inércia de sair do casulo, em busca de seus sonhos, que permanecem, no universo dos possíveis.

Eles não apodrecem, mas são chutados para debaixo do tapete, em cima do qual assentam-se lamúrias de uma inteligência arguta, de uma visão míope, de um arrazoado ideologizado, de uma negação de si.

Tal atitude pode provir de frustração sofrida, diante do fracasso em algum momento na vida, o que acontece com qualquer um de nós. Pode provir ainda de discordâncias, conflitos e confrontos internos, de ‘menos valia’ e de diversas outras causas, mesmo silenciosas. A frustração provoca dor profunda e impacta toda a nossa dimensão existencial.  É o preço de nossas fragilidades, no campo da realização de nossos sonhos, de nossas pretensões, de nossas expectativas. Para umas pessoas, exercita o caráter e treina a resiliência – no grego άσκηση (áskese): o conflito pode ajudar a clarear ideias e convicções que a pessoa acalenta. Para outras, cria um lamaçal, uma areia movediça, que vai consumindo quaisquer expectativas, quaisquer sonhos, na impotência assumida de qualidades e conhecimentos adquiridos.

As habilidades anulam-se, seja pelo orgulho ferido, pela decepção humilhante ou por outros arrazoados, que a própria frustração legitima, criando seus levianos gatilhos. A alma apequena-se, o mundo fica mau, as pessoas são inimigas e um auto ódio toma conta e aliena a mente. A pessoa desconhece suas forças e desgasta suas energias com situações dissinérgicas, quais sejam de irritabilidade, cansaço, insatisfação, impaciência, protelação constante. Seu olhar volta-se, então, para o sucesso dos outros e, incomodada, a pessoa passa a criticá-los, impulsivamente, na inveja e vitimização da miserabilidade de sua alma, criando ao seu derredor uma nuvem de mal-entendidos, de malquereres, num inferno que a pessoa cria para si e tenta mergulhar seu entorno.

Em tudo isso, há que se questionar, como escreve Victor Frank, o sentido da vida, no encontro consigo mesmo, ressignificar seus valores e princípios, fortalecer a sua fé e reconquistar sua autoestima. Rever seus ‘hábitos de vida’ e seu ‘padrão mental’.

E, antes que a frustração teime em permanecer, com seus deletérios sintomas, é necessário a busca de profissional.

“A vida é luta renhida”, diz Gonçalves Dias, em sua Canção dos Tamoios. Ela abre espaço aos corajosos e intrépidos, enquanto simplesmente, passa pelos fracos, ironiza-os e apena-se dos dons desperdiçados.

Uma boa quinta-feira, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 30/07/26.

A ESPERANÇA EQUILIBRISTA

Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

Alguém me perguntou, outro dia, o que espero do futuro. Ué! Eu e meu alter ego — essa outra identidade que teima em me acompanhar — esperamos muita poesia, alguma lucidez, uma dose necessária de loucura e, sobretudo, fantasia. Meus caros amigos, sobre esses desejos arrisco aqui alguns rabiscos. Aí vão.

Da lucidez, espero que finalmente compreendamos que nenhuma transformação verdadeira começa nos palácios, gabinetes ou tribunas. Ela começa no comportamento. Na maneira como enxergamos o outro, convivemos com as diferenças e decidimos participar da construção de uma sociedade menos egoísta e mais fraterna.

Por incrível que pareça, talvez este seja justamente o tempo de romper paradigmas. Há momentos em que o desencanto pode ser fértil. Quando velhas certezas desmoronam, abre-se espaço para desconfiar das verdades prontas e inverter a lógica de um passado que tantas vezes fabricou conveniências travestidas de certezas. Quem sabe estejamos assistindo ao início do fim dos falsos profetas?

Da fantasia, espero que o mundo ouse interromper o eterno déjà-vu. A história brasileira parece, às vezes, uma peça em permanente reprise: mudam os figurinos, as falas e os cenários, mas os personagens continuam por ali. Ora irreverentes, ora indignados, noutras ocasiões bonzinhos e convenientes. E há os autoproclamados "intelectuais", sempre preparados para explicar aos outros aquilo que eles próprios pouco compreendem.

Da loucura — porque alguma loucura é indispensável à sanidade — espero que consigamos manter a uma distância razoável os convenientes, os chatos de plantão, os protagonistas da tolice e, principalmente, os hipócritas. Estes atravessam governos, ideologias e gerações com impressionante capacidade de sobrevivência. Trocam de discurso com a mesma desenvoltura com que preservam seus interesses.

E deixo para a poesia aquilo que talvez seja o mais importante.

Que ela nos devolva um samba com bossa, emoção e paixão. Que nos permita acreditar novamente na delicadeza em tempos de brutalidade, na beleza em tempos de vulgaridade e na esperança em tempos de desencanto. Que possamos olhar para este país sem ingenuidade, mas também sem desistência.

Afinal, a esperança brasileira sempre teve algo de equilibrista. Caminha sobre o fio, tropeça, quase cai, recupera-se e continua. Talvez porque tenhamos aprendido, entre quedas e recomeços, que desistir também é uma forma de perder o equilíbrio.

E quem sabe ainda possamos sonhar, como naquela canção, com o Brasil que esperava a volta do irmão do Henfil.

Porque, enquanto houver poesia, ainda haverá um país possível.

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 8/08/2026. Opinião. p.15.


segunda-feira, 5 de outubro de 2026

O QUE É SER HUMILDE

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

A gente precisa aprender que ser humilde é cultivar a verdade de nossas qualidades e de nossos vícios, de nossos anjos e de nossos demônios;

A gente precisa aprender que nossos sonhos são sementes, precisam ser plantadas, regadas e cuidadas;

A gente precisa dar-se conta de que, se o terreno não for fértil, as sementes não medrarão, por mais que se as reguem;

A gente precisa aprender que não podemos ter aversão ao que somos. Mas, acatar o que somos, e, com amor sincero, equilibrar-nos, mudando, ajustando e consolidando, em cada dia;

A gente precisa entender que o túmulo não respeita diplomas, não ouve homenagens, nem aceita considerações e arrependimentos;

A gente precisa entender que honrarias e fama não atravessam os umbrais da eternidade;

A gente precisa entender que a terra não conserta nossos erros, apenas consome nossa matéria e deixa nossos passos seguirem ao encontro da eternidade, seja ela qual for;

A gente precisa compreender que o diálogo não é confronto, pode ser, às vezes, amargo, porém, nunca impõe, nunca censura, nunca desrespeita, tampouco nunca capitula. Sempre tolera, sempre respeita a vida, a liberdade e a dignidade da pessoa humana;

A gente precisa compreender que o diálogo é encontro de pessoas em suas diferenças;

A gente precisa compreender que o diálogo exige correição de caráter, firmeza de propósitos, honestidade de princípios, despojamento de preconceitos e de ódio, abertura da mente, ética de conduta e amor à criatura humana;

A gente precisa entender que nunca haverá uma só opinião, um só pensamento, uma única crença, pois, se acontecesse, seria o fim da raça humana.

Uma boa segunda-feira, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 27/07/26.


quinta-feira, 17 de setembro de 2026

A DOR DAS LEMBRANÇAS

Por Rev. Munguba Jr. (*)

Existem dores que não estão no presente, mas continuam vivas como se nunca tivessem passado. Elas não aparecem o tempo todo nem dominam todos os momentos, mas permanecem guardadas em algum lugar da alma, esperando apenas um estímulo para emergirem novamente.

Se ao lembrar de determinado acontecimento você sente dor, desconforto ou uma reação emocional intensa, isso revela algo importante: aquela ferida ainda não cicatrizou completamente. O tempo, por si só, não cura tudo. Em muitos casos, apenas ensina a pessoa a conviver com aquilo que nunca foi verdadeiramente resolvido.

A dor da alma raramente se apresenta de forma clara. Ela assume diferentes formas, muitas vezes mascaradas, dificultando sua identificação. Pode surgir como raiva desproporcional, inveja silenciosa, vergonha, ansiedade constante, medo ou até rejeição a pessoas, lugares e situações ligados a antigas experiências.

Uma pessoa pode perceber uma irritação recorrente ao conviver com alguém da própria família sem compreender sua origem. Em muitos casos, essa emoção está ligada à sensação de ter sido menos valorizada ou comparada de forma injusta. Em outro contexto, alguém que viveu uma experiência traumática pode não reviver conscientemente aquela dor, mas encontrar enorme dificuldade para confiar nas pessoas e construir vínculos afetivos saudáveis.

A mente humana possui mecanismos complexos de proteção. Experiências carregadas de sofrimento podem permanecer armazenadas em níveis inconscientes, influenciando emoções, escolhas e comportamentos sem que a pessoa perceba claramente sua origem.

É nesse ponto que entram os chamados gatilhos emocionais. Um gatilho é qualquer estímulo capaz de ativar uma memória emocional não resolvida. Pode ser uma palavra, um tom de voz, um ambiente ou uma situação específica. Quando isso acontece, a pessoa não reage apenas ao presente, mas também à dor que continua associada àquela lembrança.

Você não precisa continuar vivendo sob a égide da dor das lembranças. É possível ressignificar o passado. A memória permanece, mas deixa de controlar as emoções, as escolhas e o futuro. 

(*) Pastor Munguba Jr. Embaixador Cristão da Oração da Madrugada e Erradicação da Pobreza no Brasil e presidente da Igreja Batista Seven Church.

Fonte: O Povo, 1/08/2026. Opinião. p.14.


terça-feira, 8 de setembro de 2026

Solidão na velhice: paz e liberdade para uns; crueldade para outros

Por Márcia Alcântara Holanda (*)

— Até que enfim! — disse minha amiga Rita ao ler este título. — Agora você vai falar da solidão sem romantizá-la.

Ela tinha razão. Enquanto liamos o texto, acompanhava cada frase com o dedo na testa, cenho franzido, caras e bocas, mas, desta vez, parecia solidária às minhas ideias.

— É isso mesmo, Rita. Existe a solidão cruel: a do abandono, da invisibilidade e do idadismo. Essa fere, aniquila vidas e precisa ser combatida. A boa notícia é que hoje já conhecemos a dimensão do problema. Os números mostram que o Brasil envelhece rapidamente e precisa aprender, com urgência, a cuidar de seus velhos. É tempo de inovar na forma de acolher idosos com suas limitações da idade e das doenças crônicas, prevenindo sofrimentos que tantas vezes decorrem do descuido "Quem vai cuidar de você? Brasil envelhece sem se preparar para a conta da longevidade (Folha, 12-07-2026) desvenda essa grande questão sugerindo rotas possíveis de controle das mazelas de nós, os velhos brasileiros.

Mas existe outra solidão. É dela que falo agora.

Fernanda Montenegro disse, em entrevista ao Canal Brasil: "Por mais que você seja amado, por mais que seja cuidado, a velhice é solidão. É saber viver na solidão."

Concordei.

Não pela falta dos outros, mas porque chega um tempo em que ninguém pode ocupar o lugar da nossa própria consciência. É você diante de si mesmo, do que ainda é e do que já não é mais.

Foi isso que aconteceu comigo quando, aos 79 anos, a velhice me sacudiu inteira.

Assustou-me, mas trouxe uma paz que eu nunca conhecera.

Passei grande parte da vida correspondendo às expectativas da sociedade: ser produtiva, bonita, jovem, disponível, mãe e profissional competente. Como tantas mulheres, deixei que aparassem meus desejos para caber nos moldes do tempo.

Hoje percebo que meu livre-arbítrio era menos livre do que imaginava.

A velhice devolveu-me algo precioso: a liberdade de escolher por mim, sem culpa, sem disputas e sem a necessidade de provar meu valor.

Rita interrompeu meu entusiasmo:

— Mas nem toda velhice vive isso.

— Sim! — respondi. — Estás com razão.

A Organização Mundial da Saúde afirma que o idadismo atinge metade da população mundial. É ele que invisibiliza, infantiliza e afasta pessoas idosas, produzindo a mais dolorosa das solidões.

Clarice Lispector mostrou isso magistralmente em "Feliz Aniversário". Cercada pela família, Dona Anita chega aos 89 anos profundamente só.

Percebo, então, que existem algumas solidões na velhice.

A que nos é imposta pelo preconceito.

E a que nasce quando aprendemos a fazer boa companhia a nós mesmos.

A primeira precisa desaparecer.

A segunda pode ser uma das maiores conquistas da velhice.

— Então você continua gostando da palavra solidão? — insiste Rita.

Continuo.

Porque já não a confundo com abandono acabamos de discernir as duas.

Passei boa parte da vida tentando não ficar só.

A velhice ensinou-me que era justamente ali, no encontro comigo mesma, que morava a liberdade que procurei durante toda a vida.

(*) Médica pneumologista; coordenadora do Pulmocenter; membro honorável da Academia Cearense de Medicina.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 2/08/2026. Ciência & Saúde. p.16.


quarta-feira, 26 de agosto de 2026

A GENTE PRECISA

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

A gente precisa dar-se conta de que uma decepção pode transformar admiração em ódio.

A gente precisa aprender que ingratidão substitui a humildade por orgulho.

A gente precisa descobrir que usura transforma a fraternidade em egoísmo e a luxúria, prazer em produto.

A gente precisa saber que intolerância pode habitar ‘guetos’ de tolerância e criar preconceitos, falseando conceitos e deturpando crenças.

A gente precisa entender que injustiça veste a roupa da mentira na verdade e transforma justiça em subterfúgios escabrosos.

A gente precisa aprender que gratidão enobrece a alma, consolida a humanidade, humilha o orgulho, despreza a vaidade e engrandece o espírito.

A gente precisa entender que o caráter da amizade tem o selo da confiança. Uma vez quebrada, quebra também o caráter e finda por triturar também a amizade.

A gente precisa aprender a viver o perdão; ele é uma prova de amor e não prova ou garantia de merecimento.

A gente precisa aprender que a sinceridade do perdão se assemelha a ondas do mar que apagam a ofensa escrita na areia.

A gente precisa compreender que uma ofensa, posta debaixo de uma pedra, permanece e, em qualquer momento, a pedra pode rolar.

A gente precisa tomar consciência de que o nada nada no nada.

Uma boa terça-feira, com as bênçãos de Deus!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 30/06/26.


quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A QUE PONTO CHEGAMOS

Por Rev. Munguba Jr. (*)

De quatro em quatro anos o Brasil se reúne para viver a magia de uma Copa do Mundo. Pais sacrificam parte da poupança para realizar o sonho dos filhos com os álbuns de figurinhas, e milhões de brasileiros alimentam a esperança de ver mais uma estrela estampada na camisa da nossa seleção.

Lembro-me da Copa de 1970. Eu era apenas um menino, comendo rocambole de goiaba e correndo pelas ruas atrás do Colégio Batista, onde morávamos, comemorando cada vitória da seleção brasileira. Depois daquela conquista vieram outras duas inesquecíveis, consolidando o Brasil como a única seleção pentacampeã do mundo.

Entretanto, neste ano chegamos a um ponto diferente. O debate deixou de ser sobre futebol.

Assistimos a campanhas favoráveis e contrárias ao nosso camisa 10 não por sua condição física, seu talento, sua capacidade técnica ou sua recuperação das lesões, mas por causa de suas preferências políticas e declarações públicas.

Todo cidadão tem o direito de manifestar suas convicções e fazer suas escolhas. Somos contrários a qualquer forma de discriminação. Seja na política, na religião, na vida familiar ou na esfera da sexualidade, cada pessoa deve ser livre para expressar suas convicções. Respeitar uma decisão não significa, necessariamente, concordar com ela.

Quando escolhemos um médico para realizar uma cirurgia, observamos sua formação, sua experiência e seus resultados. Quando buscamos um salão de beleza, avaliamos a qualidade do atendimento e o resultado do serviço. Raramente perguntamos qual é a preferência política ou a orientação ideológica dessas pessoas.

Talvez estejamos perdendo a capacidade de distinguir o que é essencial do que é secundário. Precisamos aprender novamente a separar as estações da vida e evitar transformar diferenças de opinião em critérios absolutos para julgar pessoas.

Quando confundimos competência com preferência, perdemos muito mais do que um jogo. Perdemos a capacidade de conviver.

Vai lá, Neymar! Faça no campo aquilo que você sabe fazer. Honre a camisa da seleção com dedicação, entrega e excelência. E, se Deus permitir, ajude a trazer para o Brasil mais uma estrela.

(*) Pastor Munguba Jr. Embaixador Cristão da Oração da Madrugada e Erradicação da Pobreza no Brasil e presidente da Igreja Batista Seven Church.

Fonte: O Povo, 4/07/2026. Opinião. p.24.


quarta-feira, 12 de agosto de 2026

INFORMAÇÃO NÃO É SABEDORIA

Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

Uma leitura recente do economista e escritor americano Thomas Sowell levou-me a uma reflexão que parece cada vez mais atual. Vivemos a era da inteligência artificial, da informação instantânea e da abundância de dados. Nunca foi tão fácil saber. Paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão difícil compreender.

Em Os Intelectuais e a Sociedade, Sowell distingue conhecimento de sabedoria. Os intelectuais - os chamados "ungidos" - acumulam informações, formulam teorias e influenciam o debate público. Mas isso não os torna, necessariamente, sábios. A sabedoria nasce quando o conhecimento é temperado pela experiência, pela humildade e pelo compromisso com o bem comum. Seu oposto não é a ignorância, mas a insensatez. Da mesma forma, a inteligência pode sucumbir à estupidez quando perde a capacidade de reconhecer os próprios limites.

A história é pródiga em teorias defendidas com fervor, muitas delas apresentadas como verdades definitivas que acabaram desmentidas pelo tempo. Ainda assim, seus formuladores permanecem reverenciados, como se a eloquência pudesse substituir a evidência. O progresso do conhecimento nunca foi linear; sempre dependeu da disposição de revisar certezas.

A questão que se impõe é outra: a revolução tecnológica tornará o debate público mais racional? Seremos mais capazes de ouvir, ponderar e mudar de opinião diante dos fatos? Ou caminharemos para uma sociedade dividida entre certezas absolutas, onde qualquer discordância é tratada como ameaça?

A informação é indispensável ao desenvolvimento humano. Contudo, isolada do contexto e da reflexão crítica, ela pode produzir exatamente o efeito contrário. Em vez de aproximar, separa; em vez de esclarecer, confunde. Narrativas simplificadas encontram terreno fértil quando oferecem respostas fáceis para problemas complexos. E, na velocidade das redes, emoções costumam viajar mais rápido que evidências.

Enquanto continuarmos a rotular pessoas antes de examinar argumentos, pouco avançaremos. Crenças não são artigos de fé imutáveis. Diferentemente dos gostos pessoais, elas devem estar abertas à revisão sempre que novas evidências surgirem, sobretudo quando dizem respeito aos fatos e às relações de causa e efeito.

Decidir bem exige mais do que informação. Exige método, espírito crítico, capacidade de verificar, responsabilidade intelectual e, sobretudo, humildade para admitir o erro.

Lembro-me, então, de uma frase de um antigo professor: "O céu é longe", assim como a caminhada rumo à sabedoria. Ainda habitamos um mundo de opiniões apressadas e certezas frágeis, frequentemente sustentadas mais pela convicção do que pela razão.

Talvez por isso permaneça tão atual a observação de Bertrand Russell: "O problema do mundo é que os estúpidos têm plena convicção, enquanto os inteligentes são cheios de dúvidas." Em tempos de excesso de informação, talvez a virtude esteja em cultivar a dúvida honesta, aquela que não enfraquece o pensamento, mas o torna mais livre e mais próximo da verdade.

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 11/07/2026. Opinião. p.23.


domingo, 2 de agosto de 2026

O desafio de ter o coração semelhante ao de Cristo

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

Junho ocupa um lugar especial na espiritualidade católica. Tradicionalmente dedicado ao Sagrado Coração de Jesus, este mês convida os cristãos a contemplarem a essência do Evangelho: o amor de Deus revelado em Cristo.

A imagem do Coração de Jesus tornou-se, ao longo da história, um dos símbolos mais profundos da misericórdia divina. É o coração que acolhe os que sofrem, que perdoa os pecadores, que consola os aflitos e que permanece aberto mesmo diante da rejeição. Contemplar o Coração de Jesus é contemplar um amor que não desiste da humanidade.

Talvez uma das maiores necessidades do nosso tempo seja justamente reaprender a viver a partir das premissas do coração de Jesus. Estamos conectados por inúmeras tecnologias, mas muito distantes uns dos outros. Temos acesso a informações em abundância, mas nem sempre cultivamos a escuta, a compreensão e a capacidade de ocupar o lugar do outro.

O coração do homem contemporâneo é constantemente inquieto, cansado e endurecido. Há pressa para julgar, mas pouca disposição para acolher. Há facilidade para apontar falhas, mas dificuldade para praticar a misericórdia. Em uma sociedade marcada por divisões e intolerâncias, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus nos recorda que a verdadeira transformação começa dentro de nós.

Quando olhamos para Jesus nos Evangelhos, encontramos alguém profundamente sensível à dor do próximo. Ele acolhe os excluídos, aproxima-se dos marginalizados e oferece esperança aos que perderam o sentido da vida. Seu coração é movido pela compaixão, pela humildade e pelo amor.

Por isso, celebrar o mês do Sagrado Coração é também uma oportunidade de examinar a própria vida. O que temos cultivado em nosso coração? Somos instrumentos de reconciliação ou de conflito? Nossas palavras aproximam ou afastam as pessoas?

O mundo necessita de homens e mulheres que tenham um coração semelhante ao de Cristo: capaz de acolher, perdoar, servir e amar gratuitamente. A paz que tanto buscamos para a sociedade nasce, antes de tudo, da conversão do coração humano.

Que junho seja um convite para nos deixarmos transformar por esse amor. E que, ao contemplarmos o Coração de Jesus, aprendamos a viver com mais ternura, tolerância e misericórdia.

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.

Fonte: O Povo, de 27/06/2026. Opinião. p.24.


sábado, 18 de julho de 2026

Amizade abusiva Parte 2/2

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

- Amizade possessiva e pegajosa. 

Na verdade, um conflito interior de carências e de baixa autoestima, busca, incessantemente, uma tábua de garantir alguma segurança, uma vez que a instabilidade emocional cobra, de maneira possessiva, tornando-se insana obsessão. O ciúme enverga o rigor do bastão do controle, com investidas contra até mesmo um sorriso inocente. Este tipo doentio de amizade não abraça, prende; não dialoga, impõe; não confia, sufoca. Atitudes, que tentam isolar até mesmo do círculo de familiares. Trata-se de uma amizade, que consome e que pode chegar a níveis, altamente, perigosos. Características, que apontam tal amizade: chantagem emocional, invasão de privacidade, vitimização e outras.

- Amizade subserviente e dependente. Esta modalidade também é disfuncional. Enquanto uma parte desdobra-se em servir e ser agradável, a outra parte não reage com cumplicidade, ou seja, não há mutualidade. Há uma carência e uma dependência emocional, com forte medo de perda, se não permanecer, irrestritamente, ‘servil’; e uma ansiedade angustiante termina por uma anulação pessoal, cedendo a atitudes abusivas. Cedo ou tarde, vem o desgaste pelo desequilíbrio ‘inter pares’.

- Amizade dominadora. Pior que ‘um chato de galocha’, esta amizade tóxica é própria de pessoas autossuficientes, egoístas e orgulhosas, com laivos de narcisismo. Determina regras e cobra atitudes, chegando a impor sua vontade, seus valores e suas opiniões. Aponta defeitos, estabelece limites e trata a outra parte como ‘tabula rasa’. Não há espaço para diálogo, nem para críticas.

- Amizade interesseira. Enquanto ferve a panela, prospera a amizade. Na verdade, não há traços vinculantes de afeto, nem dança de empatia. O móvel deste relacionamento é a conveniência para um ou para ambos. A aproximação está sujeita a necessidades, ou seja, quando surgem problemas, sendo que, na maioria das vezes, também não há reciprocidade, se é a outra parte que está precisando de apoio.

- Amizade predadora. Este modal pode-se dizer que é o extremismo do anterior. Os motivos que levam a este tipo são diversos, inclusive a vingança e a inveja, no sentido de falsear sentimentos para extrair vantagens excessivas, que minam bens, segurança e podem anular sonhos e conquistas pessoais. A máscara de empatia busca barganhar confiança da outra parte, com o objetivo de manipular e explorar: dourar a pílula não transforma em ouro ouropel.

O predador intenta anda isolar a pessoa de amigos e de familiares, que possam denunciar a exploração.

Nada, portanto, mais triste e deprimente, quando toda uma afeição amigável é contrastada pela hipocrisia e traição de quem se tinha a certeza de que fluía uma verdadeira amizade e sincera.

Nossa contingência, sabe-se, exibe uma caixinha de surpresas, que orquestram nossas fragilidades, mas norteiam também nossas qualidades, ainda que idiossincrasias internas possam ocultar algumas ou, infelizmente, quase todas. E tudo isso tem um balizamento pelo nosso livre arbítrio, o qual, por sua vez, atende aos alicerces que fundamos no nosso ser e nos torna responsáveis pela amizade que cativamos, como diz o Pequeno Príncipe.

Enfim, a amizade precisa aprender que a atitude do amigo deve ser mais compreensível do que repreensível, porém sem se furtar, tampouco omitir-se em momentos necessários. E, mais do que isso, a prudência deve conjugar-se com a sabedoria, ao compreender que cultivar uma amizade é tomar consciência de que neste jardim, não florescem rosas sem espinhos e que os espinhos falam da humildade e simplicidade, ao lado das rosas, que exalam prazer e alegria. Sem essa consciência assumida, não é de estranhar que se pode perder num minuto uma amizade de muitos anos, talvez, sem mesmo dar tempo de ouvir o ‘canto do cisne’, porque a hora não demora.

Dignidade humilhada e ferida, triste amizade perdida.

E, no caminho, que não se ouça nenhum aboio, porque a toada é do apoio afetuoso, que anda ao lado.

Uma saudável quinta-feira, com as bênçãos de Deus e a proteção de Maria!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 25/06/26.


 

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