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terça-feira, 8 de setembro de 2026

Solidão na velhice: paz e liberdade para uns; crueldade para outros

Por Márcia Alcântara Holanda (*)

— Até que enfim! — disse minha amiga Rita ao ler este título. — Agora você vai falar da solidão sem romantizá-la.

Ela tinha razão. Enquanto liamos o texto, acompanhava cada frase com o dedo na testa, cenho franzido, caras e bocas, mas, desta vez, parecia solidária às minhas ideias.

— É isso mesmo, Rita. Existe a solidão cruel: a do abandono, da invisibilidade e do idadismo. Essa fere, aniquila vidas e precisa ser combatida. A boa notícia é que hoje já conhecemos a dimensão do problema. Os números mostram que o Brasil envelhece rapidamente e precisa aprender, com urgência, a cuidar de seus velhos. É tempo de inovar na forma de acolher idosos com suas limitações da idade e das doenças crônicas, prevenindo sofrimentos que tantas vezes decorrem do descuido "Quem vai cuidar de você? Brasil envelhece sem se preparar para a conta da longevidade (Folha, 12-07-2026) desvenda essa grande questão sugerindo rotas possíveis de controle das mazelas de nós, os velhos brasileiros.

Mas existe outra solidão. É dela que falo agora.

Fernanda Montenegro disse, em entrevista ao Canal Brasil: "Por mais que você seja amado, por mais que seja cuidado, a velhice é solidão. É saber viver na solidão."

Concordei.

Não pela falta dos outros, mas porque chega um tempo em que ninguém pode ocupar o lugar da nossa própria consciência. É você diante de si mesmo, do que ainda é e do que já não é mais.

Foi isso que aconteceu comigo quando, aos 79 anos, a velhice me sacudiu inteira.

Assustou-me, mas trouxe uma paz que eu nunca conhecera.

Passei grande parte da vida correspondendo às expectativas da sociedade: ser produtiva, bonita, jovem, disponível, mãe e profissional competente. Como tantas mulheres, deixei que aparassem meus desejos para caber nos moldes do tempo.

Hoje percebo que meu livre-arbítrio era menos livre do que imaginava.

A velhice devolveu-me algo precioso: a liberdade de escolher por mim, sem culpa, sem disputas e sem a necessidade de provar meu valor.

Rita interrompeu meu entusiasmo:

— Mas nem toda velhice vive isso.

— Sim! — respondi. — Estás com razão.

A Organização Mundial da Saúde afirma que o idadismo atinge metade da população mundial. É ele que invisibiliza, infantiliza e afasta pessoas idosas, produzindo a mais dolorosa das solidões.

Clarice Lispector mostrou isso magistralmente em "Feliz Aniversário". Cercada pela família, Dona Anita chega aos 89 anos profundamente só.

Percebo, então, que existem algumas solidões na velhice.

A que nos é imposta pelo preconceito.

E a que nasce quando aprendemos a fazer boa companhia a nós mesmos.

A primeira precisa desaparecer.

A segunda pode ser uma das maiores conquistas da velhice.

— Então você continua gostando da palavra solidão? — insiste Rita.

Continuo.

Porque já não a confundo com abandono acabamos de discernir as duas.

Passei boa parte da vida tentando não ficar só.

A velhice ensinou-me que era justamente ali, no encontro comigo mesma, que morava a liberdade que procurei durante toda a vida.

(*) Médica pneumologista; coordenadora do Pulmocenter; membro honorável da Academia Cearense de Medicina.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 2/08/2026. Ciência & Saúde. p.16.


quarta-feira, 26 de agosto de 2026

A GENTE PRECISA

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

A gente precisa dar-se conta de que uma decepção pode transformar admiração em ódio.

A gente precisa aprender que ingratidão substitui a humildade por orgulho.

A gente precisa descobrir que usura transforma a fraternidade em egoísmo e a luxúria, prazer em produto.

A gente precisa saber que intolerância pode habitar ‘guetos’ de tolerância e criar preconceitos, falseando conceitos e deturpando crenças.

A gente precisa entender que injustiça veste a roupa da mentira na verdade e transforma justiça em subterfúgios escabrosos.

A gente precisa aprender que gratidão enobrece a alma, consolida a humanidade, humilha o orgulho, despreza a vaidade e engrandece o espírito.

A gente precisa entender que o caráter da amizade tem o selo da confiança. Uma vez quebrada, quebra também o caráter e finda por triturar também a amizade.

A gente precisa aprender a viver o perdão; ele é uma prova de amor e não prova ou garantia de merecimento.

A gente precisa aprender que a sinceridade do perdão se assemelha a ondas do mar que apagam a ofensa escrita na areia.

A gente precisa compreender que uma ofensa, posta debaixo de uma pedra, permanece e, em qualquer momento, a pedra pode rolar.

A gente precisa tomar consciência de que o nada nada no nada.

Uma boa terça-feira, com as bênçãos de Deus!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 30/06/26.


quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A QUE PONTO CHEGAMOS

Por Rev. Munguba Jr. (*)

De quatro em quatro anos o Brasil se reúne para viver a magia de uma Copa do Mundo. Pais sacrificam parte da poupança para realizar o sonho dos filhos com os álbuns de figurinhas, e milhões de brasileiros alimentam a esperança de ver mais uma estrela estampada na camisa da nossa seleção.

Lembro-me da Copa de 1970. Eu era apenas um menino, comendo rocambole de goiaba e correndo pelas ruas atrás do Colégio Batista, onde morávamos, comemorando cada vitória da seleção brasileira. Depois daquela conquista vieram outras duas inesquecíveis, consolidando o Brasil como a única seleção pentacampeã do mundo.

Entretanto, neste ano chegamos a um ponto diferente. O debate deixou de ser sobre futebol.

Assistimos a campanhas favoráveis e contrárias ao nosso camisa 10 não por sua condição física, seu talento, sua capacidade técnica ou sua recuperação das lesões, mas por causa de suas preferências políticas e declarações públicas.

Todo cidadão tem o direito de manifestar suas convicções e fazer suas escolhas. Somos contrários a qualquer forma de discriminação. Seja na política, na religião, na vida familiar ou na esfera da sexualidade, cada pessoa deve ser livre para expressar suas convicções. Respeitar uma decisão não significa, necessariamente, concordar com ela.

Quando escolhemos um médico para realizar uma cirurgia, observamos sua formação, sua experiência e seus resultados. Quando buscamos um salão de beleza, avaliamos a qualidade do atendimento e o resultado do serviço. Raramente perguntamos qual é a preferência política ou a orientação ideológica dessas pessoas.

Talvez estejamos perdendo a capacidade de distinguir o que é essencial do que é secundário. Precisamos aprender novamente a separar as estações da vida e evitar transformar diferenças de opinião em critérios absolutos para julgar pessoas.

Quando confundimos competência com preferência, perdemos muito mais do que um jogo. Perdemos a capacidade de conviver.

Vai lá, Neymar! Faça no campo aquilo que você sabe fazer. Honre a camisa da seleção com dedicação, entrega e excelência. E, se Deus permitir, ajude a trazer para o Brasil mais uma estrela.

(*) Pastor Munguba Jr. Embaixador Cristão da Oração da Madrugada e Erradicação da Pobreza no Brasil e presidente da Igreja Batista Seven Church.

Fonte: O Povo, 4/07/2026. Opinião. p.24.


quarta-feira, 12 de agosto de 2026

INFORMAÇÃO NÃO É SABEDORIA

Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

Uma leitura recente do economista e escritor americano Thomas Sowell levou-me a uma reflexão que parece cada vez mais atual. Vivemos a era da inteligência artificial, da informação instantânea e da abundância de dados. Nunca foi tão fácil saber. Paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão difícil compreender.

Em Os Intelectuais e a Sociedade, Sowell distingue conhecimento de sabedoria. Os intelectuais - os chamados "ungidos" - acumulam informações, formulam teorias e influenciam o debate público. Mas isso não os torna, necessariamente, sábios. A sabedoria nasce quando o conhecimento é temperado pela experiência, pela humildade e pelo compromisso com o bem comum. Seu oposto não é a ignorância, mas a insensatez. Da mesma forma, a inteligência pode sucumbir à estupidez quando perde a capacidade de reconhecer os próprios limites.

A história é pródiga em teorias defendidas com fervor, muitas delas apresentadas como verdades definitivas que acabaram desmentidas pelo tempo. Ainda assim, seus formuladores permanecem reverenciados, como se a eloquência pudesse substituir a evidência. O progresso do conhecimento nunca foi linear; sempre dependeu da disposição de revisar certezas.

A questão que se impõe é outra: a revolução tecnológica tornará o debate público mais racional? Seremos mais capazes de ouvir, ponderar e mudar de opinião diante dos fatos? Ou caminharemos para uma sociedade dividida entre certezas absolutas, onde qualquer discordância é tratada como ameaça?

A informação é indispensável ao desenvolvimento humano. Contudo, isolada do contexto e da reflexão crítica, ela pode produzir exatamente o efeito contrário. Em vez de aproximar, separa; em vez de esclarecer, confunde. Narrativas simplificadas encontram terreno fértil quando oferecem respostas fáceis para problemas complexos. E, na velocidade das redes, emoções costumam viajar mais rápido que evidências.

Enquanto continuarmos a rotular pessoas antes de examinar argumentos, pouco avançaremos. Crenças não são artigos de fé imutáveis. Diferentemente dos gostos pessoais, elas devem estar abertas à revisão sempre que novas evidências surgirem, sobretudo quando dizem respeito aos fatos e às relações de causa e efeito.

Decidir bem exige mais do que informação. Exige método, espírito crítico, capacidade de verificar, responsabilidade intelectual e, sobretudo, humildade para admitir o erro.

Lembro-me, então, de uma frase de um antigo professor: "O céu é longe", assim como a caminhada rumo à sabedoria. Ainda habitamos um mundo de opiniões apressadas e certezas frágeis, frequentemente sustentadas mais pela convicção do que pela razão.

Talvez por isso permaneça tão atual a observação de Bertrand Russell: "O problema do mundo é que os estúpidos têm plena convicção, enquanto os inteligentes são cheios de dúvidas." Em tempos de excesso de informação, talvez a virtude esteja em cultivar a dúvida honesta, aquela que não enfraquece o pensamento, mas o torna mais livre e mais próximo da verdade.

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 11/07/2026. Opinião. p.23.


domingo, 2 de agosto de 2026

O desafio de ter o coração semelhante ao de Cristo

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

Junho ocupa um lugar especial na espiritualidade católica. Tradicionalmente dedicado ao Sagrado Coração de Jesus, este mês convida os cristãos a contemplarem a essência do Evangelho: o amor de Deus revelado em Cristo.

A imagem do Coração de Jesus tornou-se, ao longo da história, um dos símbolos mais profundos da misericórdia divina. É o coração que acolhe os que sofrem, que perdoa os pecadores, que consola os aflitos e que permanece aberto mesmo diante da rejeição. Contemplar o Coração de Jesus é contemplar um amor que não desiste da humanidade.

Talvez uma das maiores necessidades do nosso tempo seja justamente reaprender a viver a partir das premissas do coração de Jesus. Estamos conectados por inúmeras tecnologias, mas muito distantes uns dos outros. Temos acesso a informações em abundância, mas nem sempre cultivamos a escuta, a compreensão e a capacidade de ocupar o lugar do outro.

O coração do homem contemporâneo é constantemente inquieto, cansado e endurecido. Há pressa para julgar, mas pouca disposição para acolher. Há facilidade para apontar falhas, mas dificuldade para praticar a misericórdia. Em uma sociedade marcada por divisões e intolerâncias, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus nos recorda que a verdadeira transformação começa dentro de nós.

Quando olhamos para Jesus nos Evangelhos, encontramos alguém profundamente sensível à dor do próximo. Ele acolhe os excluídos, aproxima-se dos marginalizados e oferece esperança aos que perderam o sentido da vida. Seu coração é movido pela compaixão, pela humildade e pelo amor.

Por isso, celebrar o mês do Sagrado Coração é também uma oportunidade de examinar a própria vida. O que temos cultivado em nosso coração? Somos instrumentos de reconciliação ou de conflito? Nossas palavras aproximam ou afastam as pessoas?

O mundo necessita de homens e mulheres que tenham um coração semelhante ao de Cristo: capaz de acolher, perdoar, servir e amar gratuitamente. A paz que tanto buscamos para a sociedade nasce, antes de tudo, da conversão do coração humano.

Que junho seja um convite para nos deixarmos transformar por esse amor. E que, ao contemplarmos o Coração de Jesus, aprendamos a viver com mais ternura, tolerância e misericórdia.

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.

Fonte: O Povo, de 27/06/2026. Opinião. p.24.


sábado, 18 de julho de 2026

Amizade abusiva Parte 2/2

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

- Amizade possessiva e pegajosa. 

Na verdade, um conflito interior de carências e de baixa autoestima, busca, incessantemente, uma tábua de garantir alguma segurança, uma vez que a instabilidade emocional cobra, de maneira possessiva, tornando-se insana obsessão. O ciúme enverga o rigor do bastão do controle, com investidas contra até mesmo um sorriso inocente. Este tipo doentio de amizade não abraça, prende; não dialoga, impõe; não confia, sufoca. Atitudes, que tentam isolar até mesmo do círculo de familiares. Trata-se de uma amizade, que consome e que pode chegar a níveis, altamente, perigosos. Características, que apontam tal amizade: chantagem emocional, invasão de privacidade, vitimização e outras.

- Amizade subserviente e dependente. Esta modalidade também é disfuncional. Enquanto uma parte desdobra-se em servir e ser agradável, a outra parte não reage com cumplicidade, ou seja, não há mutualidade. Há uma carência e uma dependência emocional, com forte medo de perda, se não permanecer, irrestritamente, ‘servil’; e uma ansiedade angustiante termina por uma anulação pessoal, cedendo a atitudes abusivas. Cedo ou tarde, vem o desgaste pelo desequilíbrio ‘inter pares’.

- Amizade dominadora. Pior que ‘um chato de galocha’, esta amizade tóxica é própria de pessoas autossuficientes, egoístas e orgulhosas, com laivos de narcisismo. Determina regras e cobra atitudes, chegando a impor sua vontade, seus valores e suas opiniões. Aponta defeitos, estabelece limites e trata a outra parte como ‘tabula rasa’. Não há espaço para diálogo, nem para críticas.

- Amizade interesseira. Enquanto ferve a panela, prospera a amizade. Na verdade, não há traços vinculantes de afeto, nem dança de empatia. O móvel deste relacionamento é a conveniência para um ou para ambos. A aproximação está sujeita a necessidades, ou seja, quando surgem problemas, sendo que, na maioria das vezes, também não há reciprocidade, se é a outra parte que está precisando de apoio.

- Amizade predadora. Este modal pode-se dizer que é o extremismo do anterior. Os motivos que levam a este tipo são diversos, inclusive a vingança e a inveja, no sentido de falsear sentimentos para extrair vantagens excessivas, que minam bens, segurança e podem anular sonhos e conquistas pessoais. A máscara de empatia busca barganhar confiança da outra parte, com o objetivo de manipular e explorar: dourar a pílula não transforma em ouro ouropel.

O predador intenta anda isolar a pessoa de amigos e de familiares, que possam denunciar a exploração.

Nada, portanto, mais triste e deprimente, quando toda uma afeição amigável é contrastada pela hipocrisia e traição de quem se tinha a certeza de que fluía uma verdadeira amizade e sincera.

Nossa contingência, sabe-se, exibe uma caixinha de surpresas, que orquestram nossas fragilidades, mas norteiam também nossas qualidades, ainda que idiossincrasias internas possam ocultar algumas ou, infelizmente, quase todas. E tudo isso tem um balizamento pelo nosso livre arbítrio, o qual, por sua vez, atende aos alicerces que fundamos no nosso ser e nos torna responsáveis pela amizade que cativamos, como diz o Pequeno Príncipe.

Enfim, a amizade precisa aprender que a atitude do amigo deve ser mais compreensível do que repreensível, porém sem se furtar, tampouco omitir-se em momentos necessários. E, mais do que isso, a prudência deve conjugar-se com a sabedoria, ao compreender que cultivar uma amizade é tomar consciência de que neste jardim, não florescem rosas sem espinhos e que os espinhos falam da humildade e simplicidade, ao lado das rosas, que exalam prazer e alegria. Sem essa consciência assumida, não é de estranhar que se pode perder num minuto uma amizade de muitos anos, talvez, sem mesmo dar tempo de ouvir o ‘canto do cisne’, porque a hora não demora.

Dignidade humilhada e ferida, triste amizade perdida.

E, no caminho, que não se ouça nenhum aboio, porque a toada é do apoio afetuoso, que anda ao lado.

Uma saudável quinta-feira, com as bênçãos de Deus e a proteção de Maria!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 25/06/26.


Amizade abusiva Parte 1/2

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

- Alguma vez, passou-lhe pela mente o termo ‘amizade de araque’?

- Alguma vez, conheceu uma decepção de amizade?

- Você já ouviu: quem tem um amigo ‘assim’ não precisa de inimigo?

Relacionamentos humanos não têm bola de cristal, nem são imunes às fragilidades e instabilidades da natureza humana. Não há um padrão, nem existe uma receita. São uma construção, cuja beleza e segurança provêm de seus fundamentos, da pedra de base.

Antes do uso da razão, somos movidos por emoções, cuja coordenação nos vem na aprendizagem, que nos é dada, inicialmente, no colo materno e no convívio familiar. É de pequeno que se começa a forjar o caráter, que nos marcará tanto relacionamentos intrapessoais como amizades e amores.

Somos todos seres de relacionamento, no tecido social ao qual nos associamos, como próprio de nossa natureza, mesmo antes de nosso nascimento. E, a partir de nosso epicentro, criamos uma interatividade mútua e vamos aprendendo e vivenciando papéis que o convívio social exige de nós. Nossa individualidade nos caracteriza e, com ela e, através dela, estabelecemos relacionamentos de diversos matizes.

Existem as amizades serenas, onde a mutualidade de respeito e afeto sela a dignidade entre os amigos. Este modal traz o sinete das individualidades envolvidas e busca superar os mal-estares que, por certo, surgirão: o melhor amigo, um dia, magoará o outro e é, nessa situação, que o valor da amizade se manifesta, no diálogo amistoso e no apoio da correção honrosa ou no desvalor de uma acusação impiedosa sem diálogo e numa penalidade, estranhamente, desonrosa; e, num minuto, pode-se esvair uma amizade, cujo terreno parecia fértil e ora desnuda-se, mostrando-se pedregoso: ‘amicus certus in re incerta cernitur’.

Há amizades, que, de fato, não mereciam ser assim denominadas. São as ditas amizades abusivas ou tóxicas, aquelas, cujo foco não é o bem-estar de ambas as partes, ou quando interesses outros, que não empáticos, dominam uma das partes. Eis algumas dentre muitas outras tipologias:

--- Continua

Uma boa quarta-feira, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 25/06/26.


sexta-feira, 17 de julho de 2026

O que pensas? Em que estás a pensar? Como estás pensando?

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Pensar é uma das características basilares da criatura humana. Pensar nos molda ou nós o moldamos?

Muitas ideias, opiniões, considerações passam pela nossa mente, todavia, há algumas em que nos fixamos, sobretudo, no que se refere a problemas e situações embaraçosas, tarefas pendentes, medos e inseguranças. E, a partir daí, filtramos a modalidade de ‘em que’ estamos a pensar e escolhemos o ‘como’ estamos a pensar. É algo instantâneo, em resposta às tantas investidas experienciais, que têm formatado nosso portfólio mental estrutural.

Os modais de ‘como’ pensar desencadeiam reações tanto gerais como direcionadas a certos órgãos, influenciando nosso bem-estar, nossos relacionamentos, e nosso modus vivendi. Pensar demais (overthinking) nem sempre é danoso, desde que favoreça seu mapeamento e estabeleça uma análise, em vista de uma tomada de decisão, numa ligação lógica epistemológico-cognitiva. Se o período fica demasiado longo, ou este ou aquele pensar fica se repetindo, sem uma perspectiva de solução, o pensar assume outros ares, com implicâncias nocivas.

Podemos imaginar um pensar ruminante automático e descontrolado, que não produz soluções, senão induz mais pensares conflitivos, não evolui e fecha-se sem perspectivas solucionáticas. O tempo importa, sim, para a organização do contexto, avaliação de estratégias e não proceder de maneira desorganizada, aleatória e desequilibrada. Como nos ensina o provérbio latino, aqui cabe também o ’in médio virtus’, ou seja, um tempo médio suficiente para identificar as causas, verificar inconsistências e rever a práxis de princípios e valores.

O pensar, que se fecha num ciclo recorrente, cria uma zona morta, desconecta-se da realidade e raquitiza o processo, tanto pessoal, quanto social, tanto perquiritório quanto científico. Há, todavia, que distinguir reiteração automática de repetição programada, aquela geratriz de ansiedades, sofrimentos e, mesmo, depressão, e esta, a fim de permitir melhor análise e ensejar decisão sensata e eficaz.

É notório que há insinuações emocionais, dependentes do contexto fático, seja traumático ou experiências dolorosas e perturbadoras. Tais situações necessitam de um ‘eu’ moderador que impeça assalto à nossa mente, provocando uma disfunção existencial, que distorce a nossa condução insubstituível de nossa vida. Uma reflexão, portanto, de nossa existência permite-nos conhecer os meandros do rio que somos e sinaliza, como afirma Mário Sérgio Cortella, a busca de maturidade.

Ao pensar impõe-se significar o próprio pensar.

Pensar nos molda ou nós o moldamos?

Uma profícua e aprazível segunda-feira, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 10/06/26.


domingo, 5 de julho de 2026

A espiritualidade cura os males da contemporaneidade

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

A exaustão emocional se tornou uma das marcas mais silenciosas do nosso tempo. Vivemos cercados por cobranças, metas, comparações e estímulos incessantes. Há uma pressa coletiva adoecendo a alma humana. Muitos despertam cansados antes mesmo de começar o dia. Outros seguem funcionando no automático, sorrindo por fora enquanto carregam, por dentro, um coração sobrecarregado de angústias, medos e incertezas.

Paradoxalmente, nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão vazios. Temos acesso a quase tudo, mas perdemos a intimidade com o essencial. Em meio a uma cultura que valoriza produtividade acima da paz interior, a espiritualidade cristã reaparece não como fuga da realidade, mas como caminho de reencontro com a esperança.

A esperança cristã não nasce da ausência de problemas. Ela brota justamente no meio das dores humanas. A Ressurreição de Cristo, celebrada neste tempo pascal pela Igreja, é o maior testemunho de que o sofrimento não possui a última palavra. Depois da cruz, existe vida nova. Depois da noite, existe amanhecer.

Talvez um dos grandes dramas contemporâneos seja acreditar que precisamos suportar tudo sozinhos. O Evangelho, porém, nos recorda continuamente: "Vinde a mim todos vós que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei". Cristo não promete uma vida sem batalhas, mas oferece presença, consolo e sentido em meio às batalhas da existência.

Em tempos de exaustão emocional, recuperar a espiritualidade é também reaprender a silenciar, contemplar, rezar e desacelerar. É compreender que a alma também necessita de descanso. A esperança cristã nos devolve a capacidade de olhar para a vida sem desespero, porque nos recorda que Deus continua presente, mesmo quando tudo parece escuro demais.

Maria, tão celebrada neste mês de maio, também nos ensina sobre essa esperança silenciosa. Ela permaneceu de pé diante da dor sem perder a confiança em Deus. Sua serenidade atravessa os séculos como um convite para que aprendamos novamente a respirar espiritualmente, confiando que nenhuma lágrima é ignorada pelo céu.

Talvez seja exatamente isso que o coração humano mais precise reencontrar hoje: menos ruído, menos pressa e mais esperança.

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.

Fonte: O Povo, de 30/05/2026. Opinião. p.22.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

UM MURMÚRIO DE EMOÇÕES

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

- Eu peço desculpas

Tomado de raiva, que lhe envermelha o rosto e franze o cenho, a bruta de uma emoção arremete, tão áspera quanto violenta:

- Não, não desculpo.

E repete, com as pulsações do coração soprando-lhe a camisa branca, à altura do peito esquerdo, no inflar célere dos pulmões:

- Não e não.

Emoções são um dos nossos patrimônios humanos. Elas mesmas nos antecedem o farfalhar da razão, nascem conosco, inda que embrionárias, dentro de seu casulo, mas, com, pelo menos, uma probóscide em atividade, ora instintiva.

Elas não explodem sem, antes, nos implodir, por primeiro.

Mas, o que é emoção?

É um sentimento ou uma forte e abrupta reação a algo ou alguém, que nos provoca, ao atingir a fragilidade de nossos domínios interiores e nos bofeteia ou arranha ou nos acaricia, galanteia e empluma?

Derivada do latim e + movére (mover para fora), emoção apresenta-se como reação psicofisiológica instantânea, provocada por um estímulo qualquer e dispõe de três assessores: neurobiológico, comportamental e cognitivo. A psicologia considera a emoção uma reação biológica automática, enquanto o sentimento decorre da interpretação de nosso consciente, fundamentado em nosso livre arbítrio.

Não há muros que suportem o ataque das nossas emoções, dessas catapultas, que assaltam todos os nossos flancos, traindo nossa interioridade ou admoestando o ‘ignoto’, que somos: segredo, que não conseguimos guardar, pois, nalgum momento, nos expõe, às claras.

Essa lava vulcânica não apenas pode destruir, mas lastreia também um terreno fértil ao exercício de nossa maturidade. São emoções que nos afastam de perigos, que nos estimulam empatia ou antipatia. Emoções podem estimular a produção tanto de serotonina como de cortisol: aquela, de emoções positivas, como a gratidão, a admiração, a esperança e este, de emoções negativas, a exemplo da ansiedade, da angústia, da raiva e da ira.

Se deixas tuas emoções te dominarem, elas decidirão por ti e talvez te denunciem orgulho e autossuficiência de uma certa altivez indomada. E não te assustes com as deletérias surpresas que elas te criarão, mais no interior do que ao teu derredor, que também não são menos deletérias.

Tu lhe deste o timão de tua vida.

Lembra-te: toda decisão que tomares em momentos de forte e profunda emoção, seja de qualquer timbre, provocar-te-á arrependimento e para mitigá-lo, tu engendrarás quaisquer justificativas, far-te-ás de vítima ou remoerás remorsos, inda que com a hipocrisia de mambembes disfarces, que não te promovem paz de consciência tampouco tranquilidade de espírito, a não ser que tenhas imposto algum dano ao teu caráter e humana hombridade.

Enfim, emoções são patrimônio de todos e de cada um de nós, sem as quais o viver seria inviável. Todavia, seu descontrole são raptos espúrios de um caráter agonizante.

Há emoções que doem n’alma, antes que a cabeça comece a entender e o coração comece a experienciar.

Nihil sine onere aut sine praemio suo.

Uma boa quarta-feira, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 27/05/26.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

ONDE E O TEMPO

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Perguntei ao onde:

- Onde estou?

- Aqui, respondeu-me ele.

- Mas, eu não sei onde estou, como posso saber o que é aqui?

O onde calou-se…

O tempo soprou

Soprou, soprou e soprou.

Então, perguntei ao vento:

- De tanto soprares, jogaste-me mais longe do onde.

O vento não respondeu:

- Tão longe estou do onde, que nem mesmo me vejo.

Com isto, o vento interveio:

- Mas, sabes quem és tu.

- Não, não sei. Não me sei, porém, vejo-me perdido. Mas, não me interessa saber, pelo menos, por agora.

Fez uma pausa. Calou-se.

- Se não sabes quem és tu, por que queres saber o ‘onde’? questionou-me o tempo. O caminho faz-se com a razão. Ela o indica e somente ela pode dizer-te onde estás.

Nisso, o onde volta ao cenário:

- Não posso dizer-te onde está o ‘onde’. Pois, o ‘onde’ anda perto do ‘sou’. E se não sabes o teu ‘sou’, de que adianta buscar o onde? Faze-o em vão.

Fiquei mudo.

E continua o onde:

- Estás louco? Não vês que o teu ‘sou’ é que define e determina o ‘onde’? Caso não saibas o teu ‘sou’, nunca encontrarás o ‘onde’.

- Não consigo entender.

O onde esboçou um riso de ironia.

Foi aí que o tempo falou:

- Não entendes porque não te entendes. E, se não te entendes, como queres entender o ‘onde’?  Ele nem está em mim, mas no esconderijo de tuas narinas.

- Minhas narinas? Quem o colocou nelas?

 O tempo ri, sarcasticamente:

- Estás com amnésia? Com Alzheimer? Ou tua desídia és tu mesmo?

Meu rosto enrubesce e meu corpo tensiona:

- Tua acusação me desonra e me atinge como cruel verdugo a açoitar suas vítimas. Como podes acusar-me de mim mesmo?

E o vento volta a assoprar. Não, agora ele assovia um refrão:

- Eu sou Noto. Lá do Mediterrâneo vi teu surto e corri a ajudar-te quebrar alguma corrente, mas percebo que és cabeçudo.

E com uma canção nos lábios:

- O que passou, passou / Teu sou ficou no passado. / O hoje não é presença, teu passado não passou. / O onde também ficou / na esquina do passado. / Se não recuperares, de novo, / o sou que faz o teu onde / o que seria não será mais.

E termina com melancolia:

- O que foi não é, o que é já foi, e o que será seria. O foi não foi, o é não veio e o será em coma adormeceu.

Assustei-me com tal premonição. A raiva deu lugar ao remorso. Incontinenti aos dois eu falei:

- Há uma dor doendo em mim. Grande dor. Não sei onde está, nem de onde veio, mas sinto que me queima.

O onde interveio:

- Se te queima, tu a sentes. E, se a sentes, segue-lhe o rastro e encontrarás o onde.

E o tempo:

- E, lá, no onde, se investigares profundo, darás de cara com o teu ‘sou’.

E lá me fui eu, em busca de mim e de minha orquestra, lá, onde  o onde pode encontrar o sou.

Então, voltei a sonhar e a alegria retornou, minha vida saltando para dentro de mim.

Encontrei o ‘onde’ e descobri o ‘sou’, no seio de mim e na plataforma do tempo.

Vitória do sofrimento, que somente eu vivi, vitória, que somente eu pude ver, curtir e viver. E mais ninguém viu, nem sentiu.

Sem fé em mim, perco o sentido da fé em Deus e a convivência fraterna de paz, partilha e amor, naufraga no orgulho e ousadia de ‘ser’ o que não sou, de não saber ‘onde’ estou e de chegar aonde eu não sei.

Mundus a me transit, sed huius  mea visio a me nascit. Mundum non poneo, sed  in eo interago principiis meis ac valoribus, quomodo sum. Ergo, primum ordo me cognoscere. (O mundo passa por mim, mas minha visão dele nasce dentro de mim. Não posso criar o mundo, mas nele interajo, a partir de meus princípios e valores, como eu sou. Daí que a primeira coisa a fazer é me conhecer).

Uma boa terça-feira, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 26/05/26.


sexta-feira, 26 de junho de 2026

SONHO DE UM SONO

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Sonhos são pajens do sono.

Eu os tenho, você também, mas este me veio de fora e não de minhas entranhas.

“Estava dormindo.

E, quando aquele sopro suave e relaxante do filho de Nix tocou-me as pálpebras, dei-me conta de que eu adentrara uma outra realidade, um mundo etéreo. E devaneios envolveram este meu sonho, que passo a relatar, segredou-me Icelo, um protetor onírico

Eu me vi saindo de casa, em direção à cidade, no mesmo percurso costumeiro, que sempre fazia.

Nesse trajeto, porém, o caminho estreitava-se, parecia-me estar atravessando um beco, em cujas paredes havia cabides e varetas com exposição de várias peças de roupa, como se estivessem à venda. O ‘beco’ não tinha claridade e, antes de passar à frente, de uma porta saiu um moço, o qual ficava a me ofertar as roupas e eu lhe dizia que não as queria.

Ao continuar a caminhar, vi que não estava mais com calça cor palha e uma bermuda verde, como saí de casa, mas vestia uma camisa mostarda e dei-me conta de que havia esquecido a calça. Nisso, percebi que, em meu braço, havia uma calça, uma bermuda e outras peças de roupa, as quais pensei que pertenciam ao moço do beco.

Continuei o meu percurso e, logo, logo, avistei uma casa de pessoas conhecidas e pensei em pedir que alguém pudesse ir devolver as roupas ao homem do corredor, para eu não ter de retroceder meus passos.

Ao aproximar-me da casa, discerni a figura de uma adolescente, que me chamou pelo nome, mas não a reconheci. Todavia, indaguei-lhe se sua mãe estava em casa e, erguendo os olhos, avistei seu pai debaixo de uma árvore, reconheci-o, mas não consegui lembrar-me de seu nome. Mesmo assim, pedi-lhe o favor de devolver as roupas ao homem que me tinha oferecido. Respondendo-me, em voz baixa, não entendi se poderia ou não e resolvi dar continuidade à minha jornada, levando as roupas comigo.

A poucos metros dali, deparei-me com uma pequena trilha, ladeada por mata bastante verde. Parei uns instantes e mirei o espaço. Vi muitas nuvens e delas saindo umas bolhas alvacentas; ao espalhar-se pela amplidão do espaço, assumiam tonalidade escura, agrupando-se entre si. Foi aí, então, onde percebi que algo de muito estranho estava acontecendo: pessoas gritando, dizendo que iam morrer e pedindo socorro, enquanto as bolhas, umas vinham com muita fumaça, e outras rubras, com labaredas e raios de fogo, que caiam também ao meu redor. Tentando livrar-me eu desse fragmentos, servindo-me das peças de roupa, passei a lembrar-me de minha mãe, que havia deixado em casa, sozinha. No entanto, querendo voltar para protegê-la e ajudá-la, como aumentavam as bolhas de fogo, eu tinha de defender-me de seus ataques, usando sempre as peças de roupa. Travei uma rigorosa autodefesa e, quando estava conseguindo desvencilhar-me de seus ataques, acordei um tanto ofegante, com os braços dormentes e doloridos.

Haja tamanha batalha.

Até que enfim, estava são e salvo.”

Uma boa quinta-feira, com as bênçãos de Deus e a proteção de Maria Santíssima!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 21/05/26.


domingo, 21 de junho de 2026

Amar em Comunhão: a força dos primeiros passos

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

Em um tempo marcado por relações frágeis e vínculos muitas vezes efêmeros, a proposta do movimento Amare, idealizado por mim, surge como um convite profundo à solidez do amor vivido a dois.

Há dez anos no Ceará, o movimento acolhe casais nos primeiros anos de união — até sete anos — reconhecendo nesse período um dos mais desafiadores da vida conjugal. É justamente nesse tempo inaugural que se moldam as bases do diálogo, da escuta, do perdão e da perseverança, elementos indispensáveis para que o amor não se desgaste diante das inevitáveis provas da convivência, nem se perca diante das pressões externas do mundo contemporâneo.

A inspiração encontra eco no magistério da Igreja, especialmente na Amoris Laetitia, na qual o Papa Francisco ressalta que o amor no matrimônio é um caminho de construção contínua, feito de pequenas escolhas diárias. Ele recorda que os primeiros anos exigem paciência, maturidade e, sobretudo, enraizamento espiritual — um tempo em que o casal aprende a sair de si para acolher o outro, a transformar diferenças em aprendizado e a cultivar a unidade sem anular a individualidade, construindo assim uma comunhão verdadeira.

Caminhar com a Igreja, nesse contexto, não é apenas frequentar celebrações, mas permitir que a graça divina permeie as realidades concretas da vida a dois: os conflitos silenciosos, os sonhos partilhados, as limitações humanas e as conquistas que se tornam testemunho. Ao viver em comunidade, os casais descobrem que não estão sós — há outros que também enfrentam dúvidas, crises e recomeços. E é justamente nesse espelho do outro que Deus se revela, sustentando, curando e orientando cada passo, fortalecendo o vínculo conjugal com esperança renovada.

Mais do que um movimento, o Amare se configura como um verdadeiro itinerário espiritual e humano, no qual o amor conjugal é educado, amadurecido e fortalecido. Em tempos de dispersão e imediatismo, ele resgata a beleza de permanecer, de reconstruir quantas vezes forem necessárias e de compreender que o matrimônio, quando vivido à luz do Evangelho, torna-se não apenas um compromisso, mas uma vocação viva, fiel e renovada todos os dias, sustentada pela graça e pela presença constante de Deus. 

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.

Fonte: O Povo, de 2/05/2026. Opinião. p.22.


 

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