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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

SEMPRE AOS DOMINGOS

Por Pedro Salgueiro, cronista de O Povo

"Os homens que foram aqueles meninos não querem lembrar dos domingos."

Recebi, por esses dias, uma pequena pérola literária (dessas que deveriam viajar na boleia de nossas melhores leituras, tão pródigas em relegar os melhores talentos à surrada carroceria... não sei se me entendem!?).

O livrete foi escrito por Julio Lira, editado pelo escritor-professor Rodrigo Marques na sua "aluáEditora", com tradução, isso mesmo!, para o inglês da canadense Odile Cisneros; ah!, também com belo projeto gráfico e diagramação de Barbarah Freire; recebi o lindo objeto-branco-delicado com deleite, já prevendo chocolate dos bons, pois vindo de uma amigo de longas datas e algumas caminhadas juntos (embora quase nunca nos avistemos pelas ruas, becos e vielas de nossa sonsa loirinha desmilinguida pelo sol).

Depois do susto comecei a leitura, indo e vindo do português para o inglês, correndo às "notas-dobras" esclarecedoras do final do livro, não consegui mais largar até a última letrinha; depois reli e tresli, sem ainda me contentar.

Antes de agradecer, ainda no calor do espanto me dirigi ao santo-oráculo que me socorre nesses raros momentos de espanto:

"Meu caro, estou lendo um poema de um autor cearense sobre um internato nos Estados Unidos. Com tanta coisa para escrever sobre o Brasil, isso não é um sintoma de colonização cultural?"

No que ele, sem titubeios, me respostou: Você certamente está falando de Visita Dominical, de Júlio Lira, mas antes de responder a essa saudável inquietação, preciso dizer do que trata o livro. Um grupo de gestores, urbanistas e convidados visita às ruínas de uma instituição que, durante mais de um século, funcionou em Massachusetts e foi considerada a maior e mais modelar instituição americana dedicada à educação, segundo os termos da época, de "idiotas" e "retardados mentais". Os visitantes se deslumbram e pensam em novos usos para os prédios históricos. Basta, porém, atravessar as alamedas e os corredores abandonados para que o passado se arrebente contra eles.

Surgem as vozes de crianças internas, de familiares separados, de administradores, de psiquiatras, de legisladores. Falam os jornais, os prontuários, os relatórios. Falam também os mortos. A visita deixa de ser um percurso arquitetônico para tornar-se uma travessia de uma memória apagada. As ruínas, os móveis e os objetos, resíduos de quase dois séculos, não se calam.

É verdade que o livro está profundamente interessado nos Estados Unidos. Mas não pelos motivos habituais. Em vez de perseguir o American Way of Life, procura compreender como esse imaginário foi construído. Afasta-se dos monumentos gloriosos e mergulha em um dos seus subterrâneos mais abjetos, conduzindo o leitor até uma história vergonhosa.

E faz isso pela poesia. Visita Dominical se aproxima de um antiépico. O poema se embrenha nas sombras, nos apagamentos e nas manchas da história.

O tempo também deixa de obedecer à cronologia. A visita contemporânea, o funcionamento da instituição e a leitura acontecem simultaneamente. O leitor caminha entre os vivos e os mortos, entre os fatos e a sensibilidade do poeta.

Volto, então, à sua pergunta. Sim, faz sentido um poeta cearense escrever sobre um internato em Massachusetts. Porque o livro pretende compreender um aspecto da formação dos Estados Unidos. As teorias raciais e a eugenia nasceram na Europa, mas encontraram nos Estados Unidos um dos lugares em que foram institucionalizadas, ampliadas e transformadas em práticas sociais.

Compreender a institucionalização da eugenia nos Estados Unidos é também compreender a circulação internacional dessas ideias e a maneira como elas repercutiram em sociedades como a brasileira. O livro é uma janela para essa história.

Durante décadas, os Estados Unidos produziram ou estimularam os chamados brasilianistas para interpretar o Brasil. Visita Dominical realiza, de certo modo, o movimento inverso: um poeta brasileiro toma os Estados Unidos como objeto de investigação. Não para reproduzir suas imagens gloriosas, mas para interrogar os seus abismos.

Por isso, vejo aí um gesto de descolonização cultural. Um poema brasileiro devolve o olhar.

Em vez de aceitar as imagens que uma potência construiu de si mesma, digere seus arquivos e seus resíduos e pergunta o que ainda têm a dizer sobre o presente, sobretudo num tempo em que ideias eugênicas voltam a circular, sob novas linguagens, pelas redes sociais."

Fonte: O POVO, de 7/08/2026. Coluna “Crônicas”, de Pedro Salgueiro. p.2.


terça-feira, 8 de setembro de 2026

Solidão na velhice: paz e liberdade para uns; crueldade para outros

Por Márcia Alcântara Holanda (*)

— Até que enfim! — disse minha amiga Rita ao ler este título. — Agora você vai falar da solidão sem romantizá-la.

Ela tinha razão. Enquanto liamos o texto, acompanhava cada frase com o dedo na testa, cenho franzido, caras e bocas, mas, desta vez, parecia solidária às minhas ideias.

— É isso mesmo, Rita. Existe a solidão cruel: a do abandono, da invisibilidade e do idadismo. Essa fere, aniquila vidas e precisa ser combatida. A boa notícia é que hoje já conhecemos a dimensão do problema. Os números mostram que o Brasil envelhece rapidamente e precisa aprender, com urgência, a cuidar de seus velhos. É tempo de inovar na forma de acolher idosos com suas limitações da idade e das doenças crônicas, prevenindo sofrimentos que tantas vezes decorrem do descuido "Quem vai cuidar de você? Brasil envelhece sem se preparar para a conta da longevidade (Folha, 12-07-2026) desvenda essa grande questão sugerindo rotas possíveis de controle das mazelas de nós, os velhos brasileiros.

Mas existe outra solidão. É dela que falo agora.

Fernanda Montenegro disse, em entrevista ao Canal Brasil: "Por mais que você seja amado, por mais que seja cuidado, a velhice é solidão. É saber viver na solidão."

Concordei.

Não pela falta dos outros, mas porque chega um tempo em que ninguém pode ocupar o lugar da nossa própria consciência. É você diante de si mesmo, do que ainda é e do que já não é mais.

Foi isso que aconteceu comigo quando, aos 79 anos, a velhice me sacudiu inteira.

Assustou-me, mas trouxe uma paz que eu nunca conhecera.

Passei grande parte da vida correspondendo às expectativas da sociedade: ser produtiva, bonita, jovem, disponível, mãe e profissional competente. Como tantas mulheres, deixei que aparassem meus desejos para caber nos moldes do tempo.

Hoje percebo que meu livre-arbítrio era menos livre do que imaginava.

A velhice devolveu-me algo precioso: a liberdade de escolher por mim, sem culpa, sem disputas e sem a necessidade de provar meu valor.

Rita interrompeu meu entusiasmo:

— Mas nem toda velhice vive isso.

— Sim! — respondi. — Estás com razão.

A Organização Mundial da Saúde afirma que o idadismo atinge metade da população mundial. É ele que invisibiliza, infantiliza e afasta pessoas idosas, produzindo a mais dolorosa das solidões.

Clarice Lispector mostrou isso magistralmente em "Feliz Aniversário". Cercada pela família, Dona Anita chega aos 89 anos profundamente só.

Percebo, então, que existem algumas solidões na velhice.

A que nos é imposta pelo preconceito.

E a que nasce quando aprendemos a fazer boa companhia a nós mesmos.

A primeira precisa desaparecer.

A segunda pode ser uma das maiores conquistas da velhice.

— Então você continua gostando da palavra solidão? — insiste Rita.

Continuo.

Porque já não a confundo com abandono acabamos de discernir as duas.

Passei boa parte da vida tentando não ficar só.

A velhice ensinou-me que era justamente ali, no encontro comigo mesma, que morava a liberdade que procurei durante toda a vida.

(*) Médica pneumologista; coordenadora do Pulmocenter; membro honorável da Academia Cearense de Medicina.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 2/08/2026. Ciência & Saúde. p.16.


quarta-feira, 12 de agosto de 2026

INFORMAÇÃO NÃO É SABEDORIA

Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

Uma leitura recente do economista e escritor americano Thomas Sowell levou-me a uma reflexão que parece cada vez mais atual. Vivemos a era da inteligência artificial, da informação instantânea e da abundância de dados. Nunca foi tão fácil saber. Paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão difícil compreender.

Em Os Intelectuais e a Sociedade, Sowell distingue conhecimento de sabedoria. Os intelectuais - os chamados "ungidos" - acumulam informações, formulam teorias e influenciam o debate público. Mas isso não os torna, necessariamente, sábios. A sabedoria nasce quando o conhecimento é temperado pela experiência, pela humildade e pelo compromisso com o bem comum. Seu oposto não é a ignorância, mas a insensatez. Da mesma forma, a inteligência pode sucumbir à estupidez quando perde a capacidade de reconhecer os próprios limites.

A história é pródiga em teorias defendidas com fervor, muitas delas apresentadas como verdades definitivas que acabaram desmentidas pelo tempo. Ainda assim, seus formuladores permanecem reverenciados, como se a eloquência pudesse substituir a evidência. O progresso do conhecimento nunca foi linear; sempre dependeu da disposição de revisar certezas.

A questão que se impõe é outra: a revolução tecnológica tornará o debate público mais racional? Seremos mais capazes de ouvir, ponderar e mudar de opinião diante dos fatos? Ou caminharemos para uma sociedade dividida entre certezas absolutas, onde qualquer discordância é tratada como ameaça?

A informação é indispensável ao desenvolvimento humano. Contudo, isolada do contexto e da reflexão crítica, ela pode produzir exatamente o efeito contrário. Em vez de aproximar, separa; em vez de esclarecer, confunde. Narrativas simplificadas encontram terreno fértil quando oferecem respostas fáceis para problemas complexos. E, na velocidade das redes, emoções costumam viajar mais rápido que evidências.

Enquanto continuarmos a rotular pessoas antes de examinar argumentos, pouco avançaremos. Crenças não são artigos de fé imutáveis. Diferentemente dos gostos pessoais, elas devem estar abertas à revisão sempre que novas evidências surgirem, sobretudo quando dizem respeito aos fatos e às relações de causa e efeito.

Decidir bem exige mais do que informação. Exige método, espírito crítico, capacidade de verificar, responsabilidade intelectual e, sobretudo, humildade para admitir o erro.

Lembro-me, então, de uma frase de um antigo professor: "O céu é longe", assim como a caminhada rumo à sabedoria. Ainda habitamos um mundo de opiniões apressadas e certezas frágeis, frequentemente sustentadas mais pela convicção do que pela razão.

Talvez por isso permaneça tão atual a observação de Bertrand Russell: "O problema do mundo é que os estúpidos têm plena convicção, enquanto os inteligentes são cheios de dúvidas." Em tempos de excesso de informação, talvez a virtude esteja em cultivar a dúvida honesta, aquela que não enfraquece o pensamento, mas o torna mais livre e mais próximo da verdade.

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 11/07/2026. Opinião. p.23.


domingo, 2 de agosto de 2026

ACADEMIA CEARENSE DE MÉDICOS ESCRITORES: em biografias e crônicas

O livro, intitulado “Academia Cearense de Médicos Escritores: em biografias e crônicas”, está constituído de 40 (quarenta) textos alocados em cinco partes: I - Academia Revisitada; II - Crônicas Acadêmicas; III - Novos Acadêmicos; IV - Discursos Acadêmicos; e V - Pesares em Blog.

A Parte I, contendo cinco artigos, expõe elementos em comum dos membros titulares e dos patronos nas academias médicas cearenses Academia Cearense de Medicina (ACM) e Academia Cearense de Médicos Escritores (Acemes); discorre sobre a Revista da Acemes; descreve as especialidades e a atuação na docência dos titulares da Acemes.

A Parte II noticia a instalação da Acemes e sequencia com as posses desde as dos primeiros acadêmicos fundadores até as dos últimos titulares empossados. A III reproduz as biobibliografias de 20 (vinte) membros titulares da Acemes, que assumiram cadeiras vacantes após as posses dos titulares fundadores.

Na IV estão enfeixados quatro discursos pronunciados em eventos de interesse da Acemes e/ou realizados por essa confraria. Na V estão incluídas as transcrições de cinco notas de pesar, postadas em Blog, alusivas ao falecimento de membros acadêmicos da Acemes.

A coletânea foi editada na forma de um e-book produzido pelo Instituto de Estudos e Pesquisas sobre o Desenvolvimento do Estado do Ceará (Inesp), sob os auspícios da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (Alece), podendo ser acessada e baixada livre e gratuitamente na home page da Alece.

Essa obra vale, por certo, como um registro parcial dos feitos da Acemes, a pioneira confraria estadual de médicos escritores no Brasil, em sua primeira década de funcionamento.

Acad. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Membro titular fundador– Cad. 24

* Publicado In: Revista AMC (Associação Médica Cearense). Julho de 2026- Edição n.58. p.13-13 (online).

 


segunda-feira, 27 de julho de 2026

MINIANIMALISMO - CINZEL & ESMERIL

Por Pedro Salgueiro, cronista de O Povo

Sempre desconfiei de que nós, os pobres escrevinhadores de vãs malfeitorias, não escolhemos o gênero literário no qual vamos nos expressar

Talvez por preguiça, sempre tive fascínio por textos curtos. Frases aparadas até quase o miolo. Gracilianos, Rulfos, Moreiras e João Cabrais limando adjetivos. Procurando substantivos que dispensem adereços, penduricalhos. Nenhum preconceito contra os caudalosos rios Euclidianos, Proustianos, Joyceanos, Roseanos. Apenas predileção e pronto. Ponto.

Sempre desconfiei de que nós, os pobres escrevinhadores de vãs malfeitorias, não escolhemos o gênero literário no qual vamos nos expressar. Mas ele, irremediavelmente, nos escolhe. Tenho certo amigo que até para me passar um número de telefone conta seu dia inteirinho. Outro, inquirido, me deixa apenas fragmentos de suas intenções. Claro que alguns podem, e até devem ir contra a corrente. Deslizar rio acima, olhos estufados de lama. Alma pesada, mas satisfeita.

Para mim, o "barato" é tentar dizer o máximo com o mínimo de palavras. Mesmo sem quase nunca conseguir.

Há tempos recebi convites dos colecionadores Marcelino Freire (Os Menores Contos Brasileiros do Século XX) e Laís Chaffe (Contos de Algibeira) para participar, com textos mínimos, de duas coletâneas. Tomei gosto pela coisa. Resumi contos antigos. Li Haicais. Reli Dalton Trevisan. Arrumei esmeril, comprei estilete. Lupa de relojoeiro, dedal de sapateiro... Encontrei um cinzel.

Os perigos do laconismo, da incompreensão total, da pura piada. Quase nunca encontramos o ponto certo. Mil tentativas e pouquíssimos acertos. Vamos tentando pulverizar o mundo, atomizar o cotidiano. Minimalistas que fomos. Minianimalista que somos. Ao pó que retornaremos.

Alguns amigos, recentemente, têm incorrido nessa prática de limar continhos já por demais curtos, numa quase obsessão.

Resgatei alguns relatos mínimos para distrair preguiçosos:

Mecanismo

Mesa posta. Pai, mãe e filho regem o silêncio.

Preces.

Novamente.

Medo na Praça

Silêncio. O artista sua, lapida suas preces. Aplausos. De novo. O silêncio.

Peso do morto

Noite sem lua. Rasga-mortalha.

— Dorme, pai. Deixa de falar só...

Já no meu segundo livro, "O Espantalho" (1996) eu havia (em vão) tentado:

Daltonianas em Fá Menor

A mulher matou o marido. Mandou matar em cima do túmulo. O único pecado dele trocar seu nome por outro e acender velas todas as quartas-feiras.

* * *

Havia olhos fugindo de órbita, um coração descompassado. Um medo de ir... outro de voltar.

Havia ossos enterrados no quintal e um medo danado de assombração.

Havia uma multidão de adrenalinas e uma certa dúvida...

* * *

Enquanto cancão brinca no quintal, deixei muleta, um pé-de-cabra e uma bengala. Deixei um grito preso no elevador.

* * *

Antigas visitas já mortas retornam à antiga sala de visitas. Cumprimentam o cadáver de minha mãe, recebem um aceno eufórico de meu pai moribundo.

— Cala a boca, velho caduco, deixa de falar só.

Grita a Suzete, lá da pia.

Fonte: O POVO, de 26/06/2026. Coluna “Crônicas”, de Pedro Salgueiro. p.2.


quinta-feira, 23 de julho de 2026

UM BOM EXEMPLO

Por Tales de Sá Cavalcante (*)

O iteano (engenheiro formado no ITA) Sílvio Meira, em uma de suas brilhantes conferências, solicitou: "Por favor, levante o braço quem estiver com celular." Todos ergueram. Em seguida, indagou: "Quem aceita passar meia hora com todos a ficarem com um telefone de outro?" Quase ninguém aceitou.

Meira demonstrou que o chamado telefone móvel não é tão móvel. Ou: só é móvel quando o seu portador se move. Silvio mostrou: a máquina já se integra ao corpo humano. Estamos em tempos de "cyborg" e a antiga ficção da TV "O Homem de Seis Milhões de Dólares" já é real.

Sempre com seu celular, Darilane seguia Chico Buarque em "Cotidiano" e fazia tudo sempre igual. Findo o trabalho, ingressou na van topic que a levava ao seu lar, cotidianamente. Naquele dia, havia um passageiro destoante. Em uma das paradas, furtou o telefone de Dari e saiu a correr.

A vítima o perseguiu. O assaltante entrou num ônibus. Dari ingressou no coletivo que vinha a seguir e contou o ocorrido ao motorista. O condutor acalmou-a, ao dizer: ambos os veículos irão parar no terminal de Messejana, já próximo.

Lá, o meliante desceu e correu. Dari disparou atrás, a ecoar o conhecido grito de guerra "pega ladrão" e a solicitar companhia na perseguição. Os transeuntes a acompanharam, dominaram o bandido e o entregaram à polícia.

Duas lições foram dadas: a primeira quando Dari, ao correr perigo de vida, ignorou a orientação da polícia para não reagir. A segunda deu-se quando Dari, ao invés de acomodar-se, perseguiu o ladrão e convocou à ação os que ali estavam.

E por qual motivo não nos revoltamos ao saber dos desvios de dinheiro comunitário?

Devemos nos conscientizar de que os haveres públicos não são de uma pessoa chamada União, governo, prefeitura, et cetera. O bem público é nosso. Se nos incomoda o roubo de um simples celular, por que não nos revoltamos com os nossos bilhões desviados atualmente, no maior escândalo financeiro de nossa História?

Ao reconhecermos todo o dinheiro desviado na atual e imensa fraude, como nosso, dos brasileiros, provavelmente seguiremos o exemplo de Dari. Como? 2026 é ano de eleição. Que tal iniciar pelo voto?

(*) Reitor do FB UNI e Dir. Superintendente da Org. Educ. Farias Brito. Presidente da Academia Cearense de Letras.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 25/06/26. Opinião, p.16.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

SUAVE COISA NENHUMA

Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)

Estava no Parque Ibirapuera em um sábado pela manhã. Costumo ir aos domingos, quando a maioria das pessoas passeia ou se dedica a outras atividades. Havia muito mais gente correndo. Tanta gente que o som dos sapatos batendo no chão se impunha: alto, contínuo, forte.

Lembrei-me de quando morei em São Paulo. Vinda do Ceará, uma das coisas que mais me impressionava era a velocidade com que as pessoas andavam em fluxo no metrô. Não havia outra opção senão seguir. Lá, prevalecia o barulho do trem. Ali, no parque, o som vinha inteiramente dos passos: um ritmo repetido, em cadência, quase uma marcha.

Naquele dia, eu apenas caminhava. Gosto de experimentar os hábitos de quem mora no lugar. Pensei que, para os paulistanos, o parque é como a praia é para mim. Era um dia ensolarado de outono, mas, na sombra, o frio se insinuava. Muitas folhas amareladas cobriam a calçada. Por mim, permaneceriam ali; não precisariam ser varridas, assim como as árvores não deveriam ser podadas. Elas são bonitas em sua inteireza, e também são inteiras quando lhes faltam as folhas.

A agitação da corrida ao meu redor parecia ter se instalado em mim. Meus olhos necessitavam e buscavam o que se movia devagar. Uma rajada de vento trouxe uma chuva dourada. Folhas caíam no chão, mas antes flutuavam, dançavam como leves plumas. Obedeciam a um tempo próprio. Em que momento cairiam?

Já os passos seguiam o tempo do relógio, persistiam firmes, sem trégua, e meu corpo se sentia impelido a acompanhar. Existia um compasso que convidava; bastava entrar. Por um momento, quase fui. Hesitei. Mas decidi não ir - e havia um peso que não se via. Suave coisa nenhuma.

As folhas continuariam caindo por alguns dias. Em breve, aquelas árvores estariam completamente despidas, lembrando os vasos sanguíneos do coração, até que o verde voltasse a pulsar. É assim todos os anos.

A maioria das folhas já havia caído, poucas ainda pairavam sob a brisa, sem direção certa, entregues ao vento. Parecia possível adiar o chão.

Onde pousariam?

(*) Médica psiquiatra.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 16/06/2026. Opinião. p.16.


quinta-feira, 2 de julho de 2026

GAIOLA OU ASA

Por Tales de Sá Cavalcante (*)

Em 1997, o Clube do Líbano de Fortaleza resolveu vender sua sede. Em data e horário divulgados, os envelopes foram entregues fechados e, na presença de todos, foram abertos. Seria vencedor quem, além de superar o mínimo prefixado, tivesse o maior preço. Uma empresa possuía vários envelopes para escolher o adequado ao conjunto de competidores que se fizessem presentes.

Ao se ver só, sem concorrentes, entregou o envelope com o menor valor. Ao levar várias propostas, a empresa revelou criatividade e brasilidade. Em 2015, num concurso, em Fortaleza, para escolher a melhor criação de uma startup, alunos de uma entidade pública usaram um computador que não era dos melhores, nem dos mais novos e travou na hora "H". O líder juntou fios daqui, fios dali, peças daqui, peças dali. Aquela "coisa" "ressuscitou" e ganhou o prêmio.

Em reunião no Conselho de Responsabilidade Social da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo relatei o feito. O colega conselheiro e apresentador de TV Marcelo Tas comentou ter ouvido de um grande publicitário americano que "o brasileiro é mais criativo por fazer gambiarras".

Sim, com boas condições, executa perfeições, o que não faz o conterrâneo do yankee, Mr. Trump, que, mesmo com muitos recursos, decide por gambiarras oriundas de sua mente ou de assessoria deficiente.

O saudoso Washington Olivetto dizia: "A ideia é o que faz a diferença". E Rubem Alves afirmou: "Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas. Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do voo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o voo. Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado".

Por fim, este articulista indaga: e você? Prefere uma escola que seja gaiola ou asa?

(*) Reitor do FB UNI e Dir. Superintendente da Org. Educ. Farias Brito. Presidente da Academia Cearense de Letras.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 28/05/26. Opinião, p.16.


terça-feira, 30 de junho de 2026

LEITURAS NO CÉU DA BOCA

Por Izabel Gurgel (*)

Brincamos, entre pessoas queridas, sobre testes de vida que podem ser feitos antes de tocar nossos enterros.

No meu caso, os últimos a serem feitos são simples como dizer até logo no dia-a-dia.

Pertinho do caixão, alguém comenta sobre um livro que está lendo. Fala com o entusiasmo das criaturas doidas por livro e leitura. Vislumbra o outro fruindo da graça de ler o dito cujo citado para, de fato, saber, sentindo, o que um irmão de "A Casa" (Natércia Campos), "Yuxin" (Ana Miranda), "Um defeito de cor" (Ana Maria Gonçalves), "O infinito em um junco - A invenção dos livros no mundo antigo" (Irene Vallejo) pode fazer nas veredas de alguém em estado de leitura, vasto sertão. A pessoa falante arremata o comentário: "Será que a Izabel leu? Não lembro de ter comentado com ela...".

Outra prova pode se dar com a mesma criatura leitora, desde que tenha a fome de viver para quem a gula é promessa de paraíso, uma biblioteca a ser incorporada. Aquela criatura que, saindo da sorveteria do Juarez (a da Barão de Studart), ainda que reconhecendo as mudanças no sorvete dos sorvetes de Fortaleza (e se não mudar, não há como permanecer, sabemos), a tal criatura quer nem que seja só uma mordida do picolé rosa choque avistado nas mãos de uma passante. Não importa se acabou de tomar um ou dois sorvetes, e lembrou do Juarez, ampliando os sentidos do termo presente, abrindo um freezer depois do outro e, de colherzinha na mão, vir ensinar a fazer de cada prova de sabor uma festa no céu da boca. Cajarana, capim santo, cajá tão felizes por encerrar a vida vegetal virando sorvete do Juarez.

Cheia da fome de viver, ao pé do meu caixão, a pessoa convida outra para um café com bolo da Walma Laena, tapioca da Lalá, ou pão de chapa de rua, tão passado que afina e nos faz pensar em papel manteiga. Se for amiga da onça, a pessoa falante vai saber cutucar diretamente a finada, sem vara. Pode citar o bolo de caco cuja lembrança fez Seu Nery - cozinheiro na casa de Arneiroz que ele transformou em pousada - inventar um passeio com a hóspede até o Planalto, na zona rural. Ele dirigindo não só o carro, mas dando ao deus do acaso a vez de manobrar o passeio para chegarem à casa de uns conhecidos bem na hora de festejar o calor da tarde, na calçada alta, com café que a gente precisa soprar antes de tomar. A mãos-de-fada dona da morada na rodagem estava botando na janela a travessa de bruaca de farinha de milho. Reluzia o açúcar com canela.

O outro teste de vida é tocar ou cantarolar "Reconvexo" na voz da Maria Bethânia ou uma canção de Carnaval com letra do Fausto Nilo. Pode ser baixinho.

Nas três provas, se a finada não levantar do caixão, pode tocar o enterro. Está mortinha da silva. E talvez danada por perder a volta do cemitério, entre pessoas muito queridas. Que sabem estar ao redor de uma mesa, ao pé de um balcão, ou em alguma beirada do mundo, olhando o tempo.

Mas tem gente que não sabe brincar.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 24/05/26. Vida & Arte, p.2.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

SONHO DE UM SONO

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Sonhos são pajens do sono.

Eu os tenho, você também, mas este me veio de fora e não de minhas entranhas.

“Estava dormindo.

E, quando aquele sopro suave e relaxante do filho de Nix tocou-me as pálpebras, dei-me conta de que eu adentrara uma outra realidade, um mundo etéreo. E devaneios envolveram este meu sonho, que passo a relatar, segredou-me Icelo, um protetor onírico

Eu me vi saindo de casa, em direção à cidade, no mesmo percurso costumeiro, que sempre fazia.

Nesse trajeto, porém, o caminho estreitava-se, parecia-me estar atravessando um beco, em cujas paredes havia cabides e varetas com exposição de várias peças de roupa, como se estivessem à venda. O ‘beco’ não tinha claridade e, antes de passar à frente, de uma porta saiu um moço, o qual ficava a me ofertar as roupas e eu lhe dizia que não as queria.

Ao continuar a caminhar, vi que não estava mais com calça cor palha e uma bermuda verde, como saí de casa, mas vestia uma camisa mostarda e dei-me conta de que havia esquecido a calça. Nisso, percebi que, em meu braço, havia uma calça, uma bermuda e outras peças de roupa, as quais pensei que pertenciam ao moço do beco.

Continuei o meu percurso e, logo, logo, avistei uma casa de pessoas conhecidas e pensei em pedir que alguém pudesse ir devolver as roupas ao homem do corredor, para eu não ter de retroceder meus passos.

Ao aproximar-me da casa, discerni a figura de uma adolescente, que me chamou pelo nome, mas não a reconheci. Todavia, indaguei-lhe se sua mãe estava em casa e, erguendo os olhos, avistei seu pai debaixo de uma árvore, reconheci-o, mas não consegui lembrar-me de seu nome. Mesmo assim, pedi-lhe o favor de devolver as roupas ao homem que me tinha oferecido. Respondendo-me, em voz baixa, não entendi se poderia ou não e resolvi dar continuidade à minha jornada, levando as roupas comigo.

A poucos metros dali, deparei-me com uma pequena trilha, ladeada por mata bastante verde. Parei uns instantes e mirei o espaço. Vi muitas nuvens e delas saindo umas bolhas alvacentas; ao espalhar-se pela amplidão do espaço, assumiam tonalidade escura, agrupando-se entre si. Foi aí, então, onde percebi que algo de muito estranho estava acontecendo: pessoas gritando, dizendo que iam morrer e pedindo socorro, enquanto as bolhas, umas vinham com muita fumaça, e outras rubras, com labaredas e raios de fogo, que caiam também ao meu redor. Tentando livrar-me eu desse fragmentos, servindo-me das peças de roupa, passei a lembrar-me de minha mãe, que havia deixado em casa, sozinha. No entanto, querendo voltar para protegê-la e ajudá-la, como aumentavam as bolhas de fogo, eu tinha de defender-me de seus ataques, usando sempre as peças de roupa. Travei uma rigorosa autodefesa e, quando estava conseguindo desvencilhar-me de seus ataques, acordei um tanto ofegante, com os braços dormentes e doloridos.

Haja tamanha batalha.

Até que enfim, estava são e salvo.”

Uma boa quinta-feira, com as bênçãos de Deus e a proteção de Maria Santíssima!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 21/05/26.


quarta-feira, 24 de junho de 2026

ÁGUA TAMBÉM SANGRA

Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)

Eu choro fácil. De alegria, de tristeza, de emoção, de cansaço. E, por vezes, choro sem saber por quê. Certo dia, veio-me um pensamento nebuloso e persistente: chorar seria como sangrar. Guardei-o.

Na manhã seguinte, ao ver uma fotorreportagem sobre a sangria do açude Orós, no interior do Ceará, fiquei tocada com o título: água também sangra.

Na matéria, o repórter Arthur Gadelha dizia que quase todo fortalezense tem o seu "interior", uma cidade ligada à sua história, às suas raízes.

Eu sou de Fortaleza, mas já trabalhei no interior, justamente em Capistrano, a cidade do repórter. Atendia na zona rural, visitava casas de taipa distantes umas das outras, separadas por estradas de barro. Eu me impressionava com a solidão do lugar. E há algo ainda mais antigo: nas histórias ouvidas, no sotaque, na oralidade que passa de geração em geração, algo que me faz sentir a seca por dentro, mesmo sem jamais tê-la vivido.

A memória da privação me fez lembrar Vidas Secas. Corri para pegar meu exemplar. Lembrei o quanto chorei com Fabiano, com os filhos sem nome e com a inesquecível Baleia, a cachorra. Tinha começado a leitura em 2019; estava lá, anotado na contracapa.

A obra me marcou tanto que, certa vez, no Masp, parei diante de uma pintura e lembrei daquela família. Comentei: só faltou a Baleia. Fui conferir a legenda do quadro; era Cândido Portinari, e a obra se chamava Os Retirantes, que dialoga com Graciliano Ramos.

"Chegaria, naturalmente. Sempre tinha sido assim, desde que ele se entendera. E, antes de se entender, antes de nascer, sucedera o mesmo — anos bons misturados com anos ruins. A desgraça estava a caminho."

Cada um de nós carrega um sertão. Onde a terra racha. Onde a vegetação cresce com espinhos e aprende a guardar água para a hora da escassez.

Meu pai diz que o maduro é aquele que sabe que, quando tudo está bom, vai piorar, e que, quando tudo está ruim, vai melhorar.

A água pode tardar, mas chega. E, quando chega, jorra, sangra o passado da falta.

(*) Médica psiquiatra.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/05/2026. Opinião. p.18.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Rio, quem te viu, quem te vê

Por Romeu Duarte Junior (*)

Assim como muitos e muitas da minha geração, fui criado sob a égide da visão do Rio de Janeiro como a maior das maravilhas do mundo. Meu pai, mineiro de nascença, mas carioca por desejo, morou cerca de 15 anos na belíssima Cidade Maravilhosa, precisamente no período que é conhecido como "anos dourados". Quando falava do que lá passara, seus olhos brilhavam, para aborrecimento de minha mãe, que via o Rio como um lugar de perdição e pecado. Aprendi, pois, com o autor dos meus dias (obrigado, Aírton Monte, que também era um fã do RJ), a venerar a capital carioca, sua cultura urbana, suas variadas expressões, seus lugares, seu povo. "Algum dia ainda vou morar lá", repetia sempre de mim para comigo esse mantra. Hoje, por várias questões, não mais, e explico porquê.

Meus interesses se concentravam no futebol, na literatura e na música da terra de Machado de Assis, numa relação idealizada e apaixonada. O Rio é um lugar onde o corpo ainda conta muito, principalmente o feminino, em torno do qual todas essas manifestações artísticas orbitam. Juntamente com as muitas praias, formavam um binômio irresistível, a Garota de Ipanema que o diga. O Botafogo de 1969, Doval, Zico, Adílio e Adão, Rivelino no Flu, a zaga do Vasco em 1974, o Bangu e o Ameriquinha, Nelson Rodrigues, Lúcio Cardoso, Rubem Braga, a turma afiada do Pasquim, Clarice Lispector, Antônio Callado, Pixinguinha, Cartola, Nelson Cavaquinho, Jacob do Bandolim, Tom Jobim, Vinícius, Chico Buarque, Edu Lobo, Martinho, Paulinho da Viola, tanta gente boa. E aí, e agora?

Como dizem seus cultores, a História serve para explicar o presente e não para glorificar o passado. No começo do século XX, de um lado, a cidade esplêndida, com a sua natureza magnífica e a sua arquitetura deslumbrante, e de outro, a morraria, que já se via ocupada pelos pobres favelados. Deixados à própria sorte pelo ausente Estado, criaram normas de conduta próprias que findaram dando no que aí está. A perda da condição de capital do Império e da República foi um duro golpe para o Rio, pondo fim a 152 anos de fastígio. A cidade, referência nacional e internacional da boa vida e do turismo, e o morro, abandonado e cada vez mais perigoso, vão ser dominados respectivamente por uma classe política corrupta e por toda sorte de bandidagem, facções e milícias. O resto você sabe...

Vejo na TV o governador-tampão do RJ demitindo centenas de terceirizados que ganhavam sem trabalhar. Vários agentes da Receita Federal envolvidos em grosso esquema de corrupção na zona portuária. Muitos secretários e deputados estaduais presos por meterem a mão no dinheiro público. Em mais de 30 anos, a única dirigente do estado que não foi presa é Benedita da Silva. O Rio é o locus da atuação do grupo político liderado pelo inominável presidiário. A política se deixou dominar por faccionados e milicianos. A polícia carioca, em seu estilo Robocop, é uma das que mais matam cidadãos e cidadãs no Brasil. Em vez de Festa de Arromba, baile funk. Em vez de Bossa-Nova, gangster rap. Em vez de Nuvem Cigana, tiroteios mil. Em vez de João Gilberto, Poze do Rodo. Barbárie...

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 11/05/26. Vida & Arte. p.2.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

QUANDO ME LEMBRO DO SEU NOME

Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)

Os nomes começaram a escapar depois dos quarenta. Pergunto, não memorizo e, logo em seguida, repito: qual é mesmo o seu nome? Daí, associo-o ao nome de alguém que conheço - uma amiga, uma tia, um irmão.

Às vezes, surpreendo-me ao relembrar pessoas há tempos esquecidas: Raimundinha. Mundinha costureira. Casa da vovó. Baralho com os primos. Vovó falando para quem não estava no jogo: "Não vale peruar". Uma lembrança puxa a outra e, se continuo, é como puxar a linha de um novelo que não termina.

Quando a associação funciona, respiro aliviada. É delicado chamar as pessoas pelo nome, reconhecê-las. Talvez porque, ao ouvir o próprio nome, a gente se sinta, ainda que por um instante, existindo para alguém.

Outro dia, entrei em uma ótica e uma moça muito gentil me atendeu. Como é o seu nome? Wendy, respondeu. Fiquei animada e logo associei: a Wendy do Peter Pan? Ela sorriu e disse: não, foi um nome que minha mãe viu num romance. Você conhece a história original? Só conheço as adaptações da Disney, ela respondeu.

"Wendy estava brincando no jardim e, depois de colher mais uma flor, correu para junto de sua mãe. "Ah, se você ficasse assim para sempre!", disse a senhora Darling. Foi a partir daí que Wendy soube que teria de crescer. A gente sempre sabe quando tem dois anos: dois é o começo do fim."

Peter Pan foi, certamente, o livro que mais li para os meus filhos. Logo na primeira página, eu já ficava angustiada, engasgava-me e, em seguida, falava com uma voz bem animada, quase cantada: "Dois é o começo do fim!" Eles riam e pediam: faz de novo, mamãe, faz de novo.

E eu fazia tantas vezes que, em certo momento, já não lia mais aflita e me demorava um pouco mais na Terra do Nunca. Quem sabe ali fosse a terra do sempre.

Nessa época, eu lia sem óculos. Agora, compro meu primeiro par. Espero que me ajudem a enxergar melhor as minúcias do mundo, dos outros e as minhas, como escreveu José Saramago, "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."

Qual é mesmo o seu nome?

(*) Médica psiquiatra.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 21/04/2026. Opinião. p.22.


quarta-feira, 3 de junho de 2026

ÁGUA, BENDITA SOIS

Por Romeu Duarte Junior (*)

À memória do Prof. Eng. Francisco de Assis Souza Filho

Dizia o grande cearense Virgílio Távora que o maior governador do Ceará é o inverno. "Tendo água, doutorzinho, o povo, que já é inventivo e trabalhador, constrói a sua vida", falava ele com seu tom de voz peculiar. Minha mãe ia pela mesma linha, só que mandando um recado certeiro: duas coisas não podem faltar no Ceará: chuva e mão nos beiços de menino respondão (adivinhem quem era o peralta). A cultura alencarina elaborou em torno da água e da chuva um verdadeiro rito, quase uma religião. Lembro-me de uma senhora minha vizinha lá na Base que, toda vez que chovia, botava um maiô, punha três dedos de cana num copo e ficava debaixo da bica, chorando. Era o trauma dos anos de seca no sertão. Esses momentos não se perderão no tempo como lágrimas na chuva.

Como choveu neste torrão neste abril que se despede... Tenho amigos atentos que monitoram nossos açudes. "Está faltando apenas 11 centímetros para o Orós sangrar! Deve ser de hoje para amanhã! Vamos para lá agora", gritam uns para os outros, como garotos à volta de um brinquedo novo. Param tudo o que estão fazendo, catam suas coisas e caem na estrada embalados. Chegando lá, sob o céu plúmbeo, aguardam a chuva instalados em barraquinhas, tomando umas e outras e tirando o gosto com cará frito. Quando o pé-d'água cai, é uma alegria só: homens e mulheres abraçados, celebrando o milagre do dilúvio. De repente, um, aos berros, avisa: "Vai sangrar! É agora que o bicho sangra! Muito obrigado, meu Deus!". A torrente lambendo os tornozelos é uma ansiada benção.

Todavia, o mais importante é pensar no que o aguaceiro dará de retorno às pessoas. Curimatã ovada, tilápia, traíra pau-de-negro, tucunaré, as opções de pescado de água doce (que o cearense ainda não valoriza devidamente) são muitas. As hortas e pomares irrigados produzindo o legume, verduras e frutos variados. O de beber ao dispor do gado e das criações e para garantir o pasto esmeraldino. O precioso líquido guardado nos potes, cacimbas e cisternas para dele precisar se e quando faltar. A fartura que se enxerga nos olhos rasos d'água de quem vê o temporal cair. Muita gente que mora na capital se vale desses benefícios, mas não imagina o que isso representa para a população rural. Só quer saber da comida chegando à mesa e nada mais. Alienados bichos urbanos.

Ligo a TV e vejo dois jovens escalando a parede de concreto do sangradouro do Açude Orós. Não imaginam o perigo que correm, talvez estejam impondo a si um ritual de passagem da adolescência para a idade adulta, uma prova de fogo em meio a veloz corrente d'água ou simplesmente a afirmação de macheza. Rio da arrumação que vejo, uma temerária brincadeira, mas meu pensamento me leva à contribuição de um já saudoso amigo, alguém que dedicou a vida a estudar a água e as secas, a compreender o semiárido e a elaborar alternativas técnicas para a plena superação dos nossos problemas de desenvolvimento socioeconômico. Como professor da UFC, era idolatrado pelos seus alunos. É por tudo isso, Assis, que essa crônica lhe é dedicada. Chovendo, penso em você.

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 27/04/26. Vida & Arte. p.2.


quinta-feira, 28 de maio de 2026

SOBRE A "INÉRCIA COGNITIVA"

Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

O título faz alusão às possibilidades da ignorância e do ato de manter -se ignorando, ou seja, desconhecer ou negar os fatos e a realidade, as contradições morais de nossa consciência.

Pois, uma coisa é fato. Ser ignorante pressupõe um desconhecimento da realidade, no aspecto intelectual. Já manter-se ignorando traduz não querer conhecer, ou, simplesmente, gozar do desconhecimento.

Noutro aspecto, Jacques Lacan, psicanalista francês, definiu o termo "a passion for ignorance" baseado em estudos budistas, para descrever como seus pacientes faziam de tudo para não saber a causa do sofrimento, mesmo quando expunham que gostariam de entendê-la. Na psicanálise a ignorância apresenta-se em formas distintas na neurose, na psicose e na perversão. Por Freud enquanto a psicose repudia a realidade, a neurose somente a ignora. Tal fato pude comprovar com uma experiência traumática quando ainda estudante, ao expor, por solicitação da própria família e de especialistas, o estado de um paciente com câncer terminal. Embora o paciente insistisse em conhecer a verdade, sua reação à notícia foi inesperada. Logo pela manhã falava-me das providências de vida e de estar preparado para enfrentar esse momento. Acho, até, que desconfiava do diagnóstico.

Por outro lado, muitas pessoas usam a negação e a ignorância como estratégia diante de verdades inconvenientes e que fogem das suas percepções de realidade, e ainda, como forma de criar cenários fantasiosos.

É fato que a distinção entre o ato de ignorar e o de manter-se ignorando remonta a aspectos morais que transitam entre responsabilidade e inocência. Sobre esse ponto de vista ouvi muitas vezes do meu pai; "quanto mais consciência e quanto mais conhecimento, maior sua responsabilidade social".

Num mundo instantâneo a informação é imediata, mas nem sempre respaldada de veracidade. Os algoritmos são, em si, uma nova forma de envolver, de aculturar e de transgredir valores.

Tudo isso gera ansiedade, e muitos optam por cerrar os olhos, não escutar ou silenciar diante de informações que causam desconforto.

Em tempos de crise, duvidar da verdade pode ser uma atitude cômoda para negar o sofrimento, ou ainda, uma estratégia de manipulação para impedir reações ao "status quo".

Enfim, o termo "inércia cognitiva", parece-nos adequado a um tempo de indiferença ao que é ou não verdade ou real. São os tempos da "post-truth", que, infelizmente, relaciona-se à inabilidade de aprender ou mesmo, a ausência da vontade de conhecer.

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 18/04/2026. Opinião. p.23.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Autocuidado e liberdade radical são carne e unha para uma ótima velhice

Por Márcia Alcântara Holanda (*)

Minha amiga Rita me ligou de São Paulo cobrando o artigo que prometi escrever sobre a população velha — aquela não bem-dotada de saberes e recursos para o bem-viver. Disse, mais uma vez, que eu romantizo a velhice, como se os velhos não sofressem e bastasse querer para serem felizes. "E não é bem assim", resmungou.

Hoje, sem ela por perto, mas tentando acalmá-la e entrando na "real" que ela cobra, digo: os velhos no Brasil vivem, sim, o desamparo. Como lembra Alexandre Kalache: "Envelhecer não é tão fácil não". E não é mesmo. Os dissabores da velhice exigem políticas públicas claras e eficazes.

Se volto à história, vejo que, desde o Brasil Colônia, os cuidados com os velhos ficaram muito mais nas mãos da caridade — Santas Casas de Misericórdia e famílias — do que sob o dever social do Estado.

Como mostra Mary del Priore em História da Velhice no Brasil, o envelhecer, por muito tempo, foi vivido à margem de direitos, sustentado mais pela compaixão do que por políticas bem estruturadas. Esse modelo desembocou nos asilos do início do século passado, ainda sob a lógica assistencial.

Foi com a Constituição de 1988 que a proteção à velhice ganhou status de direito. Vieram, depois, a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa, a Política Nacional da Pessoa Idosa e o Estatuto da Pessoa Idosa. Em tese, deixamos de ser objetos de cuidado para nos tornarmos sujeitos de direitos.

Mas que direitos são esses, Rita, se as calçadas daqui seguem como pistas de trekking impossíveis a velhos? Se espaços públicos — como a nossa Beira-Mar, construída com pistas exclusivas para pedestres — são tomados inescrupulosamente por bicicletas, skates e patins, com seus proprietários deslizando a altas velocidades e colocando em risco quem apenas quer caminhar? Esse descaso tem nome: idadismo institucional disfarçado.

Diante desse cenário, para amenizá-lo, trago o que considero o ponto mais "top" do envelhecer hoje: a política pessoal.

(*) Médica pneumologista; coordenadora do Pulmocenter; membro honorável da Academia Cearense de Medicina.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/04/2026. Ciência & Saúde. p.16.

 

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