Por
Romeu Duarte Junior (*)
Um novo e sinistro mal acomete os
brasileiros e as brasileiras: as tais plataformas de apostas esportivas, também
conhecidas como bets, nome derivado do verbo bet que em inglês significa
apostar. Não que só agora o nosso povo descobriu essa mania; a população
brazuca sempre se viu envolvida com algum tipo de jogo, seja o do bicho, seja o
carteado, seja o turfe, seja a loteria, seja o bingo, seja qualquer atividade
lúdica em que o azar, esta triste palavra, esteja envolvida.
Todavia, se no passado essas manias se
davam com base no "vale o escrito", nestes tempos que correm, as bets
operam na velocidade do algoritmo, gerando uma espécie de vício que faz adoecer
as pessoas, estas cada vez mais incontroláveis em suas tentativas de ganhar
dinheiro, cruéis fracassos.
Essa doença é alimentada por duas
características da nossa sociedade: a aversão ao planejamento e a
irresponsabilidade financeira. O gosto pelo lema "deixa a vida me levar,
ao léu e ao deus-dará" é o leitmotiv de muita gente boa por aí. De outra
parte, estourar cartão de crédito, esbanjar o que não se tem, comprar coisas
desnecessárias ou fúteis são atos que desenham a cara da turma que costuma frequentar
a fila do Serasa.
Há absurdos tais como muitos beneficiados
pelo programa Bolsa Família apostarem tudo o que têm e o que não têm no jogo do
tigrinho, virando reféns de uma roleta russa ignominiosa. Não são mais seres
humanos, são zumbis, são drogados que precisam da heroína do jogo constante
para seguir vivendo, se é que isso é vida. Nada fácil a situação.
O governo federal, preocupado com o
endividamento dos apostadores e de suas famílias, criou regras para a
publicidade das bets, tal como faz em relação ao cigarro. O Ministério da
Fazenda tornou obrigatória a exibição de advertências relativas à jogatina, bem
como ampliou as restrições quanto ao conteúdo das propagandas, principalmente
aquelas que incentivam as apostas como forma de amealhar caraminguás ou que se
utilizem de figuras populares para influenciar o respeitável público.
Realmente, dá raiva ver jogador de futebol
que até bem pouco tempo tinha uma imagem sagrada, se revelar, na verdade, um
santinho do pau oco vendendo enganosas facilidades na televisão e nas redes
sociais. Quem sabe se não foi essa nova pandemia o que acabou com a nossa
seleção?
Especialistas, por seu turno, informam que
só o aviso repreensivo não basta. Há que se contar com fiscalização
tecnológica, tratamento médico para dependentes, programas de educação
financeira e mecanismos rigorosos de controle de gastos. O Desenrola está por
aí, resolvendo o buraco das finanças pessoais arrasadas com dinheiro público,
mais um gargalo administrativo.
Com certeza, esse assunto mais a segurança
pública serão os temas mais abordados neste ano eleitoral. Com a cabeça zonza
de tanto pensar no momentoso e angustiante problema, deixei a crônica de lado e
fui respirar no jardim. Lá fora, dois sujeitos conversavam. "Aposto dez
paus que nos próximos cinco minutos não passa nenhuma Topic 703 aqui na Antônio
Sales". Ah, Brasil, tem jeito não...
(*) Arquiteto e
professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 20/07/26. Vida & Arte. p.2.

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