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domingo, 20 de março de 2016

Causos do Paula Ney In: O Brasil Anedótico


COLEGAS...
Ernesto Sena - "Notas de um Repórter", pág. 185.
Após a sua entrada para a pasta da Fazenda, havia o conselheiro Francisco Belisário Soares de Sousa recorrido, já, três vezes, ao crédito do país no estrangeiro, quando, ao passar um dia pela rua do Ouvidor, ouviu que alguém o saudava, alto:
- Bom dia, sr. Conselheiro, meu amigo e colega!
O ministro voltou-se, e, vendo Paula Ney, de chapéu na mão, numa reverência, correspondeu, atrapalhado, ao cumprimento.
E Ney, logo, com o mesmo sorriso:
- Colega, sim... Porque... V. Excia. Também não vive de empréstimos?

O CALO
Ernesto Sena - "Notas de um repórter", pág. 186.
Paula Ney, o maior desperdiçador de talento que o Brasil já possuiu, não perdoava os seus desafetos e, ainda menos, as nulidades pretensiosas que prosperavam no seu tempo. Conservava-se, uma tarde, em um grupo na rua do Ouvidor, sobre o prestígio da imprensa, quando um presentes, que se dizia jornalista, aventurou, acaciano:
- A imprensa é um grande corpo...
- É... é... - atalhou Paula Ney, piscando por trás do "pince-nez". - A imprensa é um grande corpo. Mas você, nesse corpo...
E sem temer a reação:
- É o calo do dedo mínimo do pé esquerdo!...

MERCÚRIO PARA TRÊS
Coelho Neto - "A Conquista", pág. 44.
Era no Rio antigo, primeiros dias da República, últimos dias da Monarquia. Entrava Paula Ney no teatro Santana, quando foi abordado por duas mundanas, antigas atrizes, que o arrastaram para uma das mesas vazias a fim de que lhes pagasse alguma coisa.
O boêmio não se fez rogado. Sentou-se entre as duas raparigas, e, batendo, forte, com a bengala na mesa de estanho, chamou:
- "Garçon"!... "Garçon"!
E à aproximação do empregado:
- Mercúrio, para três!
Fonte: Humberto de Campos. O Brasil Anedótico (1927).
Nota do Editor: Com esta postagem, estamos fazendo a transcrição dos causos que compõem a obra o Brasil Anedótico, de Humberto de Campos, publicada em 1927, que tem por personagem central o poeta e humorista cearense Paula Ney.
Marcelo Gurgel Carlos da Silva

sábado, 31 de outubro de 2015

O BRASIL ANEDÓTICO LXXIV


PROFECIA QUE FALHOU
Assis Cintra - "Mentiras Históricas", pág. 95.
Quando Deodoro da Fonseca, destacado para Mato Grosso pelo governo imperial, regressou ao Rio, estava no poder o gabinete Ouro-Preto, formado a 7 de junho de 89.
Ferido na sua dignidade de militar e de amigo do trono, o velho soldado não parecia surdo, dessa vez, ao apelo dos seus camaradas, que o queriam pôr à frente de um movimento republicano.
A trama transpirou, e foi levada ao conhecimento de Ouro-Preto, que sorriu.
- Movimento republicano? - estranhou.
E com desprezo:
- Os netos dos nossos netos, serão governados pelos netos de Sua Majestade.

A FRASE DE BADARÓ
J.M. de Macedo - "Ano Biográfico", vol. III, pág. 48.
Italiano, embora, de nascimento, Libero Badaró sente-se, ao chegar ao Brasil, atraído pela grande luta que então se travava pela nacionalização do Império nascente. Arrebatado por uma das torrentes de paixões, funda, com outros, em S. Paulo, o Observador Constitucional, que exerce, de pronto, enérgica influência sobre a opinião pública.
Na noite de 30 de novembro de 1830 sai Badaró da residência de um amigo quando, na esquina, é assaltado por dois indivíduos embuçados, os quais o alvejam com tiros de pistolas.
Ferido gravemente, é levado para casa. Cercam-no amigos, discípulos, companheiros. Querem operá-lo, mas ele opõe-se. Médico, sabe que o ferimento é de morte.
Aproxima-se a agonia. Badaró ergue-se, então, em um dos cotovelos, e exclama, como iluminado:
- Morre um liberal, mas não morre a liberdade!

MERCÚRIO PARA TRÊS
Coelho Neto - "A Conquista", pág. 44.
Era no Rio antigo, primeiros dias da República, últimos dias da Monarquia. Entrava Paula Ney no teatro Santana, quando foi abordado por duas mundanas, antigas atrizes, que o arrastaram para uma das mesas vazias afim de que lhes pagasse alguma coisa.
O boêmio não se fez rogado. Sentou-se entre as duas raparigas, e, batendo, forte, com a bengala na mesa de estanho, chamou:
- "Garçon"!... "Garçon"!
E à aproximação do empregado:
- Mercúrio, para três!
Fonte: Humberto de Campos. O Brasil Anedótico (1927).
Nota do Editor: Com esta postagem, estamos encerrando a transcrição dos causos que compõem a obra o Brasil Anedótico, de Humberto de Campos, publicada em 1927, que usamos nos últimos cinco anos, para marcar o final de cada mês.
Marcelo Gurgel Carlos da Silva

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O BRASIL ANEDÓTICO LXXIII


A MORTE DE LAURINDO RABELO
Melo de Morais Filho - "Artistas do meu tempo", pág. 182.
De origem cigana, Laurindo Rabelo tinha de ser, e era, fatalista. Semanas antes da sua morte, era comum ouvi-lo dizer, com profunda convicção:
- Deixarei de existir no dia e mês em que morreu meu pai.
E assim sucedeu, efetivamente. No dia em que tinha de fechar os olhos, pediu que chamassem um padre, pois desejava receber a extrema unção. Este compareceu, e o poeta, sabendo-o no compartimento anexo, abraçou a esposa, pedindo-lhe:
- Lê para mim a oração dos agonizantes.
E após a leitura, afagando-a:
- É bom que eu morra primeiro, para te ensinar como se morre...

O CALO
Ernesto Sena - "Notas de um repórter", pág. 186.
Paula Ney, o maior desperdiçador de talento que o Brasil já possuiu, não perdoava os seus desafetos e, ainda menos, as nulidades pretensiosas que prosperavam no seu tempo. Conservava-se, uma tarde, em um grupo na rua do Ouvidor, sobre o prestígio da imprensa, quando um presentes, que se dizia jornalista, aventurou, acaciano:
- A imprensa é um grande corpo...
- É... é... - atalhou Paula Ney, piscando por trás do "pince-nez". - A imprensa é um grande corpo. Mas você, nesse corpo...
E sem temer a reação:
- É o calo do dedo mínimo do pé esquerdo!...

O COMBOIO
Contada ao colecionador.
Eleito o conselheiro Rodrigues Alves, em 1918, para a presidência da República, mandou chamar ao seu leito de enfermo o dr. Artur Neiva, então diretor da Higiene de S. Paulo, perguntando-lhe se aceitava, no seu governo, a direção da Saúde Pública.
- E eu tenho que deixar a Higiene aqui em S. Paulo? - indagou o convidado, que é fanático pelo Estado natal.
- Naturalmente.
- Então, V. Excia. me perdoe mas eu não aceito. O meu cargo, aqui, é mais honroso do que qualquer outro.
E numa definição do Brasil, que fez sorrir de vaidade o velho presidente paulista:
- S. Paulo, sr. conselheiro, é uma locomotiva poderosa, arrastando vinte vagões vazios!

O ORGULHO DE MORAIS E BARROS
Ernesto Sena - "Notas de um Repórter", pág. 229.
Era Prudente de Morais presidente da República, e Morais e Barros, seu irmão, senador por São Paulo, quando, uma tarde, se encontraram na rua do Ouvidor, a um mesmo tempo, este último e os deputados Augusto de Freitas, da Bahia, e Prisco Cavalcante, de Minas. Como o paulista e o mineiro não se conhecessem, Augusto de Freitas fez as apresentações:
- O deputado Prisco Cavalcante, de Minas... O senador Morais e Barros, irmão do sr. Prudente de Morais...
- Perdão! - protestou Morais e Barros, com gravidade. - Eu sou seu irmão mais velho.
E circunspecto:
- Prudente é que é meu irmão...
Fonte: Humberto de Campos. O Brasil Anedótico (1927).

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

O BRASIL ANEDÓTICO LXXII


O ESTILO DE EUCLIDES
Anedota corrente, confirmada ao colecionador por Olavo Bilac e Coelho Neto.
Conversava-se, uma vez, em um grupo de homens de letras, sobre Euclides da Cunha, que acabava de publicar os Sertões, quando Joaquim Nabuco, que lhe censurava o estilo retorcido, opinou:
- É um grande escritor, concordo.
E num gesto de desagrado:
- É pena que escreva com cipó...

OS HÓSPEDES DE SANTO ANTÔNIO
Ernesto Sena - "Notas de um Repórter", pág. 164.
Católico praticante, verdadeiro frade leigo, o conselheiro Ferreira Viana residia, mesmo quando ministro do Império, em uma cela do convento de Santo Antônio, onde os religiosos o tinham como companheiro. Certa vez, em palestra à mesa, frei João Costa, membro da confraria, começou a enumerar as pessoas que tendo residido naquela casa de Deus, tinham dali saído para ser ministros ou para outros cargos importantes.
- Frei João, frei João, fale baixo! - pediu Ferreira Viana, com ares misteriosos. E olhando em torno:
- Não conte isso lá fora, senão toda essa gente se vem meter aqui no convento!...

RESPEITO À ETIQUETA
J.M. de Macedo - "Ano Biográfico", vol. I, pág. 312.
O dr. Antônio Ferreira França, que foi deputado geral pela Bahia em quatro legislaturas, entre 1823 e 1837, era não só um dos oradores mais espirituosos da Câmara como um dos médicos mais ilustres do seu tempo. Sentindo-se Pedro I doente, ordenou que chamassem o médico baiano, o qual compareceu prontamente.
No correr da visita, o imperial enfermo sentiu sede, e o dr. França, que nada entendia da etiqueta da Corte, encheu um copo dágua, e ia dar-lhe, quando um dos camaristas o deteve, brusco, dizendo-lhe que não lhe cabia aquela honra, que só a ele competia dar água ao Imperador.
O dr. Ferreira desculpou-se quanto pôde e, voltando ao Paço no dia seguinte, sucedeu que estando sozinho com o monarca, este manifestasse desejo de verter água. O "criado-mudo" estava ao alcance da mão, mas o dr. França resolveu vingar-se; correu à porta do quarto, abriu-a, e, as mãos em concha, gritou para o corredor:
- Quem é o do vaso?!... Venha, quem é o do vaso!...

COLEGAS...
Ernesto Sena - "Notas de um Repórter", pág. 185.
Após a sua entrada para a pasta da Fazenda, havia o conselheiro Francisco Belisário Soares de Sousa recorrido, já, três vezes, ao crédito do país no estrangeiro, quando, ao passar um dia pela rua do Ouvidor, ouviu que alguém o saudava, alto:
- Bom dia, sr. Conselheiro, meu amigo e colega!
O ministro voltou-se, e, vendo Paula Ney, de chapéu na mão, numa reverência, correspondeu, atrapalhado, ao cumprimento.
E Ney, logo, com o mesmo sorriso:
- Colega, sim... Porque... V. Excia. Também não vive de empréstimos?
Fonte: Humberto de Campos. O Brasil Anedótico (1927).

sexta-feira, 31 de julho de 2015

O BRASIL ANEDÓTICO LXXI


O HOMEM BOTÃO
Humberto de Campos - Discurso de recepção na Academia Brasileira de Letras, maio de 1920.
Uma tarde, estava Emílio de Menezes à porta da confeitaria Pascoal, em companhia de um amigo, quando passou pela calçada, arrogante, charuto ao queixo, um cavalheiro de alta representação, conhecido na cidade pela sua aversão ao pagamento das dívidas. Ferido pela soberba do tipo, Emílio voltou-se para o companheiro, perguntando-lhe, à queima-roupa:
- Em que se parece aquele sujeito com um botão?
O outro não atinou com a chave do enigma, e ele completou, perverso:
- É que ele também não paga a casa em que mora...

O SINAL DOS VARAIS
Ernesto Sena - "Notas de um Repórter", pág. 164.
Estava o conselheiro Ferreira Viana uma tarde na Câmara dos Deputados, quando se aproximou do seu grupo um antigo político e homem de letras diversas vezes incluído na lista senatorial, e sempre atirado à margem. Talentoso, mas avarento, o recém-chegado vestia um paletó cheio de manchas à altura dos quadris, onde de vez em quando esfregava as mãos.
Com a sua jovialidade habitual, Ferreira Viana perguntou-lhe:
- Que é isto, Fulano?
- Não é nada... Não é nada... - respondeu o outro, com mau humor.
- Ah, já sei! já sei! riu o conselheiro, sem se desconcertar.
E ferino:
- São sinais dos varais da liteira da gente que tens conduzido para o Senado!

O CHAPÉU VELHO
Afonso Celso - Discurso na Academia Brasileira de Letras.
Era Raimundo Correia estudante em S. Paulo quando mandou fazer, para uma festa na Faculdade, um terno novo. Faltava-lhe, porém, o chapéu, e os companheiros de "república" - Valentim, Afonso Celso, Silva Jardim e Assis Brasil - resolveram oferecer-lhe um chapéu novo.
No dia seguinte, apareceu Raimundo na Faculdade, com a roupa nova e o chapéu velho.
- E o chapéu novo? - indagaram os colegas.
- Está em casa.
E confessou, a voz comovida:
- Eu vinha saindo com o que vocês me deram quando olhei para o cabide. Lá estava o chapéu velho; mas tão triste, tão descorado, que me meteu pena. Parecia dizer-me: "É assim, não é?" Para as aulas, para o trabalho, para a chuva, sou eu; para as festas, fico eu aqui, e vai o outro, unicamente porque e novo'! Fiquei sensibilizado, pendurei lá o outro, e vim com ele.
E beijando o velho feltro:
- Tão meu amigo, coitado!...

CONSELHO DE SÁBIO
Ernesto Sena - "Notas de um Repórter", pág. 162.
Era o conselheiro Ferreira Viana ministro do Império, quando, em visita à Casa de Correção, teve a sua atenção solicitada por um rapaz de maneiras distintas, fisionomia simpática, mas triste, que lhe pedia licença para duas palavras.
- Então, qual o seu crime? indagou Ferreira Viana, com o seu ar bonachão.
- Senhor, eu abusei da honestidade de uma menor.
- A quantos anos de prisão foi condenado?
- A quatro; já aqui estou há dois, e faltam-me ainda dois. Se, porém, V. Excia. quiser proteger-me, obtendo o meu indulto, eu me comprometo a casar com a ofendida.
- Olhe, quer um bom conselho, um conselho de amigo? - observou-lhe Ferreira Viana, com interesse.
E batendo-lhe no ombro, paternal:
- Cumpra o resto da pena...
Fonte: Humberto de Campos. O Brasil Anedótico (1927).

terça-feira, 30 de junho de 2015

O BRASIL ANEDÓTICO LXX


A MELHOR CARTA DE EMPENHO
Moreira de Azevedo - "Mosaico Brasileiro", pág. 145.
Era o Dr. João Gomes de Campos juiz na Corte, quando se apresentou na sua casa uma titular de grande estalão com uma carta de empenho, para que lhe fosse favorável no julgamento de uma causa.
- Minha senhora, tenha a bondade de abrir essa gaveta, - pediu o magistrado.
A dama puxou a gaveta, que se achava repleta de cartas para abrir.
- Que viu aí, minha senhora?
- Cartas; muitas cartas, ainda fechadas, dirigidas a V. Excia.
- Pois, deite a sua aí, minha senhora.
- Mas, Sr. Desembargador...
- Perdoe-me, minha senhora; tenho feito isso aos pobres e não posso ser mais generoso com os ricos.
E de pé, para despedi-la:
- A lei, minha senhora, é a melhor carta de empenho que me podem apresentar.

BATUTA DE MARINHEIRO
Moreira de Azevedo - "Mosaico Brasileiro", pág. 151.
Era o capitão-tenente Bento José de Carvalho, irmão do Visconde de Inhaúma, comandante da corveta Isabel, quando esta naufragou, em 1859, nas costas de Marrocos.
O sinistro ocorreu durante uma tempestade. As ondas, enormes e furiosas, varriam o navio, quando este, rebentado o casco e partidos os mastros, começou a afundar-se.
- A vida de um comandante, depois do naufrágio, é fardo que não se deve disputar às ondas! - gritou, em desespero, o bravo marujo.
E atirou-se ao abismo.

COTEGIPE PROFETA
A. J. de Araújo Pinho - "O Barão de Cotegipe no Rio da Prata", pág. 8.
O Barão de Cotegipe, com a sua preciência política, foi, pode-se dizer, o piloto avisado da marcha da monarquia. Pelos acontecimentos de que era testemunha, previa aqueles que se avizinhavam. Pelo vôo das gaivotas conhecia a aproximação da tormenta.
Em maio de 1888, comentando a abolição, previu que, dentro de pouco tempo, se iniciaria para o país uma fase revolucionária, a qual traria a nação convulsionada por muito tempo. E como alguns colegas, sorrissem, voltou-se para eles, exclamando, em tom profético:
Se eu me engano, lavrem na minha sepultura este epitáfio: "O chamado no século Barão de Cotegipe, João Maurício Wanderley, era um visionário"!

O FIM DE UM GÊNIO
Moreira de Azevedo - "Mosaico Brasileiro", pág. 161.
Álvares de Azevedo foi, talvez, o talento mais precoce que o Brasil já produziu. Nascido a 12 de setembro de 1831, faleceu a 25 de abril de 1852, contando, portanto, pouco mais de 21 anos, - o que não obstou nos tivesse deixado uma obra poética imperecível.
Ao sentir a aproximação da morte, que lhe vinha prematura em conseqüência da vida boêmia em que consumia a mocidade, pediu Álvares de Azevedo à sua mãe que se retirasse, ergueu-se no leito, encostou a cabeça ao peito do irmão, e, tomando a mão do pai, beijou-a com ternura.
- Que fatalidade, meu pai! - murmurou.
E fechou os olhos, para sempre.
Fonte: Humberto de Campos. O Brasil Anedótico (1927).

quinta-feira, 30 de abril de 2015

O BRASIL ANEDÓTICO LXVIX


O ESPÍRITO DE PADRE ANSELMO
A. Cerqueira Mendes - "Figuras Antigas", vol. I.
O arcipreste da Sé de São Paulo, Joaquim Anselmo de Oliveira, era não só desabusado como espirituoso. Após uma vida acidentada, já na velhice, embarcou para o Rio de Janeiro afim de ser operado da catarata que lhe ia empanando a vista.
No dia seguinte ao da operação, Hilário de Gouveia, o operador, aproximou-se dele, que se achava de olhos vendados.
- Sente-se feliz? - perguntou.
- Muito! - retrucou o sacerdote. - E compreende bem que há razão para isso.
E prevendo o insucesso da intervenção cirúrgica:
- Vazam-me o olho por dois contos de réis! É barato!
 
O EMPREGO IDEAL
Moreira de Azevedo - "Mosaico Brasileiro", pág. 156.
Este episódio é dado, também, como ocorrido com Floriano Peixoto. Domingos Barbosa ("Silhuetas", pág. 46), e atribui, por sua vez, ao Conselheiro Gomes de Castro.
Era Álvares Machado presidente do Rio Grande do Sul em 1840, quando se apresentou em palácio um indivíduo de boas maneiras que lhe ia dar parabéns pela investidura e, ao mesmo tempo, pedir-lhe um emprego. Desejava, porém, que o lugar fosse de representação, bem remunerado e de pouco trabalho.
- Pois, não, meu caro senhor; pois, não, - prometeu o presidente. - O segundo que eu descobrir nessas condições será seu.
- O segundo? e por que não o primeiro?
E Álvares Machado:
- Porque, andando eu há muito tempo atrás de um emprego desses, o primeiro, naturalmente, será meu!

A ÚNICA REPÚBLICA: O IMPÉRIO
Múcio Teixeira - "O Imperador visto de perto", pág. 192.
Era Múcio Teixeira cônsul geral do Brasil na Venezuela, quando ali chegou a notícia da proclamação da República. Ao penetrar no palácio do governo, onde fora pedir o seu "exequatur", o presidente da Venezuela, dr. Rojas Paul, encaminhou-se para ele, dizendo:
- "Señor Consul Geral do Brasil, pida a Dios que su Patria, que ha sido gobernada durante medio siglo por un sabio, no sea de hoy por delante llevada por el tacón del primero tirannelo que el ejercito le presente".
E abraçando-o, comovido:
- "Se ha acabado la unica Republíc; que existia en America: el Imperio del Brasil!"

O MARIDO MINEIRO
Presenciado pelo colecionador.
Na sala de espera da Academia Brasileira de Letras, no "Petit Trianon", um visitante falava mal dos mineiros, em geral, e acentuava:
- Eu tenho tanta prevenção com mineiro, que, havendo uma sobrinha minha, a quem muito estimo, contraído casamento recentemente com um rapaz de Juiz de Fora, cortei inteiramente relações com ela. O mineiro tem todos os defeitos e o principal é furtar nos negócios em que se mete.
O general Lauro Müller, que se achava próximo, e que, como se sabe, era catarinense, não se conteve:
- Pois olhe, meu caro amigo, - interveio, mesmo sem conhecer o sujeito; - sabe de uma cousa? O senhor ainda vai ser muito amigo desse mineiro, porque fique certo que ele vai tratar muito bem a sua sobrinha.
- Eu, amigo de um homem que furta?
- Sim, senhor, - tornou Lauro Müller. Porque, o brasileiro, em geral, furta da família para lançar fora; ao passo que o mineiro, se furta, como o senhor diz...
E com entusiasmo:
- Furta para a família!
Fonte: Humberto de Campos. O Brasil Anedótico (1927).

sábado, 28 de fevereiro de 2015

O BRASIL ANEDÓTICO LXVIII



O ORGULHO DE PARANÁ
Joaquim Nabuco - "Um analista do Império", tomo I, pág. 400.
Era o Marquês do Paraná presidente do Gabinete, quando surgiu a candidatura do seu filho, Honório Carneiro Leão, a deputado geral por Minas Gerais, nas eleições de 1856. Informado do fato, o Imperador, em conversa com o seu ministro, procurou abordar o assunto, fazendo-lhe sentir o inconveniente de apresentar-se como candidato “o filho do presidente do Conselho”. Paraná era, porém, orgulhoso demais para deter-se.
- Eu, como Honório Hermeto Carneiro Leão, não preciso do favor do presidente Conselho para eleger um deputado por Minas! - declarou.
Ocorrendo, porém, a sua morte antes do pleito, o seu filho foi estrondosamente derrotado.
OS DOIS ORNAMENTADORES
J.M. de Macedo - "Memórias da Rua do Ouvidor", pág. 227.
À rua do Ouvidor, entre a atual rua Sachet e a dos Ourives, cortada pela Avenida, havia, outrora, a Livraria Mongie, em frente à qual era estabelecido o cabeleireiro Desmarais.
- Temos os dois a mesma profissão - dizia o livreiro ao seu velho amigo de palestras à porta. - Ambos nós adornamos as cabeças.
E concluía:
- Eu por dentro, e você por fora!
MORTE DE MARIZ E BARROS
Moreira de Azevedo - "Mosaico Brasileiro", pág. 394.
Nascido em 1835, Antônio Carlos de Mariz e Barros, filho do Visconde de Inhaúma, tinha apenas 31 anos e já se havia coberto de glória no Paraguai. A 7 de março de 1866, ao retirar-se o Tamandaré do bombardeio do forte de Itapirú, foi esse navio, do qual era comandante o moço oficial, atingido por uma granada inimiga, cujos destroços mataram e feriram grande número de homens da guarnição. Com uma das pernas esfacelada, tinha Mariz e Barros de submeter-se a uma amputação, e os médicos pediram-lhe que se deixasse cloroformizar.
- Prefiro um charuto, - declarou, rindo, o bravo marinheiro.
E foi fumando, e conversando alegre que se deixou amputar.
O terminar, porém, a operação, durante a qual não soltou, sequer, um gemido, cessou de sorrir e começou a empalidecer.
- Digam a meu pai que eu sempre honrei o seu nome, - pediu, em despedida, às mãos amigas que lhe eram estendidas.
E pendeu a cabeça, morto.
EFEITOS DO CASAMENTO
Melo de Morais Filho - "Artistas do meu tempo", pág. 175.
Após uma juventude acidentada e boêmia, que se comprazia em ferir os outros com as flechas de ouro da ironia, Laurindo Rabelo sentiu o coração tocado por uma funda simpatia pela moça que veio a ser depois sua esposa. Casou-se. E a modificação que sofreu, pelo menos por algum tempo, foi completa. Abandonou as rodas brejeiras, pôs de parte o costume de despertar inimizades. Até o violão, seu companheiro de infância, foi posto à margem. Os amigos interpelavam-no sobre mudança tão brusca. E ele respondia, rindo:
- Case-se o mar, que o mar ficará manso!
Fonte: Humberto de Campos. O Brasil Anedótico (1927).

sábado, 31 de janeiro de 2015

O BRASIL ANEDÓTICO LXVII


A MORTE DE RACTCLIFF
Ulisses Brandão - "A Confederação do Equador", pág. 287.
João Guilherme Ractcliff, cujo nome se acha tão ligado à história das ideias liberais no Brasil e que foi uma das vítimas do movimento republicano de 1824 em Pernambuco, viu-se condenado à morte, na Corte, a 15 de março de 1825, sendo conduzido à forca no dia 17, com os seus dois companheiros de jornada, João Metrowick e Joaquim da Silva Loureiro. No local do suplício tentou falar ao povo, e começou:
- Brasileiros! Eu morro inocente; morro pela causa da razão, da justiça e da liberdade! Praza ao céu que o meu sangue seja o último que se derrame no Brasil e no mundo por motivos políticos...
Ia continuar, mas o padre que o acompanhava pediu-lhe que o não fizesse. Ractcliff atendeu-o, acrescentando, apenas:
- Eu me resigno, e morro pela causa da Liberdade!...

REMÉDIO SEM USO
J.M. de Macedo - "Ano Biográfico", vol. II, pág. 498.
Antônio Francisco de Paula e Holanda Cavalcanti de Albuquerque, Visconde de Albuquerque, que foi senador de 1838 a 1863, e um dos estadistas do Império que sobraçou maior número de pastas ministeriais, era temido no Senado pela franqueza com que julgava, incisivamente, os homens e os fatos.
Certa vez, em 1848, acabava um dos membros do governo de dar, da tribuna, informações sobre a grave situação do país, quando o visconde se ergueu:
- Senhor presidente! - começou. - O país vai mal, e o seu estado não melhorará enquanto não se enforcar algum ministro. Tenho dito.
E sentou-se.

ÁGUIAS E PERUS
A. Cerqueira Mendes - "Figuras Antigas", vol. I, pág. 71.
O Visconde de S. Lourenço e o Barão de Cotegipe, dois dos maiores espíritos do Senado do Império, viviam quase sempre em divergência. Certo dia, historiava o primeiro, da tribuna, a sua atuação na política nacional, a sua preocupação em pôr em evidência os homens de real merecimento, quando Cotegipe começou a aparteá-lo.
- Eu também tenho feito o mesmo e, no entanto, só tenho colhido desilusões, - declarou o Barão.
- Mas há uma diferença, - replicou S. Lourenço.
E alteando a voz:
- É que eu tenho criado águias, e V. Excia. perus!

DIPLOMACIA PARAGUAIA
Moreira de Azevedo - "Mosaico Brasileiro"
Era José Maria do Amaral ministro do Brasil no Paraguai, quando, em uma audiência que lhe fora concedida pelo ditador Lopez, com a assistência do respectivo ministro dos Estrangeiros, teve de apresentar uma série de queixas formuladas pelo governo Imperial. Ao expor o caso de mau tratamento dado pelas autoridades paraguaias ao comandante de um navio brasileiro, Lopez o interrompeu, brusco:
- Mente Usted!
José Maria estremeceu com aquele modo de contestar, mas continuou. E o ditador, de novo:
- Mente Usted!
Concluída a exposição, durante a qual Solano Lopez desmentiu quatro ou cinco vezes, sumariamente, o nosso ministro, coube ao ditador a vez de falar. À enunciação, porém, do Primeiro fato, José Maria o interrompeu, claro:
- Mente V. Excia.!
- Como é isso? - bradou Lopez, furioso. - Eu minto? Dizer-me a mim que minto?
- Perdão, Excia., - observou José Maria, respeitoso.
E numa reverência:
- Estou apenas usando uma fórmula da diplomacia paraguaia!
E continuou a desmentir.
Fonte: Humberto de Campos. O Brasil Anedótico (1927).

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O BRASIL ANEDÓTICO LXVI


HONESTIDADE DE MINISTRO
J.M. de Macedo - "Ano Biográfico", vol. II, pág. 83.
Era José Bernardino Batista Pereira de Almeida Sodré ministro da Fazenda, em 1828, quando o seu colega da pasta da Guerra lhe oficiou, pedindo o pagamento das despesas de transporte, e outras, de alguns operários que o Imperador mandara engajar na Alemanha. Recusado esse pagamento, mandou Pedro I chamar José Bernardino, interpelando-o.
- Senhor, - respondeu o ministro, - no orçamento que vigora não tenho verba que autorize essa despesa; ela é, portanto, ilegal, e eu não a posso ordenar.
- Mandei engajar esses homens, - tornou o Imperador, com energia; - quero que as despesas sejam pagas.
- E se-lo-ão, Senhor; pois que Vossa Majestade o quer.
Dias depois, indagado pelo monarca sobre o cumprimento da sua ordem, o ministro informou:
- Em face da lei, o Tesouro Nacional não podia pagar a esses engajados; a ordem de Vossa Majestade tinha, porém, de ser cumprida.
- E então?
- Paguei-os de meu bolso particular!

COTEGIPE E A PRINCESA ISABEL
A. J. de Araújo Pinho - "O Barão de Cotegipe no Rio da Prata", pág. 85.
O Barão de Cotegipe, cujas previsões políticas lhe deram a fama póstuma de profeta, foi, talvez, a inteligência mais aguda do Segundo Império. Contrário à emancipação dos escravos pelo abalo econômico que essa medida acarretaria, opôs-se quanto pôde à sua execução, observando sempre à Princesa Regente, quando ministro, os riscos de uma providência radical. Feita a abolição em 1888, encontrou-se um dia a Princesa com o velho titular, e interpelou-o, feliz:
- Então, sr. Cotegipe?... A abolição se fez com flores e festas... Ganhei ou não a partida?
O Barão fitou-a, com os seus olhos miúdos e inteligentes.
- É verdade, - confessou. E com tristeza:
- Vossa Alteza ganhou a partida, mas perdeu o trono!...
Um ano depois, proclamava-se a República.

O GRITO DE PAES DE ANDRADE
Manuel de Carvalho Paes de Andrade, que havia de ser, depois, a alma da Confederação do Equador, da qual foi o primeiro e Presidente, exercia já uma influência poderosa em Pernambuco quando ali se cogitou do movimento de 1817, sob o patrocínio de Antônio Carlos e do governador José Luiz de Mendonça. O objetivo desse movimento era, porém, apenas, pedir a D. João VI uma Constituição para o Brasil. Paes de Andrade já se não satisfazia, no entanto, nesse tempo, com isso.
- Não basta! - declarou, ao ouvir a proposta dos outros. - República e só República!
E entre o espanto dos que o escutavam:
- Morra para sempre a tirania real!...

VOZES "PARLAMENTARES"
J.M. de Macedo - "Ano Biográfico", vol. II, pág. 151.
Em 1850, a enfrentar sozinho a Câmara inteira, Sousa Franco, que ainda não era visconde e falava, apesar de doente, várias vezes por dia, foi atacado da tribuna pelo deputado Aprígio, que procurava fazer espírito com a "unidade oposicionista". A certa altura desse discurso um espectador interrompeu o orador, arremedando o latir de um cachorro. O presidente fez soar a campainha, protestando contra o insulto.
- Sr. presidente, - reatou Aprígio, - foi um aparte do sr. Sousa Franco.
- É engano de V. Excia. - retrucou, prontamente, este.
E revidando o golpe:
- Foi o eco de sua voz.
Fonte: Humberto de Campos. O Brasil Anedótico (1927).

domingo, 30 de novembro de 2014

O BRASIL ANEDÓTICO LXV


DOS MINISTROS
J.M. de Macedo - "Ano Biográfico", vol. II, pág. 321.
Era Magalhães Calvet, oficial-maior da Secretaria do Império, quando foi eleito deputado geral pelo Rio Grande do Sul. Dependendo embora do governo, declarou-se em franca oposição ao ministério, discutindo os atos do ministro com uma eloquência desusada e admirável conhecimento de todos os atos dos chefes.
- Que pensa do oficial-maior da sua secretaria? - perguntou ao marquês de Monte-Alegre, então ministro, um deputado da maioria.
- Penso e sei que é deputado liberal e da oposição, aqui, respondeu o marquês; - mas posso adiantar, também; que é modelo de lealdade na Secretaria de que é, e continuará a ser, oficial-maior!
HONRAS FÚNEBRES
A.J. de Araújo Pinho - "O Barão de Cotegipe no Rio da Prata", pág. 78.
Com seu espírito sutil, o Barão de Cotegipe era um céptico. Sem vaidades, não disputava nem, mesmo, aceitava honrarias. Ao regressar do Rio da Prata, onde resolvera o problema da restauração do Paraguai, o Imperador quis decretar a elevação do seu título, ato a que ele se opôs, Se morresse como ministro, o seu desejo era que lhe não prestassem, sequer, honras fúnebres, como era de praxe.
E acentuava:
- Por um cadáver não se devem incomodar duzentos homens!
CONFIANÇA DE MINISTRO
J.M. de Macedo - "Ano Biográfico" vol II, pág. 83.
Afastado da pasta da Fazenda, em 1829, por incompatibilidade com o Imperador, vivia José Bernardino Batista Pereira de Almeida Sodré indiferente ao poder, quando Pedro I o mandou chamar ao Paço.
- Quero que faça parte do novo ministério - disse o monarca. - Pode escolher a pasta que lhe convenha. Aceita?
- Não, majestade! - respondeu, com orgulho, José Bernardino.
E de pé, para retirar-se:
- Senhor, honra de donzela, e confiança de ministro, só se perde uma vez! Eu não posso, pois, tornar a ser ministro de Vossa Majestade!
AS SELVAJERIAS DOS CIVILIZADOS
Jean de Lery - "História de uma viagem à terra do Brasil", ed. De 1926, pág. 56.
Não obstante a sua intervenção constante junto aos tupinambás, seus aliados, para que não comessem os inimigos aprisionados em combate, Nicolau de Villegaignon adquiria esses prisioneiros em troca de espelhos e anzóis, e, nos seus momentos de mau humor, infligia-lhes os mais duros suplícios.
Certa vez, foi um desses infelizes, já entregue aos franceses, submetido a um dos tormentos mais bárbaros que se podia imaginar: o da gordura fervendo, derramada nas nádegas. Estorcendo-se de dor, o desgraçado, amarrado a uma peça de artilharia, gemia, e bradava:
- Se soubéssemos que Paicolás nos ia tratar assim, teríamos deixado que os inimigos nos comessem!...
Fonte: Humberto de Campos. O Brasil Anedótico (1927).

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

BRASIL ANEDÓTICO

Aos leitores deste blog:
Em virtude de problemas com o nosso PC, que nos impede acessar o arquivo pertinente, neste mês, não encerraremos a postagem mensal com causos contidos no BRASIL ANEDÓTICO, de Humberto de Campos, como habitualmente temos feito.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

terça-feira, 30 de setembro de 2014

O BRASIL ANEDÓTICO LXIV


SENADOR NÃO É CRIADO

Ernesto Matoso - "Coisas de meu tempo", pág. 77.

O Imperador Pedro II nutria uma aversão indissimulável à bajulação. Por isso mesmo, os homens que menos influência exerciam sobre o seu ânimo eram os da sua intimidade, principalmente os que ocupavam cargos de etiqueta na Casa Imperial.

Um destes, seu camarista, subserviente pelo cargo e pela índole, desejava entrar para a política, e apareceu como candidato de um dos partidos a uma cadeira no Senado.

Votado em primeiro lugar, foi preterido na escolha pelo monarca. Três vezes veio, ainda, na lista tríplice e três vezes foi esquecido. Conhecendo-lhe a doblez como palaciano, o Imperador sabia que esta se não coadunava com a independência e a altivez indispensáveis a um senador daqueles tempos.

Ressentido, o camarista indagou de Sua Majestade a razão de tantas preterições.

- Não tenho queixas contra o senhor, declarou o soberano.

E deixando patente o motivo:

- É que são tão importantes os serviços que me presta como "servidor da minha casa", que não quero privar-me deles!

A QUESTÃO CHRISTIE

Ernesto Matoso - "Coisas do meu tempo", pág. 61.

Era por ocasião da questão Christie, em 1862. Não tendo o governo imperial atendido a algumas reclamações descabidas da Inglaterra, iniciou esta uma série de represálias, aprisionando no mar diversos navios mercantes brasileiros. A multidão, indignada, enchia as ruas e praças do Rio de Janeiro, reclamando a reação. Até que se aglomerou diante do Paço, pedindo a palavra do soberano.

Pedro II apareceu a uma das janelas, o rosto severo.

- Calma, senhores, calma! pediu.

E a voz segura de quem não recuará:

- Confiem no meu governo e fiquem certos que, sem honra, não quero ser imperador!...

A COMENDA DO CÔNEGO BRITO

Ernesto Matoso - "Coisas do meu tempo", pág. 92.

O cônego Joaquim Camilo da Silva Brito, republicano histórico, era já admirado, como homem de grande cultura, pelo Imperador, quando Sua Majestade o conheceu pessoalmente em Minas por ocasião da sua viagem àquela província. De regresso à Corte, encantado com as demonstrações de atenção pessoal recebidas de tão ilustre sacerdote, incluiu Pedro II o seu nome da lista dos agraciados, concedendo-lhe a comenda da Ordem de Cristo.

Dias depois, aparecia nos A pedidos de uma folha da Capital a seguinte comunicação:

"AO PÚBLICO - Tendo sido agraciado pelo governo imperial com a comenda da Ordem de N. S. Jesus Cristo, um eclesiástico de nome igual ao meu, declaro, para evitar confusões, que desta data em diante, passo a assinar-me: Vigário Joaquim Camilo de Brito, com um 'l' só".

A QIJEIXA DOS TUPINAMBÁS

Jean de Lery - "História de uma viagem à terra do Brasil", ed. De 1926, pág. 154.

Quando Nicolau de Villegaignon se fixou na baía do Rio de Janeiro, em 1555, os índios tupinambás, que habitavam o litoral, achavam-se na guerra com a tribo dos maracajás, cujos prisioneiros eram todos devorados. Para impedir a continuação da antropofagia, procurava o conquistador francês adquirir por compra todos os prisioneiros, salvando-os, assim, da voracidade do inimigo.

Essa interferência do hóspede branco negócios da raça não agradava nada aos tupinambás, um dos quais se queixava, num suspiro a Jean de Lery:

- Não sei o que será de nós, de agora em diante!... Depois que Paicolás (nome davam a Villegaignon) veio para a ilha, não comemos nem a metade dos nossos prisioneiros!...

Fonte: Humberto de Campos. O Brasil Anedótico (1927).
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domingo, 31 de agosto de 2014

O BRASIL ANEDÓTICO LXIII


MOÇOS E VELHOS
Moreira de Azevedo - "Mosaico Brasileiro", pág. 136.
Um dos assuntos prediletos do Marquês de Maricá, na feitura das suas máximas e pensamentos, era o confronto da mocidade com a velhice. Após a leitura de algumas sentenças desse gênero, entendeu um rapazola, seu conhecido, de apresentar-lhe algumas objeções.
- Não as aceito, - declarou o velho filósofo.
E com o seu bom senso habitual:
- Não as aceito, porque o senhor não tem a minha idade e nada sabe a respeito dos velhos; e, se julgo os moços, é com conhecimento de causa, pois já fui moço como o senhor.

CACHORRO NA IGREJA
Ernesto Matoso - "Coisas do meu tempo", pág. 250.
Tendo entrado para o Senado do Império por haver obtido um voto, apenas, mais do que o seu competidor, Diogo Velho era alvo, frequentemente, de alusões depreciativas, por parte dos seus adversários. Certo dia, um deles, atacando-o, começou:
- Sua Excia., que entrou nesta casa não se sabe como...
- Ora, ora! - fez o conselheiro Zacarias, da sua cadeira.
E entre a hilaridade geral:
- Entrou aqui porque encontrou a porta aberta!

A ADORAÇÃO DOS VIVOS
Anais da Câmara dos Deputados, 19 de dezembro, 1913.
Era em fins de 1913, e a Câmara discutia o projeto de Martim Francisco, mandando repatriar os restos do Imperador Pedro II, depositados em S. Vicente de Fora, em Portugal. Orava Pedro Moacir, e a sua oração era um apelo veemente ao governo, no sentido de ser restituído ao Brasil o corpo do seu antigo monarca. O país precisava prosternar-se diante daqueles despojos, em que havia morado a alma de um dos seus maiores cidadãos.
E é quando Irineu Machado aparteia, interrompendo o patético do momento:
- O tempo é pouco para adorar os vivos!...

A QUEDA DA MONARQUIA
Ernesto Matoso - "Coisas do meu tempo", pág. 91.
Foi na noite em que se realizava o baile aos chilenos na ilha Fiscal, que os republicanos resolveram, definitivamente, o dia e o modo de derrubar a monarquia, a 9 de novembro de 1889.
Conduzido para ali em barca especial, o Imperador desembarcou com facilidade, mas, ao penetrar no edifício, tropeçou num tapete. Correram pessoas a ampará-lo. O monarca equilibrou-se, porém, por si mesmo, e, voltando-se para os que o rodeavam, observou, sorrindo:
- A Monarquia escorregou, mas não caiu!

SÁBIOS DA GRECIA E DO BRASIL
Moreira de Azevedo - "Mosaico Brasileiro", pág. 135.
Conversava-se certa vez, no Paço, sobre a facilidade com que toda a gente, no tempo, discutia os negócios públicos, opinando sobre coisas que não entendia, quando o Marquês de Maricá teve esta frase:
- A Grécia tinha sete sábios; mas no Brasil, só sete é que não o são!...

Fonte: Humberto de Campos. O Brasil Anedótico (1927).

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Causos Militares em Brasil Anedótico VI


A GRANDE DIFERENÇA
Serzedelo Correia - "Páginas do Passado", pág. 20.
Manhã de 15 de novembro de 1889. Em frente ao quartel-general Deodoro punha em linha as bocas de fogo da tropa revoltada. Ignorando toda a extensão da conspiração militar, o Visconde de Ouro-Preto chama Floriano e pergunta por que as forças fiéis ao governo não saíam, para dar combate à força rebelde.

- É que Deodoro tem artilharia e, em cinco minutos, arrasaria o quartel-general, - respondeu o mestre de campo.
Ouro-Preto estranhou a resposta:

- No Paraguai tomava-se artilharia; só se aquela não pode ser tomada por estar comandada por um general valente...
- Não, não é por isso, - revidou Floriano, compreendendo a ironia.

E no mesmo tom:
- É que no Paraguai eram inimigos, e ali são brasileiros!

A QUEIXA DOS TUPINAMBÁS
Jean de Lery - "História de uma viagem à terra do Brasil", ed. De 1926, pág. 154.
Quando Nicolau de Villegaignon se fixou na baía do Rio de Janeiro, em 1555, os índios tupinambás, que habitavam o litoral, achavam-se na guerra com a tribo dos maracajás, cujos prisioneiros eram todos devorados. Para impedir a continuação da antropofagia, procurava o conquistador francês adquirir por compra todos os prisioneiros, salvando-os, assim, da voracidade do inimigo.

Essa interferência do hóspede branco negócios da raça não agradava nada aos tupinambás, um dos quais se queixava, num suspiro a Jean de Lery:
- Não sei o que será de nós, de agora em diante!... Depois que Paicolás (nome davam a Villegaignon) veio para a ilha, não comemos nem a metade dos nossos prisioneiros!...

HONESTIDADE DE MINISTRO
J.M. de Macedo - "Ano Biográfico", vol. II, pág. 83.
Era José Bernardino Batista Pereira de Almeida Sodré ministro da Fazenda, em 1828, quando o seu colega da pasta da Guerra lhe oficiou, pedindo o pagamento das despesas de transporte, e outras, de alguns operários que o Imperador mandara engajar na Alemanha. Recusado esse pagamento, mandou Pedro I chamar José Bernardino, interpelando-o.

- Senhor, - respondeu o ministro, - no orçamento que vigora não tenho verba que autorize essa despesa; ela é, portanto, ilegal, e eu não a posso ordenar.
- Mandei engajar esses homens, - tornou o Imperador, com energia; - quero que as despesas sejam pagas.

- E se-lo-ão, Senhor; pois que Vossa Majestade o quer.
Dias depois, indagado pelo monarca sobre o cumprimento da sua ordem, o ministro informou:

- Em face da lei, o Tesouro Nacional não podia pagar a esses engajados; a ordem de Vossa Majestade tinha, porém, de ser cumprida.
- E então?

- Paguei-os de meu bolso particular!

BATUTA DE MARINHEIRO
Moreira de Azevedo - "Mosaico Brasileiro", pág. 151.
Era o capitão-tenente Bento José de Carvalho, irmão do Visconde de Inhaúma, comandante da corveta Isabel, quando esta naufragou, em 1859, nas costas de Marrocos.

O sinistro ocorreu durante uma tempestade. As ondas, enormes e furiosas, varriam o navio, quando este, rebentado o casco e partidos os mastros, começou a afundar-se.
- A vida de um comandante, depois do naufrágio, é fardo que não se deve disputar às ondas! - gritou, em desespero, o bravo marujo.

E atirou-se ao abismo.
Fonte: Humberto de Campos. O Brasil Anedótico (1927)

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Causos Militares em Brasil Anedótico V


POPULARIDADE E VULGARIDADE
"Revista da Semana", número especial, de 28 de novembro de 1925.
Era o Duque de Caxias ministro da Guerra, quando o Imperador foi visitar, em sua companhia e com o seu séquito, um dos quartéis da capital. Chegando ali, percorreu o edifício todo, indo até à cozinha, onde se servia, na ocasião, o rancho aos soldados.
- Dê-me uma destas marmitas, - ordenou o soberano, indicando uma das rações de sopa.
Atendido, tomou Sua Majestade todo o conteúdo, declarando que, mesmo no Paço, jamais tomara sopa tão saborosa.
Disciplinado e disciplinador, Caxias não gostou da singeleza do monarca. E, ao portão do quartel, disse-lhe, brusco:
- Vossa Majestade há de desculpar a minha franqueza, mas, por esse processo, Vossa Majestade não se populariza.
E corajoso:
- Vossa Majestade "vulgariza-se"!

REGALIAS MILITARES
Constâncio Alves - "Revista da Academia Brasileira de Letras", n° 60, de dezembro de 1926.
Laurindo Rabelo, não obstante o descaso de si mesmo, era profundamente orgulhoso. Médico do Exército e íntimo na casa do coronel Tamarindo, havia o poeta chegado à residência deste, em dia festivo, na ocasião, exatamente, em que a mesa das pessoas graduadas já se achava completamente cheia. Não querendo fazê-lo esperar, a dona da casa indicou-lhe um lugar na mesa da gente moça.
Laurindo franziu o rosto.
- Adeus, coronel, - disse, despedindo-se.
E já da porta, ofendido:
- Os médicos do Exército jantam com o Estado-Maior!

A ÚLTIMA CARGA
J.M. de Macedo - "Ano Biográfico", vol. III, página 296.
Atacado pelas febres nos pântanos paraguaios, o general José Joaquim de Andrade Neves, já agraciado com o título de Barão de Triunfo, não queria abandonar a sua divisão de cavaleiros rio-grandenses, para tratar-se. Cada vez que caía sobre o inimigo era uma vitória para a sua cavalaria.
Após o choque em Lomas Valentinas, o herói não pôde mais. Levado para Assunção, a febre alta não o deixava mais, conservando-o em delírio permanente. E nesse delírio, os olhos em fogo, as mãos crispadas, erguia-se no leito, a barba em desalinho, como no fragor das batalhas.
A 6 de janeiro de 1870, era esse o seu estado, quando, no último delírio, bradou, com as últimas forças:
- Camaradas!... mais uma carga!... E tombou arquejando, para morrer.

O PORTUGUÊS DE LABATUT
Visconde de Taunay - "Trechos de minha vida", pág. 27.
Incorporado ao Exército brasileiro com o posto de major, Carlos Augusto Taunay, tio do visconde de Taunay, seguiu para a Bahia, a fim de dar combate, ali, ao remanescente das tropas portuguesas comandadas pelo general Madeira. Metendo-se, porém, a criticar os planos do general Labatut, contra o qual conspirava, foi preso e condenado à morte.
Esperançoso, todavia, de salvar-se, pediu Carlos Taunay adiamento da execução, alegando o desejo de confessar-se antes de morrer.
Labatut condescendeu, mas não perdoou. E a sua resposta foi esta, num português arrevesado:
- "Confissa ou non confissa, ma fussila!"

O PRIMEIRO PASSO
J.M. de Macedo - "Ano Biográfico", vol. III, pág. 246.
Figura de relevo no Exército do Império desde os acontecimentos de 7 de abril de 1831 o major Miguel de Frias achava-se preso em uma das fortalezas, quando, na noite de 3 de abril de 1832, desembarcou na cidade, a fim de assumir o comando da tropa, que entrava na conspiração. Em caminho, amigos procuraram dissuadi-lo, pois a maior parte da guarnição não o seguiria.
- É tarde - declarou ele; - agora já dei o primeiro passo!
E seguiu para o campo de Santana, onde, uma hora depois, era desbaratado.

Fonte: Humberto de Campos. O Brasil Anedótico (1927)

sábado, 31 de maio de 2014

Causos Militares em Brasil Anedótico IV

A GENEROSIDADE DE CAXIAS
J.M. de Macedo - "Ano Biográfico", vol. II, pág. 247.

Derrotado a 3 de abril de 1832, pelo major Luiz Alves de Lima, que saíra ao seu encontro com um corpo de polícia, o major Miguel de Frias pôs-se em fuga, procurando escapar. Lançando-se no seu encalço, estava Alves de Lima para alcançá-lo, quando um adversário lhe dispara um tiro de pistola, fazendo pranchear o cavalo e permitindo, com isso, que o fugitivo desaparecesse.
Avançando de novo, é Caxias informado de que o chefe revoltoso se havia asilado em uma casa da rua do Sabão da Cidade Nova. Apeia-se, o dono da casa franqueia-lhe a residência, que Caxias percorre. Ao fim de um corredor, havia uma porta fechada, com a chave na fechadura. O chefe legalista dá volta à chave, e abre. No centro do quarto, de pé, Miguel de Frias o esperava. Os dois heróis olham-se, mudos. Ao fim de um instante, Alves de Lima puxa a porta, e retira-se, dizendo ao dono da casa:
- Desculpe-me; não há ninguém...
No dia seguinte, Miguel de Frias fugia, asilando-se nos Estados Unidos.

O SEGREDO DA BRAVURA
Taunay - "Reminiscências", vol. I, pág. 25.
Osório era, por índole, gracejador e espirituoso. Em um piquenique que lhe foi oferecido no Corcovado, uma senhora, a quem havia dado o braço, perguntou-lhe em que consistia o segredo da sua bravura.
- Eu fui valente por medo... - informou o herói.
- Medo?
- Sim; tinha medo de que as minhas patrícias bonitas não me recebessem bem, se me portasse mal nas batalhas.

A ARGÚCIA DE FLORIANO
Serzedelo Correia - "Páginas do Passado", pág. 18.

Apresentado pelo tenente Jansen Tavares, foi ao Itamarati, para falar a Floriano, um oficial do Exército, que pretendia dois meses de soldo adiantado:
- Sente-se, - ordenou o presidente.
Recusando a gentileza, o militar, mesmo de pé, contou ao que ia. E puxando do bolso uma nota de 5$000 e outra de 1$000, completamente machucadas, abriu-as, e disse ao ditador:
- Eis o dinheiro que eu e a minha família temos para passar o mês.
Floriano voltou-se, dizendo:
- Vá embora; vou mandar que lhe dêem três meses.
E virando-se para o tenente Jansen:
- Este camarada joga!...
- Não sei, marechal.
- Sabe, sim. Ele é jogador.
- Joga um pouco, - articulou Jansen.
- Um pouco, não; joga muito.
- Como sabe V. Excia. disso?

- Pois você não vê como ele tira o dinheiro do bolso todo machucado?! Isto só faz o jogador. No pano verde apanha indistintamente as notas de 20$000, de 10$000 e de 5$000, machuca tudo, mete no bolso e depois, ao fazer a parada, puxa-as da calça e abre para as pôr na mesa.
O oficial era, de fato, grande jogador.

“TECUM DOMINUS”
Moreira de Azevedo – “Mosaico Brasileiro”, pág. 42.
José Inácio da Costa, apelidado o Capacho, era poeta, ator e major do regimento dos pardos, nos tempos coloniais. Havendo-se mudado as vozes das manobras militares, o major Capacho, ainda pouco prático, trovejou, em exercício:
- Armas ao ombro!
- Não é armas ao ombro, Sr. oficial, - retorquiu-lhe o ajudante, - é “ombro armas!”
Apresentando-se o major dois dias depois ao serviço, ao entrar no paço deu um espirro.
- “Dominus tecum - disse-lhe um soldado.
- Não diga “dominus tecum”, mas “tecum dominus”! - observou o major.
E solene:
- Não sabe que, agora, tudo está mudado?

Fonte: Humberto de Campos. O Brasil Anedótico (1927)

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Causos Militares em Brasil Anedótico III


EUCLIDES DA CUNHA E FLORIANO
Araripe Júnior - Revista da Academia Brasileira de Letras, n° 39, pág.256.

Genro do general Solon, Euclides da Cunha tivera notícia de que Floriano, que mandara prender aquele militar, o ia mandar fuzilar. Num ímpeto de coragem, o moço escritor procurou o ditador. E, sem medir as conseqüências, começou a verberar o seu procedimento, se tal fizesse. Tamanha audácia, era das que Floriano costumava punir com uma descarga de fuzilaria, no silêncio de uma fortaleza. Ao terminar, o ditador indagou, a testa franzida:
- Já acabou?
- Já, - respondeu, firme, Euclides.
E Floriano, desanuviando a testa:
- Menino, quando seu pai não cogitava sequer de fabricá-lo, (a frase é outra, brutal, mas equivalente), eu já era amigo de Solon.
E no mesmo tom:
- Pode retirar-se.

A PARTE DO CAVALO
Ernesto Sena - "Deodoro", pág. 151.
Era Deodoro presidente da República quando o convidaram para visitar o atelier de Rodolfo Bernardeli, no qual se achava, quase acabado, o quadro representando a proclamação da República.
O velho soldado parou diante da tela, na qual a sua figura varonil aparecia montando um ginete árdego, examinando-o, atento.
De repente, voltou-se para os que o acompanhavam.
- Vejam os senhores! - disse.
E indicando o quadro:
- Quem lucrou no meio de tudo aquilo foi o cavalo!...

A FUGA DO TENENTE
Paulo Barreto - Discurso na Academia Brasileira de Letras.

Preso durante a revolta, foi Guimarães Passos obrigado a assentar praça na Guarda Nacional, no posto de cabo. Vítima de um inimigo rancoroso, escreveu a um amigo, pessoa de confiança do governo, este bilhete rápido:
"Salva-me de ser cabo, para ser alferes, ao menos."
Aflito, o amigo procurou o comandante da milícia, arranjou-lhe posto melhor, farda, dinheiro, e mandou-lhe tudo. E, à noite, recebia outro bilhete:
"Promovido tenente sigo grato rumo ao mar."

E fugiu para a Argentina.

O PRESTÍGIO DA GUARDA
J.M. de Macedo - "Ano Biográfico", vol. I, pág. 156.

Na sessão legislativa de 1837, acabava Diogo Antônio Feijó de apresentar o seu relatório propondo medidas audaciosas para manter a ordem à revelia das forças regulares, quando um deputado, à sua direita, indagou:
- V. Excia. tem quarenta mil homens para sustentar as idéias do relatório?
- Não; mas tenho quarenta mil guardas nacionais!

ABNEGAÇÃO DE CHEFE
Rio-Branco - Com. a "História da Guerra do Paraguai", cap. XVIII.

A coluna brasileira de Mato-Grosso recuava acossada pelos paraguaios e dizimada pelo cólera, quando, chegada a um pouso, foram procurar o comandante, o coronel Camisão, para comunicar-lhe novas mortes. Encontraram-no com a fisionomia alterada, em dores atrozes. O médico da expedição, o dr. Gesteira, quis experimentar uma nova aplicação de remédios.
O chefe recusou, porém:
- Deixe-me morrer tranqüilo; nada me pode salvar: socorra antes aos soldados que ainda possam escapar...
E morreu.

A ESPADA DO HERÓI
Contada pelo Dr. Mário Brant.
Ocupava o general Osório a pasta da Guerra quando em um dos despachos coletivos no Paço, o Imperador, minado pelas moléstias e pela velhice, começou a cochilar, e adormeceu, na presença mesmo dos seus ministros. Estes entreolharam-se, numa consulta silenciosa. Que fazer, em semelhante emergência? Irem-se embora? Seria uma desconsideração. Chamá-lo? Seria um desrespeito.
Osório teve uma idéia. Desafivelou o cinturão, e, como inadvertidamente, deixou cair a espada, com estrondo, no soalho. Despertando com o barulho, o monarca, vendo o que era, objetou-lhe, sorrindo:
- Certo, Sr. general, a sua espada não caía assim no Paraguai.
- Absolutamente, majestade! - contestou o herói.
E num assomo repentino de orgulho:
- Mesmo porque, no Paraguai, não se dormia!

FALTA DE SORTE
Ernesto Sena - "Deodoro", pág. 149.

Quando presidente da República, era Deodoro procurado por dezenas de indivíduos que se diziam republicanos de longa data e que se consideravam, por isso, com direito a serem amparados pelo novo regime. Um deles, homem de idade avançada, queixava-se, certa vez, insistentemente, da ingratidão da pátria, pois que havia sido propagandista, e era republicano há mais de trinta anos.
- Ora, meu caro amigo, - atalhou Deodoro, - eu sou republicano a datar de 15 de novembro, e já cheguei a presidente da República. Logo, a República não é ingrata.
E estendendo-lhe a mão para despedi-lo:
- O senhor é que é caipora!
Fonte: Humberto de Campos. O Brasil Anedótico (1927)
 

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