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domingo, 3 de maio de 2026

LAUDATE: homenagens a confrades das academias médicas do Ceará

A obra “Laudate: homenagens a confrades das academias médicas do Ceará está constituída de 30 (trinta) perfis biográficos distribuídos em quatro partes: I - Homenagens Acadêmicas; II - Homenagens a Acadêmicos Honoráveis; III - Homenagens a Novos Acadêmicos Titulares; e IV - Efemérides Acadêmicas.

A Parte I contém homenagens a cinco pediatras membros da Academia Cearense de Medicina (ACM) e/ou da Academia Cearense de Médicos Escritores (Acemes), a saber: João Valente de Miranda Leão, Raimundo Vasconcelos Arruda, Luís França Braga Ferreira, Maria dos Prazeres Ferreira Rabelo e Alberto Lima de Souza.

A Parte II presta homenagem aos quatro primeiros acadêmicos honoráveis da Acemes, por meio das biobibliografias de José Jackson Coelho Sampaio, José Mauro Mendes Gifoni, Josué Viana de Castro Filho e Lúcio Gonçalo de Alcântara.

A Parte III reproduz as biografias de 15 (quize) Membros Titulares da ACM, enumerados de 135 a 149, segundo a ordem de entrada nesse silogeu, sendo oito empossados em 2023 e sete em 2024, constantes na home page dessa arcádia, porquanto suas posses se deram após a publicação do livro “Academia Cearense de Medicina: história e membros titulares”.

Esses perfilados, segundo ordem disposta nesta edição, são os novos acadêmicos titulares: Antônio Augusto Guimarães Lima, Elizabeth de Francesco Daher, Ernani Ximenes Rodrigues, Francisco Jean Crispim Ribeiro, Francisco Sulivan Bastos Mota, Heládio Feitosa de Castro Filho, João Macedo Coelho Filho, José Lima de Carvalho Rocha, José Milton de Castro Lima, Lúcio Flávio Gonzaga Silva, Luiz Gonzaga de Moura Jr., Paulo Marcos Lopes, Pedro José Negreiros de Andrade, Raimundo José Arruda Bastos e Sílvia Maria Meira Magalhães.

Na Parte IV, como registros de efemérides acadêmicas, aparecem seis loas dirigidas, especificamente, aos confrades Maria Helena Pitombeira, Antônio Carlile Holanda Lavôr, Franscisco Flávio Leitão de Carvalho, Pedro Henrique Saraiva Leão, Vinicius Antonius de Holanda Barros Leal e João Otávio Lobo.

Essa coletânea, integrante da Coleção Antônio Justa da ACM, foi editada na forma de um e-book produzido pelo Instituto de Estudos e Pesquisas sobre o Desenvolvimento do Estado do Ceará (Inesp), sob os auspícios da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará.

Ela consagra um digno reconhecimento do valor da gente cearense, ao exibir as trajetórias de vida e as qualificações de ilustres médicos, ressaltando as suas ações em prol do legado da Medicina no Ceará às gerações, presente e futuras.

Cons. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Da Academia Cearense de Medicina (Cad. 18)

* Publicado. In: Jornal do médico, 22(204): 19-20, abril de 2026.

Nota do Blog: Com o artigo acima, atingimos 800 (oitocentos) trabalhos publicados em revistas, jornais e informativos.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Editor do Blog


quarta-feira, 22 de abril de 2026

Ariosto, um homem à frente do seu tempo

Por Cláudio Ricardo (*)

O Ceará perde um de seus mais extraordinários homens públicos: Ariosto Holanda. Sua partida entristece profundamente todos os que acreditam no poder transformador da educação, da ciência, da tecnologia e da vida pública exercida com dignidade. Mais do que um gestor, parlamentar ou intelectual, Ariosto foi um verdadeiro visionário, daqueles raros que enxergam antes dos outros o caminho que o futuro exige.

Muito antes de se tornar consenso falar em inovação, qualificação profissional, desenvolvimento científico e inclusão tecnológica, Ariosto já defendia, com firmeza e lucidez, que o Brasil só alcançaria um novo patamar de desenvolvimento se investisse seriamente no conhecimento e na formação de seu povo. Era, acima de tudo, um professor por essência. Tinha o dom de ensinar, inspirar, orientar e mobilizar. Sua vida foi uma permanente aula de compromisso com o futuro.

Na vida pública, destacou-se pela retidão, seriedade e coerência ética. Honrou cada função que exerceu com espírito republicano, respeito ao interesse coletivo e fidelidade aos mais nobres valores do serviço público. Em tempos tão desafiadores, sua trajetória se impõe como referência de integridade e decência.

Mas Ariosto também foi grande no plano humano. Homem de afetos sólidos, cultivou com zelo a família e os amigos, compreendendo que os vínculos humanos são parte essencial de qualquer legado verdadeiro. Sua generosidade, lealdade e sensibilidade marcaram todos os que tiveram o privilégio de conviver com ele.

Entre suas contribuições permanentes, destacam-se a criação e o fortalecimento de instituições como o NUTEC e o CENTEC, a criação do Conselho de Altos Estudos e Avaliação Tecnológica da Câmara dos Deputados, além de inúmeros projetos voltados à educação, ciência, tecnologia e inovação.

Ariosto parte fisicamente, mas permanece vivo em suas ideias, em suas obras e no exemplo que deixa ao Ceará e ao Brasil.

Foi, de fato, um homem à frente do seu tempo.

(*) Professor doutor e ex-reitor do IFCE.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 23/03/26. Opinião. p.20.


domingo, 12 de abril de 2026

TOCOGINECOLOGISTAS TITULARES DA ACM II: Ormando Rodrigues Campos

Ormando Rodrigues Campos nasceu em Camocim-CE, em 27/01/1937.

Ingressou na a Universidade Federal do Ceará (UFC)em 1958, formando-se médico em 1963. Fez Residência Médica em Clínica Obstétrica na UFC.

Em 1965, foi trabalhar no Hospital Regional de Quixeramobim, onde permaneceu por dois anos, lidando com a gente interiorana. De volta à Fortaleza, ainda conservando suas atividades em Obstetrícia, começou a atuar em Hemoterapia.

Em 1977, quando da criação do Centro de Hematologia e Hemoterapia do Ceará (Hemoce), foi para o Centre de Transfusion Sanguine Institut D'Hematologie, CTSIH, em Montpellier, na França, fazer Aperfeiçoamento em Transfusion Sanguine et Immuno-Hematologie.

Com a sua nova formação especializada, e lastreado nos conhecimentos auferidos no exterior, ele concorreu, efetivamente, para a implantação e consolidação da Hemoterapia no Hemoce.

Em 1987, retornou à França, para efetuar Aperfeiçoamento em Immuno-Hematologie Erythrocytaire, no Centre Regional de Transfusion Sanguine, de Lille.

Ormando Campos foi Diretor Geral do Hemocentro de Fortaleza de 1995 a 2002, um período pautado por sua proficiente gestão.

Do elenco de atividades de hemoterapeuta, no seu currículo figuram mais de trinta participações em cursos de atualização, no Brasil e no exterior, e 25 publicações técnicas e mais de uma centena de participações em seminários e congressos.

Foi empossado na Cad. 10 da ACM em 5/08/2016, patroneada por Carlos da Costa Ribeiro.

Acad. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Titular da cadeira 18 da ACM

* Publicado In: Jornal do médico, 22(201): 30-33, fevereiro de 2026.


sábado, 11 de abril de 2026

TOCOGINECOLOGISTAS TITULARES DA ACADEMIA CEARENSE DE MEDICINA

A Academia Cearense de Medicina (ACM) foi construída segundo os moldes da vetusta Academia Nacional de Medicina (ANM), a mais antiga academia em funcionamento ininterrupto no Brasil, posto que fundada, sob o reinado do imperador D. Pedro I, em 30 de junho de 1829.

Para fins de ingresso na ACM, espelhando-se na sua congênere nacional, os novos acadêmicos são alocados, conforme a prevalência de seus campos de atuação, em três grupos: Medicina (Clínica), Cirurgia e Ciência Aplicada à Medicina.

Das especialidades Cirúrgicas, a Tocoginecologia sempre se fez presente na ACM, pois o Acad. José Carlos da Costa Ribeiro, um dos notáveis médicos dessa especialidade no Ceará, foi um dos 26 Membros Titulares (MT) Fundadores da ACM. Também exerceram a especialidade de Ginecologia e Obstetrícia (GO) o ex-presidente Francisco das Chagas Oliveira, Galba Araújo e Anastácio Magalhães, já falecidos, e o Acad. José Iran dos Santos, atualmente MT Honorável.

A GO, presentemente, participa da arcádia médica cearense com três MT em efetivo exercício. São eles, a biografar, sinteticamente, por ordem de posse na ACM: Francisco José Costa Eleutério, Ormando Rodrigues Campos e Luciano Silveira Pinheiro.

Acad. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Titular da cadeira 18 da ACM

* Publicado In: Jornal do médico, 22(201): 30-33, fevereiro de 2026.

Postado no Blog do Marcelo Gurgel em 12/04/2026.


domingo, 29 de março de 2026

ADEUS AO ACADÊMICO JOSÉ WILSON ACCIOLY

Foi com profundo pesar que a comunidade médica local tomou conhecimento do falecimento, na tarde de 4 de março de 2026, do Dr. José Wilson Accioly, médico dermatologista e membro honorável da Academia Cearense de Medicina (ACM), desde 29/09/2023.

Nasceu José Wilson Accioly em Santana do Acaraú, Ceará, em 3/07/1936, filho único de José Accioly Araújo e Ana Alice Accioly.

De origem humilde, estudou do primário até o segundo ano científico em escolas sobralenses, mas cumpriu o terceiro ano científico, em Fortaleza, no Liceu do Ceará.

Ingressou na Faculdade de Medicina do Ceará em 1956 e colou grau da Universidade Federal do Ceará (UFC) em 1961.

Wilson Accioly iniciou seu aprendizado de Dermatologia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da UFC. Seguiu, alguns anos depois, para o Rio de Janeiro, onde cumpriu curso de especialização na Santa Casa de Misericórdia.

Após a formatura, foi admitido como médico do Hospital do Pronto-Socorro da Assistência Municipal de Fortaleza. Exerceu o cargo de dermatologista do Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado (IPASE) e da Secretaria da Saúde do Estado, sendo alçado às funções de diretor da Unidade Sanitária Darcy Vargas durante várias gestões. Foi médico do Ferroviário Atlético Clube. Foi ainda Médico do Trabalho.

Profissional de reconhecida competência manteve, por longos anos, manteve um concorrido consultório particular, tornando-se referência na Dermatologia cearense. Em 2005, publicou o livro “História da Dermatologia no Ceará”, no qual descreveu a evolução dessa especialidade em nosso estado desde os anos de 1930.

José Wilson Accioly pertenceu as seguintes entidades médicas: Sociedade Brasileira de Dermatologia, Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia (ABAI), Sociedade Luso-Brasileira de Alergia e Imunopatologia e Associação Médica Brasileira.

Foi aquinhoado com as honrarias seguintes: Medalha de Honra ao Mérito Profissional, do Conselho Federal de Medicina; Medalha do XLVII Congresso Brasileiro de Dermatologia; Placa de homenagem da ABAI – Regional do Ceará; Placa de Reconhecimento da Sociedade Brasileira de Dermatologia – Regional do Ceará.

Foi admitido na ACM, como Membro Titular, em 9/09/1994, ocupando a cadeira 38, patroneada por Álvaro Otacílio Nogueira Fernandes. Nessa arcádia médica exerceu relevantes cargos, em sucessivas gestões, incluindo o de 1º Secretário (1996-98), Vice-presidente (1998-20) e o de Presidente (2000-02), passando a seguir a membro do Conselho Consultivo durante duas décadas.

O desaparecimento terreno do dermatologista Dr. José Wilson Accioly consternou o seu amplo ciclo de relacionamentos, composto por familiares, amigos, confrades, colegas e pacientes, mercê dos seus reconhecidos méritos humanos e profissionais.

Casado com Therezinha Mont’Alverne Adeodato Accioly, desde 1964, deixou os filhos: José Wilson Filho, dermatologista; Paulo Marcelo, urologista; Adriano, dermatologista; e Janine, advogada.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Da Academia Cearense de Medicina– Cadeira 18

* Publicado. In: Revista AMC (Associação Médica Cearense). Março de 2026 - Edição n.54. p.31 (online).


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

LAUDATE: homenagens a confrades das academias médicas do Ceará

Por Antônio Augusto Guimarães Lima (*)

O livro Laudate – Aos Confrades das Academias Médicas do Ceará, de Marcelo Gurgel Carlos da Silva, é uma obra dedicada à valorização da história, da ética e da identidade das academias médicas do Estado. Publicado pelas Edições INESP (ALECE), o livro reúne registros históricos, homenagens a confrades e reflexões sobre o papel dessas instituições na preservação da tradição médica.

Mais do que um tributo, Laudate propõe uma reflexão sobre os desafios contemporâneos da profissão, especialmente diante das mudanças no ensino médico e na organização da assistência à saúde. O autor destaca que as academias não são apenas espaços honoríficos, mas centros de memória, cultura e responsabilidade moral.

Ao resgatar trajetórias de médicos que marcaram a história do Ceará, a obra reforça a importância da continuidade institucional e da formação humanística. O livro se dirige a médicos, professores e interessados na história da medicina, funcionando como um convite à preservação do legado profissional e ao fortalecimento dos valores éticos que sustentam a prática médica.

(*) Membro titular da Academia Cearense de Medicina.


domingo, 8 de fevereiro de 2026

O MÉDICO ESCRITOR LUIZ MOURA

Luiz Gonzaga de Moura Júnior veio ao mundo, por um imperativo gestacional, sobretudo de parturição, no Crato-CE, a 5 de dezembro de 1955, mas se reconhece como um legítimo filho do Cedro, onde foi gerado e viveu a sua infância.

Em se tratando da condição momentânea e dos conhecidos predicados do ilustre confrade Luiz Moura Jr., jocosamente qualificado de “arengueiro” por seus colegas, em tempos universitários, não se deterá aqui a explicitar aspectos biográficos profissionais, do médico cirurgião geral e bariátrico e professor universitário, mas se reserva a perlustrar, ainda que tangencialmente, alguns dos seus feitos bibliográficos.

Escudado na sua participação das antologias: Sobre Todas as Coisas (1987), Letra de Médico (1989), Efeitos Colaterais (1990), Meditações (1991), Outras Criações (1992), Esmeraldas (1993), Prescrições (1994), conduzidas pela Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Regional Ceará (Sobrames/CE), da qual foi presidente no biênio 1989-91, ele trouxe à lume, em 1997, a sua primeira obra-solo, sob o título “Tô Doente, Doutor!”, que se sagrou um êxito editorial, de tiragem esgotada e exemplares catados em sebos.

Em 2005, Luiz Moura brindou seus tantos ávidos e tão carentes leitores com o seu segundo livro “O Homem da Maleta Preta”, mantendo a mesma linha literária da publicação precedente, replicando o mesmo sucesso editorial e se consagrando como contista, cronista e memorialista, e, sobretudo, um exímio contador de causos.

Em 2008, com a sua carreira profissional consolidada, reativa o engajamento na produção literária, retomando a contribuição nas antologias da Sobrames/CE: Achado Casual (2008), Ressonâncias Literárias (2009), Letras Que Curam (2013), Digno de Nota (2014), Semeando Cultura (2016), À Flor da Pele (2017), Lapso Temporal (2018), Pontos de Vista (2019), Sopro de Luz (2020), A Plenos Pulmões (2021), Limiar da Criação (2022), Lampejos de Memória (2023), Via Profilática (2023) e Piscar de Olhos (2025).

Luiz Moura é membro titular fundador da Academia Cearense de Médicos Escritores (Acemes), ora exercendo uma profícua presidência à frente dessa entidade, tendo tomado parte em todos os dez números da Revista da ACEMES, do 0 de 2016 ao 9 de 2025.

Como ser notadamente gregário, possuidor de muitos amigos e colegas, em coautoria com Nasser Aguiar e Walter Miranda, tornou público, em 2010, o livro “A Arte Mede Sina”, para rememorar os trint’anos da Turma Samuel Pessoa, a dos médicos de 1980.2 da UFC; e, em 2020, rendeu loas ao corifeu da cirurgia bariátrica brasileira, o renomado cirurgião paulista Antônio Garrido, com a publicação “Garrido e a Cirurgia Bariátrica”.

Agora, para comemorar os seus 70 anos de idade, nada pode ser mais apropriado a um escritor do que se presentear e, sobretudo, regalar a todos com a publicação da obra monumental intitulada o “Diário de um Arengueiro”, cujo subtítulo qualifica o seu teor, ao reunir “motes, mitos e estórias – sátira e folclore médico”.

Cons. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Da Academia Cearense de Medicina – Cad. 18

* Publicado In: Jornal do médico, 22(200): 34-35, janeiro de 2026.


terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Roberto Proença de Macedo. Este é o cara

Por Pedro Jorge Ramos Vianna (*)

Escrevo este artigo para homenagear um grande homem. O verbo está no presente e não no passado, por que o que ele deixou como ensinamento para nós não se apagará. Eu tive a honra, enquanto era economista do INDI (Instituto de Desenvolvimento da Indústria (Fiec), de trabalhar com o Senhor Roberto Macedo como Assessor de Economia.

Este cargo me permitiu, muitas vezes, discutir com ele sobre os aspectos econômicos do Estado do Ceará, do Nordeste e do Brasil. E, naturalmente, sobre os aspectos da política econômica que afetavam a indústria cearense.

O primeiro aspecto que me chamou a atenção foi seu interesse em conhecer os meandros da ciência econômica para melhor compreender os fatos pertinentes à política econômica dos governos, seja federal, estadual ou municipal. Isso me chamou a atenção para um outro aspecto relevante de sua personalidade: a simplicidade.

Aqui eu relembro o fato de ele ter pedido, publicamente, desculpas a uma funcionária da FIEC por ter julgado mal um ato daquela funcionária. Este foi um exemplo cabal de sua simplicidade. Me lembro que na oportunidade o parabenizei pela sua coragem.

O Senhor Roberto Macedo jamais usou da empáfia (fato comum dentre aqueles que ocupam cargos relevantes) para justiçar suas posições. Quando havia alguma conferência ou palestra de algum técnico e ele não entendia o ponto defendido pelo expositor, sempre nos encontrávamos para discutir o que foi apresentado pelo conferencista.

O fato de ele ter dado apoio ao INDI para que nossas análises fossem cada vez melhores é um exemplo da sua preocupação com o saber. Outro aspecto que me chamou a atenção sobre sua personalidade foi o primar pela bem querência, pela amizade, pela harmonia no trabalho.

Aqui me vem à memória um fato muito importante em sua vida de empresário. Estavam em seu gabinete algumas pessoas da Fiec e conversávamos sobre as dificuldades das indústrias cearenses, em termos gerais, inclusive do problema de administração. Ele, então, contou como resolveu um problema que ocorreu em sua empresa.

Em reunião da Diretoria e examinando os dados financeiros ele concluiu que a empresa estava indo para a falência. E ele disse: "Vou chamar o japonês". Ele não deu o nome do "japonês". Mas era um especialista em administração empresarial. E o problema da empresa foi resolvido.

O que isso demonstra? Primeiro sua capacidade de pensar, primeiro, no sucesso da empresa; segundo, a sua capacidade em admitir erros. Se o caminho da empresa não estava indo para o sucesso, que algo fosse mudado.

Hoje sua empresa é uma das maiores empresas do Ceará, empregando milhares de pessoas. Termino este trabalho com uma frase do Amarílio Macedo "Era gostoso gostar dele"!

(*) Economista e professor titular aposentado da UFC,

Fonte: O Povo, de 14/12/25. Opinião. p.18.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

ZÉ TARCÍSIO: o regador de pedras

Por Raymundo Netto (*)

Quando fevereiro chegou, o mundo estava no rebuliço de guerra. A cegonha amalucada de vida pousou o bebê Zé Tarcísio na casa nº 12 da Vila Diogo, sendo acolhido por dona Chiquinha, matriarca de uma casa de mulheres operárias. O menino de olhos e sonhos azuis era pequeno e assim o seria por toda a vida, se não se tornasse tão grande.

Um dia, recebeu um quarto só para ele, devido à morte de Estelita, aos 17 anos, neta de Chiquinha, que ensinara àquele menino os segredos da voz. Aquele quarto seria o seu infante ateliê de traquinagens e descobertas. Daí, ainda criança, faltava as aulas para ser calouro em programas de auditório nas rádios. Num deles, na PRE-9, sobre um caixote - para alcançar o microfone - e cantando marchinha de Carnaval, ganhou o prêmio maior: uma barra de sabão "Pavão"! Tornou-se locutor mirim na Rádio Iracema - guarda com orgulho sua faixa até hoje - e em outro programa ganharia máquina de costura, oferecida a Marieta, sua mãe biológica, para que pudesse trabalhar em casa.

Não era muito chegado à escola. Tinha bolsa no Ginásio 7 de Setembro, mas dizia que gostava de ir apenas para brincar, jogar e se relacionar com os outros, além de integrar o grêmio. Atuava no palco do catecismo, "Entre a Cruz e o Pecado", assim como nas atividades do Clube dos Sezinhos - iniciativa do Sesi e da Casa de Juvenal Galeno. Nos Carnavais, desenhava e produzia as fantasias. E, nos festejos juninos, era ele a dar vida às ruas espalhando em cordões bandeirinhas coloridas de papel.

Na inauguração do Mauc, Antônio Bandeira conheceu os seus desenhos e o aconselhou a tentar carreira no Rio. Assim ele fez. Em Santa Tereza, chegou a morar na mesma casa onde respirava Manuel Bandeira. E lá, atuou em tudo o quanto, bebendo de todas as fontes e explorando diversas linguagens, exercitando a sua criatividade de sonhador, sempre levando ao mundo a sua percepção nordestina, o seu rico imaginário. No cinema, no teatro e na TV, fosse como ator, figurinista/aderecista, cenógrafo, produtor, roteirista e diretor ou mesmo como humorista na TV Tupi em "A, E, I, O... Urca". Como fotógrafo, que surgiu na ABA-Film cearense, assumiu posto na renomada revista "Manchete". Nas artes visuais, durante perverso olhar da ditadura, em pinturas, protestou contra a morte do estudante Edson Luís. Passou três anos na Escola Nacional de Belas Artes, mas não se adequou ao seu academicismo e a abandonou. Como "diabanjo", para escandalizar, correu de bicicleta na contramão em Copacabana sem camisa, usando asas de anjo e sutiã com seios postiços. Foi levado pela Polícia para depor por uma de suas instalações. Autoexilou-se pela Europa, estudando pintura e pintando em calçadas. Voltando ao Brasil, devotado a gravuras, pinturas, colagens, serigrafias, xilogravuras, esculturas e instalações, o jovem múltiplo vanguardista participou e foi premiado em diversos salões e bienais do País.

Até aqui, o leitor já percebeu não ser possível definir esse artista pela sua vida, pois ele mal cabe nela. O que dirá nos limites de uma crônica? Sim, o Zé é de uma beleza gigante, como gigante o era enquanto artista e ser humano. Generoso e alegre, ainda trazia a doçura de menino no olhar miúdo de emoções e no sorriso repleto de esperanças. No museu do tempo dos seus olhos, por aqui permanece a passarela de sua "Ilusão" e, nós, seus colegas, aprendendo a jogar pedras ou a regá-las para extrair flores ou um tiquinho de liberdade. Sem mais blás-blás-blás, vai, Zé Tarcísio, ilumina nosso céu de estrelas, instala por lá o seu novo ateliê e recebe essa ruma de anjos desejosos de seu abraço.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/01/25. Vida & Arte, p.2.


quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Os Mestres Nunca Morrem

Convivi com o Dr. Moreira desde o começo de minha formação médica. Como aluno, monitor, bolsista de iniciação à pesquisa, interno e depois residente do Departamento de Cirurgia, o contato com o professor José Moreira Lima foi, não só obrigatório, como marcante. Preceptor dedicado, cirurgião destemido - personalidade forte e envolvente -, Dr. Moreira nunca passou despercebido. Estou falando de uma época onde o cirurgião geral fazia de tudo, tempo das grandes incisões, da rapidez cirúrgica, das habilidades múltiplas... Destaque desde a época de aluno da faculdade de medicina, quando foi presidente do Centro Acadêmico no final dos anos 1950, depois como discípulo primoroso do grande professor Paulo Machado na década de 60, Dr. Moreira marcou sua trajetória como cirurgião e mestre nos mais importantes hospitais escolas de sua geração. Dono de uma grande clientela, pontificou como cirurgião geral na época áurea da Casa de Saúde São Raimundo. Médico cirurgião do Hospital Geral de Fortaleza desde a sua fundação, ali consolidou seu nome como mestre, cirurgião e gestor. Coordenou a Residência de Cirurgia e dirigiu o hospital na década de 80, deixando como principal legado a construção da nova emergência, ocasião em que foi realizado um grande concurso público para contratação de uma quantidade expressiva de novos médicos.

Na Faculdade de Medicina, fez história. Muito presente e atuante, nas suas aulas visitas, emergia sempre o professor extremamente exigente. Não aceitava essa desculpa de "não sei não senhor", os residentes eram obrigados a ter domínio completo das enfermarias. No centro cirúrgico, destacou-se na correção das grandes hérnias da parede abdominal. Qualquer vacilo dos residentes era repreendido com firmeza, tal como eram também elogiados com desvelo os bons desempenhos, "belo ponto, meu filho, merece uma tragada". Na sua gestão como chefe do Departamento de Cirurgia, criou a Jornada Científica do Departamento, hoje já na sua trigésima primeira edição, e foi o responsável pelo desencadeamento das negociações que acabaram por determinar a construção do novo hospital de cirurgia.

Associativamente, o professor Moreira também atuou de forma significante. Muito ativo no Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC), foi membro Titular, Mestre do Capítulo Ceará/Piauí/Maranhão, vice-presidente setorial e Membro Honorário do CBC, tendo recebido a Medalha do Mérito Cirúrgico por ocasião do XXIX Congresso do CBC, realizado em Fortaleza no ano de 2011.

Já aposentado da UFC e do HGF, em 2002 o professor Moreira foi convidado pelo professor Manassés, na ocasião Reitor da Universidade Estadual do Ceará, para colaborar na organização inicial do Curso de Medicina que lá se instalara. Como era de costume acontecer em todo projeto no qual se envolvia, dedicou-se de corpo e alma, dando aula incansavelmente em várias disciplinas no início do curso, o que lhe rendeu inúmeras homenagens e convites para dar nome e ser patrono ou paraninfo das primeiras turmas que lá se formaram. Vem desta época minha maior aproximação dele. Membro da banca examinadora do concurso que prestei para professor de Cirurgia do Curso de Medicina da UECE, passamos a conviver de perto por um bom período. Tornamo-nos verdadeiramente amigos e pude apreciá-lo mais ainda. Juntos fomos vozes dissonantes na ideia da construção do Hospital Universitário da UECE, na época proposta repugnada pela direção do Curso e Reitoria. Ver o Hospital Universitário hoje em pleno funcionamento enche-me de orgulho, e embora os alunos de hoje não saibam, nos corredores daquele hospital estão impregnados os lampejos dos sonhos e da inteligência de um homem obstinado.

Acompanhei de perto suas últimas internações, mas ontem, ao receber a notícia de sua morte, confesso que senti um misto de tristeza e saudade. A constatação da partida definitiva de um mestre querido enche-nos de vazios e faz com que nos sintamos vivendo em um mundo menor do que este que está ai desabrochando para muitos. É como se a morte deles estivesse levando também um pouco de nós. Mas, pensando bem, é justamente o contrário. A verdade mesmo é que os nossos mestres nunca morrem, eles estarão eternamente aqui impregnados em nossas atitudes, em nossos ensinamentos.

Assim, aquela risada franca, aquela mão estendida vigorosa e aquela opinião firme e forte do Dr. Moreira estarão sempre por aqui a nos guiar e ajudar a encontrar respostas e soluções. É isso, vai meu velho e bom amigo, descanse em paz.

Fortaleza, 15 de dezembro de 2025

Prof. Fernando Antônio Siqueira Pinheiro

Departamento de Cirurgia da Famed UFC


quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

O TROFÉU SEREIA DE OURO PARA ADRIANA FORTI

O Troféu Sereia de Ouro foi instituído, em 1971, pelo chanceler Edson Queiroz. com o propósito de homenagear, de forma expressiva, aqueles que se notabilizaram e concederam importante contribuição ao desenvolvimento do Ceará, em seus distintos campos de atuação.

A Academia Cearense de Medicina (ACM) sente-se igualmente prestigiada quando tem um dos seus membros entre os recipiendários da “Sereia de Ouro” e, no caso deste ano de 2025, rejubila-se em ver a confreira Adriana Costa e Forti no quarteto dos agraciados com o honroso troféu.

Adriana Costa e Forti nasceu em Mossoró, no Rio Grande do Norte, em 25/04/1948, filha de Manassés Moreira Costa e Ieda Menezes Costa.

Fez o Primário e o Ginasial em sua cidade natal e o Científico no Colégio Juvenal de Carvalho, em Fortaleza, porque desejava cursar Medicina. Bem-sucedida no exame vestibular, ingressou na Universidade Federal do Ceará (UFC), em 1966, e foi diplomada médica em 1971.

Recém-formada, viajou para o Rio de Janeiro, onde cumpriu a Residência Médica no Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione (1972-73) e a Especialização em Endocrinologia, na Escola de Pós-Graduação Carlos Chagas (1972).

Adriana Costa e Forti recebeu o Título de Especialista em Endocrinologia da Associação Médica Brasileira / Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), por concurso, em outubro de 1974.

Cursou Mestrado em Endocrinologia, de 1975 a 1978, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, concluso com a defesa da dissertação “Estudo do receptor vascular renal em coelhos diabéticos”, sob a orientação do Prof. Manassés Fonteles, recebendo nota máxima da banca examinadora, e Doutorado em Ciências Médicas e Biológicas, na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), de 1991 a 1993, com a tese “Papel do endotélio vascular renal nas alterações renais no diabetes”, sob a orientação dos Profs. Drs. Antônio Roberto Chacra e Manassés Fonteles.

Ingressou no quadro docente da UFC, como professora auxiliar, via concurso público, em 1975, e seguiu na trajetória acadêmica atingindo o cargo de professor titular em 2016, no qual viria a se aposentar em 2021, após mais de 45 anos de serviços.

Em 1982, a Profa. Adriana Costa e Forti participou da criação da disciplina de Farmacologia Clínica, da qual foi coordenadora de 1985 a 1988. e também da criação do mestrado em Clínica Médica da UFC em 1995, o qual coordenou de 1996 a 1997.

Foi fundadora em 1988 e diretora, por mais de trinta anos, do Centro Integrado de Diabetes e Hipertensão (CIDH), da Secretaria de Saúde do Estado do Ceará. instituição que serviu de modelo, ao Ministério da Saúde em 2001 e em 2002, para implantar o Plano de Reorganização de Ações à Hipertensão Arterial Sistêmica e Diabetes Mellitus no Brasil.

Foi a primeira mulher e, também, a primeira nordestina a presidir a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (1981-1982 e 1983 e 1984) e a Sociedade Brasileira de Diabetes, e foi uma das fundadoras das regionais cearenses dessas sociedades médicas. Presidiu quatro congressos nacionais de Endocrinologia e de Diabetes realizados em Fortaleza.

Participou ativamente da implantação e coordenação de projetos educacionais em parceria com instituições internacionais: (Harvard - Joslin SBD), International Diabetes Center (Mineapolis-USA); Programa de Educação do European Association for Study of Diabetes (EASD), para profissionais de saúde e para pessoas com diabetes no Brasil.

A Dra. Adriana Forti, durante seis anos, representou o Brasil no Comitê da OMS, em Genebra, no Task Force on hormonal contraceptives.

Coordenou no Ceará vários estudos epidemiológicos nacionais na área do diabetes, além de trabalhos de capacitação e desenvolvimento de equipes para lidar com o Diabetes Mellitus, junto às secretarias de saúde do estado e de diversos municípios cearenses.

A Profa. Dra. Adriana Costa e Forti publicou muitos trabalhos científicos, com destaque para 75 artigos, 11 capítulos de livros e 164 resumos, orientou dissertações de mestrado e teses de doutorado, tendo participado de várias diretrizes de sociedades cientificas e de documentos técnico- científicos para educação de profissionais e de pessoas com diabetes e teve centenas de apresentações em congressos nacionais e internacionais.

Integrou o corpo editorial de importantes periódicos da sua especialidade e foi contemplada com o Prêmio Francisco Arduíno da SBD, em 2019, e com o Prêmio José Schermann da SBEM, em 2022.

É Membro Titular da ACM, desde 13/05/2005, como a segunda ocupante da Cadeira 24, patroneada por Antônio Guarany Mont’Alverne, sendo recepcionada, por ocasião da posse, pelo Acad. Manassés Claudino Fonteles.

Do enlace matrimonial com o seu colega de turma César Augusto de Lima e Forti, gerou os filhos Cássio (administrador e economista) e Márcio (administrador e advogado), que se desdobram em três netos: Giovana, João Lucas e Maria Luiza.

Por suas atividades de ensino e de pesquisa e, sobretudo, como médica que prestou, e segue prestando, relevantes serviços a comunidades carentes, resultando em notável impacto na saúde de pessoas com doenças crônicas do Ceará, a Profa. Dra. Adriana Costa e Forti se fez merecedora do Troféu Sereia de Ouro, configurando, indubitavelmente, um reconhecimento público do enorme valor da agraciada.

Cons. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Membro titular da ACM – Cad. 18

* Publicado In: Jornal do médico, 21(198): 34-35, novembro de 2025.


segunda-feira, 20 de outubro de 2025

PADRE GERALDINHO

Por Hélio Leitão (*)

Durante os anos sombrios da ditadura militar, a diocese de Crateús, à frente Dom Antônio Batista Fragoso, seu primeiro Bispo, tornou-se um bastião de resistência democrática, símbolo de comprometimento com as causas populares. Profundamente identificado com as linhas teológicas e pastorais traçadas pelo Concílio Vaticano II, Dom Fragoso, ao lado de Dom Helder Câmara e outros Bispos, foi subscritor do Pacto das Catacumbas de Domitila, documento firmado em 16 de novembro de 1965, em que selam o compromisso com os ideais de justiça social próprios da chamada Teologia da Libertação. Um movimento que buscava reposicionar a ação da igreja católica diante das injustiças do mundo, deste mundo, e que a cada dia ganhava mais força, sobretudo na América Latina.

Nada mais previsível naquele então que a ação repressora do regime dos generais se abatesse sobre a igreja de Dom Fragoso, que, com sua "opção preferencial pelos pobres", cerrava fileiras com os trabalhadores do campo, historicamente explorados pelos grandes latifundiários, na sua luta pela terra e por condições dignas de trabalho.

Vários os padres da diocese de Crateús, militantes da igreja popular, que foram vítimas do acosso dos militares. Um houve, falecido no último dia 3, cuja história - ou pelo menos uma pequena parte dela, quero contar.

Geraldo Oliveira Lima, o padre Geraldinho, era cria de Dom Fragoso, por ele ordenado. O homem atuava fortemente junto às Comunidades Eclesiais de Base e sindicatos rurais. Viu-se preso em pleno aeroporto da cidade de Natal, sob a bizarra acusação de subversão, afinal os espiões da ditadura haviam descoberto ter ele servido de portador, quando voltava de um encontro da Pastoral Rural em Recife, de exemplares de "O Círculo" - pequeno jornal, na verdade pouco mais que um boletim, de aberta oposição ao regime, que deveriam ser entregues a um outro padre, o francês Daniel Jouffre. Esse o seu crime. Era o dia 28 de junho de 1971.

Barbaramente torturado, submetido a toda sorte de sevícias e humilhações, padre Geraldinho foi condenado a um ano de prisão, vindo a ser absolvido em segundo julgamento. Tudo somado, amargou dez meses de cadeia, experiência que lhe deixou marcas profundas na alma.

Após a morte de Dom Fragoso e o novo redirecionamento da orientação pastoral da diocese, padre Geraldinho perdeu o gosto pelo sacerdócio, vindo a largar a batina. Passou a dedicar-se de corpo e alma à cultura, à memória e à história dos Sertões de Crateús. Deixou um museu e vários livros publicados. De sua autoria tenho "A marcha da coluna Miguel Costa - Prestes no Ceará", que ainda não li. Este artigo sai à sua memória.

(*) Advogado. Ex-presidente da OAB-CE.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 11/09/25. Opinião, p.19.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

O popular Luís Fernando Verissimo

Por Raymundo Netto (*)

O leitor ou a leitora de Luís Fernando Verissimo quando assiste a suas entrevistas, não importa o período, nunca o encontra.

Há sempre ali um "outro" homem com o olhar quase alheio e a fala tão plácida a dar a entender um certo desinteresse em esticar a conversa. Ao contrário do outro, as respostas, histórias e descrições se repetem muito frequentemente, sem momentos de arrebatamento, de movimentos ligeiros de mãos e braços, nenhuma súbita gargalhada, nem piadas, nada que evidencie o Verissimo do papel, aquele que por mais de 50 anos chegou à casa de brasileiros, seja pelos seus escritos, cartuns/quadrinhos ou adaptações para programas de TV ou cinema, divertindo, encantando e despertando reflexões sobre as coisas das mais desimportantes às mais existenciais.

Diante dessa minha "incomodação", esse mistério que nem o irrequieto detetive Ed Mort poderia resolver, voltei à crônica "O Popular", aquela que intitula o seu primeiro livro - com o curioso subtítulo "crônicas ou coisa parecida" -, publicado na década de 1970.

Verissimo nos conta dessa pessoa que tem "uma fatal curiosidade pelo detalhe supérfluo, um fascínio irresistível pelo insignificante", aquela cujo "habitat natural é à margem dos acontecimentos". Assim o descreve: "um sujeito com as mãos nos bolsos e um embrulho embaixo do braço".

Não importa o que esteja acontecendo no mundo, esse tal sujeito pode ir, por exemplo, comprar alguma coisa no armazém e na volta parar e dar uma espiadinha num território de guerra, assalto ao banco ou numa liquidação em loja de artigos femininos. E não, não há perigo algum para ele, pois jamais será vítima de nada, como também nunca será ele o entrevistado. Os transeuntes, os passantes, esses sim, mas o Popular jamais!

Penso que o cronista é esse Popular, um fino e inviolável observador das coisas e das gentes. Mas essa percepção em si, por mais aguçada e minuciosa que seja, não nos impactaria se não fosse registrada em papel. Um fato que se deu para Verissimo aos 33 anos, por obrigação, pela necessidade pecuniária de sobrevivência da família - estava casado com a dedicada e gentil Lúcia Helena, sua guardiã, e tinha uma primeira filha, hoje, além de jornalista, roteirista e tradutora, também escritora: Fernanda Verissimo.

Nos anos seguintes ao "O Popular", ocupando espaços em grandes periódicos do País, além de mais dois filhos - Mariana e Pedro -, acumulou uma produção extraordinária, como poucos, atingindo em cheio os seus leitores, e por eles sendo reconhecido pela brilhante agudeza, ironia e diversidade de seu humor e pela revelação de nossa risível sociedade (des)humana, promovendo e consolidando a grandeza do gênero crônica, um dos mais democráticos - cabe tudo nele - e o mais brasileiro de todos.

Porém, a vida, conforme o cronista, é apenas "um breve hiato de perplexidade entre dois vazios". A morte, essa "titica", é uma das únicas certezas da vida. Outra delas, assim penso eu, é a nossa incapacidade de aceitá-la plenamente.

Numa noite verissimas dessas, uma de suas "cobras" - a combinação do seu gosto por quadrinhos com suas limitações como desenhista, dizia - pergunta: "Será que há vida após a morte?

A segunda cobra responde: "Parece que sim, mas tem que ter pistolão!"

E, afinal, meu querido Verissimo, vai nos deixar sem saber o que o Popular traz nesse embrulho?

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 8/09/25. Vida & Arte, p.2.

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

VERÍSSIMO

Por Paulo Gurgel Carlos da Silva (*)

Faleceu neste sábado (30/08), aos 88 anos, em decorrência de uma pneumonia, o escritor Luís Fernando Veríssimo, quando se encontrava internado no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre Sua vida e sua múltipla obra deixaram um legado imenso para a cultura brasileira. Ele era muito mais do que um escritor; era um cronista agudo do cotidiano, um humorista refinado e um dos maiores expoentes da literatura contemporânea do país.

Era filho do também célebre escritor Érico Veríssimo, que escreveu a saga da terra gaúcha, "O Tempo e o Vento".

Uma vida dedicada às letras e ao humor

Nascido em 26 de setembro de 1936, em Porto Alegre, Luís Fernando teve uma vida ligada à literatura desde a infância. Passou parte de sua adolescência nos Estados Unidos, onde seu pai lecionou, e retornou ao Brasil para trabalhar como jornalista e, mais tarde, se dedicar à literatura.

Era conhecido por sua personalidade reservada e por sua mente brilhante, que produzia algumas das críticas sociais mais perspicazes e engraçadas da imprensa nacional.

A múltipla obra: muito além das crônicas

A genialidade de Veríssimo se expressou em diversas frentes:

Crônicas e Humor. Sua coluna de jornal no "Zero Hora" era uma das mais lidas e aguardadas do Brasil. Coleções como "O Analista de Bagé" e "Comédias da Vida Pública" são antológicas. E seus personagens, como a Velhinha de Taubaté, Ed Mort e o Analista de Bagé, se tornaram ícones da cultura brasileira.

Romances e Contos. Sua ficção nestes gêneros é igualmente poderosa. Romances como "O Clube dos Anjos" (sobre um grupo de gourmets que se reúne para jantares finos) e "Borges e os Orangotangos Eternos" (uma mistura de romance policial e ensaio literário) demonstram sua erudição e capacidade narrativa.

Cartuns e Humor Gráfico. Também era um talentoso cartunista. Suas tiras, muitas vezes mudas, com traços simples e situações absurdas, expunham perfeitamente suas ideias. A série "As Cobras" é um exemplo disso.

Música e Outras Influências. Um amante declarado de jazz, tema que frequentemente permeava suas crônicas. Foi um músico (saxofonista) que dialogava com a banda "Jazz 6" em que tocava.

Seu legado e sua voz

O humor de Luís Fernando Veríssimo nunca foi apenas para fazer rir. Era um instrumento de crítica social e política. Ele usava o absurdo, a ironia e o nonsense para dissecar as hipocrisias, os costumes e os dilemas da vida moderna no Brasil. Sua capacidade de observar o óbvio e extrair dele uma conclusão hilária e profundamente verdadeira era seu dom maior.

Sua morte é uma perda irreparável. Ele era um farol de inteligência, lucidez e humor em tempos muitas vezes sombrios. Luís Fernando Veríssimo deixa uma obra vasta que continuará a fazer rir, pensar e encantar as gerações atuais e futuras. 

Relembre algumas de suas frases marcantes

Escrever não me dá prazer, gosto mesmo é de soprar saxofone.

Não gosto que me imponham coisas, e a velhice é uma imposição, uma prepotência do tempo. Sou contra.

Se o mundo está correndo para o abismo, chegue para o lado e deixe-o passar.

Vou morrer sem realizar o meu grande sonho: não morrer nunca.

Quando a gente acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas.

Depois de uma certa idade, é temerário fazer aniversário. Que agonia! Todo "parabéns" soa, mesmo dito numa boa, como ironia.

Conhece-te a ti mesmo, mas não fique íntimo.

(*) Médico pneumologista, escritor e blogueiro.

Postado por Paulo Gurgel no Blog Linha do Tempo em 31/08/2025.

https://blogdopg.blogspot.com/2025/08/verssimo.html


domingo, 24 de agosto de 2025

MEDICINA DE PAI PARA FILHO: Dr. Djacir Figueirêdo e seu legado familiar

Djacir Gurgel de Figueirêdo nasceu em Limoeiro do Norte-CE em 5/04/1931.

Ingressou na terceira turma da Faculdade de Medicina do Ceará em 1950, formando-se pela Universidade Federal do Ceará (UFC) em 1955.

Djacir Figueirêdo (CRM/CE 28) fez especialização em Neurocirurgia no Instituto de Neurocirurgia de Porto Alegre em 1957. Foi Visiting Fellow no Department of Neurological Surgery, College of Physicians and Surgeons, da Columbia University, em New York, em 1964-65.

Criou o Serviço de Neurocirurgia na FAMED UFC em 1958, na qual ingressou como professor assistente, e foi o fundador da disciplina de Neurocirurgia em 1960, da qual aposentou-se, como professor adjunto, após mais de 30 anos de docência.

No Hospital Geral de Fortaleza, foi o introdutor da Neurocirurgia, chefe do Serviço de Clínicas Cirúrgicas (1970-98), e diretor fundador do Corpo Clínico (1967-71).

Como pioneiro da Neurocirurgia cearense, ele foi introdutor no Ceará e um dos primeiros no Brasil a realizar diversas técnicas neurocirúrgicas.

Em quase 70 anos de exercício da medicina, realizou mais de 7.000 intervenções neurocirúrgicas no cérebro e na medula espinhal e segue atuando junto com seu filho, o Acad. Daniel Figueiredo, sendo o médico de menor número do CRM/CE em atividade, inscrito em 18/01/1960, sob o nº 28.

Organizou dezenas de eventos científicos e participou de cerca de três centenas de congressos médicos nacionais e internacionais, com apresentação de trabalhos em quase cem deles. Foi ainda presidente de honra de diversos congressos da sua especialidade.

Recebeu muitas homenagens das entidades médicas e da sociedade civil, cabendo citar a Medalha da Abolição, a mais importante honraria do Estado do Ceará.

Em 10/11/1989 foi empossado na Academia Cearense de Medicina (ACM). Exerceu a vice-presidência da ACM no biênio 2016-18 e a presidência no biênio 2018-20.

Casado desde 1957 com a farmacêutica Maria Lindalva Freire Figueiredo, viu a medicina florescer na família com os filhos Djacir Filho (cirurgião plástico CRM/CE 4251 RQE 1235) e Daniel (neurocirurgião CRM/CE 4250 RQE 1236), enquanto Daniela (advogada e psicóloga) seguiu caminhos igualmente dedicados ao cuidado humano.

Cons. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Membro titular da ACM – Cad. 18

* Publicado In: Jornal do médico, 21(194): 9-9, agosto de 2025. (Revista Médica Independente do Ceará).


sexta-feira, 22 de agosto de 2025

CONVITE lançamento de “ANTÔNIO CAMELO: um pai iluminado”

A família Parente Camelo convida para a noite de autógrafos de “Antônio Camelo: um pai iluminado”, livro coordenado pelo professor universitário e psicólogo Francisco de Assis Parente Camelo, que discorre sobre a vida e a obra do Sr. Antônio Camelo de Araújo, que foi uma grande liderança do bairro Otávio Bonfim e um exemplo dignificante de cidadão íntegro e de dedicação ao próximo

O livro possui 50 textos assinados por uma vasta gama de colaboradores, com a seguinte: distribuição: filhos (23), outros familiares (9) e amigos (6); a esses, se somam 12 depoimentos, todos eles, de maneira uníssona, reverenciando os nobres atributos morais e os valores espirituais do patriarca do Clã Camelo do Otávio Bonfim.

Data: 26 de agosto de 2025 (terça-feira), logo após a missa das 18h30.

Local: Salão Santo Antônio da Paróquia de Nossa Senhora das Dores (em frente à Praça Frais Brito do Otávio Bonfim, no início da Av. Bezerra de Meneses).

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Memorialista do Otávio Bonfim

 

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