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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

SEMPRE AOS DOMINGOS

Por Pedro Salgueiro, cronista de O Povo

"Os homens que foram aqueles meninos não querem lembrar dos domingos."

Recebi, por esses dias, uma pequena pérola literária (dessas que deveriam viajar na boleia de nossas melhores leituras, tão pródigas em relegar os melhores talentos à surrada carroceria... não sei se me entendem!?).

O livrete foi escrito por Julio Lira, editado pelo escritor-professor Rodrigo Marques na sua "aluáEditora", com tradução, isso mesmo!, para o inglês da canadense Odile Cisneros; ah!, também com belo projeto gráfico e diagramação de Barbarah Freire; recebi o lindo objeto-branco-delicado com deleite, já prevendo chocolate dos bons, pois vindo de uma amigo de longas datas e algumas caminhadas juntos (embora quase nunca nos avistemos pelas ruas, becos e vielas de nossa sonsa loirinha desmilinguida pelo sol).

Depois do susto comecei a leitura, indo e vindo do português para o inglês, correndo às "notas-dobras" esclarecedoras do final do livro, não consegui mais largar até a última letrinha; depois reli e tresli, sem ainda me contentar.

Antes de agradecer, ainda no calor do espanto me dirigi ao santo-oráculo que me socorre nesses raros momentos de espanto:

"Meu caro, estou lendo um poema de um autor cearense sobre um internato nos Estados Unidos. Com tanta coisa para escrever sobre o Brasil, isso não é um sintoma de colonização cultural?"

No que ele, sem titubeios, me respostou: Você certamente está falando de Visita Dominical, de Júlio Lira, mas antes de responder a essa saudável inquietação, preciso dizer do que trata o livro. Um grupo de gestores, urbanistas e convidados visita às ruínas de uma instituição que, durante mais de um século, funcionou em Massachusetts e foi considerada a maior e mais modelar instituição americana dedicada à educação, segundo os termos da época, de "idiotas" e "retardados mentais". Os visitantes se deslumbram e pensam em novos usos para os prédios históricos. Basta, porém, atravessar as alamedas e os corredores abandonados para que o passado se arrebente contra eles.

Surgem as vozes de crianças internas, de familiares separados, de administradores, de psiquiatras, de legisladores. Falam os jornais, os prontuários, os relatórios. Falam também os mortos. A visita deixa de ser um percurso arquitetônico para tornar-se uma travessia de uma memória apagada. As ruínas, os móveis e os objetos, resíduos de quase dois séculos, não se calam.

É verdade que o livro está profundamente interessado nos Estados Unidos. Mas não pelos motivos habituais. Em vez de perseguir o American Way of Life, procura compreender como esse imaginário foi construído. Afasta-se dos monumentos gloriosos e mergulha em um dos seus subterrâneos mais abjetos, conduzindo o leitor até uma história vergonhosa.

E faz isso pela poesia. Visita Dominical se aproxima de um antiépico. O poema se embrenha nas sombras, nos apagamentos e nas manchas da história.

O tempo também deixa de obedecer à cronologia. A visita contemporânea, o funcionamento da instituição e a leitura acontecem simultaneamente. O leitor caminha entre os vivos e os mortos, entre os fatos e a sensibilidade do poeta.

Volto, então, à sua pergunta. Sim, faz sentido um poeta cearense escrever sobre um internato em Massachusetts. Porque o livro pretende compreender um aspecto da formação dos Estados Unidos. As teorias raciais e a eugenia nasceram na Europa, mas encontraram nos Estados Unidos um dos lugares em que foram institucionalizadas, ampliadas e transformadas em práticas sociais.

Compreender a institucionalização da eugenia nos Estados Unidos é também compreender a circulação internacional dessas ideias e a maneira como elas repercutiram em sociedades como a brasileira. O livro é uma janela para essa história.

Durante décadas, os Estados Unidos produziram ou estimularam os chamados brasilianistas para interpretar o Brasil. Visita Dominical realiza, de certo modo, o movimento inverso: um poeta brasileiro toma os Estados Unidos como objeto de investigação. Não para reproduzir suas imagens gloriosas, mas para interrogar os seus abismos.

Por isso, vejo aí um gesto de descolonização cultural. Um poema brasileiro devolve o olhar.

Em vez de aceitar as imagens que uma potência construiu de si mesma, digere seus arquivos e seus resíduos e pergunta o que ainda têm a dizer sobre o presente, sobretudo num tempo em que ideias eugênicas voltam a circular, sob novas linguagens, pelas redes sociais."

Fonte: O POVO, de 7/08/2026. Coluna “Crônicas”, de Pedro Salgueiro. p.2.


terça-feira, 8 de setembro de 2026

Loas a Pedro Salgueiro

Por Raymundo Netto (*)

Conheci o contista e cronista Pedro Salgueiro em uma van rumo ao Aracati, em 2005, quando lancei meu primeiro livro: "Um Conto no Passado: cadeiras na calçada".

O Pedro é funcionário público. Na época, tinha parte das tardes livres e eu estava terrivelmente desempregado. Assim, passei a encontrá-lo muito frequentemente, fosse em sua casa - e até participando das festas de sua família, pois ele ama a sua família -, em livrarias, sebos e bares ou em lançamentos, onde ele me apresentava a escritores cearenses e aos escritores do mundo, em horas e horas de conversas sem pressa em alguma calçada de bar. Além de ter uma biblioteca imensa, ele compra livros para distribuir aos amigos e chegados. Sensível, inteligente e generoso, ele lê as obras desses amigos, percebe-lhes as tendências, estilos e afinidades e oferece a eles livros que crê serem indispensáveis à sua formação literária. Acompanhado de copos de cerveja e de tripa assada, em seus grupos - é muito gregário - ele é apenas um leitor, mas um grande leitor. Sem pedantismo, analisa as obras, destrincha narrativas, discorre sobre a biografia e particularidades daqueles autores, quase como se fossem vizinhos ou amigos, numa naturalidade de quem vive o que diz e o que faz.

Na época que o conheci, ele estava com a coletânea de contos "Dos Valores do Inimigo" no Vestibular da Universidade Federal do Ceará (UFC). Diversas vezes, pude assistir ao brilho do olhar dos jovens estudantes que se reuniam em grupos para conversar com ele. Eram rodas alegres, e não havia ali uma estrela, um escritor sobre pedestal, mas um homem simples que ama a literatura que lê - e como lê - e que produz, mas em um ritmo descansado, pois sempre preferiu viver do que cultuar a viciosa sede da fama. Com seu boné sobre a cabeça, o copinho americano de cerveja em uma mão e pendendo na ponta do indicador da outra um saco plástico com mais livros adquiridos de sebos da região, Pedro desmitificava a figura do escritor. Expunha sobre sua escrita, suas influências e seus mestres em uma conversa tão despretensiosa a deixar claro para aqueles jovens que a leitura e a escrita são manifestações e expressões humanas, e é nisso que reside a sua arte e magia.

Ensimesmado em meu canto, podia imaginar o menino que acordava no fundo encardido da rede, despertando o olhar para os caibros tortos com ripas de marmeleiro de sua casinha humilde no Alto das Pedrinhas de Tamboril, sob as bênçãos do Serrote do Feiticeiro. Aquele que trazia no peito em lágrimas a grande admiração pelo pai, o seu Arimateia, que fora agricultor, comerciante, prático de farmácia e que, na experiência de ser candango em Brasília, aprendeu a "arte das solas, vaquetas, pregos e virolas", vivendo e morrendo sapateiro, ainda jovem, aos 58 anos. Um menino grande e ainda malino cujo sangue do braço esquerdo corria "pelas veredas pedreguentas do Carão. Do outro braço, o sangue das tristes Oliveiras, dos tontos bons da Curimatã, do Jumentão da Maravilha". Sua escrita é atraída pelos "minúsculos seres que sobrevivem nas sombras", e seu tema predileto é a morte e os "assassinatos verbais", assombrado que é pelo som de badalos e chocalhos tinindo no escuro.

É provável que sua escrita, principalmente das crônicas, se dê tomando o cafezinho coado da vó Candinha e comendo as bruacas assadas de dona Geny em cadeiras de balanço à sombra de castanholeiras, ao lado do avô Chico Inácio, a prosear sobre seus livrinhos de caubói e assistindo ao "diabo que, rosianamente, redemoinha no terreiro".

Eu tive muita sorte de ingressar no meio literário com a colaboração, incentivo e a amizade desse "sertanejo exilado no litoral". Aprendi e sempre aprendo muito com ele. É uma grande figura, inegavelmente escritor dos melhores já nascidos no Ceará. E aqui carimbo essa homenagem sincera de gratidão e respeito para esse meu grande amigo.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 27/07/26. Vida & Arte, p.2.


sábado, 5 de setembro de 2026

Flávio Leitão ditava para todos a necessidade de entender, cativar e acolher a dor do próximo

Por Leda Maria, jornalista e escritora

Havia em Flávio Leitão uma maneira singular de caminhar pela vida: com sabedoria, simplicidade e um profundo reconhecimento de tudo aquilo que verdadeiramente importa. A solidariedade, o bem-querer, a delicadeza nas relações e a capacidade de acolher o outro eram valores que cultivava com naturalidade. Preferia sempre a paz à disputa, a essência às aparências, a suavidade à vaidade e a firmeza do coração às palavras vazias.

Inteligente, culto e profundamente humanista, Flávio transformava conhecimento em serviço. Foi assim que construiu uma trajetória admirável como professor e líder docente da Faculdade de Medicina da UFC, contribuindo decisivamente para a formação de gerações de médicos. Na medicina, exerceu com competência e generosidade a arte de cuidar.

Em seu consultório e nos muitos hospitais de Fortaleza onde atuou, acolheu pacientes que, muitas vezes, além do tratamento, buscavam nele uma palavra de conforto. Não por acaso, alguns dos mais necessitados chegaram a chamá-lo de "santo", reconhecendo naquele médico uma presença que ultrapassa os limites da profissão.

Mas foi na família que sua missão encontrou uma de suas expressões mais profundas. Ao lado de Marimilia, companheira de toda uma vida, construiu um lar onde o amor, a ternura e o aconchego se tornaram fundamentos. Foi nesse espaço de afetos que os filhos aprendem, por exemplo, a força da generosidade e a responsabilidade de fazer o bem.

Entre os amigos que conquistou, os alunos que formou, os colegas de profissão, os escritores e acadêmicos com quem conviveu e os tantos grupos dos quais participou, Flávio deixou uma marca luminosa. Sua presença tinha a rara capacidade de aproximar pessoas, suavizar diferenças e transformar encontros em vínculos duradouros.

Partiu em 1º de setembro, sob o brilho de uma lua cheia que parecia acompanhar, silenciosamente, sua nova trajetória. Ficou, para todos nós, a lembrança de um homem que fez da vida uma permanente lição de solidariedade, paz, conhecimento e alegria. Um homem cuja luz não se apaga com a partida: permanece na memória, nos ensinamentos e, sobretudo, no coração de quem teve o privilégio de conhecê-lo.

A VOZ DO FILHO

"Chorarás teus mortos por três dias." Papai sempre dizia isso para nós. Agora, eu digo: é impossível, papai, chorarmos a sua partida por apenas três dias, mesmo amparados pela fé e pelas palavras de Cristo: "Não perturbe o vosso coração, porque eu preparei um lugar para vocês".

Ainda assim, é muito difícil, neste momento, manter os olhos secos e conter a emoção. Mas o senhor sempre nos ensinou que o espírito deve prevaleceramparado pela razão e pela sensibilidade de ouvir e atender os aflitos.

Nós vamos seguir a vida fazendo aquilo que o senhor sempre nos ensinou: praticar a caridade, fazer o bem sem olhar a quem, acolher quem nos procura, oferecer atenção aos pacientes, cercá-los de carinho e compreender a dor do próximo — a dor de um familiar, a dor de um amigo. Ouvindo, escutando e mantendo o bom senso para compreender... É difícil falar. O senhor sempre foi o melhor orientador. Por isso, é impossível, neste instante, explicar o amor mergulhado em uma profunda saudade."

E, entre soluços, encerrou-se o depoimento de Flavinho, o filho amado, que traduziu em palavras aquilo que todos sentiam: a dimensão imensa da perda e a permanência de um amor que o tempo jamais será capaz de apagar.

O RECONHECIMENTO DOS AMIGOS

JOÃO MACEDO, MÉDICO E DIRETOR DA FACULDADE DE MEDICINA DA UFC

"Doutor Flávio Leitão foi uma referência da medicina cearense. Ajudou a desenvolver a neurocirurgia em nosso meio, foi um exímio cirurgião e deu uma contribuição muito grande à universidade, tendo-se destacado como chefe do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da UFC. Com a aposentadoria, dedicou-se às letras, tornando-se membro extremamente ativo da Academia Cearense de Médicos e Escritores, da Academia Cearense de Letras e da Academia Metropolitana de Letras."

JUAREZ LEITÃO, ESCRITOR

"Flávio Leitão foi o cidadão querido por todos: afável, sorridente, educado, fino. Era uma das grandes unanimidades afetivas de Fortaleza. Cronista e contista de estilo leve, membro e secretário da Academia Cearense de Letras, deixa uma cidade inteira mergulhada na saudade. Sua figura cativante permanecerá perene na memória de Fortaleza, onde desenvolveu, com dignidade, competência e bem-querência, sua trajetória vital. Flávio Leitão está vivo em nós."

HENRY CAMPOS, MÉDICO E PROFESSOR

"Flávio Leitão foi um homem extraordinário: inteligência fulgurante, humanista profundamente culto, mestre como poucos do conhecimento científico vigoroso e da arte médica. Pontificava pela doçura, elegância, generosidade e solidariedade. Inabalável em sua ética, associada a um grande espírito público e conciliador, deixa um exemplo de cidadania e de defesa intransigente da democracia."

JOSÉ MARIA BONFIM, MÉDICO E ESCRITOR

"Professor Francisco Flávio Leitão (1939-2026), uma eterna saudade. Pouco a pouco, a vida vai nos levando aqueles que nos alegram e encantam, negando-nos o abraço, o sorriso, o encontro que é a vitalidade do nosso viver. Flávio Leitão sintetizava toda essa face admirável de passear pela vida. Era uma referência para toda a comunidade médica. Sabia manter um convívio leve, amigo e jocoso."

FERNANDO PONTE, PADRE E MÉDICO

"Ele foi seminarista no Seminário da Praínha. Por toda sua história atendeu muitos pobres que não podiam pagar um médico. Eramos amigos há mais de 60 anos, e estive com ele durante o período de sua enfermidade. Na segunda-feira, fiz a última visita, acompanhando de pertinho a assistência da família. Ele foi um pai e marido, exemplar".

ERNANDO SOUZA, MÉDICO

"A Medicina cearense perdeu ontem um de seus grandes nomes. Flávio Leitão, neurocirurgião, professor e sensível escritor, deixa um legado que vai muito além da técnica: o compromisso com o conhecimento, com o ensino e com as gerações seguintes. Para nós, médicos mais jovens, fica o exemplo de que uma grande carreira não se mede apenas pelos títulos conquistados, mas pelo conhecimento compartilhado, pelas pessoas que ajudamos a formar e pela mão que estendemos aos mais necessitados."

SULIVAN MOTA, MÉDICO

"Um grande médico. Um grande professor. Um grande ser humano. Hoje, uma grande saudade."

RAFAELA CORTEZ, VIZINHA E AMIGA

"Havia nele uma leveza rara, uma leveza d'alma de quem já estava ancorado em um plano maior. Não precisava de muitos discursos; sabia falar apenas com o olhar. E que olhar! Olhos grandes, luminosos e profundamente expressivos, capazes de acolher, advertir ou acalmar sem que um único som fosse emitido. Mas também era um grande apreciador de uma boa prosa. A porta do céu é bem pequenininha, mas ele passou foi sobrando. Já está com Deus e Nossa Senhora."

Fonte: O Povo, de 5/09/2026. Leda Maria V&A. p.3


quarta-feira, 2 de setembro de 2026

BIOGRAFIA DO MÉDICO ESCRITOR FLÁVIO LEITÃO

FRANCISCO FLÁVIO LEITÃO DE CARVALHO nasceu aos 21 de abril de 1939 em Fortaleza-CE. Filho de José Valdivino de Carvalho, professor e poeta, e Maria Adamir Leitão de Carvalho, pianista. Médico neurocirurgião, contista e memorialista cearense.

FORMAÇÃO E ATIVIDADE PROFISSIONAL

Graduado pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) (1959-1964). Realizou especialização em neurocirurgia no Hospital São Francisco, em Porto Alegre (1965-1966).

Fellow do Serviço de Neurocirurgia da Tufts New England Medical Center – Serviço do Prof. Dr. Bennett M. Stein. (1973). Mestre em Cirurgia pela UFC (1998-2000).

É professor adjunto aposentado da Faculdade de Medicina da UFC e médico aposentado do Hospital Geral de Fortaleza (HGF). Presidiu a Comissão de Ensino e Cultura do Corpo Clínico do HGF (1972).

OBRAS LITERÁRIAS

Participou das seguintes Antologias da Sobrames-CE: Esmeraldas (1993), Prescrições (1994), Amostra Grátis (1995), Recidivas (1998), Palpitações (2000), Anseios da Face (2002), Veia Poética (2004), Inspiração (2006), Queixa Principal (2007), Achado Casual (2008), Ressonâncias Literárias (2009), Receitas Literárias (2010), Passeata Literária (2011), Murmúrios Literários (2012), Letras que Curam (2013), Digno de Nota (2014), Ritmo Literário (2015), Semeando Cultura (2016), À Flor da Pele (2017), Lapso Temporal (2018), Pontos de Vista (2019), Sopro de Luz (2020), A Plenos Pulmões (2021), Limiar da Criação (2022), Lampejos da Memória (2023), Uso Profilático (2023) e Piscar de Olhos (2025).

Participou da Revista da Academia Cearense de Médicos Escritores: Nº 1 (2017), Nº 2 (2018), Nº 3 (2019), N° 4 (2020), N° 5 (2021), N° 6 (2022), N° 7 (2023), N° 8 (2024) e N° 9 (2025).

Outras Obras: História da Neurologia e da Neurocirurgia no Ceará (2009), Algumas Achegas à História da Neurologia Cearense. in: História da Neurologia no Brasil (Capítulo 11), Retórica de Circunstâncias (2016), Ventura de Gamalielzinho & Outros Contos (2016) e Tarcísio Leitão – Trajetória de um Coerente (2022).

AGREMIAÇÕES

Membro Titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN); da Academia Brasileira de Neurocirurgia; da Sociedade Nordestina de Neurocirurgia (SNNC); da Sociedade Cearense de Neurologia e Neurocirurgia (SOCENNE); do Colégio Brasileiro de Cirurgiões; da Academia Cearense de Medicina (ACM); da Academia Cearense de Letras (ACL); da Academia Cearense de Médicos Escritores, (ACEMES, Fundador); Membro Titular e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – Regional Ceará (Sobrames‐CE), da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF), da Academia de Letras e Artes do Nordeste (ALANE); Membro Correspondente da Academia Pernambucana de Medicina (2018). Membro Titular da Associação Brasileira de Bibliófilos (2012).

HOMENAGENS

Recebeu as seguintes Homenagens: Homenagem da SOCENNE por ter sido Membro Fundador; Homenagem da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, no seu 60º. aniversário – 2002; Troféu Coruja de Ouro pela SOCENNE (Sociedade Cearense de Neurologia e Neurocirurgia) – 2006; Troféu cinquentenário do I Congresso Brasileiro de Neurocirurgia – 2008; Distinção no Ensino Médico do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da UFC – 2009; Homenagem Especial patroneada pelo NEAN (Núcleo de Estudos Acadêmicos em Neurocirurgia – 2010; Homenagem da Sociedade Nordestina de Neurocirurgia – 2013; Homenagem da Escola Municipal Prof. José Valdivino de Carvalho, Medalha Valdivino de Carvalho – 2014; Medalha do Mérito Ético-Profissional do CRM-CE – 2014; Homenagem do NEAN-UFC – 2015; Comenda do Mérito Médico do Curso de Medicina da Unifor – 2016; Homenagem da Sociedade Nordestina de Neurocirurgia Honra ao mérito condecorado com a medalha Dr. Rafael Rodrigues Holanda – 2017; Homenagem pela Academia Brasileira de Neurocirurgia – 2022; Medalha da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia – 2022; Certificado de Gratidão – Refeitório São Vicente de Paulo das Irmãs de Caridade – 2023; e Emérito do Colégio Brasileiro de Cirurgiões.

Nota: Elaborada com base na postagem feita por Pedro Mendes, para o Projeto de Iniciação Artística intitulado “Perfis de médicos escritores do Ceará: incursões literárias e culturais” (Chamada Pública 82/2023 - Exercício 2024), sob orientação e revisão do Dr. Marcelo Gurgel, aprovado pela Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Estadual do Ceará.

Acad. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Membro Titular da ACM, da ACEMES e da ACL


PESAR POR DR. FLÁVIO LEITÃO

É com imemso pesar que aqui registro o falecimento na noite de ontem, 1º de setembro de 2026, do Dr. FLÁVIO LEITÃO, médico neurocirurgião e membro de diversas confrarias profissionais e literárias cearenses.

Francisco Flávio Leitão de Carvalho nasceu em Fortaleza-CE, em 21/04/1939, filho de José Valdivino de Carvalho e Maria Adamir de Leitão de Carvalho.

Boa parte da sua formação escolar transcorreu no Seminário Arquidiocesano de Fortaleza, o afamado Seminário da Prainha, onde adquiriu muitos conhecimentos religiosos, filosóficos e literários e, também, absorveu qualidades morais que o levaram a pautar a sua existência observando e praticando as virtudes teologais.

Ingressou na Faculdade de Medicina da recém-criada Universidade Federal do Ceará (UFC) em 1959, concluindo o curso médico em 1964. Realizou Residência Médica em Neurologia e Neurocirurgia no Instituto de Neurocirurgia de Porto Alegre.

Sua atividade médica predominante foi realizada no Serviço de Neurocirurgia do Hospital Geral de Fortaleza e a de docência superior exercida na UFC, estando aposentado, como servidor público, de ambos os cargos.

Como católico, era um assíduo participante da Sociedade Médica Saõ Lucas, e ainda trabalhava, como médico voluntário, em um ambulatório para pessoas carentes ditigido por religiosas.

Casado, desde 1966, com Marimília Quevedo Esteves, deixa quatro filhos: Anamaria, Flávio Filho, André e Manuela.

Sinto intensamente por tão grande perda de um valoroso cidadão cearense, dotado de tantos predicados humanos, que, como médico, professor, escritor e outros relevantes atributos pessoais, muito contribuiu para o engrandecimento do Ceará.

Que Deus o acolha em Seus braços misericordiosos.

O corpo do Dr. Flávio Leitão será sendo velado, a partir das 8 horas de hoje, dia 2 de setembro de 2026, no Velatório Ternura, à Rua Pe. Valdivino, Nº 2.255. A missa de corpo presente será celebrada às 13h e, em seguida, seus despojos serão levados para sepultamento no Cemitério São João Batista.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Da Sociedade Médica São Lucas


terça-feira, 1 de setembro de 2026

A CAVERNA DO DRAGÃO

Por Pedro Salgueiro, cronista de O Povo

Na minha "Crônica da Gentilândia", do livro "Fortaleza Voadora", digo que: "…o velho dragão Alcides Pinto sobrevoando as copas das árvores, com suas asas negras — quando ele se cansa de resmungar sozinho em sua caverna e sai para assustar os últimos bêbados da Gentilândia".

À sua casa corriam as mais diversas faunas literárias; escritores de várias idades, ideologias e estéticas, principalmente os mais jovens, que ficavam embevecidos com as atitudes despojadas, estridentes e loquazes do velho poeta.

Sua residência mais famosa foi a da Rua Rodrigues Junior, casa grande, sempre muito frequentada; ainda hoje muitos contam histórias e causos nem sempre verídicos, muitas fantasias e traquinagens ficaram no anedotário boêmio-intelectual dessa nossa loirinha desmiolada pelo sol, tão pródiga em tipos populares e bodes YoYôs, literários ou não.

Já o conheci na Vila Cordeiro, na Av. Tristão Gonçalves, bem próximo à vila onde ainda hoje mora minha mãe. Habitava uma casinha conjugada, numa pobreza franciscana mas digna, com sua querida filha Jamaica. Também conheci seu filho Antonin Artaud, um rapaz magro como o pai, porém de temperamento calmo, com uma timidez oposta à tagarelice do seu progenitor; também avistei algumas vezes sua bela filha Alessandra, que morava com a mãe.

Convivi por um bom tempo com o poeta (era meados dos anos 1990), através dele e de suas muitas visitas fiquei sabendo dos subterrâneos de nossa literatura, tão pródiga em fofocas e vaidades. Ali tive um curso intensivo de como transitar, e sair sem arranhões (embora eu não tenha tirado boas notas em algumas matérias) da famigerada guerrilha literária e suas disputas por farelos e migalhas.

Um dia me pediu para que organizasse seus contos, que estavam dispersos em um livro, "Editor de Insônias" (1965), e uma miscelânea, "Reflexões, terror, sobrenatural" (1984), além de alguns inéditos datilografados em gastas folhar amarelecidas. Em 1997, o Dr. Martins Filho publica essa edição de seus contos completos, "Editor de Insônias e outros contos", pela Coleção Alagadiço Novo.

Depois soube que ele andou criticando umas palavras que inseri como "Nota do Organizador", ou sugerindo que eu estava querendo aparecer às suas custas. Nunca passei recibo nem tomei satisfação, apenas me afastei um pouco de seu convívio. Depois disso ele sempre repetia para mim ou para alguns amigos: "Se não fosse você, o livro não teria saído", no que eu sempre respondia: "Pois não é, poeta. Quem sabe se um dia a gente não tira uma 2ª edição, não é mesmo!?". No seu último livro tem um poema dedicado a mim (quem sabe ainda resquício de uma consciência pesada) e a Nilto Maciel, a quem levei, depois da volta definitiva deste ao Ceará, à sua casa e anunciei alto da porta:

"— Poeta, tô aqui com o maior contista do Ceará!", no que ele perguntou lá de dentro: "— Quem, poeta, o Airton Monte?", acabando de vestir as calças; caímos na gargalhada.

A última vez que o vi ele estava saindo da sua vilinha com a Jamaica, cumprimentei-o e ele me perguntou onde era o "Buraco da Gia", pois estava querendo arranjar uma empregada e lhe deram um endereço, falei que era na Princesa Isabel, vizinho à minha casa, e fomos caminhando devagar. Quando chegou perto do beco ele parou, receoso, e disse que só entraria lá se eu fosse com eles, depois puxou uma pequena faca de mesa, dessas de cortar bife, e disse que estava preparado (mas que era bom eu entrar com ele, disse assombrado). Olhei para Jamaica, que também estava rindo, e disse que não tivesse receio que ali só morava gente de bem, e me despedi alegando ainda ir pegar minha filhinha no colégio.

Não tive coragem de ir vê-lo em seu velório na Academia Cearense de Letras. Queria ficar com a lembrança dele vivo, alegre e brincalhão, sempre contando lorotas.

E, ainda hoje, quando alguém se refere a ele, vejo algum dos seus livros ou passo em frente à Vila cordeiro, parece que estou vendo aquele sujeito magro ("tão magro que parecia estar sempre de perfil", como bem disse, em seu "A Guerra do Fim do Mundo", Vargas Llosa), com sua gargalhada espalhafatosa mas sempre sincera, dizendo — e apontando pra si mesmo — para os muitos anjinhos (ou demoninhos, tanto faz) que lhe cercam em algazarra:

"— Agora quem manda aqui é esse poeta 'Viadão Pós-Moderno'!"

"Eu sou aquele que come as flores do aniversário."

(José Alcides Pinto, 10/09/1923 — 03/06/2008)

Fonte: O POVO, de 24/07/2026. Coluna “Crônicas”, de Pedro Salgueiro. p.2.


sábado, 29 de agosto de 2026

Evento literário comemorativo dos 85 anos do Sindicato dos Médicos do Ceará

O Sindicato dos Médicos do Ceará (Simec), como um momento muito especial dentro das celebrações de seus 85 anos de história, realizou no Piazza Aldeota, na noite de ontem, 28 de agosto de 2026, o lançamento da obra "Escritos e prescritos: as mãos que curam também escrevem".

Trata-se de um livro, organizado por Vanessa Gomes de Moraes e impresso na Expressão Gráfica, que reúne textos de médicos autores e celebra a sensibilidade, a cultura e a riqueza da produção literária da classe médica.

Dessa antologia literária, participam 20 (vinte) autores, dos quais sete (Edmar Fernandes, Fernando Furtado, Luiz Barbosa, Fernando Melo. Francisco Eleutério, Marcelo Gurgel e Maria Sidneuma) são sócios da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – Regional Ceará (Sobrames-CE), sendo os quatro últimos mencionados, também, membros titulares da Academia Cearense de Médicos Escritores (Acemes).

Tomei parte dessa obra, publicando o texto: “Nossos elóquios acadêmicos” In: Sindicato dos Médicos do Ceará. Fortaleza: Simec/Expressão, 2026. 144p. p.88-91.

Congratulações merecidas cabem à atual diretoria do Simec e, especialmente, ao seu presidente Edmar Fernandes de Araújo Filho, por tão louvável iniciativa no da cultura.

Dr. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Membro da Sobrames-CE e da Acemes


terça-feira, 11 de agosto de 2026

CLÃDESTINOS

Por Pedro Salgueiro, cronista de O Povo

Uma novíssima publicação de literatura e artes foi lançada em nossa "Loirinha-descabelada-pelo-sol": Contos, crônicas, ensaios, poemas, décimas, aldravias, canções, fotos e encARTEs de 23 convidados integram a edição inaugural da Clãdestinos (A revista oficial da Academia Cearense de Médicos Escritores - Acemes - foi lançada dia 13 de maio, no Palácio da Luz - Academia Cearense de Letras, com apresentação do escritor Juarez Leitão).

A publicação que chega tem periodicidade prevista para ser anual, e, segundo o editor, médico e escritor Fernando Siqueira Pinheiro, a ideia da Clãdestinos é ser um espaço para divulgação "de nossa rica e pungente produção artística e literária, destacando nomes consagrados e revelando novos talentos dessa nossa gloriosa província de Alencar".

A revista tem 84 páginas e seis encARTEs. São produções literárias de Pedro Salgueiro, Carlos Augusto Viana, Fernando Siqueira Pinheiro, Sérgio Telles, Daniel Mazza, Ana Márcia Diógenes, Dimas Macedo, Paulo Elpídio de Menezes Neto, Lia Leite, José Leite Jr, Romeu Duarte, João Macedo, Assis Ximenes, Karla Cavalcante e Geraldo Bezerra.

Algumas obras artísticas estão dentro da revista, como as de José Guedes, que tem participação especial com a tela Lúcio; e as fotos intituladas Descaminhos, de Leopoldo Kaswiner. Os demais encARTEs têm a base picotada para facilitar a retirada, caso o leitor queira emoldurar. E trazem produções artísticas de Virgílio Maia, Elberty Oliveira, Isaac Furtado e Sônia Figueiró.

O número 1 da revista traz ainda uma entrevista com o cantor e compositor Raimundo Fagner e a seção "A biblioteca dos Acadêmicos", que contemplou a biblioteca Labirinto, do médico e ex-governador Lúcio Alcântara. A cada edição outros espaços irão se somar.

A revista, com capa em verniz e papel couchê, tem projeto gráfico, ilustrações e a maioria das fotos de Glauco Sobreira. A foto da capa é de Leontino Eugênio. O conselho editorial da revista é formado por: Carlos Augusto Viana, Fernando Melo, Glauco Sobreira, Isaac Furtado, João Macedo, Luiz Moura e Walter Miranda.

O editor, Fernando Siqueira Pinheiro, esclarece:

"A proposta de uma publicação anual na forma de uma revista tradicional de literatura sob os auspícios da Acemes me foi feita pelo amigo médico, escritor e artista plástico Glauco Sobreira. A ideia seria produzir algo livre abrangendo todas as formas de expressão literária, com os participantes escolhidos a convite pelo conselho editorial e sempre procurando imprimir um modelo arrojado e transformador. Não sei dizer ao certo como cheguei ao título Clãdestinos. É sempre complicado tentar mapear os caminhos da nossa imaginação. Talvez tenha vindo desta natureza indisciplinada que há em todo artista, algo que nasce assim sem explicação e à margem das normas. Neste sentido, posso dizer, portanto, que toda arte é clandestina, surge antes de ser aceita, incomoda antes de ser celebrada e diz quase sempre o que o discurso oficial silencia. Claro que há também aqui uma explicita homenagem ao Grupo CLÃ, que em meados do século passado reuniu o que tínhamos de melhor do ponto de vista intelectual e que foi responsável por um dos mais importantes movimentos culturais do nosso estado".

Fonte: O POVO, de 10/07/2026. Coluna “Crônicas”, de Pedro Salgueiro. p.2.


segunda-feira, 27 de julho de 2026

MINIANIMALISMO - CINZEL & ESMERIL

Por Pedro Salgueiro, cronista de O Povo

Sempre desconfiei de que nós, os pobres escrevinhadores de vãs malfeitorias, não escolhemos o gênero literário no qual vamos nos expressar

Talvez por preguiça, sempre tive fascínio por textos curtos. Frases aparadas até quase o miolo. Gracilianos, Rulfos, Moreiras e João Cabrais limando adjetivos. Procurando substantivos que dispensem adereços, penduricalhos. Nenhum preconceito contra os caudalosos rios Euclidianos, Proustianos, Joyceanos, Roseanos. Apenas predileção e pronto. Ponto.

Sempre desconfiei de que nós, os pobres escrevinhadores de vãs malfeitorias, não escolhemos o gênero literário no qual vamos nos expressar. Mas ele, irremediavelmente, nos escolhe. Tenho certo amigo que até para me passar um número de telefone conta seu dia inteirinho. Outro, inquirido, me deixa apenas fragmentos de suas intenções. Claro que alguns podem, e até devem ir contra a corrente. Deslizar rio acima, olhos estufados de lama. Alma pesada, mas satisfeita.

Para mim, o "barato" é tentar dizer o máximo com o mínimo de palavras. Mesmo sem quase nunca conseguir.

Há tempos recebi convites dos colecionadores Marcelino Freire (Os Menores Contos Brasileiros do Século XX) e Laís Chaffe (Contos de Algibeira) para participar, com textos mínimos, de duas coletâneas. Tomei gosto pela coisa. Resumi contos antigos. Li Haicais. Reli Dalton Trevisan. Arrumei esmeril, comprei estilete. Lupa de relojoeiro, dedal de sapateiro... Encontrei um cinzel.

Os perigos do laconismo, da incompreensão total, da pura piada. Quase nunca encontramos o ponto certo. Mil tentativas e pouquíssimos acertos. Vamos tentando pulverizar o mundo, atomizar o cotidiano. Minimalistas que fomos. Minianimalista que somos. Ao pó que retornaremos.

Alguns amigos, recentemente, têm incorrido nessa prática de limar continhos já por demais curtos, numa quase obsessão.

Resgatei alguns relatos mínimos para distrair preguiçosos:

Mecanismo

Mesa posta. Pai, mãe e filho regem o silêncio.

Preces.

Novamente.

Medo na Praça

Silêncio. O artista sua, lapida suas preces. Aplausos. De novo. O silêncio.

Peso do morto

Noite sem lua. Rasga-mortalha.

— Dorme, pai. Deixa de falar só...

Já no meu segundo livro, "O Espantalho" (1996) eu havia (em vão) tentado:

Daltonianas em Fá Menor

A mulher matou o marido. Mandou matar em cima do túmulo. O único pecado dele trocar seu nome por outro e acender velas todas as quartas-feiras.

* * *

Havia olhos fugindo de órbita, um coração descompassado. Um medo de ir... outro de voltar.

Havia ossos enterrados no quintal e um medo danado de assombração.

Havia uma multidão de adrenalinas e uma certa dúvida...

* * *

Enquanto cancão brinca no quintal, deixei muleta, um pé-de-cabra e uma bengala. Deixei um grito preso no elevador.

* * *

Antigas visitas já mortas retornam à antiga sala de visitas. Cumprimentam o cadáver de minha mãe, recebem um aceno eufórico de meu pai moribundo.

— Cala a boca, velho caduco, deixa de falar só.

Grita a Suzete, lá da pia.

Fonte: O POVO, de 26/06/2026. Coluna “Crônicas”, de Pedro Salgueiro. p.2.


segunda-feira, 6 de julho de 2026

ESCRITORES

Por Pedro Salgueiro (*)

I - Esses viventes estranhos, metidos a querer saber de quase tudo, a ser "antenas da raça". São seres falíveis, feito quaisquer unzinhos; cheios de defeitos, pululam por aí emitindo opiniões sobre o planeta e arredores. Dariam uma enciclopédia em cem volumes todas as previsões, dicas e besteiras que proferiram pelos tempos afora.

A mim me (sic) parece serem apenas pequenos seres inofensivos, cavilosos, vaidosos, mas inofensivos. Raros escrevem algum livro que mudam uma geração, poucos lançam palavras que se sustem no vento.

Mas quão triste seria o mundo sem esses vermezinhos feitos de ira, vaidade e água.

II - Me irrito profundamente quando escuto ou leio alguém reclamando da enorme quantidade de escritores e lançamentos de livros em nossa volúvel loirinha desmazelada pelo sol (esses mesmos jamais reclamam da enorme quantidade de políticos ladrões, marginais de toda sorte, péssimos profissionais e outras mazelas mais que inundam nossa vã sociedade).

Se for escritor o reclamante, imagino logo que o sujeito quereria ser escritor sozinho e que se acha infinitivamente melhor do que os outros (o que não se confirma na maioria das vezes).

Caso seja um jornalista o criticante, vejo com piores olhos ainda, visto serem os profissionais que mais deveriam valorizar a classe dos escritores (que todos, mesmos o fazedor de horóscopo, deveriam almejar ser; e não raro são os que mais inflacionam o mercado com obras dispensáveis e medíocres).

III - Adoro lançamento e se pudesse iria a todos.

E são raras as semanas em que não vou prestigiar um amigo, um desconhecido ou até antipatizante, com minha gordita presença em sua noite de autógrafos.

Verdade que detesto discurso e apresentações, e a primeira coisa que observo num palestrante é a quantidade de páginas em suas mãos.

O resto é só festa, reencontro de amigos, rebuliço de gente, corrida atrás dos quitutes e bebidas; de gente, em sua maioria, de bem (o que não se pode afirmar de muitas reuniões sociais, clubes granfinos e convenções de partidos).

Portanto, amigos, escrevam bastante e tentem fazê-lo cada vez melhor; pois se seus escritos não ajudarem a tornar melhor o mundo, com certeza não o tornará pior.

IV - Recentemente a polonesa, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura, Olga Tokarczuk revelou, numa entrevista, já ter usado a Inteligência Emocional para experimentos literários em seus textos, o que chocou muitos e agradou poucos. Para brincar, mas longe de confiar na ferramente, resolvi perguntar à tal IA o que os escritores acham sobre o escrever:

- "O escritor é um homem que mais do que qualquer outro tem dificuldade para escrever." - Thomas Mann (1875 - 1955);

- "Escrever é uma maneira de falar sem ser interrompido." - Jules Renard (1864 - 1910);

- "Tantas pessoas que escrevem e tão poucas que lêem!" - André Gide (1869 - 1951);

- "Escrevemos porque não queremos morrer. É esta a razão profunda do ato de escrever." - José Saramago (1922 - 2010);

- "Não se 'faz' uma frase. A frase nasce." - Clarice Lispector (1920 - 1977);

- "Acabar um livro é como dar à luz uma criança e dar-lhe um tiro." - Truman Capote (1924 - 1984);

- "Depois de se escrever um conto, deve-se cortar o início e o fim, pois é aí que nós, escritores, mais mentimos" - Anton Tchekhov (1860 - 1904);

- "Nenhum ferro pode penetrar no coração humano de maneira tão gélida como um ponto colocado no momento exato." - Isaac Bábel (1894 - 1940);

- "Devemos escrever para nós mesmos, é assim que poderemos chegar aos outros." - Eugène Ionesco (1912 - 1994);

- "Toda frase deve fazer uma de duas coisas - revelar o personagem ou avançar a ação." - Kurt Vonnegut (1922 - 2007);

- "A escrita não é senão ritmo." - Virginia Woolf (1882 - 1941);

- "Minha regra mais importante é uma que resume todas: se soa como escrita, eu reescrevo." - Elmore Leonard (1925 - 2013).

Minha contribuição:

- "Eu acredito que a estrada para o inferno é pavimentada com advérbios" - Stephen King

- "Palavras por si só não têm o poder de impressionar a mente sem o horror requintado da sua realidade." - Edgar Allan Poe

- "Você não pode culpar o escritor pelo que os personagens falam." - Truman Capote.

- "Um livro é um sonho que você segura em suas mãos." - Neil Gaiman

E para finalizar:

- "Escreva bêbado, edite sóbrio." - Hemingway.

(*) Cronista e articulista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 29/05/25. Vida & Arte, p.2.


domingo, 21 de junho de 2026

JOÃO MACEDO: a medicina como ciência e encontro humano

Por Lêda Maria, jornalista de O Povo

João Macedo Coelho Filho, casado com a pediatra Zilma, pai de Ênio, Iana e João Neto. Caminheiro animado da vida, boa-praça, sempre bem acolhido por onde passa e trabalha. Entusiasta da ideia de que "a beleza salvará o mundo", daí sua paixão pelas artes plásticas e pela literatura. Ama a ciência, o estudo, o contato com as pessoas e a possibilidade de ajudar alguém, sobretudo os que sofrem. Daí sua vocação para a medicina, que inspirou os três filhos, e sua devoção à docência, exercida "como quem reza", no dizer de Filgueiras Lima. Formou-se em Medicina pela UFC, em 1988, e, posteriormente, passou por São Paulo e pelo Reino Unido em sua formação acadêmica, obtendo mestrado, doutorado e especialização em geriatria, área que exerce ativamente em seu consultório. Na UFC, ingressou como docente em 1991, introduziu o ensino de geriatria e, atualmente, é diretor da Faculdade de Medicina, cargo em que cumpre a honrosa missão de contribuir para a formação de médicos de excelência.

Quando decidiu fazer Medicina?

Ainda no colégio, tive alguns professores que eram médicos e ensinavam disciplinas como Biologia e Química. Eles despertaram em mim grande interesse pelo conhecimento científico. Mais tarde, tive também aulas de análises clínicas em uma disciplina de caráter profissionalizante, experiência que igualmente me encantou. Ao mesmo tempo, a formação humanística e espiritual sempre exerceu forte atração sobre mim. Quando percebi que a Medicina reunia essas dimensões e representava um caminho privilegiado para ajudar as pessoas, não tive mais dúvidas: queria ser médico.

Quais foram as suas grandes influências na faculdade?

Foram muitos os professores, profissionais e amigos que me inspiraram ao longo da formação. Não ouso citar nomes, porque certamente cometeria a injustiça de esquecer alguns. Sempre admirei especialmente aqueles que exercem a Medicina aliando sólido conhecimento técnico à simplicidade, sem arrogância e longe da ribalta. Aqueles que estão sempre disponíveis para cuidar dos pacientes com zelo, respeito e genuína dedicação.

O que acha da medicina cada vez mais tecnológica?

Os avanços da ciência e da tecnologia melhoraram imensamente o diagnóstico, o tratamento e a prevenção das doenças. O desafio é garantir que todos tenham acesso a esses avanços e, ao mesmo tempo, que a tecnologia jamais substitua a natureza essencialmente humana da Medicina, na qual empatia, compaixão e ética permanecem insubstituíveis.

Sente-se realizado com a sua especialidade, a geriatria?

Absolutamente realizado. A geriatria é uma especialidade em que não há compartimentalização. A pessoa é vista em sua integralidade: nas dimensões clínica, funcional, social e existencial. Exercemos o cuidado em sua expressão mais ampla. Além disso, aprendemos muito com as pessoas longevas: suas histórias de vida, seus exemplos de resiliência e os desafios que enfrentaram. Refletir sobre a velhice e o envelhecimento é uma necessidade de todos no mundo contemporâneo, em que a expectativa de vida cresce continuamente.

E a literatura?

Desde o colégio, gosto de literatura, que defino como linguagem e interioridade. É um caminho que me permite encontrar leveza, contemplar a dimensão humana e refinar a forma de ver e de estar no mundo. É também uma maneira de visitar meu universo subjetivo, minhas paixões, encantamentos e memórias.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 20/06/2026. V&A. Lêda Maria. p.3.


segunda-feira, 8 de junho de 2026

QUANDO ME LEMBRO DO SEU NOME

Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)

Os nomes começaram a escapar depois dos quarenta. Pergunto, não memorizo e, logo em seguida, repito: qual é mesmo o seu nome? Daí, associo-o ao nome de alguém que conheço - uma amiga, uma tia, um irmão.

Às vezes, surpreendo-me ao relembrar pessoas há tempos esquecidas: Raimundinha. Mundinha costureira. Casa da vovó. Baralho com os primos. Vovó falando para quem não estava no jogo: "Não vale peruar". Uma lembrança puxa a outra e, se continuo, é como puxar a linha de um novelo que não termina.

Quando a associação funciona, respiro aliviada. É delicado chamar as pessoas pelo nome, reconhecê-las. Talvez porque, ao ouvir o próprio nome, a gente se sinta, ainda que por um instante, existindo para alguém.

Outro dia, entrei em uma ótica e uma moça muito gentil me atendeu. Como é o seu nome? Wendy, respondeu. Fiquei animada e logo associei: a Wendy do Peter Pan? Ela sorriu e disse: não, foi um nome que minha mãe viu num romance. Você conhece a história original? Só conheço as adaptações da Disney, ela respondeu.

"Wendy estava brincando no jardim e, depois de colher mais uma flor, correu para junto de sua mãe. "Ah, se você ficasse assim para sempre!", disse a senhora Darling. Foi a partir daí que Wendy soube que teria de crescer. A gente sempre sabe quando tem dois anos: dois é o começo do fim."

Peter Pan foi, certamente, o livro que mais li para os meus filhos. Logo na primeira página, eu já ficava angustiada, engasgava-me e, em seguida, falava com uma voz bem animada, quase cantada: "Dois é o começo do fim!" Eles riam e pediam: faz de novo, mamãe, faz de novo.

E eu fazia tantas vezes que, em certo momento, já não lia mais aflita e me demorava um pouco mais na Terra do Nunca. Quem sabe ali fosse a terra do sempre.

Nessa época, eu lia sem óculos. Agora, compro meu primeiro par. Espero que me ajudem a enxergar melhor as minúcias do mundo, dos outros e as minhas, como escreveu José Saramago, "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."

Qual é mesmo o seu nome?

(*) Médica psiquiatra.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 21/04/2026. Opinião. p.22.


segunda-feira, 11 de maio de 2026

CONVITE: Lançamento do Nº 1 da Revista ClãDestinos da ACEMES

O presidente da Academia Cearense de Médicos Escritores (ACEMES), o médico e professor Dr. Luiz Gonzaga de Moura Jr., convida para o lançamento do Nº 1 da revista ClãDestinos da ACEMES.

A revista, que tem por editor-chefe o Acad. Fernando Siqueira, será apresentada pelo médico e escritor Acad. Juarez Leitão.

Local: Academia Cearense de Letras. Rua do Rosário, Nº 1, Centros - Fortaleza

Data: Dia 13 de maio de 202o (quarta-feira). Horário: 19h.

Traje: Esporte fino.


sábado, 14 de fevereiro de 2026

PISCAR DE OLHOS: 43ª Antologia da Sobrames/CE - 2025

A série de Antologias da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – Regional Ceará (Sobrames/CE), com ponto de partida em 1981, atingiu agora em 2025 a sua 43ª edição, demonstrando vitalidade e continuidade.

Essa publicação possui 64 participantes, sendo 60 médicos, uma acadêmica de Medicina e três sobramistas não-médicos; os três derradeiros, incluídos como autores convidados, visto pertencerem ao nosso quadro de associados como sócios beneméritos.

Na reunião ordinária da Sobrames/CE, conduzida de forma virtual em 11/08/2025, dentre os tantos títulos sugeridos pelos sócios, após sucessivas rodadas de discussão, culminada em escrutínio, foi aprovada a proposta, indicada por Walter Miranda, que se consagra com o maior responsável pelos títulos das antologias da Sobrames/CE.

Desta feita, para 2025, fora aprovado denominar a obra de “Piscar de Olhos”, cujo significado “pode se referir ao ato físico de fechar e abrir as pálpebras rapidamente, que tem funções vitais, como lubrificar e limpar os olhos, além de servir como uma pausa mental. O piscar de olhos também pode ser uma expressão de comunicação não-verbal, uma piscadela, indicando amizade, flerte ou cumplicidade.” Ademais, a frase “num piscar de olhos” significa algo que acontece muito rápido.

Por tradição, e aliás, raramente rompida, a Sobrames/CE recorreu a um literato externo, notadamente vinculado a outras confrarias, para prefaciar suas antologias anuais. Desse modo, observando a mesma excepcionalidade que foi aplicada aos sobramistas Paulo Gurgel, Flávio Leitão e José Maria Chaves, foi indicado o médico e escritor Lúcio Gonçalo Alcântara para dar cabo dessa tarefa, o que é motivo de gáudio nosso, por sua valorosa contribuição como atuante sobramista, no percurso de três lustros, ao tempo em que ele, por justas razões superiores, paulatinamente, vem se desligando de seus vínculos societários.

Lúcio Alcântara é membro titular da Academia Cearense de Letras, da Academia Cearense de Médicos Escritores (Acemes) e da Academia Quixadaense de Letras; membro honorário da Academia Cearense de Medicina e sócio da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – Regional Ceará, da Associação Brasileira de Bibliófilos e do Instituto do Ceará: Histórico, Geográfico e Antropológico. É um assíduo participante das antologias da Sobrames/CE, desde 2011, e da Revista da Acemes desde o número zero.

Na oportunidade, comporta salientar, mais uma vez, a colaboração do colega sobramista Isaac Furtado, prestigiado cirurgião plástico e artista plástico, um mestre na arte do manuseio do bisturi e dos pincéis, um esmerado criador das capas das antologias da Sobrames/CE.

Ao ensejo do momento do lançamento desse livro, a Sobrames/CE agradeceu à Sra. Orlânia Dutra, nossa prestimosa secretária, por sua dedicação à montagem desta antologia, bem como a todas as instituições e empresas que inseriram anúncios no encarte da mesma.

Que, entre um e outro pestanejar, a leitura de “Piscar de Olhos” mantenha os olhos abertos e lubrificados, para sorver bons momentos, em prosa e em verso, do teor deste livro.

Cons. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Sócio da Sobrames/CE – Editor

* Publicado In: Jornal do médico, 21(198): 34-35, novembro de 2025.


 

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