Mostrando postagens com marcador Espiritualidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Espiritualidade. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

PEDRO, A ROCHA

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

No pátio de Caifás, Pedro negou Jesus,

Mas, reconheceu sua divindade,

Quando, categórico, com lucidez, afirmou:

Tu és o Cristo, o Filho de Deus Vivo.

 

Esta profissão de fé

Não o fez o mais amado,

Porém, o mais fiel e confiável,

Mais que Tomé, Tiago e João.

 

A Pedro tornou rocha da Igreja,

Deu-lhe as chaves do Céu,

Ordenou-lhe confirmar os irmãos,

Na fé, que lhes tinha ensinado.

 

A Igreja é de Cristo,

Pedro, seu fiel servidor.

Os princípios da Igreja

Foi Jesus quem implantou.

 

Pedro recebeu o poder:

Ligar ou desligar na terra

Será sancionado no céu.

Uma advertência Jesus lhe deu,

 

Ninguém pode a(dul)lterar,

O que Deus escreveu.

Sua Palavra é eterna,

Sabedoria e salvação dos povos.

"Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema. Assim, como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo. Se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema." (Gal 1, 8-9)

Um bom domingo, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 28/06/26.


domingo, 19 de julho de 2026

O coração que procura, cura e se dá

Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)

O mês de junho ocupa um lugar singular na espiritualidade católica. Além de celebrarmos os santos juninos é o tempo em que a Igreja volta seu olhar, de modo especial, para o Sagrado Coração de Jesus, fonte inesgotável de amor, misericórdia e entrega total. Ao mesmo tempo, celebramos Corpus Christi, solenidade que nos convida a contemplar o mistério da Eucaristia: Cristo que permanece conosco, fazendo-Se pão partido para a vida do mundo.

Essas duas devoções, embora distintas em forma, estão profundamente unidas em conteúdo. Ambas nos conduzem ao mesmo centro: o amor de Jesus que Se doa sem reservas.

Desde a infância, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus não foi apenas um ensinamento, mas um ambiente em que cresci. Lembro-me nitidamente de minha mãe usando, com simplicidade e fé, a fita do Apostolado da Oração, e de como a Comunhão Eucarística da primeira sexta-feira do mês era parte sagrada da rotina familiar. Antes mesmo de compreender plenamente a teologia dessa devoção, eu já aprendia, pelo exemplo, que o Coração de Jesus é escola de amor, fidelidade e entrega.

Celebrar o Sagrado Coração é deixar-se envolver por um Deus que não permanece distante, mas que se compromete profundamente com a humanidade, um Deus que ama com um coração que pulsa de compaixão, que sofre com a indiferença humana, mas que nunca deixa de amar. Ao contemplarmos esse Coração, somos convidados a reconhecer que Deus não é distante nem indiferente: Ele tem um coração e esse coração nos ama pessoalmente e individualmente.

Na profecia de Ezequiel 34,11-16, Deus se revela como um pastor que não terceiriza o cuidado de seu rebanho. Ele mesmo sai em busca das ovelhas perdidas, recolhe as dispersas, cura as feridas e fortalece as fracas. Esse texto não fala apenas de proteção, mas de proximidade ativa. O coração de Deus é inquieto diante da dor de seus filhos.

Essa imagem do Pastor reflete claramente o Coração de Jesus: um coração que vê, que se move e que age. Não é um amor genérico, mas pessoal. Cada ovelha é conhecida, cada ferida é tocada. No Sagrado Coração, encontramos um Deus que não desiste de procurar, mesmo quando nos afastamos.

Essa Palavra me tocou muito fundo. Ao meditá-la, imagino Jesus dizendo, com a ternura do Bom Pastor: "Eu encontrei e resgatei a minha ovelha que usava drogas. Eu busquei a minha ovelha que pensava em suicídio. Eu encontrei a minha ovelha machucada. A minha ovelha que abandonou a Igreja, eu busquei. A minha ovelha que não se rendeu aos meus ensinamentos, eu busquei. Aquela pessoa que ninguém quis amar, eu busquei. Eu encontrei a minha ovelha."

Assim é o Coração de Jesus: um coração que não se cansa, que atravessa a noite, que vai ao encontro do perdido, do ferido, do rejeitado. Um coração que não desiste de amar.

No Evangelho de João 19,34, ao pé da cruz, o soldado abre com a lança o lado de Jesus, e de seu interior brotam sangue e água. A Igreja sempre reconheceu nesse gesto mais que um fato histórico: é a revelação suprema do amor. O Coração de Jesus é aberto, não por acaso, mas como sinal de que nada é retido, tudo é entregue.

A água recorda o Batismo; o sangue, a Eucaristia. Do Coração transpassado nascem os sacramentos que sustentam a vida cristã. Olhar para esse Coração ferido é compreender que o amor de Deus não é teórico, é concreto, passou pela dor, pela rejeição e pela cruz.

Como expressa belamente Santo Agostinho: "Vosso Coração, Jesus, foi ferido para que na ferida visível contemplássemos a ferida invisível do vosso grande amor."

A lança abriu o lado de Cristo, mas foi o amor que já havia aberto seu Coração muito antes.

A prática da Comunhão reparadora nas primeiras sextas-feiras do mês não é um ritual vazio, mas uma resposta de amor ao amor. Reparar não significa assumir culpas alheias, mas oferecer presença, fidelidade e consolo ao Coração tantas vezes ferido pela indiferença, pelo pecado e pelo esquecimento.

Em um mundo marcado pela pressa, pela superficialidade e pela dureza das relações, o Sagrado Coração de Jesus permanece como um convite sempre atual: "Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração."

Ele continua procurando ovelhas feridas, oferecendo repouso às cansadas e esperança às que se sentem esquecidas. Celebrar junho como mês do Sagrado Coração é mais do que manter uma tradição; é renovar uma escolha.

Escolher viver a partir do amor que se doa, do cuidado que se compromete, da fé que se traduz em gestos concretos.

Que o Sagrado Coração de Jesus continue sendo nossa morada, nossa escola e nossa esperança.

(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).

Fonte: O Povo, de 13/06/2026. Opinião. p.24.


domingo, 5 de julho de 2026

A espiritualidade cura os males da contemporaneidade

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

A exaustão emocional se tornou uma das marcas mais silenciosas do nosso tempo. Vivemos cercados por cobranças, metas, comparações e estímulos incessantes. Há uma pressa coletiva adoecendo a alma humana. Muitos despertam cansados antes mesmo de começar o dia. Outros seguem funcionando no automático, sorrindo por fora enquanto carregam, por dentro, um coração sobrecarregado de angústias, medos e incertezas.

Paradoxalmente, nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão vazios. Temos acesso a quase tudo, mas perdemos a intimidade com o essencial. Em meio a uma cultura que valoriza produtividade acima da paz interior, a espiritualidade cristã reaparece não como fuga da realidade, mas como caminho de reencontro com a esperança.

A esperança cristã não nasce da ausência de problemas. Ela brota justamente no meio das dores humanas. A Ressurreição de Cristo, celebrada neste tempo pascal pela Igreja, é o maior testemunho de que o sofrimento não possui a última palavra. Depois da cruz, existe vida nova. Depois da noite, existe amanhecer.

Talvez um dos grandes dramas contemporâneos seja acreditar que precisamos suportar tudo sozinhos. O Evangelho, porém, nos recorda continuamente: "Vinde a mim todos vós que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei". Cristo não promete uma vida sem batalhas, mas oferece presença, consolo e sentido em meio às batalhas da existência.

Em tempos de exaustão emocional, recuperar a espiritualidade é também reaprender a silenciar, contemplar, rezar e desacelerar. É compreender que a alma também necessita de descanso. A esperança cristã nos devolve a capacidade de olhar para a vida sem desespero, porque nos recorda que Deus continua presente, mesmo quando tudo parece escuro demais.

Maria, tão celebrada neste mês de maio, também nos ensina sobre essa esperança silenciosa. Ela permaneceu de pé diante da dor sem perder a confiança em Deus. Sua serenidade atravessa os séculos como um convite para que aprendamos novamente a respirar espiritualmente, confiando que nenhuma lágrima é ignorada pelo céu.

Talvez seja exatamente isso que o coração humano mais precise reencontrar hoje: menos ruído, menos pressa e mais esperança.

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.

Fonte: O Povo, de 30/05/2026. Opinião. p.22.

sábado, 27 de junho de 2026

A ascensão de Jesus e a missão de comunicar a boa nova

Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)

O mês de maio ocupa um lugar especial na vida da Igreja e na devoção popular. Tradicionalmente, é reconhecido como o mês de Maria, tempo em que os fiéis intensificam sua oração mariana, especialmente através do Rosário, e rendem homenagens à Mãe de Deus, modelo de fé e entrega. Ao mesmo tempo, maio é também o mês das mães, ocasião em que celebramos aquelas que, à semelhança de Maria, acolhem a vida, cuidam e se doam com amor silencioso e perseverante.

Mas, neste ano, maio também é marcado pela celebração da Ascensão do Senhor.

"Enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi levado ao céu. Eles, então, o adoraram e voltaram para Jerusalém com grande alegria" (Lc 24,51-52).

A Ascensão de Jesus não é uma despedida, mas a plenitude da sua missão. Ele sobe ao Pai levando consigo nossa humanidade, abrindo para nós o caminho da vida eterna. Ao mesmo tempo, confia aos discípulos (a todos nós), a missão de anunciar o Evangelho "até os confins da terra" (At 1,8).

A cena é marcante: os discípulos olham para o céu, mas logo são chamados a olhar para a terra, para o mundo real, onde devem testemunhar a Boa Nova. A Ascensão nos recorda que comunicar a fé é parte essencial da missão da Igreja.

Não por acaso, a Igreja em sua sabedoria guiada pelo Espírito Santo, escolheu o domingo da Ascensão para celebrar o Dia Mundial das Comunicações Sociais, instituído pelo Concílio Vaticano II. A lógica é clara: assim como os discípulos foram enviados a anunciar, também nós somos chamados a usar os meios de comunicação para irradiar Cristo vivo.

"Ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho a toda criatura" (Mc 16,15).

A comunicação é ponte entre pessoas, culturas e gerações. É missão, é serviço, é testemunho.

No mundo atual, marcado por redes sociais, inteligência artificial e algoritmos, a Igreja insiste que comunicar não é apenas transmitir dados, mas preservar a dignidade humana, por isso o Tema escolhido para o 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais 2026: "Preservar vozes e rostos humanos".

Vivemos em uma era de avanços tecnológicos sem precedentes. O mundo digital nos oferece ferramentas incríveis, mas também nos apresenta um risco silencioso: o de perdermos o que nos torna únicos. Como nos adverte o papa Leão XIV, em meio a tantas vozes sintéticas e rostos gerados por máquinas, a Igreja é chamada a ser a guardiã do encontro real.

Jesus, ao subir aos céus, confiou a missão a pessoas de carne e osso. Ele não enviou conceitos abstratos, Ele enviou vozes que tremiam de emoção, que tinham sentimentos e rostos que manifestavam a alegria do Ressuscitado. A Ascensão nos ensina que a comunicação cristã nunca será apenas técnica; ela é, acima de tudo, a transmissão de uma vida por meio de uma presença humana.

O rosto e a voz são sinais únicos da identidade de cada pessoa. Preservá-los significa não reduzir o ser humano a dados ou figuras sem alma.

Preservar vozes e rostos humanos significa lutar para que a tecnologia nunca substitua o calor do abraço, a verdade do olhar e a singularidade da alma de cada filho de Deus.

Preservar a Voz: Que a nossa comunicação não seja o eco frio de mensagens prontas, mas a voz que consola, que denuncia a injustiça e que anuncia a misericórdia com a ternura que só o coração humano possui.

Preservar o Rosto: Que nas nossas redes sociais e nas nossas pastorais, o rosto do irmão sofredor, do idoso e do jovem não seja ocultado por filtros ou indiferença. Devemos ver Cristo no rosto de cada pessoa que encontramos.

Jesus, o Verbo feito carne (Jo 1,14), comunicou o amor de Deus com sua voz e seu rosto humano. Ele olhou nos olhos, chamou pelo nome, tocou os corações, façamos o mesmo.

A todas as mães, meu fraterno abraço. Deus as abençoe!

(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).

Fonte: O Povo, de 16/05/2026. Opinião. p.22.


terça-feira, 16 de junho de 2026

Os nossos "Gulags" de cada dia

Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

O arquipélago é longe, distante dos olhos e da compreensão. Sua história, para muitos, permanece desconhecida. Atravessa o tempo como um desconforto silencioso. Não se alcança facilmente a dimensão do absurdo.

Os "Gulags" modernos já não precisam de ilhas ou campos congelados. O medo tornou-se mais eficiente do que as antigas grades. Hoje, aprisiona-se sem muros aparentes. A violência contemporânea raramente se manifesta apenas pela força física; ela se instala no medo e no constrangimento permanente, na sensação de impotência. Tem raízes nas heranças familiares, tradições políticas e sociais que se reproduzem de geração em geração.

A insistência contínua do poder cria a impressão de mudança. Promessas são repetidas até adquirirem aparência de verdade. E talvez plantar esperança também possa ser uma forma sofisticada de ilusão. Do latim illudere: ludibriar, fazer troça de alguém.

Foi assim que comecei minha reflexão de domingo. Talvez o único momento em que permito ao pensamento sem amarras, conduzido por livros, músicas, memórias e antigos textos. Uma espécie de reencontro com a infância, quando literatura, poesia e rebeldia conviviam naturalmente.

Vivo no Ceará, terra que usa a ironia contra si mesma como forma de suportar o sofrimento, que produz poesia mesmo na escassez: "Sei que aí dentro ainda mora um pedacinho de mim; um grande amor não se acaba assim". Mas também uma terra marcada por estruturas de poder persistentes, que apenas trocam de roupa ao longo do tempo, sem jamais abandonar os velhos acordos.

Aqui, o "mecanismo" frequentemente encontra aceitação na subserviência secular imposta ao nordestino. De tempos em tempos surgem novas narrativas salvadoras, novos discursos, promessas que parecem convincentes no início — tudo dentro de uma única existência humana.

Escutei atentamente cada uma delas. Ouvi justificativas pragmáticas, discursos cuidadosamente construídos para explicar a realidade. Não sou ingênuo. Não acredito em fadas. Sei que gente é gente, submetida às circunstâncias, à sobrevivência e às conveniências. Nesse processo, quase tudo se justifica.

Até a religião, por vezes, serve para anestesiar consciências e acomodar meias verdades. Ainda assim, considero-me um homem de fé. Creio no aperfeiçoamento espiritual como força capaz de construir futuros melhores para as próximas gerações. Mas isso não me impede de reconhecer a maldade, suas múltiplas formas e sua capacidade de retardar a evolução humana.

Apesar de tudo, continuo sonhando. Não no imediatismo, mas no tempo longo da natureza e da história.

Enquanto isso, que venham mais poesias, mais críticas e mais coragem. Talvez assim ainda seja possível acreditar que o nordestino continua sendo, antes de tudo, um forte.

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 16/05/2026. Opinião. p.23.


domingo, 17 de maio de 2026

O AMOR QUE VENCE A MORTE

Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)

A Páscoa é o coração da fé cristã. Não é apenas uma data no calendário litúrgico nem a lembrança de um fato do passado. A Páscoa é um acontecimento vivo, permanente, que atravessa os séculos e alcança cada ser humano em suas dores, medos e esperanças. Celebrar a Páscoa é proclamar que a morte não tem a última palavra, que o sofrimento não é definitivo e que Deus permanece fiel até o fim.

Desde o Antigo Testamento, a Páscoa está ligada à passagem: passagem da escravidão para a liberdade, da opressão para a terra prometida. Em Jesus Cristo, essa passagem atinge sua plenitude. Ele atravessa a morte e abre para toda a humanidade um caminho novo. Como afirma São Paulo: "Se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa fé" (1Cor 15,14). Não se trata de um detalhe da fé, mas de seu fundamento.

A Páscoa nos revela quem é Deus: não um Deus distante ou indiferente, mas um Deus que entra na história, sofre conosco, morre por amor e ressuscita para nos devolver a vida. A ressurreição não apaga a cruz, mas dá sentido a ela. O Ressuscitado conserva as marcas dos cravos, mostrando que o amor vivido até o extremo não é destruído, mas transfigurado.

O túmulo vazio é um sinal aberto. Ele aponta para algo maior: Jesus não está mais entre os mortos porque Deus agiu. Como diz o anjo: "Por que procurais entre os mortos aquele que está vivo?" (Lc 24,5).

Quantos de nós carregamos sepulcros interiores - medos, culpas, desesperanças? O sepulcro vazio nos provoca a sair. Não é um lugar para permanecer, mas para partir em missão. A Páscoa nos tira das seguranças, das certezas fechadas, e nos envia a anunciar que a vida venceu.

A Igreja sempre afirmou com clareza: a ressurreição de Jesus não é metáfora nem símbolo psicológico nem simples continuidade da memória dos discípulos. Trata-se de um acontecimento real, histórico, mas que ultrapassa a história. O corpo de Jesus ressuscita, porém não volta à vida biológica como Lázaro. Ele entra numa condição nova, glorificada.

Celebrar a Páscoa não é apenas afirmar que Jesus ressuscitou, mas permitir que Ele ressuscite em nós. Cada vez que escolhemos a vida, o perdão, a reconciliação, a justiça, participamos da dinâmica pascal.

A ressurreição nos ensina que Deus age mesmo quando tudo parece perdido. Quando a pedra parece pesada demais, quando o túmulo parece definitivo, Deus já está trabalhando no silêncio da madrugada. A Páscoa nasce no escuro, antes do sol aparecer.

Como Igreja, somos chamados a ser sinais de ressurreição num mundo marcado por tantas mortes: físicas, emocionais, sociais e espirituais. Onde há exclusão, somos chamados à comunhão. Onde há desespero, à esperança. Onde há cruz, a anunciar que ela não é o fim.

A essência da Páscoa cabe numa simples proclamação: Ele vive. E porque Ele vive, a vida tem sentido, a dor não é absurda e o amor não é em vão. O túmulo vazio não é um ponto final, mas um começo.

Cristo ressuscitou. Verdadeiramente ressuscitou. Aleluia! Feliz e abençoada Páscoa!

(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).

Fonte: O Povo, de 18/04/2026. Opinião. p.22.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

À GUISA DE ‘UMA’ REFLEXÃO

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Jeremias, profeta, que missionou entre 626 a.C. e 586 a.C., e foi testemunha da queda de Jerusalém e do exílio babilônico, transmite ao povo forte exortação de Deus, conforme a Vulgata: “Audite vocem meam, et ero vobis Deus, et vos eritis mihi populus; et ambulate in omni via, quam mandaverim vobis, ut bene sit vobis. Et non audierunt nec inclinaverunt  aurem suam” (Jr 7,23-24). E, por isso, “periit fides et ablata est de ore eorum” (Jr 7, 28).

(Tradução: “Ouvi a minha voz e serei seu Deus e vós sereis meu povo; e andai sempre no caminho que vos tenho mandado, para vosso bem. Mas, eles não ouviram nem ‘escutaram’)

Esta perícope implica muitas reflexões, mas, pretendo abrir um sucinto ponto de vista sobre o trecho “eles não ouviram, nem inclinaram seu ouvido e, por isso, morreu a fé e foi tirada de sua boca” (Jr 7, 24; 28).

Após muitas intervenções de Deus, para com o seu povo, este as esqueceu e trilhou um caminho de retrocesso da fé, deixando de ‘ouvir’ e de ‘escutar’ o que Deus lhe ordenara e, então, a fé é ejetada de sua vida, permanecendo apenas uma opinião e não um assentimento, que é característica indispensável à fé.

‘Ouvir é instância organo-biológica’ e desemboca no ‘escutar’, este levando à compreensão e motivando uma resposta ao que ouviu. ‘Ouvir’ pode criar emoções, todavia, ‘escutar’ desperta a mente, abre o coração, aprofunda convicções e ajuda a discernir razões e decisões.

E, como o povo deixou de ‘ouvir’ Deus, passou a escutar seus próprios barulhos interiores, numa celebração desenfreada de suas paixões, mistura de mediocridade, de ruptura e de volúpia: o diálogo com Deus foi bloqueado, embora Deus continuasse a exortar e a ‘ouvir’ seu povo e a ‘escutar’ suas lamentações.

Este relacionamento estabelecia comunicação com Deus, através de seus profetas do Antigo Testamento. Já, no Novo Testamento, uma entre muitas outras passagens, Jesus, o Filho de Deus realiza, presencialmente, milagres, à vista de todos. Mas, a cegueira da fé, a indignação rabínica e a inveja invertem as ações praticadas por Jesus. Tão obcecados, que estavam, não conseguem distinguir o bem, na recuperação do surdo-mudo e consideram o bem um mal e o mal, um bem (cfe. Lc 11,14-23): o milagre realizado exemplifica a possibilidade, a necessidade e a importância da comunicação da criatura humana com o seu Deus, ‘ouvir’ a Palavra e ‘escutar’ a Verdade de Deus.

A indignação e a ‘imunidade cognitiva e espiritual’ do Sinédrio, em suas próprias contradições teológicas ensinam-nos lições de nosso contexto atual. Mentiras podem ter sabor de verdade e, muitas vezes o têm, mas jamais serão a Verdade.

Mentiras visam dividir povos e civilizações, estabelecem ‘guetos’, provocam lutas fraternas, estimulam polarizações, destroem credibilidade, honra e justiça e anulam a dignidade e a liberdade da cidadania.

Todo reino dividido contra si mesmo será desolado, e cairá casa sobre casa.” (Lc 11,17).

Tenhamos uma boa sexta-feira, com as bênçãos de Deus!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 13/03/26.


sábado, 10 de janeiro de 2026

PROMESSA CUMPRE-SE

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie (*)

Promessa é expressão de liberdade de quem a propõe e emite. Sua realização mostra o caráter, a nobreza e o respeito da lhaneza do propositor. Ela torna dignos sujeito e objeto envolvidos.

O Natal é cumprimento da promessa de um Deus às Suas criaturas humanas.

Ao criar-nos à Sua semelhança, não partilhou o 'absoluto' de sua identidade. Deu-nos, porém, a franquia de Seu reino; para tanto, fez-nos livres, pois, só a liberdade fundamenta a nossa identidade, garante o valor de nossas escolhas, ratifica nossas atitudes e alicerça nossa dignidade.

Deus atravessa a barreira, que o ser humano erigiu entre Criador e criatura, e faz-se um de nós. Sente o nosso drama, vive nossas limitações, curte a fraternidade, partilha amor e misericórdia e vê nossos erros, sem neles se imiscuir. Tomado, profundamente, de amor e compaixão, não Lhe resta senão provar a fidelidade e a grandeza do carinho com que cuida de cada um de nós. Suporta injúrias, sofrimentos, traições e a própria crueldade de morte desumana e injusta.

O valor do Natal é o preço do resgate da aliança conosco.

Diante de tão grandioso amor, não há como ficar insensível na insensatez de vaidade e orgulho de infernal mesquinhez d'alma.

Deus cumpriu Sua promessa de amor, até às últimas consequências e nos quer ao Seu lado.

Enquanto na estrada, escolhemos o rumo - o sim ou o não - a tanto amor; é o sim, que nos permite caminhar com Ele. Ao término de nosso périplo telúrico, não há mais escolha, apenas a consolidação da opção da jornada. Nossos passos e nossas atitudes selaram o destino eterno de nossa morada.

'Um Menino nos foi dado'.

Acolhê-lo é escolha 'timoneira' de nossa vida.

Que o Natal nos leve a mergulhar em nós e no mundo que estamos construindo!

Mais luz e menos trevas!

Mais luz!

Menos trevas!

Luz!

Luz!

Luz!

Tenhamos um bom sábado, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 10/01/26.


Dom Gregório e sua missão pastoral em Fortaleza

De O Povo, Editorial.

Centenas de religiosos e fiéis lotavam a Catedral de Fortaleza, há exatos dois anos, para acolher e ouvir o novo arcebispo, dom Gregório Paixão, OSB. Era um momento mútuo de conhecimento - de o novo pastor conhecer a Igreja local e de a comunidade receber o novo líder religioso. Tem sido um tempo intenso, de muitas atividades pastorais, de longos caminhos percorridos e de uma receptividade recíproca, que fez a região abraçar dom Gregório e se sentir abraçada por ele.

Em 15 de dezembro de 2023, em sua missa de posse, como O POVO noticiou, o arcebispo se abria ao novo: "Eu sou a novidade para vocês, e vocês são a novidade para mim. Não tenhamos medo dessa novidade, pois foi Deus quem fez com que nossos caminhos se encontrassem. Portanto, desejo conhecê-los a partir do coração, entro em suas vidas como servidor e entro pela porta da frente. Peço licença para ingressar no coração de vocês, na vida de vocês, para vivermos a alegria da vida partilhada".

Dois anos depois, a Arquidiocese conta múltiplos feitos pastorais sob a sua gestão episcopal: ordenou 45 presbíteros e 24 diáconos permanentes, criou a Paróquia Santo Antônio de Pádua (em Canindé), criou a Reitoria Nossa Senhora do Patrocínio (em Fortaleza), enviou à Nunciatura Apostólica do Brasil o pedido de criação das dioceses de Baturité e Cascavel, promoveu a revitalização da Faculdade Católica de Fortaleza, ampliou as atividades da Caminhada com Maria e, recentemente, acolheu dois bispos auxiliares, monsenhor Antonio Carlos do Nascimento e monsenhor Jânison de Sá Santos, que tomarão posse em fevereiro de 2026.

A sua atenção aos mais vulneráveis é vista, por exemplo, nas visitas ao grupo de moradia de pessoas em superação de rua no Cidade Jardim (no bairro José Walter, em Fortaleza) e com a celebração da Missa de Natal com a Pastoral do Povo da Rua na Casa Dom Luciano Mendes - solenidade que se repetirá neste 2025. São ações que demonstram mais do que um cuidado sensível com quem sofre; encontram amparo na ideia da Igreja em saída, valorizando a cultura do encontro e do diálogo, tão difundida por papa Francisco.

Assim, este é o tempo de celebrar o trabalho atencioso de dom Gregório, um pastor de extrema sensibilidade aos anseios de um povo que clama por acolhida. Também é o momento de agradecer por sua presença mediadora, amiga, solidária e generosa, que confirma uma Igreja que se preocupa com os que não têm esperança e com os que vivem à margem, invisibilizados pelas injustiças sociais.

Que o nascimento de Jesus Cristo, que celebraremos daqui a alguns dias, renove seu ânimo evangelizador, envernizado pela solidariedade e pelo afeto - características marcantes de sua missão pastoral humanizada. Obrigada, dom Gregório!

Fonte: Publicado In: O Povo, de 15/12/25. Opinião p.22.


Dom Gregório, um pastor próximo que prepara os caminhos do Senhor

Por Pe. Watson Holanda (*)

Para falar dos dois anos de pastoreio de dom Gregório Paixão como arcebispo de Fortaleza, partimos de seu lema episcopal: Parare Vias Domini: "Preparar os caminhos do Senhor". Inspirado na missão de João Batista, que ilumina sua vida ministerial, o arcebispo vem conduzindo nossa Igreja particular como aquela voz que incansavelmente nos aponta o Cristo, o Cordeiro que nos salva.

Ao acompanhar sua intensa agenda pastoral, marcada por celebrações nas paróquias, visitas às comunidades, encontros pastorais, presença em repartições públicas e diálogo com diferentes segmentos da sociedade, percebe-se um pastor que, em suas ações, valoriza a proximidade e a escuta, a simplicidade e a profundidade. Preocupa-se com o alegre e claro anúncio da fé cristã, capaz de impulsionar suas ovelhas a viverem o Evangelho com entusiasmo e concretude no cotidiano.

Nestes dois anos, aqueles que convivem com dom Gregório em instâncias de discernimento, como o Conselho Episcopal, o Conselho Presbiteral e, especialmente, o Conselho Arquidiocesano de Pastoral, testemunham sua liderança serena, firme e profundamente evangélica. E tantos outros que o escutam nas celebrações eucarísticas, nas mais diversas comunidades de nossa capital, periferias, praias, serras e sertão, relatam que se alegram com seu sorriso largo, sua atenção e suas “estorinhas”, que magistralmente ilustram a melhor vivência do Evangelho na vida.

Dois grandes acontecimentos marcaram este biênio e revelam seu zelo e visão pastoral: o Simpósio Arquidiocesano de Pastoral e a XXV Assembleia Arquidiocesana de Pastoral. Ambos realizados no ano de 2025, pavimentaram o caminho para a elaboração do novo Plano Arquidiocesano de Pastoral e de Evangelização (2026–2030), expressão concreta de uma Igreja sinodal, samaritana, missionária e comprometida com a realidade do povo cearense.

Por fim, concluindo este texto, faço eco ao sentimento do povo de Deus que está em Fortaleza ao reconhecer em dom Gregório um pastor próximo, que conduz com sabedoria e, quando necessário, indica novos caminhos. Sua presença entre nós tem sido um estímulo permanente para que, juntos, preparemos as veredas do Senhor e avancemos na missão de evangelizar com esperança, coragem e profundidade.

(*) Sacerdote. Coordenador Arquidiocesano de Pastoral.

Fonte: O Povo, de 13/12/2025. Opinião. p.22.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

SINGELA E PROFUNDA REFLEXÃO

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie (*)

Ao ser o que sou, não tenho qualquer outra escolha. É a minha matriz existencial, a essência de mim e nada a desentalha, pois, se fosse possível alterá-la ou deletá-la, minha existência não teria mais razão de ser.

Eu sou em cada eu estou, e o meu estou está no eu sou, qual elétron que somente gira em torno do núcleo.

Além do eu estou, o como estou atualiza as sinapses do eu sou, porém, convém dizer, o eu sou jamais será modificado pelo eu estou.

É no eu estou que se assentam máscaras, tentando obumbrar o eu sou, escondendo-o e ferindo-o, muitas vezes, tão gravemente, com frustrações, insinuações, dissimulações, negatividades, desídia, de tal modo que nada lhe resta, senão reagir também, cruel e fortemente, com desordens e patologias; inicialmente, gritos leves de socorro, que, não ouvidos, rumam ao desespero. O eu sou, mesmo ferido, continua eu sou, mas os espinhos do eu estou bloqueiam a sua dinâmica de crescer, expandir-se e realizar-se.

O ‘eu sou’ é, categórica e eternamente, eu sou. Contudo, o eu estou é escolha pessoal, e somente minha determinação tende a ajustá-lo ou aliená-lo.

E para nós, cristãos, a fé é imprescindível, porém, uma fé, que não exclua a fé em nós próprios. Deus não faz, diz Santo Agostinho, o que cabe a nós fazê-lo: não é nossa vontade que se impõe a Deus, mas, a vontade de Deus que se realiza em nós, para termos “vida em abundância”. (Jo 10,10)

Não adianta reclamar, não adiantam justificativas, não adianta buscar bodes expiatórios. Nada adianta, se as rédeas não forem por mim assumidas; ninguém pode fazê-lo por mim.

Assim, segue a vida do Homo sapiens, na sua inexorável viagem telúrica.

Tenhamos um bom sábado, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 29/11.25.


domingo, 21 de dezembro de 2025

UM NOVO PAPA

Por Rev. Munguba Jr. (*)

Não costumo abordar assuntos relacionados a denominações religiosas. O que sempre defendo é que cada pessoa tem o direito de seguir o caminho que escolher, sustentando as teologias e ideologias com as quais mais se identifica. No entanto, é impossível não olhar para o líder da maior religião cristã do mundo: o Papa.

Hoje, é difícil acreditar em tudo o que se publica nas redes sociais, já que muitas pessoas fazem qualquer coisa para aumentar visualizações, curtidas e compartilhamentos. Somos constantemente bombardeados por notícias verdadeiras, meias-verdades e mentiras.

O Papa Leão XIV tem promovido uma verdadeira revolução neste novo tempo, conduzindo uma guinada na estrutura doutrinária da Igreja Católica em direção a um aspecto mais bíblico e menos humanista. Ele tem procurado trazer o texto sagrado como referência prioritária na exegese doutrinária.

Seu posicionamento tem sido marcado por amor e gentileza, mas também por firmeza em enfatizar verdades fundamentais do cristianismo, como a de que Cristo é o centro da Igreja.

Como batista, aprendi com meus pais a amar Maria, valorizá-la e até pregar sermões maravilhosos sobre ela, cheios de amor e esperança. Olhamos para sua escolha sobrenatural, sua maternidade milagrosa e sua presença constante na vida de seu amado Filho, Jesus. Maria foi até as últimas consequências para permanecer perto dEle, mesmo diante da cruz. Como Maria foi especial!

Compreendi que o Papa não está diminuindo Maria, mas apenas recolocando no centro aquilo que é essencial ao cristianismo: Cristo.

O Papa está apenas iniciando seu pontificado e tem buscado santificar cada vez mais a Igreja. Precisamos dar tempo para que ele trabalhe e desenvolva seu ministério pastoral. Julgamentos apressados tendem a ser injustos.

Não tenho procuração para defender Leão XIV, mas não gosto de julgamentos precipitados contra nenhum líder religioso. Sinto dor quando vejo um pastor ou padre sendo julgado prematuramente. Não pretendo acobertar erros, apenas defender a prudência na avaliação. Devemos lembrar que "com a medida que medirmos, seremos medidos". Não somos juízes e muito menos perfeitos.

Penso que podemos ser mais bondosos, gentis e misericordiosos com todos. Vamos aguardar. Afinal, como a própria Bíblia ensina, "a luz tudo revela."

Uma reflexão sobre fé, liderança e cautela nos julgamentos

(*) Pastor Munguba Jr. Embaixador Cristão da Oração da Madrugada e Erradicação da Pobreza no Brasil e presidente da Igreja Batista Seven Church.

Fonte: O Povo, 22/11/2025. Opinião. p.20.


sábado, 20 de dezembro de 2025

Tempo de memória e da esperança

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

Novembro chega como um véu de silêncio sobre a cidade barulhenta. Para a Igreja Católica, é o mês em que a fé nos educa a olhar, ao mesmo tempo, para o alto e para dentro. Logo nos primeiros dias, celebramos o Dia de Todos os Santos (1º) e a Comemoração dos Fiéis Defuntos, o Dia de Finados (2). São datas irmãs: uma aponta para a meta — a santidade —, a outra recorda, com ternura, os que caminham para ela e já atravessaram o umbral da morte.

Historicamente, a festa de Todos os Santos amadureceu a partir da memória dos mártires, venerados nas catacumbas, até ser estendida a toda a Igreja no século IX, sob o pontificado de Gregório IV. Já o Dia de Finados consolidou-se no século XI, com os monges de Cluny, como exercício de caridade espiritual pelos que se purificam na esperança. Desde então, novembro tornou-se uma escola de comunhão: entre a Igreja triunfante, a peregrina e a que aguarda a visão plena de Deus.

Filosoficamente, a morte interroga o sentido da vida. A experiência cristã não a romantiza, mas a transfigura: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (Jo 11,25). Por isso, velas acesas, flores e a oração pelos mortos não são ritos de resignação, e sim gestos de confiança; proclamam que o amor não é devorado pelo tempo. A saudade, iluminada pela esperança, aprende a dizer “até o encontro”.

Novembro também abre a porta do Advento, quando a Igreja reaprende a esperar. Preparar o Natal não é decorar vitrines, mas dilatar o coração: reconciliar-se, cuidar dos que sofrem, retomar a oração, simplificar a agenda para que Deus encontre lugar. Entre a memória dos que partiram e a expectativa do Deus que vem, descobre-se um caminho único: viver o presente com responsabilidade de eternidade.

Que este mês devolva à cidade o seu silêncio fecundo e às famílias a mansidão das lembranças. Ao lembrarmos nossos mortos, aprendamos a ser mais vivos: atentos, agradecidos, generosos. E, ao acender as luzes do presépio, reconheçamos no Menino que chega a mesma promessa que sustentou nossos santos e consolou nossos lutos: o amor vence a morte, e a vida, em Deus, não se encerra — floresce.

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.

Fonte: O Povo, de 15/11/2025. Opinião. p.20.


O cinquentenário da RCC em Fortaleza

Por Emanuel Freitas da Silva (*)

No último dia 26/10/25 celebrou-se, na Catedral Metropolitana de Fortaleza, os 50 anos da presença da Renovação Carismática Católica na cidade. Movimento de cunho pentecostal surgido em 1967, nos Estados Unidos (o famoso “final de semana de Duquesne”), aportou em terras alencarinas em 1975, por meio do trabalho missionário de padres jesuítas, para logo depois ser conduzido hegemonicamente por fiéis leigos. Buscou, desde seus primórdios, ser a “renovação” do catolicismo como um todo, daí a disputa que se travou, por muito tempo, quanto ao uso do termo “movimento” para o caracterizar.

Há muito o que se comemorar no que diz respeito à Arquidiocese: inexistiram, da parte dos arcebispos, grandes entraves à presença do movimento nas igrejas (embora muitos padres tenham oferecido, nesses anos, alguns embaraços), podendo mesmo ser destacado o expressivo número de Novas Comunidades fundadas sob a batuta de Dom José Antônio; muitas novas expressões do catolicismo foram originadas na espiritualidade da RCC de Fortaleza ou têm nela seu público majoritário; missas e eventos católicos assumiram, em sua imensa maioria, a gramática dos louvores e da animação carismática (como a Caminhada com Maria), o que explica, em grande medida, a resistência do Ceará como o segundo estado mais católico do país.

Mas, há também desafios importantes produzidos pela longe durée do movimento: enfrentamentos internos, que levaram alguns à ruptura com a Igreja e à busca por novas confissões cristãs (indo do sectarismo à desfiliação); espetacularização da pentecostalização, fazendo desta a razão de ser do movimento bem mais do que a própria unidade da igreja – para isso, basta lembrar da importância das “missas de cura” frente às missas “normais”; a politização da identidade carismática, que levou o movimento a uma adesão irrestrita a tudo que se opõe ao progressismo, levando a uma confusão entre ser carismático e ser, por exemplo, bolsonarista (inclusive, esse foi um dos quatro problemas identificados pelo fundador da Shalom durante sua pregação, no referido evento).

Os próximos anos insinuam-se de maior fortalecimento, dada a já manifesta inclinação do novo arcebispado. Que venha o centenário!

(*) Professor adjunto de teoria política da Uece/Facedi.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/11/25. Opinião. p.22.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

DIFERENÇA QUE O ABRIR FAZ

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie (*)

Há certas coisas, que só fazem diferença, quando abertas. Enquanto fechadas não importam muito.

Coletamos algumas.

De que adianta andar na chuva com o guarda-chuva fechado? Ambos molhar-se-ão, à música de gotas, que caem e ao insuflar de ventos bravios.

Muitas pessoas dispõem de uma rica biblioteca, acumulam títulos nobres e literatura de escol. No entanto, tais livros só promovem ideias e burilam pensamentos, só enriquecem e dão conhecimento, se forem abertos. Fechados podem significar algo e expressar ‘status’, porém, somente quando folheados, com atenção e presteza, farão a diferença.

Em quase todas as residências cristãs, entroniza-se a Bíblia Sagrada, contudo, quase sempre, apenas a poeira se aloja numa mesma página, sempre à mostra.

O livro não se presta somente a pesquisas, mas precisa ser ouvido, na sua inteireza e num diálogo franco, livre de ideologias e de imunidade cognitiva.

Livro não é material de consumo, mas é um bem. É amigo, mestre, conselheiro, provocador, pois, reflete ideias e opiniões do autor, as quais serão conhecidas, uma vez abertos e lidos.

É de consenso universal que o cérebro sedia a mente, que recebe influência de vários outros vetores interiores e exteriores. Todavia, há profunda diferença entre um cérebro fechado de outro aberto. O cérebro aberto possibilita um itinerário dinâmico, livre em suas ponderações, sensato em suas convicções e prudente em suas análises e críticas.

O coração, tido como rei das emoções afetivas, que se arroga a primazia de vibrar sentimentos e reverberar emoções, somente consegue amar, ao som da própria liberdade. É ele que se fecha, na intolerância, no ódio, na vingança, insensível que se faz. É ele, porém, que se abre à empatia, à tolerância, ao carinho, ao amor, na sensibilidade que somente ele sabe vibrar e compartilhar com toda a economia, serenando a homeostase da criatura humana.

O amor existe, o ódio se investe na criatura, ocupando vazios existenciais.

Tudo não está marcado pelo destino, simplesmente, singra o ser integral, com o aval ‘sintônico ou distônico’ da razão... Inda que “haja razões que a própria razão desconheça”.

Tenhamos uma boa quinta-feira, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 27/11.25.


 

Free Blog Counter
Poker Blog