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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Quando a esperança precisa de companhia

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

Setembro nos apresenta duas convocações distintas. A Igreja no Brasil celebra o Mês da Bíblia, iluminado em 2026 pelo Livro de Daniel; a sociedade vive o Setembro Amarelo, dedicado à prevenção do suicídio e à saúde mental. Ambas, porém, nos levam à mesma pergunta: como permanecer ao lado de quem atravessa a noite?

Daniel nasce da experiência de um povo no exílio, sob poderes aparentemente invencíveis. Seu anúncio — "Seu reino jamais será destruído" — não foge da realidade. Afirma que nenhuma circunstância possui a palavra definitiva sobre a vida. A esperança bíblica não ignora o medo nem encobre a dor; abre espaço para atravessá-los em companhia.

Precisamos compreender que a fé não exige de ninguém uma aparência de fortaleza. Há sofrimentos que pedem oração; há outros que necessitam de acompanhamento psicológico ou médico; muitas vezes, precisam de tudo isso junto. Procurar ajuda não revela falta de fé. Pode ser, ao contrário, um gesto de lucidez, humildade e coragem.

A espiritualidade inaciana ensina a reconhecer os movimentos interiores: aquilo que amplia a vida e aquilo que nos fecha na solidão, na desesperança e no silêncio. Discernir não é observar a vida à distância, mas escutar com honestidade o que se passa em nós e permitir que alguém se aproxime. Deus também cuida pela ciência, pelos profissionais da saúde, pelos amigos e pelas comunidades capazes de acolher sem julgar.

Neste Setembro Amarelo, a Igreja é chamada não apenas a falar sobre a vida, mas a se tornar presença que a protege. Isso exige comunidades atentas, o abandono de respostas simplistas e a compreensão de que frases religiosas, quando usadas para apressar a dor do outro, podem aumentar seu isolamento. Muitas vezes, o cuidado começa quando deixamos de explicar e escolhemos permanecer.

O Livro de Daniel recorda que os impérios passam e que o Reino de Deus se manifesta onde a dignidade resiste. Talvez uma das expressões mais concretas desse Reino, hoje, seja uma pessoa dizendo a outra: "Você não precisa enfrentar isso sozinho". Pedir ajuda é abrir uma fresta para a esperança. Oferecê-la é fazer da fé uma companhia viva.

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.

Fonte: O Povo, de 24/09/2026. Opinião. p.14.


sexta-feira, 23 de outubro de 2026

O PÓ NÃO É O FIM

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Quando ao túmulo baixar,

E meu corpo ao pó retornar,

Corpo, dádiva de meus pais

Órfão de mim não vou ficar.

 

Tampouco virarei alma penada,

Pois ser humano é que nasci.

E outro ser não poderei ser,

Alma e corpo sempre serei.

 

Quando ao túmulo baixar,

Meu eu vai perdurar,

Sopro vital de meu corpo,

Não ficará a vagar.

 

É corpo vindo de Deus,

No seu poder eternal,

Não é retorno ao mundo,

Rasgar meu eu Deus não faz, é mau.

 

Memórias que levarei,

Sejam boas ou más,

Com o perdão que ganhei,

Em mim ficarão guardadas.

 

De meu nome lembrarei,

De amores e amigos também,

Porém, no meu acervo eterno,

Ficarão as que me fazem bem.

 

No meu afã de ver Jesus Cristo,

A Maria pedirei levar-me a Ele.

Depois, com familiares e amigos,

A todo povo de fé me unirei.

 

Banhados aos pés do Criador,

Cantos de júbilo, de adoração,

No sangue imaculado do Cordeiro,

Entoaremos juntos, eterno encanto.

 

E as criaturas todas

Prostrar-se-ão ao Senhor.

Túmulos ficarão vazios

De seres plenos de amor

 

Quando a primavera chegar,

E a ressurreição final brilhar,

Então, grandiosa alegria pulsará

Momento eterno sem fim selará.

 

Uma boa sexta-feira, com as bênçãos de Deus.

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 21/08/26.


quinta-feira, 8 de outubro de 2026

FOI ONTEM

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Foi ontem que te vi.

Estavas alegre,

E sorrias, feliz.

 

Falavas de tuas pelejas,

E ria de tuas peraltices,

Na condução de tua vida.

 

Teus olhos tinham o brilho

De tuas vitórias e lutas,

Das perdas mágoas vazias.

 

Hoje, vejo teu corpo.

Sem teu álacre sorriso,

Em palidez exangue.

 

Olhos cerrados

A ver outros cenários,

Dantes invisíveis.

 

Coração transmudado

Noutra escala a pulsar,

Em perpétuo ritmar.

 

Tua mente livre

Voa no infinito,

Memórias de teus feitos.

 

Com teus amores,

Com teus princípios,

Com teus valores.

 

No tempo que tiveste,

Elegeste teu espaço,

Eis tua sempre morada.

 

A fé que cultivaste,

A acolhida que fizeste,

O perdão que dispensaste,

 

São teus assessores,

Teus sinceros guias,

Nessa travessia.

 

Tu sentes os ardores

Dessa infinita viagem.

Sorrisos ou lamentos

 

Teu nome ornarão.

Amigos e criaturas todas

Também te reconhecerão.

 

E Deus indicar-te-á

Teu lugar eterno,

Casa que tu construíste,

 

Com os dons que te deu

O Soberano Altíssimo,

E ao teu alvedrio Lhe restituíste.

 

Teus princípios vividos,

Baluartes de tua vida,

À eternidade dizem-te:

 

Bem-vindo!

Bem-vindo!

Bem-vindo in aeternum!

(Pierre Nadie)

 

Uma boa terça-feira, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 3/08/26.


domingo, 27 de setembro de 2026

SANTAS CHAGAS: Fonte de Misericórdia e Vida

Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)

No mês de setembro somos convidados a fixar os nossos olhos e o nosso coração no mistério mais profundo do amor de Deus, a nossa devoção à Jesus das Santas Chagas.

Quando olhamos para o Crucificado, ou quando contemplamos a imagem de Jesus Ressuscitado que traz em Suas mãos, pés e lado os sinais da Paixão, nós não estamos olhando para marcas de derrota. As Chagas de Jesus não são cicatrizes de uma humilhação passada; elas são as marcas vitoriosas da nossa libertação, as fontes abertas da Misericórdia Divina e os canais por onde corre a cura para nossas próprias feridas.

Vivemos em um mundo marcado por profundas feridas. Feridas na alma, feridas na mente, traumas que sangram em segredo, marcas de rejeição, de abandono, de traição e de pecado. Quantos de nós não trazemos cicatrizes dolorosas que ninguém vê? Tentamos disfarçar sob as máscaras das aparências, mas, por dentro, a alma continua machucada.

Diante do nosso sofrimento, Deus não permaneceu indiferente, assistindo à nossa dor do alto dos céus. O profeta Isaías, séculos antes de Cristo, já profetizava o mistério da Redenção, que cito continuamente: "Ele foi castigado por nossos crimes, e esmagado por nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz caiu sobre ele, e por suas chagas fomos curados." (Is 53, 5)

Na Cruz, Jesus assumiu em Seu próprio Corpo a dureza dos nossos pecados. Os pregos cravados em Suas mãos puras e em Seus pés santíssimos, e, finalmente, a lança que abriu o Seu Coração, tudo isso foi o preço pago para carregar em Si a culpa dos nossos pecados e das nossas dores.

A Tradição da Igreja sempre encontrou nas Santas Chagas um refúgio seguro contra os ataques do inimigo e contra as desesperanças da vida. Os Santos Padres e os grandes místicos da Igreja compreenderam que entrar nas chagas de Jesus é o caminho mais curto para a santidade.

O Catecismo da Igreja Católica ilumina de forma teológica esse mistério, mostrando que o sacrifício de Cristo nas chagas é a expressão máxima da Sua liberdade e do Seu amor por nós: "Jesus conheceu-nos e amou-nos a todos durante sua Vida, sua Agonia e Paixão e entregou-se por todos e cada um de nós: "O Filho de Deus amou-me e entregou-se por mim" (Gl 2,20). Amou-nos a todos comum coração humano. Por esta razão, o sagrado Coração de Jesus, traspassado por nossos pecados e para a nossa salvação." (CIC 478)

E a Tradição vai ainda mais longe. Por que Jesus, ao ressuscitar com um corpo glorioso, capaz de atravessar portas, escolheu manter as Suas chagas? Ele poderia ter ressuscitado com o corpo perfeitamente sem marcas. Mas Ele fez questão de mantê-las. Por quê?

Primeiro, para provar a Sua identidade: Para mostrar aos discípulos assustados que Aquele que ressuscitou era o mesmo que havia sido crucificado por amor.

Segundo, para interceder por nós diante do Pai: A Tradição nos ensina que, no Céu, Jesus apresenta continuamente ao Pai as Suas gloriosas chagas como uma oração perene em nosso favor. Quando o Pai olha para o Filho, Ele vê as marcas do preço que foi pago por cada um de nós.

Lembremo-nos do relato no Evangelho de São João, os discípulos estavam trancados no cenáculo por medo. Jesus aparece, deseja a paz e mostra as mãos e o lado. Mas Tomé não estava lá. Quando os outros contam, Tomé dúvida: "Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se não colocar o meu dedo no lugar dos pregos e não introduzir a minha mão no seu lado, não acreditarei." (Jo 20,24-25)

Oito dias depois, Jesus volta. Ele não vai para condenar a incredulidade de Tomé, mas vai diretamente ao encontro da sua ferida espiritual. Jesus olha para Tomé e diz: "Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas fiel." (Jo 20,27)

Ao tocar nas Chagas de Jesus, Tomé não tocou apenas em carne ressuscitada; ele tocou na própria essência de Deus. O homem que duvidava caiu de joelhos e pronunciou a profissão de fé mais bela e direta de todo o Novo Testamento: "Meu Senhor e meu Deus!" (Jo 20,28).

As Chagas de Jesus têm o poder de transformar a dúvida em fé, o desespero em certeza, a morte em vida. Se realmente tocamos as Chagas de Cristo pela oração, pela adoração e, sobretudo, no Sacramento da Reconciliação (Confissão) e da Eucaristia, a nossa incredulidade cai por terra.

Quando o pecado pesar, quando os pensamentos de autodestruição, de desespero ou de impureza assaltarem a sua mente, faça o que os santos ensinam: "Senhor Jesus, esconde-me dentro das Vossas Santas Chagas". Nelas nenhum mal tem poder. Elas são a nossa fortaleza inviolável.

Meus irmãos, as Santas Chagas de Jesus estão abertas e reluzentes de glória eternamente. Elas não exigem de nós perfeição para entrar; elas exigem apenas a nossa pequenez e o nosso desejo de cura.

Acolhamos hoje essa graça. Que cada Chaga aberta seja para nós fonte de misericórdia, e que delas jorre o amor que nos restaura.

Deus abençoe e o Senhor Jesus das Santas Chagas os proteja!

(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).

Fonte: O Povo, de 8/08/2026. Opinião. p.14.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

PEDRO, A ROCHA

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

No pátio de Caifás, Pedro negou Jesus,

Mas, reconheceu sua divindade,

Quando, categórico, com lucidez, afirmou:

Tu és o Cristo, o Filho de Deus Vivo.

 

Esta profissão de fé

Não o fez o mais amado,

Porém, o mais fiel e confiável,

Mais que Tomé, Tiago e João.

 

A Pedro tornou rocha da Igreja,

Deu-lhe as chaves do Céu,

Ordenou-lhe confirmar os irmãos,

Na fé, que lhes tinha ensinado.

 

A Igreja é de Cristo,

Pedro, seu fiel servidor.

Os princípios da Igreja

Foi Jesus quem implantou.

 

Pedro recebeu o poder:

Ligar ou desligar na terra

Será sancionado no céu.

Uma advertência Jesus lhe deu,

 

Ninguém pode a(dul)lterar,

O que Deus escreveu.

Sua Palavra é eterna,

Sabedoria e salvação dos povos.

"Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema. Assim, como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo. Se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema." (Gal 1, 8-9)

Um bom domingo, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 28/06/26.


domingo, 19 de julho de 2026

O coração que procura, cura e se dá

Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)

O mês de junho ocupa um lugar singular na espiritualidade católica. Além de celebrarmos os santos juninos é o tempo em que a Igreja volta seu olhar, de modo especial, para o Sagrado Coração de Jesus, fonte inesgotável de amor, misericórdia e entrega total. Ao mesmo tempo, celebramos Corpus Christi, solenidade que nos convida a contemplar o mistério da Eucaristia: Cristo que permanece conosco, fazendo-Se pão partido para a vida do mundo.

Essas duas devoções, embora distintas em forma, estão profundamente unidas em conteúdo. Ambas nos conduzem ao mesmo centro: o amor de Jesus que Se doa sem reservas.

Desde a infância, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus não foi apenas um ensinamento, mas um ambiente em que cresci. Lembro-me nitidamente de minha mãe usando, com simplicidade e fé, a fita do Apostolado da Oração, e de como a Comunhão Eucarística da primeira sexta-feira do mês era parte sagrada da rotina familiar. Antes mesmo de compreender plenamente a teologia dessa devoção, eu já aprendia, pelo exemplo, que o Coração de Jesus é escola de amor, fidelidade e entrega.

Celebrar o Sagrado Coração é deixar-se envolver por um Deus que não permanece distante, mas que se compromete profundamente com a humanidade, um Deus que ama com um coração que pulsa de compaixão, que sofre com a indiferença humana, mas que nunca deixa de amar. Ao contemplarmos esse Coração, somos convidados a reconhecer que Deus não é distante nem indiferente: Ele tem um coração e esse coração nos ama pessoalmente e individualmente.

Na profecia de Ezequiel 34,11-16, Deus se revela como um pastor que não terceiriza o cuidado de seu rebanho. Ele mesmo sai em busca das ovelhas perdidas, recolhe as dispersas, cura as feridas e fortalece as fracas. Esse texto não fala apenas de proteção, mas de proximidade ativa. O coração de Deus é inquieto diante da dor de seus filhos.

Essa imagem do Pastor reflete claramente o Coração de Jesus: um coração que vê, que se move e que age. Não é um amor genérico, mas pessoal. Cada ovelha é conhecida, cada ferida é tocada. No Sagrado Coração, encontramos um Deus que não desiste de procurar, mesmo quando nos afastamos.

Essa Palavra me tocou muito fundo. Ao meditá-la, imagino Jesus dizendo, com a ternura do Bom Pastor: "Eu encontrei e resgatei a minha ovelha que usava drogas. Eu busquei a minha ovelha que pensava em suicídio. Eu encontrei a minha ovelha machucada. A minha ovelha que abandonou a Igreja, eu busquei. A minha ovelha que não se rendeu aos meus ensinamentos, eu busquei. Aquela pessoa que ninguém quis amar, eu busquei. Eu encontrei a minha ovelha."

Assim é o Coração de Jesus: um coração que não se cansa, que atravessa a noite, que vai ao encontro do perdido, do ferido, do rejeitado. Um coração que não desiste de amar.

No Evangelho de João 19,34, ao pé da cruz, o soldado abre com a lança o lado de Jesus, e de seu interior brotam sangue e água. A Igreja sempre reconheceu nesse gesto mais que um fato histórico: é a revelação suprema do amor. O Coração de Jesus é aberto, não por acaso, mas como sinal de que nada é retido, tudo é entregue.

A água recorda o Batismo; o sangue, a Eucaristia. Do Coração transpassado nascem os sacramentos que sustentam a vida cristã. Olhar para esse Coração ferido é compreender que o amor de Deus não é teórico, é concreto, passou pela dor, pela rejeição e pela cruz.

Como expressa belamente Santo Agostinho: "Vosso Coração, Jesus, foi ferido para que na ferida visível contemplássemos a ferida invisível do vosso grande amor."

A lança abriu o lado de Cristo, mas foi o amor que já havia aberto seu Coração muito antes.

A prática da Comunhão reparadora nas primeiras sextas-feiras do mês não é um ritual vazio, mas uma resposta de amor ao amor. Reparar não significa assumir culpas alheias, mas oferecer presença, fidelidade e consolo ao Coração tantas vezes ferido pela indiferença, pelo pecado e pelo esquecimento.

Em um mundo marcado pela pressa, pela superficialidade e pela dureza das relações, o Sagrado Coração de Jesus permanece como um convite sempre atual: "Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração."

Ele continua procurando ovelhas feridas, oferecendo repouso às cansadas e esperança às que se sentem esquecidas. Celebrar junho como mês do Sagrado Coração é mais do que manter uma tradição; é renovar uma escolha.

Escolher viver a partir do amor que se doa, do cuidado que se compromete, da fé que se traduz em gestos concretos.

Que o Sagrado Coração de Jesus continue sendo nossa morada, nossa escola e nossa esperança.

(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).

Fonte: O Povo, de 13/06/2026. Opinião. p.24.


domingo, 5 de julho de 2026

A espiritualidade cura os males da contemporaneidade

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

A exaustão emocional se tornou uma das marcas mais silenciosas do nosso tempo. Vivemos cercados por cobranças, metas, comparações e estímulos incessantes. Há uma pressa coletiva adoecendo a alma humana. Muitos despertam cansados antes mesmo de começar o dia. Outros seguem funcionando no automático, sorrindo por fora enquanto carregam, por dentro, um coração sobrecarregado de angústias, medos e incertezas.

Paradoxalmente, nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão vazios. Temos acesso a quase tudo, mas perdemos a intimidade com o essencial. Em meio a uma cultura que valoriza produtividade acima da paz interior, a espiritualidade cristã reaparece não como fuga da realidade, mas como caminho de reencontro com a esperança.

A esperança cristã não nasce da ausência de problemas. Ela brota justamente no meio das dores humanas. A Ressurreição de Cristo, celebrada neste tempo pascal pela Igreja, é o maior testemunho de que o sofrimento não possui a última palavra. Depois da cruz, existe vida nova. Depois da noite, existe amanhecer.

Talvez um dos grandes dramas contemporâneos seja acreditar que precisamos suportar tudo sozinhos. O Evangelho, porém, nos recorda continuamente: "Vinde a mim todos vós que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei". Cristo não promete uma vida sem batalhas, mas oferece presença, consolo e sentido em meio às batalhas da existência.

Em tempos de exaustão emocional, recuperar a espiritualidade é também reaprender a silenciar, contemplar, rezar e desacelerar. É compreender que a alma também necessita de descanso. A esperança cristã nos devolve a capacidade de olhar para a vida sem desespero, porque nos recorda que Deus continua presente, mesmo quando tudo parece escuro demais.

Maria, tão celebrada neste mês de maio, também nos ensina sobre essa esperança silenciosa. Ela permaneceu de pé diante da dor sem perder a confiança em Deus. Sua serenidade atravessa os séculos como um convite para que aprendamos novamente a respirar espiritualmente, confiando que nenhuma lágrima é ignorada pelo céu.

Talvez seja exatamente isso que o coração humano mais precise reencontrar hoje: menos ruído, menos pressa e mais esperança.

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.

Fonte: O Povo, de 30/05/2026. Opinião. p.22.

sábado, 27 de junho de 2026

A ascensão de Jesus e a missão de comunicar a boa nova

Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)

O mês de maio ocupa um lugar especial na vida da Igreja e na devoção popular. Tradicionalmente, é reconhecido como o mês de Maria, tempo em que os fiéis intensificam sua oração mariana, especialmente através do Rosário, e rendem homenagens à Mãe de Deus, modelo de fé e entrega. Ao mesmo tempo, maio é também o mês das mães, ocasião em que celebramos aquelas que, à semelhança de Maria, acolhem a vida, cuidam e se doam com amor silencioso e perseverante.

Mas, neste ano, maio também é marcado pela celebração da Ascensão do Senhor.

"Enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi levado ao céu. Eles, então, o adoraram e voltaram para Jerusalém com grande alegria" (Lc 24,51-52).

A Ascensão de Jesus não é uma despedida, mas a plenitude da sua missão. Ele sobe ao Pai levando consigo nossa humanidade, abrindo para nós o caminho da vida eterna. Ao mesmo tempo, confia aos discípulos (a todos nós), a missão de anunciar o Evangelho "até os confins da terra" (At 1,8).

A cena é marcante: os discípulos olham para o céu, mas logo são chamados a olhar para a terra, para o mundo real, onde devem testemunhar a Boa Nova. A Ascensão nos recorda que comunicar a fé é parte essencial da missão da Igreja.

Não por acaso, a Igreja em sua sabedoria guiada pelo Espírito Santo, escolheu o domingo da Ascensão para celebrar o Dia Mundial das Comunicações Sociais, instituído pelo Concílio Vaticano II. A lógica é clara: assim como os discípulos foram enviados a anunciar, também nós somos chamados a usar os meios de comunicação para irradiar Cristo vivo.

"Ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho a toda criatura" (Mc 16,15).

A comunicação é ponte entre pessoas, culturas e gerações. É missão, é serviço, é testemunho.

No mundo atual, marcado por redes sociais, inteligência artificial e algoritmos, a Igreja insiste que comunicar não é apenas transmitir dados, mas preservar a dignidade humana, por isso o Tema escolhido para o 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais 2026: "Preservar vozes e rostos humanos".

Vivemos em uma era de avanços tecnológicos sem precedentes. O mundo digital nos oferece ferramentas incríveis, mas também nos apresenta um risco silencioso: o de perdermos o que nos torna únicos. Como nos adverte o papa Leão XIV, em meio a tantas vozes sintéticas e rostos gerados por máquinas, a Igreja é chamada a ser a guardiã do encontro real.

Jesus, ao subir aos céus, confiou a missão a pessoas de carne e osso. Ele não enviou conceitos abstratos, Ele enviou vozes que tremiam de emoção, que tinham sentimentos e rostos que manifestavam a alegria do Ressuscitado. A Ascensão nos ensina que a comunicação cristã nunca será apenas técnica; ela é, acima de tudo, a transmissão de uma vida por meio de uma presença humana.

O rosto e a voz são sinais únicos da identidade de cada pessoa. Preservá-los significa não reduzir o ser humano a dados ou figuras sem alma.

Preservar vozes e rostos humanos significa lutar para que a tecnologia nunca substitua o calor do abraço, a verdade do olhar e a singularidade da alma de cada filho de Deus.

Preservar a Voz: Que a nossa comunicação não seja o eco frio de mensagens prontas, mas a voz que consola, que denuncia a injustiça e que anuncia a misericórdia com a ternura que só o coração humano possui.

Preservar o Rosto: Que nas nossas redes sociais e nas nossas pastorais, o rosto do irmão sofredor, do idoso e do jovem não seja ocultado por filtros ou indiferença. Devemos ver Cristo no rosto de cada pessoa que encontramos.

Jesus, o Verbo feito carne (Jo 1,14), comunicou o amor de Deus com sua voz e seu rosto humano. Ele olhou nos olhos, chamou pelo nome, tocou os corações, façamos o mesmo.

A todas as mães, meu fraterno abraço. Deus as abençoe!

(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).

Fonte: O Povo, de 16/05/2026. Opinião. p.22.


terça-feira, 16 de junho de 2026

Os nossos "Gulags" de cada dia

Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

O arquipélago é longe, distante dos olhos e da compreensão. Sua história, para muitos, permanece desconhecida. Atravessa o tempo como um desconforto silencioso. Não se alcança facilmente a dimensão do absurdo.

Os "Gulags" modernos já não precisam de ilhas ou campos congelados. O medo tornou-se mais eficiente do que as antigas grades. Hoje, aprisiona-se sem muros aparentes. A violência contemporânea raramente se manifesta apenas pela força física; ela se instala no medo e no constrangimento permanente, na sensação de impotência. Tem raízes nas heranças familiares, tradições políticas e sociais que se reproduzem de geração em geração.

A insistência contínua do poder cria a impressão de mudança. Promessas são repetidas até adquirirem aparência de verdade. E talvez plantar esperança também possa ser uma forma sofisticada de ilusão. Do latim illudere: ludibriar, fazer troça de alguém.

Foi assim que comecei minha reflexão de domingo. Talvez o único momento em que permito ao pensamento sem amarras, conduzido por livros, músicas, memórias e antigos textos. Uma espécie de reencontro com a infância, quando literatura, poesia e rebeldia conviviam naturalmente.

Vivo no Ceará, terra que usa a ironia contra si mesma como forma de suportar o sofrimento, que produz poesia mesmo na escassez: "Sei que aí dentro ainda mora um pedacinho de mim; um grande amor não se acaba assim". Mas também uma terra marcada por estruturas de poder persistentes, que apenas trocam de roupa ao longo do tempo, sem jamais abandonar os velhos acordos.

Aqui, o "mecanismo" frequentemente encontra aceitação na subserviência secular imposta ao nordestino. De tempos em tempos surgem novas narrativas salvadoras, novos discursos, promessas que parecem convincentes no início — tudo dentro de uma única existência humana.

Escutei atentamente cada uma delas. Ouvi justificativas pragmáticas, discursos cuidadosamente construídos para explicar a realidade. Não sou ingênuo. Não acredito em fadas. Sei que gente é gente, submetida às circunstâncias, à sobrevivência e às conveniências. Nesse processo, quase tudo se justifica.

Até a religião, por vezes, serve para anestesiar consciências e acomodar meias verdades. Ainda assim, considero-me um homem de fé. Creio no aperfeiçoamento espiritual como força capaz de construir futuros melhores para as próximas gerações. Mas isso não me impede de reconhecer a maldade, suas múltiplas formas e sua capacidade de retardar a evolução humana.

Apesar de tudo, continuo sonhando. Não no imediatismo, mas no tempo longo da natureza e da história.

Enquanto isso, que venham mais poesias, mais críticas e mais coragem. Talvez assim ainda seja possível acreditar que o nordestino continua sendo, antes de tudo, um forte.

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 16/05/2026. Opinião. p.23.


domingo, 17 de maio de 2026

O AMOR QUE VENCE A MORTE

Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)

A Páscoa é o coração da fé cristã. Não é apenas uma data no calendário litúrgico nem a lembrança de um fato do passado. A Páscoa é um acontecimento vivo, permanente, que atravessa os séculos e alcança cada ser humano em suas dores, medos e esperanças. Celebrar a Páscoa é proclamar que a morte não tem a última palavra, que o sofrimento não é definitivo e que Deus permanece fiel até o fim.

Desde o Antigo Testamento, a Páscoa está ligada à passagem: passagem da escravidão para a liberdade, da opressão para a terra prometida. Em Jesus Cristo, essa passagem atinge sua plenitude. Ele atravessa a morte e abre para toda a humanidade um caminho novo. Como afirma São Paulo: "Se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa fé" (1Cor 15,14). Não se trata de um detalhe da fé, mas de seu fundamento.

A Páscoa nos revela quem é Deus: não um Deus distante ou indiferente, mas um Deus que entra na história, sofre conosco, morre por amor e ressuscita para nos devolver a vida. A ressurreição não apaga a cruz, mas dá sentido a ela. O Ressuscitado conserva as marcas dos cravos, mostrando que o amor vivido até o extremo não é destruído, mas transfigurado.

O túmulo vazio é um sinal aberto. Ele aponta para algo maior: Jesus não está mais entre os mortos porque Deus agiu. Como diz o anjo: "Por que procurais entre os mortos aquele que está vivo?" (Lc 24,5).

Quantos de nós carregamos sepulcros interiores - medos, culpas, desesperanças? O sepulcro vazio nos provoca a sair. Não é um lugar para permanecer, mas para partir em missão. A Páscoa nos tira das seguranças, das certezas fechadas, e nos envia a anunciar que a vida venceu.

A Igreja sempre afirmou com clareza: a ressurreição de Jesus não é metáfora nem símbolo psicológico nem simples continuidade da memória dos discípulos. Trata-se de um acontecimento real, histórico, mas que ultrapassa a história. O corpo de Jesus ressuscita, porém não volta à vida biológica como Lázaro. Ele entra numa condição nova, glorificada.

Celebrar a Páscoa não é apenas afirmar que Jesus ressuscitou, mas permitir que Ele ressuscite em nós. Cada vez que escolhemos a vida, o perdão, a reconciliação, a justiça, participamos da dinâmica pascal.

A ressurreição nos ensina que Deus age mesmo quando tudo parece perdido. Quando a pedra parece pesada demais, quando o túmulo parece definitivo, Deus já está trabalhando no silêncio da madrugada. A Páscoa nasce no escuro, antes do sol aparecer.

Como Igreja, somos chamados a ser sinais de ressurreição num mundo marcado por tantas mortes: físicas, emocionais, sociais e espirituais. Onde há exclusão, somos chamados à comunhão. Onde há desespero, à esperança. Onde há cruz, a anunciar que ela não é o fim.

A essência da Páscoa cabe numa simples proclamação: Ele vive. E porque Ele vive, a vida tem sentido, a dor não é absurda e o amor não é em vão. O túmulo vazio não é um ponto final, mas um começo.

Cristo ressuscitou. Verdadeiramente ressuscitou. Aleluia! Feliz e abençoada Páscoa!

(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).

Fonte: O Povo, de 18/04/2026. Opinião. p.22.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

À GUISA DE ‘UMA’ REFLEXÃO

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Jeremias, profeta, que missionou entre 626 a.C. e 586 a.C., e foi testemunha da queda de Jerusalém e do exílio babilônico, transmite ao povo forte exortação de Deus, conforme a Vulgata: “Audite vocem meam, et ero vobis Deus, et vos eritis mihi populus; et ambulate in omni via, quam mandaverim vobis, ut bene sit vobis. Et non audierunt nec inclinaverunt  aurem suam” (Jr 7,23-24). E, por isso, “periit fides et ablata est de ore eorum” (Jr 7, 28).

(Tradução: “Ouvi a minha voz e serei seu Deus e vós sereis meu povo; e andai sempre no caminho que vos tenho mandado, para vosso bem. Mas, eles não ouviram nem ‘escutaram’)

Esta perícope implica muitas reflexões, mas, pretendo abrir um sucinto ponto de vista sobre o trecho “eles não ouviram, nem inclinaram seu ouvido e, por isso, morreu a fé e foi tirada de sua boca” (Jr 7, 24; 28).

Após muitas intervenções de Deus, para com o seu povo, este as esqueceu e trilhou um caminho de retrocesso da fé, deixando de ‘ouvir’ e de ‘escutar’ o que Deus lhe ordenara e, então, a fé é ejetada de sua vida, permanecendo apenas uma opinião e não um assentimento, que é característica indispensável à fé.

‘Ouvir é instância organo-biológica’ e desemboca no ‘escutar’, este levando à compreensão e motivando uma resposta ao que ouviu. ‘Ouvir’ pode criar emoções, todavia, ‘escutar’ desperta a mente, abre o coração, aprofunda convicções e ajuda a discernir razões e decisões.

E, como o povo deixou de ‘ouvir’ Deus, passou a escutar seus próprios barulhos interiores, numa celebração desenfreada de suas paixões, mistura de mediocridade, de ruptura e de volúpia: o diálogo com Deus foi bloqueado, embora Deus continuasse a exortar e a ‘ouvir’ seu povo e a ‘escutar’ suas lamentações.

Este relacionamento estabelecia comunicação com Deus, através de seus profetas do Antigo Testamento. Já, no Novo Testamento, uma entre muitas outras passagens, Jesus, o Filho de Deus realiza, presencialmente, milagres, à vista de todos. Mas, a cegueira da fé, a indignação rabínica e a inveja invertem as ações praticadas por Jesus. Tão obcecados, que estavam, não conseguem distinguir o bem, na recuperação do surdo-mudo e consideram o bem um mal e o mal, um bem (cfe. Lc 11,14-23): o milagre realizado exemplifica a possibilidade, a necessidade e a importância da comunicação da criatura humana com o seu Deus, ‘ouvir’ a Palavra e ‘escutar’ a Verdade de Deus.

A indignação e a ‘imunidade cognitiva e espiritual’ do Sinédrio, em suas próprias contradições teológicas ensinam-nos lições de nosso contexto atual. Mentiras podem ter sabor de verdade e, muitas vezes o têm, mas jamais serão a Verdade.

Mentiras visam dividir povos e civilizações, estabelecem ‘guetos’, provocam lutas fraternas, estimulam polarizações, destroem credibilidade, honra e justiça e anulam a dignidade e a liberdade da cidadania.

“Todo reino dividido contra si mesmo será desolado, e cairá casa sobre casa.” (Lc 11,17).

Tenhamos uma boa sexta-feira, com as bênçãos de Deus!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 13/03/26.


 

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