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terça-feira, 1 de setembro de 2026

A CAVERNA DO DRAGÃO

Por Pedro Salgueiro, cronista de O Povo

Na minha "Crônica da Gentilândia", do livro "Fortaleza Voadora", digo que: "…o velho dragão Alcides Pinto sobrevoando as copas das árvores, com suas asas negras — quando ele se cansa de resmungar sozinho em sua caverna e sai para assustar os últimos bêbados da Gentilândia".

À sua casa corriam as mais diversas faunas literárias; escritores de várias idades, ideologias e estéticas, principalmente os mais jovens, que ficavam embevecidos com as atitudes despojadas, estridentes e loquazes do velho poeta.

Sua residência mais famosa foi a da Rua Rodrigues Junior, casa grande, sempre muito frequentada; ainda hoje muitos contam histórias e causos nem sempre verídicos, muitas fantasias e traquinagens ficaram no anedotário boêmio-intelectual dessa nossa loirinha desmiolada pelo sol, tão pródiga em tipos populares e bodes YoYôs, literários ou não.

Já o conheci na Vila Cordeiro, na Av. Tristão Gonçalves, bem próximo à vila onde ainda hoje mora minha mãe. Habitava uma casinha conjugada, numa pobreza franciscana mas digna, com sua querida filha Jamaica. Também conheci seu filho Antonin Artaud, um rapaz magro como o pai, porém de temperamento calmo, com uma timidez oposta à tagarelice do seu progenitor; também avistei algumas vezes sua bela filha Alessandra, que morava com a mãe.

Convivi por um bom tempo com o poeta (era meados dos anos 1990), através dele e de suas muitas visitas fiquei sabendo dos subterrâneos de nossa literatura, tão pródiga em fofocas e vaidades. Ali tive um curso intensivo de como transitar, e sair sem arranhões (embora eu não tenha tirado boas notas em algumas matérias) da famigerada guerrilha literária e suas disputas por farelos e migalhas.

Um dia me pediu para que organizasse seus contos, que estavam dispersos em um livro, "Editor de Insônias" (1965), e uma miscelânea, "Reflexões, terror, sobrenatural" (1984), além de alguns inéditos datilografados em gastas folhar amarelecidas. Em 1997, o Dr. Martins Filho publica essa edição de seus contos completos, "Editor de Insônias e outros contos", pela Coleção Alagadiço Novo.

Depois soube que ele andou criticando umas palavras que inseri como "Nota do Organizador", ou sugerindo que eu estava querendo aparecer às suas custas. Nunca passei recibo nem tomei satisfação, apenas me afastei um pouco de seu convívio. Depois disso ele sempre repetia para mim ou para alguns amigos: "Se não fosse você, o livro não teria saído", no que eu sempre respondia: "Pois não é, poeta. Quem sabe se um dia a gente não tira uma 2ª edição, não é mesmo!?". No seu último livro tem um poema dedicado a mim (quem sabe ainda resquício de uma consciência pesada) e a Nilto Maciel, a quem levei, depois da volta definitiva deste ao Ceará, à sua casa e anunciei alto da porta:

"— Poeta, tô aqui com o maior contista do Ceará!", no que ele perguntou lá de dentro: "— Quem, poeta, o Airton Monte?", acabando de vestir as calças; caímos na gargalhada.

A última vez que o vi ele estava saindo da sua vilinha com a Jamaica, cumprimentei-o e ele me perguntou onde era o "Buraco da Gia", pois estava querendo arranjar uma empregada e lhe deram um endereço, falei que era na Princesa Isabel, vizinho à minha casa, e fomos caminhando devagar. Quando chegou perto do beco ele parou, receoso, e disse que só entraria lá se eu fosse com eles, depois puxou uma pequena faca de mesa, dessas de cortar bife, e disse que estava preparado (mas que era bom eu entrar com ele, disse assombrado). Olhei para Jamaica, que também estava rindo, e disse que não tivesse receio que ali só morava gente de bem, e me despedi alegando ainda ir pegar minha filhinha no colégio.

Não tive coragem de ir vê-lo em seu velório na Academia Cearense de Letras. Queria ficar com a lembrança dele vivo, alegre e brincalhão, sempre contando lorotas.

E, ainda hoje, quando alguém se refere a ele, vejo algum dos seus livros ou passo em frente à Vila cordeiro, parece que estou vendo aquele sujeito magro ("tão magro que parecia estar sempre de perfil", como bem disse, em seu "A Guerra do Fim do Mundo", Vargas Llosa), com sua gargalhada espalhafatosa mas sempre sincera, dizendo — e apontando pra si mesmo — para os muitos anjinhos (ou demoninhos, tanto faz) que lhe cercam em algazarra:

"— Agora quem manda aqui é esse poeta 'Viadão Pós-Moderno'!"

"Eu sou aquele que come as flores do aniversário."

(José Alcides Pinto, 10/09/1923 — 03/06/2008)

Fonte: O POVO, de 24/07/2026. Coluna “Crônicas”, de Pedro Salgueiro. p.2.


quinta-feira, 6 de agosto de 2026

PEDRO, A ROCHA

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

No pátio de Caifás, Pedro negou Jesus,

Mas, reconheceu sua divindade,

Quando, categórico, com lucidez, afirmou:

Tu és o Cristo, o Filho de Deus Vivo.

 

Esta profissão de fé

Não o fez o mais amado,

Porém, o mais fiel e confiável,

Mais que Tomé, Tiago e João.

 

A Pedro tornou rocha da Igreja,

Deu-lhe as chaves do Céu,

Ordenou-lhe confirmar os irmãos,

Na fé, que lhes tinha ensinado.

 

A Igreja é de Cristo,

Pedro, seu fiel servidor.

Os princípios da Igreja

Foi Jesus quem implantou.

 

Pedro recebeu o poder:

Ligar ou desligar na terra

Será sancionado no céu.

Uma advertência Jesus lhe deu,

 

Ninguém pode a(dul)lterar,

O que Deus escreveu.

Sua Palavra é eterna,

Sabedoria e salvação dos povos.

"Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema. Assim, como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo. Se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema." (Gal 1, 8-9)

Um bom domingo, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 28/06/26.


quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Médico e poeta lança livro no Ideal Clube

José Henrique Leal lança seu segundo livro unindo humanismo e inspiração lírica.

"À Luz da Memória", novo livro de José Henrique Leal, reúne poemas com temática que tem uma feição clássica, sem desprezar as percepções sentimentais e líricas provindas do coração e das muitas paisagens de sua terra Crateús. Foi lá onde viveu desde os três anos de idade vindo de Picos (PI) para desenvolver os primeiros estudos. O livro será lançado nesta quarta, 5, às 19 horas, no Ideal Clube.

Depois, Flávio Leitão de Carvalho, médico e escritor, membro da Academia Cearense de Letras, expressa que "Henrique, da sua adolescência até a sua adulticie, assumiu dois cadinhos fundidores de mentes iluminadas: os Seminário São José de Sobral e, em Fortaleza, o Seminário da Prainha". Certa noite, o poeta seminarista teve um sonho registrando seu adeus à possível vocação para o sacerdócio. E ingressou no Curso de Medicina da UFC.

"À luz da Memória" prova a dedicação poética de Henrique e trata de uma poesia mais conceitual que fantasiosa, daí a beleza de "A Chuva Benfazeja", "Uma Lacuna no Amar", "Entrega" e "Despertar para o Viver". Também, no novo livro, a ser apresentado esta noite pelo médico João Martins, é possível fazer um brinde com o poeta em sonetos revelando a configuração visível do conteúdo, que Henrique expõe com plena dominação de dois elementos: o significado (conceito) e o significante (forma linguística). É um livro que harmoniza o médico e pesquisador com a suavidade do poeta.

Lançamento "À luz da memória"

Quando: quarta, 5, às 19 horas

Onde: Salão do Ideal Clube (Avenida Monsenhor Tabosa, 1381 - Meireles) Entrada gratuita

Valor do livro: R$ 80,00

Fonte: Publicado In: O Povo, de 5/08/2026. Vida & Arte. p.3.


terça-feira, 7 de julho de 2026

ACENO DE AMIZADE

 Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

O tempo não traga amizade;

Amizade, que a gente tem,

Tem, no peito, uma certeza,

Certeza de lealdade gloriosa,

 

Gloriosa é uma amizade gostosa,

Gostosa como o néctar dos deuses;

Deuses lhanos, que povoam minh’alma,

Alma que jamais se quer brejeira.

 

Brejeira, pois, não adjetiva a confiança,

Confiança, pedra angular do afeto,

Afeto, que é bom, se o perdão corteja,

 

Corteja pra não quebrar o apreço,

Apreço, quando uma pedra quebra,

Quebra o vergueiro e aterroriza lastros da amizade.

 

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 10/06/26.

sábado, 4 de julho de 2026

TROVAS

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

É triste a fé sem suporte,

Calote da falsidade,

Interpretações sem porte,

Falseando toda Verdade.

 

A tolerância da paz

Pergaminho fiel de amor,

Nem tudo lhe satisfaz,

Preza, e mantém seu ardor.

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 28/05/26.


QUADRAS

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Não sei, ninguém viu

A vida que da terra sumiu,

Creio que aos céus Jesus subiu,

E um lugar para nós erigiu.

 

Amigo que te beija

Os passos que dás,

Não anda ao teu lado,

Pode ser-te um antraz.

 

O misantropo é tão desanimado,

Ao hipocondríaco não faz inveja.

Este sempre se sente prostrado,

Nos dois felicidade não veleja.

 

Honra diz-se dignidade,

Calúnia, maldição da verdade,

Raiz do caráter, sinceridade,

Paz, intolerância a toda maldade.

 

O Espírito sopra onde quer.

Ao homem de boa vontade,

Apressa-se em soerguer,

Dando-lhe dons de bondade.

 

Uma boa quinta-feira, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 28/05/26.

terça-feira, 3 de março de 2026

Lançamento do livro “Árias e Areias” de Pedro Bezerra de Araújo

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Árias e Areias são 314 páginas, que fazem dançar ritmos que moldam relacionamentos, ao som de árias que cantam o amor, a amizade e acontecimentos do dia-a-dia, bem como as areias que tanto podem construir como podem esvair-se ao balanço das ondas do mar ou ao sopro dos ventos tempestuosos. São versos livres, ao sabor da sensibilidade de ver, sorrir, abraçar e amar e motivar o pensar.

"Com o raiar do dia, / O sol põe-me a cogitar: / O amor de onde vem? / E a amizade vem de onde?/ Das areias do mar / Ou das árias de Mozart?"


segunda-feira, 8 de setembro de 2025

CONVITE: Evento Cultural “A Poesia de Lúcio Alcântara”

O presidente da Academia Cearense de Letras (ACL), Dr. Tales de Sá Cavalcante, e o presidente do Ideal Clube, Dr. Fernando Esteves, convidam para o evento cultural com o Acad. Carlos Augusto Viana sobre a Poesia de Lúcio Alcântara.

Local: Ideal Clube (Salão Humbero Cavalcante) – Av. Monsenhor Tabosa, 1.381, Meireles - Fortaleza

Data: Dia 10 de setembro de 2025 (quarta-feira). Horário: 18h30min.

Traje: Esporte fino.


segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Atriz Fernanda Quinderé celebra posse na Academia Cearense de Letras

Por Lêda Maria Souto Paulino (*)

Em entrevista poética, Fernanda Quinderé, nova imortal da Academia Cearense de Letras, reflete sobre trajetória e carreira

Fernanda Quinderé lembra muito estes ventos de setembro. Sopram fortes durante o dia e suspiram segredos pela madrugada. Tem momentos que nos deixam respirar forte, recusando passadas lentas e facilitando a liberdade dos cabelos voando em desalinho. São ingratos ao passar pelos jardins e pelos espaços verdes do Parque do Cocó, onde eles não deixam serenos o desabrochar da rosa e aguçam o grito das folhagens, recolhendo-se e temendo serem colhidas em sua velocidade.

Mas, mesmo temidos, em suas características de mando pela natureza, são os ventos de setembro. Eles vão e voltam fundindo-se em ruídos infantis, robustos, incontidos, destemidos, provocando uma alegria grave entre as crianças brincando de soltar pipas ou dançar na liberdade de seus acenos. São azuis os ventos de setembro. E azul é também Fernanda, igualmente mantendo seus sopros fortes de criatividade, liberdade e querer bem.

Mantendo sua velocidade que não para, nem diminui no tempo, pelo tempo vivido. Fernanda, que escuta e mergulha em fontes de água límpida, contemplando o arco-íris, a beleza de cada amigo e o desabrochar de beleza colhido em cada filho.

Fernanda chega agora entre as estrelas. Assume mais uma academia, que é a de Letras, celebrando o certo dos seus desejos e assistindo a um sonho pertencer ao verbo realizar, habituando-se ao possível, ao caminhar pelas manhãs em lírios e corredores de orvalho. Mas, Fernanda é feita de lutas, daí poder alcançar a noite, as madrugadas, os espinhos, iluminada pelas estrelas, convidando-a para suas fileiras, ela, a Fernanda altiva, corajosa, ardente, espontânea. Fernanda, mãe, atriz, escritora, amiga dos amigos, amada e amante das ventanias e/ou do silêncio da madrugada.

Fernanda, nova imortal, chegando faceira e alegre, com uma bagagem de escritos valorizando a vida e os títulos, para sua nova missão na Academia Cearense de Letras, fundada há 130 anos, sendo a primeira do País.

O POVO - Quem é você?

Murmúrios

Olho-me no espelho

Vejo-me outra

Enigmas de um tempo meu.

Ouço murmúrio da minha alma

Finjo que não escuto.

Ouço de uma cachoeira

Nascida da pedra de onde eu vim.

Firme, livre como o sol

Despida como a natureza

Que fala a língua dos Deuses

Simbólica no tempo do amor

Em que fui e sempre serei

À mercê dos sonhos.

OP - Existem muitas paixões?

Paixão inconfessa

Abro o decote da minha alma.

Mostro meu coração sangrando.

Minha boca oca de paixão

Oncita o gesto suicida.

Minhas mãos

Invadem o seio

Rasgam

O que resta em mim

Desta paixão. Inconfessa.

OP - Quais as suas tristezas?

Dores do tempo

Vivo as dores do tempo

E o soluço compulsivo das estrelas.

Sinto tristeza do mundo

E bebo as astúcias da noite.

À tarde,

As manhãs me angustiam.

O sol

Das noites escuras queima meus olhos azuis.

E a grande flor do meu corpo

Pulsa ausência de amor.

Não há saudade

Apenas desassossego

À espera do que virá

Na solidão dos meus dias

Que se vão. Que se vão...

OP - É possível batizar um prazer?

Um dia azul

Quando acende-me o desejo.

Tal o teu desejo

De ter-me em ti

Meu corpo transpira. Sal.

Bebemos então o mel

Ao sentirmos relâmpagos

Tantos quantos tivemos. Juntos

Naquele dia azul

Quando batizei o prazer

De ter-te em mim

Sem maldizer

O pecado da traição.

OP - Dizem que você já planejou "sua partida"?

Em tempo

Se eu morrer amanhã

Amarrem meus pés

Nas raízes do tempo

Deixem meus cabelos soltos

Aos ventos de agosto à contra-gosto

Da liberdade que nunca tive.

Fechem meus olhos

Sob as ordens da eternidade

Para que eu enxergue

A imensurabilidade

Da solidão que sempre tive.

Libertem minhas narinas

Das flores, odores das velas. Das coroas, dos louros

Que só agora tive

E quando eu gemer de saudades

Enxuguem lágrimas

Nas estrelas

Do meu universo

Para que se tornem poças de luz

No azul da minha poesia morta.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 28/09/24. Vida & Arte. Coluna da Lêda Maria, p.5.


quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

AS ROSAS: Uma poesia de dom Edmilson da Cruz, o atravessador de tempos II

Por Cláudio Ribeiro (*)

A poesia abaixo é uma das que estarão no novo livro:

"AS ROSAS"

Contempla o mundo com amor. As rosas.
Vê como são. Sente o seu ser. Tão belas!
Sépalas verdes e apagadas. Nelas
Pousa a corola as pétalas ditosas.

O seu perfume é natural. Vistosas,
Variegadas suas cores. Pelas
Graças tão puras que apresentam, vê-las
Faz bem à gente, pois são tão mimosas!

Sustenta-as o pedúnculo. Apertadas,
Jamais se atritam. Expandem-se irmanadas
Da corola no abraço doce e forte.

Imagens da eternal Comunidade:
Três pessoas divinas na Unidade
De comunhão do Amor que vence a morte!

(D. Edmilson da Cruz)

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: O Povo, de 30/12/2023. Cidades. p.21.


quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

QUANDO PORTO É O DESTINO

Por Tales de Sá Cavalcante (*)

Convidado pela Universidade Católica, em Porto, cidade portuguesa tão bela que parece ser o destino dos que buscam a beleza, lá fui e opinei sobre o tema "A importância da Educação como motor de transformação social". Fiz pelo ar o caminho inverso do que fizeram pelo mar os bravos portugueses, em 1500. Com o privilégio de a menor distância entre Brasil e Europa ser de Fortaleza a Lisboa, voei, com asas alheias, a agradecer ao genial Santos Dumont, sem esquecer os irmãos Wright. Em vez de sofrer 44 dias, como Cabral e seus liderados heróis dos oceanos, em paz fiz o trajeto em 6 horas e 50 minutos.

Lá, homenageei a cultura portuguesa, com poemas de Fernando Pessoa, a rememorar que "Navegar é preciso; viver não é preciso", e também que "Tudo vale a pena se a alma não é pequena". Agradeci aos lusitanos tantos ensinamentos deles recebidos, inclusive o idioma. E relembrei que os nossos "descobridores" observaram terra à vista ao terem em suas retinas a magnitude do Monte Pascoal, situado na Bahia de Jorge Amado, João Gilberto e Castro Alves, que assim se expressa, no poema "O Livro e a América": "Filhos da Grande nação! / Quando ante Deus vos mostrardes, / Tereis um livro na mão: / O livro — esse audaz guerreiro / Que conquista o mundo inteiro / Sem nunca ter Waterloo... […] Oh! Bendito o que semeia / Livros… livros à mão cheia / E manda o povo pensar! O livro caindo n'alma / É gérmen — que faz a palma, / É chuva — que faz o mar."

Com o exemplo da Coreia do Sul, mostrei que, para a Educação ser o motor de transformação social, necessita de um adequado planejamento econômico. E provei que Sobral, com a implantação das ideias de Izolda Cela e Edgar Linhares, deu os primeiros passos. Finalizei, como iniciei, a usar citação de Fernando Pessoa, que disse: "[...] ouço passar o vento, / E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido." A segui-lo, este humilde educador brasileiro, que, como muitos outros, tanto aprendeu com os portugueses, se despediu a dizer: "Às vezes venho a Portugal. Ouço os lusitanos, e acho que só para ouvir os lusitanos vale a pena ter nascido."

(*) Reitor do FB UNI e Dir. Superintendente da Org. Educ. Farias Brito. Presidente da Academia Cearense de Letras.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 16/11/23. Opinião, p.16.


terça-feira, 11 de julho de 2023

CEM ANOS SEM O "POETA LOUCO"

Por Lucas Júnior (*)

Colombo era uma prestigiada confeitaria de Fortaleza, marcada pela rigidez na fiscalização, com segurança, mas que possuía um lado social raro para a época: distribuía os produtos não consumidos à noite, quando fechava. Os beneficiados eram os pedintes e os guardas noturnos, que não pegavam a fila. Certa vez adentrou na loja um jovem de rara presença. Usava um terno de veludo marrom, chapéu de abas largas, mesmo com um furo, e luvas. Um exemplo da moda londrina. Uma beleza e elegância contrastada com uma barba enorme, crespa e cabeleira. Procurou saber a despesa das empadas e foi informado que naquela hora o expediente estava encarrado, não se cobrava. Comeu mais uma dúzia, lavou a boca, enxugando-se com a toalha suja do dia, agradeceu e partiu.

José de Abreu Albano era neto do Barão de Aratanha, mas se distanciava dos familiares. Sua adolescência, após o Seminário da Prainha, foi marcada por estudos em escolas jesuítas, cristãs, na Europa, amando a literatura e aprimorando idiomas, o que lhe valeu emprego no Rio, capital, inclusive no Ministério das Relações Exteriores, após desistir do curso de Direito. Mas José Albano gostava mesmo era de poesia. E as palavras, em prosas e versos, justificava a sua impaciência, de viver como cigano, engajando-se na austeridade do lirismo. Graça Aranha o chamava de "Poeta Louco"; Olavo Bilac de "guarda civil da língua portuguesa", e Manoel Bandeira o enquadrava entre os nossos dez maiores poetas. De admirável técnica inspirada no renascentismo italiano, era, porém, pessimista: "Faço versos para ninguém porque nem a mim agradam".

Casou com a filha do prefeito Guilherme Rocha, conquistando-a poeticamente, como escreveu no leque de Gabriela: "Quando a palavra foge da mulher ou quando a mulher esquece a palavra toda a alma está na pupila que brilha, todo o coração no lábio que suspira". Volta para Londres com a família, onde abandonou emprego para percorrer a Europa. Paris era a sua idolatria. Ali viveu de livros e de escrita. Em 11 julho de 1923, sozinho num hospital de Montauban, França, imerso no mundo dos seus sonhos, partia o poeta José Albano. Cadeira n° 19 da ACL, lá se encontra a sua foto, como se tivesse saído naquela noite da confeitaria da cidade que o saúda no centenário da sua morte. 

(*) Pesquisador e memorialista.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 20/07/23. Opinião, p.20.


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

CEGO ADERALDO E ROGACIANO LEITE (2)

Rogaciano insultou o Cego Aderaldo num repente, dizendo que ele era muito besta. Aderaldo vingou-se desta maneira:

Andei procurando um besta / Porém, um besta capaz... / E procurando esse besta / Encontrei esse rapaz; / Mas não presta pra ser besta, / Porque é besta demais!

Fonte: Internet (circulando por e-mail e i-phones). Sem autoria explícita.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

CEGO ADERALDO E ROGACIANO LEITE (1)

Rogaciano censura o mestre por haver criado mais de 20 filhos alheios e nunca ter casado (o cego precisava de guias e para tanto recrutava crianças abandonadas, os primeiros meninos de rua do Ceará). Após ouvir a provocação de Rogaciano, Aderaldo saiu-se com esta:

De casar tive o desejo / Essa vontade eu não nego / Mas com minha experiência / Batata quente eu não pego / Passam chifre em quem tem vista / Que dirá em quem é cego!

Fonte: Internet (circulando por e-mail e i-phones). Sem autoria explícita.

sábado, 11 de fevereiro de 2023

BRIGA DE REPENTISTAS

Um: - Fui para o mato caçar cotia!

Não encontrei cotia, Comi tua tia.

Outro: - Fui pro mato caçar preá!

Não encontrei preá, Comi tua irmã!

Um rebate: - Não rimou!

O outro faz o arremate: - Mas, comi!

Fonte: Internet (circulando por e-mail e i-phones). (Autor desconhecido).

sábado, 7 de janeiro de 2023

O ENCANTAMENTO (para Sérgio Macedo)

 

Por João Soares Neto (*)

Há décadas eu conhecia o cidadão, o médico, o colega acadêmico da Fortalezense de Letras, o amigo e poeta Sérgio Macedo.

Era um homem de trabalho diário, família criada, temente a Deus, leituras de cardiologia, de poesia, de cultura geral, de mecânica e de aviação esportiva.

Lhano, riso aberto sob as dioptrias das lentes.

Filho de Deus, havia de ter um hobby para relaxar, algo que o afastasse dos enfartos, das depressões e das ligações dos pacientes.

Para isso, possuía duas alternativas. Ambas solitárias.

Pilotar motos Harley Davidson ou ir ao Catuleve, aeródromo esportivo de seguidores de Santos Dumont, no seu Demoiselle.

Subir no quase brinquedo.

Esqueceram de dizer a ele, e os demais colegas ficam agora avisados e sabendo, que a região é salinizada, quente, venta muito e corroí tudo, dia a dia.  Começo da tarde da

Véspera do Dia de Reis, faria um voo-relaxamento ao sobrevoar no seu Vimana R-12 a orla marítima de Aquiraz. Conferiu os pneus, o hélice, o combustível, limpou o pára-brisa, o manche e os instrumentos. Apertou o cinto de três pontos.

Deu motor. Taxiou e subiu aos ares.

Estava feliz, fazendo o que o aprazia e inebriava.

Ainda não pegara altura, circundou a areia quase branca, o quebrar das ondas e a espuma e viu gente sua, lá embaixo.

Segundos, espanto e parte da fuselagem desmanchava-se no ar, mergulhou e encantou-se.

(*) João Soares Neto é escritor e membro da Academia Cearense de Letras e do Instituto do Ceará.

Fonte: Postado pelo autor em Grupos de WhatsApp da Academia Cearense de Letras e do Instituto do Ceará em 7/1/2023.

domingo, 1 de janeiro de 2023

DESPEDIDA AO REI PELÉ

Por Linhares Filho (*)

Mágico dos gramados, rei da bola,

e da História o maior, mais alto atleta,

tua fama limites extrapola,

já que foi ilimitada tua meta.

 

Teus dribles e teus gois criaram escola.

A habilidade tua foi completa.

Muito triste é partires, mas consola

deixares as lições de um grande esteta

 

do futebol, porque o fizeste com arte,

estádios empolgando em toda parte,

e a refletir o homem brasileiro.

 

Rendemos-te, por isso, nosso culto,

entrevendo nos campos o teu vulto,

a espargir emoções no mundo inteiro!

 

(*) Da Academia Cearense de Letras. Príncipe dos poetas cearenses.

sábado, 31 de dezembro de 2022

ENTÃO É NATAL!

Por Fernando Adeodato Junior (*)

Parafraseando a cantora Simone

Nem é preciso usar um megafone

Mais um Natal enfim vai chegando

E as esperanças vão-se renovando

 

Ano de fome, violência e guerra

Muitas mortes para se lamentar

Hecatombes sacudiram a terra

Mas nunca é tarde para levantar

 

Elda é Laerte deixaram saudade

Tempo de dor na família Gurgel

Também partiram pra eternidade

Os queridos primos Elsie e Rangel

 

Na música, Elza, Erasmo e Gal

Estão fazendo concerto no céu

Cada um com seu dom genial

O canto deles para nós emudeceu

 

No Mundial o Brasil fracassou

As esperanças de milhões sepultou

Mas seguir em frente é preciso

A vida não é um eterno paraíso

 

Cabe a nós vencer os desafios

Desenrolar cabos, linhas e fios

2023 está aí batendo à porta

Deus nos encoraja e nos exorta

 

Se pra você foi um ano bisonho

Esqueça tudo e olhe pra frente

Jamais desista do seu sonho

A tristeza não será recorrente

 

É preciso ter muita resiliência

O caminho precisamos trilhar

Esperar passar a turbulência

Um dia o sol voltará a brilhar

 

Nesta noite somos todos gratos

Manifestamos desejo bem nobre

Que não falte comida no prato

Do mais abastado ao mais pobre

 

Que os sinos que ecoam em Belém

Toquem as mentes da Humanidade

Fazer o bem sem olhar a quem

Deve ser nosso lema é prioridade

 

Um novo governo vai assumir

Para melhorar o nosso Brasil

Que o povão volte a consumir

E que não haja mais clima hostil

 

Cuidados com o meio ambiente

Com as crianças e os idosos

Tem muita gente descrente

Na volta de dias maravilhosos

 

Para os animais peço proteção

E o fim de todas as atrocidades

Que não lhes falte carinho e ração

E abanem o rabinho de felicidade

 

Pra concluir desejo aos presentes

Um Ano Novo com fé, saúde e paz

E que os pensamentos diferentes

Formem um elo que não se desfaz.

 

Fortaleza, 20 de dezembro de 2022

(*) Jornalista aposentado.

 

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