Mostrando postagens com marcador Historietas infantis. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Historietas infantis. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 5 de junho de 2026

NAQUELA TARDE

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Naquela tarde, o inverno tinha chovido toda a manhã e continuava um sereno inconstante.

Quando? eu não recordo, mas não havia atravessado os 7 anos de minha meninice.

Aconteceu, à tardinha, ainda com o céu plúmbeo; o cheiro de terra molhada lembrava as pancadas da manhã. Era, na verdade, o petricor, que ainda exsudava da terra molhada.

A rua estendia-se sobre o barro. Aqui e ali, algumas poças d’água, entremeadas de pequenas moitas de plantas silvestres, expandiam-se, livremente, sem a ameaça de transportes, salvo as carroças de seu Odilo, que, naquele dia, estavam recolhidas, e o livre ir e vir de transeuntes.

Foi, nesse cenário, que eu e uma querida amiga, infante como eu, resolvemos desafiar aquela tardezinha cinzenta, com uma das diversas brincadeiras, que criávamos.

Deixamos a calçada, onde estávamos a conversar e rir de nossas tagarelices, caminhamos até o meio da rua e, entre duas poças d’água, naquele pedaço de barro ainda empapado, mas não escorregadio e começamos a rodopiar, segurando-nos com uma mão – mão-com-mão – tendo como ponto de apoio um pé-com-um pé.

E rodopiamos e rodopiamos, com alegria no sorriso, contrastando com a carranca, que as nuvens se nos ofereciam.

E foi, num desses rodopios, que nos pregou um susto uma pequena cobra listrada, que atravessava nosso pequeno espaço; levantou a cabeça com a boca aberta, no que não pude evitar pisar-lhe a cabeça, pois, em nosso rodopio, aquela passada era minha.

Paramos o rodopio, incontinenti. A cobra estava morta, era uma cobra coral. Seu corpo, com as belas listras à vista, tinha também marcas de um pé, provavelmente, de minha amiga.

O pavor apresentou-se na lividez de nossos rostos, enquanto o coração disparava. Assustados, corremos para a calçada, onde, sentados, passamos a examinar, nervosa e ansiosamente, nossos pés e pernas: dobramos a perna direita sobre a coxa esquerda e, depois, a perna esquerda sobre a coxa direita. Nossos olhos varreram-nas, seguindo a palpação de nossas mãos. Então, uma onda de calmaria deu um banho em nosso medo: não havia sinais de picada em nossos pés e pernas.

Respiramos, enfim, aliviados e agradecemos a Deus.

Acabara a brincadeira e retornamos para nossas casas.

Um bom sábado, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 18/04/26.

domingo, 15 de dezembro de 2024

VOVÓ, VOVÓ!

Um belo dia, Chapeuzinho Vermelho foi visitar sua avó como de costume, mas sem saber que, desta vez, a pobre senhora havia sido engolida pelo Lobo Mau.

Ela entra na casa e, percebendo que sua avó estava um tanto diferente, diz:

— Vovó, vovó! Que olhos grandes a senhora tem!

E a avó responde:

— É para te ver melhor!

Mais uma vez, a Chapeuzinho olha para a avó e diz:

— Vovó, vovó! Que orelhas grandes a senhora tem!

E a avó responde:

— É para te ouvir melhor! E a Chapeuzinho continua:

— Vovó, vovó! Que nariz grande a senhora tem!

E a avó, já ficando irritada:

— É para te cheirar melhor!

Mas a Chapeuzinho insiste:

— Vovó, vovó! Que boca grande a senhora tem!

Dessa vez, a avó perdeu a paciência e berrou:

— Menina chata! Veio aqui para visitar ou me criticar?!

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.

domingo, 29 de maio de 2016

TAMPAX ou OB infantis


Duas crianças de oito anos conversam no jardim e o menino pergunta à menina:
- O que você vai pedir no Dia das Crianças?
- Eu vou pedir uma Barbie. E você?
- Eu vou pedir um TAMPAX ou um OB! - responde o menino.
- TAMPAX?! OB?! Que é isso?!
- Nem imagino... mas na televisão dizem que com TAMPAX ou OB a gente pode ir à praia todos os dias, andar de bicicleta, andar a cavalo, dançar, ir ao clube, correr, fazer um montão de coisas, e o melhor... SEM QUE NINGUÉM PERCEBA!
"Eu fico com a pureza da resposta das crianças..."
Fonte: Internet (circulando por e-mail).

segunda-feira, 16 de março de 2015

O REI ESTÁ NU



Meraldo Zisman (*)
Médico-Psicoterapeuta
A Roupa Nova do Rei é um conto de fadas de autoria do dinamarquês Hans Cristian Andersen, publicado em 1837. Começa assim:
Era uma vez um bandido, fazendo-se passar por um alfaiate de terras distantes, diz a um determinado rei que poderia fazer uma roupa muito bonita e cara, mas que apenas as pessoas mais inteligentes e astutas poderiam vê-la.
O rei, muito vaidoso, gostou da proposta e pediu ao bandido que fizesse uma roupa dessas para ele. O bandido recebeu vários baús cheios de riquezas, rolos de linha de ouro, seda e outros materiais raros, exigidos por ele para a confecção das roupas. Ele guardou todos os tesouros e ficou em seu tear, fingindo tecer fios invisíveis, que todas as pessoas alegavam ver, para não parecerem estúpidas. Até que um dia, o rei se cansou de esperar, e ele e seus ministros quiseram ver o progresso do "alfaiate".
Quando o falso tecelão mostrou a mesa vazia, o rei exclamou: "Que lindas vestes! Você fez um trabalho magnífico!", muito embora, não visse nada além de uma mesa, pois, dizer que nada via seria admitir que não tinha a capacidade necessária para ser o rei.
Os nobres ao redor soltaram falsos suspiros de admiração pelo trabalho do bandido, nenhum deles querendo que achassem que era incompetente ou incapaz. O bandido garantiu que as roupas logo estariam completas, e o rei resolveu marcar uma grande festa na capital para que ele exibisse as vestes especiais, quando descesse a rampa do seu palácio do Planalto.
O leitor deve lembrar-se dessa história, da sua própria infância, sobre dois espertalhões que enganavam o rei, dizendo que iam vesti-lo com um traje finíssimo?
No final, o rei sai todo pomposo desfilando pela rua, e todo mundo nota que ele está nu, mas ninguém tem coragem de falar. Enquanto o protagonista desfila pela Rampa, um menino grita: "O rei está nu", e todos concluem que, se uma criança, com toda sua pureza, constatava que o monarca estava mesmo exposto em suas vergonhas, é que tudo naquele reino não passava de uma farsa.
E o nosso mito majestático, desmoralizado, recolheu-se ao castelo e jamais saiu de lá até a morte. Quando ao "costureiro vigarista", deu o fora com o ouro pago e não se soube mais dele, pois foi viver em um paraíso fiscal.
E por pior: todos os ministros e assessores que não ousaram admitir que não havia roupa nenhuma caíram em desgraça e foram demitidos.
Até ai, nenhuma novidade. Mas, graças a louvável esforço de pesquisa, técnicos em Ciências Carochinhas decidiram dizer não às convenções e apresentar a versão não autorizada desse embuste, desenvolvida segundo os conceitos vigentes na sociedade e ambiente de longínquo país latino-americano.
Toda desgraça teve início quando um bandido chamado Frajola gritou pelo celular:
"O rei está nu! O rei está nu!"
Esqueceu que, no Brasil, nós todos "estamos nus".
(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE) e da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES).

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

O QUE TENS, MINHA MENINA???...



Aconteceu (ou teria acontecido), recentemente, no dia 17 de maio de 2012, com a Comissão Presidencial e foi gravada para os jornais e televisões do mundo inteiro.
A Dilma quis aparecer para o mundo inteiro, diante e às custas das crianças de uma Escola, tudo previamente combinado.
Criança não combina nada é apenas sincera e verdadeira....
Vejam, o que essa “menininha fez”..
O que tens, minha menina?
Dilma Roussef e seu ex-Ministro da Educação, Fernando Haddad, visitam uma escola modelo no nosso país maravilha.
Numa sala de aula do ensino fundamental, cheia de jornalistas, a ensaiada “cumpanhêra” professora, com ambição a uma futura boa colocação, pergunta aos alunos:
- Onde existem as melhores escolas do mundo?
- No Brasil. - Respondem todos.
- Onde existem os melhores livros escolares do mundo?
- No Brasil. - Respondem.
- E onde há os melhores recreios do mundo?
- No Brasil. - Respondem mais uma vez.
- E onde existem as melhores cantinas, que servem os melhores almoços, com boas sobremesas?
- Nas escolas do Brasil!
A professora, ainda insaciada, continua:
- Onde é que vivem as crianças mais felizes do mundo?
- No Brasil! - respondem os alunos com a lição bem estudada.
Os tradutores iam informando à comitiva estrangeira, todos abanavam a cabeça, impressionadíssimos.
Nisto, uma garota no fundo da sala começa a chorar.
Com as televisões transmitindo ao vivo, Dilma, para impressionar os convidados e jornalistas, pondo-se a jeito para as câmeras, resolve acudir à menina, perguntando-lhe:
- Que tens minha menina?
Responde a menina, soluçando:
- QUERO IR PARA O BRASIL!!!
Fonte: Internet (circulando por e-mail e sem autoria definida).
Nota do Blog: A narrativa acima foi postada em vários blogs; é admissível, mas pouco verossímil, o que nos faz crer como sendo algo do plano ficcional. (Marcelo Gurgel)

quinta-feira, 12 de março de 2009

NOMES EXÓTICOS

Com freqüência, os pediatras do HIAS se defrontam com denominações estrambóticas, que driblaram a vigilância religiosa ou cartorial, a exemplo de: He Man (o do Castelo de Grayskull), Maikael Chumaki (homenagem ao corredor alemão da Fórmula 1), Pole Position (uma menina cujo pai era fanático por corridas automobilísticas), e tantos outros nomes similares.
Houve um caso de estrangeirismo em que a pediatra não entendeu bem a pronúncia da mãe e pediu que ela soletrasse o prenome da criança, para pôr a grafia correta na ficha de atendimento. A acompanhante, então, introduziu a mão na bolsa, e, para surpresa da médica, que esperava um documento qualquer de identificação, retirou uma embalagem da marca de biscoito Richester,que a mãe portava, para facilitar o apontamento do nome filho.Em outra situação, uma recém-nascida, ainda sem registro oficial de nascimento, foi apresentada com o esquisito nome de Avecê. Ao ser indagada quanto à origem ou à razão dessa escolha, a mãe anunciou que a sogra dela fora hospitalizada por AVC e ela achara que essas letras formavam um nome bonito, bem sonoro. Quando foi criticada pela médica por tal decisão, a mãe contra-argumentou que as pessoas endinheiradas batizam filhas com o nome A-I-D (Haidê) e ela só porque era pobre não poderia chamar a filha de A-V-C.

sábado, 7 de março de 2009

HIV + É BOM

Houve um caso pitoresco de uma técnica de enfermagem do HIAS que, ao cuidar de um recém-nascido, feriu-se no dedo com a agulha da injeção. As medidas de biossegurança impõem a checagem contra HIV/aids, desencadeando ações de vigilância epidemiológica. Quando a mãe da criança foi investigada e inquirida sobre exame de detecção do HIV, durante o pré-natal, a mesma, sorridente, respondeu, com entusiasmo, que fora positivo, erguendo o polegar direito, ratificando o achado, trazendo sobeja preocupação aos médicos da SESMT. Na seqüência, insistiram quanto ao tratamento recomendado ou aplicado, o que deixou a mãe bastante confusa, por não compreender a necessidade de tratar uma doença que não existia. Na verdade, para ela, positivo significava algo bom, pois não havia enfermidade.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A MORTE DO DONO

O Ambulatório Geral de Pediatria do HIAS, naquela manhã de segunda-feira, estava lotado de pacientes, que, em parte, se acumulavam pelos corredores, em função da coincidência de datas com a realização de um grande congresso nacional de Pediatria em Fortaleza, motivando a liberação do trabalho, de dois dos pediatras escalados para o atendimento.
Em vista disso, os três colegas, a postos no serviço, desdobravam-se para dar conta dos pacientes agendados daquela manhã, uma vez que muitas mães rechaçaram qualquer tentativa de remanejamento de consultas para outra data próxima.
Dra. Fátima Gurgel, ciente e antevendo o problema, chegara até um pouco mais cedo ao Ambulatório, para iniciar os atendimentos. Por volta das 10h30, ela já estava na vigésima consulta, quando a Joaninha, a atendente dos consultórios, veio alertá-la de que Dona Gislena, a mãe da próxima criança a ser atendida, estava muito revoltada e fizera um escarcéu na sala de espera, com ameaça de denunciar o HIAS, no programa radiofônico do Paulo Oliveira.
Logo que a mãe e o menino ingressam no consultório, a Dra. Fátima Gurgel dirige-se à mãe nos seguintes termos:
– Bom dia, D. Gislena! Está tudo bem com a senhora e o seu filho?
– Bom dia, coisa alguma, doutora. – repeliu asperamente D. Gislena.
– Estou penando aqui desde sete horas e perdi o meu dia de faxina. Quem é que vai pagar o meu prejuízo? Um dia perdido de serviço, é dinheiro que vai fazer falta pras compras lá de casa.
– Lamento, senhora. Mas minhas duas colegas estão liberadas, nesta semana, para participar de um congresso. Essa é uma atividade importante para que os médicos fiquem mais atualizados e possam prestar um melhor atendimento aos nossos pacientes.
– Isso é lorota! Elas devem estar é zanzando por aí, passeando ou fazendo compras nas boutiques das madames. Foi só o dono daqui morrer, ganhar um paletó de madeira, que esse hospital degringolou e essas médicas se aproveitaram da situação pra fazer corpo mole.
– E quem era o dono desse hospital, D. Gislena?
– Era esse tal de “Alberto Seibe”, o que “bateu a cachuleta” na semana passada, o dono deste troço aqui – completou D. Gislena.Dra. Fátima Gurgel percebeu, então, que o diálogo com a interlocutora materna não deveria prosperar e concentrou a sua atenção nas necessidades mais visíveis e imediatas da criança.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

SÓ A CABEÇA... SEM CRIANÇA

Em uma manhã de sábado, o cirurgião pediátrico do HIAS, Dr. Augusto Taveira, fazia a visita de enfermaria, acompanhado de médicos residentes e internos, oportunidade em que discutia com o grupo a conduta a ser adotada em um garoto portador de uma endocrinopatia rara.
Coube a R3 de Pediatria fazer a descrição do caso clínico, cujo destaque principal estava na irregularidade dos níveis glicêmicos da criança, com predominância de marcada hipoglicemia.
Após longa discussão sobre o diagnóstico diferencial, englobando as endocrinopatias da infância, o Dr. Taveira deu o seu veredicto:
– Trata-se, evidentemente, – meus caros alunos – de um raro caso de insulinoma.
– O que vem a ser isso? – indagou um interno recém-admitido no Serviço de Pediatria.
– É um tumor das células beta das ilhotas de Langerhans.
– Onde fica isso, professor? É no Atlântico? – provocou o estudante, denunciando a sua formação capenga, ao tempo em que quis bancar o engraçadinho.
O cirurgião pediátrico quedou-se, a princípio, estupefato com a estupidez do interlocutor metido a engraçadinho; porém, contendo a sua indignação diante da dúvida de assunto ensinado em Biologia do curso colegial, rogou a que outro interno esclarecesse ao colega:
– Por favor, expliquem ao colega com hipossuficiência de conhecimentos! –tripudiou o preceptor.
– É no pâncreas – respondeu uma interna muito solicitamente.
– Qual é a função dessas células alfa? – insistiu o aluno ignorante.
– Você está confundindo as coisas. Acho que tudo parece “grego” para você: não é alfa, e sim, beta – explicou a R3.
O Dr. Augusto Taveira decidiu pôr um fim naquele diálogo, antes que descambasse para um estranhamento entre os seus comandados, pontuando:
– Esse tumor causa um hiperfuncionamento das células beta, produtoras de insulina, cujo excesso na corrente sangüínea leva ao quadro de crises hipoglicêmicas dessa criança.
– E o que se deve fazer para resolver o problema – perguntou a R1.
– A melhor conduta é cirúrgica e consiste em amputar parte da estrutura anatômica do pâncreas.
– E como é essa operação, Dr Taveira? – inquiriu a R3.
– Bem eu vou cortar ao nível do corpo e deixarei só a cabeça. Isso vai reduzir, temporariamente, as crises de hipoglicemia, aumentando, assim, a sobrevivência do paciente e concedendo-lhe melhor qualidade de vida.
Terminada a discussão clínica, o Dr. Augusto e a sua equipe dirigiram-se à enfermaria vizinha, para avaliação de outros pacientes.
Enquanto isso, naquela enfermaria permanecera apenas a médica plantonista, a Dra. Fátima Araújo, cuidando das prescrições das crianças ali internadas. Foi quando teve o seu trabalho interrompido pelo choro incontido da mãe da criança que acompanhara atentamente as explanações sobre a doença do filho e o tratamento a ser aplicado.
– O que houve, mãe? Por que você está chorando?
– Eu quero o meu filho é inteiro! – exclamou a zelosa mãe.
– Como assim? O seu menino não será partido!
– Mas aquele doutor disse que ia cortar o corpo e deixar só a cabeça. Mesmo que ele não morra, eu não quero ficar só com a cabeça dele.
Foi com extrema dificuldade que a Dra. Fátima Araújo desfez o mal-entendido, explicando os detalhes do procedimento cirúrgico a ser praticado, acalmando, assim, a inquietação materna.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

CRIANÇA SEM FÍGADO

A Dra. Francisca do Carmo, preceptora da Residência Médica do HIAS, conduzia a visita de enfermaria para discussão de casos clínicos, com os residentes e internos do hospital.
Diante de uma criança, com suspeita de ser acometida de calazar, em fase inicial da doença, pairava a dúvida quanto à presença ou não de fígado palpável ao exame físico.
Por primeiro, os internos examinaram o abdome da criança, começando pelo acadêmico responsável direto pelo cuidado daquele menino, a quem coube resumir a anamnese do caso:
– Eu já examinei minuciosamente esse garoto e percebi que ele tem fígado palpável a dois dedos transversos abaixo do rebordo costal direito (RCD), o que reforça o diagnóstico inicial de calazar.
Outros três estudantes, sob a supervisão docente, repetiram o mesmo exame e externaram as suas opiniões:
– Eu detectei fígado palpável a dois centímetros do RCD – disse um, confirmando o achado do primeiro colega.
– Não constatei nada palpável na região do hipocôndrio direito – afirmou outro, discordando do resultado dos dois primeiros examinadores.
– Não verifiquei nada que pudesse falar a favor de hepatomegalia – anunciou o último deles, ratificando o achado do seu colega antecedente.
A Dra. Francisca do Carmo pediu, então, a Dra. Cláudia Abreu, médica-residente R1 daquela unidade e responsável pelo leito, para que detalhasse os resultados do exame físico contidos no prontuário do paciente.
Depois do esmiuçado relato, a Dra. Francisca do Carmo perguntou, de chofre, a Dra. Cláudia:
– Na sua opinião, como é que é: essa criança tem ou não fígado palpável?
– Na minha avaliação, eu acho que tem – respondeu a Dra. Cláudia Abreu.
– Não vale “eu acho”: quero uma resposta precisa, em definitivo – exigiu a médica preceptora.
– Eu estou convencida de que possui – concluiu a R1.
Como a Dra. Francisca do Carmo pressentira um certo vacilo ou a pouca convicção da R1, considerou oportuno requerer que as duas outras médicas, a R2 e a R3, mais experientes, também examinassem o menino e emitissem o diagnóstico clínico.
Ambas, após meticuloso exame, chegaram a uma conclusão diferente da apontada pela R1: não havia fígado!
A palavra final competiu à médica preceptora, que, depois de exame performático, dado o caráter didático da visita de enfermaria, pontificou:
– Em definitivo, meus caros residentes e internos, esse garoto não tem fígado!
Ditas essas palavras de modo tão imperativo, ecoou na enfermaria o soluço da aflita mãe do garoto, que a tudo assistia, com o natural desvelo materno:
– O meu filho vai morrer! Tadinho dele! Tão novo – balbuciava enquanto as lágrimas vertiam de sua face.
– Quem foi que falou aqui que ele ia morrer, mãe? – o seu filho vai ficar bom e a senhora vai levá-lo para casa brevemente – explanou a Dra. Francisca do Carmo.
– Mas como é que ele vai ficar bom se a senhora mesma disse que não tinha fígado.
Só a custa de muitas explicações a mãe foi convencida de que tudo não passara de um mal entendido.

domingo, 25 de janeiro de 2009

MÉDICAS VELHINHAS

Como o HIAS, por muitos anos, não recebeu médicos concursados, o seu corpo clínico foi amadurecendo, em experiência e na idade, de sorte que até hoje são muitos os seus profissionais, com mais de vinte anos de casa.
A Dra. Hilda Frota, conhecida médica de enfermaria desse hospital, foi substituir uma colega de licença no Ambulatório Geral do HIAS, e surpreendeu-se com o grande movimento de clientes, em contraste com o que sucede nas unidades de saúde da periferia de Fortaleza.
Ao acolher mais um paciente agendado para aquela manhã, sendo o terceiro da mesma procedência e sem guia de encaminhamento, a pediatra indagou da mãe do menino:
– Sua comunidade tem muitas crianças, não?
– Tem e bastante – respondeu a mulher.
– E elas adoecem tanto? Não tem pediatra no posto de lá? – perguntou a Dra. Hilda.
– Elas bem que adoecem! Tem uma médica de criança, sim.
– Por que não vão ao posto de lá? – quis saber a médica.
– Mas as mães preferem trazer elas aqui para o Sabin – explicou a mulher.
– Mas por que elas fazem isso, já que o HIAS é tão distante de sua comunidade? – inquiriu a Dra. Hilda.
– É por causa das doutoras daqui! – justificou a mulher.
– E o que têm de especial as médicas do HIAS? – questionou a pediatra.
– Ah, as doutoras do Sabin são “velhinhas”, mas são muito boas; “arresolve” tudo.
É lógico que a notícia causou um certo rebuliço no hospital, porquanto mexeu com os brios etários femininos visto que só Balzac explica, mesmo que o Honoré, em questão, tenha fincado pé apenas na casa dos trinta, o que fica longe do “reality show” do Sabin.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

MÉDICAS VELHAS

Houve um entrevero entre a Dra Luiza Almeida e a mãe de uma criança que cobrava a prescrição de um antibiótico para sua filha, o qual ela queria, a todo custo, pegar na farmácia do hospital. A médica justificou a não indicação da antibioticoterapia, nesses termos:
– D. Zenaide, a sua garota tem só um resfriado comum. Basta oferecer sucos de limão e de laranja, à vontade, e cuidar para que repouse nesses dias, não fazendo extravagâncias. Vou prescrever vitamina C, para a senhora receber na nossa farmácia, que vai servir para melhorar as defesas dela.
– Mas eu quero os antibióticos. É mais garantido: a minha “bichinha” pode estar com uma “pineumonia encubada” – insistiu a mãe da Raquelle.
– Sua filha não tem pneumonia. Ela está apenas resfriada, com um vírus, e os antibióticos não fazem efeito nos vírus – ponderou a pediatra.
– Sua chata! Acho que você é muita “da incompetente”. As doutoras lá do posto de saúde, perto de minha casa, passam logo o antibiótico e despacham a gente. Só não fui lá porque tá faltando antibióticos na farmácia pra distribuição pro povo.
– Senhora, trate-me com respeito, por favor. Tenho Residência em Pediatria e trabalho como médica de crianças há mais de vinte e cinco anos.
– Se não é por incompetência, deve de ser porque você quer economizar os remédios, pra ficar de bem com a diretora dessa joça, sua rapariga – disse a mulher, elevando o tom da voz e baixando, ainda mais, o teor do diálogo.
– A senhora está sendo muito grosseira! – e acrescentou – eu não sou paga para agüentar abuso de pacientes, não!
– Enganou-se “queridinha”! Você é paga com o meu imposto e taí pra cuidar do povão, “sua velha” – retorquiu D. Zenaide.
Nesse instante, a Dra Luiza Almeida, ferida no seu ponto fraco, perdeu as estribeiras e partiu para a jugular de sua desafeta:
– Engoli a seco todas as suas ofensas, chamando-me de chata, incompetente e rapariga; mas, me chamar de velha, eu não agüento. Suporto tudo, menos ser tachada de velha.
O arranca-rabo entre as duas só terminou quando os seguranças do hospital apartaram as contendoras.
 

Free Blog Counter
Poker Blog